Neoliberais e cheganos, a mesma luta

…o programa socioeconómico da Iniciativa Liberal […] É uma versão intelectualmente aprimorada do programa do Chega. Afinal de contas, estes dois partidos são herdeiros da radicalização neoliberal que ocorreu com o governo da Troika, liderado por Pedro Passos Coelho: das privatizações ao aumento dos poderes patronais, correlativo da diminuição dos direitos laborais, passando pela erosão de serviços públicos estruturalmente subfinanciados. Ambos insistem na subsidiação do capitalismo no campo da educação ou da saúde, à boleia da retórica da «liberdade de escolha», desestruturando os serviços públicos e corroendo a autonomia e o carácter dos seus profissionais, ainda não submetidos à lógica do lucro. E ambos insistem na redução acentuada da progressividade de um sistema fiscal, por sua vez já corroído pela fuga das grandes empresas e dos mais ricos aos impostos, indissociável da liberdade internacional de circulação dos capitais. Esta tem sido promovida por uma integração europeia que ambos os partidos defendem nos seus dois principais pilares, o do mercado único e o da moeda única, ou seja, da política demasiado única e estruturalmente enviesada para as direitas. O cosmopolitismo de pendor federalista da IL, culturalmente partilhado por demasiados intelectuais de esquerda, por oposição ao nacionalismo etno-racial do Chega, esconde mal um alinhamento profundo das direitas, das novas e das velhas, com a continuação da política da Troika. A soberania popular e democrática, de base nacional, materialmente assente num maior controlo democrático da economia, é o grande inimigo comum.

João Rodrigues desmonta a narrativa neoliberal e a apropriação indevida que ela faz do conceito de liberdade, focando-se na liberdade de explorar e oprimir e na subordinação dos indivíduos ao funcionamento dos mercados. E reduzindo o “Estado forte” ao duplo papel de perpetuar a desigualdade e a injustiça social e de promotor e financiador de negócios privados.

No Portugal democrático, a onda das políticas neoliberais iniciou-se relativamente cedo, com as privatizações, que serviram de base à reconstituição dos grandes grupos económicos e ao aumento da dependência externa do país, com a entrada de investidores estrangeiros. A par de alguns investimentos no tecido produtivo, o que mais se acentuou foi a velha tradição do capitalismo rentista, avesso ao risco e viciado no lucro fácil e nos negócios feitos à sombra do Estado. Nada é mais falso do que os bramidos dos ditos liberais contra o “socialismo”: foram políticas neoliberais que nos trouxeram ao ponto em que estamos, numa tendência comum a governos mais à esquerda ou à direita: privatizações, desregulação e precarização do trabalho, dependência externa, perda da soberania financeira com a adesão ao euro. Uma política que atingiu o auge durante o governo de Passos Coelho, que à boleia da troika mas indo até além das suas exigências, impôs o mais duro programa de austeridade, empobrecimento e emagrecimento das funções económicas e sociais do Estado.

O sucesso dos primeiros quatro anos de geringonça deveram-se em larga medida à reversão parcial das políticas austeritárias. Mas a mudança de rumo deixou frustrados os órfãos do passismo, que deixaram de se identificar com um PSD agora menos radicalizado em torno de políticas neoliberais. E é assim que encontramos, sem grande surpresa, muitos antigos militantes do partido a animar tanto o protofascismo chegano como a salfífica Iniciativa Liberal. Duas faces, afinal, da mesma moeda: um projecto político assente no individualismo, na perpetuação e agravamento das desigualdades, entendidas como a ordem natural das coisas, e na captura do Estado, colocado ao serviço de interesses privados.

O discurso aparentemente mais sofisticado dos autoproclamados liberais esconde mal a crueza das ideias. O verniz neoliberal estala facilmente à menor das objecções ou provocações, o que se observa com muita facilidade nas redes sociais. Mas a retórica simplista e aparentemente sedutora parece estar a colher bem entre aquele eleitorado jovem com mais ambição individual do que consciência social. Já o discurso chegano, mais populista e ainda menos escrupuloso na exploração do racismo e da inveja social, é claramente dirigido a uma clientela intelectualmente menos sofisticada, mas certamente mais numerosa quando saímos do ambiente das elites urbanas e olhamos para o país real que andámos a construir nas últimas décadas.

Afinal de contas, como já alguém disse, o Chega não é mais do que o plano B dos neoliberais…

2 thoughts on “Neoliberais e cheganos, a mesma luta

  1. E o que entristece é ver jovens a apoiar estas ideias como grande novidade. Pensam eles que se sentarão à mesa do banquete desta vida? Haverá um ou outro lugar vago, como sempre e a bem da sobrevivência do regime. Os outros lugares já estão ocupados, têm nomes sonantes e manterâo a linhagem .

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