Andreas Schleicher escreveu um livro

primera-clase.jpgO director da OCDE favorito do governo português, precisamente o que se ocupa dos assuntos da Educação e que é visita regular e inspiradora no nosso país, esteve desta vez em Espanha no lançamento do seu novo livro.

Patrocinado pela OCDE e pela Fundação Santillana, o livro está disponível online no site da organização e é certamente leitura recomendável para as noites de insónia.

Por agora, bastam algumas citações da entrevista promocional que Schleicher concedeu ao El Mundo para perceber que o discurso continua a ser o do demagogo bem-falante que já conhecemos por cá. E que a educação dita do século XXI não passa de um conjunto de modas e ideias completamente submetidas à lógica e aos interesses de uma agenda educativa que as multinacionais, as fundações e os países mais poderosos querem impor à escala global.

Basta substituir Espanha e espanhol por Portugal e português, para se perceber que o diagnóstico e a receita são os mesmos em todo o lado: a memorização, a escola “industrial” do século XIX, os professores que precisam de “apoio”, as turmas que não precisam de ser mais pequenas, as retenções que custam dinheiro…

Os alunos memorizam mas não aprendem.
Os alunos espanhóis são bons a reproduzir os conteúdos das disciplinas. Mas são menos bons a aplicar o seu conhecimento de forma criativa e a ter uma ideia conceptual e profunda do que aprendem. A aprendizagem centra-se na memorização, faltam estratégias de pensamento complexo.

Aprender mais com menos currículo.
Em Espanha talvez se pudessem reduzir os conteúdos do currículo, que é quilométrico mas pouco profundo. É importante ensinar aos alunos para além das disciplinas académicas e isso significa que os professores de diferentes disciplinas têm que aprender a colaborar mais entre eles.

Leis, escolas, fábricas: tudo do século XIX…
Não creio que as diferentes leis educativas tenham tido um impacto real no que acontece nas aulas. As leis em Espanha são como os regulamentos de uma grande fábrica: alguém no Governo diz como deveriam funcionar as escolas e de imediato os professores implementam essas práticas e os alunos estão nas aulas para consumir essas lições. É quase como uma versão do século XIX da educação.

Os professores ganham bem e trabalham pouco.
Os docentes espanhóis são bem pagos, mas o seu trabalho não é atractivo de um ponto de vista intelectual porque é como o trabalho de uma fábrica. Têm pouco tempo para atender os alunos de forma individual fora das aulas como sucede no Japão, não observam as práticas de outros colegas, nem trabalham de forma colaborativa. Deveríamos pensar em tornar o seu trabalho mais atractivo, criando mais oportunidades para que possam trabalhar em equipa, estabelecendo a figura do mentor e melhorando as suas práticas. Não se trata de pôr mais dinheiro, mas de criar um sistema mais aberto, que os apoie mais.

O tamanho das turmas não interessa.
Quando temos que decidir entre ter uma turma mais pequena ou um melhor professor, devemos centrar-nos em melhorar a qualidade dos professores. Se não mudarmos as práticas docentes, ter uma turma mais pequena não vai servir de nada.

Cada aluno repetente custa 20 mil euros.
Cada repetente em Espanha custa 20.000 euros. O fracasso não ocorre quando os estudantes abandonam, mas muito antes. Com apoio pessoal prévio podemos travar as repetições.

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A demagogia dos aumentos dos professores

moneyO Orçamento do Estado (OE) para 2019 deverá contemplar as verbas necessárias para continuar a descongelar as progressões na carreira da generalidade dos funcionários públicos, incluindo as dos professores. A medida implica um reforço orçamental de 487 milhões de euros (face a 2018) e 25,6% deste montante destina-se aos docentes.

Um exercício de demagogia no qual diversos órgãos de comunicação vão colaborando alegremente: 25% da verba que a equipa do dr. Centeno esforçadamente consegue reunir para pagar o descongelamento das carreiras são logo abocanhados pelos malandros dos professores!

Mas isto nada tem de extraordinário. Seria era de espantar se assim não fosse.

Não é fácil encontrar números sobre a distribuição da massa salarial por cada grupo profissional da administração pública. Mas sabendo-se que os professores são a classe mais numerosa – cerca de um quinto da totalidade dos funcionários públicos – e que os vencimentos se encontram acima da média das restantes carreiras (embora abaixo de juízes, médicos ou oficiais das Forças Armadas), então o facto de receberem 25% dos aumentos será uma consequência directa de os seus salários representarem cerca de um quarto das despesas do Estado com pessoal.

Melhor andaria a comunicação social especializada nestas matérias se nos fosse informando de quanto continuamos a gastar com os buracos e as fraudes financeiras nos bancos e empresas do regime. Quanto nos vão levar as rendas da energia ou as ruinosas parcerias rodoviárias e as do sector da saúde. Quanto nos falta ainda pagar de juros e amortizações das dívidas contraídas por sucessivos (des)governos.

A despesa com os professores fica no país e traduz-se no trabalho esforçado de mais de uma centena de milhar de profissionais que diariamente dão o seu melhor nas escolas portuguesas. Já dos milhares de milhões que desaparecem sem deixar rasto, agravando o endividamento e a pobreza, desses é que não temos mais notícia…

Aprender em casa

ensino-domestico.jpgA escola que temos e aquela que queremos: eis um tema que, sobretudo nesta altura do ano, está quase sempre presente no debate público. E as queixas contra uma escola aborrecida, rotineira, desfasada no tempo, vão subindo de tom.

Mas a contestação manifesta-se com frequência em registos contraditórios. Há quem diga que os alunos aprendem pouco, e as médias baixas de resultados dos exames nacionais do secundário parecem demonstrá-lo. Mas também há quem defenda o contrário, que a escola debita programas demasiado extensos, atafulhando os cérebros dos alunos com conhecimentos que, quase todos, lhes serão inúteis.

A reforma curricular em curso reforça aquilo a que se vem chamando “educação para a cidadania”, enfatizando um conjunto de competências sociais e emocionais que nos garantem ser absolutamente vitais no futuro. Quando tantas famílias abdicam de transmitir regras de convivência, atitudes e valores necessários à vida em sociedade, é difícil não exigir à escola que tenha, cada vez mais, uma intervenção nessa área. Mas esta opção é criticada pelos pais que não prescindem da responsabilidade de educar os próprios filhos e não querem ver a escola a intrometer-se nas competências da família.

No centro da polémica estão, naturalmente, os professores. Pelo que fazem ou deixam de fazer, por não seguirem desde o primeiro momento todas as modas educativas nem correrem desalmadamente atrás de toda e qualquer novidade pedagógica. Por não terem a formação adequada ou, pelo contrário, por estarem demasiado formatados por pedagogias desactualizadas. Por não estarem disponíveis 25 horas por dia para atender as solicitações dos pais, dos directores ou das autoridades educativas. E ainda, e esse parece ser o seu maior pecado, por terem nascido no século XX: estão passados da validade, as crianças e jovens que andam hoje nas escolas são cidadãos digitais nascidos já no século XXI…

Neste vai e vem de críticas e acusações, surgidas de todo o lado – governantes e académicos, empresas e fundações, encarregados de educação e autarcas – há contudo quem não se limite ao papel de treinador de bancada. Ao contrário daqueles que exigem a Lua mas esperam que sejam outros a alcançá-la, há pais e mães que resolveram ser coerentes com a ideia de educação que querem para os filhos. E que, perante uma escola que não corresponde às suas expectativas, optaram por se organizar de forma a proporcionar aos filhos uma educação alternativa no ambiente familiar.

Pense-se o que se pensar da opção destes pais pelo ensino doméstico, numa altura em que o debate educativo parece dominado por oportunistas e demagogos, há algo que deve ser desde logo reconhecido em relação a estes pais que se sacrificam pelo que acreditam ser o melhor para os filhos: merecem respeito!

Evan andou na creche por pouco tempo quando tinha 3 anos. “Ele ficava triste e muitas vezes choramingava. Eu ficava com o coração apertado”, lembra a mãe, Anastasia. Não precisou de muito mais para tomar a decisão de ficar em casa com os filhos e ser responsável pelo seu ensino. “No início os dias pareciam enormes, não sabia o que fazer com eles e achava que tinha de estar sempre a fazer alguma coisa. Mas isso não é verdade. Não temos de estar sempre a fazer coisas e não temos de fazer tudo com eles. Temos de deixá-los explorar a imaginação. E depois eles crescem e tornam-se cada vez mais autónomos.”

Cinco anos depois, Anastasia e Pedro não poderiam estar mais felizes e convictos de que tomaram a decisão certa. O filho do meio, Tristan, tem 5 anos e já leu todos os livros de Harry Potter. Aprendeu a ler sozinho quando ainda não tinha 3 anos, mas a sua verdadeira paixão é a matemática. Evan e Tristan não sabem o que são metas curriculares e nunca fizeram um teste mas sabem fazer pão, falam e leem em português (a língua do pai), russo (a língua da mãe) e inglês, jogam xadrez melhor do que muitos adultos. O irmão mais pequeno, Artur, tem 2 anos e para já parece mais interessado em brincar e pintar.

“O mais importante é que aprendam a pensar”, diz Pedro, que é gestor e é o único na casa que tem horários a cumprir. “Queria que eles não perdessem a curiosidade”, acrescenta Anastasia. “Todas as crianças são curiosas, é uma coisa natural. Nós não temos de fazer nada. É só estar com eles e responder quando nos fazem perguntas. E se não sabemos, procuramos. E ensinamo-los a procurar as respostas.” A palavra ensinar não se aplica aqui. As aprendizagens são feitas à medida dos interesses e das curiosidades de cada um. Com muitos livros (mas não manuais escolares), viagens, brincadeiras, conversas e experiências – essa é a base de tudo. Depois ainda há as atividades “geralmente chamadas extracurriculares”, como a música, as artes marciais, os escuteiros. “E dois dias por semana temos encontros com outras famílias do ensino doméstico. O nosso recorde é oito horas a brincar no parque!”

Sobre o Prós e Prós dedicado à Educação

pros.JPGSeguindo a mesma linha de sempre – a construção de falsos consensos destinados a legitimar as políticas e os interesses que se impõem nas diversas áreas da economia e da sociedade – o programa de ontem lá tentou reinventar a santa aliança entre governo, empresários e famílias rumo à Educação do século XXI.

Do conjunto de participantes, destaco a intervenção irrepreensível de Paulo Guinote, que era, bem vistas as coisas, o único que verdadeiramente sabia do que estava a falar.

Pois é muito fácil, olhando a escola a partir de fora, elaborar teorias acerca dos seus malefícios actuais e do que deveria ser. É fácil dar largas à imaginação, sabendo que não se irá ser confrontado, no terreno, com a concretização dos miríficos projectos.

Contudo, se invertermos a lógica da coisa, à maneira das flipped classrooms agora na moda, e exercitarmos nós, professores, a observação clínica destes pedagogos instantâneos, também conseguiremos perceber, com relativa facilidade, ao que é que eles andam.

A educação é uma potencial área de negócio e as oportunidades no sector surgem essencialmente de duas formas. Uma, relativamente benigna, convencendo os decisores a comprar determinados zingarelhos indispensáveis à educação do futuro. A outra, verdadeiramente maligna, degradando a qualidade da escola pública até que esta chegue a um nível tão baixo que crie por si só o mercado para os projectos educativos diferenciados que actualmente não se conseguem impor.

Pelo meio disto tudo, há uma ideia perigosa que vai fazendo o seu caminho: a ilusão de que as aprendizagens devem ser fáceis e divertidas, que as crianças não precisam de se esforçar para serem boas naquilo que fazem, não devem ser contrariadas e só precisam de estudar aquilo de que gostam. O embate com a realidade vai ser terrível – já está a ser – para muitos jovens criados nesta redoma de facilitismos e proteccionismos.

Uma palavra ainda para os senhores directores que marcaram ontem presença e que comprovaram uma vez mais que é mais fácil estar do lado dos decisores, a impor toda e qualquer reorganização curricular, do que do lado dos professores que a terão de executar. O entusiasmo com que defendem os projectos não os leva a largar os gabinetes da direcção para serem seus executores no terreno.

Finalmente, o secretário de Estado: confirmou a ideia que tinha dele, um demagogo hábil e insinuante. O que, tendo em conta as ideias que defende e a gente de que se rodeia, não augura nada de bom para os próximos tempos. A João Costa têm sido apontadas nos últimos tempos as estreitas ligações à OCDE. Pois bem, talvez a ambicionada carreira internacional nessa organização nos libertasse dos excessos de flexibilidade que ameaçam pôr de rastos a martirizada Educação portuguesa.

O Governo e os professores segundo RAP

Para terminar com boa disposição o último domingo antes do início das aulas a sério.

As picardias verbais entre António Costa e Mário Nogueira, o resumo manipulatório do relatório da OCDE e os professores portugueses que, supostamente, vivem como nababos. O comentário de Ricardo Araújo Pereira e os apartes dos seus parceiros do Governo Sombra. Tudo condensado em três minutos bem humorados.

Boa semana!

As baixas “fraudulentas”

Entre março e agosto do ano passado, mais de metade das seis mil baixas por doença atribuídas no sector da Educação que foram “monitorizadas” por uma junta médica revelaram-se fraudulentas, revela um relatório da Comissão Europeia sobre o absentismo no sector público publicado ontem. A notícia é avançada pelo “Jornal de Negócios” esta quarta-feira.

A notícia, construída a partir do excerto de um relatório técnico da Comissão Europeia, destina-se obviamente a condicionar o debate sobre a carreira dos professores e a reivindicação fundamental que é a recuperação integral, ainda que faseada, do tempo de serviço. Como quem diz: “seus malandros, andam a enganar-nos com doenças falsas e ainda querem mais dinheiro?…”

É aliás o intuito manipulatório que explica a forma como o tema é introduzido na discussão pública: não deveriam os organismos responsáveis divulgar, de forma séria e contextualizada, as estatísticas relativas a baixas por doença prolongada, juntas médicas e aposentações por invalidez? Não deveriam as fiscalizações das baixas médicas ser feitas de forma regular e rotineira, funcionando como elemento dissuasor de eventuais fraudes, em vez de serem usadas como arma política? Temos de saber destas coisas através de informação truncada, proveniente dos burocratas de Bruxelas?

Outro aspecto da questão é a terminologia usada: atirar com uns números imprecisos para o ar e fazer juízos de valor em torno de baixas médicas “fraudulentas” não é a melhor forma de entender e contextualizar o que está aqui em causa. Como explica o próprio bastonário da Ordem dos Médicos:

“Não há baixas fraudulentas. Quando um médico passa um atestado ou uma baixa a um doente é porque acha que ele está doente”, diz à TSF Miguel Guimarães.

O facto de estes funcionários voltarem agora ao trabalho não significa que a sua baixa tivesse sido passada indevidamente, ressalva Miguel Guimarães.

“Uma coisa é dizer que o doente já não precisa de baixa, que a pessoa que foi visitado pela junta [médica] naquele momento já não precisa de baixa e pode ir trabalhar, outra coisa é dizer que existem baixas fraudulentas.”

“Não sabemos se as baixas são de curta ou longa duração, que tipo de baixas estamos a falar, se estamos a falar de doenças objetiváveis através de exames, como doenças oncológicas, por exemplo, ou de depressões.”

A estas afirmações deve acrescentar-se o que poucas vezes se reconhece publicamente, mas que todos sabemos que continua a suceder: há juntas médicas constituídas com fins políticos e economicistas e com objectivos claros a cumprir, de forma a forçar o regresso ao trabalho de determinada percentagem de trabalhadores doentes.

Todos sabemos de casos, seja pelo conhecimento pessoal, seja pela divulgação através da comunicação social, de pessoas efectivamente doentes, alguns com doenças graves e incapacitantes, que são obrigadas, pelos médicos da junta, a apresentar-se ao trabalho. E não querendo duvidar da competência profissional dos doutores, só poderemos admitir que nem sempre olham, com olhos de ver, para o doente que têm à frente.

Desconheço que benefícios poderão alcançar, ou esperarão vir a ter, os médicos que aceitam trabalhar desta forma. Sei que não honram a sua profissão, prestando um péssimo serviço, não só à pessoa fragilizada que têm à sua mercê, mas também, no caso dos professores, aos seus alunos, e à própria sociedade, que nada tem a ganhar com esta autêntica desumanidade.

Uma realidade que já era, há uns bons anos atrás, pretexto para uma das mais inspiradas rábulas dos Gato Fedorento. Numa sociedade cada vez mais doente e envelhecida, quando começaremos a olhar globalmente, com seriedade, para os problemas da doença, do emprego e da aposentação?

Quanto custou a greve às avaliações?

Eis um exercício de transparência que, enquanto tal, é inatacável: André Pestana, dirigente do STOP, divulgou publicamente, há alguns dias, o seu recibo de vencimento referente ao mês de Agosto. Com os descontos referentes à greve às avaliações a incidirem sobre um vencimento já de si minguado, o nosso colega trouxe para casa, este mês, cerca de 200 euros.

recibo-greve.jpg

Claro que, em relação a esta realidade, factualmente irrefutável, algumas questões se podem colocar. Para começar, há quem não resista ao truque demagógico nem à tentação de atacar um dos seus eternos ódios de estimação:

Camarada Mário, Podes Mostrar o Teu?

Como é evidente, Mário Nogueira, tal como todos os outros líderes sindicais sem componente lectiva, não poderia nunca fazer uma greve que abrange apenas os membros dos conselhos de turma. Da mesma forma que, se o STOP tivesse já uma direcção plenamente constituída e não apenas uma comissão instaladora, André Pestana e os demais dirigentes do sindicato teriam também direito às dispensas legalmente previstas para as direcções sindicais.

A questão relevante não é, portanto, saber quem foi o rei dos descontos na greve às avaliações. Seria ridículo, e espero que não se caia nessa tentação, começar-se agora a publicar, quais medalhas de guerra, os recibos de vencimento com os respectivos descontos. Mais importante seria virmos a saber se estes “heróis”, a quem foram subtraídas dezenas, nalguns casos centenas de euros, foram devidamente ressarcidos através da solidariedade dos colegas.

Na verdade, a gestão inteligente do esforço de greve levou a que em muitas escolas ela tivesse sido feito feita preferencialmente por alguns professores – os que ganhavam menos, os que vinham de mais longe, os que tinham mais conselhos de turma em determinado dia – que depois foram compensados através do fundo de greve. Neste contexto, mais do que evidenciar protagonismos, o importante é destacar o esforço colectivo desse grupo mais vasto de professores que se uniu para viabilizar a greve. E que naturalmente inclui todos, e cada um, dos grevistas de serviço.