O que querem os alunos da escola?

ferias.jpgOs jovens consideram que é essencial para as suas aprendizagens “sentirem-se acolhidos na escola”. Dizem que os intervalos deveriam ser maiores e as aulas mais curtas.

O Ministério da Educação continua com o jogo, perigoso e demagógico, de perguntar aos alunos quais as mudanças que querem na escola para que esta fique do seu agrado. E não resiste à tentação de transformar numa espécie de programa educativo para o século XXI as respostas avulsas que vai obtendo dos alunos questionados.

Sem surpresa, estes respondem: aulas mais curtas e intervalos maiores, professores que tratem de igual para igual os alunos e proporcionem aulas divertidas e relaxadas. O “tá-se bem” deveria traduzir-se igualmente em menos peso dos testes na avaliação e mais valorização do trabalho nas aulas na nota final, na selecção das matérias a leccionar tendo em conta as preferências dos alunos e em mais actividades fora da sala de aula.

Para quem é professor nada disto é novo, e até se poderia louvar o interesse do ME em ouvir os alunos, se fosse para criarem, de seguida, respostas a algumas destas ideias. Mas o que vemos não é um ministério interessado em mudar as suas práticas burocráticas e economicistas, simplificar currículos, reduzir o número de alunos por turma, reabilitar escolas degradadas, investir em tecnologia educativa ou contratar mais professores. Em vez disso, a opinião dos alunos serve para pressionar os professores, tentando torná-los mais submissos às determinações ministeriais, e para fazer crer, aos alunos e à sociedade, que se a escola não muda isso se deve ao conservadorismo dos docentes.

Na verdade, o mais grave aqui nem é o discurso insidioso contra os professores da parte de quem os deveria ouvir, valorizar e apoiar na melhoria do trabalho pedagógico. O discurso do secretário de Estado João Costa e dos seus comissários políticos já está tão batido que todos os professores sensatos lhe saberão dar o devido desconto. Sobre estas ideias da escola divertida, onde se faz o que se quer, se presta atenção às aulas apenas se o professor for fixe, se aprende sem esforço e se rejeita o que dá trabalho, o mais preocupante é que elas prejudicam acima de tudo os estudantes com menos motivação, maiores dificuldades e menor apoio familiar.

Na realidade, há uma contradição insanável entre a sociedade elitista, perfeccionista e competitiva que andamos a construir, por um lado, e este facilitismo irresponsável com que alguns tentam seduzir os nossos alunos. Como se todas as coisas boas da vida se conseguissem sem mérito nem esforço. Como se a persistência ou a resiliência não devessem ser desenvolvidas. Como se fosse credível este modelo de educação e de vida que cada vez mais se quer transmitir aos príncipes e princesas deste país: que persigam os seus sonhos, pois podem ser o que quiserem, mas de preferência sem estudo, trabalho, talento ou ambição. Embalar os jovens com bonitas palavras, dizendo-lhes o que gostariam de ouvir, não é honesto nem decente: não passa de um lamentável exercício de demagogia.

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Sempre que os professores são elogiados…

20101207154026-autobus.gifCada vez que os professores são elogiados publicamente e, por pressão dos seus confrades internacionais, o governo reitera a necessidade de valorizar a profissão docente e o estatuto dos seus profissionais, logo o aparelho ministerial se agita. E alguém sopra cá para fora com uma notícia sensacionalista para  moderar o entusiasmo e tentar denegrir a imagem pública dos professores…

A Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) detetou escolas que promoviam viagens de finalistas e onde professores não só acompanhavam os alunos nessas excursões como assumiam funções de promotores turísticos. Os responsáveis e os docentes visados podem incorrer em sanções disciplinares, apurou o JN. Na sequência do relatório da IGEC, o Ministério proibiu expressamente todos os 811 agrupamentos escolares com ensino secundário de qualquer atividade de promoção ou organização de viagens.

Quem, onde, quando, como: as perguntas básicas do bom jornalismo ficam, obviamente, por responder. Não sabemos sequer se são mesmo professores os alegados promotores turísticos. Nem saberemos, quase de certeza, o resultado final destas averiguações. Mas também de nada interessa, pois o trabalho sujo de lançar a suspeição sobre a classe já foi feito, com a inestimável colaboração do JN.

Os alunos que estudam demais

exam-question[1]Estudam 15 horas por semana além do horário escolar, não valorizam outras atividades e revelam pouca criatividade, revela estudo.

As escolas portuguesas premeiam e trabalham para a excelência dos alunos, formando estudantes que “sabem reproduzir fórmulas mas com pouca criatividade e pouco raciocínio”. Esta é a principal conclusão de uma investigação, realizada nos últimos dois anos, em 490 escolas por investigadores da Universidade do Minho. São alunos que vivem para as notas, estudam mais de 15 horas por semana além do horário escolar e 40% têm explicações.

A notícia completa só está disponível para assinantes do JN. Pelo que, ficando-me apenas pelas letras gordas e o breve resumo que é apresentado, sobram-me algumas dúvidas sobre o conteúdo da notícia. E uma quase certeza: tem todo o ar de estudo encomendado, numa altura em que interessa “provar” que o ensino é demasiado traumatizante para os alunos, que estes são infelizes na escola, que decoram em vez de compreender, que memorizam e “despejam”, nos testes e exames, conhecimentos “inúteis”, em vez de desenvolverem a criatividade, o raciocínio, o espírito crítico e a autonomia.

Percebe-se bem, e já não é novidade, a linha de raciocínio. O problema é quando estas narrativas laboriosamente construídas não batem certo com a realidade.

Os alunos verdadeiramente “de topo”, por exemplo, não me parece que sigam, na maioria dos casos, o padrão do aluno “marrão” que se tenta apresentar. Aliás, o que caracteriza o bom aluno é justamente o facto de aprender depressa, aproveitar bem o tempo, a começar pelo tempo da aula, onde sabe que se estiver atento e compreender as matérias poupará muitas horas de estudo em casa. Sobra-lhe assim tempo para outras actividades, como praticar desporto ou conviver com os amigos.

O estudante que “reproduz fórmulas”, decora matérias ou recorre intensivamente a explicações é geralmente o aluno mediano que quer alcançar médias elevadas que lhe permitam entrar em Medicina ou noutro curso superior de média elevada.

O pensamento crítico, reflexivo e criativo, ao contrário da ideia em que tanto se insiste ultimamente, não nasce do nada: há uma base prévia de conhecimentos sólidos e estruturados a partir da qual ele deve ser construído. Ignorar isto é promover o achismo idiota e ignorante de quem lança “bitaites” sem ter noção do que está a dizer.

Quanto às quinze horas semanais de estudo, elas serão eventualmente excessivas, mas não tão graves como o tempo que é roubado às horas de sono para ser passado nos jogos e no entretenimento online ou nas redes sociais.

Contudo, a questão de fundo terá sempre a ver com aquilo que é ser estudante e as exigências que se deve fazer a quem tem no estudo a sua principal ocupação. O que me parece é que andamos a pressionar os jovens para serem estudantes durante cada vez mais tempo. E há alguns que pura e simplesmente não gostam de estudar, o que deveria ser respeitado. Ou que enveredam por uma via profissionalizante que, sendo igualmente digna e útil aos próprios e à sociedade, deveria ser mais valorizada. Por outro lado, aqueles que têm gosto e interesse nos estudos devem ser incentivados a darem o melhor de si mesmos. Ou não fossem eles, precisamente, estudantes.

Colaborações: ComRegras

A greve dos professores e educadores marcou, para o melhor e para o pior, a semana educativa.

No Topo: A luta dos professores ganha visibilidade

A greve de docentes que decorreu de 13 a 16 de Março não terá sido das mais participadas de sempre. Ainda assim, a opção por um modelo de greves regionais, permitindo estender a luta por quatro dias sem penalizar excessivamente quem a ela aderisse, teve uma importante vantagem: permitiu manter a luta dos professores na agenda mediática ao longo de toda a semana.

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No Fundo: Uma greve a meio gás

Não quis afirmá-lo no decurso da greve, mas agora há que dizê-lo sem rodeios nem hesitações: foram modestos os números de adesão a uma greve que, apesar de se estender por quatro dias, andou quase sempre a meio-gás. De norte a sul, e apesar de algumas centenas de escolas fechadas, quase todas do primeiro ciclo, o cenário mais vulgar foi o de uma quase normalidade na maioria das escolas, com a maior parte das aulas a funcionar.

A luta dos professores e os seis equívocos do ME

pinoquioSempre que se intensificam as lutas dos professores, há uma tentação irresistível para quase todos os governos: a de intoxicar a opinião pública com meias-verdades ou puras mentiras, tentando virar a opinião pública contra os professores, dividir e desmoralizar a classe e, dessa forma, levá-la à desmobilização geral.

Ao terceiro dia da greve, que ontem decorreu na Região Centro, a Fenprof assinalou aquilo a que chamou os seis equívocos com que o governo tenta enganar o país acerca das reivindicações dos professores. Uma linguagem, ainda assim, bastante diplomática. Eu chamar-lhes-ia antes, com todas as letras, as seis mentiras do governo.

– A proposta do ME (de eliminar 70% do tempo cumprido pelos professores durante o período de congelamento, apenas considerando 2 anos, 9 meses e 18 dias) assegura a equidade entre as diversas carreiras da Administração Pública.

É falso! A todos foram “congelados” 9 anos, 4 meses e 2 dias; à generalidade dos trabalhadores o tempo foi recuperado na totalidade; aos professores o Governo pretende eliminar 70% daquele tempo. Ou seja, o que temos é desigualdade de tratamento e discriminação! A lógica de apenas recuperar 0,7 do módulo-padrão da carreira aceitar-se-ia se tivesse sido essa a lógica do congelamento, mas não foi. Com o congelamento, os professores perderam mais de 2 módulos-padrão e não apenas 0,7%. 

– As organizações sindicais não evidenciaram nenhum esforço de aproximação à posição do governo e até apresentaram um quadro de recuperação que chegava a ultrapassar os 14 anos. 

Não é verdade! O compromisso assumido pelo Governo em novembro e a recomendação que a Assembleia da República, com o voto do partido do Governo, aprovou foram a de contagem de todo o tempo para efeitos de carreira. Ora, os professores estão a perder até 14 anos, devido ao congelamento e a perdas verificadas nas transições de carreira em 2007 e 2009, pelo que foi essa a proposta apresentada pela FENPROF. Porém, no sentido de aproximar posições, em sede negocial, a FENPROF informou o Governo da sua disponibilidade para refazer a proposta limitando-a ao tempo congelado, ou seja, a 9 anos, 4 meses e 2 dias. Demonstrou, ainda, flexibilidade para negociar prazos, forma, ritmo e prioridades da recuperação. Até admitiu que, por opção dos professores, esse tempo pudesse ser considerado para antecipar a aposentação e não para carreira. Nada disso, porém, foi aceite. O Governo exigiu que as organizações abrissem mão de 70% do tempo de serviço cumprido pelos professores no período de congelamento, sendo-lhes dado tratamento diferente do que é dado à generalidade dos trabalhadores da AP. A FENPROF não abriu, nem abrirá mão de um só dia!

– O descongelamento das progressões dos professores, sem TSU, custará, só nos anos 2018, 2019 e 2020, qualquer coisa como 255 milhões, o que inviabiliza a recuperação de todo o tempo de serviço, como querem os Sindicatos.

É falso. A FENPROF já provou – e o Governo admitiu, mas não corrigiu – que o custo do descongelamento nestes 3 anos será inferior ao que o Governo aponta só para 2018. As contas do Governo foram feitas para sustentar a sua posição e sabe disso. Por exemplo, contabilizou que uma mudança em 2018 se traduzirá no pagamento imediato do valor total do escalão seguinte quando esse valor será atingido, apenas, em dezembro de 2019. Em 2018 o valor necessário será de menos 60 milhões e em 2019 de menos 65 milhões do que o Governo tem divulgado.

– A recuperação do tempo de serviço dos professores poria em causa o descongelamento das outras carreiras (afirmação do Ministro da Educação em 14 de março)

Esta é uma torpe insinuação destinada a colocar os outros trabalhadores da AP contra os professores. O descongelamento de todas as carreiras já está em curso e em função do tempo cumprido, incluindo o dos períodos de congelamento. No caso dos professores, o descongelamento está a ter lugar para um escalão que fica, no mínimo, 9 anos, 4 meses e 2 dias abaixo do que seria devido, mas chega a atingir os 14 anos de perda. Por exemplo, apesar de o 1.º escalão ter a duração de 4 anos, só progredirão ao 2.º os docentes que estejam no seu 18.º ano de serviço. Isto é inaceitável!

– Os Sindicatos não estão a ter em conta a sustentabilidade orçamental da recuperação do tempo de serviço, como prevê a Declaração de Compromisso assinada em novembro.

É mentira. Foi precisamente para garantir essa sustentabilidade que os Sindicatos admitiram que a recuperação só teria início em 2019 e se prolongaria até 2023, não havendo uma recuperação total imediata, mas que esta se fizesse a uma média de, apenas, 20% por ano.

– Os partidos que, na Assembleia da República, aprovaram a recomendação ao Governo são os mesmos que aprovaram o Orçamento do Estado e deveriam ter-se lembrado disso.

Sexto equívoco. O Orçamento do Estado aprovado foi para 2018; a recuperação do tempo de serviço é para se iniciar, apenas, em 2019.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Professor, não é qualquer um

Será legítimo, ao primeiro-ministro de um governo que acabou com o programa “Novas Oportunidades” e as suas “histórias de vida” em nome da exigência e do rigor na formação de adultos, entrar na docência universitária pelo topo da carreira, sem as habilitações ou o currículo académico relevante que a lei exige?…

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No Fundo: A escola “racista”

O discurso é insidioso e recorrente: crianças e jovens pertencentes a determinadas minorias étnicas, sobretudo ciganos e afrodescendentes, apresentam maiores taxas de insucesso e abandono escolar. Como aparentemente a escola não consegue proporcionar a estes alunos o mesmo sucesso que têm os outros, conclui-se, de forma apressada e irresponsável: a escola é racista. Ou, naquele sociologês pedante com que se pretende disfarçar o preconceito e a falta de rigor: há “racismo institucional” na escola portuguesa.

Quanto custa o descongelamento?

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O governo voltou ao jogo sujo de manipular e falsear números para tentar impor falsos argumentos e virar a opinião pública contra os professores. Nas contas feitas a uma hipotética recuperação do tempo de serviço congelado, o governo considerou o seu custo como se as subidas de escalão fossem pagas, na totalidade, de imediato. Quando na verdade, e isso foi aceite pelos sindicatos, o período de transição deve estender-se até 2023, pelo que o impacto nas contas públicas seria bem mais reduzido. Como explica Mário Nogueira:

“Dizem que só em descongelamento vão gastar 1.477 milhões. Não é verdade. Nem chega a 900 milhões nestes anos todos. O Governo gasta menos 600 a 700 milhões do que aquilo que diz que gasta. (…) Se o Governo fizer as contas com seriedade, o dinheiro que eles dizem que têm só para o descongelamento dá para isso e para a nossa proposta” sobre a recuperação do tempo de serviço para efeitos de progressão, disse nesta sexta-feira o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, em declarações aos jornalistas.

A Fenprof desmonta as contas erradas do governo e avisa: podemos ter pontos de vista divergentes sobre as questões que nos dividem. Mas não é legítimo querer convencer os outros usando a manipulação e a mentira. E Mário Nogueira não hesita em apontar o dedo ao que realmente pesa na despesa da administração pública:

“O dinheiro que gastamos com estes incompetentes que fazem propostas daquelas, com esta gente que vive aqui pendurada nos corredores do Governo e do poder, com esses inúteis que encontramos por aí, por comparação o que gastam com os professores é muito pouco, porque os professores estão a trabalhar para o futuro do país e a maior parte dessa gente está a trabalhar para destruir o país”, disse Mário Nogueira.