Combate ao bullying ou demagogia?

no-bullyingO Ministério da Educação quer tolerância zero em relação aos atos de bullying e vai lançar um plano de combate com o objetivo último de o “erradicar” das escolas. O plano e a campanha associada, com o lema “Escola sem bullying. Escola sem violência” preveem um conjunto de medidas que ajudam a identificar sinais de alerta, orientam professores e escolas e levam a intervenções mais eficazes.

Um dos aspetos contemplados no plano passa por uma mudança na forma como o problema é assumido dentro das escolas. O Ministério lembra que o bullying tem de ser tratado como uma situação de “violência em meio escolar” e criou para esse efeito um novo campo no sistema de informação de segurança escolar, a plataforma usada pelos diretores para reportarem à tutela ocorrências que acontecem no interior dos estabelecimentos de ensino.

Tal como já têm de comunicar a ameaça ao professor, a agressão ao funcionário, ou o roubo do telemóvel, devem também reportar casos de bullying e cyberbullying. “Desta forma contorna-se o facto de estes casos não serem considerados uma tipologia de crime”, diz o Ministério.

Como professor, apoio naturalmente e sem reservas todas as medidas que permitam detectar, denunciar e combater o bullying nas escolas. Mas esta iniciativa do ME, anunciada em final de mandato e vésperas de campanha eleitoral, assume contornos de um lastimável exercício de hipocrisia política.

A verdade é que, ao longo de quatro anos de mandato, nunca vimos a segurança escolar na lista de prioridades deste ministério. Nem sequer ser assumida como uma preocupação dos governantes do sector, mais interessados na inclusão a qualquer preço de todos os alunos – mesmo daqueles que se dedicam a tornar tóxico e conflituoso o ambiente escolar – do que em promover uma cultura de respeito, tolerância e segurança nos espaços escolares.

E quem tiver dúvidas quanto ao que acabei de escrever, procure lembrar-se de quantas vezes viu os responsáveis políticos pronunciarem-se publicamente perante situações de violência escolar ocorridas durante o seu mandato. Quantas situações de agressão e violência contra alunos e professores – que foram sendo noticiadas com regularidade pela comunicação social – mereceram a intervenção do ministro ou dos secretários de Estado, quanto mais não fosse condenando os actos e solidarizando-se com as vítimas?

Ora é este governo, que pouco ou nada vez para combater o bullying, a indisciplina e outras situações de violência e assédio em meio escolar, que quer agora erradicar os bullies. E como o faz? Com uma inconsequente e vergonhosa acção de propaganda, tentando passar para a opinião pública a ideia de que está a resolver um problema que fez por ignorar ao longo de quatro anos de mandato.

Ainda assim, dirão os mais optimistas, a medida é positiva: dará no futuro maior visibilidade e atenção ao bullying, permitindo combatê-lo mais eficazmente. Contudo, para que isso sucedesse, seria necessário eliminar a perversidade instalada no sistema. A verdade é que os directores que mais ocorrências comunicam acabam por inflacionar os números que apontam as suas escolas como inseguras e violentas. O que se reflecte negativamente tanto na avaliação dos estabelecimentos de ensino como na procura dos mesmos pelos alunos e encarregados de educação.

Como os próprios directores admitiam recentemente, apesar de a plataforma permitir a inserção de todo o tipo de ocorrências – incluindo, a partir de agora, os casos de bullying – na prática quase só lá vão parar aquelas que, pela sua natureza, é impossível de esconder: as que terminam com uma queixa na esquadra da polícia ou com a entrada das vítimas na urgência do hospital.

Enquanto assim for, temo que o bullying continue a receber, em muitas escolas, o mesmo tratamento que é dado à pequena e média indisciplina: uma displicente varredela para debaixo do tapete…

E alguém disse o contrário?

costa-couvaneiro.PNGHá uma disputa antiga na educação, em que uns defendem os conhecimentos, e outros, as competências. Este livro mostra que a dicotomia não faz sentido. São ambos indispensáveis e indissociáveis na formação dos alunos. É necessário que tenham conhecimentos para serem competentes e que desenvolvam competências para aprofundarem conhecimentos.

Quando o PS se encontra no poder, há pelo menos duas estratégias de combate político, na Educação, a que já nos habituámos.

Uma é denegrir o trabalho que se faz nas escolas e desmoralizar os professores e outros profissionais da Educação, de forma a gerar, na opinião pública e entre os próprios agentes educativos, a necessidade de mudança, abrindo espaço para as reformas que se pretende introduzir.

A outra é, perante as inevitáveis críticas a políticas pensadas em cima do joelho ou gizadas em obediência a interesses que não são os dos alunos nem do país, atribuir aos críticos afirmações que nunca foram feitas.

Claro que desvalorizar e caricaturar o adversário, distorcendo as suas ideias para se tornarem mais fáceis de rebater não eleva de forma alguma o debate público. Infelizmente, tornou-se o modus operandi habitual do grupo neo-eduquês que gravita em torno de João Costa.

Neste caso, inventaram uma absurda “disputa antiga” entre duas dimensões complementares do saber que nenhuma teoria pedagógica séria coloca em oposição. É evidente, e há muito sabido, que o fim da educação é tanto a aquisição de conhecimentos como o desenvolvimento de competências. Uma não existe sem a outra, e a única coisa que se critica aos apóstolos da flexibilidade é terem, no afã de mostrar serviço e apresentar resultados, alimentado a ilusão de que é possível alterar a ordem lógica e natural das coisas: que se podem queimar etapas e desenvolver competências sem ter adquirido primeiro os indispensáveis conhecimentos de base.

Contudo, à “tese” dos dois compinchas da flexibilidade curricular falta sustentação científica: nem perderam tempo a fundamentar, com referências bibliográficas, as “verdades evidentes em si mesmas” de que se fazem arautos. Certamente que o público-alvo de convertidos não será exigente nesta matéria. O intuito destes livrecos de final de mandato, sabemos bem, é político, não académico.

Em contrapartida, procuraram nomes de peso para caucionarem a sua obra. Destaquem-se dois nomes, para memória futura:

  • o prefaciador António Sampaio da Nóvoa, ex-candidato presidencial e reputado historiador da Educação, cuja colagem ao actual situacionismo educativo é evidente;
  • o apresentador Laborinho Lúcio, um jurista da área do PSD “humanista” e das políticas sociais e um “construtor de pontes” na área do centrão.

E, claro, nestas alturas há também, seja por ingenuidade, convicção ou interesse, muitos professores a dar os parabéns. E a comprar os livrecos. Pois o sucesso das políticas e a carreira dos políticos também se fazem de muitas transigências, colaboracionismos e encobrimentos.

Os malandros dos professores em tempo de férias

profs-feriasTêm, pelo menos, cinquenta dias de pausa por ano, que na prática representa o dobro das férias de todos os outros funcionários públicos, já para não falar dos que trabalham no privado. É verdade que levam muitas vezes trabalho para casa – uma exigência que está longe de ser um exclusivo e que se coloca a um cada vez maior número de profissões – , mas a carga horária semanal de exercício efetivo da atividade anda à volta das 24 horas, menos 11 horas semanais que as restantes atividades exercidas no público e menos 16 do que as exercidas no privado, precisamente para atender a essa situação. Segundo um relatório internacional que há uns meses foi tornado público, ganham em média mais do que os outros trabalhadores com formação superior em Portugal, uma tendência que até contraria a maioria dos países da OCDE. 

Para animar a silly season, um funcionário político da câmara de Famalicão (PSD/CDS) resolveu escrever sobre os professores – classe profissional que considera privilegiada e, mesmo assim, “lamechas”…

O argumentário, pobre, começa com o estribilho das férias excessivas. Agora já não são três meses, como dizia o outro: o escriba do Correio do Minho contabiliza 50 dias de férias para os professores. O resto gira em torno de uma visão deturpada da profissão que já não é novidade: a desvalorização do trabalho não lectivo, como se um professor só estivesse efectivamente em funções quando está com os alunos. E o eterno culto da mediocridade e do conformismo que nos vai mantendo na cauda da Europa: não se queixem porque há outros que estão ainda pior. Em vez de incentivar toda a gente a lutar pelos seus direitos, tenta-se nivelar por baixo. A lógica é a do quanto pior, melhor.

Por explicar fica, contudo, uma questão importante. Se a profissão docente tem tantos privilégios, por que razão o assessor camarário, profissionalizado na docência de Filosofia, não seguiu a via sacra dos recém-licenciados há vinte anos atrás, quando se formou: os concursos, as contratações temporárias, os horários incompletos, a digressão forçada por vilas e cidades do país para conseguir um contrato, um salário e tempo de serviço. Porque é que o homem que diz conhecer bem a realidade docente fugiu a sete pés desse caminho das pedras, que foi enfrentado por quase todos os professores da sua geração, preferindo em vez disso procurar empregos fugazes no privado até que lhe surgiu a oportunidade da sua vida: uma carreira de propagandista de serviço ao senhor presidente do município.

A diferença entre o articulista, que fugiu de uma profissão que diz ter sido, na sua experiência de professor estagiário, “gratificante”, e os professores “lamechas” que agora vem criticar, é que aquele desistiu cedo da profissão, preferindo lutar individualmente pela conquista do seu lugar ao sol. Já os docentes que trabalham quotidianamente nas escolas sabem – ou deviam saber – que só colectivamente podem fazer valer os seus direitos e aspirações. Ao contrário do assessor, que só tem de promover a boa imagem do presidente da câmara que o contratou, os professores assumem o dever de defender a escola pública e a responsabilidade de educar as novas gerações.

Aborto ortográfico

augusto_santos_silva.jpg“Portugal é um país estimado em todo o mundo, considerado em todo o mundo por muitas qualidades. E uma das qualidades que tem é honrar os compromissos que assume e, portanto, cumprir os tratados e acordos que livremente subscreve, incluindo o Acordo Ortográfico de 1990”.

As palavras de circunstância de Augusto Santos Silva em Cabo Verde parecem sensatas e politicamente correctas, mas não nos dizem toda a verdade. Os tratados e acordos internacionais deveriam servir, apenas, para regular as relações entre estados soberanos. Não para impor aos cidadãos, na ordem jurídica interna, leis irrevogáveis. Como cada vez mais se vai fazendo, instituindo uma prática que mina os fundamentos dos regimes democráticos.

A democracia deve estar acima da diplomacia. A vontade popular e a sua expressão parlamentar devem prevalecer sobre as imposições de directórios políticos. As línguas pertencem aos povos que as usam, não são propriedade de políticos insensatos e ambiciosos. E decisões erradas tomadas por maiorias circunstanciais devem poder ser revertidas quando se torna evidente que causam mais prejuízos do que benefícios.

Claro que, por cá, sempre se gostou de apostar na política do facto consumado e em empurrar os problemas com a barriga, à espera que o tempo ou a inércia acabem por os resolver. No caso do apropriadamente chamado aborto ortográfico, isso não sucedeu. Quase trinta anos depois, continuamos longe de um consenso nesta matéria, como se viu com a missão fracassada da última comissão parlamentar que se dedicou ao assunto.

O grupo de trabalho parlamentar criado para avaliar o impacto da aplicação do Acordo Ortográfico termina esta sexta-feira funções sem ter reunido consenso para uma possível alteração a esta convenção.

“Lamento que não tenha havido consenso sobre a necessidade de discutir” a hipótese de alterar ou aperfeiçoar o atual Acordo Ortográfico (AO), disse à agência Lusa o coordenador daquele grupo de trabalho, o deputado José Carlos Barros (PSD).

Deveria servir de lição para políticos de todos os quadrantes: das piores coisas que podem fazer é criar um problema real para resolver problemas imaginários – que neste caso existiam apenas na cabeça de alguns académicos e políticos em busca de notoriedade.

A verdade é que portugueses e brasileiros falam e escrevem de forma diferente. Nenhum acordo conseguirá mudar esta realidade, que tem de ser aceite tal como ela é. Uma maior aproximação linguística dependerá acima de tudo da intensificação do contacto cultural entre dois povos que andaram muito tempo por caminhos separados. Mas isso é algo que só trará frutos a muito longo prazo; nunca ao fim de um ciclo político de quatro anos. O que seria uma boa razão para que os oportunismos político-partidários se mantivessem afastados.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Recuperação parcial não, obrigado

No final da semana em que termina o prazo para os docentes do quadro decidirem como querem recuperar os 2 anos, 9 meses e 18 dias que o governo entendeu conceder-lhes, destaco o caso de um professor que, em carta aberta às excelências que (des)governam a educação, assume que não quer o “prato de lentilhas” nem por inteiro nem às prestações: prescinde da esmola dos 1018 dias que o governo atribui aos professores como compensação por quase dez anos de congelamento das carreiras…

No Fundo: Um governo de enganos

A expressão é de uma deputada do PSD, mas creio que, independentemente do contexto de luta político-partidária em que surgiu esta semana, caracteriza adequadamente a política do actual governo em vários sectores. Entre eles, certamente, o da Educação. De facto, este sempre foi mais um governo de prometer do que de realizar…

O Governo do Engano

margarida-manoMargarida Mano foi, durante 27 dias, ministra da Educação no fracassado segundo Governo de Passos Coelho. Tem representado, desde então, a bancada parlamentar do PSD em assuntos educativos. E escreve hoje no Público sobre uma das áreas de competência mais notáveis do actual Governo: a de enganar os cidadãos.

Anunciando repetidas vezes medidas que não concretiza, retirando sorrateiramente com uma mão aquilo que oferece com a outra, apropriando-se de méritos alheios, este Governo conseguiu criar de si próprio, e do país que governa, uma imagem largamente positiva.

Contudo, esta estratégia tem os seus limites. Como dizia Lincoln, é possível enganar toda a gente durante algum tempo. É possível enganar algumas pessoas o tempo todo. Mas é impossível enganar toda a gente, durante todo o tempo.

Há poucos dias, o chefe de Governo foi inaugurar uma escola requalificada em Arcos de Valdevez: 4,1M€ de investimento; promessas para o futuro e, cereja no topo do bolo, um “tributo aos professores”. Podemos gostar de o ouvir, mas não esqueçamos que estamos a ser enganados: 2,7M€ foram-nos dados pela Europa (a Europa das eleições nas quais muitos não votamos) e 1,2M€ foi investimento do município. O Governo contribuiu para a requalificação com uns quase insultuosos 0,2M€. Estes momentos de campanha não podem fazer-nos esquecer do fundamental: os números do investimento na Educação estão ao nível zero (0,3%), tendo em conta o orçamento do ministério (6000M€). No total, são pouco mais de 20M€, que mal dariam para cobrir o custo médio de uma única intervenção da Parque Escolar. Menos 80% do que o investimento realizado em 2015!

Na Educação, ao fim de quatro anos de legislatura, o que é factual é que o investimento é insignificante, que as condições nas escolas estão degradadas e que existem profundas contradições entre o discurso e a realidade, como a contradição chocante entre o discurso de tributo e a prática de desprezo pelos agentes da educação (alunos, famílias, assistentes técnicos, técnicos educativos, professores, inspetores, etc.).

Escola do século XXI, ou a banha da cobra educativa

banha-da-cobra.pngO futuro das crianças que se iniciam agora na escola é uma incógnita mas, mesmo assim, continuam a ser ensinadas através de “um programa curricular pensado há muitos anos”, criticou Rod Allen, mentor e co-autor de uma profunda reforma curricular no Canada, no Encontro Nacional de Autonomia e Flexibilidade Curricular, que decorreu esta semana na Figueira da Foz.

A mudança no Canadá surgiu quando se aperceberam que estavam “a preparar os alunos para um mundo que já não existia”, recordou o ex-vice-ministro adjunto da província canadiana da Colúmbia Britânica.

Rod Allen reproduz o mantra ideológico que organizações internacionais como a OCDE e multinacionais e fundações com interesses na Educação não se cansam de promover.

Como é habitual entre os propagandistas da banha da cobra, o discurso, falacioso, surge envolto em evidências incontestáveis e em meias-verdades que ajudam os mais incautos a baixar as defesas. E a engolir, sem suficiente reflexão, a pastilha da flexibilidade, do conhecimento na palma da mão, do aprender a aprender, do mundo que já não existe, das profissões que ainda não existem e por aí fora.

Evidentemente, não se contesta que a escola deva evoluir, como sempre o fez, acompanhando as transformações sociais e culturais. Mas o que se vê, nos tempos que correm, é uma súbita e impaciente vontade de mudança, que nasce, não das necessidades e aspirações de quem estuda e trabalha nas escolas, mas de imposições a partir do exterior. O que está em curso é uma ofensiva concertada de políticos demagogos, empresários com um olho no mercado educativo, filantropos em busca de  influência  e cientistas da educação desejosos de notoriedade. O alvo é, naturalmente, a escola pública. Que a privada persegue os seus próprios interesses e não vai nestas conversas. A não ser que tenha algo a ganhar com isso…

Quanto à retórica de Rod Allen, reproduzida na notícia do Educare, ficam, em forma de notas telegráficas, as principais objecções que encontro a um discurso que não é por ser mil vezes repetido que se torna mais verdadeiro ou convincente.

A escola sempre preparou para o futuro e cada geração tem os seus próprios desafios e realidades novas a enfrentar. Mas a melhor forma de enfrentar o futuro incerto não é desvalorizar o conhecimento tradicional em favor de modas educativas – a experiência demonstra que são precisamente as tendências e modas do momento aquilo que mais depressa passa de validade. Já o conhecimento clássico – as línguas, a matemática, as ciências naturais e sociais – esse fornece as bases, não só do conhecimento, mas também das competências – ler, interpretar, raciocinar – que sempre serão úteis e necessárias.

Os telemóveis dão-nos informação, não conhecimento. O conhecimento depende da capacidade de usar a informação que podemos obter de múltiplas formas. Ninguém vai negar as potencialidades das máquinas que nos mantêm permanentemente ligados ao mundo. Mas é um erro pensar que, por termos telemóveis que nos dizem tudo, já não precisamos de desenvolver a memorização, o sentido de orientação, o raciocínio. Se, como nos querem convencer, o conhecimento está no telemóvel, então isso equivale a dizer que, sem o telemóvel, nunca passaremos de ignorantes.

Estuda-se para aprender. Os exames existem apenas nalgumas disciplinas e anos de escolaridade. Há muitas motivações para aprender e ter boa nota no exame não é, em geral, a mais importante. Por exemplo, a generalidade dos alunos portugueses nunca faz um exame de Inglês ao longo dos 12 anos de escolaridade. E, no entanto, aprendem a língua e reconhecem interesse e utilidade nessa aprendizagem. Mesmo sem exame…

A escola nunca foi uma fábrica. Nem foi concebida, como alguns insistem em dizer-nos, para preparar operários para as linhas de montagem. Pelo contrário, a vocação da escola sempre foi a de instruir, valorizar e qualificar as crianças e jovens para que estes pudessem alcançar um melhor futuro, longe do ambiente penoso e deprimente das fábricas do século XIX. Já a escola divertida e facilitista, do telemóvel e do trabalho de grupo, essa corre a largos passos para cortar as pernas aos jovens que ambicionem aceder às tais profissões do século XXI – as que ainda não existem mas que, quando forem inventadas, não serão por certo menos exigentes do que as actuais.

Não há receitas pedagógicas universais. Não faz sentido contrapor a uma escola alegadamente monolítica, assente, dizem eles, no “modelo do autocarro”, uma outra assente num paradigma diametralmente oposto. Rejeitando fundamentalismos, todos os bons professores sabem que a estratégia que resulta com um grupo de alunos pode não funcionar com outros. E que a diversificação e a diferenciação, de acordo com as características dos alunos e dos grupos, acaba por ser sempre o procedimento mais eficaz. Funcionando tanto melhor quanto mais reduzidas forem as turmas. Curiosamente – porque será?… – quando ousamos falar do tamanho das turmas, entramos num tema-tabu para a grande maioria dos novos gurus educativos…