Viver em continência

continencia.JPGOs católicos recasados podem “em circunstâncias excepcionais” aceder aos sacramentos, mas a Igreja não deve deixar de lhes propor “a vida em continência”, isto é, sem a prática de relações sexuais. A orientação está contida no documento que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicou anteontem, com algumas normas para regular o acesso aos sacramentos de pessoas em “situação irregular”, isto é, àquelas em que ao matrimónio sucedeu a ruptura e um casamento civil.

Num só parágrafo, está bem patente a posição duplamente hipócrita e contraditória que o catolicismo continua a ter sobre a indissolubilidade do matrimónio.

Por um lado, o absurdo de aceitar o novo casamento, desde que “vivido em continência”, ou seja, se os casados se abstiverem da prática de relações sexuais. E já agora, como é que averiguam isso? Fazendo fé a declaração dos próprios, ou encarregam alguém de ir verificar?

Por outro, o renascer do negócio das anulações de casamento, que parece ir de vento em popa, com um número crescente de uniões que são desfeitas, não por divórcio, mas porque a Igreja Católica decide fingir, a troco de dinheiro e aceitando uma gama cada vez mais variada de justificações, que alguns casamentos religiosos na verdade nunca existiram.

Indo mais longe, na sua interpretação restritiva, do que o Papa Francisco e até, segundo a notícia do Público acima citada, do que o arcebispado de Braga, o Cardeal Manuel Clemente confirma-se como um dos dirigentes mais retrógrados e conservadores da Igreja Católica portuguesa.

Anúncios

O Presidente não vai a todo o lado

triumph.jpgSe a fábrica tivesse ardido o Presidente da República vinha cá, quando são os nossos direitos, já não.

Foi desta forma que uma trabalhadora da ex-Triumph denunciou a posição hipócrita do auto-proclamado presidente dos afectos. Que na passada sexta-feira se dizia interessado em “conhecer mais em pormenor a situação” complicada das operárias desempregadas e se dispôs a recebê-las. Mas quando ontem rumaram ao Palácio de Belém, apenas tinham à sua espera os assessores do Presidente.

Não deveria surpreender: a campanha de popularidade de Marcelo é erigida em cima dos “consensos” que tanto aprecia. Está sempre pronto a dar um abraço ou uma palavra de conforto às vítimas de um incêndio ou de uma seca, a um sem-abrigo ou ao voluntário que o ajuda, por vezes até se atreve a dar eco a um ou outro protesto contra o governo. Dá afecto, e até podemos acreditar que o faz de forma genuína, mas a verdade é que estas trabalhadoras, assim como os operários da Auto-Europa ou tantos outros cidadãos que se erguem em defesa dos seus direitos e dos seus postos de trabalho precisam – e merecem – bem mais do que isso: são credores da nossa solidariedade, não só porque lutam por causas justas, mas também porque defendem, de forma determinada, o nosso interesse colectivo. Lutam pelo país mais justo, solidário e produtivo que todos deveríamos querer deixar aos nossos filhos.

Só que isto é política: tomar partido no conflito entre patrões e trabalhadores, mesmo que seja apenas para defender a legalidade e a justiça, é algo de que Marcelo foge como o diabo da cruz. Há quem pense que o faz apenas porque nunca deixou de ser ver como a estrela mediática e consensual construída com a ajuda da TVI. Eu atrevo-me a pensar que não toma partido simplesmente porque, se tivesse de o fazer, seria do lado dos patrões sem escrúpulos e das multinacionais sem rosto que vêem saqueando o nosso país com a cumplicidade dos partidos do poder. Como nota António Santos:

O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português.
Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

 

Lingerie ministerial

triumph.jpgCerca de 40 trabalhadoras da antiga fábrica Triumph, em Sacavém, Loures, estão esta quinta-feira em protesto junto à presidência do Conselho de Ministros para apelar à ajuda do Governo, perante a insolvência da empresa.

Um grupo trabalhadoras foi recebido por um representante do governo e, simbolicamente, entregaram um cinto de ligas vermelho para o ministro da Economia, Caldeira Cabral.

As trabalhadoras acusam a Têxtil Gramax Internacjonal, que adquiriu a antiga Triumph, de não ter feito qualquer investimento.

Segundo contou ao JN Emília Ferreira, há 29 anos na empresa, “o trabalho começou a faltar em setembro, começaram a mandar as pessoas para casa em novembro”. Nesse mesmo mês já não receberam parte do ordenado.

As operárias explicam ainda que a ação de protesto decorre em paralelo com a vigília nas instalações da empresa, onde se mantém dezenas de colegas. O objetivo é impedir a saída de património na sequência do processo de insolvência da empresa.

Algo funciona muito mal nos processos de insolvência das empresas, quando são os próprios trabalhadores que têm de organizar piquetes de vigilância para impedir o saque do património. Não sendo por desconhecimento, nem por falta de meios, que o Estado não actua em defesa da legalidade e dos direitos dos credores, onde se incluem em primeiro lugar os trabalhadores, mas também o próprio Estado, apenas se pode concluir que é daquelas situações em que não interessa que a justiça funcione.

Também me causa estranheza que o Presidente da República, sempre tão solícito a comparecer e a apoiar todas as vítimas, não tenha uma presença ou uma palavra de apoio a estas operárias.

Será que as vítimas das forças da natureza ou da incompetência do governo merecem mais solidariedade e apoio do que as vítimas do patronato?

Se assim é, ficamos ao menos a saber que Marcelo, pelo meio dos seus estonteantes afectos e paralisantes apelos aos consensos de regime, não deixa de ir definindo interesses, prioridades e, acima de tudo, opções políticas.

 

Ajudar os pobres

DQ3GXIgXUAwj3aM.jpg

Olhem para o que eu digo…

…não olhem para o que eu faço.

63506fae63271c4fe627ecf188c26df7[1]

O maior défice que temos não é o défice das finanças, é o que acumulamos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação, de ausência de preparação. E é esse défice histórico que nós temos que vencer.

António Costa, hoje no Porto.

O jantar no Panteão

Algo ridículo e despropositado o escândalo em torno do jantar mira-mortos que encerrou a Web Summit.

panteao-websummit.jpg

Antes de mais, fica mal a tentativa de aproveitamento político por parte dos partidos de direita. Pois foi o anterior governo PSD/CDS que, numa linha de rentabilização do património público, abriu o Panteão e outros monumentos nacionais à realização de banquetes, festas e outros eventos adequados às características dos locais. Definiram até uma tabela de preços a praticar, consoante os espaços utilizados e a natureza do evento. E foi com base neste quadro legal que ocorreu a cedência do espaço, tal como já sucedeu noutras ocasiões, sem que ninguém aparecesse, nessas alturas, a mostrar-se surpreendido ou escandalizado.

Também já não há paciência para a hipocrisia de um governo que, há quase dois anos em funções, ainda tenta culpar o anterior sempre que se vê alvo de críticas, em vez de assumir as suas responsabilidades. Se acham desapropriada esta utilização do espaço onde se encontram sepultados alguns dos nossos mais ilustres falecidos, porque não revogaram as normas em vigor?

E nem os partidos mais à esquerda, que pelo facto de não terem governado estão quase sempre à vontade para criticar, ficam bem na fotografia. É que não basta exigir ao Estado que preste melhores serviços públicos e pague melhor aos seus trabalhadores. Tudo isto aumenta a despesa pública, pelo que há que considerar a necessidade do correspondente aumento de receita. Não será preferível regulamentar o uso dos espaços públicos para festas privadas, cobrando-o aos interessados, a sobrecarregar os cidadãos com mais impostos?

Os amigos de Marcelo

marcelo-opus-dei.JPGMarcelo Rebelo de Sousa evocou ontem amigos de sempre e velhas companhias na inauguração das novas instalações de um dos colégios mais elitistas da capital – o Mira Rio, uma escola da Opus Dei que só recebe raparigas. Declarou-se próximo desta instituição católica, conhecida pelo seu conservadorismo social e político e pela influência oculta que discretamente procura ter na sociedade e na política. E, nas entrelinhas, tentou justificar o patrocínio público da escola privada em nome da liberdade na educação.

O chefe de Estado deixou estas mensagens na inauguração das novas instalações do Colégio Mira Rio, em Telheiras, Lisboa, durante a qual elogiou o antigo presidente do Banco Comercial Português (BCP) Jorge Jardim Gonçalves, pelo seu contributo para este projecto educativo, o que suscitou uma salva de palmas.

Marcelo Rebelo de Sousa declarou que era “uma grande alegria” para si estar presente nesta cerimónia. “Porque pessoalmente acompanho o percurso da Obra [Opus Dei], e desta obra, há muitas décadas. Não quis o destino que partilhasse tão intensamente quanto algumas amigas e alguns amigos meus teriam gostado. Mas tenho, um pouco por toda a parte, muitas amigas e muitos amigos, parte dos quais aqui presentes, que continuaram essa caminhada”, declarou.

Além do amigo e antigo banqueiro do BCP, cuja gestão ruinosa tem andado a ser paga pelos contribuintes, também Ricardo Salgado pagou festas, férias e jantares a Marcelo. Mas, vá-se lá saber por quê, o nosso Presidente ainda não se sente confortável a pedir-nos palmas também para o antigo presidente do BES. Lá chegará o dia, assim a máquina de lavar do regime o ilibe de todas as acusações.

marcelo-salgado.jpgPela minha parte, não partilho destes valores falsamente consensuais que fazem parte das convicções mais profundas do Presidente e que este faz gala de quando em vez, de evocar.

Como se fosse dever de gente honesta tolerar a presença impune dos vigaristas. Como se quem trabalha se devesse conformar a uma vida de sacrifícios para sustentar os desmandos e os roubos de corruptos e ladrões. Mas na narrativa presidencial, aparentemente, fazemos todos parte dessa pluralidade, vista como uma riqueza nacional a preservar.

Não acho que a defesa de uma sociedade livre e democrática seja compatível com a promoção de sociedades semi-secretas, sejam elas maçonarias laicas ou obras católicas.

Não creio numa sociedade mais justa construída a partir de projectos de apropriação e acumulação de riqueza por privados, delapidando os recursos públicos e promovendo a desigualdade e a concentração da riqueza numa minoria parasitária e improdutiva.

Não aceito a evocação oportunista de falsos valores religiosos para reivindicar privilégios ou cauções morais de qualquer espécie.

Vêm de longe, e persistem clivagens, contradições e injustiças profundas na sociedade portuguesa. Que devem ser denunciadas, discutidas e combatidas. E é desse confronto público, salutar em democracia, que devem resultar as nossas escolhas colectivas. Não de falsos consensos impostos com o alto patrocínio de sua alteza presidencial.