António Costa e a guerra na Ucrânia

A guerra é sempre dramática, mas quando é entre militares é a regra do jogo. Quando é sobre civis, as suas habitações e viaturas quando estavam a fugir, já não estamos a falar de uma guerra normal, estamos a falar de algo de algo absolutamente criminoso que visa a pura destruição da vida das pessoas e do futuro de um país.

A guerra também tem regras e tem de obedecer à lei. Há valores de humanidade que têm de ser preservados e isto é inadmissível. Os responsáveis por estes crimes de guerra têm de ser levados à responsabilidade e punidos exemplarmente.

As palavras de António Costa, a um tempo duras e emotivas, fazem todo o sentido na denúncia da irracional barbárie da guerra, da violência gratuita e desproporcionada, do terrorismo de estado sobre populações indefesas. Reflectem o amplo consenso entre chefes de Estado e de Governo do mundo ocidental neste conflito: há um exército invasor, o russo, e um povo a ser chacinado, o ucraniano.

Mas ganhariam outro alcance se António Costa e outros líderes do autoproclamado mundo livre tivessem a coragem de as proferir também em defesa, por exemplo, da população civil martirizada nos territórios palestinianos em cada incursão punitiva do exército israelita.

A indignação selectiva perante os crimes de guerra não é o caminho para a paz mundial. A esta não basta que se calem as armas, ela exige também que se faça justiça.

Escolas privadas, dinheiros públicos

Uma escola é pública quando i) está aberta a todos em condições de igualdade, praticando por isso a igualdade de acesso aos bens educativos; ii) promove a igualdade de sucesso gerando e gerindo dinâmicas de diferenciação positiva para que todos e cada um possa aprender o máximo possível (no aprender a conhecer, no aprender a saber fazer, no aprender a ser, no aprender viver (e a crescer) juntos; iii) promove a igualdade de oportunidades no usufruto dos bens educacionais, isto é, fazendo tudo o que estiver aos seu alcance para que todos os seus alunos possam ter a maior equidade possível no acesso ao trabalho ou ao prosseguimento de estudos; iv) e é ainda pública quando não pactua com as estratégias de seleção e de exclusão dos mais fracos, dos deserdados, quando não silencia e não protege ações indignas de agentes que se dizem “professores”.

Matias Alves, o mais notório representante do eduquês fofinho de direita, vem desta vez revelar a sua faceta liberal. Não a de “liberal dos quatro costados”, na boa tradição oitocentista portuguesa, mas a do neoliberalismo hipócrita, moralista e encostado ao Estado hoje dominante. E lá vem a converseta do costume, o rosário milhentas vezes desfiado quando, no primeiro governo de António Costa, foram corrigidos os abusos que durante décadas prevaleceram nos contratos de associação.

O raciocínio é básico, simplista como toda a demagogia pseudo-liberal. Educação é serviço público, logo os privados que o prestam também têm direito a financiamento do Estado – embora a gestão, a contratação e os lucros continuem, convenientemente, a ser privados. As escolas são, como na história da Carochinha, boas e más, sendo que as primeiras devem ser recompensadas e as outras castigadas ou até, se não tiverem emenda, encerradas. O interesse evocado, naturalmente, é o direito dos alunos a uma escola de qualidade. Tudo o resto é “intoxicação ideológica” ou, como se dizia no tempo de Salazar, a minha política é o meu trabalho. Mas o verdadeiro e dissimulado objectivo deste professor da Universidade Católica é dar nova vida ao ensino privado com os fundos públicos que seriam desviados das escolas “más”.

Que contrapor a isto? Talvez começar pelo óbvio, não há escolas por natureza “boas” ou “más”. As escolas que funcionam melhor ou pior consoante os recursos materiais e humanos de que dispõem, a qualidade da gestão desses recursos e, certamente o factor mais determinante, as características da população escolar que as frequenta.

Perante uma escola pública que mostra dificuldades em cumprir a sua missão, o que há a fazer é perceber claramente onde estão as falhas, corrigindo o que estiver mal e alocando os meios necessários para suprir as carências detectadas. Uma escola pública em funcionamento é um bem público, um investimento feito pelos contribuintes: não é para “fechar” ao mínimo sinal de dificuldades. Essa não é nem nunca foi a lógica do serviço público: se algo está mal, o que há a fazer é identificar o problema e tomar medidas para o resolver. Transpor para o ensino a lógica dos mercados significa fazer dos alunos reféns de interesses que não são os seus e negar o princípio de uma escola de qualidade para todos. Há que perceber a perversidade da lógica de um mercado de escolas “boas” e “más” onde os alunos-clientes e as suas famílias fariam as suas “escolhas”: o que acontecerá aos que, por necessidade, desinformação ou comodismo, continuarem numa “escola má” que, devido à sua “maldade”, tenderá a receber cada vez menos financiamento e a ter pessoal docente e não docente cada vez mais desmotivado? Não podemos permitir que existam escolas más pela simples razão de que o direito universal à Educação implica que todos têm direito a uma boa escola na sua área de residência, sem terem de a procurar num mercado de “escolhas”.

A sonsice de Matias, que nos convida desideologizar a escola, está ela mesma eivada de ideologia: dispõe-se a comprometer a escolarização de milhares de crianças e jovens em nome da criação artificial de um mercado educativo com o dinheiro dos contribuintes. E não têm desculpa, nem o Matias nem qualquer um dos pedagogos profissionais que defendem estas ideias. Como especialistas que dizem ser, deveriam conhecer, e seguramente conhecem, os resultados da política que defendem, e que já foi experimentada em dezenas de países: aumento das desigualdades no acesso à Educação, ensino mais caro mas globalmente com piores resultados, subfinanciamento de escolas públicas que servem populações escolares carenciadas em consequência do favorecimento dos privados.

No seu mundo feito de presunção e fingimento, os pedagogos do regime sabem menos do que pensam. Mas também dizem, quando lhes é conveniente, muito menos do que sabem.

Iam valorizar as Artes e as Tecnologias, não era?…

No início do ano letivo foi-me atribuído um horário com 13 turmas de 5⁰, 6⁰, 7⁰, 8⁰ e 9⁰ ano de Educação Tecnológica e Cidadania nos 9⁰ anos, distribuído pelas duas escolas do agrupamento. Eu com 41 anos de serviço e 60 de idade não aguentei e meti baixa médica, impossível andar quase todos os dias de escola em escola com tantas turmas… nunca pensei chegar ao final de carreira com este número de turmas e alunos… tenho o dobro das turmas de quando iniciei!

Apresentei-me hoje ao serviço e […] vou ver se aguento as quatro semanas que faltam até ao final do ano letivo… não vai ser fácil… são muitos alunos e numa fase complicada… mas reformar- me não posso, pois penalização é de 31,5%… mesmo estando no 10⁰ escalão fico com uma reforma pequena… afinal iniciei cedo, fiz licenciatura a trabalhar, cumpri ao máximo minhas funções… sim raramente faltava, dei o meu melhor e agora porque decidiram que artes e tecnologias não são importantes e só têm um tempo semanal no horário dos alunos eu vou ter que aguentar uma sobrecarga de alunos ou aceitar uma reforma com um enorme corte? É revoltante! É uma injustiça!

Sinto-me angustiada, triste… não queria acabar a vida ativa desta forma…

O depoimento, que recolhi num dos grupos de professores do Facebook, dá bom testemunho, na primeira pessoa, do que é o amor deste ministério às Artes, às Tecnologias, às Humanidades e a outros conhecimentos inúteis: ficam sempre bem como flores na lapela dos governantes e nos floreados do PASEO, mas acabam reduzidos ao mínimo dos mínimos nos planos curriculares do ensino básico.

Este é o governo que mais tem defendido abordagens transdisciplinares e holísticas ao currículo. Mas foi durante o costismo educativo que mais proliferaram as mini-disciplinas com 45 ou 50 minutos semanais; além da Educação Tecnológica, também Cidadania e Desenvolvimento, TIC e disciplinas de oferta de escola têm a carga horária igualmente reduzida ao mínimo. E os 90 a 100 minutos semanais tornaram-se o novo normal, na maioria dos anos de escolaridade, em História, Geografia e mesmo nalgumas línguas estrangeiras.

Dir-se-ia que coerência não é o forte de João Costa, mas eu vejo aqui mais do que um mero percalço, consequências indesejadas do excesso de voluntarismo ou, desculpa que serve para tudo, mau uso da “autonomia das escolas” . A desvalorização curricular de todas as disciplinas que não entram nas avaliações internacionais da OCDE é evidente desde os primeiros ensaios da flexibilidade curricular. Só não viu quem não quis, e é um facto que houve, durante demasiado tempo, demasiada gente a não querer ver.

As cargas horárias muito reduzidas são um verdadeiro martírio para os professores, multiplicando o número de turmas e níveis que terão de leccionar. Mas também não beneficiam os alunos nem favorecem a qualidade do trabalho pedagógico. Como alguém sensatamente comentava, 50 minutos é muito tempo para estar sem fazer nada e pouco para tentar fazer alguma coisa.

Ministro da Deseducação

Uma intervenção no mínimo lamentável de João Costa na sessão nacional do Parlamento Jovem:

Não queremos que quem passa 12 anos na escola seja apenas uma enciclopédia com pernas, que sabe umas coisas, mas que é incapaz de olhar à sua volta, interpretar o mundo e agir em liberdade e consciência.

Em todo o trabalho que fazemos na área da cidadania, nunca quisemos criar mais uma disciplina de papel e lápis. A cidadania não é um conjunto de conteúdos que memorizamos e esquecemos cinco dias depois do teste, mas sim um compromisso com uma vivência em que tomamos conta uns dos outros.

Não vale a pena falar de cidadania na escola se a escola for um espaço de silêncio. Queremos a voz dos alunos na construção da política educativa.

Consta que o homem é teimoso, casmurro mesmo, na imposição da sua verdade. Não será um humilde professor, daqueles que dão aulas na escola e ao final do dia encontram tempo para alinhavar umas linhas num blogue asssumidamente anti-eduquês, que irá ser lido pelo poderoso e arrogante ministro, muito menos convencê-lo do que quer que seja.

Mas alguém lhe faça ver, entre os que terão o duvidoso privilégio de com ele chegar à fala, que isto está tudo errado. Como é possível imaginar a escola dos nossos dias como uma sucessão de aulas em “silêncio”? Como pode um académico prestigiado abraçar o anti-intelectualismo, caldo de cultura da manipulação mediática e do pensamento único? Acreditar que o pensamento crítico germina na ignorância? Advogar a absurda teoria dos “conhecimentos inúteis” e até entrar em contradição com o seu próprio discurso, verberando as “enciclopédias com pernas” para a seguir evocar o cliché do decora-despeja-e-esquece, cada vez mais sem sentido quando em todo o lado prevalece a avaliação contínua e as avaliações escritas incidem, cada vez mais, na aplicação dos conhecimentos adquiridos e não na reprodução do que se decorou?

Mais: não tem vergonha de ir com esta converseta para um encontro com estudantes do ensino básico, reproduzindo um discurso profundamente antipedagógico e deseducativo, concebido para desmoralizar os professores, não para desincentivar os alunos do estudo e do esforço?

A verdade é que há zero de originalidade e pensamento crítico no discurso do escuteiro arvorado em ministro. Limita-se a reproduzir os preconceitos e os mantras do neo-eduquês produzido pela OCDE, feito a pensar num mundo novo em que, sendo projectado para consumidores passivos e trabalhadores “resilientes” e descartáveis, o conhecimento será um luxo. Evocar, a este pretexto, a “cidadania”, não passa de um repugnante exercício de cinismo e hipocrisia.

Turmas “reduzidas” com alunos a mais

Nas escolas intervencionadas, 30,8% das turmas do 5.º ano incluíam alunos cujo RTP identifica a necessidade de integração em turma reduzida e apresentavam mais de 20 alunos, mais de dois cujo RTP identifica a necessidade de integração em turma reduzida, ou mais de 20 e mais de dois nestas condições. A elevada percentagem de turmas assim constituídas, observada igualmente em anos anteriores em todos os níveis de educação e ensino, constitui um óbice ao desenvolvimento de estratégias de diferenciação pedagógica e prejudica o direito a uma educação inclusiva que responda às necessidades individuais destes alunos em efetivas condições de equidade.

O relatório da IGEC sobre a organização do ano lectivo 2020/21 aponta o dedo a uma realidade que só poderá ser novidade para quem acredita que a realidade educativa espelha a ficção vertida nos “normativos” que entre nós constroem, no papel, o melhor dos mundos educativos. Nas escolas, toda a gente sabe que é banal a constituição de “turmas reduzidas” com mais do que os 20 alunos que a lei prevê.

O que o relatório não explica, mas deveria fazê-lo, é a razão destas desconformidades. Incompetência dos directores? Ignorância da lei? Insensibilidade às necessidades educativas dos alunos que precisam de apoio mais individualizado dos professores, só possível em turmas mais pequenas? Nada disto: as turmas são formadas com mais alunos do que o legalmente previsto porque o ME limita o número de turmas que as escolas estão autorizadas a abrir.

Para quem não sabe, a abertura de turmas “em desconformidade” obedece a dois princípios básicos: se tiverem menos alunos do que o previsto na lei, carecem de autorização da tutela; já se ultrapassarem algum dos máximos legais, o ME lava daí as suas mãos. Não se opõe a esta manifestação de “autonomia das escolas”, mas exige que as turmas sejam “aprovadas” pelo Conselho Pedagógico, num lavar de mãos hipócrita que transfere para as escolas a responsabilidade pelas consequências de decisões ministeriais economicistas e antipedagógicas.

Como corolário, temos a actuação nada isenta da Inspecção, que há muitos anos deixou de cumprir por inteiro o que deveria ser o seu papel, o de inspeccionar globalmente o sistema educativo. Numa lógica mercantilista, assume-se que são as escolas que prestam o serviço educativo aos seus “clientes”, os alunos e as famílias, pelo que a única coisa que interessa avaliar é se estes ficam bem servidos. Esta perspectiva consumista da avaliação educativa deixa convenientemente de fora o funcionamento dos serviços regionais e centrais do ME e a avaliação dos resultados das políticas educativas.

Em suma, uma elevada percentagem de turmas reduzidas tem alunos a mais em resultado directo das normas impostas às escolas por um ministério que não cumpre a lei que ele próprio fez aprovar. Esta é a verdade. Onde é que isto está escrito, preto no branco, no relatório da IGEC?

Outra vez o pacto educativo?

Já não há paciência para o eterno retorno dos apelos aos pactos de regime para a Educação. No passado, em tempos de ressaca de maiorias absolutas, pedia-se a convergência dos partidos do arco da governação em torno de grandes princípios orientadores da política educativa, para que não andassem sucessivos governos a desfazer e a refazer a obra do anterior. Mas o que quer agora que o PS, há seis anos no poder, e tendo feito praticamente tudo o que quis no sector – só não fez mais porque pôs de parte tudo o que implicasse investimento público – com esta proposta de “pacto social”? Não contam com uma maioria absoluta para impor a política que querem e inviabilizar todas as iniciativas das oposições, à esquerda e à direita? Não têm agora um ministro com boa imprensa e dinheiro da bazuca europeia para alimentar centros de formação, observatórios, fundações e outros parceiros e colaboradores na implementação das políticas há muito decididas?

O apelo ao diálogo torna-se ainda mais bizarro se pensarmos que os anteriores ministérios de Tiago Brandão Rodrigues e João Costa foram dos que menos dialogaram com os actores educativos, em especial com os mais importantes de todos: os professores no terreno e os seus representantes institucionais. E isto ainda se torna mais evidente se tivermos em conta que o tão elogiado “diálogo” dos governantes com “as escolas” tem sido mais uma sucessão de monólogos: de cima transmitem-se ordens e insinuam-se desejos e vontades; de baixo reproduz-se o discurso que os governantes e os seus mentores pretendem ouvir, condição fundamental para subir posições no ranking das “escolas amigas”.

Avançando na leitura deste improvisado manifesto, percebe-se que os autores pouco têm a dizer. Insistem na redução do abandono escolar, como resultado espectacular da política seguida desde 2015, quando todos estamos fartos de saber, primeiro, que o método de cálculo da taxa de abandono subavalia grosseiramente este indicador, e em segundo lugar que este seria um resultado naturalmente expectável do alargamento da escolaridade obrigatória e de uma forte pressão para a diminuição das retenções. A pandemia, com o recurso ao ensino remoto de emergência e a inevitável flexibilização dos critérios avaliativos – para a qual o ME deu o mote, suprimindo a maioria dos exames – fez o resto.

Passam em seguida ao que verdadeiramente lhes interessa: as alterações ao regime de recrutamento e formação de professores para combater a carência de professores, um fenómeno que durante anos ignoraram mas que agora já não conseguem disfarçar. Percebe-se que o PS já terá umas ideias sobre o assunto, estarão a preparar legislação que obrigatoriamente terão de discutir com os sindicatos e os restantes partidos. E é aqui que entra o tal “pacto”: em nome de uma emergência nacional que o governo subitamente sinalizou, pretende-se agora um consenso generalizado em torno das soluções que o PS irá apresentar. A mensagem final é clara: não estamos dispostos a discutir nem a negociar, aceitamos propostas que “acrescentem”, não que alterem as soluções que pretendemos.

Querem mesmo que vos diga onde podem meter o vosso pacto educativo?…

Um exemplo a seguir

A invasão russa da Ucrânia é intolerável, estando a espalhar a morte, a destruição e o sofrimento entre a população civil, ao mesmo tempo que causa baixas significativas também entre os militares de um e do outro lado? Sem dúvida. É igualmente verdade que nem a guerra começou agora – o conflito entre os separatistas pró-Rússia e o governo ucraniano mantém-se desde 2014 – nem o vizinho Putin, um ditador com demasiado poder e há demasiado tempo no poder, é propriamente flor que se cheire. Uma paz justa e imediata é necessária, com garantias de segurança para os dois países e uma solução negociada para as regiões separatistas em conflito.

Contudo, não há como não denunciar a hipocrisia dos ocidentais que parecem ter descoberto de repente, há um mês atrás, a irracionalidade, a violência e a profunda desumanidade da guerra. Como se não andassem eles mesmos, desde o final da II Guerra Mundial, a espalhar um vasto sortido de conflitos militares pelo resto do mundo.

Ainda assim, os milhares de mortos e os milhões de sacrificados que a guerra na Ucrânia já provocou não terão sofrido e morrido completamente em vão se ela conseguir despertar, na Europa, uma atitude de rejeição de todas as guerras. Estará que o velho continente, que diversas vezes se arvorou em farol da humanidade e da civilização – por exemplo, na rejeição da escravatura ou da pena de morte – preparado para deixar de distinguir entre guerras más e boas, conforme são promovidas pelos seus aliados ou os seus inimigos, partindo para a rejeição universal da guerra e da violência como formas de resolução dos conflitos? Tenho as minhas dúvidas, mas é minha convicção que este grupo de cientistas está a apontar o caminho certo.

Um grupo de matemáticos congratula-se com a decisão da Sociedade Europeia de Matemática (EMS) de suspender a cooperação académica com instituições estatais e empresas na Rússia, na sequência do ataque da Rússia à Ucrânia. Apelam à EMS para que aplique os mesmos princípios universais que tão justificadamente implementou em relação à Rússia e suspenda a cooperação académica com os membros institucionais israelitas até que os seus colegas palestinianos possam usufruir dos plenos direitos académicos e políticos a que têm direito. […]

Há décadas que o povo da Palestina está sujeito a repetidos ataques militares, a invasões periódicas extremamente destrutivas, e a uma ocupação militar sustentada, em violação do direito internacional, uma situação que tanto as ONG internacionais como as israelitas qualificaram como apartheid. O Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptou mais de 200 resoluções apelando a Israel para que desista, e o Tribunal Internacional de Justiça decidiu que o muro do apartheid é ilegal e que Israel tem a obrigação de o desmantelar. Apesar destas condenações, Israel continua com as suas graves violações do direito internacional.

(Photo: Palestine Solidarity Campaign)

Iémen, a maior crise humanitária do mundo

Não é relativismo, nem whatabaoutismo. A invasão da Ucrânia é intolerável e a guerra deve parar urgentemente, com negociações que garantam uma paz justa e condições para a reconstrução e a estabilidade futura da Ucrânia e de outras repúblicas e territórios que resultaram de uma desagregação mal resolvida da antiga União Soviética.

A brutalidade da guerra não renasceu nem foi inventada agora na Ucrânia, depois de décadas de paz mundial. Em maior ou menor número de conflitos activos, nunca deixou de estar presente no mundo desde que terminou a pior de todas, a II Guerra Mundial.

Sendo natural e compreensível que a prioridade europeia seja agora ajudar os ucranianos que fogem, lutam e sofrem sob a agressão russa, a guerra não pode continuar a ser tolerada, quando não incentivada, desde que aconteça noutras geografias e latitudes. Toda a guerra agressora é ilegítima. Sancionar os agressores e prestar assistência humanitária às suas vítimas é um dever de toda a comunidade internacional, independentemente dos locais e das circunstâncias dos conflitos.

O Iémen é presentemente o país mais martirizado pela guerra, uma guerra que já dura há quase uma década. Não sei se por ficar no Médio Oriente, uma região tradicionalmente propensa a conflitos militares, se por os principais agressores formarem uma aliança patrocinada e apoiada militarmente pelos Estados Unidos, é uma guerra cujas vítimas não parecem incomodar as sensibilidades ocidentais. Mas deviam.

As imagens deste post circulam pelas redes sociais. O texto que se segue, e que traduz a dimensão da tragédia iemenita, é retirado de fonte insuspeita, o site em português da Organização das Nações Unidas.

O Iémen está envolvido numa guerra civil, desde a ocupação da capital pelos rebeldes houthis, em 2015. O país enfrenta uma crise humanitária sem precedentes que envolve 80% da população.

Cerca de 20 milhões de pessoas no Iémen precisam de apoio humanitário. Mais de 16 milhões sofrem de insegurança alimentar e 5 milhões está em risco de morrer à fome, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

As crianças iemenitas crescem em condições delicadas e sofrem com a escassez alimentar, assim como com o fraco acesso à educação que condiciona o seu futuro. 360 mil crianças com menos de 5 anos sofrem de malnutrição aguda e 30 mil morrem por falta de acesso a cuidados de saúde.

O acesso a água potável tornou-se um grande desafio e a falta de saneamento adequado aumentou o risco de doenças transmissíveis.

O Iémen arrisca-se a enfrentar “a maior fome do mundo em 100 anos”, alertou a coordenadora humanitária da ONU no Iémen, Lise Grande. Segundo a coordenadora, 13 milhões de civis podem morrer à fome se as forças lideradas pela coligação da Arábia Saudita não puserem fim aos bombardeamentos que assolam o país.

Os números são dramáticos. O Iémen não pode esperar.

Autodeterminações e relativismos

É inteiramente justo e legítimo defender o direito do povo ucraniano a decidir de forma livre e independente o seu destino, forma de governo, alianças internacionais a que deseja pertencer.

Mas o mesmo já não parece aplicar-se aqui bem perto de nós, ao povo saraui, cujo território foi colonizado pela Espanha e, na sequência de um processo de descolonização inacabado, invadido em 1975 por forças marroquinas. Uma ocupação ilegal, não reconhecida pela ONU nem, até agora, pela Espanha, antiga potência colonial.

Na verdade, foi preciso chegar ao poder um governo “de izquierdas” para que o país vizinho deixasse cair, em nome da normalização das relações com o reino de Marrocos, a defesa do princípio da autodeterminação do Saara Ocidental, contentando-se agora com a concessão de uma vaga “autonomia” como súbditos de Mohamed VI. Uma decisão vergonhosa, que contrasta vivamente com um caso muito semelhante, o de Timor-Leste, e a defesa persistente que Portugal soube fazer do direito à autodeterminação do povo timorense, até que este alcançasse finalmente a independência.

Fica-nos bem criticar a dependência alemã em relação ao gás russo, e os constrangimentos que isso está a colocar a toda a União Europeia, mas dá-nos jeito contemporizar com o poder autocrático do rei de Marrocos, para que o gás argelino nunca ameace faltar na Península Ibérica.

Numa carta enviada ao rei Mohammed VI, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reconheceu “a importância da questão do Saara para Marrocos” e que “Espanha considera a iniciativa de autonomia apresentada por Marrocos como base em 2007 a mais séria, realista e credível para solucionar a disputa”, indicou hoje o palácio real marroquino em comunicado.

Espanha, que ainda é considerada a potência administrativa colonial do Saara ocidental desde que abandonou o território, em 1975, defendeu durante muito tempo que o controlo de Marrocos sobre o Saara ocidental era uma ocupação e que a realização de um referendo patrocinado pela ONU deveria ser a forma de decidir a descolonização do território.

Hoje, confirmando a alteração da sua posição, o Governo de Madrid emitiu um comunicado anunciando o início de uma “nova fase” na relação com Marrocos, assente “no respeito mútuo, no cumprimento dos acordos, na ausência de ações unilaterais e na transparência e comunicação permanente”.

Miserável!

O presidente executivo da plataforma We Help Ukraine rejubila com a chegada de refugiados ucranianos a Portugal e o impacto que estas pessoas poderão ter no mercado laboral. Estando este dominado, já se sabe, por portugueses preguiçosos, reivindicativos, conscientes dos seus direitos e, lá está, que “não querem trabalhar”.

O falso humanitarismo desta gente expõe-se, em toda a sua hipocrisia e cinismo, quando os vemos salivar ante a perspectiva de conseguirem mão-de-obra qualificada a trabalhar de sol a sol sem reclamar os seus direitos, sacrificando-se para sustentar os filhos. Para este ser amoral, a guerra pode bem prolongar-se por gerações e trazer até nós cada vez mais refugiados, se isso beneficiar o patronato viciado em baixos salários e trabalho sem direitos.

Nem parece saber, ou perceber, que já tivemos, na viragem do milénio, um forte afluxo de imigrantes ucranianos, que também trabalhavam muito e exigiam pouco. Demo-nos ao luxo de empregar físicos, médicos e engenheiros na construção civil e em tarefas de baixa qualificação. Claro que, assim que tiveram oportunidade, a grande maioria procurou outras paragens onde o seu trabalho e as suas competências fossem devidamente valorizadas.

Profissão do senhor? Professor e director no ISCTE, depois de ter desempenhado idênticas funções na “escola de negócios” da Universidade Nova. Confere, e perceber como andam a ser (de)formadas as novas gerações de gestores e “empreendedores” ajuda a compreender muita coisa…