Não há dados para ninguém!

dados-fechadosComo é possível que o ME desrespeite reiteradamente as recomendações da Comissão de Acesso aos Dados Administrativos – mesmo depois de ter dito que as aceitaria – e nada aconteça?

O caso, denunciado pela Fenprof, já tem uns anos e refere-se às listas de graduação para acesso ao 5.º e ao 7.º escalão. A lei determina os critérios de ordenação dos candidatos nas listas. Mas, alegando a protecção de dados, o ME omite informação relativa aos critérios de desempate, impedindo assim os candidatos de verificar se estão no lugar certo. Mesmo quando um ou outra ultrapassagem possa parecer evidente…

Os dois elementos de graduação omissos são a nota da última avaliação do desempenho e a idade do docente. Ora como este último sempre foi presença habitual em listas de graduação, sem que isso alguma vez tivesse levantado problemas, percebe-se que o verdadeiro incómodo do ME é com a notinha da ADD. A confidencialidade da avaliação do desempenho foi um princípio definido desde o início e é essencial para salvar um modelo avaliativo no qual a generalidade dos professores não se revê. Esconder dos restantes docentes a nota que cada um teve é uma forma de proteger um sistema de avaliação iníquo. Ver professores com desempenhos semelhantes a terem notas diferentes e outros a serem valorizados por factores exteriores ao exercício da docência seria pôr a nu as injustiças de um sistema que funciona colocando os professores a competir uns com os outros por um prémio que a grande maioria nunca consegue alcançar.

Neste contexto, publicar as classificações da ADD, mesmo que dum pequeno universo de docentes, poderia significar a abertura de uma caixa de Pandora que o ME quer a todo o custo evitar. E se os professores nas escolas, inconformados por não terem o Muito Bom ou o Excelente, começassem a exigir saber as notas dos que ficaram com as vagas? Na ADD a que temos direito, o segredo é a alma do negócio…

Em 2018, a FENPROF confrontou o Ministério da Educação com o facto de, nas listas de candidatos à progressão aos 5.º e 7.º escalões da carreira docente, não constarem os dados relevantes para que se confirmasse a correção da ordem em que surgem os candidatos.

Em resposta à questão colocada pela FENPROF, o chefe de gabinete da então Secretária de Estado Adjunta e da Educação (Dr.ª Alexandra Leitão), em 18 de abril de 2018, escrevia que “As Listas publicadas são Listas provisórias elaboradas com base nos dados facultados pelas Escolas. Estas Listas contêm os dados necessários e suficientes para que os interessados possam apresentar a sua reclamação quer em relação aos seus dados, quer em relação aos dos demais docentes. Relembramos que as Listas devem respeitar o disposto no artigo 49.º do Estatuto da Carreira Docente, sem prejuízo do direito de acesso dos interessados às informações pertinentes previsto no Código do Processo Administrativo e demais legislação aplicável”. Posteriormente, em reunião realizada no Ministério da Educação, face à reclamação da FENPROF pela resposta recebida, a Secretária de Estado Adjunta e da Educação acrescentava aos argumentos apresentados a necessidade de proteção dos dados que eram reclamados.

Face a este novo argumento, alegadamente determinante da opção do Ministério da Educação, a FENPROF recorreu à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) procurando esclarecer as dúvidas que pairavam sobre esta justificação. Face à afirmação da FENPROF que, a não divulgação dos elementos pretendidos “constitui uma violação do princípio da transparência, que deve estar subjacente a todos os atos da Administração”, a CADA, não só não a contrariou, como concluiu que “as listas de graduação dos professores podem conter e tudo aconselha que contenham os dados concretos relativos aos critério regulamentar de ordenação, bem como aos critérios de desempate utilizados…”. Os dados que deveriam ser divulgados seriam: tempo de serviço prestado pelo docente no escalão em que se encontra; última avaliação do desempenho, apurada quantitativamente até às milésimas; data de nascimento do candidato. Os dois últimos requisitos são fatores de desempate do primeiro.

Em 16 de julho de 2019, depois de conhecida a posição da CADA e, agora, já relativamente às listas divulgadas nesse ano, podia ler-se num órgão de comunicação social que, questionado, o Ministério da Educação informara que “Tendo em conta que o parecer da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos autoriza que as listas de graduação de acesso ao 5.º e 7.º escalões devem conter todos os dados que constituem critério regulamentar de ordenação e critérios de desempate, foi dada indicação à Direcção-Geral da Administração Escolar para conformar as listas ao parecer da CADA”.

Este ano – 2020 –, as listas voltaram a ser publicadas como se nada tivesse acontecido antes, ou seja, exatamente como tinham sido divulgadas nos dois anos anteriores. Questionado pela FENPROF, o chefe de gabinete da Senhora Secretária de Estado da Educação, Dr.ª Susana Amador, fez chegar uma resposta hoje (19 de junho de 2020) na qual se limita a plagiar a de há dois anos: “As listas de graduação dos docentes, publicadas em 29.05.2020, são listas provisórias elaboradas com base nos dados facultados pelas Escolas. Estas listas contêm os dados necessários e suficientes para que os interessados possam apresentar a sua reclamação quer em relação a dados próprios, quer em relação aos demais docentes. É ainda de salientar que as listas devem respeitar o disposto no artigo 49º do Estatuto da Carreira Docente, sem prejuízo do direito de acesso dos interessados às informações pertinentes, previsto no Código do Procedimento Administrativo e demais legislação aplicável”.

Pensamento do dia

javierOs que afirmam que a aula magistral está obsoleta e deve desaparecer estão a aproveitar o confinamento para partilhar webinars, masterclasses e conferências virtuais sobre métodos activos.

Javier

Bom domingo!

Mais um “amigo dos professores”…

escola-covid

O plano do Ministério da Educação para o regresso às aulas presenciais para os alunos do 11.ª e os 12.ª anos de escolaridade não será perfeito. Mas classificá-lo como irresponsável e absurdo, como fez o líder do maior sindicato dos professores, é passar um atestado de incompetência aos diretores de escolas, aos professores e também aos alunos.

É certo que o cumprimento das regras anunciadas vai depender em grande parte da capacidade das escolas e dos recursos técnicos e humanos disponíveis. Todos os estabelecimentos de ensino têm as suas particularidades, quer em dimensão quer em contexto social e económico. Todos são diferentes, como o são professores e alunos.

O que é importante é minimizar as desigualdades no ensino. É bom não esquecer que a presença dos alunos não será obrigatória e, portanto, adivinha-se que os estudantes com melhores condições económicas vão socorrer-se de mais explicações, recurso que já seria frequente nesta fase do calendário escolar, independentemente das circunstâncias atuais. Portanto, é necessário garantir aos outros alguma justiça nas condições em que serão avaliados.

Duvidar ainda que os alunos serão capazes de se comportarem dignamente durante os intervalos que terão de permanecer dentro das salas de aulas é tratar, por exemplo, os mesmos jovens que estão na vanguarda da consciencialização ambiental como irresponsáveis.

O texto de opinião do director-adjunto do JN ainda prossegue, mas o essencial está dito. O primeiro parágrafo da prosa é especialmente revelador: quando um articulista pretende enaltecer os professores começando por atacar os seus representantes, é certo e sabido que o elogio é venenoso e interesseiro. Tentar desacreditar os sindicatos que defendem os direitos e interesses de uma classe é uma velha estratégia para atacar a classe no seu todo. Claro que é mais fácil dobrar os professores quebrando a sua consciência colectiva e deixando cada um isolado no seu “contexto”. “Todos diferentes”, para que seja cada um por si e se tornem mais difíceis a união e a luta colectiva. Este Molinos sabe muito…

Na verdade, a posição sindical não chama incompetentes aos professores. Pelo contrário, enaltece a sua competência profissional. Pois os profissionais da Educação são isso mesmo, professores e educadores, não médicos, epidemiologistas, enfermeiros ou técnicos de saúde pública. Os professores já são, involuntariamente ou por dever de ofício, muitas coisas. Não nos obriguem também a ser especialistas em confinamentos, desinfecções e contaminações. E se mesmo em hospitais, laboratórios e centros de saúde, onde é suposto trabalharem especialistas que sabem o que andam a fazer, os contágios acontecem, não é difícil perceber que as oportunidades de propagação da doença aumentam exponencialmente no meio escolar, caso não se tomem os devidos cuidados. A abertura apressada das escolas pode despoletar um grave problema de saúde pública, se o assunto não for entregue a quem saiba o que anda a fazer.

Vem depois a deriva em torno das desigualdades no sistema, um velho problema que se teima em manter desligado da questão de fundo que o origina, que é a desigualdade na própria sociedade. E a incapacidade de pôr em causa uma das vacas sagradas do regime, os exames para entrar na faculdade. Como se fosse impossível conceber outra forma, mais lógica, coerente e justa para organizar o acesso ao ensino superior, do que usar para o efeito os exames do secundário. Enquanto os mais ricos pagam as explicações e os colégios que garantem as notas de acesso, outros vão-se contentando em exigir “alguma justiça” para os pobres e os remediados. Só que a justiça não é algo que deva ser servido às meias doses. Não será já tempo de exigir simplesmente justiça – um sistema de acesso ao ensino superior justo para todos?…

Finalmente, os jovens. E a velha tentação de tratar a juventude como uma categoria homogénea, quando entre os jovens, como no resto da sociedade, existe de tudo. Há-os social e ambientalmente responsáveis, há-os respeitosos e cumpridores. Mas também os há irresponsáveis, impulsivos, egocêntricos, inconscientes. E há quem possa ser um pouco disto tudo. Afinal de contas, estamos a falar de personalidades em processo de formação e amadurecimento, no qual as componentes afectivas e emocionais assumem um papel muito importante. Quem lida com gente jovem sabe como os humores variam e que a mesma pessoa, em diferentes contextos, pode reagir de formas muito distintas. E quão poderosa pode ser a dinâmica de grupo na modelação de atitudes, comportamentos e formas de estar e de agir dos nossos alunos.

Sim, a juventude pode ser egocêntrica e irresponsável, até mesmo aquela que se mobiliza em torno de causas nobres como a da defesa do nosso planeta. Um reconhecimento que não deve servir para acusar os mais jovens de não terem a maturidade, o conhecimento e a experiência que são atributo dos mais velhos. O activismo corajoso e determinado de Greta Thunberg não pode servir de desculpa para a inacção dos decisores políticos e económicos. Da mesma forma, não é admissível que o sentido de responsabilidade de alunos e professores sirva de pretexto para que os responsáveis da Educação e da Saúde se eximam às suas responsabilidades.

Não aprenderam nada

covid-recessao.jpgAs medidas anunciadas por Costa de “ajuda às famílias e empresas” linhas de crédito, com juros, inclusivé nas moratórias de crédito à habitação para famílias, tudo com juros. Não são ajudas – são um novo resgate bancário, pago com as pensões dos portugueses. A isto junta-se a redução da TSU para as empresas, que é a parte dos empresários para a Segurança Social que deixa de ser paga ou é reduzida; e o Lay off, pago pela Segurança Social (reformas e pensões dos idosos e reformados), para mandar os trabalhadores para casa, com cortes salariais. Se Costa não tivesse anunciado este pacote de medidas, supostamente para ajudar “famílias e pequenas empresas” estas empresas, todas dependentes da Banca até para viverem 15 dias, iam entrar em incumprimento com a Banca, e a Banca ia falir. Sim, vivemos num país onde as empresas não conseguem sobreviver 15 dias sem a Banca – são na verdade empresas que só existem não porque são empreendedores, mas porque vivem dependentes da Banca. Um pequeno café de aldeia mandou os trabalhadores para casa e paga-lhes o salário completo 2 meses. A Padaria Portuguesa, com dezenas de lojas, manda-os para casa em Lay-off e pede que a nossa reforma e pensão e serviços públicos lhes pague as dívidas à Banca, delapidando a Segurança Social.

As famílias não foram ajudadas – há milhares de despedimentos, e pode-se, com esta lei de Costa, fazer lay off e continuar a despedir. As pequenas empresas também não foram ajudadas, porque estas medidas só conseguem proteger as grandes. As outras não têm condições de se endividar, estão apenas à espera do fim – é isso que esta lei permite, aguardar pelo fim. O fundo das reformas dos nossos idosos – que supostamente Costa trata bem, e o Ministro holandês mal – vai para o poço, desaparecer, e a Segurança Social falir. O esquema piramidal financeiro mantém-se, salvo. Os trabalhadores ficam na miséria, as empresas despedem com o auxílio da reforma dos idosos, e as grandes aguardam, sem fazer pagamentos, com os lucros e dividendos protegidos, acumulados, para vir ao mercado daqui a uns meses comprar as pequenas empresas falidas e oferecer aos trabalhadores metade do salário. Tudo isto com o uso das reformas também de médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros, e professores, a quem farão elogios públicos, enquanto cortam nas reformas, porque “não há dinheiro”. Não aprenderam nada, com 2008.

Raquel Varela denuncia, certeiramente, a hipocrisia das “ajudas” que o Governo, sob a batuta da ortodoxia neoliberal e monetarista que continua a comandar as políticas europeias, se prepara para impor em Portugal.

Na verdade, se são as famílias que perdem empregos e rendimentos e as pequenas empresas que a crise deixa com a corda na garganta, faria todo o sentido apoiar directamente quem está em dificuldades. Até porque, ao saldarem as suas dívidas e comprarem o que necessitam, esse dinheiro acaba por circular por toda a economia, beneficiando também, e como sempre, as grandes empresas, os bancos e até o Estado.

Financiar directamente os grandes, delapidando os cofres públicos e os fundos da segurança social, será apenas repetir a longa e desatrosa recessão que se seguiu à crise de 2008: a estagnação de uma economia atolada em dívida, a par da fuga de capitais e do fortalecimento da especulação financeira e dos grandes grupos económicos.

Por detrás da desejada “união nacional” na guerra colectiva contra o coronavírus, subsiste o eterno conflito de interesses entre uma elite gananciosa e predatória, para quem a crise de saúde pública é apenas mais uma oportunidade de continuar a enriquecer, e a generalidade dos cidadãos, que querem preservar a sua saúde sem alienar o seu futuro. Em vez de consensos de regime legitimados por “guerras ao vírus” ou estados de emergência, precisamos, agora e sempre, de denúncia e pensamento crítico, de discussão aberta e ideias alternativas.

Hoje tenho a certeza, inabalável, que o maior mal que pode atingir uma sociedade é a ausência de contraditório, de pensamento crítico, de alternativa, podemos resistir a uma quarentena, não podemos resistir à ausência de reflexão crítica. Esta crise, sem pensamento crítico e políticas alternativas, vai reforçar a tragédia em que o país está, e não ajudar a sair dela. Era a hora de nacionalizar a banca sob controlo público e resgatar as pequenas empresas e os trabalhadores; e nas grandes empresas, usar os activos para pagar a Segurança Social e reforçá-la. Em vez disso caminhamos para mais do mesmo – qualquer manual de economia básico sabe como funcionam as linhas de crédito numa economia de PMEs como a nossa. Rio já disse que apoia Costa nesse caminho desastroso.

Podemos e devemos discordar, debater abertamente. Não podemos deixar de informar, pensar e projectar cenários realistas. É o que se espera de todos aqueles que têm presença e voz públicas. Sem contraditório não há democracia.

Sosseguem o espírito… e lavem as mãos!…

person washing hands

Assim como tantos políticos responsáveis lavam as mãos em vez de assumirem as suas responsabilidades, também nós, professores, devemos esforçar-nos por perder esta mania de que vamos endireitar o mundo, assumindo tarefas e obrigações que vão muito além do que podemos e devemos fazer.

Exprime-o muito bem Duarte Gonçalves, num grupo público de professores no Facebook, em texto que publico com a devida vénia…

Muitos de vós devem ter COVID-19.
Como sei?
Bem… Estão com febre alta. Nos últimos 3 dias tem sido um autêntico delírio coletivo pelo teletrabalho, ensino à distância, e-learning e comp.a lda que até faz aflição.
Ainda nem a Dgeste sabe muito bem o que fazer (a não ser emitir umas orientações vagas), e vocês já andam feitos baratinhas tontas a inventar tudo e mais alguma coisa… para alunos que nalguns casos não dispõem de meios e outros que não têm interesse.
Sosseguem o espírito por uns dias. Façam como fez (faz) o governo e vejam no que vai dar. Já toda a gente percebeu que o ano letivo “ardeu”. E ninguém é ingénuo a ponto de pensar que passaremos de currículos estruturados para currículos do “salve-se quem puder”.
Acreditam mesmo que um sistema de ensino cheio de objetivos e metas e aprendizagens essenciais e tretas vai passar a ser feito por ferramentas interativas do dia para a noite???
Esqueçam lá isso. O que estão a pedir é que procurem manter os vossos alunos ocupados. Apenas isso.
Aliás, esta modalidade de ensino até tem a desvantagem de cavar um fosso ainda maior entre os alunos de estratos sócio-económicos díspares.

Lavem as mãos.

A propósito dos “chumbos”

chumbo_2_1_1_1_1_1_1_1_1_1_1_1Só um em cada cinco alunos carenciados não chumba até ao 9º ano

O título é apelativo e a realidade que retrata é incontornável: os alunos pobres reprovam mais. Contudo, a forma como se usam os números tende a distorcer a realidade. Os alunos que estão agora no secundário e que fornecem a base destas estatísticas enfrentaram uma realidade, ao nível do ensino básico, que já não é a dos nossos dias. Pois tem havido uma descida lenta, mas consistente, das taxas de retenção em todos os níveis de ensino.

Contudo, sempre que acusa a escola de fazer muito pouco para ajudar os seus alunos a superar as carências materiais e culturais do seu meio de origem, como se os professores os “chumbassem” por serem pobres e não por não terem aprendido, é pertinente devolver a questão: se estes alunos passarem de ano, deixam de ser carenciados?

Pretendemos mesmo combater todas a pobreza a todos os níveis –  material, mental e cultural – ou queremos apenas que a escola produza um simulacro de sucesso que nos permita dizer que o sistema funciona? Ou seja, que conseguimos eliminar na escola as desigualdades e as injustiças de base, o que nos permite não ter de o fazer na sociedade?

Pois não basta notar que Portugal é dos países em que a correlação entre pobreza e insucesso escolar é mais forte e evidente. Deve-se notar que o nosso país continua a ser, no mundo desenvolvido, um dos que regista desigualdades sociais mais profundas e persistentes. E que pouco ou nada vai fazendo para as atenuar.

Num país que continua a premiar uma elite empresarial e política corrupta e incompetente, a ser complacente com a precariedade laboral e os baixos salários, a promover o emprego pouco qualificado e a fazer do turismo a principal indústria nacional, muito pouco está a ser feito para que o aumento da escolarização das novas gerações propicie a desejada mobilidade social, por falta de emprego qualificado.

É possível criar uma escola de sucesso, mais justa, igualitária, inclusiva e democrática, quando a sociedade o não é?…

A verdade sobre os sindicalistas presentes – e os ministros fujões

fuga.gifUm conselho de ministros em Bragança, no âmbito uma governação de proximidade e de abertura ao diálogo e ao contacto com as populações.

A narrativa governamental dizia mais ou menos isto, mas a retórica do diálogo e do confronto com os problemas e as realidades rapidamente foi descartada, perante a informação de que no exterior do local onde se realizou o conselho de ministros estava uma delegação da Fenprof. O seu objectivo seria entregar uns postais dos professores ao Governo e trocar breves palavras acerca das reivindicações da classe.

A opção de António Costa e do seu séquito ministerial foi então a saída pela porta dos fundos do Cineteatro de Bragança, evitando o diálogo com os manifestantes.

Entre as cenas pouco edificantes desse dia, há ainda a referir as insinuações postas a circular pelas hostes governamentais e pela comunicação social –  que algum anti-sindicalismo docente resolveu também amplificar – de que os sindicalistas, frustrada a tentativa de chegar à fala com António Costa, terão tentado “forçar a entrada” no local da reunião.

Seria caso para dizer-se que, com colegas tão empenhados em dar tiros nos próprios pés e nos de quem os representa, os professores nem precisariam de inimigos. Valha-nos a PSP que veio, a bem da verdade, esclarecer como tudo se passou…

Segundo a PSP, “a entrada e saída dos membros do governo não sofreu qualquer alteração ou constrangimento causado pela presença de um conjunto de manifestantes afetos à FENPROF”, que organizou uma manifestação na Praça Cavaleiro de Ferreira, em frente ao Teatro Municipal, quando decorria o Conselho de Ministros. Na ocasião, Mário Nogueira disse aos jornalistas que queria entregar sete mil postais, com reivindicações ao primeiro-ministro, mas não chegaram a cruzar-se.

Na mesma nota de imprensa, a PSP esclarece que, “enquanto decorria a conferência de imprensa, o líder da FENPROF aproximou-se de uma das portas de acesso, questionando o comandante do policiamento quanto à possibilidade de efetuar a entrega de umas caixas, tendo-lhe sido comunicado que tal não era possível. Não existiu, em momento algum, qualquer atitude hostil por parte deste dirigente sindical que, apesar de aludir a algumas palavras de ordem, abandonou o local, sem registo de qualquer incidente”.

A PSP acrescenta que “os manifestantes mantiveram um comportamento que se pautou pelo respeito pela ordem e legalidade democrática, que não indiciava qualquer preocupação especial de segurança”.

Só 6000?

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Cerca de 45 mil professores tiveram uma promoção em 2019. Destes, mais de 6000 atingiram o o 10.º escalão, o mais elevado da carreira docente, que estava até agora praticamente vazio, revela o “Público” esta sexta-feira.

De acordo com o Ministério da Educação, no final do ano passado, 6,2% dos professores estavam no 10.º escalão. Conforme lembra o jornal, o 10.º escalão era um patamar da carreira docente que estava até aqui praticamente vazio.

Se não fossem os 9 anos e 4 meses de congelamento das carreiras, muitos mais docentes deveriam estar no topo da respectiva carreira.

Nas contas de sumir que habitualmente servem para destacar o elevado impacto salarial da classe docente omite-se quase sempre o reverso da medalha: os professores terão contribuído, mais do que qualquer outro grupo profissional da função pública, para o endireitar das contas públicas, ajudando a tapar os buracos financeiros que outros escavaram.

Da parte do actual governo é pouco digno quererem  apresentar como uma benesse dada aos professores o reconhecimento, tarde e a más horas, do direito à sua carreira, depois de terem cumprido todos os seus deveres profissionais – tempo de serviço, avaliação, formação – e terem mesmo assim ficado impedidos de progredir.

Violência hospitalar

medica-agredidaA Ordem dos Médicos condenou a agressão a uma médica que assegurava o serviço de urgência do Hospital de Setúbal, esta sexta-feira, e exigiu uma “intervenção urgente” do Ministério da Saúde, do Ministério Público e de outras entidades.

Em comunicado emitido este sábado, a Ordem dos Médicos considera o ocorrido “absolutamente inaceitável”, lembra que configura crime público e pede intervenção urgente das entidades governamentais e judiciárias.

“A nossa primeira palavra de solidariedade é para com a nossa colega violentada em pleno local de trabalho. Não é de todo aceitável que quem está a salvar vidas não veja a sua própria vida devidamente protegida”, refere o bastonário da OM, Miguel Guimarães.

A Ordem alerta que os casos de violência contra profissionais de saúde estão a aumentar e lamenta que “este aumento exponencial da violência seja mais um sinal de que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não está bem”.

“Este tipo de agressões vem mais uma vez revelar a fragilidade da política autoritária que está a ser seguida pelo Ministério da Saúde. Na verdade, a falta de um plano estruturado para a saúde que inclua as reformas essenciais e um investimento sério na saúde das pessoas, mas também nos profissionais que todos os dias fazem o SNS, está a resultar numa desestruturação do próprio serviço público com taxas cada vez mais elevadas de abandono, de absentismo, de sofrimento ético, de ‘burnout’ e de violência física e psicológica”, adverte a OM.

A OM pede também uma intervenção “mais assertiva das autoridades judiciais nestes casos e que o Ministério da Saúde tenha uma intervenção rápida e urgente”, com medidas e políticas concretas que permitam prevenir este tipo de situações e devolver aos profissionais e aos utentes “um SNS em que o respeito, a confiança, a segurança e a qualidade imperem em todas as suas vertentes”.

“Corremos o risco de termos cada vez menos profissionais disponíveis para trabalhar em contextos exigentes como o serviço de urgência”, aponta Miguel Guimarães, lembrando que “a qualidade e a segurança clínica também podem ser afetadas pelos contextos de pressão excessiva”.

Uma posição clara e assertiva da Ordem dos Médicos em defesa da colega agredida e de todos os médicos que trabalham em condições que põem em risco a sua saúde e a sua segurança.

Muito bem também, a OM, a ir ao fundo da questão e a denunciar que estes casos, que lamentavelmente vão sucedendo com mais frequência e vitimam profissionais de saúde, da educação e de outros serviços públicos, são o resultado directo do desinvestimento e da incúria dos responsáveis políticos e institucionais. Lembrando, muito bem, que nenhum profissional pode ser obrigado a trabalhar num contexto em que não esteja acautelada a sua segurança física.

Se nos dizem que vivemos num dos países mais seguros e pacíficos do mundo, que a criminalidade violenta está a diminuir, então temos o direito de exigir que esta seja uma realidade nas nossas vidas pessoais e profissionais e não apenas uma retórica oca, construída a partir de uma estatística feita a martelo. Se não aceitamos que um qualquer governante possa levar uns sopapos de um cidadão descontente com as suas decisões, também não temos de aceitar a normalização da violência contra os profissionais que asseguram a prestação dos serviços públicos.

De resto, a política irresponsável do Governo vai fazendo as suas vítimas: além dos profissionais que sofrem as agressões, é a própria democracia e o Estado de direito que são ameaçados. Pois quando as forças políticas tradicionais fecham os olhos aos problemas graves sentidos pelos cidadãos, escancaram as portas a um populismo que só tem de cavalgar pelo caminho que lhe é aberto. E não se diga que a culpa é do deputado “fascista”, pois ela cabe inteirinha aos responsáveis incapazes de estar à altura das suas responsabilidades…

Nas suas redes sociais, André Ventura, deputado do partido Chega, refere que “Recebi a informação de que a agressora desta médica em Setúbal (bem como a família que estava no consultório) são de etnia cigana. Não surpreende muito, na verdade. Chegará o dia em que nos vão dar razão : há em Portugal um enorme e gritante problema com a integração da comunidade cigana.

O abandono dos professores

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O Sexta às Nove da semana passada divulgou o testemunho da professora Lígia Pinto, violentamente agredida à saída da escola por uma encarregada de educação. A reportagem, que pode ser revisitada clicando na imagem, revolta não só pelo carácter bárbaro e gratuito da agressão mas também pelo sentimento de impunidade dos agressores e, como corolário, a indiferença das autoridades educativas.

Lígia Pinto, tal como sucede demasiadas vezes com os professores que passam por estas situações dolorosas, ficou entregue a si mesma, sem qualquer ajuda ou manifestação de solidariedade da parte da direcção do agrupamento ou dos responsáveis ministeriais.

Ainda assim, o ministério que não mexe uma palha em defesa dos profissionais que mantém ao seu serviço, sentiu a necessidade de defender a sua imagem perante a opinião pública. Preocupado com o impacto mediático da notícia, fez saber aos jornalistas que já teria sido concedida uma mobilidade à professora Lígia, para que não voltasse a ter de trabalhar na escola onde foi vítima das agressões.

ligia-pinto.pngPois bem, a sonsice e o oportunismo dos responsáveis tiveram, desta vez, resposta à altura. E foi a própria professora que, nas redes sociais, esclareceu o que de facto se passou…

Recorte daqui.