Armas químicas na Síria: invenção ou realidade?

guerra-syria.JPGEnquanto se aguarda que os peritos internacionais digam de sua justiça, uma voz aparentemente insuspeita diz-nos, em bom Português, que a história das armas químicas foi inventada. A Irmã Myri é uma freira portuguesa a viver junto do cenário de guerra e a contactar directamente com as populações fustigadas pelos confrontos de uma guerra civil que tarda em acabar.

Uma “história inventada” e mais “uma desculpa para poderem atacar”. Foi assim que a Irmã Myri, uma jovem portuguesa que vive no Mosteiro de São Tiago Mutilado, em Qara, se referiu, segundo a Fundação AIS, ao ataque com armas químicas que o regime de Bashar al-Assad alegadamente realizou em Douma, no dia 7 de Abril, e que justificou a resposta militar conjunta na madrugada de Sábado pelos Estados Unidos, França e Reino Unido.

Maria de Lúcia Ferreira afirma que “não houve nenhum eco de armas químicas aqui no país. Não se ouviu dizer nada. Se tivesse havido algum massacre com armas químicas seguramente que teria havido alguém da parte do exército ou das famílias ou dos refugiados que saíram de Douma, e que são milhares… Mas não houve eco nenhum no país da utilização de armas químicas. É pois, para a população, mais uma história inventada, mais uma desculpa para poderem atacar.”

“As pessoas aqui habituaram-se à guerra… Uma pessoa estando no local não pode fazer outra coisa do que confiar-se em Deus e ficar.”

Reais ou inventadas, percebe-se que as armas químicas foram um pretexto para os países ocidentais que sentiram necessidade de marcar posição no conflito sírio através do lançamento de mais uma série de mísseis.

A verdade é que esta política errática do Ocidente, que ora apoia ditadores que garantem bons negócios e estabilidade política, ora incentiva movimentos rebeldes em nome de miríficas Primaveras Árabes que acabam a promover o fundamentalismo islâmico, está cada vez mais longe de garantir a paz e a segurança, no Médio Oriente e no resto do mundo.

Incentivar e promover a democracia e o respeito dos direitos humanos, apoiar o desenvolvimento económico e social e a laicização das sociedades muçulmanas, ajudar todos os que, por meios pacíficos, queiram contribuir para a paz e o bem-estar do seu próprio povo: eis algumas políticas que, a longo prazo, trarão verdadeiros benefícios. Ao contrário das tentativas frustradas de semear a democracia lançando bombas e atiçando guerras, que apenas alimentarão maiores rancores e novos radicalismos.

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Finalmente juntos!…

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Ainda há dias Mário Nogueira se queixava do desaparecimento do ministro da Educação, sistematicamente ausente das reuniões entre o governo e os sindicatos de professores.

Pois o ministro até agora sem agenda para discutir, com os representantes dos professores portugueses, os problemas da classe docente que o seu governo tarda em resolver, marcou presença hoje, ao lado dos dirigentes sindicais, na delegação portuguesa à Cimeira Internacional sobre a profissão docente.

Onde irá certamente fingir, perante políticos e sindicalistas de outros quinze países, o interesse e a disponibilidade do seu governo em valorizar os professores que quotidianamente desrespeita.

Tiago Brandão Rodrigues tarda em ganhar iniciativa política e em dominar os dossiers do sector que tutela com notória inexperiência. Já a típica sonsice dos políticos profissionais, essa parece estar a aprendê-la bem…

Violência entre alunos numa escola do 1º ciclo

padrao-da-legua.JPGUm grupo de pais de alunos da escola básica do Padrão da Légua, em Leça do Balio, Matosinhos, manifestou-se esta segunda-feira em frente à escola contra a “insegurança” no estabelecimento devido a “casos de violência” entre alunos.

De acordo com fonte da Associação de Pais daquele estabelecimento, os pais reclamam que as medidas preventivas e disciplinares previstas por lei sejam aplicadas na escola.

“Precisamos de mais psicólogos, animadores, assistentes sociais, o que for preciso. Precisamos que nos ajudem a ter uma escola normal, sem indisciplina”, disse.

Questionada pelos jornalistas sobre o que tem acontecido dentro da escola, a responsável afirmou que “há alunos a entrar e a sair das aulas sem controlo, há insultos a professores e agressões a miúdos nos recreios”, por exemplo.

A Associação de Pais referiu também que já manifestou preocupação e o descontentamento junto da direção escola, contudo, a resposta foi a de que “estas medidas disciplinares não são aplicadas no ensino básico”.

“Não é essa a interpretação que fazemos do regulamento”, sublinhou, referindo ainda que “há crianças com medo de ir à casa de banho sozinhas”.

A concentração de pais foi marcada na sequência de uma agressão de um encarregado de educação a um funcionário, na semana passada, disse, acrescentando, contudo, que esse não é motivo da manifestação, apenas foi “a gota de água para os pais se juntarem e manifestarem contra a indisciplina que existe” no estabelecimento de ensino.

A notícia, superficial, obriga-nos a espreitar os comentários para tentar perceber o que se estará a passar nesta escola…

Nas traseiras desta escola existe a comunidade cigana do Seixo. Está aqui a origem dos problemas. Mas isso não se pode dizer porque é racismo.

Não é racismo, não senhor, é falar dos problemas reais que existem e não se devem escamotear. Há efectivamente um sério problema de integração social de muitas comunidades ciganas no nosso país, algo de que todos, ciganos ou não, nos deveríamos envergonhar. Afinal, trata-se de uma etnia que se fixou no nosso país há mais de 500 anos. E está mais do que demonstrado que o principal problema do racismo à portuguesa é a forma como tentamos esconder a realidade debaixo do tapete, não falando clara e abertamente dos problemas que permanecem por resolver.

E, como é evidente, quando ainda há dias alguns bem-pensantes criticavam, em nome do princípio da inclusão, o facto de haver em Portugal uma escola pública onde todos os alunos são de etnia cigana, casos como o que hoje foi noticiado levam-nos forçosamente a reflectir nas razões pelas quais os outros meninos, não ciganos, não querem ir para lá…

Mas esconder que são de etnia cigana os miúdos que incumprem de forma sistemática as regras da escola e os seus deveres dos alunos ou arranjar desculpas para não os castigar nem responsabilizar os pais pela péssima educação que dão aos filhos não é solução: pelo contrário, agrava o problema e aumenta, aí sim, a eficácia de um discurso potencialmente racista, porque encontra fundamento na realidade vivida e sentida por quem se vê envolvido nestas situações. Que, curiosamente, é raro sucederem com filhos de políticos ou de activistas anti-racismo…

São precisamente os ciganos que aterrorizam as crianças mais novas. São os ciganos que roubam a comida das crianças brancas. São os ciganos que batem nas crianças brancas. São os ciganos que roubam os telemóveis das crianças brancas. Etc, etc, etc. Falam em psicólogos. Mas alguém imagina o seu filho a ser vitimizado diariamente por essa corja de selvagens? Crianças com grande potencial que começam a perder o interesse pela escola devido ao terror a que são sujeitas diariamente. Mas alguém pensa nos traumas destas crianças que tiveram a “infelicidade de nascer brancas”. Alguém se preocupa com os “não ciganos”? Alguém se preocupa com os filhos daqueles que pagam as casas aos ciganos. Alguém se preocupa com os filhos daqueles que pagam os subsídios aos ciganos?

E não são só os filhos. Uma agressão é um crime, e deixar que se instale o sentimento de impunidade é apenas um convite a novas e mais graves agressões.

Quarta feira passada um cigano galgou o muro desta escola e foi espancar um funcionário da mesma.

Como nota final, acrescento que não é habitual, por aqui, transcrever comentários às notícias online. Se desta vez abri uma excepção, correndo o risco de estar a dar voz a algum exagero ou pormenor factualmente menos correcto, é porque me parece importante alertar para o risco de um jornalismo que, receoso do politicamente incorrecto, aceite a imposição de temas-tabu e abdique de informar com objectividade e rigor, abrindo caminho à boataria, à demagogia e aos excessos das redes sociais.

Viver em continência

continencia.JPGOs católicos recasados podem “em circunstâncias excepcionais” aceder aos sacramentos, mas a Igreja não deve deixar de lhes propor “a vida em continência”, isto é, sem a prática de relações sexuais. A orientação está contida no documento que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicou anteontem, com algumas normas para regular o acesso aos sacramentos de pessoas em “situação irregular”, isto é, àquelas em que ao matrimónio sucedeu a ruptura e um casamento civil.

Num só parágrafo, está bem patente a posição duplamente hipócrita e contraditória que o catolicismo continua a ter sobre a indissolubilidade do matrimónio.

Por um lado, o absurdo de aceitar o novo casamento, desde que “vivido em continência”, ou seja, se os casados se abstiverem da prática de relações sexuais. E já agora, como é que averiguam isso? Fazendo fé a declaração dos próprios, ou encarregam alguém de ir verificar?

Por outro, o renascer do negócio das anulações de casamento, que parece ir de vento em popa, com um número crescente de uniões que são desfeitas, não por divórcio, mas porque a Igreja Católica decide fingir, a troco de dinheiro e aceitando uma gama cada vez mais variada de justificações, que alguns casamentos religiosos na verdade nunca existiram.

Indo mais longe, na sua interpretação restritiva, do que o Papa Francisco e até, segundo a notícia do Público acima citada, do que o arcebispado de Braga, o Cardeal Manuel Clemente confirma-se como um dos dirigentes mais retrógrados e conservadores da Igreja Católica portuguesa.

O Presidente não vai a todo o lado

triumph.jpgSe a fábrica tivesse ardido o Presidente da República vinha cá, quando são os nossos direitos, já não.

Foi desta forma que uma trabalhadora da ex-Triumph denunciou a posição hipócrita do auto-proclamado presidente dos afectos. Que na passada sexta-feira se dizia interessado em “conhecer mais em pormenor a situação” complicada das operárias desempregadas e se dispôs a recebê-las. Mas quando ontem rumaram ao Palácio de Belém, apenas tinham à sua espera os assessores do Presidente.

Não deveria surpreender: a campanha de popularidade de Marcelo é erigida em cima dos “consensos” que tanto aprecia. Está sempre pronto a dar um abraço ou uma palavra de conforto às vítimas de um incêndio ou de uma seca, a um sem-abrigo ou ao voluntário que o ajuda, por vezes até se atreve a dar eco a um ou outro protesto contra o governo. Dá afecto, e até podemos acreditar que o faz de forma genuína, mas a verdade é que estas trabalhadoras, assim como os operários da Auto-Europa ou tantos outros cidadãos que se erguem em defesa dos seus direitos e dos seus postos de trabalho precisam – e merecem – bem mais do que isso: são credores da nossa solidariedade, não só porque lutam por causas justas, mas também porque defendem, de forma determinada, o nosso interesse colectivo. Lutam pelo país mais justo, solidário e produtivo que todos deveríamos querer deixar aos nossos filhos.

Só que isto é política: tomar partido no conflito entre patrões e trabalhadores, mesmo que seja apenas para defender a legalidade e a justiça, é algo de que Marcelo foge como o diabo da cruz. Há quem pense que o faz apenas porque nunca deixou de ser ver como a estrela mediática e consensual construída com a ajuda da TVI. Eu atrevo-me a pensar que não toma partido simplesmente porque, se tivesse de o fazer, seria do lado dos patrões sem escrúpulos e das multinacionais sem rosto que vêem saqueando o nosso país com a cumplicidade dos partidos do poder. Como nota António Santos:

O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português.
Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

 

Lingerie ministerial

triumph.jpgCerca de 40 trabalhadoras da antiga fábrica Triumph, em Sacavém, Loures, estão esta quinta-feira em protesto junto à presidência do Conselho de Ministros para apelar à ajuda do Governo, perante a insolvência da empresa.

Um grupo trabalhadoras foi recebido por um representante do governo e, simbolicamente, entregaram um cinto de ligas vermelho para o ministro da Economia, Caldeira Cabral.

As trabalhadoras acusam a Têxtil Gramax Internacjonal, que adquiriu a antiga Triumph, de não ter feito qualquer investimento.

Segundo contou ao JN Emília Ferreira, há 29 anos na empresa, “o trabalho começou a faltar em setembro, começaram a mandar as pessoas para casa em novembro”. Nesse mesmo mês já não receberam parte do ordenado.

As operárias explicam ainda que a ação de protesto decorre em paralelo com a vigília nas instalações da empresa, onde se mantém dezenas de colegas. O objetivo é impedir a saída de património na sequência do processo de insolvência da empresa.

Algo funciona muito mal nos processos de insolvência das empresas, quando são os próprios trabalhadores que têm de organizar piquetes de vigilância para impedir o saque do património. Não sendo por desconhecimento, nem por falta de meios, que o Estado não actua em defesa da legalidade e dos direitos dos credores, onde se incluem em primeiro lugar os trabalhadores, mas também o próprio Estado, apenas se pode concluir que é daquelas situações em que não interessa que a justiça funcione.

Também me causa estranheza que o Presidente da República, sempre tão solícito a comparecer e a apoiar todas as vítimas, não tenha uma presença ou uma palavra de apoio a estas operárias.

Será que as vítimas das forças da natureza ou da incompetência do governo merecem mais solidariedade e apoio do que as vítimas do patronato?

Se assim é, ficamos ao menos a saber que Marcelo, pelo meio dos seus estonteantes afectos e paralisantes apelos aos consensos de regime, não deixa de ir definindo interesses, prioridades e, acima de tudo, opções políticas.

 

Ajudar os pobres

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