Colaborações: ComRegras

No Topo: Corrupção no grupo GPS levada a tribunal

A realidade já é conhecida, há décadas, por quem tem acompanhado as questões educativas. A atribuição de dinheiros públicos a empresas privadas, para que prestem serviços educativos que deveriam ser assegurados pelas escolas estatais, mostrou-se um negócio altamente lucrativo para estas empresas. Ao embaratecerem os custos, sobretudo através da exploração desenfreada da mão-de-obra docente, os proprietários dos colégios obtiveram elevados rendimentos e, nalguns casos, acumularam verdadeiras fortunas, que alimentaram novos negócios e estilos de vida ostensivamente luxuosos…

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No Fundo: E não se podia avaliá-los… com menos burocracia?

O ritual das avaliações do segundo período cumpriu-se, uma vez mais, nas escolas portuguesas. Reunidos os diversos elementos de avaliação, ponderados através de grelhas ou outros instrumentos mais ou menos sofisticados, lá atribuiu a cada aluno a classificação que exprime, o melhor possível, aquilo que cada um foi capaz de alcançar nas diferentes disciplinas. Mas não é disto que a maioria dos professores se queixam…

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Reuniões de avaliação

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Coloquem-se na grelha excel as notas dos testes, das fichas e dos trabalhos escritos.

Acrescentem-se os registos das observações das aulas, do comportamento e dos trabalhos de casa.

Tempere-se com uma pitada de empenhamento, interesse, persistência, cooperação e respeito pelos outros.

Adicionem-se, ao gosto do professor ou de acordo com as regras da casa, outras atitudes e comportamentos a valorizar.

Depois de tudo grelhado, recolha-se da grelha a classificação de cada aluno e leve-se a conselho de turma, para rectificar.

Aprovar, imprimir e deixar repousar a na secretária do senhor director para o visto final.

Lá para quinta-feira, sirvam-se aos interessados, em pauta ou em ficha individual. Para data oportuna, convidem-se os pais de cada aluno a vir à escola saborear…

Ainda a nota de Educação Física

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A disciplina de Educação Física tem estado no centro de várias discussões e polémicas nos últimos tempos. Seja pela sua insuficiente valorização no 1º ciclo, apesar de fazer parte do currículo obrigatório, seja em torno da questão de a nota da disciplina contar, ou não, para a média do secundário e da candidatura ao ensino superior.

Independentemente do que está em causa, julgo que seria bom que a discussão se fizesse de forma serena e ponderada, sem os excessos que me pareceu notar em alguns textos e comentários que li pela blogosfera e pelas redes sociais.

Da minha parte, não terei muito a acrescentar ao que escrevi recentemente sobre o assunto. Realço apenas alguns pontos que me parecem fulcrais.

Mente sã em corpo são. Já os antigos o diziam e creio que a ideia continua hoje, mais do que nunca a ser importante. Não se trata de promover “estilos de vida”, como dizem alguns, mas sim de assumir a importância do desenvolvimento das capacidades físicas e da coordenação motora na infância e na adolescência. Trata-se da única disciplina, em paralelo com o Português, que está presente, de forma obrigatória, nos doze anos de escolaridade. E se assim é, faz pouco sentido exigir que os alunos sejam avaliados mas a nota não conte para a média final.

Atenção ao que avaliamos. Seria importante compreender que a Educação Física não é uma disciplina de Desporto, nem deve ter uma base competitiva. Julgo que a visão de uma disciplina onde se avaliam atletas, reservando as melhores notas para os que correm mais depressa ou marcam mais golos está há muito ultrapassada. Cada aluno deve ser avaliado em função das suas próprias capacidades e do empenho que coloca em aprender e melhorar. E quando leio queixas de que haverá alunos que são atletas federados, que ganham prémios e medalhas em competições e que apesar disso obtêm notas modestas em Educação Física, fico com a convicção que há um caminho certo que vai sendo trilhado. Resta agora, aos mais fracos na disciplina, esforçarem-se por corresponder ao que lhes é solicitado. Que se deve traduzir, sempre, em metas que estejam ao seu alcance.

Não pode haver disciplinas de primeira e de segunda categoria. Se em todas existem classificações, então todas elas devem valer para avaliar globalmente os alunos. Já no acesso à universidade, é compreensível que se valorizem mais, consoante o curso superior, determinada disciplina ou conjunto de disciplinas – é o que se faz através das provas específicas. Ora isto significa que, se não faz sentido a escola secundária dizer aos seus alunos que a nota de determinada disciplina não interessa para nada, fará todo o sentido que as universidades, de uma vez por todas, definam o que é para elas importante como pré-requisito de cada curso superior.

Os gordinhos merecem respeito. Assim como os desajeitados. Ou os que meteram na cabeça que não gostam, não têm jeito, não são capazes. Parte do estigma que existe ainda, nas escolas portuguesas, contra a disciplina, advém de, durante muito tempo, se ter achado natural gozar ou inferiorizar alguns alunos com menos capacidades, gosto ou talento para as actividades físicas e desportivas. Ora estes alunos não só têm direito a usufruir plenamente e sem constrangimentos da disciplina, como serão até, atrevo-me a supor, os que mais têm a beneficiar com a sua frequência. Quem, aqui ou além, ainda não entendeu o papel fulcral da Educação Física e as responsabilidades que tem enquanto docente da disciplina, era bom que o começasse a perceber.

Resposta certa, errada ou assim-assim?

O exercício era simples, até para uma criança de sete anos: escrever usando algarismos números escritos por extenso.

E o miúdo sabia fazê-lo, como se depreende pelas respostas que deu. No entanto, a sua “interpretação” da pergunta foi diferente do que era pretendido pela professora, que considerou as respostas erradas. Mas o pai da criança teve dúvidas e acabou, como conta o DN, por colocar o assunto à consideração superior. No Twitter…

Será que a expressão “os seguintes números” pode entender-se como “os números seguintes”?

Será a pergunta suficientemente ambígua para permitir a possibilidade de responder de duas formas diferentes, ambas correctas?

Deveria a professora valorizar a capacidade de raciocínio do aluno e considerar certo o exercício?

Ou estamos precisamente perante um raciocínio incorrecto, que induziu o aluno em erro, embora acabando a fazer algo até mais difícil do que o pedido?

Ou ainda: o que temos aqui é uma expressão de criatividade, algo que a escola deve valorizar e estimular nos alunos, ou já o embrião de um vício demasiado frequente nos adultos, a mania de complicar?

Como se vê, são mais importantes as dúvidas e as reflexões que este caso suscita – o tweet original tem já mais de cinco mil respostas – do que a resposta definitiva para a questão colocada.

Em todo o caso, e se quisermos uma posição que possa servir de voto de qualidade, talvez o tweet da Real Academia Española, instada a pronunciar-se, possa servir a esse fim. Os académicos não têm dúvidas: “tal como está redigido o exercício, a interpretação natural é que se escrevam com algarismos os números que se citam a seguir“. E não haveria, pergunta ainda alguém, uma forma mais clara de colocar a questão? Sim, responde a Academia, o mais claro seria escrever “estes números”.

Entretanto Ignacio Bárcena, o pai da criança, perante a repercussão de um tweet que rapidamente se converteu num quase julgamento público da professora do seu filho, sentiu também a necessidade de esclarecer: da sua parte, foi apenas uma brincadeira. E gosta muito da professora do seu filho.

Exigimos aos pobres, quando os ricos passam sem saber?

– Disse aos do 4° ano que não os podia aprovar se não soubessem reconhecer as orações subordinadas, mas depois disto do Froilán não sei se fiz bem.

– Fizeste bem. Os teus alunos não têm a família de Froilán que, ainda que não saiba fazer nada de nada, lhe vai subvencionar a vida.

O percurso escolar do jovem Froilán, que já foi tema de outro post, está a ser tema de conversa entre os professores espanhóis.

Lá como cá, todos nos debatemos entre a dificuldade de conseguir que todos os alunos aprendam, a necessidade de construir respostas individualizadas num contexto de turmas heterogéneas e numerosas e o imperativo ético e deontológico de não andar simplesmente a certificar a ignorância: é necessário que os alunos adquiram conhecimentos, desenvolvam competências e, nos momentos de avaliação, as suas notas reflictam as aprendizagens efectivamente realizadas.

froilan3.jpgMas depois aparecem estes jovens de boas famílias, aos quais o poder do dinheiro permite superar a falta de “queda para os estudos”, e não podemos deixar de nos questionar: vale mesmo a pena andarmos a exigir tanto aos nossos pobres e esforçados alunos, se com os filhos das elites é o que se vê?

Claro que vale: desde logo porque aos filhos dos pobres e remediados ninguém lhes pagará uma vida de parasitas, como é comum fazer-se, nas velhas e novas aristocracias, aos filhos menos dotados…

Os conselhos de turma são soberanos

professoresSendo inegável que há pressões claras sobre as escolas no sentido de passarem os alunos, aumentando a taxa de sucesso com que a equipa ministerial pretende melhorar as estatísticas da Educação portuguesa, há uma verdade que deve ser dita: na avaliação dos alunos, os conselhos de turma são soberanos. E se assim não fosse, não haveria directores a fazer estas tristes figuras:

E caso os docentes, em conselho de turma, não subam as notas aos alunos de forma a que transitem de ano, há diretores que estão a repetir as reuniões de avaliação exercendo pressão junto dos professores. O i sabe de escolas da Margem Sul onde estão a ser repetidas várias reuniões. Num estabelecimento escolar do distrito de Setúbal foram, até ao momento, repetidas 16 reuniões de conselho de turma de anos do básico e secundário, com a diretora a dar instruções expressas aos professores para que tenham como patamar mínimo 8 valores de nota a atribuir aos seus alunos – neste caso, secundário.

O sítio certo para definir e uniformizar critérios de avaliação é o Conselho Pedagógico. É aí que os directores devem usar a sua influência, ouvindo também os restantes elementos, e decidindo colectivamente. Nos conselhos de turma decidem os professores que efectivamente conhecem os alunos, trabalharam com eles e os avaliaram.

De resto, ninguém é obrigado a aprovar decisões contra a sua vontade e a sua ética profissional. Se os professores colaboram na passagem de alunos que não deveriam transitar de ano, apenas a si próprios terão de se culpar. E se alguém está à espera de agradecimentos, fique sabendo que o ministério, esse, já fez questão de dizer que nada tem a ver com o assunto…

Questionado pelo i, o Ministério da Educação diz que “a decisão de retenção ou não retenção é sempre uma decisão de cada conselho de turma”, assumindo que as aprendizagens são desenvolvidas “ao longo de um ciclo, pelo que as escolas têm autonomia para avaliar a capacidade de recuperação dos alunos e os custos e benefícios da repetição de várias disciplinas em que houve sucesso”.

 

E acabarmos com as votações de notas?

Escolas estão a passar de ano alunos com cinco negativas

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A notícia do DN dá conta de diversas situações que só serão novidade para quem não é professor e não sabe como funcionam os conselhos de turma: alunos que transitam com muitas “negativas”, notas votadas a eito para permitir a passagem de ano, pressões ministeriais sobre as direcções e destas sobre os professores: enfim, e infelizmente, o que se tem vindo a tornar habitual.

Pela minha parte, não me incomoda que um aluno passe de ano com quatro ou cinco níveis insatisfatórios num ano inicial ou intermédio de ciclo, se isso estiver previsto nos critérios de avaliação da escola e os alunos nesta situação beneficiarem no ano seguinte de medidas de apoio específico para superar as suas dificuldades. Parece-me uma leitura correcta, embora não a única, do “carácter excepcional” das retenções nos anos não terminais determinado pela legislação em vigor.

O que me repugna, isso sim, são as votações de notas, a eito, nalgumas escolas e conselhos de turma, sem qualquer fundamentação pedagógica. A atribuição das notas é o resultado da avaliação dos alunos, uma tarefa de especial responsabilidade atribuída aos professores, que não deve ser falseada e subvertida através da alteração para níveis que não correspondem às aprendizagens efectivamente realizadas. A votação de uma nota só deveria ser permitida quando se demonstrasse que o professor que a propõe aplicou incorrectamente os critérios de avaliação em vigor na sua disciplina, e esta é uma questão de deontologia profissional a que deveríamos estar mais atentos.

Se por variadas razões se pode entender que a retenção não tem vantagens pedagógicas para determinado aluno – e sabemos que em muitos casos, sobretudo quando são retenções repetidas, isto é inteiramente verdade – então o aluno deveria transitar, sim, mas com todas as “negativas” expressas na pauta. As escolas têm os meios legais para o fazer em relação à maioria dos anos de escolaridade, pelo que é de todo injustificável que se continue a abusar do recurso a essa irresponsabilização colectiva que é a votação de notas em conselho de turma.