Ensino a distância não contou para a nota?

Escolas deram notas sem contar com o trabalho feito ao longo do 2.º período

É “frustrante”, dizem alunos. “Desmerece a evolução” dos estudantes, comentam pais. E é “errado”, reconhecem directores. No entanto, em muitas escolas, sobretudo do ensino secundário, o trabalho feito à distância durante o 2.º período quase não contou para as notas dadas aos alunos. Entre as razões para esta prática está o papel central que os testes escritos continuam a ter na avaliação e os receios quanto à sua fiabilidade no modelo de ensino remoto.

Como era previsível, a avaliação de um 2.º período maioritariamente leccionado online trouxe algum descontentamento a alunos e famílias. Neste contexto, é complicado avaliar com rigor, equidade e justiça. Sobretudo no ensino secundário, onde continua a ser usada a anacrónica escala de 0 a 20 valores e o ingresso no ensino superior é determinado, maioritariamente, pela média das notas obtidas nas diversas disciplinas.

Antevendo as dificuldades, houve até quem propusesse transformar o segundo momento de avaliação numa avaliação qualitativa, sem atribuição de classificações ou níveis, como sucedeu aliás nas escolas onde vigora a avaliação por semestres. Mas o ministério fez ouvidos de mercador, adoptando a atitude hipócrita e cobarde que já se vai tornando a sua imagem de marca: primeiro reiterou inteira confiança na autonomia das escolas, dando-lhes inteira liberdade para definirem os critérios de avaliação que entendessem. Mas vendo surgir as críticas, veio de imediato demarcar-se, sentenciando à posteriori o que deveria ter sido feito.

À partida, não é difícil concordar com a tese aparentemente consensual: embora à distância, alunos e professores continuaram a trabalhar, e esse trabalho deve ser avaliado, sob pena de estarmos a desmotivar quem se esforça, em benefício de quem pouco ou nada fez. Não com testes presenciais, por razões óbvias, mas buscando alternativas, seguindo a tendência no sentido da diversificação dos instrumentos de avaliação. O problema é que isto é fácil de enunciar, mas difícil, nalguns casos praticamente impossível, de concretizar.

Não foi em vão que se insistiu, antes e durante o confinamento, na ideia de que nada substitui o ensino presencial. Isso é também verdade em relação à avaliação: a fiabilidade e o rigor necessários para obter uma classificação, como é exigido no secundário, não se conseguem obter plenamente com os alunos fisicamente distantes do professor. Sendo inútil exigir milagres, também não adianta mandar substituir os testes por outra coisa qualquer, porque as alternativas, sejam fichas, questões-aula, trabalhos escritos ou produção oral, necessitariam que o professor controlasse as condições em que são realizadas pelos alunos. Esta observação directa é fácil de fazer na sala de aula, mas de um modo geral impraticável no ensino online.

Perante estes constrangimentos, e na ausência de orientações claras, cada escola procurou a solução avaliativa mais adequada às circunstâncias. Mais ousada e confiante, nas escolas do ensino básico, onde assume um carácter predominantemente formativo; mais prudente no secundário, onde as notas têm consequências determinantes no futuro académico dos alunos. E sempre com a consciência de se estar a jogar com um pau de dois bicos: valorizar em demasia o trabalho feito durante o período do confinamento escolar iria penalizar não apenas os alunos que não trabalharam porque não quiseram, mas também aqueles que ficaram privados das condições e apoios de que necessitariam para trabalhar autonomamente.

Virada esta página, para a frente é que é o caminho. Mais do que apontar o dedo às discrepâncias entre escolas e professores, é importante que o 3.º período possa servir para repor alguma normalidade avaliativa, recuperando, consolidando e valorizando as aprendizagens feitas a distância.

Autonomia, muita autonomia!…

As escolas têm autonomia para definir os critérios de avaliação do 2.º período que melhor se adaptem ao facto de a generalidade das aulas ter sido dada remotamente. A garantia foi dada esta segunda-feira pelo ministro da Educação durante uma visita ao Centro Escolar de Paços de Ferreira, que serviu para assinalar a retoma do ensino presencial para as crianças até ao 1.º ciclo. Tiago Brandão Rodrigues afastou a hipótese de a tutela emitir qualquer orientação sobre a forma como devem ser dadas as notas nas próximas semanas.

Brandão Rodrigues entende que as escolas têm “maturidade suficiente para entender como querem fazer a avaliação dos seus alunos”. “Relativamente a isso estamos muito confortáveis, os directores das escolas, os conselhos pedagógicos, os professores e educadores deste país conheceram as regras e sabem todos os protocolos que cada um dos agrupamentos definiu”, acrescentou.

Claro que não valeria a pena esperar que, da parte do ministério surgisse qualquer orientação concreta relativamente às avaliações do 2.º período, desde logo por falta de pessoal competente para o fazer. A avaliação, tal como muitos outros assuntos que implicam ter trabalho, conhecer a realidade, fazer escolhas e assumir responsabilidades, são sempre relegados para a “autonomia das escolas”.

Dizem eles que já assim foi no ano passado, mas então a situação era diferente. Estavam decorridos dois períodos em regime presencial, apenas com duas semanas de confinamento antes das férias da Páscoa. Agora tivemos um 2.º período com apenas 14 dias de aulas presenciais, pelo que poderia fazer sentido a proposta, que um número crescente de professores tem defendido, de substituir as notas do 2.º período por uma avaliação qualitativa, sem atribuição de classificações ou níveis. Sobretudo no secundário, onde se continua a usar a escala de 0 a 20, parece-me problemática a avaliação qualitativa, tendo em conta a desigualdade de situações dos alunos e a impossibilidade de controlar as condições em que cada um estuda e realiza os trabalhos sujeitos a avaliação.

Sem uma opinião definitiva sobre a matéria, gostaria que o assunto fosse discutido por professores, alunos, pais e outros intervenientes e interessados. Mas este é um debate que o ME não pretende, obviamente, promover.

Divulgação: Ponderar alternativas à avaliação do 2.º período

Tendo em conta que apenas três semanas do segundo período foram leccionadas em regime presencial, com as limitações que tal implica em termos de avaliação justa, rigorosa e transparente dos conhecimentos dos alunos, um grupo de professores do ensino secundário propõe que, a exemplo do que já sucede nas escolas com organização semestral do ano lectivo, também nas restantes escolas se reduzam a dois os momentos de avaliação quantitativa.

Publico a tomada de posição conjunta de dez professores da Escola Secundária Martins Sarmento devidamente identificados.

Excelentíssimos Senhores,

Face ao incompreensível silêncio por parte do Ministério da Educação relativamente ao processo de avaliação, matéria que tem sido tão entronizada nos últimos anos, de um período em que tudo indica que se reduzirá a três semanas de aulas presenciais, é expectável que os professores se sintam profundamente preocupados com as tremendas dificuldades que uma avaliação à distância comporta.

Atendendo a que presidem a organizações e instituições com responsabilidades no âmbito das políticas educativas, e atendendo também à situação extraordinária (não lhe chamamos atípica) que estamos a viver, com seriíssimas implicações no processo de ensino-aprendizagem, vimos, na qualidade de professores do ensino secundário, com carreiras profissionais já longas, transmitir as nossas profundas preocupações, senão angústias, relativamente ao processo de avaliação dos alunos no segundo período, quando se afigura uma situação de confinamento, no mínimo, até à interrupção da Páscoa.

Quanto às aulas à distância, nada temos a dizer, não só porque não existe outra alternativa, mas porque francamente consideramos que podem funcionar com considerável eficácia, desde que haja colaboração e disponibilidade dos alunos, o que nem sempre acontece, e que todos possam dispor das tecnologias e outras condições exigidas para o efeito. Mas a questão da avaliação coloca problemas muito sérios, como todos nós sabemos, salvo aqueles que teimam em achar “que o rei não vai nu”. Efetivamente, e sem entrar em pormenores, tanto desnecessários quanto óbvios, uma avaliação feita por plataformas, por mais sofisticadas que sejam, abre sempre muitas possibilidades de fraudes que, cada vez mais comentadas por pais e encarregados de educação e por muitos outros da esfera pública, até por setores que não se situam no âmbito do ensino, mas que têm de recorrer e estas ferramentas , constituem um atentado muito grave à equidade e rigor que deve escrupulosamente nortear o processo de avaliação, princípios que serão ainda mais atingidos se pensarmos na discricionariedade de critérios de avaliação que variam de escola para escola.

Poupando-vos a delongas que envolvem toda esta situação tão precária e melindrosa e que tão bem conhecem, sobretudo potenciadora do fosso social que já é tão preocupante e que tão demagogicamente é invocado, parece-nos que seria oportuno sugerir-vos uma reflexão sobre a pertinência de se encontrar uma alternativa à avaliação neste segundo período, transformando os dois períodos num semestre, situação que já existe em muitas escolas, portanto nada de inédito, e que permitiria não só uma lecionação mais tranquila, mas sobretudo uma avaliação mais justa e transparente, tanto mais que o calendário escolar foi prolongado.

Cientes de que o destinatário deste comunicado deveria ser um órgão deliberativo, parece-nos que outros há com o dever de refletir e questionar esta situação. Agradecíamos que ponderassem uma intervenção neste domínio.

Com os mais respeitosos cumprimentos.

Um grupo de docentes da Escola Secundária Martins Sarmento

Pensamento do dia

Porque é que a única maneira de justificar ou validar certas inovações na sala de aula é exigir, por parte desses inovadores, que se deve avaliar de outra maneira?

Não será isso uma desculpa para não ter de admitir que essas inovações só se sustentam por pensamento mágico?…

Adaptado de um tweet de Jordi Martí.

Li e lembrei-me logo do “MAIA”, que nalgumas escolas está a transformar a avaliação num instrumento de tortura para professores…

Lista negra de escolas com reuniões presenciais

Estas são escolas que não zelam pela saúde e segurança dos seus professores. Que em situação grave de pandemia, em pleno estado de emergência e na vigência de orientações oficiais que determinam o recurso ao teletrabalho sempre que possível, obrigam os professores a juntarem-se para a realização de reuniões de avaliação presenciais.

Certas “lideranças” escolares tão prepotentes quanto irresponsáveis precisam de ser desmascaradas, na forma como ameaçam a saúde e a vida dos profissionais que dão, em prol dos alunos, o seu melhor. Irei ao longo dos próximos dias actualizar e rectificar a lista, consoante as informações que for obtendo e as que me façam chegar.

Em concelhos com risco extremamente elevado:
Agrupamento de Escolas Caldas de Vizela (Vizela);
Agrupamento de Escolas Sá de Miranda (Braga);
Agrupamento de Escolas Santa Maria da Feira;
Escola Secundária Henrique Medina (Esposende);
Agrupamento de Escolas Arqueólogo Mário Cardoso (Guimarães);
Escola Secundária Martins Sarmento (Guimarães);
Agrupamento de Escolas Fernão de Magalhães (Chaves).

Em concelhos com risco muito elevado:
Escola Secundária Filipa de Vilhena (Porto);
Escola Secundária Pedro Nunes (Lisboa);
Escola Básica e Secundária Josefa de Óbidos, (Lisboa);
Escola Secundária Rainha Dona Amélia (Lisboa);
Escola Secundária de Sacavém (Loures);
Escola Profissional AD Areeiro (Lisboa);
Escola Secundária Pedro Nunes (Lisboa);
Agrupamento de Escolas 4 de Outubro (Loures)
Escola EB 2,3 de Aveiras de Cima (Azambuja);
Escola Secundária Henriques Nogueira (Torres Vedras);
Agrupamento de Escolas nº1 Gondomar;
Agrupamento de Escolas Latino Coelho (Lamego);
Escola Secundária de Amarante;
Agrupamento de Escolas de Azambuja.

Em concelhos de risco elevado e outros:
Agrupamento de Escolas de Melgaço;
Escola D. Maria II (Vila Nova da Barquinha);
Agrupamento de Escolas Poeta Joaquim Serra (Montijo);
Agrupamento de Escolas Laura Ayres (Loulé);
Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro (Mafra);
Agrupamento de Escolas Vouzela e Campia;
Agrupamento de Escolas de Vila Flor

Escola Secundária de Peniche;
Agrupamento de Escolas Ericeira (Mafra);
Agrupamento de Escolas da Abrigada (Alenquer);
Agrupamento de Escolas D.João II (Caldas da Rainha).

Nota: lista actualizada às 22 horas de 15/12, com a inclusão de novas escolas e agrupamentos e a retirada daqueles em que surgiu informação de que as reuniões serão feitas online. Novamente actualizada às 22.30h a partir da informação da página do STOP no Facebook.

A última loucura dos directores escolares

Serão, quero crer, relativamente poucos os directores que insistem em fazer presencialmente as reuniões de avaliação do primeiro período. Uma medida de legalidade duvidosa e, acima de tudo, insensata, tendo em conta a gravidade da pandemia. Mas o actual regime de gestão escolar abre caminho a inúmeras prepotências dos directores, que com justificações ridículas ou apenas na base do quero-posso-e-mando, fazem valer a sua vontade.

Claro que, perante a falta de juízo dos senhores directores, uma orientação clara da parte da tutela, explicitando que em contexto de pandemia o teletrabalho deve ser regra em todas as situações que o permitam, resolveria o problema. Mas a preocupação de não desautorizar os directores quando são apenas, aparentemente, os direitos e o bem-estar dos professores que estão em causa continua a ser uma linha de rumo da política educativa.

Encontrei a “justificação” que aqui apresento no blogue do Arlindo, mas há na blogosfera docente exemplos para vários gostos. E nem sei o que é mais lamentável, se a prepotência de alguns directores, se a divulgação sob anonimato que está a ser feita destes casos. Percebo as cautelas dos bloggers na divulgação de informação que não puderam confirmar directamente. Já me custa mais a entender que professores de uma escola onde se impõem as reuniões presenciais não façam tudo o que estiver ao seu alcance para que isso se saiba e o nome da escola seja publicamente divulgado.

Ainda assim, este não-querer-que-se-saiba é de certa forma revelador. Significa que haverá algum mal-estar da parte de quem toma estas decisões sabendo que o não devia fazer. E sendo assim, a denúncia e a pressão pública deveriam fazer o seu caminho. Assim como se fizeram, quando se tornou evidente a vontade de esconder informação, listas de escolas com casos de covid-19, porque não começar a organizar agora, com o contributo de todos, a lista das escolas em que foram convocados conselhos de turma presenciais?

E agora, as avaliações…

estatisticaNão são precisos grandes dotes adivinhatórios para antever que o sucesso escolar irá bater, este ano, todos os recordes.

Será o ano em que, fruto das contingências e dos confinamentos, menos se aprendeu. Mas também aquele em que, muito provavelmente, os resultados mais subirão. Quer venham traduzidos na escala de 1 a 5, quer nas velhinhas classificações de 0 a 20. E quanto às detestadas retenções, o mais certo é ficarem finalmente reduzidas a números residuais.

Quanto às razões para isto suceder, elas são evidentes, e só a má-fé e a eterna desconfiança da equipa ministerial em relação aos professores pode ver nisto uma tentativa de, na falta de um punhado de exames, subverter o processo avaliativo com um brutal inflacionamento das notas.

De facto, se nos colocarmos na perspectiva de qualquer professor, a realidade torna-se fácil de compreender. Não é aceitável prejudicar alunos que, devido à pandemia, ficaram privados da escola e, por variadas razões, não puderam prosseguir no mesmo ritmo as suas aprendizagens. Uns porque não dispunham dos equipamentos necessários, outros porque os tinham de partilhar com pais e irmãos, outros por carecerem de suficiente autonomia e disciplina para trabalharem sozinhos, outros ainda por falta de motivação ou adequado acompanhamento parental. Sejam quais forem as situações, a verdade é que a desigualdade de condições reinou, traduzindo-se em poderosas condicionantes que, na maioria dos casos, os professores não estavam em posição de controlar ou remediar.

Por outro lado, se os alunos que menos fizeram não podem ser prejudicados por circunstâncias que, no essencial, os ultrapassam, o que fazer em relação àqueles que se superaram? Os que estudaram, fizeram todas as tarefas, participaram activamente nas sessões síncronas e fizeram progressos efectivos e comprovados nas suas aprendizagens? Será escandaloso que, nalguns destes casos, possa haver uma melhoria da nota do segundo período? Não será esta uma questão de elementar justiça?…

Com um sucesso praticamente universal como dado adquirido na generalidade das escolas, a principal incógnita é o alcance desta excepcionalidade. Será ela apenas o fruto isolado de um ano diferente de todos os outros ou, pelo contrário, marcará a consolidação de uma tendência pró-sucesso que já vem de trás?

Para já, o mais interessante é registar a forma súbita como o ME transferiu as suas habituais preocupações com as retenções para o combate às “notas inflacionadas”. Mas também estou curioso em ver o que acontecerá, daqui para a frente, com a indústria da promoção do sucesso instalada no ME e ancorada em financiamentos europeus. Se os seus objectivos forem atingidos antes do tempo previsto, fará sentido continuar a verdascar os professores?…

Os conselhos de turma devem ser presenciais?

Segundo a informação que a DGEstE está a enviar às escolas, os conselhos de turma do 3.º período podem ser feitos por videoconferência, desde que todos os intervenientes estejam em condições, não só de acompanhar os trabalhos, mas também de participar na tomada de decisões.

Contudo, este “poderão” não é imperativo, pelo que não desautoriza aqueles directores mais marretas que, nalgumas escolas, insistem na obrigatoriedade das reuniões presenciais. E que continuam com carta branca para levar a sua ideia avante…

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Inspecção às avaliações já está em acção

A Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) está a fiscalizar 100 escolas secundárias, desde o dia 3, no âmbito do combate à inflação de notas nos 11.º º e 12.º anos, apurou o JN.

A ação abrange 76 estabelecimentos de ensino públicos e 24 privados e pretende ter um efeito “regulador e dissuasor”.

Duas semanas depois de o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, ter prometido mobilizar mais inspetores e abranger mais escolas para travar a “inflação artificial” das classificações, de modo a que exista mais “equidade no concurso de acesso ao superior”, os técnicos avançaram no terreno.

À notícia do JN, cujo desenvolvimento só está acessível a assinantes, acrescento aqui o “programa das festas”, extraído do ofício que a IGEC tem estado a enviar às escolas seleccionadas:

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Consultando o site da IGEC, constata-se que a intervenção que, a mando do ministro, está agora a ser desenvolvida, é uma versão simplificada do anterior programa de Avaliação das Aprendizagens dos Alunos no Ensino Secundário que vinha sendo aplicado a um pequeno número de escolas estatisticamente identificadas por inflacionarem as notas dos alunos.

Esta era  – e continua a ser – uma prática solidamente escorada num conjunto pequeno mas bem determinado de escolas, sobretudo privadas, que desta forma favorecem os seus alunos no acesso aos cursos superiores com médias de entrada mais altas. Um fenómeno que não incomodou os responsáveis durante décadas, enquanto permaneceu circunscrito a meia dúzia de colégios de elite. Mas que agora, à boleia das excepcionalidades do presente ano lectivo, o ME teme que se possa democratizar

O que fizeram então foi retirar apressadamente alguma ganga eduquesa ao programa – nomeadamente a referência ao Perfil dos Alunos – que, nesta fase, só iria atrapalhar, para se centrarem no que lhes parece essencial: apertar com as escolas e os professores, tratando-os como os suspeitos do costume e “dissuadindo-os” de puxar para cima as notas dos alunos.

O objectivo, final e inconfessado, é manter a iniquidade e injustiça do actual sistema de ingresso no ensino superior em níveis minimamente toleráveis. Nem que para isso se tenha de inverter por completo o paradigma do controle avaliativo: até aqui os professores tinham de justificar as negativas que davam aos alunos. Agora deverão prestar contas das subidas das classificações aparentemente injustificadas.

Inspecções às notas… com que inspectores?

inspectorO número de inspectores ao serviço da Inspecção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) poderá não ser suficiente para garantir que a ausência de exames nacionais em algumas disciplinas possa ser aproveitada pelas escolas para subir artificialmente as notas dos seus alunos, facilitando o acesso ao ensino superior. Essa é a avaliação feita pelo Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino (SIEE), para quem a redução do número de efectivos e o envelhecimento da classe podem pôr em causa o anúncio feito pelo ministro da Educação de que serão auditadas as avaliações internas para travar o fenómeno de inflação nas classificações.

Há mais de duas décadas que o número de inspectores de educação tem vindo a diminuir. Neste momento, estão cerca de 166 profissionais no terreno, quase metade dos que estavam ao serviço no ano 2000 (320). O Ministério da Educação garante que foram, entretanto, contratados 24 novos inspectores, fruto de um recrutamento lançado antes da pandemia.

O número é insuficiente, aos olhos do sindicato, atendendo a que há mais de 800 agrupamentos de escolas no país, só na rede pública, a que se juntam ainda centenas de colégios privados. “Sem ovos, não se fazem omeletes”, ilustra a presidente do SIEE, Bercina Pereira Calçada. “Sem inspectores, não há inspecções. E sem estas é a autoridade do Estado que é posta em causa.”

A reacção seria de esperar: os inspectores da IGEC não querem ser transformados numa espécie de fiscais das avaliações dos alunos. Além de serem cada vez menos e formarem um grupo ainda mais envelhecido do que o corpo docente, rejeitam uma missão que de legalidade duvidosa e, na prática, pouco exequível. Depois de uma política, que já leva décadas, de pressão constante para que os professores promovam o sucesso, diversifiquem estratégias e os instrumentos de avaliação, valorizem a mínima coisa que o aluno consiga fazer, como é que se determina, agora, que determinadas notas estão inflacionadas?

Como acaba por acontecer quando se vêem enrascados – veja-se a forma como a IGEC foi instrumentalizada para desmobilizar os últimos resistentes, na greve às avaliações de 2018 – o ME quer avançar com os inspectores como tropa de choque para impedir uma temida inflação de notas. Ou então fica-se pela ameaça, esperando por esta via conter a ameaça em níveis residuais.

De qualquer forma, com esta nega que acaba de receber da parte dos inspectores, a equipa ministerial está apenas a colher os frutos da sua própria política. Em vez de apostarem num corpo inspectivo independente e com meios para actuar, preferiram esvaziar a IGEC, ao mesmo tempo que foram recrutando comissários políticos para as estruturas centrais e regionais do ministério. Pois peçam agora aos comissários, delegados e coordenadores das diversas direcções, delegações, equipas e unidades de missão que vão para as escolas pregar o apostolado da moderação avaliativa.