Não estamos aqui para ensinar!

Passado o medo da pandemia, as inspecções regressam em força às escolas, tentando recuperar o tempo perdido com os confinamentos. Na berlinda, além das acções inspectivas habituais, está também o projecto Maia, a última invenção eduquesa destinada a acabar de vez com o insucesso escolar, poupando ao Governo os custos políticos de o impor por decreto. Carmo Machado, a nossa colega de Português que é também colunista habitual na Visão, reflecte sobre a última visita inspectiva à sua escola e a forma como a voluntariaram para uma longa conversa com as senhoras inspectoras.

Das muitas questões que me foram colocadas, como faz para que um aluno saiba exactamente o que deve fazer para conseguir sucesso, não lhe parece que ainda há muitos professores que usam os dados recolhidos com a avaliação formativa para a transformação em classificação, e que formação tem em avaliação, senhora doutora?… talvez a que mais me angustiou foi a seguinte: Então se faz corretamente a avaliação formativa dos seus alunos, como explica ainda a existência de classificações negativas nas pautas?

As questões, formuladas de uma forma intencionalmente acusatória e desmoralizadora, seguem uma táctica consolidada num ministério que se acostumou, independentemente da cor política dos governantes, a fazer política educativa contra os professores. A ideia é, se dás negativas é porque não aplicas devidamente a avaliação formativa, a avaliação boa e que permite aos alunos melhorar. Estás a penalizar os alunos pelas limitações do teu conhecimento e da tua prática pedagógica, impedindo-os de fazer “melhores aprendizagens”.

No entanto, basta reparar no teor das perguntas intimidatórias das inspectoras para notar o raciocínio enviesado e contraditório: se não é suposto a avaliação formativa transformar-se em classificação, então por que carga de água é que ela deve determinar, só por si, a ausência de classificações negativas?

Claro que tudo isto parte de um profundo e intencional desconhecimento da realidade por parte dos teóricos dos Maias e quejandos e de quem fiscaliza, nas escolas, a sua aplicação. Imaginam a relação professor/aluno esquecendo que cada professor tem, a partir do 2.º ciclo, uma média de 100 a 200 alunos, às vezes mais. Que ninguém tem tempo ou condições para fazer a avaliação individualizada e diferenciada que os teóricos defendem. Que as teorias que defendem simplesmente não são viáveis, a não ser que tivéssemos professores que só avaliassem e não ensinassem. O que também já vi ser defendido, embora o confinamento devido à pandemia tenha evidenciado claramente o fracasso das teorias da auto-aprendizagem, levando os seus arautos a meter, temporariamente, a viola no saco.

Finalmente, quem culpa as técnicas de avaliação dos professores pela existência de insucesso está a cometer o mesmo erro de que tantas vezes se acusam os professores: o de considerar o aluno como um ser passivo, uma mente a atulhar de conhecimentos, sem o ter em consideração como participante activo na construção das suas aprendizagens. É que, sendo uma minoria, há mesmo alunos que não querem aprender. Aqueles a quem falta motivação porque transportam consigo bloqueios que quase sempre transcendem a escola e radicam na realidade familiar e social em que estão imersos. Afirmar peremptoriamente que com a pedagogia correcta qualquer aluno aprende é assumir uma visão totalitária da educação em que o aluno é obrigado a aprender. Mesmo que não queira.

Depois de uma aula inteira sobre Fernando Pessoa e o modernismo, da qual os alunos daquela turma do ensino profissional não retiveram sequer o século em que se enquadra o autor e a sua obra, Carmo Machado perguntou às doutas inspectoras o que lhe caberia fazer para que os alunos aprendessem de facto alguma coisa passível de ser avaliada. Ensinem-me, que eu não sei. A resposta, de antologia, retrata bem um ministério feito de eduqueses de gabinete e comissários mandados para as escolas, aos papéis e aos painéis:

Não estamos aqui para ensinar.

E desta vez tinham, como reconhece a nossa colega, inteira razão.

O último teste

Ensino a distância não contou para a nota?

Escolas deram notas sem contar com o trabalho feito ao longo do 2.º período

É “frustrante”, dizem alunos. “Desmerece a evolução” dos estudantes, comentam pais. E é “errado”, reconhecem directores. No entanto, em muitas escolas, sobretudo do ensino secundário, o trabalho feito à distância durante o 2.º período quase não contou para as notas dadas aos alunos. Entre as razões para esta prática está o papel central que os testes escritos continuam a ter na avaliação e os receios quanto à sua fiabilidade no modelo de ensino remoto.

Como era previsível, a avaliação de um 2.º período maioritariamente leccionado online trouxe algum descontentamento a alunos e famílias. Neste contexto, é complicado avaliar com rigor, equidade e justiça. Sobretudo no ensino secundário, onde continua a ser usada a anacrónica escala de 0 a 20 valores e o ingresso no ensino superior é determinado, maioritariamente, pela média das notas obtidas nas diversas disciplinas.

Antevendo as dificuldades, houve até quem propusesse transformar o segundo momento de avaliação numa avaliação qualitativa, sem atribuição de classificações ou níveis, como sucedeu aliás nas escolas onde vigora a avaliação por semestres. Mas o ministério fez ouvidos de mercador, adoptando a atitude hipócrita e cobarde que já se vai tornando a sua imagem de marca: primeiro reiterou inteira confiança na autonomia das escolas, dando-lhes inteira liberdade para definirem os critérios de avaliação que entendessem. Mas vendo surgir as críticas, veio de imediato demarcar-se, sentenciando à posteriori o que deveria ter sido feito.

À partida, não é difícil concordar com a tese aparentemente consensual: embora à distância, alunos e professores continuaram a trabalhar, e esse trabalho deve ser avaliado, sob pena de estarmos a desmotivar quem se esforça, em benefício de quem pouco ou nada fez. Não com testes presenciais, por razões óbvias, mas buscando alternativas, seguindo a tendência no sentido da diversificação dos instrumentos de avaliação. O problema é que isto é fácil de enunciar, mas difícil, nalguns casos praticamente impossível, de concretizar.

Não foi em vão que se insistiu, antes e durante o confinamento, na ideia de que nada substitui o ensino presencial. Isso é também verdade em relação à avaliação: a fiabilidade e o rigor necessários para obter uma classificação, como é exigido no secundário, não se conseguem obter plenamente com os alunos fisicamente distantes do professor. Sendo inútil exigir milagres, também não adianta mandar substituir os testes por outra coisa qualquer, porque as alternativas, sejam fichas, questões-aula, trabalhos escritos ou produção oral, necessitariam que o professor controlasse as condições em que são realizadas pelos alunos. Esta observação directa é fácil de fazer na sala de aula, mas de um modo geral impraticável no ensino online.

Perante estes constrangimentos, e na ausência de orientações claras, cada escola procurou a solução avaliativa mais adequada às circunstâncias. Mais ousada e confiante, nas escolas do ensino básico, onde assume um carácter predominantemente formativo; mais prudente no secundário, onde as notas têm consequências determinantes no futuro académico dos alunos. E sempre com a consciência de se estar a jogar com um pau de dois bicos: valorizar em demasia o trabalho feito durante o período do confinamento escolar iria penalizar não apenas os alunos que não trabalharam porque não quiseram, mas também aqueles que ficaram privados das condições e apoios de que necessitariam para trabalhar autonomamente.

Virada esta página, para a frente é que é o caminho. Mais do que apontar o dedo às discrepâncias entre escolas e professores, é importante que o 3.º período possa servir para repor alguma normalidade avaliativa, recuperando, consolidando e valorizando as aprendizagens feitas a distância.

Autonomia, muita autonomia!…

As escolas têm autonomia para definir os critérios de avaliação do 2.º período que melhor se adaptem ao facto de a generalidade das aulas ter sido dada remotamente. A garantia foi dada esta segunda-feira pelo ministro da Educação durante uma visita ao Centro Escolar de Paços de Ferreira, que serviu para assinalar a retoma do ensino presencial para as crianças até ao 1.º ciclo. Tiago Brandão Rodrigues afastou a hipótese de a tutela emitir qualquer orientação sobre a forma como devem ser dadas as notas nas próximas semanas.

Brandão Rodrigues entende que as escolas têm “maturidade suficiente para entender como querem fazer a avaliação dos seus alunos”. “Relativamente a isso estamos muito confortáveis, os directores das escolas, os conselhos pedagógicos, os professores e educadores deste país conheceram as regras e sabem todos os protocolos que cada um dos agrupamentos definiu”, acrescentou.

Claro que não valeria a pena esperar que, da parte do ministério surgisse qualquer orientação concreta relativamente às avaliações do 2.º período, desde logo por falta de pessoal competente para o fazer. A avaliação, tal como muitos outros assuntos que implicam ter trabalho, conhecer a realidade, fazer escolhas e assumir responsabilidades, são sempre relegados para a “autonomia das escolas”.

Dizem eles que já assim foi no ano passado, mas então a situação era diferente. Estavam decorridos dois períodos em regime presencial, apenas com duas semanas de confinamento antes das férias da Páscoa. Agora tivemos um 2.º período com apenas 14 dias de aulas presenciais, pelo que poderia fazer sentido a proposta, que um número crescente de professores tem defendido, de substituir as notas do 2.º período por uma avaliação qualitativa, sem atribuição de classificações ou níveis. Sobretudo no secundário, onde se continua a usar a escala de 0 a 20, parece-me problemática a avaliação qualitativa, tendo em conta a desigualdade de situações dos alunos e a impossibilidade de controlar as condições em que cada um estuda e realiza os trabalhos sujeitos a avaliação.

Sem uma opinião definitiva sobre a matéria, gostaria que o assunto fosse discutido por professores, alunos, pais e outros intervenientes e interessados. Mas este é um debate que o ME não pretende, obviamente, promover.

Divulgação: Ponderar alternativas à avaliação do 2.º período

Tendo em conta que apenas três semanas do segundo período foram leccionadas em regime presencial, com as limitações que tal implica em termos de avaliação justa, rigorosa e transparente dos conhecimentos dos alunos, um grupo de professores do ensino secundário propõe que, a exemplo do que já sucede nas escolas com organização semestral do ano lectivo, também nas restantes escolas se reduzam a dois os momentos de avaliação quantitativa.

Publico a tomada de posição conjunta de dez professores da Escola Secundária Martins Sarmento devidamente identificados.

Excelentíssimos Senhores,

Face ao incompreensível silêncio por parte do Ministério da Educação relativamente ao processo de avaliação, matéria que tem sido tão entronizada nos últimos anos, de um período em que tudo indica que se reduzirá a três semanas de aulas presenciais, é expectável que os professores se sintam profundamente preocupados com as tremendas dificuldades que uma avaliação à distância comporta.

Atendendo a que presidem a organizações e instituições com responsabilidades no âmbito das políticas educativas, e atendendo também à situação extraordinária (não lhe chamamos atípica) que estamos a viver, com seriíssimas implicações no processo de ensino-aprendizagem, vimos, na qualidade de professores do ensino secundário, com carreiras profissionais já longas, transmitir as nossas profundas preocupações, senão angústias, relativamente ao processo de avaliação dos alunos no segundo período, quando se afigura uma situação de confinamento, no mínimo, até à interrupção da Páscoa.

Quanto às aulas à distância, nada temos a dizer, não só porque não existe outra alternativa, mas porque francamente consideramos que podem funcionar com considerável eficácia, desde que haja colaboração e disponibilidade dos alunos, o que nem sempre acontece, e que todos possam dispor das tecnologias e outras condições exigidas para o efeito. Mas a questão da avaliação coloca problemas muito sérios, como todos nós sabemos, salvo aqueles que teimam em achar “que o rei não vai nu”. Efetivamente, e sem entrar em pormenores, tanto desnecessários quanto óbvios, uma avaliação feita por plataformas, por mais sofisticadas que sejam, abre sempre muitas possibilidades de fraudes que, cada vez mais comentadas por pais e encarregados de educação e por muitos outros da esfera pública, até por setores que não se situam no âmbito do ensino, mas que têm de recorrer e estas ferramentas , constituem um atentado muito grave à equidade e rigor que deve escrupulosamente nortear o processo de avaliação, princípios que serão ainda mais atingidos se pensarmos na discricionariedade de critérios de avaliação que variam de escola para escola.

Poupando-vos a delongas que envolvem toda esta situação tão precária e melindrosa e que tão bem conhecem, sobretudo potenciadora do fosso social que já é tão preocupante e que tão demagogicamente é invocado, parece-nos que seria oportuno sugerir-vos uma reflexão sobre a pertinência de se encontrar uma alternativa à avaliação neste segundo período, transformando os dois períodos num semestre, situação que já existe em muitas escolas, portanto nada de inédito, e que permitiria não só uma lecionação mais tranquila, mas sobretudo uma avaliação mais justa e transparente, tanto mais que o calendário escolar foi prolongado.

Cientes de que o destinatário deste comunicado deveria ser um órgão deliberativo, parece-nos que outros há com o dever de refletir e questionar esta situação. Agradecíamos que ponderassem uma intervenção neste domínio.

Com os mais respeitosos cumprimentos.

Um grupo de docentes da Escola Secundária Martins Sarmento

Pensamento do dia

Porque é que a única maneira de justificar ou validar certas inovações na sala de aula é exigir, por parte desses inovadores, que se deve avaliar de outra maneira?

Não será isso uma desculpa para não ter de admitir que essas inovações só se sustentam por pensamento mágico?…

Adaptado de um tweet de Jordi Martí.

Li e lembrei-me logo do “MAIA”, que nalgumas escolas está a transformar a avaliação num instrumento de tortura para professores…

Lista negra de escolas com reuniões presenciais

Estas são escolas que não zelam pela saúde e segurança dos seus professores. Que em situação grave de pandemia, em pleno estado de emergência e na vigência de orientações oficiais que determinam o recurso ao teletrabalho sempre que possível, obrigam os professores a juntarem-se para a realização de reuniões de avaliação presenciais.

Certas “lideranças” escolares tão prepotentes quanto irresponsáveis precisam de ser desmascaradas, na forma como ameaçam a saúde e a vida dos profissionais que dão, em prol dos alunos, o seu melhor. Irei ao longo dos próximos dias actualizar e rectificar a lista, consoante as informações que for obtendo e as que me façam chegar.

Em concelhos com risco extremamente elevado:
Agrupamento de Escolas Caldas de Vizela (Vizela);
Agrupamento de Escolas Sá de Miranda (Braga);
Agrupamento de Escolas Santa Maria da Feira;
Escola Secundária Henrique Medina (Esposende);
Agrupamento de Escolas Arqueólogo Mário Cardoso (Guimarães);
Escola Secundária Martins Sarmento (Guimarães);
Agrupamento de Escolas Fernão de Magalhães (Chaves).

Em concelhos com risco muito elevado:
Escola Secundária Filipa de Vilhena (Porto);
Escola Secundária Pedro Nunes (Lisboa);
Escola Básica e Secundária Josefa de Óbidos, (Lisboa);
Escola Secundária Rainha Dona Amélia (Lisboa);
Escola Secundária de Sacavém (Loures);
Escola Profissional AD Areeiro (Lisboa);
Escola Secundária Pedro Nunes (Lisboa);
Agrupamento de Escolas 4 de Outubro (Loures)
Escola EB 2,3 de Aveiras de Cima (Azambuja);
Escola Secundária Henriques Nogueira (Torres Vedras);
Agrupamento de Escolas nº1 Gondomar;
Agrupamento de Escolas Latino Coelho (Lamego);
Escola Secundária de Amarante;
Agrupamento de Escolas de Azambuja.

Em concelhos de risco elevado e outros:
Agrupamento de Escolas de Melgaço;
Escola D. Maria II (Vila Nova da Barquinha);
Agrupamento de Escolas Poeta Joaquim Serra (Montijo);
Agrupamento de Escolas Laura Ayres (Loulé);
Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro (Mafra);
Agrupamento de Escolas Vouzela e Campia;
Agrupamento de Escolas de Vila Flor

Escola Secundária de Peniche;
Agrupamento de Escolas Ericeira (Mafra);
Agrupamento de Escolas da Abrigada (Alenquer);
Agrupamento de Escolas D.João II (Caldas da Rainha).

Nota: lista actualizada às 22 horas de 15/12, com a inclusão de novas escolas e agrupamentos e a retirada daqueles em que surgiu informação de que as reuniões serão feitas online. Novamente actualizada às 22.30h a partir da informação da página do STOP no Facebook.

A última loucura dos directores escolares

Serão, quero crer, relativamente poucos os directores que insistem em fazer presencialmente as reuniões de avaliação do primeiro período. Uma medida de legalidade duvidosa e, acima de tudo, insensata, tendo em conta a gravidade da pandemia. Mas o actual regime de gestão escolar abre caminho a inúmeras prepotências dos directores, que com justificações ridículas ou apenas na base do quero-posso-e-mando, fazem valer a sua vontade.

Claro que, perante a falta de juízo dos senhores directores, uma orientação clara da parte da tutela, explicitando que em contexto de pandemia o teletrabalho deve ser regra em todas as situações que o permitam, resolveria o problema. Mas a preocupação de não desautorizar os directores quando são apenas, aparentemente, os direitos e o bem-estar dos professores que estão em causa continua a ser uma linha de rumo da política educativa.

Encontrei a “justificação” que aqui apresento no blogue do Arlindo, mas há na blogosfera docente exemplos para vários gostos. E nem sei o que é mais lamentável, se a prepotência de alguns directores, se a divulgação sob anonimato que está a ser feita destes casos. Percebo as cautelas dos bloggers na divulgação de informação que não puderam confirmar directamente. Já me custa mais a entender que professores de uma escola onde se impõem as reuniões presenciais não façam tudo o que estiver ao seu alcance para que isso se saiba e o nome da escola seja publicamente divulgado.

Ainda assim, este não-querer-que-se-saiba é de certa forma revelador. Significa que haverá algum mal-estar da parte de quem toma estas decisões sabendo que o não devia fazer. E sendo assim, a denúncia e a pressão pública deveriam fazer o seu caminho. Assim como se fizeram, quando se tornou evidente a vontade de esconder informação, listas de escolas com casos de covid-19, porque não começar a organizar agora, com o contributo de todos, a lista das escolas em que foram convocados conselhos de turma presenciais?

E agora, as avaliações…

estatisticaNão são precisos grandes dotes adivinhatórios para antever que o sucesso escolar irá bater, este ano, todos os recordes.

Será o ano em que, fruto das contingências e dos confinamentos, menos se aprendeu. Mas também aquele em que, muito provavelmente, os resultados mais subirão. Quer venham traduzidos na escala de 1 a 5, quer nas velhinhas classificações de 0 a 20. E quanto às detestadas retenções, o mais certo é ficarem finalmente reduzidas a números residuais.

Quanto às razões para isto suceder, elas são evidentes, e só a má-fé e a eterna desconfiança da equipa ministerial em relação aos professores pode ver nisto uma tentativa de, na falta de um punhado de exames, subverter o processo avaliativo com um brutal inflacionamento das notas.

De facto, se nos colocarmos na perspectiva de qualquer professor, a realidade torna-se fácil de compreender. Não é aceitável prejudicar alunos que, devido à pandemia, ficaram privados da escola e, por variadas razões, não puderam prosseguir no mesmo ritmo as suas aprendizagens. Uns porque não dispunham dos equipamentos necessários, outros porque os tinham de partilhar com pais e irmãos, outros por carecerem de suficiente autonomia e disciplina para trabalharem sozinhos, outros ainda por falta de motivação ou adequado acompanhamento parental. Sejam quais forem as situações, a verdade é que a desigualdade de condições reinou, traduzindo-se em poderosas condicionantes que, na maioria dos casos, os professores não estavam em posição de controlar ou remediar.

Por outro lado, se os alunos que menos fizeram não podem ser prejudicados por circunstâncias que, no essencial, os ultrapassam, o que fazer em relação àqueles que se superaram? Os que estudaram, fizeram todas as tarefas, participaram activamente nas sessões síncronas e fizeram progressos efectivos e comprovados nas suas aprendizagens? Será escandaloso que, nalguns destes casos, possa haver uma melhoria da nota do segundo período? Não será esta uma questão de elementar justiça?…

Com um sucesso praticamente universal como dado adquirido na generalidade das escolas, a principal incógnita é o alcance desta excepcionalidade. Será ela apenas o fruto isolado de um ano diferente de todos os outros ou, pelo contrário, marcará a consolidação de uma tendência pró-sucesso que já vem de trás?

Para já, o mais interessante é registar a forma súbita como o ME transferiu as suas habituais preocupações com as retenções para o combate às “notas inflacionadas”. Mas também estou curioso em ver o que acontecerá, daqui para a frente, com a indústria da promoção do sucesso instalada no ME e ancorada em financiamentos europeus. Se os seus objectivos forem atingidos antes do tempo previsto, fará sentido continuar a verdascar os professores?…

Os conselhos de turma devem ser presenciais?

Segundo a informação que a DGEstE está a enviar às escolas, os conselhos de turma do 3.º período podem ser feitos por videoconferência, desde que todos os intervenientes estejam em condições, não só de acompanhar os trabalhos, mas também de participar na tomada de decisões.

Contudo, este “poderão” não é imperativo, pelo que não desautoriza aqueles directores mais marretas que, nalgumas escolas, insistem na obrigatoriedade das reuniões presenciais. E que continuam com carta branca para levar a sua ideia avante…

ct-3p