Resposta certa, errada ou assim-assim?

O exercício era simples, até para uma criança de sete anos: escrever usando algarismos números escritos por extenso.

E o miúdo sabia fazê-lo, como se depreende pelas respostas que deu. No entanto, a sua “interpretação” da pergunta foi diferente do que era pretendido pela professora, que considerou as respostas erradas. Mas o pai da criança teve dúvidas e acabou, como conta o DN, por colocar o assunto à consideração superior. No Twitter…

Será que a expressão “os seguintes números” pode entender-se como “os números seguintes”?

Será a pergunta suficientemente ambígua para permitir a possibilidade de responder de duas formas diferentes, ambas correctas?

Deveria a professora valorizar a capacidade de raciocínio do aluno e considerar certo o exercício?

Ou estamos precisamente perante um raciocínio incorrecto, que induziu o aluno em erro, embora acabando a fazer algo até mais difícil do que o pedido?

Ou ainda: o que temos aqui é uma expressão de criatividade, algo que a escola deve valorizar e estimular nos alunos, ou já o embrião de um vício demasiado frequente nos adultos, a mania de complicar?

Como se vê, são mais importantes as dúvidas e as reflexões que este caso suscita – o tweet original tem já mais de cinco mil respostas – do que a resposta definitiva para a questão colocada.

Em todo o caso, e se quisermos uma posição que possa servir de voto de qualidade, talvez o tweet da Real Academia Española, instada a pronunciar-se, possa servir a esse fim. Os académicos não têm dúvidas: “tal como está redigido o exercício, a interpretação natural é que se escrevam com algarismos os números que se citam a seguir“. E não haveria, pergunta ainda alguém, uma forma mais clara de colocar a questão? Sim, responde a Academia, o mais claro seria escrever “estes números”.

Entretanto Ignacio Bárcena, o pai da criança, perante a repercussão de um tweet que rapidamente se converteu num quase julgamento público da professora do seu filho, sentiu também a necessidade de esclarecer: da sua parte, foi apenas uma brincadeira. E gosta muito da professora do seu filho.

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Exigimos aos pobres, quando os ricos passam sem saber?

– Disse aos do 4° ano que não os podia aprovar se não soubessem reconhecer as orações subordinadas, mas depois disto do Froilán não sei se fiz bem.

– Fizeste bem. Os teus alunos não têm a família de Froilán que, ainda que não saiba fazer nada de nada, lhe vai subvencionar a vida.

O percurso escolar do jovem Froilán, que já foi tema de outro post, está a ser tema de conversa entre os professores espanhóis.

Lá como cá, todos nos debatemos entre a dificuldade de conseguir que todos os alunos aprendam, a necessidade de construir respostas individualizadas num contexto de turmas heterogéneas e numerosas e o imperativo ético e deontológico de não andar simplesmente a certificar a ignorância: é necessário que os alunos adquiram conhecimentos, desenvolvam competências e, nos momentos de avaliação, as suas notas reflictam as aprendizagens efectivamente realizadas.

froilan3.jpgMas depois aparecem estes jovens de boas famílias, aos quais o poder do dinheiro permite superar a falta de “queda para os estudos”, e não podemos deixar de nos questionar: vale mesmo a pena andarmos a exigir tanto aos nossos pobres e esforçados alunos, se com os filhos das elites é o que se vê?

Claro que vale: desde logo porque aos filhos dos pobres e remediados ninguém lhes pagará uma vida de parasitas, como é comum fazer-se, nas velhas e novas aristocracias, aos filhos menos dotados…

Os conselhos de turma são soberanos

professoresSendo inegável que há pressões claras sobre as escolas no sentido de passarem os alunos, aumentando a taxa de sucesso com que a equipa ministerial pretende melhorar as estatísticas da Educação portuguesa, há uma verdade que deve ser dita: na avaliação dos alunos, os conselhos de turma são soberanos. E se assim não fosse, não haveria directores a fazer estas tristes figuras:

E caso os docentes, em conselho de turma, não subam as notas aos alunos de forma a que transitem de ano, há diretores que estão a repetir as reuniões de avaliação exercendo pressão junto dos professores. O i sabe de escolas da Margem Sul onde estão a ser repetidas várias reuniões. Num estabelecimento escolar do distrito de Setúbal foram, até ao momento, repetidas 16 reuniões de conselho de turma de anos do básico e secundário, com a diretora a dar instruções expressas aos professores para que tenham como patamar mínimo 8 valores de nota a atribuir aos seus alunos – neste caso, secundário.

O sítio certo para definir e uniformizar critérios de avaliação é o Conselho Pedagógico. É aí que os directores devem usar a sua influência, ouvindo também os restantes elementos, e decidindo colectivamente. Nos conselhos de turma decidem os professores que efectivamente conhecem os alunos, trabalharam com eles e os avaliaram.

De resto, ninguém é obrigado a aprovar decisões contra a sua vontade e a sua ética profissional. Se os professores colaboram na passagem de alunos que não deveriam transitar de ano, apenas a si próprios terão de se culpar. E se alguém está à espera de agradecimentos, fique sabendo que o ministério, esse, já fez questão de dizer que nada tem a ver com o assunto…

Questionado pelo i, o Ministério da Educação diz que “a decisão de retenção ou não retenção é sempre uma decisão de cada conselho de turma”, assumindo que as aprendizagens são desenvolvidas “ao longo de um ciclo, pelo que as escolas têm autonomia para avaliar a capacidade de recuperação dos alunos e os custos e benefícios da repetição de várias disciplinas em que houve sucesso”.

 

E acabarmos com as votações de notas?

Escolas estão a passar de ano alunos com cinco negativas

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A notícia do DN dá conta de diversas situações que só serão novidade para quem não é professor e não sabe como funcionam os conselhos de turma: alunos que transitam com muitas “negativas”, notas votadas a eito para permitir a passagem de ano, pressões ministeriais sobre as direcções e destas sobre os professores: enfim, e infelizmente, o que se tem vindo a tornar habitual.

Pela minha parte, não me incomoda que um aluno passe de ano com quatro ou cinco níveis insatisfatórios num ano inicial ou intermédio de ciclo, se isso estiver previsto nos critérios de avaliação da escola e os alunos nesta situação beneficiarem no ano seguinte de medidas de apoio específico para superar as suas dificuldades. Parece-me uma leitura correcta, embora não a única, do “carácter excepcional” das retenções nos anos não terminais determinado pela legislação em vigor.

O que me repugna, isso sim, são as votações de notas, a eito, nalgumas escolas e conselhos de turma, sem qualquer fundamentação pedagógica. A atribuição das notas é o resultado da avaliação dos alunos, uma tarefa de especial responsabilidade atribuída aos professores, que não deve ser falseada e subvertida através da alteração para níveis que não correspondem às aprendizagens efectivamente realizadas. A votação de uma nota só deveria ser permitida quando se demonstrasse que o professor que a propõe aplicou incorrectamente os critérios de avaliação em vigor na sua disciplina, e esta é uma questão de deontologia profissional a que deveríamos estar mais atentos.

Se por variadas razões se pode entender que a retenção não tem vantagens pedagógicas para determinado aluno – e sabemos que em muitos casos, sobretudo quando são retenções repetidas, isto é inteiramente verdade – então o aluno deveria transitar, sim, mas com todas as “negativas” expressas na pauta. As escolas têm os meios legais para o fazer em relação à maioria dos anos de escolaridade, pelo que é de todo injustificável que se continue a abusar do recurso a essa irresponsabilização colectiva que é a votação de notas em conselho de turma.

Dois testes por período? Não está escrito em lado algum!

fne-andaep-confap.JPGQuem o lembrou foi o próprio secretário de Estado da Educação. Prestes a entrarmos no último e decisivo momento de avaliação do ano lectivo, a mensagem do governante que surge como o principal promotor do sucesso educativo é clara:

O secretário de Estado da Educação frisou que é preciso pensar o desafio da finalidade da escola e que o objetivo da avaliação é aprender melhor. As consequências disto são o recentrar a avaliação no formativo, ter uma avaliação sobre todas as áreas do currículo, termos práticas de avaliação contínua e sabermos dar um bom estímulo à diversificação dos instrumentos de avaliação. “Avaliar só para testes é redutor”, afirmou. “E não está escrito em lado algum que deve haver dois testes por período”. Se queremos uma escola inclusiva, reconheceu João Costa, “os instrumentos de avaliação devem também ser inclusivos”.

Mas o sinal mais evidente da mudança de ventos foi dado, no evento organizado pela FNE, a CONFAP e a ANDAEP, pelo presidente do IAVE, Hélder Sousa. O rigoroso examocrata dos tempos de Nuno Crato mostra-se agora convertido às causas eduquesas da avaliação formativa, preocupado com as injustiças do sistema, com o excesso de testes e com os alunos que, “por uma décima” se vêem impedidos de perseguir os seus sonhos no ensino superior.

“Temos um sistema que não funciona”, começou por afirmar o Presidente do IAVE, e uma escola muito refém de conteúdos e muito condicionada pelo manual escolar. Em sua opinião, é urgente a mudança de paradigma na avaliação, até porque a maior prisão que os professores têm “é dar o programa”. O novo paradigma tem forçosamente que passar por uma avaliação mais formativa e mais contínua, libertando-se do peso excessivo dos testes, que são instrumentos que nem sempre são os mais corretos.

O Presidente do IAVE referiu que temos que acabar de uma vez por todas com “a semana de congestionamento de testes” nas escolas e lamentou que a construção de instrumentos de avaliação não faça parte da formação inicial dos docentes. Para Helder Sousa a mudança na avaliação terá que ultrapassar os constrangimentos do currículo, um secundário dependente do acesso ao ensino superior e uma avaliação de desempenho que vise estigmatizar os professores, não contribuindo para a melhoria das suas práticas pedagógicas em sala de aula e para o seu domínio científico.

Helder Sousa apresentou novos modelos de acesso ao ensino superior e acabou por admitir que “é demolidor, desumano e inaceitável que um aluno não entre na faculdade por uma décima”. Por outro lado criticou as escolas que começam logo no 1º ciclo a fazerem baterias de testes de exames, sugerindo que em vez disso poderiam treinar os seus alunos nos diferentes tipos de perguntas. “Mudar é uma tarefa em comum”, realçou. “E a educação é o maior património social e económico de um povo.” Por isso, não pode haver boa educação sem uma avaliação de qualidade.

Alguém que informe o sr. presidente que nenhuma escola faz os testes todos numa semana. E que, qualquer que seja o sistema de acesso ao ensino superior, basta haver mais candidatos do que vagas para que possa haver alunos a não conseguir, por uma décima, entrar no curso pretendido.

O resto é apenas a incoerência e o oportunismo evidente de quem confessa, agora, que eram erradas todas as políticas que ajudou a implementar nos últimos anos. Se os professores davam aos seus alunos baterias de testes ou faziam treinos intensivos para os exames era porque essas eram as práticas promovidas pelo anterior governo, que encontrou no IAVE de Hélder Sousa um fiel serventuário.

A confusão instalada

exercise1.gifJá se percebeu que é melhor começar a encarar as provas de aferição às expressões, no 2º ano, mais como um diagnóstico das carências das escolas e das incongruências do sistema educativo, do que como séria avaliação das competências adquiridas pelas crianças.

Sendo verdade que boa parte dos alunos não aprendeu nem praticou, ao longo do ano, as actividades que agora irão ser chamados a executar, então a prioridade não poderá ser avaliar se fazem bem aquilo que a escola não lhes ensinou. Tem de ser, isso sim, garantir que o currículo nacional é cumprido em todas as escolas portuguesas.

A partir desta terça-feira e até dia 9 pode haver alunos de 1.º Ciclo sem aulas ou com alterações “substanciais” nos horários devido às provas de aferição a Expressões, que vão ser feitas por cem mil alunos do 2.º ano. Os alunos do 2.º Ciclo também podem ter “furos” devido à afetação dos seus professores para acompanharem as provas.

O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira, garante “ser impossível” as escolas assegurarem a realização das provas sem alterar o dia a dia dos alunos, conforme pedido pelo Ministério da Educação. O problema será maior, explicou, em agrupamentos de menor dimensão, especialmente nas escolas de 1.º Ciclo com turmas mistas. Haverá alunos que terão de ser deslocados para outras escolas, devido à falta de condições para realizarem as provas.

A maioria das escolas não possuia, há um mês, todos os equipamentos necessários. “Na sexta-feira, ainda andavam a ser distribuídos bancos suecos”. Apesar disso, garante Manuel Pereira, “as provas vão realizar-se com alguns ajustamentos imaginativos – se não houver bancos suecos, haverá cordas”. O presidente da ANDE assume que as provas de aferição, que se realizam pela primeira vez a Expressões, irão testar “a falta de condições das escolas de 1.º Ciclo”.

A Confederação Independente de Pais considera que estas provas estão “cheias de imprecisões” devido a estes problemas. “Trata-se de uma prova cheia de imprecisões porque, afinal, muitos alunos vão ter que se deslocar para outra escola e muitos dos nossos filhos não tiveram durante o ano aulas de exercícios físicos”, lê-se no comunicado.

Feito!

Terminadas as avaliações do período, entramos na, julgo que inteiramente merecida, pausa lectiva. Ou, correndo o risco de ser politicamente incorrecto, em férias da Páscoa. Que oficialmente, para os professores, não são férias.

Pessoalmente, creio que as muitas horas que trabalhamos a mais, nestas últimas semanas de cada período, nos dão bem o direito à meia dúzia de dias sem alunos nem tarefas na escola que sobram depois das avaliações terminadas.

Parece, contudo, que nem todos têm a mesma sorte. Que também há por aí um ou outro director que consegue esticar o período das avaliações de forma a obrigar os malandros dos professores a terem reuniões ainda na próxima segunda-feira…