Disse-me um passarinho…

Disse-me um passarinho que – nem tudo podem ser más notícias! – o projecto MAIA iniciou já o lento mas irreversível declínio que levará ao seu falecimento. Dito por outras palavras, serão mais as escolas a abandonar o projecto do que as novas adesões. Será?… Espero bem que sim!

Em boa verdade, quem experimenta, rapidamente se exaspera com o aumento exponencial da burocracia eduquesa inerente à avaliação maiata, com a complexidade de processos, uns inúteis, outros inexequíveis, que aumentam a carga de trabalhos dos professores sem qualquer ganho para os alunos e roubando o precioso tempo que deveria ser dedicado à preparação das aulas, ao efectivo acompanhamento dos alunos e, não menos importante do que tudo isto, ao descanso e à preservação da saúde mental de quem ainda não desistiu de ser professor.

Fazer avaliação contínua, diversificar instrumentos de avaliação, valorizar a oralidade e o trabalho na sala de aula, ter em conta os diversos domínios da aprendizagem que se faz na especificidade de cada disciplina: isto foi o que todos aprendemos quando nos profissionalizámos como docentes e é o que se faz em todas as escolas, sem necessidade da abelha MAIA. Com as conhecidas limitações impostas pelo tamanho das turmas, a carga horária das disciplinas e o número de turmas e alunos atribuídos a cada professor. Aqui sim, onde seria importante mexer, claro que não se mexe…

Pelo meio, há já quem tente salvar a face do mentor desta treta descomunal, entretanto promovido a presidente do CNE, recorrendo ao conhecido argumento de que não era nada disto que o prof. Fernandes pretendia, que quem implementou o projecto é que andou a complicar. Discordo, e a minha atribuição de culpas e responsabilidades é geral e democrática: acuso os pedagogos que continuam a teorizar no vazio e a papaguear a fraca ciência que aprenderam há três ou quatro décadas, sem perceber que a escola e a sociedade evoluíram, nem tentar compreender as condições reais em que hoje se trabalha nas escolas; os decisores ministeriais que continuam a desprezar os professores e a fazer tábua rasa da sua experiência e cultura profissional, os directores que continuam a preocupar-se mais em ficar bem vistos pela tutela do que em proporcionar as melhores condições de ensino e aprendizagem aos professores e alunos das suas escolas e os professores que acolhem de braços abertos – e impõem aos colegas – toda e qualquer moda educativa, por mais inútil e insensata que demonstre ser – e no caso do MAIA isso topa-se à légua!…

Tapar o sol com a peneira

A Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) interveio preventivamente em 78 instituições de ensino ao longo do ano letivo 2021/2022, de forma “a promover a melhoria das práticas de avaliação”.

Foram alvo dos inspetores 66 escolas públicas e 12 colégios, tendo sido instruídos 6 processos de inquérito que deram origem a 12 processos disciplinares, segundo avançou à Renascença, o Ministério da Educação.

Todos os processos estão em fase de instrução. Segundo o Ministério de João Costa, “na maior parte dos casos, o objeto dos processos consistiu na falta de rigor na aplicação dos critérios de avaliação das disciplinas do Ensino Secundário”.

Ainda de acordo com a tutela, o trabalho dos inspetores da IGEC desenvolve-se através de diversas intervenções nos estabelecimentos de ensino, procedendo “a análise documental, entrevistas a docentes e a diretores e aplicação de questionários online a alunos”.

Preparando o terreno para a operação mediática de amanhã, dia de S. Ranking, a maior, e inteiramente gratuita, operação de promoção do ensino privado, o ME tenta vender-nos uma ideia ilusória: a de que existe equidade e justiça nos procedimentos de acesso ao ensino superior, e que as inspecções estão vigilantes e actuantes em reais ou supostos casos de inflacionamento de notas.

Ora a verdade é que não são inspecções administrativas ao conjunto de papelada e folhas excel que dá pelo nome de “critérios de avaliação”, ou mesmo inquéritos para avaliar “percepções” dos envolvidos, que impedem uma escola de, por exemplo, correr os seus alunos a dezanoves e vintes em determinadas disciplinas, geralmente aquelas que não são sujeitas a exames nacionais. O que as equipas da IGAE vão verificar é se os critérios efectivamente aplicados na avaliação dos alunos batem certo com aqueles que a escola aprovou em Conselho Pedagógico e divulgou aos alunos e encarregados de educação. Se formalmente tudo estiver correcto, nada mais haverá a fazer, pois não me parece que os inspectores desejem ou tenham sequer condições para irem eles próprios avaliar os alunos, de forma a confirmar se as notas são justas.

Há um outro factor fortemente limitativo dos esforços possíveis de fazer para combater as discrepâncias de notas: a construção local dos critérios de avaliação em vigor em cada escola. Dois alunos com níveis semelhantes de conhecimentos e competências, a frequentar escolas diferentes, terão certamente notas distintas, porque os critérios pelos quais são avaliados podem variar fortemente de escola para escola. Sublinhe-se ainda que a política oficial do ministério nesta área, centrada no famigerado Projecto MAIA, se por um lado multiplica a burocracia avaliativa e reforça a sua rigidez, por outro também aumenta a confusão, encorajando a disparidade de critérios, instrumentos e procedimentos avaliativos definidos ao nível de cada escola.

Acrescente-se que estes casos de inflacionamento de notas são proporcionalmente mais frequentes nas escolas privadas, que retiram deste modus operandi uma vantagem directa: tornam-se cada vez mais procuradas pelos alunos que precisam de médias elevadas para entrar nos cursos de maior procura. Mas também são notados nalgumas escolas públicas: enquanto os colégios de renome querem galgar posições nos rankings para angariar alunos, as escolas do fundo da tabela tentam de alguma forma ajudar os seus alunos a concluir o secundário, ou a dar-lhes algumas hipóteses na conquista de uma vaga no ensino superior público.

Pensamento do dia

– Os meus colegas dizem-me, nas reuniões de avaliação, que o melhor é passar toda a gente. Que depois a vida se encarregará de os colocar no seu lugar. Mas eu fico preocupado com a possibilidade da existência dessa outra vida.

– Sim, a vida os avaliará. Do que não estou seguro é se os critérios de avaliação da vida são tão claros como os que usamos nas escolas.

Adaptado daqui.

E só dizem agora?

Há semanas que as escolas pediam instruções acerca da avaliação final dos alunos, refugiados da Ucrânia, que acolheram ao longo do ano lectivo. Sem uma integração efectiva nas actividades lectivas, que a barreira da língua impediu, que avaliação se poderia fazer destes alunos?

Felizmente a grande maioria destes alunos manteve contacto com a escola de origem, que terá continuado a acompanhar os seus estudos. É por isso sensata e inteiramente justa a decisão de reconhecer às escolas ucranianas, que estes alunos frequentaram durante boa parte do ano, a responsabilidade de os avaliar, comunicando depois essa avaliação às escolas portuguesas.

Uma boa solução, simples e eficaz, que poderia e deveria ter sido tomada, e comunicada às escolas, antes de se iniciarem as reuniões de avaliação.

MAIA, a abelha assassina

Decerto que podemos já tirar uma ilação da alegada aplicação das «novas» pedagogias no domínio da avaliação: o sucesso educativo inflacionou e as percentagens de retenções diminuíram drasticamente. E tais cifras fazem a felicidade das direções das escolas, do ME, do seu ministro e inspetores, bem como de muitos alunos, pais e professores. Paradoxalmente, a maioria dos alunos chega hoje ao ensino secundário e ao final do liceu pior preparados nos planos científico, literário e cívico. Trabalham menos, leem, interpretam e escrevem pior, revelam menos conhecimentos e – problema que não é de somenos importância – exibem comportamentos mais indisciplinados nas salas de aula. Isto é uma evidência que só escapa aos educadores românticos e aos tecnocratas da educação, que não pisam diariamente o chão das salas de aula, porquanto se escapuliram delas por falta de vocação e abnegação.

Luís Filipe Torgal escreve sobre o execrável projecto MAIA, uma metodologia avaliativa de contornos kafkianos que o agora ministro da Educação foi insinuando nas escolas, sugerindo uma “adesão voluntária” que rapidamente se tornou, em muitos lados, imposição de uma pseudo-pedagogia normativa e totalitária. Passando em revista a retórica eduquesa com que o projecto tem sido vendido, LFT faz um diagnóstico certeiro desta calamidade e da forma branda e resignada como está a ser acolhida nas escolas. E desenrola uma cantilena auto-justificativa que conhecemos de cor e salteado: avaliar em vez de classificar, reforçar a avaliação formativa, promover pedagogias activas, focar no aluno, no “holístico”, nas competências em detrimento dos “conhecimentos inúteis”. E, acima de tudo, preencher grelhas. Muitas grelhas.

No confronto com a realidade, toda esta pedagogia de gabinete é de uma pobreza confrangedora. Transforma o professor num fazedor de registos, um recolector de “evidências”, um manga de alpaca ao serviço de uma burocracia insana que é a negação do profissionalismo docente e do papel transformador da escola. Por mais teorias que se inventem, há uma realidade que os teóricos nunca deveriam esquecer: a escola é um lugar onde se ensina e aprende, e nem os professores devem ser desencorajados de ensinar, nem é suposto os alunos aprenderem sozinhos. A avaliação – e o projecto MAIA é sobre avaliação – é uma necessidade decorrente do ensinar e do aprender. Mas a avaliação maiata subverte a relação pedagógica, subordinando a aprendizagem à sua avaliação. No limite, só se ensinaria o que é passível de ser avaliado – o que redunda num perfeito disparate.

Lançado o caos nas escolas, a etapa seguinte será vermos os responsáveis a porem-se ao fresco. Domingos Fernandes, o patriarca maiato, já arranjou pouso seguro como presidente do CNE, um cargo institucional que o PS vem transformando em prémio de carreira para os seus bonzos eduqueses, e de donde se poderá progressivamente distanciar dos disparates dos seus discípulos. No final, quando tudo der para o torto, não é difícil para LFT vaticinar que ninguém assumirá responsabilidades. E se dúvidas houver acerca desta cultura de irresponsabilidade e facilitismo solidamente implantada entre a trupe de políticos, cientistas e tecnocratas que desgoverna a Educação, basta recordar as palavras recentes de Maria de Lurdes Rodrigues quando, num debate recente, a tentaram encostar à parede: “Não interessa como chegámos aqui…”

Se fossem só grelhas…

Imagem daqui.

Avaliação que se preze tem de ter paletes de registos, seja em papel impresso ou em documento virtual.

Ainda que a informação se repita de uns para os outros ou que a maior parte da papelada nem sequer chegue a ser lida.

Avaliar a integridade?…

A imagem, publicada num post recente de Paulo Guinote, corresponde a um excerto dos critérios de avaliação da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento adoptados num agrupamento de escolas algures por aí.

A “responsabilidade” já se encontrava entre os parâmetros com que eram avaliadas à parte, até há bem pouco tempo, as “atitudes e valores”, uma prática que nas avaliações à moda do Maia se desaconselha. Mas a “integridade”? Será correcto, possível, praticável e desejável avaliar objectiva e quantitativamente a sua presença nos alunos sujeitos a avaliação?

A questão suscita polémica e natural desconforto: uma coisa é avaliar conhecimentos, competências e comportamentos observáveis e verificáveis; outra, muito diferente, é presumir acerca de princípios e valores que os alunos tenham, em maior ou menor grau, interiorizado.

Aqui, há um ponto importante que se vai despercebendo: o complicómetro avaliativo em acção na maioria das escolas tem origens evidentes, não apenas no “55” e legislação conexa, mas nesse monumento à vacuidade e ao pedantismo neo-eduquês a que chamam PASEO. É precisamente aí que encontramos os valores da “Responsabilidade e integridade” como devendo fazer parte do “perfil de saída” dos alunos no fim da escolaridade de 12 anos. É na redondez desta sorte de documentos que encontramos o fundamento para que, cada vez mais, se exorte os professores a avaliar, não o que os alunos sabem ou como se comportam, mas a forma como se perfilam. O que quer que isso signifique…

Pessoalmente, faz-me alguma confusão toda a tourada que se vem criando em torno da avaliação, uma área onde ainda não há muito tempo atrás predominavam preocupações de objectividade, justiça e rigor, mas onde agora parece valer tudo. O que interessa é criar uma salganhada de documentos, de forma a que haja critérios de avaliação para tudo o que os alunos façam na escola, que não faltem perfis, descritores, domínios e toda a demais parafernália que, nas escolas maiatas, é tantas vezes levada ao delírio. Como se o insucesso não se devesse, antes de mais nada, à falta de estudo e de empenho nas tarefas escolares e esta carência pudesse ser revertida com muito feedback e critérios de avaliação especiais de corrida… A ninguém parece ocorrer que seria muito melhor, para quem estuda e trabalha nas escolas, dispor de critérios de avaliação mais simples, claros e objectivos. Compreensíveis por todos, a começar pelos alunos que por eles serão avaliados.

E recusarem-se a fazer?…

Fazer fichas com avaliação por rubricas/dimensões/domínios/competências, ou o camandro a trote, porque no fim só ajuda a aumentar a confusão, sem especial ganho para os alunos. É um dos exemplos da “sofisticação” metodológica que se diz ser no interesse dos alunos e da qualidade do feedback, mas que é uma rematada treta, mais ou menos embaixadores e arautos no terreno. Como se, na prática, fosse algo mais eficaz do que explicar a est@ ou aquel@ alun@ a matéria que revelou não ter percebido (ou estudado).

Há quem diga que é obrigatório. Mas ainda não vi oficialmente determinada, preto no branco, a obrigatoriedade de as escolas aderirem ao execrável projecto MAIA, nem de os professores terem obrigatoriamente de avaliar por domínios/competências/rubricas de aprendizagem. Aliás, os mentores destas coisas, que não primam propriamente pela coragem ou a frontalidade, são os primeiros a recuar estrategicamente quando vêem os seus “projectos”, cuja mediocridade conhecem melhor do que ninguém, a serem postos em causa.

Sei bem que as veleidades da gestão autocrática de muitas escolas e agrupamentos pouca margem de manobra deixa aos professores, mas também noto que muitos directores alinham decididamente em todos os “desafios” que o ministério lhes lança porque contam com um corpo docente maioritariamente amorfo, resignado e disposto a aceitar todas as cangas que lhe queiram pôr em cima.

Claro que é mais fácil culpar os sindicatos que “não fazem nada” – acusação geralmente feita pelos mesmos que noutros contextos, defendem que os sindicatos não devem imiscuir-se em questões pedagógicas – ou que nestas coisas é que faz falta uma Ordem, ou seja, uns fulanos a quem pagaríamos para defender a dignidade da nossa profissão, que nós não nos queremos dar a esse trabalho.

Só que não. Esta é na verdade uma luta que compete a todos os professores. O nosso compromisso profissional deve ser, em primeiro lugar, com os nossos alunos e, logo de seguida, com a comunidade educativa a que pertencemos. Não somos “funcionários do Governo”, como sugeriam no tempo de Passos Coelho, quando nos mandavam colocar “Governo de Portugal” nos cabeçalhos dos documentos oficiais, e pretendem agora, dissimuladamente, como a catrefada de burocracia que se lança sobre as escolas, numa tentativa de subalternizar ainda mais os professores, anulando a autonomia científica e pedagógica no exercício da profissão que se encontra – ainda – consagrada no ECD.

Todo o acréscimo de trabalho burocrático sobre os professores traduz-se, de uma forma ou de outra, em menos tempo disponível para e com os alunos. Razão mais do que suficiente para assumirmos, sempre que possível, a rejeição clara dos excessos de burocracia e controleirismo. Ou, em alternativa, formas criativas de contornar as más práticas a que nos querem obrigar.

Pensamento do dia

É por pesar muito o porco que o porco engorda?

A pergunta é feita pelo Luís Sottomaior Braga, pensando certamente nas minudências da “avaliação formativa” que, dizem-nos certos “especialistas em avaliação”, precisa de ser feita a toda a hora e instante.

Nunca criei porcos, tal como alguns dos ditos especialistas nunca avaliaram alunos do básico ou do secundário, mas quer-me parecer que, sendo o objectivo a engorda, usamos melhor o tempo a alimentar bem os animais do que a levá-los à balança.

Será que os porqueiros da avaliação formativa entendem a metáfora?…

Arianavírus

O que nos começa a faltar em vocações docentes e bons ambientes escolares sobra-nos – e já não é de agora – em gente desconhecedora da realidade das escolas básicas e secundárias, empenhada em fazer carreira e obter financiamentos parasitando a escola pública.

Os burocratas da avaliação andam a ser acarinhados e incentivados pelo ME, em vez de mantidos a uma distância de segurança, “rubricando” as suas próprias aulas da faculdade, se é que levam a sério as suas teorias, em vez de virem infernizar o trabalho dos outros, com a cumplicidade de demasiados professores e directores escolares. Tornando inutilmente mais penosa a profissão de professor e prejudicando as aprendizagens dos alunos.