Fim das avaliações

Já todos entregaram as atas e o resto da papelada?…

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Daqui.

Anita e as avaliações

Em época de avaliações, mais uns bonecos oportunos e sempre divertidos, directamente da página do Facebook da Anita, a professora!…

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Se “todos aprendem”, para quê baixar a fasquia?

baixar-a-fasquiaO projecto de autonomia e flexibilidade curricular, que este ano está já a ser aplicado em todas as escolas, “morrerá na praia se não houver consequências da avaliação” feita aos alunos. Esta é a convicção da professora da Universidade do Porto, Ariana Cosme, que tem sido a principal consultora do Ministério da Educação neste projecto lançado em 2017/2018, que tem na base dar às escolas a possibilidade de organizarem o currículo e o modo como ensinam em função das suas características e do meio em que se inserem.

Falando numa conferência promovida nesta quarta-feira pela Fundação Belmiro de Azevedo com o tema Estão as escolas preparadas para a autonomia e a flexibilidade curricular, Ariana Cosme frisou que este é um projecto “criado para ajudar os alunos a aprender melhor” e que como tal não poderá ser compatível “com pautas recheadas de más notas”.

A flexibilidade curricular é, na falta de outras causas mais substanciais e motivadoras, a grande bandeira da política educativa do actual governo. Os seus mentores não admitem que o projecto possa “morrer na praia”. É preciso que se transforme num sucesso inquestionável. Há, contudo, um obstáculo de monta: a flexibilidade tem sido apresentada como a receita para que os alunos aprendam mais e melhor, adquirindo um leque mais diversificado de competências e realizando “aprendizagens significativas”. Então e se, quando chegar a altura de avaliar formalmente o que de facto aprenderam, as pautas aparecerem, como teme a doutora Ariana, “recheadas de más notas”?

Parafraseando Groucho Marx – estes são os meus princípios, se não gostam, tenho outros… – também na Educação portuguesa parece ter chegado a hora de se propor aos professores um exercício semelhante: estas são as más notas que tenho para alguns alunos; se não gostam, arranjo outras mais simpáticas…

É impressionante como se passou do optimismo auto-confiante – com esta reforma os alunos vão aprender mais e isso ver-se-á nos resultados – para a desconfiança nos méritos da flexibilidade e na sua concretização prática: como não queremos correr o risco de uma avaliação desastrosa, vamos alterar os critérios e instrumentos de avaliação. E, sobretudo, acabar com os exames, que parecem ser o terror de todos os facilitismos educativos.

Na verdade, quem já começou a trabalhar um pouco nos meandros do “54” e do “55” ter-se-á apercebido de que o sucesso universal, mais até do que a aprendizagem ou a inclusão universais, são a pedra de toque de todo o arrazoado legislativo. A ideia é que a avaliação se adapte às especificidades de cada aluno, tendo em conta não apenas aquilo que ele é capaz – como se fazia com os alunos com NEE – mas também o que se dispõe a aprender. Na escola das crianças felizes, não vamos querer meninos contrariados – nem mal sucedidos na avaliação. Pelo que a receita universal do sucesso será, cada vez mais, avaliar apenas o que sabemos que conseguirão fazer razoavelmente.

Restará saber se, depois de saírem da escola divertida, facilitista e feita à medida de cada um, encontrarão idênticas facilidades no mercado de trabalho…

Nota 20 para todos os alunos

badge-stylos-rouges-éducation-en-colèreAtribuir a nota máxima a todos os alunos é o protesto que está a tomar forma em França, contra as reformas que o governo de Macron está a introduzir no sistema educativo, e em especial nos exames do final do secundário.

Todos os alunos recebem 20 valores, a nota máxima. Pelo menos é isso que os professores franceses têm inserido no sistema informático. Na sala de aula, no entanto, as avaliações verdadeiras são apontadas nos trabalhos e nos testes, assim como é dito a cada um dos jovens. A ideia é a de “bloquear o sistema” porque professores e alunos estão em protesto contra as mudanças nos exames nacionais que dão acesso ao ensino superior.

“O sistema educativo francês depende totalmente das notas, por isso talvez isto funcione se todos tivermos 20 valores. Algo terá que ser feito”, dizia ao jornal britânico “The Guardian” um aluno de uma escola no centro de Paris. “Com este protesto podemos mesmo conseguir bloquear o sistema”, acrescentou uma professora da mesma instituição de ensino.

Lá, como cá, segue-se a agenda do neoliberalismo e da OCDE para a Educação. O pretexto principal varia pouco: a escola está desfasada dos novos tempos, os alunos não estão a ser devidamente preparados para o mundo laboral, pelo que interessa reformular as aprendizagens e, naturalmente, a sua avaliação.

Na prática, isto significa tornar o sistema mais elitista, restringindo o acesso aos cursos superiores mais prestigiados e às carreiras mais atractivas a um pequeno número de alunos supostamente mais dotados, ou simplesmente de famílias mais endinheiradas, enquanto os restantes são formatados para servir de mão-de-obra submissa, barata e descartável num mundo laboral sem direitos, onde a precariedade é a regra e o desemprego uma ameaça permanente.

Acerca do protesto dos nossos colegas franceses, resta dizer que se mostra interessante e inspirador. Ataca a componente burocrática do sistema, sem pôr em causa a relação pedagógica. E permite alicerçar um protesto prolongado e com visibilidade mediática sem penalizar os professores com os pesados custos das clássicas greves. A seguir atentamente…

Fundo de greve para os professores

mealheiro.gif…os sindicatos vão discutir novas formas de luta “radicais”, que podem deixar os alunos do 12.º ano sem aulas no terceiro período. E querem uma greve financiada pelos professores, através de fundos criados dentro das escolas, numa clara imitação do que se passou com a greve dos enfermeiros cirúrgicos, financiada através de crowdfunding. “Aqui não temos de andar a explicar de que fontes externas vem o dinheiro”, ironiza Mário Nogueira, da Fenprof.

O endurecimento do protesto dos professores também faz lembrar o dos enfermeiros nos blocos operatórios – tanto pela duração como pelo método de financiamento. Mas, neste caso, sublinham os sindicatos, não há recurso a um crowdfunding em plataformas públicas, mas sim a quotizações entre os professores.

O presidente do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados pelos Politécnicos e Universidades, que também faz parte da plataforma de dez sindicatos que tenta negociar com o governo, reconhece ao DN que a proposta para fazer uma greve nos anos finais de ciclo é das que têm mais adeptos – “temos recebido centenas de pedidos” – e frisa que os sindicatos estão “disponíveis para avançar com as propostas que forem aprovadas pelos professores”.

A ideia é discutida há algum tempo nos blogues especializados de professores. Num post do final do ano passado, a propósito das negociações sobre o tempo de serviço, um dos autores do blogue Com Regras apontava para uma greve de um mês no início do próximo ano letivo – que já defendia “ainda antes de ouvir o que os enfermeiros pretendem fazer” – com recolha de fundos, sensibilizando a população em geral, mas principalmente canalizando uma percentagem da quota sindical para esse fundo.

A ideia já não é nova: ainda há pouco mais de meio ano se recorreu à quotização entre os professores para financiar a greve às avaliações, de forma a que o esforço financeiro se diluísse entre todos os apoiantes. Só assim, aliás, foi possível manter o boicote às reuniões durante quase dois meses. Mas o recente e bem sucedido crowdfunding que tem estado a financiar a greve cirúrgica dos enfermeiros, se por um lado levanta suspeitas e polémicas quanto à origem do dinheiro, também leva alguns professores a questionar: em vez de lutas mornas e inconsequentes, por que não organizamos a nossa própria greve cirúrgica, criando desde já o respectivo fundo de greve?…

Antes de mais, uma ressalva importante: um fundo de greve, quer seja nos moldes da greve às avaliações do ano passado, organizado a nível das escolas, quer seja no modelo mais aberto do crowdfunding adoptado pelos enfermeiros, só é eficaz numa greve que poucos fazem e muitos apoiam. Não vale a pena semear ilusões acerca de fundos que, reunindo uns tostões, os transformariam em milhões quase de um dia para o outro. Muito menos pensar, como já tenho visto escrito por aí, que as quotas pagas pelos professores sindicalizados dariam para constituir mirabolantes fundos de greve.

Esclarecidos estes pontos prévios, olhemos agora a substância da questão: o que poderia equivaler, entre os professores, a uma greve cirúrgica como a dos enfermeiros? Teria de ser, obviamente, uma greve a doer, causando sérios embaraços ao governo. Não poderia durar apenas um dia, ou mesmo uma semana, como as que habitualmente se fazem para “mostrar o descontentamento” ou “marcar posição”. Implicaria assumir o ónus da impopularidade junto da opinião pública, que o governo e a casta de opinadores avençados na comunicação social tentariam certamente suscitar. Teríamos de estar preparados para a acusação de prejudicarmos gravemente o futuro dos nossos alunos, assim como os enfermeiros foram e são acusados de colocar em risco a saúde e a vida dos doentes.

Vencidas e assumidas estas dificuldades, julgo que a melhor “greve cirúrgica” ao alcance dos professores deveria concentrar o seu impacto num ano de final de ciclo – preferencialmente, o 12º ano. Até poderia ser uma greve às avaliações, que agora fica mais dificultada e terá seguramente maiores custos, mas não é impossível. Ou, em alternativa, uma greve prolongada às aulas no 3º período. Uma ou outra, nem precisaria de ser feita em todas as escola, tal como os enfermeiros não pararam todos os blocos operatório. Poderia ser, para maior eficácia, concentrada nas escolas onde estão matriculados mais alunos finalistas do secundário. Havendo um número suficiente de docentes motivados para fazer a greve por tempo prolongado, devidamente ressarcidos pelos fundos de greve entretanto criados, os professores estariam a atacar o governo onde realmente faz mossa – no sistema de acesso ao ensino superior, que tem prazos e procedimentos bem definidos e onde qualquer atraso iria criar rapidamente alarme social.

Como escrevi em devido tempo, a greve às avaliações do ano passado não se perdeu no final de Julho, quando uns quiseram ir a banhos e outros pretendiam continuar por Agosto dentro, prisioneiros da sua própria estratégia. A greve perdeu-se muito antes, quando se aceitou dar as notas aos alunos dos anos com exames. A partir daí, dispondo das avaliações em que tinha realmente urgência, o ME pôde dar corda aos professores, deixando-os cansar-se sozinhos numa greve que aos poucos se foi esvaziando de significado. Relembro estes factos, não para acusar ou criticar seja quem for, muito menos para reavivar polémicas ou alimentar divisionismos e ressentimentos. Faço-o apenas porque acredito na capacidade que todos devemos ter de aprender com a experiência e com os erros cometidos. No ponto a que chegámos, uma nova e ainda mais dura greve só fará sentido se houver a vontade clara de ir até onde for preciso para obrigar o governo a cedências efectivas. Se essa vontade não existe, então o mais seguro é não ir sequer à luta…

Posso fazer greve às reuniões de avaliação?

reuniao-avalClaro que sim, caso as reuniões sejam marcadas para além do serviço lectivo e não-lectivo registado no horário dos professores. Independentemente de serem, ou não, de avaliação. E não há lugar a desconto na remuneração: nenhum professor pode ser obrigado a cumprir serviço extraordinário quando este nem sequer é remunerado.

Quanto às escolas que se preparam para ocupar os dois dias da mini-pausa do Carnaval com reuniões: também só vai quem quer. Haverá um pré-aviso de greve a cobrir estes dois dias, neste caso com desconto no vencimento dos grevistas.

Face às dúvidas que têm chegado à FENPROF, esclarece-se:

 

Reuniões de avaliação, dia 1

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Não sei se será preciso mandar umas fumaças, como sugere o cartoon do sempre inspirado Paulo Serra, ou se será necessária uma sessão prévia do mindfulness agora tão em voga nalgumas escolas…

Mas há uma enorme irracionalidade nesta obsessão de transformar as reuniões de avaliação em sessões de produção e verificação de papelada.

Uma azáfama que começa muitos dias antes, com os directores de turma a recolher todo o tipo de informações – relatórios, justificações, participações, monitorizações – e quase sempre se prolonga por mais umas horas, depois da reunião terminada – é preciso conferir pautas e registos, finalizar a acta, imprimir documentos…

Continuamos presos – ou melhor, querem-nos prender – à ideia de que transformamos a realidade, não através da acção, mas escrevendo sobre ela. Perante a falta de meios para construirmos a escola que realmente queremos, criamos no papel a escola virtual onde tudo funciona às mil maravilhas…