Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: O ME nos tribunais

…É nesta fase que se torna evidente o que já se antecipava: as novas regras de recuperação faseada atenuam, mas não resolvem, a situação injusta que representa haver professores que, progredindo mais tarde, mudam novamente de escalão mais depressa do que, por exemplo, os que progrediram em 2018. Uma injustiça que se vem juntar a outras, como as decorrentes dos reposicionamentos, cujas regras permitem que docentes que ingressaram mais tarde na carreira ultrapassem os que foram vinculados no tempo da troika…

No Fundo: Facilitismo nas avaliações finais

O quadro legal instituído pelos diplomas legais que regulam a inclusão escolar – o “54” – e a flexibilidade curricular – o “55” – veio estabelecer uma espécie de direito natural ao sucesso escolar. A ideia é: se o aluno não aprende, seja por que razão for, algo deverá ser feito, quer ao nível pedagógico, quer na vertente da avaliação, para obter sucesso…

Média de 40%? Está aprovado!

smiling-boys-carry-girl-glasses-260nw-1161752017O rumor é preocupante, mas sabendo-se o que se sabe sobre as práticas pró-sucesso de alguns agrupamentos e da pressão ministerial para que “ninguém fique para trás”, não custa muito acreditar que isto esteja mesmo a acontecer:

…chegou-me a informação de que alguns agrupamentos, alegadamente através dos seus conselhos pedagógicos, têm autonomia para, no decorrer do ano lectivo (e alguns até mesmo uma semana antes da realização das reuniões de avaliação de final de ano lectivo), alterarem por completo os critérios de avaliação definidos desde o início do ano e “deliberarem” que, para os alunos obterem aprovação em cada disciplina, deverão os desempenhos mínimos de avaliação fixar-se entre os 40% e os 45%.

Aparentemente, muitos agrupamentos sondam os seus professores (por departamentos) antes da deliberação em pedagógico sobre a fixação destas percentagens de desempenho…

Quando as normas do “54” e do “55” irromperam pela organização escolar, logo me pareceu que aquele ritual anual de elaboração ou revisão dos critérios de avaliação iria rapidamente perder significado. Pois de que interessam critérios iguais para todos, se agora a avaliação é suposto fazer-se à medida das necessidades – ou da preguiça – de cada um?

Importante seria não nos ficarmos apenas pelos rumores e começar a ser dada alguma visibilidade pública aos registos escritos que documentam este facilitismo avaliativo. E  que assinalam a chegada em força da flexibilidade curricular às pautas do 3.º período.

Receito-lhe… a passagem de ano!

aluno-preg.pngO “direito ao sucesso” inspira algumas estórias engraçadas, mas como esta nunca tinha ouvido. Uma encarregada de educação visita o director de turma no final do ano para lhe entregar um relatório psiquiátrico referente ao seu educando. E, de imediato, vai informando: diz aí que é para o meu filho passar de ano…

O aluno tem alguns problemas de aprendizagem, mas é acima de tudo pouco esforçado e trabalhador. Apesar das várias medidas de apoio implementadas, não supera as suas dificuldades, essencialmente por falta de trabalho, concentração e estudo.

O relatório médico dirigido aos professores lembra que, ao abrigo do novo regime de inclusão, é suposto terem sido tomadas todas as medidas necessárias para que o aluno melhorasse os seus resultados. Não ganha nada em ficar retido. Prescreve, por isso, a passagem de ano.  Nas entrelinhas, entende-se a mensagem: o rapaz tem direito ao sucesso, arranjem lá maneira de o passar.

O novo paradigma inclusivo veio para ficar e estes casos irão, certamente, multiplicar-se. O direito à inclusão envolve acompanhar a turma que transita de ano, sem que nenhum aluno fique para trás. E o princípio da universalidade das medidas implica que qualquer aluno possa e deva ter a vida facilitada. Ou porque não é capaz de fazer como os outros – o que é aceitável – ou porque simplesmente não quer – e nesse caso devem os professores fazer por ele, aplanando-lhe o caminho e removendo os obstáculos que o poderiam cansar e desmotivar.

Ainda assim, e apesar das intromissões, avaliar continua a ser prerrogativa dos professores. E, ao que parece, ainda vai havendo alguns que se mantêm renitentes à ideia de que a falta de exigência seja um bom serviço educativo que prestam aos seus alunos.

As notas ainda não saíram, mas palpita-me que, neste caso de que ouvi falar, a tentativa de garantir sucesso escolar por prescrição médica não tenha sido bem sucedida.

As notas inflacionadas

igec.JPGA intervenção, ao longo dos últimos dois anos, da Inspecção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) junto das escolas e colégios que inflacionam as notas internas dos seus alunos, beneficiando-os no acesso ao ensino superior, tem tido efeitos positivos. Mais de 80% dos estabelecimentos de ensino inspeccionados no último ano reduziram os desalinhamentos, confirmando os resultados conseguidos no ano anterior, quando foi feita pela primeira vez uma operação de combate a esta prática.

Tal como no ano anterior, em 2018 foram alvo da IGEC 12 escolas – todas do Norte do país, sete das quais privadas. O relatório “Avaliação das Aprendizagens dos Alunos do Ensino Secundário”, que é publicado este sábado, mostra que, após a intervenção, dez desses estabelecimentos de ensino (83%) reduziram a inflação das notas internas dos seus alunos. As excepções foram o Colégio da Associação Cultural e Recreativa de Fornelos, em Fafe, e a Escola INED – Nevogilde, no Porto.

O relatório da IGEC aborda o velho problema das “notas inflacionadas” – que é, na prática, impossível de resolver. Se as boas notas beneficiam os estudantes do secundário na candidatura ao ensino superior, é natural que as escolas procurem atribuí-las, tanto quanto possível, sobretudo quando se tratam de classificações finais. E se, neste processo, se nota que as escolas vizinhas exageram, então inflacionar notas pode passar a ser uma estratégia competitiva para conseguir ter mais alunos – ou, simplesmente, não deixar que fujam os que se têm.

O procedimento, ao qual as escolas públicas não estão imunes, é levado ao extremo nas escolas privadas que se especializaram no lucrativo segmento de mercado que é transformar alunos pouco mais do que medianos em estudantes capazes de alcançar as médias elevadas que são exigidas para entrar em Medicina. E é bom que se diga que as notas destes alunos só são tidas por “inflacionadas” por via da comparação com os resultados obtidos nos exames nacionais. Nas disciplinas não sujeitas a exame, que acabam por ser a maioria, o fenómeno é ainda mais acentuado. Mas se neste caso não há forma de medir o “desalinhamento”, muito menos haverá de penalizar escolas ou alunos injustamente beneficiados.

Quanto às intervenções dos inspectores, há um ponto por onde estes podem, efectivamente, pegar: o dos critérios de avaliação que as escolas têm obrigatoriamente de divulgar. A nota final deve resultar da média ponderada de um conjunto de parâmetros avaliados pelos professores. Ora quando a nota é  “puxada” para cima, nem sempre há o trabalho de fundamentar essa subida, da mesma forma que se faz com as “negativas”. Há uma cultura do sucesso que vem sendo implantada há décadas pelas acções inspectivas e que manda produzir papelada para justificar o insucesso. Mas quando as notas são boas, nunca foi hábito exigir justificações. Excepto agora, quando os resultados são tidos como demasiado bons.

Contudo, no final, e ao contrário do que sucede noutras inspecções que, sobretudo quando envolvem dinheiros, têm orientações bem vinculativas, aqui as equipas da IGEC nada mais podem fazer do que emitir recomendações. E voltar as escolas da “lista negra” no ano seguinte, para ver se se tornaram mais comedidas na avaliação interna.

Pela pressão e a censura social, estas inspecções e sobretudo a divulgação pública dos resultados podem efectivamente ter algum efeito moderador de uma prática que gera fortes injustiças no acesso ao ensino superior. No entanto, a visibilidade é um pau de dois gumes: assim como há quem critique a inflação de notas, também haverá quem escolha as escolas que a praticam exactamente por esse motivo. E assim sendo, a polémica em torno das notas inflacionadas acaba por reverter, também, em publicidade gratuita para algumas instituições de ensino.

Estamos portanto em presença de um imbróglio destinado a durar ainda uns bons anos, porque quase ninguém está interessado em discutir a questão de fundo: cada escola aplica os seus próprios critérios de avaliação e, num quadro de crescente autonomia que se vem anunciando, essa tendência só poderá aumentar. Pelo que não há equidade nem justiça em considerar as notas internas dos alunos na candidatura ao ensino superior. Contudo, separar a avaliação do secundário do processo de seriação e selecção dos candidatos às universidades é o passo de gigante a que o nosso situacionismo educativo se tardará a abalançar.

18 a Educação Física

rapaz.pngO rapaz estuda num externato bem conhecido da cidade do Porto…

– Mãe, tenho boas e más notícias.

– Qual é a boa?

– Tive 18 a Educação Física.

– Parabéns filho. Estou muito orgulhosa de ti… Qual é a má?

– Fui o pior aluno da turma…

Caso Ribadouro: a reacção da CNAPEF

A reacção da CNAFEP ao caso das notas inflacionadas no Externato Miradouro, em nome dos professores de Educação Física que representa, surgiu rápida.

No essencial, reforça a ideia que já aqui defendi e que só posso, por isso mesmo, subscrever: o inflacionar de notas internas não é um problema específico da Educação Física, uma vez que afecta todas as outras disciplinas do secundário onde não há exames nacionais.

Também não é um problema específico de um determinado colégio, uma vez que surge em diversas escolas, públicas e privadas (embora com maior incidência nestas últimas). E já se acontece há muitos anos – coloca-se agora à EF porque a disciplina passou a contar para a média do secundário.

Fica o documento.

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Fim das avaliações

Já todos entregaram as atas e o resto da papelada?…

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Daqui.