O Esquecido

Olha se ele se esquece de onde escondeu o dinheiro…

Os anti-vacinas de Odivelas

Defensor convicto da vacinação anti-covid, que me parece ser a arma fundamental para derrotar a pandemia, aceito que as vacinas desenvolvidas em tempo recorde possam suscitar desconfianças a muita gente. Avesso ao pensamento único, não advogo qualquer tipo de censura às críticas com fundamento de verdades hoje consensuais. E entendo que a vacinação em curso deve continuar a ser inteiramente voluntária, não se obrigando ninguém a vacinar-se ou a vacina os filhos.

Contudo, a vergonhosa manifestação de um punhado de anti-vaxxers ontem à noite, à porta do centro de vacinação de Odivelas, transpôs, de forma inaceitável, uma linha vermelha. Os detractores das vacinas são livres de não se vacinar. Se eventualmente contraírem a doença, e porque a saúde é um direito universal, continuaremos todos, vacinados e não vacinados, a suportar os custos dos tratamentos de que vierem a necessitar. Mas isso não lhes dá o direito de insultar e ofender os profissionais responsáveis pela vacinação, muito menos os adolescentes que àquela hora se iam vacinar. O direito à vacina não é inferior ao direito à não vacina. E a tolerância deixa de ser uma virtude quando abre caminho à impunidade dos intolerantes.

Dito isto, dou a palavra ao Jovem Conservador de Direita que, com a ironia e sarcasmo habituais, demonstra que contrariar a evidência científica com argumentos falaciosos dá muito trabalho. Os anti-vaxxers são ignorantes e inconscientes da sua ignorância. Mas com muita investigação por trás…

Aconteceu um excelente exercício de democracia com um conjunto de manifestantes a chamarem assassino ao Dr. Vice-almirante.

Dizem que as pessoas anti-vacinas são ignorantes, mas a verdade é que estudaram e investigaram muito mais do que a maioria de vocês, que se dizem pró-vacinas. Quantos vídeos do Youtube e memes pró-vacinas é que vocês viram para formularem a vossa opinião favorável a vacinas? Confiaram nas autoridades e nos especialistas e formularam a vossa opinião. Isso não dá trabalho nenhum. Ser anti-vaxxer, por outro lado, exige muito trabalho: as pessoas têm de ver vídeos e aprender bem todos aqueles argumentos errados e falaciosos para defender a aldrabice em que acreditam.

A maravilha da internet é que hoje, uma pessoa até para ser ignorante, tem de investigar muito. O ignorante moderno não se limita a não saber coisas, procura activamente novas formas de ser ignorante. A seguir ao antivacinismo, o ignorante vai ter de se especializar noutras conspirações, o que exige muito trabalho de investigação. Ninguém é contra vacinas e tem uma posição de bom senso em relação a tudo o resto. Há muito trabalho de investigação envolvido até ao ponto em que vemos um grupo de pessoas a sair à rua para chamar assassino ao homem que é responsável pela distribuição de vacinas.

Externato Ribadouro castigado pelo ME

Pautas afixadas com classificações finais diferentes das que tinham sido aprovadas pelos conselhos de turma, dispensa de frequência das aulas de Educação Física sem qualquer justificação, aulas contabilizadas mas que não foram nem sumariadas nem assinadas, incumprimento sistemático de procedimentos obrigatórios na avaliação que põem em causa a fiabilidade das notas atribuídas aos alunos. Estas são algumas das irregularidades encontradas pela Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) no Externato Ribadouro, um dos maiores do Porto, e que tem sido assinalado como um dos que se repete na lista dos maio­res desalinhamentos entre as classificações atribuídas pelos professores da escola e as obtidas pelos alunos nos exames nacionais.

As averiguações da IGEC foram desencadeadas em 2019 na sequência de notícias que davam conta de classificações anormalmente altas a Educação Física, com turmas inteiras a receber notas de 19 e 20 valores, e noutras disciplinas do secundário não sujeitas a exame nacional. As inspeções realizadas originaram três processos: um sobre a administração do colégio, os outros dois sobre a sua diretora pedagógica. O Expresso tem vindo a perguntar qual o resultado destas averiguações e confirmou agora o desfecho: suspensão da responsável de funções por um período de um ano e encerramento do colégio durante um ano, mas neste caso a sanção fica suspensa por dois anos.

As mesmas estatísticas que alimentam a festa anual dos rankings escolares, esmagadoramente dominados pelos colégios de elite, podem servir igualmente para outros fins. Detectar, nomeadamente, desvios significativos entre as classificações atribuídas internamente e os resultados obtidos nos exames nacionais. Ora é neste campeonato que o Externato Ribadouro tem alcançado também os primeiros lugares, ao evidenciar, ano após ano, dos maiores desalinhamentos entre notas internas e externas.

As averiguações da IGEC vieram assim confirmar práticas já conhecidas informalmente, não só entre a população estudantil da cidade do Porto, mas também entre pais, professores e outros intervenientes e interessados pelos assuntos educativos. O Ribadouro construiu a sua reputação de conseguir colocar os alunos nas principais universidades, nos cursos de primeira escolha e a verdade é que, ao longo de décadas, tem sido bastante eficaz nesse objectivo. O que agora se confirma é que pelo menos alguns dos métodos utilizados são batoteiros. E permitiram que alunos desta instituição passassem imerecidamente à frente de colegas de outras escolas, públicas e privadas, com maiores méritos académicos.

O actual ME pode ser acusado de muita coisa, e motivos de crítica não têm faltado ultimamente, mas aqui há que reconhecer: sucessivos governantes passaram pela pasta, mas a actual equipa é a primeira a enfrentar o problema das notas inflacionadas, que inquina por completo o actual sistema de acesso ao ensino superior. Enquanto outros preferiram assobiar para o lado, terá havido instruções claras para a actuação das equipas inspectivas, nesta e noutras escolas onde o desalinhamento de notas era evidente.

Espera-se que as punições agora aplicadas não se fiquem apenas pelo Ribadouro – que sendo o mais emblemático, está longe de ser um caso único – e se estendam a outras escolas, públicas e privadas, onde a existência de práticas desleais e batoteiras na avaliação possa ser comprovada. Mas será que uma acção inspectiva mais atenta, presente e actuante será a solução para corrigir a crescente desigualdade no acesso ao ensino superior?

Tenho fortes dúvidas. A verdade é que o sistema nacional de acesso ao ensino superior, baseado nas classificações do secundário, tenderá sempre a criar um mercado onde actuam dois interesses fortes e convergentes: o dos alunos e famílias dispostos a pagar avultadas mensalidades para obterem idealmente um melhor ensino mas, mais importante do que isso, notas mais altas; e o dos colégios dispostos a recorrer a todos os truques e estratégias para dar aos seus estudantes as médias de que eles necessitam. O que a IGEC examinou, basicamente, foram papéis – actas, sumários, registos de assiduidade, critérios de avaliação – onde encontrou provas de diversas trafulhices. Algo que é feito rotineiramente nas escolas públicas, mas com que se tem evitado incomodar as privadas. Não foi assistir a aulas nem esteve nas salas de exame. O que quer dizer que o Ribadouro poderia ter feito tudo o que ali é prática habitual e não seria apanhado – se tivesse a papelada em ordem!

A acção inspectiva é importante, deve ser feita com regularidade e ir a todas as escolas, mas não chega para corrigir as desigualdades. A aposta crescente na autonomia das escolas, tanto ao nível da flexibilização dos currículos como da definição dos critérios de avaliação é incompatível com uma avaliação nacional em que todos os candidatos ao ensino superior são colocados em pé de igualdade. Um sistema de acesso definido em função do perfil desejável dos estudantes de cada curso superior, e não das notas do secundário, garantiria maior equidade e justiça no acesso aos cursos com maior procura. E iria permitir que o ensino secundário se assumisse como um nível de ensino com objectivos e finalidades próprias – e não como mera antecâmara para preparar e seriar alunos para o ensino superior.

Escolas a funcionar como empresas?

Ao longo do tempo continuamos a ouvir algumas vozes que dizem que as escolas deviam funcionar como empresas, com a possibilidade de poderem contratar e despedir os seus funcionários, em vez de terem de contar com pessoas que não querem trabalhar, que só atrapalham, por muito esforço de motivação que seja feito. Pergunto se só por esta razão é que as escolas podiam e deviam funcionar como empresas. […]

Outro sinal é o pouco desenvolvimento pessoal e profissional existente, nem tanto nos professores, mas nas suas lideranças. Um líder educativo investe pouco na sua formação e no seu desenvolvimento profissional porque ‘já sabe tudo’ e porque não se quer expor. A grande maioria dos líderes educativos tem, apenas, formação superior e por vezes um mestrado em administração ou gestão escolar, e ponto final. É formação que está feita e ficou lá atrás. […]

Quando uma cronista da imprensa apresenta como profissão “coach”, é aconselhável ler com prudência o que, levando-se muito a sério, decidiu escrever. Na verdade, para quem conhece bem o quotidiano das escolas, só admitindo alguma ironia involuntária da parte da autora se pode aceitar a sobrevalorização que faz das “lideranças” escolares em detrimento do trabalho colaborativo e da autonomia pedagógica e profissional dos professores.

A senhora tem, claro, de vender o seu peixe, que neste caso não passa de banha da cobra educativa. Só isso explica, a meu ver, que em pleno século XXI ainda haja quem afirme, tentando acreditar no que está a dizer, que as escolas deveriam funcionar como empresas, ignorando os desastrosos resultados a que visões deste tipo têm conduzido. Não, as escolas não são empresas, nem os alunos são clientes. Um conselho pedagógico não tem de ser entendido como um departamento de marketing, sempre em busca de novos produtos para cativar o consumidor e vencer a concorrência. A educação não é um produto comercial, mas a prestação de um serviço público que configura um direito fundamental. E o director escolar não é um CEO, nem é pago como tal – embora alguns agrupamentos de escolas tenham a dimensão de uma média empresa.

No entanto, a cronista do coaching não está sozinha nesta cruzada pela empresarialização da escola e a mercantilização do serviço educativo: segue uma visão cada vez mais globalizada e partilhada por políticos e tecnocratas em busca de resultados rápidos e baratos no sector educativo, que preferem apostar no pensamento mágico das lideranças motivadoras em vez do investimento nos profissionais da educação e em melhores ambientes educativos.

Há contudo um teste decisivo que nos deve prevenir contra estas visões, tão delirantes quanto perigosas, da escola-empresa e da superior eficácia das técnicas de gestão empresarial: trata-se de constatar a melhoria gradual, mas constante, dos resultados dos alunos portugueses ao longo das últimas duas décadas, bem visível nos testes internacionais. E comparar com a estagnação económica que nos tem empurrado para o fundo da tabela entre os países da UE, de que nem a boa gestão empresarial nos soube livrar. Talvez, bem vistas as coisas, talvez o pessoal do coach e da gestão tenha algo a aprender com o muito que, em circunstâncias difíceis, se consegue fazer nas escolas…

Dia das Mentiras

Já um ano ou outro não resisti à tentação, e assinalei o tradicional dia das mentiras postando por aqui uma notícia falsa. Mas nos tempos que correm não me apetece fazê-lo, e nem seria muito difícil inventar uma qualquer peta para brincar um pouco, tentando enganar os mais incautos dos meus leitores.

Na realidade, a mentira clara e assumida, agora elevada à condição de verdade alternativa, instalou-se solidamente na manipulação mediática e, mais ainda, nas redes sociais. Negar mesmo as verdades mais evidentes tornou-se modo de vida de políticos ignorantes e populistas, de jornalistas sem escrúpulos em busca de audiências, de perfis falsos que enxameiam as redes sociais. Para quem, como eu, marca diariamente presença na blogosfera, combater a desinformação e a manipulação tornou-se parte do quotidiano. Perco demasiado tempo a tentar desmontar maroscas e aldrabices para ter vontade de inventar mentiras no dia das ditas cujas.

No admirável mundo do século XXI, o negacionismo tornou-se o supra-sumo da arte de mentir.

Imagem daqui.

O cumpridor de contratos

O Governo tenciona cumprir o contrato com o Novo Banco e a Lei de Enquadramento Orçamental, garantiu esta quinta-feira o primeiro-ministro, depois de o PSD ter somado os seus votos aos da esquerda e travado, assim, uma transferência orçamental de 476 milhões de euros para o Fundo de Resolução. António Costa teceu fortes críticas a partidos que, nas suas palavras, “quiseram brincar com o fogo”. O líder social-democrata, Rui Rio, lembrou, por sua vez, que “os contratos têm dois lados”.

Demasiada encenação e show-off na reacção de António Costa ao chumbo parlamentar a mais uma transferência orçamental para o Novo Banco.

Claro que os contratos são para cumprir, e só lamento que os governos PS, tão zelosos a respeitar compromissos com o fundo abutre norte-americano que comprou a parte supostamente boa do antigo BES, não demonstrem a mesma consideração quando se trata, por exemplo, de respeitar os direitos dos trabalhadores do Estado.

Na verdade, não é o contrato com o Lone Star que está em causa. Antes fosse, pois ainda ninguém percebeu como foi possível aceitar-se, em nome dos contribuintes, cláusulas tão lesivas para o interesse nacional como aquelas que vêm permitindo, ano após ano, este assalto orçamental de proporções catastróficas. E que deveria levar os responsáveis políticos e regulatórios a responder judicialmente pela gestão ruinosa que, neste caso, fizeram dos dinheiros públicos.

De facto, a consequência prática do que ontem foi aprovado é apenas a necessidade de sujeitar a uma auditoria prévia à gestão do banco a concessão de novos empréstimos do fundo de resolução. Algo que já deveria ter sido feito há muito tempo, pois o que não faltam são indícios de que os desequilíbrios financeiros do NB são o resultado, não da “pesada herança” dos compradores mas da gestão perdulária que tem sido feita, nomeadamente vendendo activos ao desbarato e não cobrando as dívidas de alguns grandes devedores bem conhecidos na nossa praça.

Como bem lembrou Rui Rio, nos contratos existem duas partes, e não pode ser apenas uma delas a cumprir os seus compromissos, enquanto do outro lado se joga de má-fé e se acumulam os sinais evidentes de trapaça.

Ao contrário de António Costa, que retoma o velho hábito da subserviência e da mão estendida ao capital estrangeiro, penso que as leis e os tribunais, a que tantas vezes recorrem os poderosos para fazer valer os seus interesses, deveriam também ser usados pelo Governo em defesa do interesse público, da dignidade nacional e do dinheiro dos contribuintes.

Pseudociência

Porque às vezes um boneco bem apanhado vale bem mais do que mil palavras…

Cartoon de origem desconhecida, em circulação nas redes sociais.

António Costa fala verdade?

fact_check-errado1x1“(…) e esta organização especial em que a escola vai ter de funcionar, como que criando caixas estanques entre cada turma, para que cada sala seja só para uma turma, cada carteira seja só para um aluno, que os lugares sejam sempre os mesmos (…)”

Entusiasmando-se com as suas próprias palavras – o que é compreensível num optimista nato – ou querendo enganar quem o houve – o que já não é aceitável – o primeiro-ministro garantia, no início da semana, a existência de condições seguras para o regresso às aulas. Mas será que quem o houve pode confiar nas suas palavras?

Tendo em conta o decréscimo de natalidade das últimas décadas, haverá hoje menos escolas sobrelotadas do que há dez ou vinte anos atrás. Nesse sentido, garantir uma sala fixa para cada turma será um objectivo exequível na maioria dos estabelecimentos. Mas também é verdade que, nas escolas onde se sabe existirem mais turmas do que salas – e por isso as turmas terão de ir rodando por salas diferentes – pouco ou nada se fez para alterar essas condições.

Quanto às mesas individuais, julgo que pouquíssimas escolas as poderão garantir para todos os alunos, por uma razão muito simples: as escolas são, regra geral, equipadas com mesas duplas, em número insuficiente para uma utilização individual. Mas também aqui, se houvesse vontade, poderiam ter-se criado condições, como se foi feito em Itália, onde se adquiriram mais de dois milhões de mesas individuais.

O Observador resolveu fazer, como agora está na moda, o fact check das declarações de António Costa, confrontando o seu optimismo com a realidade concreta das escolas, transmitida pelos representantes dos directores. A conclusão é óbvia: a maioria das escolas não garante aos seus alunos mesas de uso individual e em muitas delas nem sequer é possível impedir que não mudem de sala várias vezes ao dia. O PM anda a enganar os Portugueses…

“Claro que não é possível. Na grande maioria das escolas não é possível ter caixas estanques, quando nem sequer há mesas individuais. Percebo a intenção do primeiro-ministro, ela está correta, mas ele também sabe que as escolas são todas diferentes. No meu caso, que tenho mais turmas que salas, não consigo ter aquilo a que chamamos sala-mãe para cada grupo de alunos”, esclarece Manuel Pereira.

Já Filinto Lima, presidente da ANDAEP, associação nacional de diretores de agrupamentos e escolas públicas, acredita que conseguir uma sala por turma não é impossível, mas acha improvável que as escolas consigam ter uma carteira por aluno.

[…] “Quanto às carteiras, penso que será difícil ter uma por aluno, e às vezes é mesmo impossível, porque a maioria das escolas tem mesas duplas e as salas de aula não aumentam de tamanho”.

Tiago Flop Rodrigues

 

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Daqui.

Em busca da Verdade

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© Antero Valério