A quem interessam os “jovens talentos” nas escolas portuguesas?

teachfp– Quem são estes “jovens talentos” que o Ministério da Educação terá autorizado a entrar e permanecer nas salas de aula durante a atividade letiva, após frequentarem 5 semanas um Instituto de Verão?

– Que formação tiveram e quem a certificou e avaliou? Os mesmos que tão exigentes são para com os professores?

– Tiveram esses “jovens talentos”, que irão lidar com as crianças e jovens, de apresentar certidão de registo criminal como todos os trabalhadores, docentes e não docentes, das escolas?

– Que compromissos assumiu o Ministério da Educação com esta organização, a ponto de lhes abrir as portas das salas de aula das escolas públicas?

– Qual o grau de envolvimento da Direção-Geral de Educação, cujo logótipo surge em documentos desta organização?

– Por que também surgem os logótipos dos programas de financiamento comunitário “Portugal 2020” e “POCH”?

Já tinha escrito há uns dias sobre os “jovens talentos” que se disponibilizam a ir, para escolas degradadas, brincar aos professores. Não conhecia, confesso, pormenores acerca da Teach For Portugal, a filial portuguesa da multinacional com origem nos EUA, mas o que li nas entrelinhas da apresentação do projecto logo me cheirou a esturro.

Pois bem, a Fenprof, que agora interpela o ME acerca de mais um”projecto” que está a ser introduzido nas escolas pela porta do cavalo, investigou o historial de uma organização internacional que prossegue a agenda neoliberal para a Educação: formar mão-de-obra barata mas supostamente qualificada para alimentar negócios na área educativa. Uma leitura que se recomenda, instrutiva e bastante esclarecedora.

Quanto ao ME, o vergonhoso patrocínio que, em final de mandato, está a dar a esta iniciativa, reconheça-se que ele constitui um digno remate para a série de borradas que tem vindo a fazer no que diz respeito a pretensas “inovações” educativas. Lamentavelmente, podemos dizer que não nos surpreende.

Nos Estados Unidos da América surgiu, há alguns anos, a organização Teach for America que se dispunha a recrutar diplomados de ‘alto calibre’ para ensinar em escolas socialmente desfavorecidas. Esta organização desenvolveu uma narrativa focada em “diplomados de alta qualidade” a trabalhar nas áreas de maior complexidade social onde, alegadamente, seria mais difícil recrutar professores devidamente qualificados. De acordo com aquela organização, os jovens que fossem recrutados receberiam um treino rápido antes de começarem a trabalhar e, depois, continuariam a treinar “no trabalho”. O princípio seria proporcionar aos jovens uma certa “experiência de trabalho”, na qual estes iriam adquirir algumas competências úteis de emprego para, posteriormente, abandonando o ensino, se dedicarem ao trabalho na sua área específica de formação.

Os sindicatos de professores rapidamente denunciaram esta situação que perverteu o conceito de professor, como profissional formado e qualificado para o exercício de determinadas funções. Rapidamente, porém, alguns governos estaduais se aproveitaram desta mão de obra não qualificada mas barata, sendo exemplo mais negativo o que aconteceu em Nova Orleães depois de o furacão Katrina ter devastado largas áreas da região. O governo do Distrito de Nova Orleães fechou todas as escolas, despedindo os professores, e quando as reabriu foi como escolas Charter (as tais, cujo modelo já foi promovido no nosso país em iniciativas da Fundação Francisco Manuel dos Santos), contratando apenas alguns docentes e substituindo a maioria dos anteriores por gente recrutada pela Teach for America.

Continuar a ler…

Ainda o arranque “normal” do ano lectivo

Escola-fechadaSete escolas secundárias do concelho de Sintra estão encerradas esta segunda-feira devido a uma greve dos funcionários não docentes, que reivindicam reforço de recursos humanos e contestam a municipalização do sector. As escolas secundárias Ferreira Dias, Gama Barros, Matias Aires, Miguel Torga, Stuart Carvalhais, Padre Alberto Neto e de Mem Martins não abriram os portões.

Os pais dos alunos do jardim-de-infância de Negreiros, em Barcelos, no distrito de Braga, fecharam esta segunda-feira a escola a cadeado, em protesto contra a “completa falta de condições” do recinto exterior. O presidente da Associação de Pais, António Campos, disse que, na prática, as crianças vão ter de passar todo o ano lectivo “fechadas nas salas”.

Foi constituída “uma só turma, com um só docente, para os 18 alunos da escola, dos seis aos 10 anos”, critica representante dos encarregados de educação. Os alunos da Escola Básica de Aguiar, no concelho de Viana do Alentejo, distrito de Évora, faltaram esta segunda-feira às aulas e os pais concentraram-se à porta do estabelecimento escolar contra a existência de apenas uma turma mista.

Pais de crianças da escola EB e jardim de infância da Ilha, no centro de Valongo, denunciaram hoje a “falta de segurança e de condições” para os alunos devido a obras de renovação do edifício que ainda decorrem. “Não estão reunidas as condições nem de segurança, nem as condições desejáveis para as crianças poderem brincar livremente no recreio exterior”, diz um dos pais, Duarte Meneses Soares.

Além da crónica falta de pessoal auxiliar, a que já por aqui se fez referência, a abertura do ano lectivo veio revelar outros problemas estruturais que se eternizam no sistema educativo: degradação dos espaços físicos das escolas, turmas sobrelotadas, falta de recreios e espaços verdes, aulas a funcionar em contentores devido a atrasos nas obras programadas. Com a anunciada municipalização das escolas do 2.º e 3.º ciclo e secundário, teme-se que, em muitos lados, os problemas só venham a piorar…

O arranque “normal” do ano lectivo

gulbenkian-braga.JPGA Escola Gulbenkian de Braga iniciava o ano letivo esta sexta-feira, mas está fechado por falta de funcionários. O mesmo vai acontecer na segunda-feira com a EB Eugénio de Andrade no Porto.

Na secundária Rainha Dona Amélia, em Lisboa, não haverá aulas de educação física “nas primeiras semanas” e a biblioteca só abrirá quando houver professores para substituir os funcionários em falta, alertou hoje a Federação Nacional da Educação (FNE).

O arranque do ano letivo na Escola Secundária Almeida Garrett, em Vila Nova de Gaia, foi adiado. O estabelecimento de ensino está encerrado devido à falta de funcionários.

A Escola Secundária Alcaides de Faria (ESAF), em Barcelos, esteve encerrada esta manhã de sexta-feira devido à greve dos assistentes operacionais. Os funcionários acusam a direção do agrupamento de nunca os ter apoiado nas suas reivindicações e o Governo de falta de respeito.

Há vários alunos a regressar às aulas, esta sexta-feira, com os estabelecimentos de ensino ainda em obras. Acontece, por exemplo, no concelho de Sintra, na Escola Básica com Jardim de Infância da Abrunheira, onde existem 150 alunos.

Colocar a tempo e horas os assistentes operacionais necessários aos funcionamento das escolas: eis uma missão que o Governo demonstrou, uma vez mais, não estar à altura de concretizar. Mesmo com eleições à porta, e com sucessivos anúncios, desde Março deste ano, de que agora é que era, a verdade é que a política das cativações, dos adiamentos, do engonhanço, prevaleceu uma vez mais.

Bem pode agora a SE Alexandra Leitão apontar uma vez mais as culpas dos atrasos para as escolas ou a complexidade dos concursos; bem pode garantir que até finais de Outubro fica tudo nos conformes: a verdade é que o ano lectivo está oficialmente aberto e os funcionários em falta são precisos agora. Perante o bar fechado, as salas sujas, a reprografia encerrada ou as casas de banho por limpar, não se pode dizer aos alunos que esperem mais um mês ou dois para que esteja tudo em ordem.

Neste ponto, o que se espera é que, nas escolas afectadas, não se siga o exemplo vergonhoso da Escola Secundária Alcaides de Faria. Que se perceba que a falta de pessoal auxiliar é um problema de todos: alunos, professores e pessoal não docente. Que direcções, conselhos gerais, e associações de pais tomem posições conjuntas e se imponham perante o ministério. E não iniciem o ano lectivo sem que o problema da falta de pessoal se encontre resolvido.

Quando já lá não vai de outra maneira, tomar uma posição de força na altura certa é a única coisa a fazer. Em ano de eleições, costuma resultar…

Abriu a caça ao voto

ps-olhao.JPG

A campanha eleitoral ainda nem começou oficialmente, mas para o partido no poder parece já valer tudo. Candidatos, autarcas e governantes, tudo gente do mesmo partido, tudo à molhada em despudorada caça ao voto, ao mesmo tempo que distribuem tablets pelas criancinhas.

Os sinais de arrogância e excesso de confiança são evidentes. Se conseguirem a maioria absoluta vai ser a repetição da desgraça, pois não parecem ter aprendido nada com o desastre que foi o socratismo…

Técnicos especializados sem direito a renovar contrato

despedidosEis uma situação para a qual tinha sido alertado há uns dias por um leitor do blogue: técnicos especializados que prestam serviço nos cursos profissionais e no ensino artístico especializado estão a ser, à margem da lei, impedidos de renovar contrato. Estes formadores são, na prática, professores. Mas, como não se enquadram nos grupos de recrutamento existentes, não são considerados como tal. E agora estão a ser vítimas de um vergonhoso subterfúgio destinado a impedi-los de conseguir o tempo de serviço necessário para vincular.

A denúncia parte da Fenprof e a situação junta-se ao vasto rol de injustiças, abusos e ilegalidades protagonizadas pela DGAE e pela secretária de Estado Alexandra Leitão, que tutela esses serviços.

A FENPROF e os seus sindicatos têm estado a receber inúmeras queixas de direções de agrupamentos e escolas não agrupadas sobre a impossibilidade de procederem à renovação de contratos de técnicos especializados que reúnem as condições para tal na aplicação eletrónica disponibilizada para o efeito e sobre a falta de resposta formal e escrita aos inúmeros pedidos de esclarecimento que têm endereçado à DGAE a propósito desta situação.

A resposta aos inúmeros pedidos de esclarecimento tem sido dada via telefone e está a causar uma enorme indignação junto das direções das escolas e dos técnicos especializados, pois está a ser informado pela DGAE que apenas os técnicos especializados aderentes ao Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP) estariam em condições de renovar os contratos! A mesma resposta está a ser dada aos técnicos especializados que se têm dirigido à DGAE, acrescentando que são “indicações internas”… Ora, a candidatura ao PREVPAP era só para técnicos não docentes, e como tal, os formadores com atividades docentes estavam impedidos de concorrer a esse programa.

 Esta é uma situação claramente violadora da legislação em vigor e contrária às notas informativas emanadas pela própria DGAE em 23 de julho e 5 de agosto sobre este mesmo assunto. A consequência imediata deste ato ilegal é a não vinculação de todos os técnicos especializados colocados desde há 2 anos em horários completos e anuais, que entrariam assim no 3.º contrato sucessivo em horário completo e anual. Ou seja, o ME tentou arranjar, à margem da lei, e num desrespeito total pelas escolas e por estes profissionais, uma “espécie” de norma-travão que impede estes técnicos de vincularem no próximo ano. 

Ensinam mesmo quando fazem greve

cruzadas.pngInformam quando não andam a desinformar, espalhando notícias falsas.

Gozam com os professores, quando lhes falta a coragem para se meterem com os poderosos deste país.

Servem a agenda mediática do poder, em vez de agirem com isenção e rigor.

Estas charadas têm todas a mesma resposta. Mas, ao contrário do cruzadista do Expresso, não cometerei a injustiça de dizer que todos os jornalistas agem assim. Serão apenas alguns – embora exista uma especial concentração de jornaleiros manipuladores e tendenciosos no espesso semanário.

Quanto ao acto em si, na linha daquele humor pretencioso, acintoso e sem graça nenhuma  a que o semanário do regime há muito nos habituou, ele é digno, acima de tudo, do mais profundo desprezo da parte de todos os professores que se prezam.

Isso e não lhes comprar o fardo de papel que publicam todos os fins de semana.

Insubstituíveis

Edviges FerreiraO Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) sabia que havia suspeitas que recaíam sobre a professora Edviges Ferreira quando, no Verão de 2017, aceitou que fosse ela a avaliar o exame de Português do 12.º ano antes de ser enviado para as escolas, para os alunos se submeterem à prova.

Eis um mal muito português, que tantas vezes impede que criminosos e infractores sejam julgados e punidos pelos seus actos. Ou que desonestos e incompetentes sejam simplesmente afastados dos lugares antes que a sua presença possa provocar maiores danos: a irresistível e inexplicável sedução que algumas pessoas, de comportamento no mínimo duvidoso, conseguem despertar à sua volta. E a teia de cumplicidades e condescendências que se vai construindo à sua volta.

Aparentemente, o IAVE desconfiava que Edviges Ferreira poderia vir a quebrar o sigilo que lhe era imposto. Mesmo assim, permitiu-lhe o acesso à prova de Português. E nós perguntamos: era assim tão difícil, entre milhares de professores de Português honestos, competentes e experientes que existem neste país, encontrar outra pessoa que fizesse o trabalho que se pretendia?

Este hábito de funcionar em capelinhas, em que uns e outros se vão ajudando e encobrindo – hoje é a mim, amanhã, ou quando precisares, calha-te a ti – é o oposto da meritocracia que caracteriza as economias e sociedades mais evoluídas. Em que as pessoas se afirmam pela sua competência, honestidade e pela qualidade do seu trabalho, sem precisarem de jeitinhos e favores para mostrarem o que valem.

Por cá, prefere-se demasiadas vezes levar ao colo pessoas aparentemente insubstituíveis e segurar nos seus lugares os incompetentes e os corruptos, em vez de multiplicar oportunidades para que mais pessoas apliquem as suas competências e demonstrem o seu valor. E não é só na administração educativa, como bem sabemos, que isto se verifica…

Finalmente, recorde-se que todo este caso da professora Edviges foi levado às últimas consequências apenas porque uma aluna deixou a prova, nas redes sociais, de que havia alunos a saberem antecipadamente o que iria sair no exame. Divulgada a gravação pelos media, não restou alternativa senão investigar até ao fim, sob pena de descredibilizar por completo o sistema de exames nacionais. Mas a dúvida permanece: há quantos anos subsistirão casos semelhantes de professores que têm acesso às provas na fase de elaboração e usam esse conhecimento privilegiado para aumentar a sua cotação no mercado das explicações particulares?

A verdade é que, se a gravação comprometedora não existisse, o mais provável é que a professora entretanto proscrita continuasse ainda a colaborar com o IAVE…