A vaga incendiária na comunicação social

A par das falhas na coordenação do combate aos fogos de Pedrógão Grande, da insuficiência ou ineficácia dos meios usados, do completo desleixo em relação a medidas preventivas que pudessem ter evitado ou minimizado o sucedido e de outros erros e negligências que os já anunciados inquéritos irão apurar, há um facto demasiado evidente: a comunicação social também não esteve bem.

Não digo que seja fácil cobrir um acontecimento com a carga destruidora e emotiva que uma tragédia desta dimensão inevitavelmente terá. Mas houve órgãos de comunicação que, na ânsia do sensacionalismo, passaram diversas linhas vermelhas da ética e deontologia da sua profissão. E, pior do que isso, chamados à atenção, houve aqueles que, em vez de corrigirem os excessos, reagiram com a arrogância de quem não aceita críticas, não ouve bons conselhos e não respeita sequer os direitos e os sentimentos das vítimas dos trágicos acontecimentos.

A postura reprovável dos media, ao arrepio das boas práticas da profissão, tornou-se especialmente evidente no episódio de fake news da queda do avião. Um após outro, jornais, rádios e televisões foram escorregando na casca de banana de um acidente aéreo que nunca existiu. Mas que, percebe-se, daria imenso jeito que tivesse acontecido…

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Oportuno e sempre inspirado cartoon de Antero Valério, retirado daqui.

Exames: os direitos dos professores classificadores

Nunca é demais relembrar as recomendações às escolas relativamente à dispensa de outros serviços aos professores envolvidos na classificação de exames nacionais.

No despacho conjunto dos secretários de Estado João Costa e Alexandra Leitão, determina-se, em relação a estes docentes, o seguinte:

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Uma compensação justa para o acréscimo de trabalho destes professores, todos concordaremos.

O problema é o carácter condicionado destas orientações: “propõe-se”, “que os professores possam”, “recomenda-se”, “à excepção de…”

A verdade é que, quando se trata de fazer dos professores paus-mandados do Júri Nacional de Exames, as ordens, os cronogramas, os prazos, os procedimentos são taxativos.

Quando se deveria garantir, de forma justa e equitativa, a compensação aos professores envolvidos num trabalho ingrato e desgastante, aí as necessidades das escolas e o arbítrio dos senhores directores têm a última palavra.

A conveniência de serviço continua a prevalecer sobre os direitos laborais, e é também nestas pequenas coisas que se vê a consideração de um governo – ou a falta dela – pelos profissionais da educação.

A vergonha dos colégios militares

tumblr_mjgjrmcmbW1rs5pmyo1_500[1]Fernanda Câncio, uma jornalista longe de consensual, escreve esta semana sobre os anacrónicos e dispendiosos colégios das Forças Armadas: o Colégio Militar e o Instituto dos Pupilos do Exército. Duas escolas de luxo, praticantes do ensino “à antiga” e em concorrência desleal, porque pagos pelo contribuinte, com os colégios mais elitistas. E é difícil não concordar com ela.

Pois este ensino que não se paga a si mesmo também não consegue incorporar os valores e as leis da sociedade democrática e do Estado de direito: a discriminação, a violência física e psicológica, as praxes abusivas e outras barbaridades parecem de tal forma incorporadas no seu código genético, que as escolas militares já não parecem ter emenda: o remédio é acabar com elas.

Que sucederia a qualquer colégio privado no qual se denunciassem ciclicamente atos de violência por parte de alunos mais velhos sobre mais novos, ritualizados por via de uma “tradição” aceite e promovida pela respetiva direção? E se soubéssemos que nesses episódios de bullying – os conhecidos – um aluno de 10 anos teve o tímpano perfurado, ou que, como denunciado esta semana, outro, da mesma idade, foi parar ao hospital devido a queimaduras e “golpes de cinto”? Exigir-se-ia, no mínimo, uma inspeção do Ministério da Educação para apurar responsabilidades e, no máximo, o encerramento da escola, certo?

Certo. Mas há dois colégios em Portugal, nos quais se leciona o ensino básico e secundário, onde isto se passa e nada acontece – nem se põe fim à tal “tradição”, nem as direções são responsabilizadas, nem se põe em causa o “modelo educativo”. E de encerrá-los nem falar. Aliás, estes dois estabelecimentos de ensino são os únicos nos quais a Inspeção-Geral da Educação não entra a não ser que para tal “convidada” – é o Ministério da Educação que o afirma (em resposta de maio de 2016, ao DN), e é provável que mesmo o MP se sinta pouco à vontade para os investigar.

E a jornalista relembra tentativas recentes de adaptar as instituições aos tempos modernos, obrigando-as a admitir jovens dos dois sexos e alunos com necessidades especiais e a respeitar as diferentes orientações sexuais, que redundaram em campanhas inflamadas em defesa do tradicionalismo castrense nestes colégios e em directores a demitirem-se em protesto.

[…] a discriminação, a exclusão, a ausência de espírito democrático são o ADN destas escolas, cujo modelo é o do privilégio de casta – tão típico do espírito castrense. É, afinal, o Portugal velho, do Estado Novo, que ali está, naquelas regras e naquela atmosfera, preservado como num museu; é a ideia de que se pode continuar a fazer as coisas “à antiga”, porque “aqui mandamos nós”.

Escolas que desconhecem os direitos humanos e a Constituição, que só mudam à força e onde as mudanças são muitas vezes apenas de fachada, para que lá por dentro, de onde raramente escapam denúncias, tudo continue na mesma – quando haverá coragem para acabar com isto?

Sabe bem pagar tão pouco… aos funcionários!

Estágio de verão com horário de trabalhador. Esta é a proposta do Pingo Doce para filhos dos funcionários que quiserem trabalhar nos supermercados do Grupo Jerónimo Martins em julho e agosto, meses de maior afluência no Sul do país. Ao abrigo do programa Academia de Retalho, é oferecida uma bolsa de 500 euros por 40 horas semanais. O advogado Francisco Espregueira Mendes receia que estes estágios sejam falsos.

“Os estagiários não servem para substituir trabalhadores que estão de férias. Receio que isso aconteça”, refere o sócio da Telles Advogados. “Para fazer essa substituição, devem ser contratados trabalhadores a termo certo, por acréscimo extraordinário de trabalho”, sustenta o especialista em direito laboral, contactado pelo DN/Dinheiro Vivo.

Os 600 milhões de lucros declarados em 2016 pelo grupo Jerónimo Martins têm de vir de algum lado, e a exploração dos trabalhadores é sempre uma das formas mais eficazes de “criar valor” para o accionista.

Já os 500 euros da alegada “bolsa” não são um ordenado mensal, como alguma imprensa referiu, mas sim o pagamento de dois meses de trabalho a tempo inteiro, por turnos, 40 horas semanais.

Claro que não são estágios, desde logo porque um estágio pretende qualificar alguém para exercer uma profissão, e o que estas pessoas vão fazer é trabalho indiferenciado, substituindo trabalhadores em férias e ganhando metade do salário mínimo nacional.

Esta história vergonhosa, que o grupo tenta justificar como resposta a um pedido dos seus “colaboradores”, casa mal com a imagem de responsabilidade social que a dona do Pingo Doce tenta criar para si própria. Mas quando o big boss do grupo não se incomoda de aparecer em público com tão boas companhias como as que vemos na foto, acredito que também não se deva ralar muito com o incidente. Afinal de contas, nada que uma campanha publicitária bem esgalhada não resolva…

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Soares dos Santos em amena cavaqueira (só falta Cavaco): Mexia, Salgado, Granadeiro, Bava. Tudo bons rapazes…

Luta pelo poder nas delegações da DGEstE

Dança-das-CadeirasContinua a saga dos concursos para selecionar os delegados regionais da Educação do Centro, Algarve e Alentejo. O subdiretor da Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), entidade que gere as delegações regionais, bateu com a porta esta segunda-feira, tendo ficado no cargo apenas três meses. Segundo o i apurou, a escolha dos novos delegados regionais terá sido a razão da saída de Teodoro Roque.

Fontes ligadas ao processo contaram ao i que o subdiretor da DGEstE, também presidente do júri do concurso, entrou em conflito com a secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, quem tem a tutela direta dos delegados regionais, na escolha dos novos dirigentes.

Diferentes fatores contribuíram para o desentendimento. Por um lado, entre os candidatos encontram-se algumas pessoas com ligações ao PS e, por outro, alguns dos critérios do concurso poderão beneficiar os três delegados que se mantêm em funções mesmo depois de o concurso ter sido anulado, há um ano e sete meses.    

O jornal i tenta lançar alguma luz sobre os imbróglios em volta dos concursos para a escolha dos delegados regionais da DGESTE, onde há mais de um ano os boys e as girls do PS e do PSD se degladiam sem que a “guerra” tenha fim à vista.

As antigas direcções regionais foram esvaziadas de boa parte das suas competências, há uns anos atrás, e transformadas em delegações de uma nova direcção-geral. Com a anunciada descentralização para as autarquias locais, é de prever que ainda menos sentido façam estas representações do ME nas sedes das regiões administrativas. Mas nota-se que estar à frente de uma destas delegações continua a ser um cargo apetecível, tantos são os candidatos e tamanho o afã com que os que estão se agarram ao poder.

O que não se percebe é o esquema dúbio que se inventou para o provimento destes lugares: se o objectivo é ter pessoas de confiança política, então deveriam continuar a fazer como no tempo das DREs, em que cada governo que chegava nomeava quem entendia.

Se, pelo contrário, se pretende um perfil técnico, então deveriam promover, dentro dos próprios serviços, o funcionário mais competente para a função, sem andar a abrir concursos a qualquer pára-quedista vindo de fora mas dotado das ligações certas ao partido no poder.

A suspeita que fica é que pretendem as duas coisas: nomear os amigos, ou as pessoas influentes que interessa promover, convencendo-nos de que estão a escolher, por um processo justo e transparente, os mais capazes e competentes. Que – apenas por mero acaso! – têm cartão do partido.

Metro Mondego ou Auto Mondego?

O projecto do Metro Mondego, que hoje volta a ser notícia pelas piores razões, é um exemplo paradigmático de quão ruinosa e destrutiva pode ser a aliança entre governantes demagogos e irresponsáveis e autarcas megalómanos e gananciosos que governam a vida e gerem os seus interesses político-partidários com profundo desprezo pelas populações que deveriam defender, servir e representar.

metrobus.JPGA história é longa, mas tentarei resumi-la em poucas palavras.

O ramal da Lousã é uma linha férrea com pouco mais de 30 quilómetros que, durante cem anos, serviu os concelhos de Miranda do Corvo e Lousã, ligando-os a Coimbra, a capital de distrito. Ao contrário de outras linhas regionais, tinha movimento: adquiriu características de serviço suburbano, transportando mais de um milhão de passageiros por ano. Para encerrar esta linha, o mesmo que se fez por todo o país com serviços ferroviários semelhantes, não se poderia alegar a sua fraca utilização, pelo que haveria que encontrar uma forma mais tortuosa para alcançar o fim em vista.

Depois de terem recusado diversos investimentos na linha – construção de um túnel no centro da cidade para a ligar à Linha do Norte, electrificação, aquisição de novas automotoras – os políticos locais do PS e do PSD acabaram por convergir num projecto que, curiosamente, ninguém lhes encomendou: a transformação da Linha da Lousã num metro de superfície, complementada com uma segunda linha que ligaria o centro da cidade à zona dos Hospitais.

Apesar de as populações de Miranda e da Lousã recusarem sempre a ideia do Metro – o que queriam era apenas a melhoria do serviço ferroviário existente – constituiu-se a  Metro Mondego, uma empresa pública com mais administradores do que funcionários, que andou durante uma década a encomendar estudos e projectos e a dar dinheiro a ganhar a políticos e técnicos locais. No meio deste regabofe, a descoberta de que alguns administradores andavam a gastar dinheiro da empresa em hotéis, vinho e striptease foi apenas um detalhe

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Abusos privados

prof-musica.jpgUma instituição de ensino particular, ligada à Igreja, apanhou um professor de música a abusar sexualmente de uma aluna menor, mas não comunicou o caso às autoridades, para evitar um escândalo.

O caso é divulgado pelo Correio da Manhã (CM) que nota que o colégio particular do Porto expulsou o professor de música de 62 anos, mas que “abafou” a situação, não fazendo qualquer denúncia à polícia, como seria de esperar, perante o que é considerado um crime público.

À Polícia Judiciária terão entretanto, chegado três queixas de menores, com idades entre os 12 e os 16 anos, que acusam o professor de abusos sexuais.

Julgo que seria impensável, numa escola pública, haver esta cumplicidade e encobrimento de uma situação que, segundo as suspeitas da PJ, se arrastou durante anos. O que demonstra que há na nossa sociedade corporativismos bem mais fortes e poderosos do que o chamado corporativismo docente.

Registe-se também a forma cuidadosa como até o Correio da Manhã dá a notícia, mencionando a ligação do colégio à Igreja, mas evitando cuidadosamente identificar a instituição onde tudo se passou. Claro que se fosse uma escola pública, já teria equipas de reportagem à porta e o seu nome andaria nas parangonas de todos os jornais.

Respeitinho, ainda para mais em dia de visita do Santo Padre, é o que se quer.