Fraudes, suspeições e calúnias

Ouçamos antes de mais a gravação: uma estudante não identificada comentou numa rede social o que iria ser avaliado no exame de Português a realizar daí a dois dias. E acertou.

aluna.jpgO áudio é interessante porque os tiques de linguagem permitem desde logo perceber, em termos geográficos e sociais, de onde é que isto vem: classe alta ou média alta na zona da Grande Lisboa. E gente com acesso a explicadores caros, dos que têm, ou alegam ter, conhecimentos privilegiados, e por isso cobrarão mais pelos seus serviços. Aquele Alberto Ca-ae-irú não engana ninguém…

Quanto à mensagem propriamente dita, ela funciona, em termos da sua divulgação pública, a dois níveis.

Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo e só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. E pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória…

O primeiro, e mais evidente, são as suspeitas de fraude que já motivaram a abertura de um inquérito e a participação ao Ministério Público. O segundo é a lama na ventoinha que é lançada sobre os sindicatos de professores e, indirectamente, sobre toda a classe profissional.

Antes de mais, convém esclarecer-se que, tanto quanto nos é dado saber, não haverá dirigentes de topo de sindicatos de professores, sejam “comunas” ou não, envolvidos na elaboração de provas de exame, muito menos com acesso integral às mesmas. Poderá existir, isso sim, envolvimento das associações de professores, mas ao nível de consultoria, não na feitura directa das provas.

De qualquer forma, bastará a cada um de nós dar a sua voltinha pelas redes sociais no dia de hoje e não terá dificuldade em deparar-se com os habituais justiceiros da net tomando suspeitas como verdades e fazendo as habituais generalizações caluniosas, metendo professores e explicadores, sindicalistas e “comunas”, tudo no mesmo saco de gente desonesta.

A bem da verdade, é bom que tudo isto seja devidamente esclarecido nos próximos dias.

 

Houve batota no exame de Português?

batota-exame.jpgSejamos sérios: ao contrário do que diz o Expresso, não é a primeira vez, “em 21 anos”, que há fundadas suspeitas de fraude nos exames nacionais do ensino secundário. Há um longo historial de denúncias, tanto na comunicação social, blogues e redes sociais, como junto das instâncias competentes, que acabaram em águas de bacalhau.

Talvez seja, isso sim, a primeira vez em que o rasto deixado pelas redes sociais evidencia de forma tão clara que algo se passou. E por isso vai ser mais difícil do que habitualmente mandar arquivar por falta de provas, que é, não tenhamos dúvidas, o destino final do inquérito que agora foi aberto.

As suspeitas de fuga de informação no exame de Português do 12.º ano estão a deixar numa pilha de nervos os 74067 alunos que realizaram a prova na passada segunda-feira e que temem ter agora de repeti-la, caso a mesma venha a ser anulada, como estipula o regulamento dos exames nacionais em caso de fraude. O problema é que a eventual repetição do exame — uma decisão que seria totalmente inédita — pode atrasar o processo de candidaturas ao ensino superior e obrigar as famílias a adiar as férias.

Dias antes do exame, realizado esta segunda-feira, circulou via WhatsApp uma gravação que revelava o conteúdo do que ia sair na prova. O ficheiro áudio foi gravado por uma aluna que não se identifica e que refere que a fuga de informação partia da “presidente de um sindicato de professores”, que tinha tido acesso ao enunciado. A informação revelou-se tão certeira que o Instituto de Avaliação Educativa abriu um inquérito e remeteu todas as informações para o Ministério Público “para efeitos de averiguação disciplinar e criminal”.

Há três fortes razões que se conjugam para recomendar a quem for chamado a decidir este imbróglio que não se remexa na examocracia do secundário.

O sistema tem uma reputação de seriedade que, como é habitual entre nós, se tenta proteger encobrindo os casos mais ou menos isolados de fraude, em vez de os castigar exemplarmente.

Assumir a existência de fraude obrigaria, em coerência, a anular as provas já realizadas, o que teria óbvios prejuízos para os alunos que teriam de repetir o exame. E aqui o sistema fica prisioneiro da sua lógica ao quase sacralizar os exames e os procedimentos à sua volta: se restringe até o direito constitucional à greve dos professores para garantir que todos os alunos fazem o exame na data prevista, que moral terá agora para obrigar mais de 70 mil alunos a repeti-lo, por causa da suspeita de que algumas dezenas ou centenas terão tido acesso prévio aos conteúdos da prova?

Finalmente, o anonimato que desde sempre tem sido garantido aos professores que elaboram as provas, alegadamente para as proteger de pressões. Se a identidade destas pessoas é um segredo de Estado, isso significa que, na falta de valores éticos suficientemente robustos, elas podem, informalmente, fazer uso da informação privilegiada de que dispõem para beneficiar terceiros ou alcançar benefícios pessoais para si próprias.

Pode ser que rebente de vez…

maconaria.pngMas não me parece. Solidamente ancorada nos partidos do centrão e influente em muitas das grandes negociatas do regime, interessa que a Maçonaria se mantenha viva, activa e poderosa, apesar das tricas ocasionais e das sórdidas lutas pelo poder. Que o que vamos sabendo pela comunicação social, acredito que seja apenas a ponta do véu…

Há muito tempo que a maçonaria não vivia tempos tão conturbados. O atual grão-mestre e recandidato ao cargo, Fernando Lima, classifica o próximo ato eleitoral, no sábado, como um «momento decisivo» para a história da maçonaria. Ao ponto de, numa mensagem que escreveu esta semana aos maçons a traçar as diferenças entre a sua candidatura e a do professor universitário Adelino Maltez, afirmar que «nunca no passado, como no momento presente, o povo maçónico se deparou com uma decisão tão fundamental, estando perante duas alternativas tão antagónicas entre si».

As sociedades secretas tiveram um papel histórico muito importante na construção das sociedades contemporâneas, baseadas na liberdade, na igualdade de direitos e na democracia. Fazia sentido a existência de organizações secretas onde os seus membros podiam divulgar e discutir livremente ideias proibidas, ou conspirar contra monarcas autocratas e absolutistas, no tempo em que essas acções eram punidas com a tortura, a forca ou longos anos de prisão.

Mas em sociedades livres, onde todos podem exprimir o seu pensamento e juntar-se em partidos, sindicatos, igrejas, associações recreativas, culturais, desportivas, caritativas, etc, para prosseguir os seus objectivos comuns, não faz sentido que continuem a existir organizações pautadas pelo secretismo e pela opacidade, que pretendam influenciar a vida colectiva sem ser através dos mecanismos da democracia plenamente instituída.

Além de injustificado à luz dos valores que os maçónicos dizem defender, este secretismo tem servido para promover a corrupção, a fraude, o tráfico de influências, o nepotismo e de uma forma geral todos os fenómenos de captura do poder político a favor de interesses particulares. Basta olhar, aliás, a longa lista de maçónicos envolvidos em casos mediatizados, alguns deles condenados pelos tribunais, para perceber que a Maçonaria está muito longe de ser a escola de virtudes que os seus adeptos proclamam.

A rede tentacular de uma organização que se considera a ela própria, e aos seus membros, superiores ao resto da sociedade, que mantém secreta a filiação da maioria dos “irmãos”, enquanto eles próprios se reconhecem entre si e se favorecem mutuamente, é uma ameaça clara ao Estado de direito e à democracia.

Como associação que assume objectivos e práticas potencialmente criminosas, a Maçonaria deveria estar sob vigilância permanente dos serviços de informações. Em vez disso, é com extraordinária complacência que vamos sabendo, de tempos a tempos, da nomeação ou da infiltração de maçons no SIS.

Claro que tudo o que escrevi a respeito da Maçonaria se aplica aos seus diversos ramos e a todas as restantes organizações secretas, ou discretas, como algumas gostam de se afirmar, incluindo a mui católica Opus Dei.

 

Defender o património no século XXI

Muito se fala, nos tempos que correm, da necessidade urgente de construir uma escola para o século XXI.

Pois a mim preocupa-me muito mais que outras coisas, como a defesa do património natural, histórico e cultural, permaneçam, nalgumas partes país, ao nível de um século XIX ainda nos seus primórdios.

É que nas escolas em qualquer altura podemos trocar a disposição da mobília, colocar rodinhas nas cadeiras ou tirar as rodinhas, substituir os computadores por tablets ou projectores por ecrãs de LCD, desmembrar as turmas, refazê-las, baralhar e dar de novo e no fim, se nos apetecer, fazer voltar tudo ao princípio.

Agora quando enfiamos um bulldozer por uma jazida arqueológica e arrasamos tudo o que lá está, os danos são irremediáveis. E se eu julgava que isso, no Portugal do século XXI, já não sucedia, fiquei a saber que, nalgumas zonas do Algarve, a ganância de promotores e empreiteiros, aliada à negligência dos (ir)responsáveis, continua com a rédea solta e a cometer, na maior da impunidades, os mais bárbaros atentados ao património.

Vem isto a propósito de uma das mais importantes cidades romanas no território hoje português. Onde hoje se situam Tavira e alguns empreendimentos turísticos junto à ria Formosa, existiu a cidade de Balsa, que no século II tinha o dobro do tamanho de Lisboa e cujos vestígios arqueológicos estão documentados, desde o século XIX, numa vasta área.

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A estupidez mata (e por vezes é contagiosa)

A acompanhar os progressos da humanidade, surgem também os inevitáveis retrocessos. E uma difusa estupidez universal, aliada à ignorância e à falta de memória, leva a que não se valorizem devidamente as conquistas de sucessivas gerações. Vivemos num tempo em que a generalidade das doenças infecciosas são evitáveis e em que, não o sendo, há medicamentos eficazes para as curar. Assim como existem alimentos acessíveis, saudáveis e adequados às necessidades de todas as pessoas, bem como o conhecimento sobre a sua utilização correcta e equilibrada.

No entanto, a juntar às epidemias recentes de sarampo e de outras doenças que só ainda não estão erradicadas porque alguns pais insistem em não vacinar os filhos, surgem casos de crianças a morrer de fome ou de uma coisa tão estúpida como uma otite não tratada, apenas porque os pais os obrigam a seguir os seus fundamentalismos em relação à alimentação e aos cuidados de saúde.

Na época do “conhecimento na palma da mão”, qualquer convencido se presume médico, nutricionista ou cientista em relação àquilo que lhe apetece. E tão depressa se seguem de forma acéfala certas modas e os seus gurus como se despreza o conhecimento sólido e fundamentado de quem estuda, investiga e trabalha nas diversas áreas científicas e profissionais.

Um bebé de sete meses com cerca de 4,3 quilogramas morreu, depois dos pais o alimentarem com uma dieta alternativa. Os pais estão em julgamento e arriscam-se a apanhar uma pena de ano e meio de prisão.
A advogado do casal, Karine Van Meirvenne, afirmou que os pais pensavam que o filho, que tinha cólicas quando bebia do biberão, tinha um problema alimentar, o que os terá levado a tentar alternativas. “Farinha de aveia, leite de arroz, leite de trigo, leite congelado, leite de quinoa… Eles vendiam todos estes produtos na loja”.
“Os próprios pais diagnosticaram o filho com intolerância ao glúten e alergia à lactose”, explicou Pascal Persoons, promotor de justiça, citado pelo jornal “Indepedent”. “Nunca foi diagnosticado. Nenhum médico tinha uma ficha clínica sobre o Lucas. Os serviços de proteção de criança não tinham qualquer registo”.

Morreu, este sábado, em Itália, uma criança de sete anos, na sequência de uma otite tratada apenas com recurso a homeopatia, que acabou por danificar as funções vitais do doente. Segundo a imprensa italiana, os pais do rapaz recusavam-se a administrar medicamentos ao filho.
O pequeno Francesco, doente há duas semanas, estava internado, em coma, num hospital em Ancona, Itália, desde quarta-feira, quando lá chegou semiconsciente e com febre alta. Os médicos declararam morte cerebral no sábado de manhã.

Mas se os casos anteriores são trágicos, este último é apenas ridículo:

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Cara mãe vegana, claro que existe alternativa natural para eliminar os parasitas do cabelo sem os matar, aplicada desde tempos imemoriais: basta rapar o cabelo à sua menina. A má notícia é que não sei se mãe e filha irão gostar do novo visual. A boa notícia é que o cabelo logo voltará a crescer.

A Baleia Azul

baleia azul.jpgSão as primeiras duas vítimas conhecidas em Portugal da “Baleia Azul”. Uma rapariga de 18 anos atirou-se de um viaduto para a linha férrea em Albufeira na madrugada desta quinta-feira, no que aparenta ser uma tentativa de suicídio. Tinha a palavra “sim” cravada na coxa e outros cortes que formavam a palavra “F57”. Também um rapaz de 15 anos, de Sines, foi internado no Hospital de Setúbal depois de ter “desenhado” uma baleia num braço com um objeto cortante.

A “Baleia Azul” é um perigoso jogo online que coloca aos participantes um conjunto de “desafios” que começam pela automutilação e terminam no suicídio. Destina-se, como é óbvio, a adolescentes deprimidos e perturbados e já terá feito muitas vítimas mortais na Rússia, onde começou, e noutros países.

A reportagem do DN faz o ponto da situação e tenta compreender o problema e o que leva crianças e jovens a deixar-se seduzir por “desafios” como golpear o corpo, atirar-se de grandes alturas, ficar doente, envenenar crianças e, como última das 50 missões, suicidar-se.

Da minha parte, não me espanta, embora preocupe, a vulnerabilidade de tantos adolescentes a este tipo de abusos, potenciados pela omnipresença da internet e das redes sociais e pela facilidade com que cada miúdo constrói o seu universo virtual, a maior parte das vezes sem qualquer controle ou acompanhamento parental. O que me espanta e revolta é a passividade, diria mesmo a conivência, com que as empresas que gerem as redes sociais e as autoridades que policiam a internet têm tratado este fenómeno.

Porque os abusadores, os “curadores”, para usar a linguagem do jogo, são pessoas reais, acobertadas pelo anonimato e que com um misto de sedução e ameaça colocam adolescentes vulneráveis em risco de vida e em situações de grande sofrimento físico e mental. São criminosos que deveriam ser activamente perseguidos e prontamente detidos e afastados da internet. Parece que apanharam há meses o alegado fundador da rede, um russo que sofre de doença bipolar, mas outros continuam em acção, incluindo alguns que falam português. Será preciso haver mortes para as autoridades agirem?

Uma última palavra para as redes sociais, especialmente aquelas que automaticamente detectam e prontamente removem uma fotografia de uma jovem deixe ver, por exemplo, um mamilo destapado. Ou uma pintura renascentista que represente nudez. Redes sociais cujos algoritmos escrutinam tudo o que lá escrevemos, para descobrirem os nossos gostos e interesses e nos apresentarem publicidade a condizer. Como é possível que continuem a deixar passar mensagens que incentivam à prática de crimes ou ao cometimento de suicídios, e nada fazem para as filtrar ou eliminar? Será demasiado difícil, ou é apenas alheamento e desinteresse pelo problema?

Aviação, overbooking e jornalismo de sarjeta

O caso do cidadão norte-americano que foi brutalmente agredido e retirado à força do interior do avião porque a empresa de aviação decidiu que necessitava do seu lugar mereceu condenação generalizada, e é lamentável, primeiro, que as punições para estas políticas de empresa atinjam apenas os que as praticam mas raramente cheguem aos responsáveis que as aprovam e incentivam e, em segundo lugar, que o boicote dos consumidores às empresas united pela pouca estima que mostram pelos seus clientes seja geralmente sol de pouca dura.

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Este caso levantou também um velho problema da aviação comercial, o overbooking, a prática generalizada que permite às companhias venderem mais bilhetes do que o número de lugares existentes no avião. Este procedimento, se fazia algum sentido no tempo do booking, ou seja, quando os clientes reservavam o seu lugar mas  podiam à última hora decidir não comparecer ao voo, é hoje uma prática comercial verdadeiramente fraudulenta, uma vez que a generalidade dos passageiros compra a sua passagem antecipadamente e não é reembolsado se desistir da viagem. A sua persistência é por isso uma demonstração clara de como a legislação comercial continua a fazer prevalecer os lucros das grandes companhias sobre os direitos dos consumidores. Na Europa o overbooking é um pouco mais restringido do que nos EUA, onde o poder das big corporations dita a sua lei, e não deixa de ser curioso ter sido banido pelo menos por uma companhia aérea low cost, enquanto as suas congéneres de bandeira, incluindo a TAP, continuam a ser alvo de queixas dos consumidores nesta matéria.

Finalmente, uma nota para o pasquim online que se tem erigido como o novo farol ideológico da direita portuguesa e que hoje decidiu seguir a imprensa tablóide dos States no vasculhar da vida privada e dos “antecedentes” do médico de ascendência vietnamita barbaramente agredido. Um triste exemplo do jornalismo de encomenda ao serviço de grandes interesses, que procura, perante a verdade incómoda, os factos alternativos que possam envergonhar a vítima. Que vai fazendo escola lá por fora e que uma direita moderna e convencida de que tudo lhe fica bem vai tratando de importar, disputando taco a taco, com o Correio da Manhã, o troféu do jornalismo de sarjeta. O Observador anda a ver mal as coisas, e obviamente notícias destas não merecem link.