Sou só eu que noto…

…Algum incómodo na direita tradicional com a prisão de João Rendeiro?

Miguel Barbosa, vice-presidente do CDS, frisou na RTP que a Justiça fez simplesmente o que lhe competia ao conseguir deter o ex-banqueiro João Rendeiro O centrista referiu que o sucesso não mascara falhas do sistema e apontou o dedo ao “mediatismo” em torno da sua captura, que considerou escusado.

É que no restante espectro político o elogio ao trabalho da PJ é unânime, incluindo aqui não apenas os partidos à esquerda mas também os cheganos e a direita liberal.

Haverá receio que, galvanizados pelo sucesso, ainda que provisório, da detenção de um passarão, juízes, procuradores e investigadores criminais, se abalancem para fazer a folha a mais alguns?

Haverá almas, no PSD e no CDS, a sofrer por antecipação?…

O banqueiro ladrão

Imagem daqui.

Teve perna curta o burlão que se autopromoveu a banqueiro do regime e gestor de fortunas, um dos miseráveis génios da gestão e da finança que douraram o nosso novo-riquismo saloio e deslumbrado dos tempos do cavaquismo.

Talvez tenha sido precisamente o arrivismo petulante e presunçoso que o tramou. O maior dos banqueiros trafulhas, pode até ter sido o dono disto tudo, mas não quis tudo para ele: durante décadas comprou aliados, cumplicidades e silêncios; é notória a forma como continua a ser reverenciado e, discretamente, protegido. Roubou mais e custa-nos bem mais caro, mas tem berço e boas maneiras. Na hora do aperto não foge sozinho para o outro lado do mundo, vai até à Suíça visitar a família.

O coro de agradecimentos e parabéns pelo bom trabalho da Polícia Judiciária foi inteiramente merecido. Mas também seria justo dizer-se que não foi a primeira, nem será certamente a última vez, que os recursos sempre escassos da investigação criminal são colocados ao serviço de missões que apenas se tornaram necessárias por causa da incompetência dos tribunais. A fuga de Rendeiro teria sido perfeitamente evitável se a um réu já condenado a pena de prisão não tivessem sido dadas todas as oportunidades para sair do país.

Infiel depositária

Do Facetoons.

Quem não (off)chora não mama

A mulher do ex-banqueiro João Rendeiro foi interrogada esta sexta-feira pelo tribunal, depois de falhar o prazo de entrega à PJ 15 obras de arte apreendidas em 2010 e que em recente diligência não foram encontradas. Mas a sessão acabou por ser suspensa, devido à falta de condições psicológicas da mulher do ex-líder do BPP, que pode vir a incorrer no crime de descaminho e desobediência por não conseguir explicar o rasto de oito obras de artes arrestadas pela Justiça.

“Não estou em condições psicológicas para responder a nada sobre este processo”, disse perante a juíza, a chorar.

O outro, coitado, parece que sofre de Alzheimer, esquece-se de tudo, não diz coisa com coisa, não estará por isso em condições de ser julgado, muito menos condenado, pelas enormes falcatruas que durante anos orquestrou no grupo BES.

Esta agora não está “psicologicamente” em condições de explicar ao tribunal o descaminho que foi dado às obras de arte de que era fiel depositária. Um choradinho em tribunal e a juíza, compreensiva, lá mandou a senhora voltar para casa sem prestar declarações. Só faltou pedirem-lhe desculpa pelo incómodo, em nome dos milhões de contribuintes chamados a repor os desfalques e, sei lá, perguntar à senhora se não lhe daria jeito vender mais qualquer um dos bens arrestados. Que com o marido ausente a vida está difícil e a reforma da senhora é capaz de ser daquelas pequeninas…

Recuperam a saúde num instante, quer-me parecer, quando deixarem de os maçar e puderem finalmente usufruir, em paz e sossego, do pecúlio amealhado.

O verdadeiro artista

Deixado à solta de forma a poder dar descaminho à colecção de arte supostamente arrestada e fugir calmamente para um paraíso fiscal e penal, João Rendeiro dá um autêntico baile à justiça portuguesa e goza descaradamente com todos os portugueses.

O antigo banqueiro e “gestor de fortunas”, o protegido de Cavaco Silva e primeiro presidente da EPIS é apenas mais um dos vários gestores ambiciosos e de poucos escrúpulos que tiveram, com a liberalização da banca, a oportunidade de ouro para enriquecerem enquanto a sua ambição ia afundando os bancos que lideravam. A conta ficou, em nome da sacrossanta estabilidade do sistema financeiro que é preciso preservar a todo o custo e a qualquer preço, para o povo pagar.

Um crime sem castigo

Carlos entrava em casa quando ouviu o estrondo. O chão tremeu. Um clarão enorme iluminava o breu. “Mataram o padre Max!”, gritava a irmã.

Lurdes jazia no meio da estrada, ao quilómetro 71.

Ainda disse “que desgraça!” ou “socorre-me!”, algo assim.

Max estava caído junto à valeta, à esquerda.

“Ó pá, que desgraça!”, disse, a custo.

O Simca, partido em dois, era já sucata. No chão, havia panfletos ensopados a anunciar um baile na Quinta do Rodo, em Godim, na Régua.

Maria de Lurdes foi transportada ao hospital num jeep que passava. Ele seguiu no carro do cunhado de Carlos. No caminho, disse que lhe faltava o ar.  

Ela chegou já sem vida ao hospital. Vestia três camisolas leves de várias cores.

Max entrou com grande dificuldade em falar.

Perguntaram-lhe o que se passara.

“Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa”.

Depois entrou em coma.

Faleceu às seis horas e vinte minutos do dia 3 de abril de 1976.

Tinha 32 anos e dizia que não chegaria à idade de Cristo.

Foi há 45 anos, mais precisamente a 2 de Abril de 1976 que o terrorismo de extrema-direita cometeu um dos seus crimes mais hediondos e repugnantes: o assassinato à bomba do Padre Max e de Maria de Lurdes, a jovem estudante que o acompanhava. Um crime sem castigo, pois apesar das ligações evidentes ao MDLP, organização terrorista muito activa no norte do país naquele período, uma teia de cumplicidades influentes na Polícia Judiciária, no aparelho judicial, na própria hierarquia religiosa, se conjugou para dificultar a investigação e impedir a recolha de elementos de prova.

Num excelente trabalho jornalístico, Miguel Carvalho evoca a vida e a acção social, cultural e política do padre Max, no estertor do Estado Novo e durante o período pós-revolucionário, quando Maximino de Sousa abraçou em pleno os ideias de Abril e assumiu o seu compromisso com os pobres e as classes trabalhadoras. Foi uma opção que valeu ao sacerdote revolucionário a hostilidade de muitos, no ambiente reaccionário e conservador do interior transmontano.

A peça, cuja leitura recomendo vivamente, recorda as circunstâncias do assassinato do Padre Max e tenta desvendar o que, passados 45 anos, é ainda possível deslindar acerca dos seus responsáveis morais e materiais, que nunca foram levados a julgamento.

O homicídio de Ihor e as razões de Joacine

Tornou-se hábito, por boas e más razões, criticar a postura e as intervenções públicas da deputada não inscrita Joacine Katar Moreira. Mas neste caso repugnante do assassinato de um cidadão ucraniano à guarda do SEF, um crime que, apesar das tentativas de encobrimento, é do conhecimento público desde Abril deste ano, Joacine está cheia de razão.

Os partidos que rejeitaram os meus requerimentos para a audição da directora do SEF e inspectores sobre o caso SEF/Ihor H. em Abril, são os mesmos que hoje pedem “mais esclarecimentos” e pedem a cabeça do ministro de administração interna.

Sabem o que é que eu quero? Que se acabem as torturas e a violência institucional sobre as minorias, os pobres e os imigrantes. Que ninguém se sinta tão confiante da impunidade reinante que não sinta medo de bater até matar alguém, estando em representação do estado. Indigna-me ver apenas hoje a indignação generalizada pelo homicídio de Ihor H às mãos do SEF, passados nove meses. Os media, de facto, controlam isto tudo. As emoções todas.

E nesta sequência, é lamentável tanto oportunismo político. Não querem saber de justiça para um cidadão estrangeiro morto à pancada. A maioria, aliás, está-se nas tintas para as condições de vida dos imigrantes. Para os Ihor desta vida. Usam o comportamento dos inspectores do SEF e todos os que compactuaram, não para colocar em causa o SEF e garantir que nunca mais se repitam situações de abuso e tortura, mas como oportunidade de ouro para atacar dirigentes… e pouco mais.

Nesta tragédia que nos deve indignar e envergonhar a todos, vemos uma agenda política comandada pelas manchetes da comunicação social, chocante falta de sentido de Estado dos mais altos responsáveis políticos, reles oportunismo de quem tenta retirar ganhos políticos de um crime hediondo em vez de pugnar pela defesa de direitos e valores basilares da nossa civilização. E a suprema hipocrisia com que sucessivos governos fecharam os olhos à verdadeira máquina de tortura montada nas instalações do SEF no aeroporto de Lisboa, dando carta branca aos torcionários que por lá exerciam. Tendo em conta o sentimento de impunidade que se foi instalando e ouvindo os testemunhos de gente que por ali foi sendo humilhada e agredida, percebe-se que seria apenas uma questão de tempo até que um acontecimento trágico, como o bárbaro assassinato de Ihor, viesse a acontecer.

Para o futuro, e enquanto se ensaiam demissões de ministros e danças de cadeiras, tentativas de mudar algo de forma a que tudo fique na mesma, é evidente que, além do julgamento dos assassinos e de todos os seus cúmplices e encobridores, só há uma coisa decente a fazer: extinguir esta espécie de PIDE para estrangeiros, integrando as suas funções administrativas na restante administração pública e as funções policiais na PSP e GNR. Será assim tão difícil entender isto?…

Prioridades…

Boneco de autor não identificado, em circulação nas redes sociais.

Sobre o tema Novo Banco já por aqui se escreveu, pelo que me limito a destacar este comentário ao post, que deixa bem claro o que está em causa: não se trata, como nos querem fazer crer, de cumprir um contrato, mas de contemporizar com uma série de operações financeiras fraudulentas destinadas a extorquir dinheiro ao Estado. O Novo Banco é um caso de polícia e é vergonhosa a complacência do governo socialista com a ladroagem de colarinho branco.

Invasor de aulas online foi apanhado

hacker.jpgPela notícia do Público ficamos a saber que o fenómeno das invasões de vídeo-aulas não é um exclusivo português, mas uma moda que atravessou vários países em período de confinamento social e, consequentemente, de recurso massivo às plataformas de videoconferência para fins educacionais.

Claro que com o mal dos outros podemos nós bem. Interessa-nos sobretudo o caso português e, aqui, compraz-me verificar a actuação correcta de diversos intervenientes: queixas e denúncias dos visados e de muitos cidadãos que tiveram conhecimento dos abusos, imediata retirada dos vídeos abusivos por parte do Youtube e investigação da Polícia Judiciária, que rapidamente identificou o autor.

Invadir aulas na ferramenta virtual Zoom e publicá-las no YouTube tornou-se num passatempo para jovens que entram em várias salas de aula virtuais só para ridicularizar os participantes, desligar e ligar microfones, partilhar desenhos obscenos e expulsar professores. O fenómeno repete-se um pouco por todo o mundo (em inglês, é conhecido por zoom raid ou zoombombing), com vários casos em Portugal a ocorrerem na última semana. Os moderadores do YouTube estão a tentar apagar estes vídeos — muitos exibem caras, nomes e vozes de menores.

A Fenprof já anunciou que se prepara para apresentar uma queixa à Procuradoria-Geral da República para que sejam identificados os responsáveis destes ataques virtuais. 

Contactada pelo PÚBLICO, a equipa da Google (dona do YouTube) sublinha que os vídeos destes ataques violam as regras da plataforma, ainda que não existam regras que visem explicitamente o fenómeno do zoombombing. “Nós temos regras rígidas que proíbem conteúdo que contém assédio, discurso de ódio e sexualização indesejada, e rapidamente removemos [conteúdos] quando são denunciados pelos nossos utilizadores”, explicou Alex Joseph, porta-voz do YouTube.

Professores, pais ou encarregados de educação de crianças que sejam vítimas em vídeos do género devem contactar a plataforma. “Na eventualidade de alguém sentir que teve a sua privacidade violada, podem preencher uma queixa e nós vamos rever e remover qualquer conteúdo contra as nossas regras”, acrescentou Joseph. Para fazer uma queixa relativa a um vídeo, deve carregar-se nos três pontos no canto inferior direito dos vídeos e escolher “denunciar”.

Costuma dizer-se que pela boca morre o peixe; neste caso, pela fanfarronice morre o youtuber que não resiste a publicar tudo o que, sem grande esforço, lhe renda milhares visualizações…

A unidade de combate ao cibercrime da Polícia Judiciária identificou um homem de 20 anos que invadia aulas virtuais na plataforma online Zoom, através do uso indevido de credenciais de acesso, para perturbar o seu normal funcionamento.

A identificação foi feita “em estreita articulação com o Ministério da Educação”, informa a PJ num comunicado divulgado este domingo.

A ocorrência deste ataques, “rapidamente comunicada pelo Ministério da Educação, permitiu vir a identificar e localizar o autor de tais factos, indivíduo este que não fazia parte das turmas, cujas aulas foram interrompidas, assumindo que o seu comportamento foi indevido e por isso se disponibilizou a apagar todos aqueles conteúdos que foram publicitados na Internet”, acrescenta a nota.

Contudo, parece haver um outro elemento perturbador, menos óbvio mas bastante insidioso, das aulas a distância: a presença física de pais que ainda não perceberam bem o papel que lhes cabe no contexto educativo atípico em que estamos a viver…

“Têm sido dias muito complicados, com casos de problemas que implicam a violação do direito à imagem e a utilização de gravações de professores e crianças para fins não lícitos”, partilha com o PÚBLICO Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof. “Já nos chegaram vários casos do género, tanto de professores como de encarregados de educação que não querem a imagem dos filhos exposta.”

Questionado sobre o facto de estes problemas surgirem em parte devido a aulas virtuais mal configuradas, Nogueira frisou que os professores não tiveram tempo de aprender a trabalhar com estas ferramentas. “Um professor que trabalha com dezenas de alunos, está a tentar que todos tenham acesso a um computador para trabalhar, tem os filhos em casa e está sobrecarregado de trabalho, não vai ter a capacidade de aprender a programar as configurações de todas as plataformas”, diz Mário Nogueira. “Não são só os intrusos. Também há pais que estão constantemente ao pé dos miúdos, interrompendo as aulas para falar com os professores. E há casas onde a rede da Internet não chega.”

“Não há condições para os alunos conseguirem avançar nos programas”, remata o secretário-geral da Fenprof.

Previsível, mas evitável…

youtube.PNGUm grupo de ‘youtubers’ conseguiu aceder às palavras-chave do programa informático que permite a alunos e professores estarem ligados para as aulas através da Internet. A situação obrigou a que muitas das aulas estejam a ser canceladas está sexta feira.

De acordo com um email enviado aos encarregados de educação às primeiras horas da manhã, um grupo denominado RedLive13 entra no sistemas e faz “todo o tipo de disparates”, impedido o normal funcionamento das aulas online, onde cada turma está ligada em sincronia com o professor da respetiva disciplina.

Desconhece-se para já quantas escolas ou turmas estão a ser afetadas pelo problema.

O grupo já divulgou vídeos no YouTube onde mostra como entraram no sistema e o que fazem para boicotar as aulas.

Fica a informação lacónica, pois me recuso a dar publicidade a estes malandros desocupados que querem, com escasso esforço e nulo talento, fazer vida de youtubers.

Faltando talento a estes rebentos da geração digital que procuram avidamente visualizações, cliques e likes nas suas páginas, eles tentam alcançar os seus objectivos da forma mais fácil, que é gozar com quem tenta trabalhar.

Há várias coisas a dizer sobre isto, e a primeira é que os vídeos publicados configuram a prática de diversos crimes, pelo que se espera que os visados denunciem e as autoridades actuem, identificando os responsáveis e levando-os perante a justiça.

Depois, acrescentar que o verdadeiro talento existe em todas as gerações, e portanto também na dos youtubers e instagramers. O que sucede é que os jovens talentosos estão sobretudo na concepção e programação dos equipamentos e do software, não tanto entre os seus utilizadores, que primam, na grande maioria, pela mediocridade. O tombo destes pretensos génios acontecerá, mais cedo do que tarde, assim que, passado o efeito da novidade, deixarem de lhes achar piada.

Outra coisa que nunca é demais lembrar é que nenhum professor é obrigado a dar aulas online ou a tentar reproduzir, frente a uma câmara, o que faria numa aula real. Há demasiada precipitação no recurso ao Zoom e outros programas de videoconferência por parte de colegas que cedem à pressão e às modas do momento, recorrendo a tecnologias com as quais ainda não se sentem à vontade. E já sabemos que a tutela ministerial, sempre pronta a atirar os professores às feras, é a primeira a deixá-los por sua conta e risco quando algo corre mal…

Para os colegas corajosos e afoitos que querem mesmo assim integrar a videoconferência nas suas sessões de ensino a distância, há um princípio básico a ter em mente no uso do Zoom e outras plataformas populares de videoconferência: quem dirige a reunião é que manda, e essa autoridade deve ser assumida sem condescendências. Bem utilizada, ela acaba por ser mais efectiva do que numa aula normal:

  • Os candidatos à entrada podem ser colocados em espera e só entram com aprovação de quem dirige a reunião;
  • Depois de terem entrado todos os convidados, podem-se bloquear novas entradas, barrando os intrusos, mesmo que estes disponham dos dados de acesso;
  • Um intruso pode ser de imediato expulso e bloqueado, ficando impossibilitado de voltar a entrar;
  • Existem ferramentas para que quem dirige a sessão silencie ou corte a imagem de quem não se souber comportar;
  • O chat pode ser desactivado na totalidade, ou apenas de forma a não permitir mensagens privadas, impedindo conversas paralelas e distracções;
  • A partilha do ambiente de trabalho pelos convidados deve estar desactivada, ficando dependente de autorização expressa do professor.

Diria que o professor que ainda não se familiarizou minimamente com estas funcionalidades poderá não estar preparado para usar a videoconferência com os seus alunos. Sobretudo se entre estes estiverem daqueles adolescentes engraçadinhos que gostam de pôr os seus professores à prova…