Olha para o que digo…

Mas não para o que faço.

O ditado é antigo, mas poderia ser bem o lema do actual Governo, que ao longo dos anos se tem vindo a especializar no logro, na dissimulação e na mentira. No ME, então, encontra zelosos seguidores.

Viu-se bem ontem, na frustrada tentativa da Fenprof para chegar à fala com alguém da equipa ministerial. Recusaram reunir ao mesmo tempo que afirmavam que tinham reunido, o que demonstra que a teoria trumpista das verdades alternativas fez escola em variados quadrantes políticos. Anteontem, o ministro andou por mais uma escola a perorar sobre a necessidade de “ouvir os alunos”. E eles, responsáveis educativos, não têm de ouvir os professores?

Nada disto é de novo num ministério que anuncia miríficas autonomias, ao mesmo tempo que controla ferreamente, através de milhentas plataformas, tudo o que as escolas fazem ou se lhes permite fazer. Tece loas ao pensamento crítico, mas estimula o seguidismo acrítico das suas políticas entre os professores e as lideranças escolares. Manda criar e inventar, mas rejeita todas as criações e invenções que não rumem no sentido desejado. Anuncia investimentos de muitos milhões na educação, mas sabe que apenas uma ínfima parte da bazuca educativa chegará realmente às escolas, em apoio directo aos alunos que mais precisam.

Num ME sem peso político, onde a política educativa tem apenas três linhas de rumo – seguir os ditames da OCDE, reduzir despesa corrente e captar financiamentos europeus – pouco ou nada há para oferecer aos agentes e destinatários da Educação. Pelo que há muito que se assumiu uma estratégia de contenção de danos, empurrão com a barriga e mera sobrevivência: propagandear a cidadania, o diálogo, o pensamento crítico, a consciência cidadã – e fazer, na prática, o contrário disto tudo.

Pensamento do dia

Seja por razões humanitárias ou pelas contingências da automatização, aponta-se a necessidade de enveredar por um rendimento básico universal, ou algo semelhante, num futuro próximo em que não haverá empregos para todos.

Curiosamente, quando se fala de pensões, que são basicamente a mesma coisa, mas apenas para idosos ou pessoas com problemas graves de saúde, aí a conversa muda e dizem-nos que são insustentáveis.

Adaptado daqui.

Liberdade de escolha… paga pelo contribuinte

Ou de como a educação defendida pelos neoliberais se assemelha demasiado à caricatura que eles próprios fazem do socialismo.

Com os bonecos do Facetoons, talvez se perceba ainda melhor.

Regras sem sentido

A diferentes velocidades e com medidas diversas consoante o contexto pandémico, as aulas são retomadas durante este mês de Setembro um pouco por toda a Europa. Os 27 países da União Europeia (UE) avançam maioritariamente com o ensino presencial, com uma forte aposta na vacinação, implementando regras que distinguem vacinados de não vacinados. Há apenas dois países que não fazem essa distinção: Portugal e Roménia. No caso português, o número de dias de isolamento (14) é o maior da UE.

Não faz sentido que o país que lidera a nível mundial, com as mais elevadas taxas de vacinação, o processo de vacinação anticovid, seja também dos que mais restrições impõe à população vacinada. Na prática, e tirando a exibição dos certificados de vacinação nos restaurantes ao fim de semana, obrigação que, na falta de fiscalização, vai sendo letra morta em cada vez mais sítios, continua por cumprir a promessa que motivou tanta gente a vacinar-se: poder regressar a um quotidiano mais seguro e com menos limitações. E uma efectiva – não há que temer assumi-lo – discriminação positiva em relação àqueles que, fazendo uso do direito que lhes assiste de não se quererem vacinar, estão realmente menos protegidos dos efeitos da doença e da sua capacidade de contágio.

Nas escolas, aceita-se resignadamente o uso das máscaras: percebe-se que os interiores mal ventilados e as salas de aula sobrepovoadas das nossas escolas criam ambientes propícios à propagação do vírus e impõem cautelas que não deitem a perder os avanços dos últimos meses no controle da pandemia. Já é mais difícil compreender que se insista em períodos de isolamento de duas semanas para suspeitos assintomáticos, vacinados e com teste negativo à covid-19.

Um positivo em cada mil testes

O ministro da Educação disse esta sexta-feira que os testes à covid-19 feitos ao pessoal docente e não docente para o arranque do ano letivo revelaram “cerca de um positivo” em cada mil, tendo sido testadas no total 140 mil pessoas.

“Temos 99% do pessoal docente e não docente vacinado, temos já uma grande percentagem de alunos entre os 12 e os 17 anos vacinados, temos um conjunto de protocolos muito positivos nas nossas escolas, que diminuem o risco, mas de forma importante e no reporte que tínhamos ontem de manhã, posso dizer que em 140 mil docentes e não docentes tivemos uma positividade de cerca de 0,12%.”, referiu Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, no Porto.

Na abertura do ano lectivo, a testagem em massa da população escolar a partir dos 12 anos cumpre o seu papel. O ministério apresenta os valores residuais que reforçarão a narrativa de que as escolas são lugares seguros. Os laboratórios de análises facturam o serviço, apesar de saberem que testes rápidos de antigénio são altamente ineficazes na detecção de infectados assintomáticos.

Em relação aos alunos mais novos, a reabertura das aulas é acompanhada de uma grande incógnita: sabendo-se empiricamente da maior transmissibilidade da variante delta também entre as crianças, corremos o risco de serem elas, futuramente, os maiores disseminadores do vírus: não estão vacinadas, não serão testadas e com menos de dez anos nem sequer são obrigadas a usar máscara.

Contudo, enquanto se aplicam testes em massa à população saudável e vacinada, continua a sujeitar-se os infectados e os contactos de risco às mesmas regras que vigoravam no início da pandemia. Um suspeito de ter sido infectado, mesmo sem sintomas e nunca tendo testado positivo, continua a ter de ficar duas semanas em isolamento. E se há gente que já nasceu cansada e não se incomoda nada de aceitar a benesse, outros anseiam por voltar à sua vida normal e deveriam poder fazê-lo. Mas vivem no país que prefere promover o absentismo forçado para poupar alguns milhares de euros em testes PCR.

Testagem covid-19 nas escolas: faltam indicações e sobram dúvidas

Arranca, esta segunda-feira, a testagem ao novo coronavírus de professores e funcionários, mas das escolas contactadas pela Renascença não receberam qualquer indicação.

O cenário é confirmado pelo presidente da Associação de Dirigentes Escolares.

Manuel Pereira, que também é diretor do agrupamento General Serpa Pinto, em Cinfães, está confiante que até ao final da semana vai ficar a saber quando começam os testes. “Tanto quanto sabemos, a tutela contratualizou este serviço junto de laboratórios. Em princípio, esta semana, estes laboratórios vão entrar em contacto com as escolas a até dia 17 tudo estará concluído em relação aos profissionais da educação.”

Este é o primeiro grupo definido pelo Ministério da Educação para ser testado à Covid-19. Já os alunos são testados entre 20 de setembro e 15 de outubro.

Alguma confusão e desorganização na mega operação de testagem à covid-19 com que arranca o ano lectivo.

Já sabemos, da experiência de anteriores rastreios em massa, que será muito residual a percentagem de positivos que venha a ser detectada. Desde logo, pela conhecida ineficácia dos testes de antigénio em doentes assintomáticos. Depois, porque tudo isto parece um atestado à ineficácia das vacinas: serão testados professores, funcionários e alunos a partir dos 12 anos, ou seja, justamente os grupos que foram entretanto vacinados.

Os mais novos, para os quais não há ainda vacinas aprovadas e que poderão vir a ser, em breve, um dos principais grupos etários transmissores da doença, não serão testados e, no caso do primeiro ciclo, nem máscara são obrigados a usar. Em contrapartida, testam-se os professores e funcionários que com eles convivem.

Dois inteligentes

Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto, citado pelo Observador:

Perguntei ao senhor ministro [Tiago Brandão Rodrigues] ontem se ele compreendia como é que um jogo decisivo do basquetebol não podia ter ninguém a assistir e ontem e anteontem, no Pavilhão Rosa Mota que é um recinto fechado, estiveram 2.500 pessoas aglomeradas, a maioria sem máscara, a ver um espectáculo de música. Ele não me soube responder e eu disse-lhe ‘Olhe, não sabe o senhor nem sabe ninguém porque para coisas estúpidas só os estúpidos é que são capazes de compreender e é sinal que o senhor afinal é inteligente…

Olhe, sabe o que é que precisávamos? De homens como o Humberto Delgado que viessem dizer ‘Demitam-se!’ que ainda hoje faz história. Infelizmente não existem no nosso país, por isso é que há esta pouca vergonha em que há pavilhões vazios para praticar desporto e pavilhões cheios para poder ver espectáculos musicais. Ver estádios quase com metade em jogos estrangeiros para os estrangeiros e os portugueses não podem, às vezes em aglomerações maiores do que se estivessem lá dentro. Mas não se pode esperar mais, quando a responsável da DGS veio dizer no início desta maldita pandemia que era uma gripezinha que dificilmente chegava cá, quando depois foi à TV aconselhar que ninguém usasse máscara, isto com um Humberto Delgado tinha sido logo demitida mas passado um ano continua no seu lugar a fazer estas figuras, a ridicularizar o povo português que é alvo de chacota lá fora. Deixava um conselho ao senhor primeiro-ministro António Costa: demita-os e, se não é capaz, demita-se o senhor”.

Em exercícios de demagogia e populismo o eterno líder portista terá poucas lições a receber de uma classe política que aposta mais no “falar ao jeito” do que em resolver problemas e dar rumo a um país cada vez mais a saque dos poderosos e de futuro indefinidamente adiado. Mas para a demagogia, tal como a mentira, ser eficaz, há-de trazer à mistura, como dizia o poeta, qualquer coisa de verdade. E é um facto que as regras de segurança sanitária que subsistem neste período de gradual desconfinamento devem muito pouco à racionalidade.

Nesta fase, dever-se-ia apostar mais na responsabilização das pessoas e num conjunto de regras claro, simples e minimalista. Já se deveria ter percebido que de nada adianta desinfectar as mãos de dez em dez minutos quando o vírus se propaga, toda a gente o sabe, pelas vias respiratórias. Não faz sentido ter de estar de máscara na rua, quando se permite estar horas sem máscara no espaço fechado de um café ou num restaurante, sem máscara e sem distanciamento de outros clientes. É inaceitável impor restrições draconianas aos indígenas, dando luz verde a abusos e desacatos de visitantes estrangeiros. E insiste-se, aparentemente, em regras absurdas para a frequência das praias.

Não sei se a demissão dos responsáveis da DGS adiantaria alguma coisa no contexto actual. O que sempre me pareceu é que a missão de Graça Freitas e a sua equipa foi sempre, mais do que definir políticas de saúde pública, caucionar técnica e cientificamente decisões políticas tomadas noutras instâncias. Do que precisamos neste momento é de políticas mais sensatas para garantir um desconfinamento seguro e responsável. Ao fim de quase ano e meio de pandemia já deveria haver, da parte de especialistas e decisores políticos, uma noção clara de quais são as situações e comportamentos que riscos significativos. Focando aí as restrições que ainda se justificam e abrindo espaço, no resto, para o retorno gradual à vida normal.

Leituras: Disciplinas ou domínios curriculares?

Faz sentido fragmentar o conhecimento em disciplinas quando no mundo real estas estão interligadas? Haverá vantagens em desconstruir o currículo escolar sob o conceito dos domínios de aprendizagem? Em Espanha, a nova lei educativa abre caminho às pretensas inovações pedagógicas que por cá já conhecemos há algum tempo, com resultados que estão longe de ser brilhantes. Desmontando os novos mitos educativos, deixo-vos a oportuna, esclarecedora e muito bem fundamentada reflexão de Gregorio Luri.

Parece que na pedagogia de hoje é preciso ser imaginativo para estar actualizado. Mas como a um dia se segue o outro, tem de se ser imaginativo ao quadrado. A pedagogia tornou-se uma corrida de inovações em busca da actualidade. A penúltima é o desprezo pelas disciplinas, com o argumento muito singular de que na vida nunca se encontram disciplinas, mas sim problemas multidisciplinares ou, para o dizer de uma forma mais moderna, “ambientes multitarefa” em que a experiência e o conhecimento estão integrados. Conclusão: as disciplinas não servem para compreender a realidade, mas para a dividir de forma caprichosa. São instrumentos classificatórios arbitrários que dificultam a aquisição do conhecimento.

Admitamos que a racionalidade pedagógica não vive propriamente uma época de ouro. Algumas luminárias cobram quantias muito substanciais por darem palestras clonadas nas quais denunciam que “o sistema educativo tradicional ensina certezas”. Como se os pais mandassem os seus filhos para a escola para adquirirem conhecimentos rigorosos! “A escola é uma prisão que maltrata os nossos filhos”, pontificam outros. Há quem utilize argumentos axiomático-dedutivos em palestras magistrais para criticar o raciocínio dedutivo das aulas magistrais. Fui testemunha. O que não compreendo é porque é que estes génios não usam as suas energias para construir uma escola alternativa onde as crianças venham todas as manhãs a saltar de alegria depois de saírem da cama à primeira, felizes porque hoje é também um dia de trabalho.

A rejeição das disciplinas anda de mãos dadas com o desprezo pelos livros escolares, que se tornaram o estigma da velha escola. Como é que as gerações obrigadas a utilizar livros escolares aprenderam alguma coisa, quando as fotocópias amarrotadas no fundo da mochila, junto da banana esquecida na semana passada, são tão pedagógicas! Esta rejeição não é, estritamente falando, nova. Foi generosamente praticada por Kilpatrick há cem anos atrás. Assim, quando se legaliza o que agora se chama “domínio” da aprendizagem, (o agrupamento de duas ou mais disciplinas numa nova), está-se a repor o relógio da modernidade nos felizes 20 anos do século passado.

Quer queiramos aceitá-lo ou não, a missão da escola não é trazer o mundo real para a sala de aula, mas acelerar a aquisição de conhecimentos do aluno num ambiente artificial, para que ele possa cobrir em poucos anos a distância que separa o grunhido do homem das cavernas de um soneto de Lope e o machado de pedra da Internet. A escola está sempre a lutar contra o tempo e nunca soube como ter sucesso com todos os alunos. Este é o drama que estimula o aparecimento de propostas educativas que, para serem amigáveis, escondem a relevância do tempo. Não é fácil ter o tempo educativo necessário que é exigido por aqueles que, por avançarem a um ritmo mais lento, se ressentem e sofrem com o ritmo médio da turma.

É claro que os domínios de aprendizagem não poupam tempo. No mundo real não há nada mais comum do que encontrar problemas que tenham a ver com matemática, geografia, química ou literatura, ou seja, com disciplinas. Não há nada mais comum do que a necessidade de recorrer a um especialista eficiente, desde o dentista ao gestor. É por isso que é dever da escola assegurar que todos os alunos, e especialmente os mais desfavorecidos culturalmente, tenham a oportunidade de adquirir conceitos científicos sobre o mundo. Quando uma criança usa as palavras “gato” ou ” mamã” o seu significado é fortemente impregnado com as suas experiências únicas e intransmissíveis com o seu gato e a sua mamã. Os conceitos científicos de “gato” ou ” mamã” transcendem a experiência individual para se tornarem conceitos acessíveis a uma experiência universal. A ciência é o domínio do conceito. É por isso que quando nos é dito que em “ambientes multitarefa” a experiência e o conhecimento estão integrados, temos de ser claros que a experiência e o conhecimento da criança estão, em qualquer caso, a caminho de se tornarem científicos, mas ainda estão longe de o ser.

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“Ouvir a voz dos alunos” – outra vez arroz?

A notícia é do início da semana, mas só hoje dei por ela. Claramente desorientado – os manuais eduqueses não trazem receitas para tempos de pandemia e o tema também não terá sido abordado nos mestrados de Boston dos anos 80, o ambiente mental em que os seus conselheiros parecem ter cristalizado – o SE João Costa esboça os planos da pólvora para o desconfinamento escolar e a necessária “recuperação das aprendizagens”.

Mais confuso e delirante do que o habitual num seguidor da tradição de picaretas falantes que o PS gosta de recrutar para os seus governos, João Costa tropeça nas ideias e nas palavras e vai dizendo um disparate atrás do outro. A primeira reacção, perante a ideia de ouvir vozes dos alunos, que já serviu para abrir caminho ao desastre da flexibilidade curricular, é inevitável: outra vez arroz?

Recomenda assim, para começar, umas sessões de psicoterapia grupal: “Ouvir a voz dos alunos, ouvi-los muito e pôr toda a escola a ouvi-los.” Serão então precisos mais psicólogos nas escolas? Talvez não, que fica caro. O SE recomenda “intervenção comunitária”, coisa mais simples e que se faz com a prata da casa. Ou nem sequer se faz, mas diz-se – e escreve-se! – que se fez.

Depois, sugere desenvolver programas em contexto escolar centrados no Plano Nacional das Artes e no Plano Nacional do Cinema, reconhecendo aparentemente a importância que uma área que foi das maiores vítimas da flexibilidade curricular dos seus governos.

Também admite que “os alunos em situação mais vulnerável ficaram ainda mais vulneráveis”, mas depois sai-se com esta enormidade: “despejar mais aulas em cima dos alunos é contraproducente”. Quer, aparentemente, recuperar aprendizagens – “Temos de saber o que foi perdido e rever o que não pode mesmo ficar para trás.” – mas pretende fazê-lo com menos aulas e muita psicoterapia, arte e sessões de cinema…

No fim, confirma-se o que é evidente desde o início: o ministro-de-facto da Educação não tem respostas concretas para os problemas reais vividos nas escolas. Quer condicionar o trabalho que terá de ser feito com os alunos mas na verdade não sabe o que fazer. Segue a linha a que já nos habituou, a de não se responsabilizar por coisa alguma, sacudindo a água do capote e para cima da “autonomia das escolas”, que como se sabe tem as costas largas. Se alguém tiver de escorregar na casca de banana, o ministro Tiago que se chegue à frente, que o seu secretário prefere resguardar-se nos bastidores. Fica-nos uma certeza: do que nisto tudo correr mal, e no que não se puder culpar o vírus, a culpa sobrará, uma vez mais, para as escolas e os professores.

Bazuca educativa: as recomendações do CNE

O Conselho Nacional de Educação (CNE) considera que é necessário adaptar os currículos e as formas de ensino “aos novos paradigmas da sociedade do conhecimento e da informação” e que a Reforma Digital deve apontar para a produção de novos conteúdos e não apenas a sua digitalização. Todas estas mudanças devem ser acompanhadas da formação e acompanhamento técnico e pedagógico dos professores.

No parecer que foi pedido pelo Governo, no âmbito da discussão pública do Plano de Recuperação e Resiliência, o CNE diz que o PRR dedica uma atenção especial à transição digital na educação, mas há que ter em conta as especificidades de cada região do país, do meio socio económico em que as escolas se inserem porque é sabido que há ainda muita falta de meios tecnológicos.

O conselho Nacional de Educação quer ainda que em todas as escolas do ensino básico e secundário se promova o ensino em áreas STEAM (Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), apetrechando os estabelecimentos de ensino com os recursos base necessários.

O conselho Nacional de Educação considera ainda essencial valorizar nos currículos a dimensão criativa, artística, humanista e desportiva.

Ouvido acerca da forma como poderão ser investidas, no sector educativo, algumas verbas da bazuca europeia que venham a estar disponíveis, o CNE não conseguiu sair do discurso redondo e politicamente correcto que tem enquadrado as políticas educativas das últimas décadas. E que vão permitindo a cada Governo, prosseguir a sua política, tantas vezes em clara contradição com os elevados princípios invocados nestes documentos orientadores.

E, no entanto, não é preciso uma leitura muito cuidadosa ou demorada para perceber a fragilidade em que assentam as recomendações do CNE. Começando pela conversa da treta em torno de “paradigmas” não identificados, chega-se à ideia de que são precisos novos conteúdos e não apenas a digitalização dos existentes. Mas conjugando isto com a noção generalizada de que os currículos actuais já são demasiado extensos, há uma questão que não pode deixar de se colocar: que conteúdos velhos é que se tiram para colocar os novos? Mais: o novo, apenas porque é novidade, é mais importante do que o antigo? Num mundo em mudança acelerada – embora por vezes com surpreendentes retrocessos, e aí está a pandemia a lembrar-nos disso todos os dias – é mais importante o adquirir o conhecimento utilitário e instrumental dos dias de hoje, que estará ultrapassado daqui a meia dúzia de anos, ou os conhecimentos e competências de base, estruturantes, que, esses sim, nos permitirão continuar a aprender pela vida fora?

No resto, segue-se uma lógica semelhante: seguindo a agenda educativa das multinacionais da educação, propõe-se a promoção das áreas científicas. Mas, ao mesmo tempo, o reforço das artes, humanidades e desporto. Em que ficamos, então? Aumentamos ainda mais os horários lectivos que já tendem a ser, sobretudo no ensino básico, demasiado extensos? O parecer do CNE alimenta o equívoco de que é possível dar tudo a todos, quando na verdade em Educação, como em quase tudo na vida, existem custos de oportunidade: se opto por fazer uma coisa, deixo de fazer outra. O grande risco dos experimentalismos curriculares permanentes, insensatos, mal concebidos e pior avaliados, é o da degradação da qualidade do serviço educativo, substituindo o conhecimento sólido e estruturado das disciplinas clássicas por vacuidades e modernidades sem substância.

O CNE pronunciou-se ainda sobre a previsível falta de professores a médio prazo, mas também aqui não foi capaz de ir além de formulações genéricas acerca de reformas no sistema de formação inicial e de, não se percebe bem por que artes mágicas, reforçar a atractividade da profissão junto dos jovens. Também aqui falham o alvo, pois não é por criar mais cursos de formação inicial de docentes, que já hoje estão quase às moscas, que se conseguem mais candidatos à profissão.

O desafio joga-se, como não é difícil de compreender, na melhoria substancial das condições de acesso à profissão, acabando com a precariedade extrema a que se condenam os jovens professores e tornando a profissão mais atractiva. A um outro nível, recrutar e manter um corpo docente motivado e qualificado passa igualmente por valorizar e dignificar a carreira e a profissão. Em poucas palavras, respeitar os professores: uma atitude que deveria partir de cima mas que tem estado sistematicamente ausente do discurso e da acção dos responsáveis educativos. E que, infelizmente, também não tenho descortinado na converseta da presidente do CNE.