Pensamento do dia

javierOs que afirmam que a aula magistral está obsoleta e deve desaparecer estão a aproveitar o confinamento para partilhar webinars, masterclasses e conferências virtuais sobre métodos activos.

Javier

Bom domingo!

Exames à la carte

iaveAs alterações ontem anunciadas na estrutura e avaliação dos exames nacionais parecem abrir um caminho, na avaliação externa que já não se percebe bem para que serve nem onde nos levará.

Na realidade, há duas razões principais para fundamentar a existência de exames nacionais, geralmente reconhecidas como válidas até pelos seus detractores: por um lado, dispor de um instrumento de avaliação justo, objectivo e universal, que coloca em pé de igualdade todos os alunos que frequentaram determinada disciplina. Por outro, regular o sistema educativo, garantindo o cumprimento, em todas as escolas, das aprendizagens que irão ser avaliadas nas provas de exame.

Ora os exames deste ano não vão cumprir nenhuma destas finalidades. Serão opcionais, o que significa que deixam de fora uma grande parte, em certos casos a maioria dos alunos que frequentaram a disciplina mas não precisam do exame como prova específica. Como se está já a notar nas aulas presenciais, o interesse e empenhamento dos alunos varia muito consoante pretenderem ou não fazer exame. Sendo que estes últimos, se lerem com atenção as FAQs da DGE, logo percebem que podem dar já por terminado o ano lectivo…

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Por outro lado, os exames deste ano irão retomar a prática, popular noutros tempos, das perguntas opcionais. Com uma agravante: os alunos podem responder a tudo, e os classificadores que se desunhem, depois, a avaliar todas as respostas e a escolher as melhores. Isto põe completamente em causa o princípio da existência de um currículo nacional, comum a todos, e com base no qual todos deveriam prestar provas. Qual é o sentido de um exame nacional configurado à vontade do freguês?

Evidentemente, estas facilidades dadas aos alunos pressupõem mais trabalho para os professores que irão ver as provas, pois serão obrigados a classificar respostas que, no final, nem sequer serão consideradas. Uma decisão que ainda assim não surpreende, pois se insere na longa tradição de abuso e desconsideração pelos professores que, ano após ano, põem em andamento a pesada máquina dos exames. E que torna ainda mais pertinente a tomada de posição da Fenprof em defesa dos direitos destes docentes:

Neste contexto a FENPROF exige:

  1. A revisão dos critérios de seleção dos professores classificadores, com indicações claras para todas as escolas seguirem os mesmos procedimentos, de modo a que o trabalho de classificação não recaia insistentemente sobre alguns, fomentando a rotatividade nessa função entre os professores de cada grupo disciplinar;
  2. O aumento do número de professores classificadores, através da igualdade e proporcionalidade de procedimentos, no recrutamento e seleção em todas as escolas.
  3. A fixação em 30 do número máximo de provas a distribuir a cada classificador e o aumento do tempo reservado para a realização das tarefas;
  4. O caráter absolutamente excecional da atribuição de classificação de provas em mais do que uma fase e em mais do que uma componente de exame (oral ou escrita), na mesma fase;
  5. A fixação de critérios-base adequados e justos para a atribuição de dias de compensação, tendo em consideração o volume de trabalho distribuído a cada docente;
  6. O rigoroso cumprimento dos direitos dos professores classificadores pelas direções dos agrupamentos e escolas não agrupadas;
  7. O pagamento em prazo curto das ajudas de custo e das despesas de transporte que sejam devidas aos professores classificadores;
  8. A revisão do papel dos classificadores dentro do processo supervisionado com o respeito pela sua autoridade científica.
  9. A revisão das normas de realização, vigilância e classificação de provas orais e escritas sob orientação das autoridades de saúde pública, por forma a reduzir ao máximo os riscos que decorrem do contacto interpessoal, mobilidade e exposição a material potencialmente contaminado.

Faltam professores para as aulas presenciais

aula-vaziaDirectores e sindicatos bem podem insistir, mas o Ministério da Educação (ME) está determinado a avançar com o regresso à escola nos moldes em que definiu, nomeadamente no que respeita à obrigação de os alunos assistirem às aulas presenciais de disciplinas onde existem exames nacionais. E o resultado poderá ser este: não existirem professores para assegurar estas aulas, nomeadamente na área de Lisboa.

O ME continua a acenar com mecanismos expeditos para a contratação de professores em falta que, em vésperas da reabertura das aulas do secundário, ainda ninguém percebeu bem quais serão.

O que já se vai sabendo é que têm estado a ser recusados pedidos de substituição de professores de disciplinas e níveis de ensino não contemplados com aulas presenciais. O que só dá razão aos críticos deste “estudo em casa”, que aparentemente pode ser substituído por férias antecipadas e repescagem da nota do 2.º período como avaliação final.

Por outro lado, os professores que dia após dia tentam vencer a distância e continuar, apesar dela, a ensinar os seus alunos, percebem cada vez melhor onde está a principal falha deste modelo improvisado de ensino: nos alunos com maiores dificuldades de aprendizagem, com falta de autonomia, com necessidades especiais, carentes de apoio individualizado.

Se houvesse algum sentido pedagógico neste regresso antecipado à escola, ele deveria orientar-se para aqueles alunos que, em casa, estão permanentemente desacompanhados e que, percebemos nós, estão a evoluir zero nas suas aprendizagens.

Em vez disso, construiu-se uma resposta educativa presencial unicamente em função dos exames e orientada para os alunos que mais facilidade teriam em continuar a trabalhar em casa.

Uma pirueta de 180 graus num ministério que tanto nos encheu a paciência com o discurso da inclusão. Que mostra o quão poderosos são certos interesses. E como os velhos hábitos são difíceis de mudar.

Reviravoltas

reviravolta.gifA decisão de retomar as aulas presenciais daqui a uma semana, exclusivamente para assegurar a preparação para os exames, está a despertar curiosas reviravoltas no pensamento e convicções de muita gente.

O que de certa forma é normal: as crises e dificuldades da vida levam-nos a isso mesmo, impondo a necessidade de questionar o que tínhamos como certo e seguro e de procurar, perante novos e inesperados problemas, formas eficazes e adequadas de dar a volta à situação.

É o caso de muitos que, ao longo dos anos, têm defendido com unhas e dentes os exames nacionais, recusando-se a aceitar, em nome de princípios de equidade e justiça, um sistema de acesso ao ensino superior que os não considere. Pois bem, perante a perspectiva de eles próprios, os seus filhos, colegas ou outras pessoas que estimam terem de voltar à escola, nas condições em que sabemos, já conseguem relativizar a importância dos exames. Que não viria mal ao mundo se, este ano, se não fizessem. Suma heresia, admitem até que possam ser as instituições do ensino superior a assumir, finalmente, uma maior responsabilidade na selecção dos candidatos.

Do lado oposto, diverte-me até um pouco ver o afã do secretário Costa e da sua equipa em torno da salvação dos exames nacionais, quando ainda há uns meses atrás se percebia que o objectivo, a médio prazo, seria acabar com eles. Tanta conversa em torno de flexibilidades e inclusões, tanta burocracia e sobrecarga de trabalho descarregada sobre as escolas para dar andamento aos desígnios eduqueses de Costa e dos seus sequazes, para acabarmos assim: uma escola pouco ou nada inclusiva, onde a resposta educativa prioritária é cumprir o currículo uniforme e prescritivo da “matéria que sai no exame” e as clássicas “aulas do século XX” de preparação para as provas.

Esperemos que, quando passar esta pandemia estas questões voltem, mais serenamente, à ordem do dia. A verdade é que o estado de emergência educativo nos obrigou a questionar muito do que sabíamos, ou julgávamos saber, sobre Educação. Fugindo de dogmas e ideias feitas, importa pensar em respostas equilibradas e sensatas para os problemas reais, evitando tanto o fundamentalismo contra e pró-exames como a obstinação em torno de falsas soluções educativas, datadas e ineficazes.

Há muito a discutir na educação portuguesa. Esperemos que, ao contrário do que tem sido norma no passado recente, os debates do futuro se façam também com as ideias, a experiência e o conhecimento dos professores no terreno.

O vira-casacas

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Sabendo-se que os professores hoje no activo são praticamente os mesmos que ensinavam em 2014, é caso para perguntar: o que levou o escriba do Observador, o jovem “investigador” de temas de educação levado ao colo, pelo CDS, para o Conselho Nacional de Educação, a mudar radicalmente a sua opinião?

O vira-casaquismo esteve muito em voga a seguir à Revolução que hoje se comemora. Pessoas que nunca se interessaram por política inventaram para si próprias um passado antifascista. Homens de confiança do anterior regime transformaram-se de um dia para o outro em activos e radicais revolucionários.  Com a mesma falta de princípios, gente sem vontade nem préstimo para leccionar, que faz carreira a admoestar os professores e a denegrir o profissionalismo da classe – e há tantos por aí – não se inibe de dirigir elogios interesseiros aos professores, quando sente que isso lhe dá jeito.

A coerência não é propriamente um valor em alta entre uma certa direita de boas famílias que sempre se habituou a abrir caminho usando o seu dinheiro, poder e influência para atacar, ofender, desmoralizar quem se atravessa à frente. Ou não se desvia para o lado com suficiente rapidez. Recorrendo à arrogância e à displicência como forma de disfarçar incompreensão e ignorância.

Será que, como uma certa opinião pública pouco informada, o investigador e jornalista especializado em assuntos educativos se surpreendeu com o à vontade dos professores da “telescola” no uso dinâmico das novas tecnologias? De tanto ajudar a difundir a patranha dos “professores do século XX”, terá acreditado nela? Ignoraria que os vídeos, os powerpoints, os sons e as animações gráficas há muito que fazem parte da rotina escolar das salas de aula portuguesas?

A verdade é esta: só não fazemos mais e ainda melhor porque a falta de meios e a sobrecarga de turmas e alunos não nos deixa tempo para investirmos tanto como gostaríamos naquilo que gostamos mesmo de fazer: proporcionar aos nossos alunos mais e melhores aprendizagens.

Outra realidade não menos evidente são as ruas da amargura em que vegeta o jornalismo tendencioso do Observador, um projecto político neoliberal que usou o jornal online como barriga de aluguer. Percebe-se que de 2014 para cá os tempos mudaram e as proclamações da seita neoliberal já não encontram hoje a mesma aceitação. E se ontem os “maus professores” eram o inimigo a abater, serão hoje uma potencial clientela que interessa seduzir…

Educação inclusiva… a distância!…

Educação à distância para alunos com necessidades especiais: eis talvez o maior dos problemas suscitados pelo recurso generalizado ao ensino a distância.

A equacionar-se o regresso precoce à escola de algum grupo de alunos, estes deveriam ser prioritários: os que necessitam em absoluto de ensino individualizado ou pequeno grupo, terapia da fala, apoio psicológico e outros. Aqueles que não têm autonomia para estudar sozinhos em casa; os que dependem de estímulos constantes e interacções sociais e afectivas para o desenvolvimento de competências cognitivas e emocionais.

Com tanta retórica ouvida nos últimos anos em torno da inclusão, seria de esperar que estes alunos estivessem na primeira linha da prioridades e preocupações ministeriais. Mas não: pouco ou nada tendo para lhes oferecer, o ME faz o seu número habitual de dar “orientações” às escolas para que façam e aconteçam. O documento, publicado no site da DGE, é vago e omisso no essencial, que seria garantir a educação inclusiva mesmo em tempo de confinamento social. Em contrapartida, deixa um sério caderno de encargos ao cuidado das EMAEI…

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Subitamente, e numa chocante inversão de prioridades, parece que só os alunos que têm exames finais no horizonte são dignos dos esforços ministeriais no sentido de garantir que aprendem alguma coisa e de que essas aprendizagens serão efectivamente avaliadas. Paradoxalmente, estamos a falar dos alunos que à partida melhor se poderiam desenrascar sozinhos: porque são mais velhos e porque se encontram na via de ensino mais orientada para o prosseguimento de estudos. De repente, parece que voltámos aos tempos de Nuno Crato: só os exames contam e todos os recursos devem ser mobilizados – no limite, até mesmo a saúde pública pode ser posta em risco – para os “salvar”…

Ensino a distância… pelo correio?

pombo-correio.jpgTípico de um ministério da Educação sem rumo, que tão depressa advoga a “escola do futuro” e a aprendizagem online como, às primeiras dificuldades, se refugia nos sistemas mais lentos e rudimentares de comunicação à distância. Não quererão, tendo em conta os riscos de contágio para os carteiros, escuteiros ou funcionários da Junta, regressar ao tempo dos pombos-correio e dos sinais de fumo?

Quanto à Confap, aparece metida neste programa de entregas e levantamentos ao domicílio apenas para fazer o jeito ao Governo, ou acreditam mesmo que é respondendo a umas fichas sobre matérias não trabalhadas pedagogicamente que os alunos “atingem os objectivos previstos” para um ano lectivo cuja conclusão está irremediavelmente comprometida?

Se o objectivo é mesmo o ensino a distância e se é apenas uma pequena minoria, como se insinua, que não tem acesso a um computador com internet, que tal fornecer estes aparelhos aos alunos que deles necessitam? Exigir às operadoras do 3G, do 4G, do 5G e mais além, uma cobertura decente de todo o país, e não apenas das cidades e dos itinerários principais? Claro, custa dinheiro e dá trabalho. E não se consegue empurrar para a “descentralização de competências”, a “autonomia das escolas” e o “mais trabalho dos professores”…

O Governo sugere às escolas que recorram aos carteiros para entregar fichas e trabalhos de casa aos alunos sem acesso às aulas à distância, devido à pandemia Covid-19, e que peçam ajuda a voluntários, professores reformados ou escuteiros.

Desde segunda-feira que as escolas estão encerradas para tentar conter a disseminação do novo coronavírus e mais de dois milhões de crianças e jovens — da creche ao ensino superior — estão em casa, a aprender através do ensino à distância. No entanto, como um em cada cinco alunos não tem computador em casa e 5% das famílias com crianças até aos 15 anos não tem Internet, o Governo criou um conjunto de soluções que vai apresentar às escolas para tentar minimizar o problema.

“As escolas e os professores têm, naturalmente, sentido constrangimentos em garantir o contacto com os alunos especialmente carenciados ou vulneráveis”, reconhece o Ministério da Educação em comunicado, sublinhando que este problema é “um dos principais focos de preocupação” da tutela. Para manter o contacto e o apoio aos alunos com maior risco de exclusão social, o Governo sugere aos diretores de turma e outros professores que sinalizem os alunos sem acesso às aulas, os que não participam ou que estão a participar pouco nas atividades propostas.

Também os agentes do Programa Escola Segura (EPES) são chamados a intervir para continuar o seu trabalho de proximidade com os estudantes, fazendo a articulação entre a escola e os alunos, mas também dando apoio domiciliário.

O Governo propõe ainda às escolas que, em caso de necessidade, se articulem com os CTT para que este serviço possa “entregar e levantar as fichas de apoio e os trabalhos ao domicílio”, lê-se no comunicado enviado hoje pelo ME. Segundo a Confederação das Associações de Pais e Encarregados de Educação (Confap), já há alunos cujas famílias têm mais dificuldade no acesso ‘online’ que estão a levantar os trabalhos da escola em papel.

Sosseguem o espírito… e lavem as mãos!…

person washing hands

Assim como tantos políticos responsáveis lavam as mãos em vez de assumirem as suas responsabilidades, também nós, professores, devemos esforçar-nos por perder esta mania de que vamos endireitar o mundo, assumindo tarefas e obrigações que vão muito além do que podemos e devemos fazer.

Exprime-o muito bem Duarte Gonçalves, num grupo público de professores no Facebook, em texto que publico com a devida vénia…

Muitos de vós devem ter COVID-19.
Como sei?
Bem… Estão com febre alta. Nos últimos 3 dias tem sido um autêntico delírio coletivo pelo teletrabalho, ensino à distância, e-learning e comp.a lda que até faz aflição.
Ainda nem a Dgeste sabe muito bem o que fazer (a não ser emitir umas orientações vagas), e vocês já andam feitos baratinhas tontas a inventar tudo e mais alguma coisa… para alunos que nalguns casos não dispõem de meios e outros que não têm interesse.
Sosseguem o espírito por uns dias. Façam como fez (faz) o governo e vejam no que vai dar. Já toda a gente percebeu que o ano letivo “ardeu”. E ninguém é ingénuo a ponto de pensar que passaremos de currículos estruturados para currículos do “salve-se quem puder”.
Acreditam mesmo que um sistema de ensino cheio de objetivos e metas e aprendizagens essenciais e tretas vai passar a ser feito por ferramentas interativas do dia para a noite???
Esqueçam lá isso. O que estão a pedir é que procurem manter os vossos alunos ocupados. Apenas isso.
Aliás, esta modalidade de ensino até tem a desvantagem de cavar um fosso ainda maior entre os alunos de estratos sócio-económicos díspares.

Lavem as mãos.

Diz que agora é tudo pela net…

dge-apoio

Com os alunos sem aulas, a DGE não perdeu tempo e criou um site de apoio às escolas e aos professores, para que estes se aventurem no mundo do ensino a distância. Recheado de ideias, umas práticas e viáveis na maioria dos contextos, outras nem tanto, o site elenca uma quantidade apreciável de ferramentas e recursos disponíveis online.

Na realidade, criar uma rede de aprendizagem online em meia dúzia de dias, em muitos casos a partir do zero, é tarefa quase impossível. Claro que, quando já se usavam determinados programas e plataformas como complemento do trabalho das aulas, será agora uma questão de dar a esses meios um maior protagonismo no processo educativo. Quando os alunos têm computador em casa com acesso à internet e dominam a tecnologia, o isolamento forçado imposto pelo novo coronavírus pode ser uma oportunidade para desenvolver as tão faladas competências digitais.

No resto, podemos dar as voltas que quisermos, que a realidade não deixará de ser o que é: subsistem fortes assimetrias no acesso às tecnologias de informação por parte dos nossos alunos. Com todos os defeitos que é agora moda apontar-se-lhe, a escola pública é o local onde essas diferenças mais se conseguem atenuar ou anular. A escola coloca todos os alunos em pé de igualdade. Idealmente ela deve dar mais, não a quem mais tem, mas a quem mais precisa.

Nesta perspectiva, substituir o ensino presencial por aprendizagens online implica cavar o fosso educativo entre os que dispõem de acesso facilitado às tecnologias e aqueles que o não têm. Antes de embarcar nas promessas sedutoras dos “acessos grátis” e dos “programas gratuitos”, que escondem negócios de milhões em torno do que passa por ser a “educação do século XXI”, convém termos sempre presente esta realidade.

Saliente-se ainda que, para quem tanto pregou a favor da escola inclusiva, há demasiada incoerência neste súbito interesse em plataformas e recursos que irão excluir boa parte dos alunos, em grande medida aqueles que já estão à partida entre os mais fracos e necessitados.

A propósito dos “chumbos”

chumbo_2_1_1_1_1_1_1_1_1_1_1_1Só um em cada cinco alunos carenciados não chumba até ao 9º ano

O título é apelativo e a realidade que retrata é incontornável: os alunos pobres reprovam mais. Contudo, a forma como se usam os números tende a distorcer a realidade. Os alunos que estão agora no secundário e que fornecem a base destas estatísticas enfrentaram uma realidade, ao nível do ensino básico, que já não é a dos nossos dias. Pois tem havido uma descida lenta, mas consistente, das taxas de retenção em todos os níveis de ensino.

Contudo, sempre que acusa a escola de fazer muito pouco para ajudar os seus alunos a superar as carências materiais e culturais do seu meio de origem, como se os professores os “chumbassem” por serem pobres e não por não terem aprendido, é pertinente devolver a questão: se estes alunos passarem de ano, deixam de ser carenciados?

Pretendemos mesmo combater todas a pobreza a todos os níveis –  material, mental e cultural – ou queremos apenas que a escola produza um simulacro de sucesso que nos permita dizer que o sistema funciona? Ou seja, que conseguimos eliminar na escola as desigualdades e as injustiças de base, o que nos permite não ter de o fazer na sociedade?

Pois não basta notar que Portugal é dos países em que a correlação entre pobreza e insucesso escolar é mais forte e evidente. Deve-se notar que o nosso país continua a ser, no mundo desenvolvido, um dos que regista desigualdades sociais mais profundas e persistentes. E que pouco ou nada vai fazendo para as atenuar.

Num país que continua a premiar uma elite empresarial e política corrupta e incompetente, a ser complacente com a precariedade laboral e os baixos salários, a promover o emprego pouco qualificado e a fazer do turismo a principal indústria nacional, muito pouco está a ser feito para que o aumento da escolarização das novas gerações propicie a desejada mobilidade social, por falta de emprego qualificado.

É possível criar uma escola de sucesso, mais justa, igualitária, inclusiva e democrática, quando a sociedade o não é?…