“Ouvir a voz dos alunos” – outra vez arroz?

A notícia é do início da semana, mas só hoje dei por ela. Claramente desorientado – os manuais eduqueses não trazem receitas para tempos de pandemia e o tema também não terá sido abordado nos mestrados de Boston dos anos 80, o ambiente mental em que os seus conselheiros parecem ter cristalizado – o SE João Costa esboça os planos da pólvora para o desconfinamento escolar e a necessária “recuperação das aprendizagens”.

Mais confuso e delirante do que o habitual num seguidor da tradição de picaretas falantes que o PS gosta de recrutar para os seus governos, João Costa tropeça nas ideias e nas palavras e vai dizendo um disparate atrás do outro. A primeira reacção, perante a ideia de ouvir vozes dos alunos, que já serviu para abrir caminho ao desastre da flexibilidade curricular, é inevitável: outra vez arroz?

Recomenda assim, para começar, umas sessões de psicoterapia grupal: “Ouvir a voz dos alunos, ouvi-los muito e pôr toda a escola a ouvi-los.” Serão então precisos mais psicólogos nas escolas? Talvez não, que fica caro. O SE recomenda “intervenção comunitária”, coisa mais simples e que se faz com a prata da casa. Ou nem sequer se faz, mas diz-se – e escreve-se! – que se fez.

Depois, sugere desenvolver programas em contexto escolar centrados no Plano Nacional das Artes e no Plano Nacional do Cinema, reconhecendo aparentemente a importância que uma área que foi das maiores vítimas da flexibilidade curricular dos seus governos.

Também admite que “os alunos em situação mais vulnerável ficaram ainda mais vulneráveis”, mas depois sai-se com esta enormidade: “despejar mais aulas em cima dos alunos é contraproducente”. Quer, aparentemente, recuperar aprendizagens – “Temos de saber o que foi perdido e rever o que não pode mesmo ficar para trás.” – mas pretende fazê-lo com menos aulas e muita psicoterapia, arte e sessões de cinema…

No fim, confirma-se o que é evidente desde o início: o ministro-de-facto da Educação não tem respostas concretas para os problemas reais vividos nas escolas. Quer condicionar o trabalho que terá de ser feito com os alunos mas na verdade não sabe o que fazer. Segue a linha a que já nos habituou, a de não se responsabilizar por coisa alguma, sacudindo a água do capote e para cima da “autonomia das escolas”, que como se sabe tem as costas largas. Se alguém tiver de escorregar na casca de banana, o ministro Tiago que se chegue à frente, que o seu secretário prefere resguardar-se nos bastidores. Fica-nos uma certeza: do que nisto tudo correr mal, e no que não se puder culpar o vírus, a culpa sobrará, uma vez mais, para as escolas e os professores.

Bazuca educativa: as recomendações do CNE

O Conselho Nacional de Educação (CNE) considera que é necessário adaptar os currículos e as formas de ensino “aos novos paradigmas da sociedade do conhecimento e da informação” e que a Reforma Digital deve apontar para a produção de novos conteúdos e não apenas a sua digitalização. Todas estas mudanças devem ser acompanhadas da formação e acompanhamento técnico e pedagógico dos professores.

No parecer que foi pedido pelo Governo, no âmbito da discussão pública do Plano de Recuperação e Resiliência, o CNE diz que o PRR dedica uma atenção especial à transição digital na educação, mas há que ter em conta as especificidades de cada região do país, do meio socio económico em que as escolas se inserem porque é sabido que há ainda muita falta de meios tecnológicos.

O conselho Nacional de Educação quer ainda que em todas as escolas do ensino básico e secundário se promova o ensino em áreas STEAM (Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), apetrechando os estabelecimentos de ensino com os recursos base necessários.

O conselho Nacional de Educação considera ainda essencial valorizar nos currículos a dimensão criativa, artística, humanista e desportiva.

Ouvido acerca da forma como poderão ser investidas, no sector educativo, algumas verbas da bazuca europeia que venham a estar disponíveis, o CNE não conseguiu sair do discurso redondo e politicamente correcto que tem enquadrado as políticas educativas das últimas décadas. E que vão permitindo a cada Governo, prosseguir a sua política, tantas vezes em clara contradição com os elevados princípios invocados nestes documentos orientadores.

E, no entanto, não é preciso uma leitura muito cuidadosa ou demorada para perceber a fragilidade em que assentam as recomendações do CNE. Começando pela conversa da treta em torno de “paradigmas” não identificados, chega-se à ideia de que são precisos novos conteúdos e não apenas a digitalização dos existentes. Mas conjugando isto com a noção generalizada de que os currículos actuais já são demasiado extensos, há uma questão que não pode deixar de se colocar: que conteúdos velhos é que se tiram para colocar os novos? Mais: o novo, apenas porque é novidade, é mais importante do que o antigo? Num mundo em mudança acelerada – embora por vezes com surpreendentes retrocessos, e aí está a pandemia a lembrar-nos disso todos os dias – é mais importante o adquirir o conhecimento utilitário e instrumental dos dias de hoje, que estará ultrapassado daqui a meia dúzia de anos, ou os conhecimentos e competências de base, estruturantes, que, esses sim, nos permitirão continuar a aprender pela vida fora?

No resto, segue-se uma lógica semelhante: seguindo a agenda educativa das multinacionais da educação, propõe-se a promoção das áreas científicas. Mas, ao mesmo tempo, o reforço das artes, humanidades e desporto. Em que ficamos, então? Aumentamos ainda mais os horários lectivos que já tendem a ser, sobretudo no ensino básico, demasiado extensos? O parecer do CNE alimenta o equívoco de que é possível dar tudo a todos, quando na verdade em Educação, como em quase tudo na vida, existem custos de oportunidade: se opto por fazer uma coisa, deixo de fazer outra. O grande risco dos experimentalismos curriculares permanentes, insensatos, mal concebidos e pior avaliados, é o da degradação da qualidade do serviço educativo, substituindo o conhecimento sólido e estruturado das disciplinas clássicas por vacuidades e modernidades sem substância.

O CNE pronunciou-se ainda sobre a previsível falta de professores a médio prazo, mas também aqui não foi capaz de ir além de formulações genéricas acerca de reformas no sistema de formação inicial e de, não se percebe bem por que artes mágicas, reforçar a atractividade da profissão junto dos jovens. Também aqui falham o alvo, pois não é por criar mais cursos de formação inicial de docentes, que já hoje estão quase às moscas, que se conseguem mais candidatos à profissão.

O desafio joga-se, como não é difícil de compreender, na melhoria substancial das condições de acesso à profissão, acabando com a precariedade extrema a que se condenam os jovens professores e tornando a profissão mais atractiva. A um outro nível, recrutar e manter um corpo docente motivado e qualificado passa igualmente por valorizar e dignificar a carreira e a profissão. Em poucas palavras, respeitar os professores: uma atitude que deveria partir de cima mas que tem estado sistematicamente ausente do discurso e da acção dos responsáveis educativos. E que, infelizmente, também não tenho descortinado na converseta da presidente do CNE.

Rui Ferreira – Sobre o projecto MAIA

Permitam-me o contraditório face ao último grito pedagógico que dizem vir revolucionar a Educação em Portugal, o projeto de adesão voluntária denominado MAIA, concretamente sobre uma pequena parte retirada do documento com o nome Folha # Aprender Melhor com Políticas de Classificação Mais Transparentes e Consistentes, da autoria do Senhor Professor Catedrático do ISCTE-IUL, Domingos Fernandes.

(…) Estamos, como acima já se mencionou, perante a orientação que, numa variedade de circunstâncias e documentos escolares, tem sido designada como 80% cognitivo e 20% não cognitivo (ou com outras percentagens) e que, por qualquer razão, se enraizou no nosso sistema escolar como sendo critérios de avaliação e com base nos quais os alunos têm sido classificados. Não estamos, obviamente, perante critérios de avaliação mas antes perante um algoritmo para determinar classificações. E este equívoco parece decorrer do facto de se considerar que avaliação e classificação são conceitos indistintos e também do facto de o conceito de critério de avaliação poder não estar devidamente clarificado.” (p. 10)

Partindo do que aqui se convencionou designar por 80% Cognitivo e 20% Não Cognitivo, várias são as questões que se podem formular. Destacam-se a seguir algumas que deverão merecer a atenção dos órgãos próprios dos Agrupamentos/Escolas Não Agrupadas (AE/ENA) e, em geral, dos seus docentes”. (p. 11)

Espanta-me, sendo professor de uma instituição de ensino superior prestigiada, o ISCTE, cuja oferta educativa apresenta 17 licenciaturas, 58 mestrados e 18 doutoramentos, nenhum deles associado diretamente aos cursos via ensino, pasme-se, se sinta perfeitamente conhecedor da instituição escola e com autoridade profissional para sugerir orientações a professores com uma vasta experiência, alguns deles de igual grau académico e com atividade pedagógica na formação inicial de professores.

Em primeiro lugar o autor não faz a mais pequena ideia do trabalho que as escolas desenvolvem no âmbito da avaliação, tantas são as incongruências, omissões, ignorâncias e meias-verdades veiculadas em mais de uma dezena de documentos por ele produzidos ou coordenados. Não sabe o autor, ou pretende omitir, que o algoritmo 80% Cognitivo e 20% Não Cognitivo que atribui à escola (nunca, em tantos anos de serviço na escola, observei tal vocabulário) corresponde a dois núcleos categoriais que se subdividem noutras parcelas acompanhadas de descritores com ponderações atribuídas. Proponho ao autor a leitura do estipulado no artigo 18.º (critérios de avaliação) da Portaria n.º 223-A/2018, de 3 de agosto, para o ensino básico, e, para o ensino secundário, no seu artigo 20.º, com semelhante redação, na Portaria n.º 226-A/2018, de 7 de agosto.

Em segundo lugar, com as devidas diferenças relativamente à natureza dos percursos formativos e respetivas populações alvo, o autor sempre poderá intervir começando pela sua própria instituição. Não deixa de ser paradigmático vê-lo a caracterizar como um equívoco o algoritmo 80% Cognitivo e 20% Não Cognitivo encontrado, diz, numa escola, quando na sua instituição se verifica, a exemplo, 80% Frequência e 20% Participação (outras com diferenças mínimas), em todas as fichas de unidades curriculares (centenas), sem exceção (ver aqui https://www.iscte-iul.pt/).

Equivocado parece estar o autor por dirimir sobre uma matéria que desconhece. Como docente universitário, ainda mais um Professor Catedrático, parece não ter entendido um dos ditames maiores da Academia, aquele que refere o dever de guardar reserva sobre o que ignora e sobre o qual não arrecada uma efetiva experiência profissional.

Rui Manuel Fernandes Ferreira

Imbróglios da semestralidade

…há por aí “escolas” a exigirem que os senhores professores que leccionam disciplinas semestrais divulguem, agora, junto dos encarregados de educação, por escrito, propostas de níveis das disciplinas que agora terminam, não ratificadas pelos respectivos conselhos de turma para posteriormente, lá para Junho previsivelmente, divulgarem as notas finais já ratificadas… e que podem muito bem não ser coincidentes?!!!

Digam-me que não, sim?

Digam-me que isto não está a acontecer…

Anabela Magalhães alerta para uma situação delicada que a aplicação à letra dos normativos sobre avaliação, conjugada com uma organização curricular feita cada vez mais ao sabor das “autonomias de escola” – ou do arbítrio de quem localmente as vai reinventando – está a criar: a divulgação, aos encarregados de educação, de propostas de avaliação não ratificadas pelo conselho de turma.

As regras de avaliação em vigor para as disciplinas semestrais sempre previram esta situação: os alunos que concluem a disciplina a meio do ano são avaliados em conselhos de turma reunidos para o efeito; contudo, as notas ficam “suspensas”, sendo apenas atribuídas no terceiro período, quando é feita a avaliação final nas restantes disciplinas. E nada impede o conselho de turma de alterar a nota anteriormente atribuída se tiver motivos para isso.

O problema é que a Portaria n.º 223-A/2018, depois de confirmar os procedimentos já referidos, determina também o seguinte, no seu artigo 22.º:

6 – Na organização de funcionamento de disciplinas diversa da anual não pode resultar uma diminuição do reporte aos alunos e encarregados de educação sobre a avaliação das aprendizagens, devendo ser garantida, pelo menos, uma vez durante o período adotado e, no final do mesmo, uma apreciação sobre a evolução das aprendizagens, incluindo as áreas a melhorar ou a consolidar, sempre que aplicável, a incluir na ficha de registo de avaliação.

A interpretação, em algumas escolas, é que a avaliação quantitativa feita no final do semestre deve ser dada a conhecer ao encarregado de educação. Uma leitura que me parece redutora e abusiva: o que a lei sugere é uma apreciação qualitativa sobre o desempenho do aluno, não a atribuição de um nível ou classificação.

Claro que, na prática, é mais fácil dizer aos pais a nota que os filhos tiveram e que é o que verdadeiramente lhes interessa, do que elaborar sínteses descritivas das aprendizagens dos alunos. E a questão tenderá a colocar-se com maior frequência à medida que as escolas, encorajadas pelo ME, forem adoptando a semestralidade num número crescente de disciplinas.

O imbróglio, a juntar a muitos que a burocracia ministerial vai inventando, como se as escolas não tivessem já suficientes problemas sérios a resolver, provavelmente só tem uma solução lógica: se o objectivo é insistir na semestralidade, então generalize-se a todas as escolas o regime de avaliação também semestral, que neste momento apenas pode ser adoptado sob a égide dos chamados Planos de Inovação.

Ponham a bota a rimar com a perdigota…

Escolas serão as primeiras a abrir, diz o ministro

“Durante esta semana iremos conhecer calendário escolar. A reunião com peritos de saúde pública vai dar-nos alguma luz da janela temporal. Temos de dar estabilidade à família e aos alunos, mas também temos de nos acautelar”, afirmou Tiago Brandão Rodrigues na manhã desta segunda-feira no Fórum TSF.

O ministro da Educação referiu ainda que as escolas terão de ser as primeiras a abrir logo que possível. “As escolas foram as últimas a fechar, têm de ser das primeiras infra-estruturas a abrir, a começar pelos mais novos, que têm mais dificuldades em lidar com os meios tecnológicos”, referiu.

Durante o programa, o governante frisou por várias vezes que o ensino online não deve ser normalizado e que a sala de aula continua a ser o local privilegiado para o ensino.

Reaparecido esta manhã, o ministro da Educação esteve na rádio a insistir, com o seu discurso patusco e por vezes patético, naquilo que o seu ministério sabe fazer melhor: alijar responsabilidades próprias e aproveitar-se de autonomias e boas vontades alheias para lançar o descrédito e a culpa para outros lados.

Afinal de contas, foi o governo falhou clamorosamente na aquisição de computadores e acessos à internet. Os cem mil que chegaram, tarde e a más horas, apenas cobrem uma pequena parte das necessidades. No resto, fica-se à espera que as escolas e autarquias “encontrem soluções”. Mas então se é assim que o problema se resolve, porque não disponibilizaram localmente as verbas necessárias em vez de apostarem no centralismo burocrático e ineficiente dos grandes concursos públicos?

No resto, nota-se um preconceito contra os computadores que é algo estranho num ministério que ainda há pouco tempo embarcava irresponsavelmente nas teorias do “conhecimento na palma da mão” e na imersão tecnológica das “salas de aula do futuro”. O desencanto chegou porque descobriram agora que a tecnologia custa muito dinheiro, ou perceberam finalmente que nenhum computador ou programa de aprendizagem automática substitui a presença física do professor? Se assim é, tarda o reconhecimento e a valorização destes profissionais e de uma profissão tão maltratada por sucessivos governos, socialistas e não só.

Pensamento do dia

Os que nos garantiam que o fecho das escolas por um mês ou dois vai causar danos irreparáveis às novas gerações são os mesmos que, antes, nos convenciam de que a aprendizagem será feita, no futuro, ao longo de toda a vida.

Agora que estamos confinados sem alternativa, irão redescobrir as virtudes da escola digital…

Ninguém proibiu o ensino online?…

A suspensão da escola durante 15 dias terminará no dia 8 de fevereiro e António Costa não acredita que, na altura, os alunos possam voltar às salas de aula. “Não estaremos perto de poder regressar ao ensino presencial. Devemos retomar o ensino online”, disse o primeiro-ministro, na noite desta quarta-feira, no programa da “TVI24” Circulatura do Quadrado.

Ainda no debate, António Costa negou que o Ministério da Educação tenha proibido os colégios privados de continuar a dar aulas, durante os 15 dias de interrupção. “Ninguém proibiu ninguém de ter ensino online”, afirmou. Os colégios privados quiseram continuar a dar aulas pela internet, mas, de acordo com a Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), o decreto do Governo é claro: “Determina a suspensão das atividades letivas, não podemos fazer aulas online”, disse ao JN o diretor executivo, Rodrigo Queirós e Melo, no dia 22 de janeiro.

Na entrevista à TVI24, António Costa reconheceu o óbvio – não haverá condições, a 8 de Fevereiro, para retomar as aulas presenciais. Demasiado tempo protelada, a opção pelo ensino à distância será, nos tempos mais próximos, a solução possível para que os alunos continuem a aprender.

Quanto às aulas pela internet que alguns colégios quiseram antecipar, há alguma desfaçatez no discurso de António Costa, e basta ler o decreto publicado para perceber que a suspensão das aulas se aplica, sem margem para dúvidas, a todas as escolas.

No entanto, vendo as coisas de outra perspectiva, Costa não deixa, até certo ponto, de ter alguma razão. De facto, não foi ele que, enquanto chefe do Governo, proibiu as escolas privadas de avançarem de imediato para o ensino online. Tiago Brandão Rodrigues assumiu esse papel, explicitando claramente que a lei é igual para todas as escolas. E aí está uma razão que explica porque é que, mesmo sendo a nulidade que é, este ministro continua com lugar cativo no Governo…

Esta é uma interrupção letiva para todos. Eu tenho muito respeito pelo ensino particular e cooperativo, mas o ensino particular e cooperativo não são as nossas universidades e institutos politécnicos, com o grau de autonomia que têm”, sublinhou o governante, quando questionado sobre a possibilidade de os estabelecimentos fora da rede pública continuarem com o ensino à distância durante as próximas duas semanas.

“Este ziguezaguear, espreitar sempre a exceção ou tentar fazer diferente é o que nos tem causado tantos problemas em termos societais. O cumprimento estrito das regras é algo que deve acontecer. Todas as atividades letivas estão interrompidas durante este período“, insistiu o ministro, em declarações aos jornalistas.

E daqui a 15 dias?

Todos os estabelecimentos de ensino estarão encerrados nas próximas duas semanas. A pergunta para a qual todos os responsáveis do sector procuram agora resposta é outra: o que acontece depois destes 15 dias? O Governo não antecipa cenários, mas as associações de directores e a Confederação das Associações de Pais (Confap) concordam que o regresso às aulas presenciais deve ser faseado, dando prioridade aos alunos mais novos.

A opção tomada pelo Governo era a que tinha sido defendida pelos representantes dos pais nos últimos dias. É uma “boa solução para serenar os ânimos e ganhar forças”, sintetiza o presidente da Confap, Jorge Ascenção. A proposta que a associação fez chegar ao Ministério da Educação apontava também para um retorno gradual dos alunos às escolas. Um regresso de todos os estudantes seria “precipitado”, defendem.

Os representantes dos directores concordam com a ideia, antecipando que dentro de duas semanas “dificilmente existirão condições sanitárias” para voltar a uma situação semelhante à desta semana, afirma Filinto Lima da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas.

O cenário “ideal” para a Confap seria o regresso dos alunos do 1.º e 2.º ciclo às aulas presenciais a partir de 8 de Fevereiro. Os colegas mais velhos, do 3.º ciclo e do ensino secundário, mantêm-se em ensino à distância por mais algum tempo. Caso a evolução da pandemia não o permita, terá que haver “uma nova alteração ao calendário lectivo”, defende Jorge Ascenção.

A notícia do Público de ontem é duplamente reveladora. De onde saiu a brilhante ideia de parar o ano lectivo, introduzindo duas semanas de férias forçadas e confinadas e obrigando as escolas a compensar as aulas que o ME as proíbe de dar com o sacrifício das férias escolares? A Confap, demonstrando uma vez mais ter uma visão muito tendenciosa e limitada do quotidiano escolar, apresenta-se como a principal suspeita. A organização de pais não esconde o seu contentamento nem a influência que continua a ter nos bastidores ministeriais.

Por outro lado, a pseudo-solução encontrada, não só quebra o ritmo das aprendizagens e complica a gestão do calendário escolar, como se limita a adiar o problema que agora não se quis enfrentar: ninguém acredita que daqui a duas semanas os números alarmantes da pandemia tenham descido substancialmente, ao ponto de permitir o regresso seguro às aulas. A opção pelo ensino à distância, que agora não se quis assumir, surgirá nessa altura como uma necessidade incontornável, pelo menos para os alunos mais velhos.

Será então altura de os arautos governamentais que agora glorificam a escola presencial descobrirem, uma vez mais, as maravilhas do ensino remoto e do novo mundo digital…

As férias que ninguém pediu

O primeiro-ministro anunciou que as creches, os ATL, as escolas e as universidades vão fechar durante 15 dias a partir de sexta-feira. O encerramento de todos os níveis de ensino será, na prática, um período de férias que será compensado com aulas em dias de outros períodos de descanso previstos no calendário escolar. Não haverá ensino à distância durante estes 15 dias, ao contrário do que aconteceu em Março do ano passado, no primeiro confinamento. 

Apesar de “todo o esforço extraordinário que as escolas fizeram” para poderem dar aulas presenciais, “manda o princípio da precaução” suspender as actividades lectivas durante 15 dias, disse o primeiro-ministro, esta quinta-feira, após reunião do Conselho de Ministros.

Costa justificou o recuo do Governo na decisão de não fechar as escolas com a nova estirpe do coronavírus primeiramente identificada no Reino Unido, que é mais transmissível. 

A decisão de decretar quinze dias de férias – que nem alunos, pais, professores ou directores pediram e que não fazem qualquer sentido – surpreendeu o mundo da educação. A medida, inédita e absurda, demonstra bem o quanto este governo desconhece a realidade do sector e permanece alheado dos reais interesses e necessidades de quem estuda e trabalha nas escolas.

Um governo e um ministério da Educação que nem a eles próprios se levam a sério. Pois é ou não verdade que ordenaram às escolas que preparassem, além do plano normal de reabertura das aulas, dois outros planos alternativos, um para o regime semi-presencial e outro para o ensino à distância? Para que andámos então a perder tempo a planear, a mobilizar recursos, a montar plataformas de aprendizagem online, a fazer formação adequada, se afinal a única modalidade de ensino que se considera adequada é a escola 100% presencial?

Mais: que sentido faz, do ponto de vista pedagógico, uma paragem forçada ao fim de três semanas incompletas de aulas, quebrando completamente o ritmo de trabalho escolar, para regressar, se tudo correr como esperado, uma semana antes do Carnaval? Sabemos que o ensino à distância tem muitas limitações e não chega a todos os alunos da mesma forma, mas a verdade é que uma noção fundamental que esteve sempre presente no primeiro confinamento, a necessidade de manter o contacto com a escola e entre os alunos num período de isolamento forçado e em muitos casos deprimente, é agora completamente descartada.

Decretam-se assim férias a destempo e sem que as crianças e jovens, confinados, possam usufruir delas como desejariam. E impõe-se desde já a condição de que estes dias de descanso terão de ser compensados com a redução das pausas previstas no calendário escolar. Como e de que forma é o que iremos ver, pois os períodos lectivos já tinham sido este ano esticados ao máximo para contemplar a famosa “recuperação de aprendizagens”.

Tudo isto lança a dúvida, inteiramente legítima sobre a bondade das intenções em torno da propagandeada transição digital. Apesar dos incontáveis milhões que se vão anunciando para o projecto e da experiência adquirida no ano lectivo anterior com o ensino à distância, percebe-se que o governo não confia nem nas virtudes da tecnologia nem nas capacidades dos professores para implementar uma alternativa viável, ainda que temporária, às aulas presenciais. Para que servem então estes projectos, onde se continua a torrar o dinheiro europeu em negociatas e formações de interesse e utilidade duvidosa, se na hora da verdade nada disto se considera exequível?

Tendo o governo de emendar a mão, a elevada transmissibilidade da variante britânica do novo coronavírus serviu de pretexto para corrigir a teimosia perigosa que era insistir em manter as escolas abertas. Mas a precipitação e insensatez com que se decidiu levou a que se corrigisse um erro com outro erro, numa sucessão de asneiras desastrosa e preocupante.

Vêm aí os testes rápidos nas escolas

Pressionado pelos números alarmantes, o Governo decidiu finalmente aplicar, quase de um dia para o outro, os testes que anda a prometer desde Novembro.

Mas, perante o que soube há pouco, tenho dúvidas de que tudo isto esteja a ser pensado com o mínimo de discernimento…

Escola básica e secundária, com alunos do 5.º ao 12.º ano. Só irão ser testados os alunos e professores das turmas do secundário.

Acrescente-se que, face ao reduzido número de turmas de ensino secundário, a maioria dos professores que as tem lecciona igualmente o 3.º ciclo. E que os alunos, sejam do básico ou do secundário, compartilham os transportes escolares, a cantina e outros espaços comuns.

Afinal de contas, fazem-se os testes para perceber o que realmente se passa nas escolas, ou andamos a brincar? Queremos conhecer melhor a situação nas escolas para tomar medidas mais acertadas, ou fazemos testes para confirmar o que achamos que já sabemos?

Isto tem algum jeito?…