Educação Tecnológica: a morte anunciada

homo-tecno.jpgA maioria dos grupos de recrutamento de professores vão perder mais de metade dos docentes de quadro até 2030. A disciplina de Educação Tecnológica (ET) pode desaparecer com a aposentação de 96% dos docentes.

“É uma morte anunciada”, assume Carlos Gomes, presidente da Associação de Professores de Educação Visual e Tecnológica (APVET). A Educação Tecnológica deixou de ser disciplina obrigatória no 3.º ciclo e passou a ser oferta de escola. “É um grupo praticamente extinto. Só resistem os mais antigos”, afirma, frisando que “não há uma única universidade ou politécnico que ainda forme professores para este grupo”.

Não deixa de ser irónico, e certamente lastimável, que quando o futuro se anuncia como cada vez mais tecnológico, o ensino da tecnologia tenha, graças às reformas da flexibilidade, desaparecido do currículo oficial. E se nalguns casos subsiste como oferta local, também essa deverá desaparecer com a aposentação dos poucos professores da disciplina.

Na cabeça dos ideólogos do admirável novo mundo tecnológico, a única tecnologia relevante é a que funciona a passar os dedos pelos ecrãs. Ou, quando muito, a premir umas teclas ou botões. Perceber como funcionam as maquinetas lá por dentro será, nesta linha de pensamento, um saber excessivamente esotérico ou, quiçá, demasiado aborrecido. E agarrar na ferramenta para abrir o aparelho e substituir um componente será, certamente, tarefa para “práticos rasteiros”, não para os príncipes e princesas do novo mundo, nativos digitais talentosos, críticos e criativos, mas de mãozinhas delicadas…

Ironicamente, a Educação Tecnológica foi, em muitas escolas, a primeira disciplina em que se começou a desenvolver, de forma sistemática e organizada, o trabalho de projecto. Em que se trabalhava, em simultâneo, a aquisição de conhecimentos e competências e o desenvolvimento, nas suas diversas fases, de um projecto tecnológico. Uma disciplina pioneira naquilo que agora é apresentado como inovação pedagógica, mas para a qual, pelos vistos, não se encontra lugar na escola do século XXI…

Os aerodeputados irão viajar menos?

veneza-cheias.JPGParlamento Europeu declara emergência climática

Tirando a parte da discussão semântica – havia quem preferisse invocar a “urgência” em vez da “emergência” na questão climática – a declaração do Parlamento Europeu vale sobretudo como um repto à Comissão Europeia, para que esta desenvolva uma estratégia eficaz de descarbonização da economia europeia, acelerando o cumprimento de metas ambientais progressivamente mais ambiciosas.

Mas a verdade é que estas proclamações solenes soam vazias de sentido quando não vemos os seus proponentes e apoiantes a comprometerem-se, eles próprios, com a redução de emissões a que querem, muito justamente, vincular as economias e os povos europeus. Não custa nada mudar de vida, se a verdadeira mudança começar e acabar nos outros…

Pois sabemos que a vida do típico eurodeputado, com as suas constantes viagens de avião, é claramente a negação do que é ambientalmente sustentável. Pelo que é inteiramente legítimo perguntar o que tencionam fazer os deputados europeus para reduzir a pegada ecológica causada pelos próprios e pela instituição a que pertencem.

A preocupação com as alterações climáticas nunca pode traduzir-se apenas em decisões para os outros cumprirem. Ou em modelos pretensamente ecológicos em que os poluidores compram o direito de continuar a poluir, pagando aos pobres para que plantem árvores ou reduzam emissões em nome deles.

Na verdade, não é por acaso que a jovem Greta Thunberg foi lançada para a linha da frente da guerra pelo clima: é que o seu protagonismo permite que adultos com efectivas responsabilidades nos governos e organizações internacionais se possam resguardar, prosseguindo nas mesmas políticas que conduziram ao desastre ambiental…

Demasiadas horas na creche…

tres-criancas-jogando-blocos_1639-3095Os bebés até aos dois anos deveriam passar apenas as manhãs na creche. O resto do dia deveria ser passado com a família – com os pais ou com os avós, explicou à Lusa Sofia Ramalho, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos (OP).

“Já entre os dois e os três anos o horário pode esticar um bocadinho, entre as quatro a seis horas por dia. Ou seja, o tempo vai aumentando progressivamente consoante vão crescendo”, acrescentou a especialista.

Mas, em Portugal a realidade é outra. Os bebés e crianças passam nas creches e infantários o tempo “equivalente a um dia de trabalho de um adulto”, ou seja, cerca de oito horas diárias.

Em média, as crianças mais pequenas, até aos três anos, passam 39,1 horas por semana nos infantários, creches ou com amas e as mais velhas (com pelo menos três anos) ficam 38,5 horas por semana fora de casa, segundo o relatório “Estado da Educação 2018”, publicado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que fez um retrato do país atual e a evolução na última década.

As crianças em Portugal passam mais dez horas por semana nas creches quando comparadas com a média do resto da Europa. “Estes tempos não são os mais adequados para o desenvolvimento das crianças”, alertou a vice-presidente da OP.

Eis uma notícia que quase faria sentido, não vivêssemos nós no país onde se ganham eleições a prometer “escola a tempo inteiro”. Onde se confunde quantidade com qualidade e se estica o horário escolar – e também o pré-escolar – para o tornar compatível com a reduzida disponibilidade de tempo que os pais têm para estar com os filhos.

A realidade é que temos das mais longas jornadas de trabalho e uma desregulação de horários em actividades como o comércio e alguns serviços que não encontra paralelo noutros países europeus. Mas a discussão dos horários de trabalho continua a ser tabu. Foi significativo o coro de protestos que a reposição das 35 horas na função pública levantou, não para exigir idêntico benefício para o sector privado, mas para reclamar o nivelamento por baixo, nas 40 horas, para todos os trabalhadores.

Por outro lado, nas áreas metropolitanas continua-se a consumir demasiado tempo nas deslocações casa/trabalho, tempo esse que é roubado ao descanso e ao convívio familiar. O desordenamento do território e os fenómenos de gentrificação nas grandes cidades agravam o problema e dificultam a sua resolução. As pausas prolongadas para almoço, ainda comuns nalgumas actividades profissionais, contribuem também para atrasar a hora de saída dos empregos.

Os baixos rendimentos da maioria dos trabalhadores condicionam igualmente as opções familiares, obrigando a que pai e mãe trabalhem a tempo inteiro, não havendo folga financeira para adoptar soluções, comuns noutros países desenvolvidos, como o trabalho em part-time ou as licenças parentais por períodos mais alargados.

Tudo isto redunda em claro prejuízo para as crianças. Por muito boa que seja a creche, infantário ou escola que frequentam, o facto é que nada substitui a presença dos pais e de outros familiares próximos, nem os estímulos que o convívio familiar traz ao desenvolvimento intelectual e emocional dos mais pequenos. Sendo algo que já se sabe há muito tempo, está mais do que na altura de se passar da fase dos “estudos” para a da resolução do problema…

Joacine Abstencionista Moreira

joacineJoacine Katar Moreira veio este sábado explicar por que razão se absteve, no Parlamento, no voto de condenação apresentado pelo PCP contra as ofensivas israelitas em Gaza.

Em comunicado publicado nas redes socais, a deputada do LIVRE assume “toda a responsabilidade” do voto, afirmando que o fez contra o que acrdita.

“Assumo total responsabilidade pelo voto e devo dizer que, apesar de a abstenção não constituir um voto a favor ou um voto contra, ela não representou aquilo que tem sido desde sempre a minha posição pública sobre esta temática. Votei contra a direção de mim mesma”, escreve Joacine Katar Moreira em comunicado, passando a atirar para a direção do partido responsabilidades no caso.

Segundo a deputada, a abstenção no voto de condenação pela “nova agressão israelita a Gaza não se deveu a uma falta de consciência ou descaso desta grave situação, mas à dificuldade de comunicação” entre a própria e a atual direção do Livre, da qual é “parte integrante”.

A abstenção da deputada do LIVRE perante o voto de condenação das agressões do estado de Israel contra o povo palestiniano é, no mínimo, incompreensível.

O tempo que levou a justificar a sua atitude parece indiciar que, ao contrário do que afirmou no início do mandato, além da gaguez física, também sofre de gaguez mental. Não encontro justificação para que um deputado digno do respeito dos seus eleitores precise de “período de reflexão” quando lhe é solicitado que explique o seu sentido de voto.

E a explicação encontrada também não convence. Na falta de reuniões formais, um partido tão moderno estará ainda na idade da pedra comunicacional? Não encontra formas de colocar em contacto directo os seus principais dirigentes? Não usam emails, não têm telemóveis?…

Mesmo admitindo as alegadas “dificuldades de comunicação”, sabe-se que o LIVRE tem, desde a sua fundação, uma posição de clara condenação das agressões e anexações ilegais de Israel contra o povo palestino e favorável à criação do Estado Palestiniano. Se a deputada comunga da mesma posição do seu partido, que dúvidas poderia haver acerca do sentido de voto que se impunha?

Os sucessivos casos em torno de Joacine Katar Moreira evidenciam o que os mais atentos anteciparam desde o início: a sua escolha foi um verdadeiro erro de casting, e não apenas pelas dificuldades de comunicação da deputada: parece mais interessada em fazer de si própria o centro de polémicas e discussões, em vez de usar a tribuna parlamentar para projectar a agenda do seu partido. Mais focada em micro-causas e temas pretensamente fracturantes, explorando até, de forma pouco escrupulosa, o discurso da vitimização, do que nos reais problemas políticos, económicos e sociais do país.

Entre os dirigentes, militantes e votantes do LIVRE, muitos admitem já o seu desapontamento com a deputada que ajudaram a eleger. Se isto é assim já no começo, antevê-se uma relação difícil entre o partido e a única deputada que o representa.

Não é, no entanto, nada que seja inteiramente imerecido. Basta recordar como Rui Tavares, o fundador do LIVRE, usou o mandato eurodeputado eleito na lista do Bloco de Esquerda ao serviço da sua própria agenda política, num processo que começou pelo afastamento do partido que lhe permitiu a eleição e culminou na criação da sua própria força política, rival do BE. Como hoje em dia se vai dizendo por aí, o karma é lixado…

Aulas assistidas, para quê?

observacao-de-sala-de-aula-getty-images.jpgA situação dos professores que neste ano lectivo, por conta da recuperação de tempo de serviço, progridem para o 3.º ou o 5.º escalão, e que andam por estes dias a ter aulas observadas, lembra a velha rábula do Gato Fedorento

– Vais ter aulas assistidas?
– Vou.
– Mas já foste avaliado?
– Fui.
– E a nota das aulas, vai contar para alguma coisa?
– Não.
– Então tens mesmo de as ter?
– Tenho.
– Ou seja, não contam para nada…
– Não!
– Mas têm de se fazer…
– Têm!…

A situação, surreal, é o resultado de duas coisas. Uma é a forma displicente como o ME gere a carreira e as progressões dos professores emitindo, em vez de despachos ou outros normativos, “notas informativas” sem valor legal. O que permite adaptar procedimentos, mas não passar por cima de exigências legalmente previstas, como é o caso de uma observação de aulas que se tornou, no caso destes colegas que já foram avaliados, um “requisito” completamente inútil.

A outra realidade aqui evidenciada é que se continua a dispor, a custo zero, de trabalho suplementar realizado pelos professores que é abusivamente roubado ao seu tempo de descanso ou de trabalho individual. Faz algum sentido obrigar um professor a deslocar-se a outra escola para avaliar o exercício profissional de um colega e a produzir os respectivos registos, sabendo-se que isso não irá influir, como era suposto, na avaliação de desempenho?

Como é evidente, se tivessem de ser pagos os custos reais desta actividade inútil, ela teria sido rapidamente descartada. Mas como se conta que os professores dispensem a sua boa vontade, o seu tempo e mesmo os seus automóveis individuais para realizar estas itinerâncias, a ordem é para que se continue a alimentar a farsa de uma avaliação de desempenho rigorosa e exigente.

O Brexit explicado às criancinhas

unicornio.jpgReino Unido: Nós queremos um unicórnio.
União Europeia: Não existem unicórnios. Mas, em vez disso, podem ter um pónei.
RU: Nós votámos contra o vosso pónei.
UE: Isso já foi mais do que discutido: é o pónei ou nada.
RU: Nós votámos contra o vosso pónei.
UE: Certo! Então não levam nada.
RU: Nós votámos contra o vosso nada.
UE: …Vocês não conseguem mesmo perceber, pois não?
RU: Precisamos de mais tempo para pensar.
UE: Sobre o pónei ou sobre o nada?
RU: Nós queremos um unicórnio.

Texto de autor desconhecido, em partilha pelas redes sociais.

A corrida ao lítio

minas.JPGRaquel Perdigão explicou aos jornalistas que a exploração de lítico acarreta “riscos sociais, económicos e ambientais”, destacando a poluição devido às emissões de CO2 (dióxido de carbono) e de lençóis freáticos e preocupações com “a desflorestação das áreas que poderão sofrer essa extração”.

Os participantes exigem ao Governo e às entidades locais para que repensem os efeitos que a exploração de lítio terá para o país.

Samuel Infante, da associação ambientalista Quercus, entidade que está desde a primeira hora na luta “contra a corrida ao lítio”, disse que a ação realizada na Serra da Estrela serve para dizer que o país “não precisa desta corrida” a esta exploração e existem alternativas de desenvolvimento.

Claro que cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Será certamente irresponsável embarcar às cegas na febre do lítio que a elevada procura deste metal está a gerar a nível mundial. Faz todo o sentido exigir que se respeitem as melhores práticas, compatibilizando a extracção de um recurso natural imprescindível no futuro próximo com a preservação dos solos, da qualidade da água e dos ecossistemas naturais. Mas há uma enorme incoerência quando, em defesa do clima e do ambiente, se advoga a redução progressiva do consumo de energias fósseis e depois se recusa liminarmente, em nome de valores ambientais, qualquer exploração mineira de lítio no nosso território.

A verdade é que a aposta na mobilidade eléctrica implica a produção de milhões de viaturas equipadas com baterias, cujo componente principal é precisamente o lítio. Ora não sendo este elemento químico abundante no planeta, obtê-lo nas quantidades necessárias implicará a abertura de novas explorações mineiras em locais onde se sabe existir o mineral e ser viável a sua extracção.

Claro que aqui entra a clássica contradição que em inglês ganhou um acrónimo apropriado – NIMBY, not in my back yard. Estamos dispostos a aceitar a mineração do lítio, como no passado aceitámos a coincineração, os aterros sanitários, as estações de tratamento de águas residuais ou até os parques eólicos – desde que não seja ao pé da nossa casa.

O discurso do ecologista do século XXI, que não dispensa o telemóvel, o PC portátil e outros gadgets alimentados por baterias de lítio, não se afasta muito dos preceitos do capitalismo clássico e da sua divisão internacional do trabalho. No fundo o que se pretende é que as populações dos países ricos continuem a usufruir dos prodígios da modernidade, sem arcarem com os custos da sua produção. Que nas áfricas e nas ásias se continue a fazer a exploração barata dos recursos de que necessitamos, para que a nossa paisagem e o nosso estilo de vida se possam conservar inalterados.

Obviamente, não defendo a destruição de parques naturais, reservas ecológicas e agrícolas ou geoparques para que se instalem explorações mineiras um pouco por todo o lado. Havendo valores ambientais e culturais a preservar, é evidente que devemos preservar a nossa maior riqueza a longo prazo, que é o património. Mas convenhamos que a maior parte do nosso território, no interior do país, está longe de constituir um recurso viável para fixar e suster a população.

A desertificação humana, o abandono das aldeias e dos campos, a monocultura do eucalipto, o flagelo recorrente dos incêndios, não são de agora, e dão-nos um retrato realista de uma boa parte do nosso espaço rural: solos pobres, relevo montanhoso, falta de acessibilidades e infraestruturas. Em muitos casos, essa mirífica ruralidade que os ecologistas urbanos querem preservar são hoje cabeços pedregosos e escalavrados ou vastas monoculturas de eucalipto. Lixeiras, edifícios em ruínas, sucatas ilegais, construções clandestinas, pedreiras desactivadas: por todo o país temos exemplos de desordenamento do território que poluem o ambiente e desfeiam a paisagem. O que apenas comprova que, mais prejudicial do que as actividades humanas em si mesmas, é a falta de medidas que mitiguem o seu impacto ambiental. E, quando existem, uma fiscalização rigorosa que imponha o seu efectivo cumprimento.

Compatibilizar ambiente com desenvolvimento sustentável, aproveitamento de recursos com a sua preservação: o caminho pode não ser fácil, mas a verdade é que o actual modelo de desenvolvimento também está longe de promover a fixação de pessoas ou a criação de riqueza em muitas terras do interior, que continuam carentes da instalação de actividades que criem emprego e potenciem a economia local. Mais uma boa razão para se perceber que, também na questão da exploração do lítio, são de todo indesejáveis os fundamentalismos – sejam eles num ou noutro sentido.