Professores, incompetentes digitais?

Um estudo pedido pelo Ministério da Educação à Universidade de Aveiro conclui que o nível médio global de competência digital dos professores é baixo e metade não ultrapassa o nível básico.

Os resultados do estudo divulgado esta sexta-feira “apontam para um nível de proficiência médio global correspondente ao nível intermédio B1, que se pode considerar baixo”, com Margarida Lucas, que juntamente com Pedro Bem-Haja conduziu o estudo.

Cerca de metade dos docentes que participaram no estudo não ultrapassa o nível básico A2 de proficiência em áreas específicas de competência, como a integração de tecnologias para diversificar estratégias de avaliação, promover metodologias ativas de ensino e aprendizagem ou promover a competência digital dos alunos”, revela a investigadora da Universidade de Aveiro (UA).

O estudo foi solicitado pela Direção-Geral da Educação (DGE) e envolveu 99.760 docentes, o que corresponde a 92 por cento dos docentes dos Agrupamentos de Escolas e das Escolas Não Agrupadas da rede pública.

Se bem entendi, pois a notícia não é clara a esse respeito, o estudo da Universidade de Aveiro baseou-se nos inquéritos sobre as competências digitais feitos aos professores há meio ano atrás. Escrevi na altura sobre essa selfie desfocada, assinalando os seus erros conceptuais e metodológicos, pelo que um estudo baseado em dados pouco rigorosos e objectivos só me pode suscitar as maiores reservas. Que isto é como na culinária: poderemos ter o melhor chef na cozinha; sem ingredientes de boa qualidade nunca obteremos uma refeição gourmet.

Quando se tenta avaliar as competências digitais dos professores, há vários níveis a que o podemos fazer, e estes inquéritos baseados em percepções individuais nem sempre o tornam esclarecedor: uma coisa é aquilo que os professores saberiam fazer se tivessem condições para tal; outra é a realidade de salas de aula com um único e obsoleto computador, um projector de luz mortiça e uma internet à velocidade do caracol. Como se irá desenvolver as competências digitais dos alunos se a generalidade das escolas têm uma ou duas salas com computadores, as mesmas que foram equipadas na altura do primeiro plano tecnológico, há quase quinze anos atrás? Qual o sentido de investir tempo a aprender e a dominar tecnologias e aplicações que se ficarão provavelmente obsoletas antes que generalizem, nas escolas, os recursos que permitiriam a sua utilização?

Depois, cai-se naqueles lugares-comuns que chegam a ser ofensivos na ligeireza com que são proferidos. Por exemplo, que o corpo docente envelhecido é um obstáculo à introdução das tecnologias educativas. A verdade é que não foi isso que se viu durante os dois períodos de confinamento: a generalidade dos professores enfrentaram com sucesso o desafio de, quase de um dia para o outro, reinventar a profissão no modo de ensino à distância, que foi muito mais do que um replicar das aulas presenciais por via digital. E cumpre aqui recordar que a grande limitação que foi apontada a este tipo de ensino teve a ver com as dificuldades, a desmotivação e o isolamento dos alunos, não com a incapacidade generalizada dos professores. Disso, nem mesmo os mais acesos críticos da classe docente se atreveram a acusá-la.

Deixo então duas notas finais, em jeito de conclusão. Primeiro, a aquisição de competências digitais pelos professores estará sempre dependente das reais possibilidades de utilização. É inútil dar formação em novas tecnologias ou ter a pretensão de que se vai “mudar mentalidades” nessa área – e o esbanjamento de dinheiro que está a ser feito na actual campanha de formação para a transição digital demonstrá-lo-á mais uma vez – se no final não existirem condições físicas e tecnológicas nas escolas para pôr em prática o que se aprendeu.

Segundo, ao contrário do que por vezes se quer fazer crer, e nisso a pandemia trouxe-nos lições importantes, o digital tem limitações, não é solução para tudo e muitas vezes não é solução de todo. Na integração das novas tecnologias no ensino, deve prevalecer o critério pedagógico, que sempre guiou os bons professores na procura das melhores metodologias e estratégias para motivar os alunos e conseguir que todos aprendam. É neste contexto, e sob essa condição, que as ferramentas digitais podem ser excelentes aliados de alunos e professores.

Colégios podem ter aulas online em Janeiro

O decreto-lei do Governo publicado este fim-de-semana determina a suspensão das actividades lectivas presenciais nas escolas, durante a primeira semana de Janeiro, mas é omisso sobre o ensino à distância. E há colégios privados que já decidiram que vão mesmo manter as aulas à distância nesse período. “Quem quer pode dar aulas online, e sei que alguns colégios o vão fazer. Outros não”, diz ao PÚBLICO Rodrigo Queiroz e Melo, presidente da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (Aeep).

O artigo 14.º do Decreto-lei n.º 104/2021, publicado na passada segunda-feira, é efectivamente omisso no que diz respeito ao ao ensino à distância. Refere apenas a suspensão das aulas presenciais. Nem sequer explicita a necessidade de compensar as aulas desta semana “perdida”, embora tenha sido já divulgado que essa compensação será feita reduzindo a pausa do Carnaval a um dia e retirando três dias à interrupção da Páscoa. Entretanto, as escolas com calendário escolar próprio estão a ser instadas pelos serviços do ME a redefinir, com urgência, as alterações a fazer ao calendário lectivo.

Aparentemente, as contingências da pandemia irão a servir, novamente, para acentuar desigualdades educativas: enquanto a uns se impõem paragens forçadas e encurtamento ou supressão de pausas no calendário escolar, outros terão a oportunidade de “fazer a diferença”. Uma vez mais, a tão propalada autonomia das escolas fica reduzida a nada, quando a única coisa que se espera é que cumpram as alterações ao calendário escolar superiormente decididas, sem que quaisquer questões de natureza pedagógica tenham sido devidamente ponderadas e acauteladas.

Relativamente a medidas que serão aplicadas a poucas semanas das eleições, também não é de esperar que o Governo queira indispor os dirigentes dos colégios, muito menos as famílias que neles têm os filhos. Pelo que o mais certo é que o ensino privado faça o que entender enquanto as escolas públicas cumpram o que lhes mandam.

Pensamento do dia

Catão o Velho criticava publicamente e com denodo os romanos que, como Cipião o Africano, importavam os costumes e a língua grega, porque pensava que os estrangeiros acabariam com o vigor de Roma. Em privado, Catão ensinou grego ao seu filho.

Quantos Catões haverá entre os defensores das aprendizagens flexíveis e do ensino por competências?…

Lógica de Crato

Ou de como, por vezes, vale bem mais ficar calado…

Daqui.

Escola a tempo inteiro?

Em Portugal, o programa da escola a tempo inteiro foi lançado sobretudo a pensar nos “benefícios para as famílias que trabalham” e não como uma “estratégia para incrementar a aprendizagem e desenvolvimento dos alunos”. Esta é uma das constatações de um documento de trabalho da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), intitulado More Time at School , onde foram analisadas as experiências da Áustria, Portugal, Dinamarca, Chile, Colômbia e Uruguai.

O conceito de escola a tempo inteiro remonta ao primeiro governo de José Sócrates, com Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação. No espírito neoliberal de fazer mais com menos, ainda que não necessariamente melhor, a ideia era colocar a escola a assegurar uma retaguarda à família, ocupando os filhos ao longo de toda a jornada de trabalho dos pais.

Discutir o essencial da questão, quando falamos dos alunos mais novos, do 1.º ou 2.º ciclo, que ainda não têm autonomia para ficar longas horas sozinhos em casa, esbarra numa inevitabilidade: os horários laborais da generalidade dos trabalhadores não se compadecem com manhãs ou tardes livres dos filhos, nem o nível de rendimento da grande maioria das famílias permite considerar a opção, tão comum noutros países do centro e norte da Europa, de um dos progenitores não trabalhar, ou fazê-lo a tempo parcial para acompanhar os filhos. Pelo que a discussão está na forma de ocupar essas horas em que as aulas curriculares já terminaram mas ainda é cedo para regressar a casa: mais escola, seja na forma de TPC, apoios educativos ou reforço das aprendizagens; actividades extra-curriculares – desporto, música, ateliers, etc. – ou simplesmente tempo livre para brincar, uma necessidade de que muito se fala mas que, na hora de planear os horários dos mais novos, tantas vezes fica esquecida?

Para isto, não há seguramente uma resposta definitiva, como o demonstra aliás o estudo da OCDE, que encontrou soluções distintas em cada um dos países analisados. Pelo que me interessa mais destacar, nas entrelinhas do estudo e da notícia, um dos problemas de fundo e dos desafios mais complicados que se coloca à escola dos nossos dias: as exigências contraditórias que lhe são feitas pelo poder político e a sociedade.

Na verdade, temos aqui mais uma demonstração evidente de que a escola, faça o que fizer, estará sempre sujeita a crítica. Se procura organizar, no tempo extra que os alunos lá passam, actividades de reforço, complemento ou recuperação de aprendizagens, estará a massacrar as pobres crianças com “mais do mesmo” e a impor-lhes uma carga de trabalho semelhante à que têm os adultos. Se o não faz, está apenas a proporcionar “guarda de crianças” aos pais que trabalham, não contribuindo para um maior “desenvolvimento” dos alunos ou o “incremento” das suas aprendizagens. Se tenta fazer mais, ou melhor, ou diferente, esbarra na falta de autonomia e de recursos.

É-se, como sabiamente diz o povo nestas situações, preso por ter cão e preso por o não ter…

Pensamento do dia

Quando insistem na separação absoluta entre avaliação formativa e sumativa, não estarão os maiatos e empurrar-nos para uma concepção retrógrada e ultrapassada da avaliação?

Se o importante na avaliação é dar feedback a todo o tempo, e não classificar, o que apenas se faz nos testes ditos sumativos, não estaremos a voltar aos procedimentos de há 40 ou 50 anos atrás, dois testes por período, faz-se a média e está a nota dada?…

Olha para o que digo…

Mas não para o que faço.

O ditado é antigo, mas poderia ser bem o lema do actual Governo, que ao longo dos anos se tem vindo a especializar no logro, na dissimulação e na mentira. No ME, então, encontra zelosos seguidores.

Viu-se bem ontem, na frustrada tentativa da Fenprof para chegar à fala com alguém da equipa ministerial. Recusaram reunir ao mesmo tempo que afirmavam que tinham reunido, o que demonstra que a teoria trumpista das verdades alternativas fez escola em variados quadrantes políticos. Anteontem, o ministro andou por mais uma escola a perorar sobre a necessidade de “ouvir os alunos”. E eles, responsáveis educativos, não têm de ouvir os professores?

Nada disto é de novo num ministério que anuncia miríficas autonomias, ao mesmo tempo que controla ferreamente, através de milhentas plataformas, tudo o que as escolas fazem ou se lhes permite fazer. Tece loas ao pensamento crítico, mas estimula o seguidismo acrítico das suas políticas entre os professores e as lideranças escolares. Manda criar e inventar, mas rejeita todas as criações e invenções que não rumem no sentido desejado. Anuncia investimentos de muitos milhões na educação, mas sabe que apenas uma ínfima parte da bazuca educativa chegará realmente às escolas, em apoio directo aos alunos que mais precisam.

Num ME sem peso político, onde a política educativa tem apenas três linhas de rumo – seguir os ditames da OCDE, reduzir despesa corrente e captar financiamentos europeus – pouco ou nada há para oferecer aos agentes e destinatários da Educação. Pelo que há muito que se assumiu uma estratégia de contenção de danos, empurrão com a barriga e mera sobrevivência: propagandear a cidadania, o diálogo, o pensamento crítico, a consciência cidadã – e fazer, na prática, o contrário disto tudo.

Pensamento do dia

Seja por razões humanitárias ou pelas contingências da automatização, aponta-se a necessidade de enveredar por um rendimento básico universal, ou algo semelhante, num futuro próximo em que não haverá empregos para todos.

Curiosamente, quando se fala de pensões, que são basicamente a mesma coisa, mas apenas para idosos ou pessoas com problemas graves de saúde, aí a conversa muda e dizem-nos que são insustentáveis.

Adaptado daqui.

Liberdade de escolha… paga pelo contribuinte

Ou de como a educação defendida pelos neoliberais se assemelha demasiado à caricatura que eles próprios fazem do socialismo.

Com os bonecos do Facetoons, talvez se perceba ainda melhor.

Regras sem sentido

A diferentes velocidades e com medidas diversas consoante o contexto pandémico, as aulas são retomadas durante este mês de Setembro um pouco por toda a Europa. Os 27 países da União Europeia (UE) avançam maioritariamente com o ensino presencial, com uma forte aposta na vacinação, implementando regras que distinguem vacinados de não vacinados. Há apenas dois países que não fazem essa distinção: Portugal e Roménia. No caso português, o número de dias de isolamento (14) é o maior da UE.

Não faz sentido que o país que lidera a nível mundial, com as mais elevadas taxas de vacinação, o processo de vacinação anticovid, seja também dos que mais restrições impõe à população vacinada. Na prática, e tirando a exibição dos certificados de vacinação nos restaurantes ao fim de semana, obrigação que, na falta de fiscalização, vai sendo letra morta em cada vez mais sítios, continua por cumprir a promessa que motivou tanta gente a vacinar-se: poder regressar a um quotidiano mais seguro e com menos limitações. E uma efectiva – não há que temer assumi-lo – discriminação positiva em relação àqueles que, fazendo uso do direito que lhes assiste de não se quererem vacinar, estão realmente menos protegidos dos efeitos da doença e da sua capacidade de contágio.

Nas escolas, aceita-se resignadamente o uso das máscaras: percebe-se que os interiores mal ventilados e as salas de aula sobrepovoadas das nossas escolas criam ambientes propícios à propagação do vírus e impõem cautelas que não deitem a perder os avanços dos últimos meses no controle da pandemia. Já é mais difícil compreender que se insista em períodos de isolamento de duas semanas para suspeitos assintomáticos, vacinados e com teste negativo à covid-19.