Covid na escola: modo de agir

A DGS estabeleceu um plano de contingência em março, mas houve uma “diminuição de exigências”, diz o presidente da Associação de Diretores.

O artigo da revista Sábado traduz, em linguagem corrente, o jargão técnico das normas e referenciais da DGS relativamente aos procedimentos a seguir nas escolas perante os casos, suspeitos ou confirmados, de infecção por covid-19.

Comparando com regras definidas em Março, no início da pandemia, há um notório aligeirar dos procedimentos. Ficará isto a dever-se, como alega a DGS, a um melhor conhecimento do vírus, da doença e da forma como se propaga, ou é apenas uma tentativa de poupar recursos de um sistema de saúde sobrecarregado, com cada vez mais profissionais doentes ou exaustos e, em muitas zonas do país, prestes a colapsar? Responda quem souber.

Nas escolas, quando aparecem positivos confirmados, o que se tem notado é que tanto se decide o confinamento total de umas turmas, como se determina que outras continuem com aulas presenciais como se nada fosse. Nem sempre as decisões das autoridades de saúde aparentam ser claras, lógicas e compreensíveis. E se os critérios mudam à medida que o conhecimento epidemiológico evolui, então já estou como Filinto Lima: quando houver mudanças, informem e esclareçam as escolas.

Do texto que venho comentando, perpassa a ideia de que só excepcionalmente será mandada para casa toda a turma quando aparece um aluno infectado. Tudo está dependente da avaliação feita pela delegação de saúde local, que poderá confinar apenas os contactos que considerar de maior risco. E aqui estará talvez o ponto fraco da nova estratégia: será que os médicos que farão a análise dos riscos estarão conscientes da variedade de interacções sociais e contactos de proximidade que ocorrem entre os alunos, sobretudo nos espaços de recreio e convívio?

Outra ideia algo temerária parece-me ser a decisão de dar alta, ao fim de dez dias e sem a confirmação por um teste negativo, a alunos assintomáticos ou com sintomas ligeiros da doença.

Em todo o lado onde o fenómeno tem sido estudado, constata-se um forte crescimento das infecções entre as crianças e, sobretudo, adolescentes, ao longo do último mês e meio – ou seja, desde que recomeçaram as aulas. Por cá, prefere-se não aprofundar muito a questão, minimizando o problema, restringindo o número de testes, ou não testando sequer, e limitando a pesquisa de possíveis cadeias de contágio relacionadas com o contexto escolar.

Uma jogada de alto risco, que tem tudo para correr mal…

Covid nas escolas, ponto da situação

ME teima em esconder a informação solicitada, como se a segurança e saúde no trabalho não fosse uma questão que diz respeito aos trabalhadores e, no caso das escolas, a alunos e famílias; entretanto, procedimentos continuam a variar muito de escola para escola e os testes continuam a não ser opção generalizada, num tempo em que crescem os números de alunos e profissionais em quarentena; isto enquanto são mantidas práticas que fazem aumentar o risco de contágio.

Neste momento, e quando a lista da Fenprof já vai em 350 escolas, já praticamente não deverá haver qualquer escola de média ou grande dimensão que não tenha casos positivos. E uma ou várias turmas em casa, em isolamento ou quarentena.

Já se percebeu que, na impossibilidade de controlar as cadeias de transmissão, se optou por aligeirar procedimentos e confiar na sorte, contando que a grande maioria dos casos entre os mais jovens sejam assintomáticos e não tenham assim de figurar nas estatísticas da doença, nem de entupir os serviços hospitalares. Mas é uma opção arriscada, que noutros países correu mal e poderá em breve vir a tornar inevitável um confinamento geral.

Desta forma, a realização de testes aos possíveis infectados deixou de ser regra e tornou-se excepção. Perante um caso positivo, os contactos de risco são mandados para casa, mas aqui o critério varia: por vezes é toda a turma que entra em confinamento, noutros casos apenas os alunos que se sentam mais próximo do colega infectado. Quanto aos professores, eles parecem ter adquirido uma espécie de imunidade profissional: em regra, não se considera a hipótese de estarem também infectados e de poderem, circulando por diferentes turmas, espalhar a doença pela comunidade escolar.

No regresso à escola, pior um pouco: como a ideia é confinar sem testar – o que ajuda a compreender, no imediato, a ligeira descida dos novos casos confirmados – será difícil garantir, sobretudo nos casos assintomáticos, que não irão tornar-se novos focos de transmissão.

Entretanto, o ME continua a apostar no secretismo, sem perceber que, na luta contra a pandemia, a informação rigorosa, dada em torno oportuno, é uma arma essencial – responsabiliza os cidadãos, afasta o pânico e o alarmismo, incentiva ao reforço das medidas de autoprotecção.

Claramente desorientado, o ME não foi sequer capaz de suspender esse absurdo das aulas assistidas em plena pandemia, que coloca professores a circular por outras escolas e a permanecer em salas de aula que não as suas.

Teste negativo à covid-19? Não chega!

zaragatoa O aluno teve covid-19, mas o teste de despistagem já veio confirmar que está curado. A mãe enviou, na semana passada, os resultados laboratoriais para a directora de turma da Escola EB23 Luís de Camões, que respondeu dizendo que o aluno só entra nas instalações com um “atestado de cura”. “Fico contente pelas vossas melhoras mas atenção que o Gabriel só pode regressar à escola acompanhado de um atestado de cura passado pelo médico. Não é suficiente o resultado do teste”, respondeu a directora de turma numa troca e-mails a que a Lusa teve acesso. 

Quando é que um aluno infectado pela covid-19 se pode considerar curado e regressar às aulas? Quando apresenta os resultados de um teste negativo, ou apenas se entregar um misterioso “atestado de cura” que os responsáveis escolares exigem mas os médicos e autoridades de saúde se recusam a passar?

A questão é reveladora das múltiplas incongruências das políticas de saúde pública com que se tenta gerir o desconfinamento: na tentativa de diluir responsabilidades, multiplicaram-se “planos de contingência” e transferiram-se competências para decisores locais. Encorajaram-se centros de saúde, escolas e outros serviços públicos a inventarem as suas próprias regras, quando teria sido bem mais avisado definir procedimentos claros, uniformes e coerentes, a cumprir por todos os envolvidos.

Neste braço de ferro o aluno acaba por ser o principal prejudicado, ao estar já há um mês impedido de contactar com colegas e professores e privado de qualquer alternativa para acompanhar em casa as aprendizagens da turma. Mas a escola pública, que se refugia no excesso de zelo e recusa esclarecer a situação publicamente denunciada, também não fica bem na fotografia…

Separar os alunos?…

Relativamente à origem dos surtos, a diretora-geral da Saúde sublinhou que o papel e transmissão por parte das crianças não é claro, mas até aqui os inquéritos epidemiológicos têm apontado que as crianças são infectadas a partir de familiares doentes e não o contrário. Há também surtos ligados a funcionários previamente infectados fora do ambiente escolar. “É precoce para saber qual é o impacto das escolas na dinâmica da epidemia. Não parece ser muito grande, há poucos casos envolvidos, apesar de, variando de escola para escola, poder implicar o encerramento de turmas”, reiterou Graça Freitas, apelando às escolas para que “separem ao máximo os alunos e as suas atividades para que se houver um caso não tenham de ir muitos outros para casa.”

Estando a cifra dos mil contágios diários já largamente ultrapassada, o Governo e a DGS agarram-se às suas falsas certezas e insistem numa estratégia falhada.

Com um número semelhante de contágios no início da Primavera, a primeira vaga da pandemia foi contida com o confinamento quase geral, mantendo-se a funcionar apenas os serviços essenciais. Mas agora há fortes razões para recusar um segundo confinamento que, além de ser um mero paliativo, iria ser desastroso para o tecido económico e social.

Isto percebe-se e aceita-se bem. O que já não é aceitável é que não se tenham tomado medidas para compensar o aumento de riscos e o mais do que previsível aumento dos contágios em situação de desconfinamento. É evidente, por exemplo, que deveriam ter sido reforçados os meios de monitorização, testagem e acompanhamento dos casos suspeitos, de forma a identificar rapidamente surtos localizados, isolar os infectados e manter em quarentena todos os casos suspeitos.

Em vez disto, prefere-se confiar na sorte, chegando-se ao ponto de dizer a pessoas potencialmente contagiadas que, se não apresentam sintomas, podem e devem fazer a vida normal.

Nas escolas, continua a afirmar-se que não são locais de risco, mas agora com uma nuance: pede-se que os alunos sejam “separados ao máximo”, quando na preparação do ano lectivo foram recusadas todas as medidas que permitiriam fazê-lo: turmas mais pequenas, aumento do número de salas, mesas individuais, reforço da capacidade dos transportes escolares.

De dia para dia, nota-se a desorientação, a falta de meios e até um certo amadorismo na forma como se gere a pandemia e se comunica com a população. Mesmo sendo leigo no assunto, há um erro grave e recorrente que identifico sempre que ouço dizer, pela enésima vez, que as escolas não são locais de risco e que os alunos dificilmente transmitem a doença. É que o factor determinante nos contágios não são nem os grupos nem os locais, mas sim os comportamentos. E podendo até ser as escolas, na maior parte do tempo, lugares seguros, a verdade é que há múltiplas ocasiões em que se assumem comportamentos de risco.

Sou “de Letras” e não pretendo vir dar lições aos especialistas da epidemiologia ou da saúde pública. Mas gostaria de ver tratado com maior responsabilidade o problema real da falta de segurança sanitária nas escolas portuguesas.

Situação controlada, diz a DGS

covid-19 Portugal continental tem, nesta quarta-feira, 23 surtos ativos em instituições de ensino. A diretora-geral da Saúde garantiu, em conferência de imprensa, que a “situação está controlada” desde que as escolas reabriram. Verificam-se, segundo Graça Freitas, “poucos surtos e poucos casos”, apesar de ainda ser “precoce” avaliar o impacto real do regresso às aulas na evolução epidemiológica do país. Estes surtos correspondem a um total de 136 infeções pelo novo coronavírus entre alunos e funcionários (docentes e não docentes) e dizem respeito a todo o universo do ensino: creches, escolas primárias, básicas, secundárias e universidades. A maior parte das cadeias de transmissão ativas encontram-se em Lisboa e Vale do Tejo (12). Seguem-se as regiões Norte (com sete surtos), Centro (três) e Algarve (um). No Alentejo, não há registo de algum surto numa escola.

A DGS tenta acalmar as preocupações relativamente aos casos positivos que se vão multiplicando nas comunidades escolares. Reduzindo a metade, relativamente aos números apontados pela Fenprof, o número de focos activos, a DGS apresenta alguns argumentos e explicações razoáveis, em que não custa acreditar.

De facto, é bem mais provável uma criança ou jovem ser contaminado em casa por um familiar infectado do que na escola. É obviamente mais fácil o contágio nas aglomerações à entrada das escolas, nos cafés e bares das proximidades e nos transportes escolares do que na sala de aula, onde se está protegido pala máscara, apesar de os distanciamentos não serem, na maior parte das situações, respeitados.

Está, no entanto, por demonstrar que as escolas sejam lugares tão seguros como se quer fazer crer, quando é óbvio que as regras de distanciamento não estão a ser respeitadas e as salas estão a ser usadas com uma lotação muito superior ao que é admitido noutros espaços semelhantes. E nem é preciso sair do espaço escolar para perceber a incongruência: porque é que na secretaria só podem entrar um ou dois utentes de cada vez, enquanto numa sala de aula, geralmente mais acanhada, entra uma turma inteira e aí permanece, se preciso for, um dia inteiro?

Claro que se nos escorarmos nesta falsa segurança e não testarmos, de forma coerente e sistemática, a população escolar, nunca teremos certezas acerca da real eficácia do que está a ser feito para evitar os contágios nas escolas e, sobretudo, do que há a fazer para melhorar as condições de segurança para quem estuda e trabalha nas escolas. Há, por isso, que arregaçar as mangas e assumir que precisamos de fazer mais e melhor para garantir o regresso seguro às aulas.

Mais uma campanha contra a escola pública

manif-amarelaA comparação com as escolas privadas deixa as escolas públicas numa posição desconfortável. Nos privados, em geral, houve aulas à distância, o mérito académico não foi dispensado, a reabertura do ensino presencial foi serena e a aposta na aprendizagem dos alunos assume-se prioridade absoluta.

A primeira narrativa dos media sobre a educação em tempos de pandemia garantia-nos – quem se recorda? – que o ensino à distância iria obrigar alunos e professores a trabalhar e a aprender como nunca, operando uma verdadeira revolução educativa e fazendo de todos uns craques em tecnologias de informação.

Poucos meses passados, dá-se uma aparatosa cambalhota no discurso: afinal, ensinar e aprender a sério só se consegue na escola, na interacção directa dos alunos entre si e com os seus professores, sendo o E@D um parco remedeio, que empobrece as aprendizagens e aprofunda as desigualdades no acesso à educação.

Com a reabertura das escolas, o discurso mudou outra vez: os habituais comentadores oficiosos destas coisas, que raramente são professores dos que dão aulas, asseguram-nos agora que o ensino à distância funcionou afinal às mil maravilhas, mas apenas nos colégios. Os alunos das escolas públicas ficaram a ver navios. E por isso teríamos agora os pais preocupados, numa sangria desatada, a querer mudar os filhos para o ensino privado.

Há aqui alguns pontos a clarificar. Antes de mais, os colégios da moda que asseguram ter cada vez mais alunos em lista de espera já se encontravam nessa situação muito antes da pandemia. É uma realidade radica numa política educativa que tem conduzido ao aprofundamento das desigualdades: a exagerada mediatização de rankings, o desinvestimento na escola pública, a inclusão feita por decreto, são apenas algumas das facetas mais notórias. A pandemia apenas terá acentuado uma tendência que vem muito de trás e é consequência das políticas de sucessivos governos.

Depois há que ter em conta as assimetrias sócio-económicas. É evidente que quem gasta anualmente milhares de euros nas propinas de um colégio não terá problemas em proporcionar aos filhos o computador, o tablet, o smartphone e tudo o que mais precisar para se manter conectado com os professores. Nas escolas públicas, boa parte do esforço despendido nas primeiras semanas foi apenas para garantir, numa inédita mobilização de esforços entre escola, famílias, autarquias e instituições locais, que nenhum aluno ficava para trás.

Na minha experiência de professor à distância, a preocupação de não perder alunos, de não deixar nenhum deles para trás, condicionou fortemente o trabalho desenvolvido, que considero bom, sem falsas modéstias. O agrupamento de escolas públicas onde ensino avaliou o E@D num processo amplamente participado por alunos e pais e a grande maioria valorizou muito positivamente a experiência. Muitos pais fizeram questão de agradecer aos professores o esforço, a competência e tudo o que, em condições difíceis, conseguiram fazer pelos seus filhos. Admito que nalguns lados possa não ter corrido tão bem. Mas espanta-me a facilidade com que alguns comentadores e especialistas encartados decretaram já, e em definitivo, a incapacidade das escolas públicas em acompanhar os alunos em ambiente de ensino remoto.

Sublinhe-se, finalmente, a contradição do discurso: porque a experiência do ensino remoto não foi boa, agora que as escolas retomam o presencial é que os pais procuram os colégios, supostamente melhores a ensinar à distância? Há algo aqui em que falha a lógica. Em boa verdade, este discurso só faz sentido enquanto parte da velha campanha contra a escola pública e em favor do ensino privado. Pretende-se insinuar que as escolas privadas preparam melhor os seus alunos, apesar de haver estudos sérios, aprofundados e independentes a demonstrar claramente que os estudantes oriundos do ensino público têm em média melhor desempenho académico no ensino superior do que os provenientes do privado.

Há, no entanto, um ponto em que devo dar razão aos críticos da escola pública: com a sua política de desinvestimento na Educação, atolando as escolas em burocracia e pseudo-reformismo, promovendo uma falsa inclusão e o facilitismo avaliativo para conseguir sucesso estatístico, o governo socialista está a atentar gravemente contra a qualidade da escola pública. Urge reconhecer os erros e arrepiar caminho…

Sem comentários

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Não há condições…

aulas-covidHá uma realidade que tende a ser comum a todos os responsáveis e especialistas que se pronunciam sobre a reabertura das escolas, elogiando o trabalho que está a ser feito e garantindo que tudo irá correr bem: nenhum deles irá enfiar-se, em breve, em salas de aula sobrelotadas de alunos, para aí passar cinco ou seis horas diárias.

Sendo esse o destino que me espera, e vendo como estão as coisas a decorrer, só consigo olhar com apreensão para este regresso às aulas que se está a preparar em pleno agravamento da pandemia. Até aqui pela região centro, que tem sido relativamente calma comparativamente com o litoral norte e a Grande Lisboa, se nota de dia para dia o aumento do número de casos.

Um primeiro sinal de pretensa confiança e optimismo no regresso à normalidade foi dado por alguns directores que andaram a convocar reuniões presenciais de dezenas e centenas de professores, descurando a evidência de que os ajuntamentos – que continuam proibidos – são um risco de saúde pública perfeitamente evitável. O que é que se faz num conselho de turma, departamento ou grupo disciplinar presencial, que não se consiga fazer trabalhando a partir de casa? Mais, porque é que continua a haver tantos directores mais preocupados em agradar a quem manda, do que em tomar as melhores decisões em prol da sua comunidade educativa? Porque é que foi preciso o próprio secretário de Estado recomendar o regime não presencial para as excelências finalmente se convencerem?…

Quanto aos preparativos em marcha para o arranque da escola presencial, sabemos que muito do que haveria a fazer não foi feito. A começar pelas condições em que se irá trabalhar nas escolas: a generalidade das turmas continua a ter bem mais do que 20 alunos, e nem as salas de aula aumentaram de tamanho nem houve qualquer flexibilidade para, num ano excepcional, constituir grupos mais pequenos.

Por estes dias, ficámos a saber que um ajuntamento de mais de 20 pessoas é ilegal em qualquer parte do país… excepto se ocorrer dentro de uma sala de aula. Há escolas a limitar a lotação dos espaços, definindo por exemplo que não podem permanecer mais do que 10 ou 12 pessoas dentro da biblioteca ou da sala de professores. Mas se for numa sala de aula, com área muito mais reduzida, já pode estar o dobro ou o triplo sem qualquer problema.

Muitas escolas não conseguem garantir sequer duas coisas que deveriam ser básicas: o respeito pelo distanciamento mínimo nas salas de aula – mesmo dando de barato que possa ser de apenas um metro – e uma mesa individual para cada aluno. Aposta-se tudo no uso da máscara, fazendo por ignorar as múltiplas situações em que os alunos a irão retirar ou a terão mal colocada. E que os mais novos estarão dispensados de a usar.

Na prática, o reforço orçamental das escolas permitiu apenas a compra de máscaras e de gel desinfectante. Não foi atribuída qualquer verba para aquisição de divisórias acrílicas ou outros equipamentos que possam ser usados como barreira na propagação do vírus.

E há coisas de que não se fala. Por exemplo, casos de alunos infectados que foram fazer os exames da 2.ª fase. Alguns deles foram detectados – o que implica novos testes e quarentenas entre colegas, professores e funcionários que com eles possam ter contactado – mas quantos mais, assintomáticos, haverá por identificar?

Na comunicação social, todo o esforço é feito no sentido de sossegar os pais em relação ao regresso seguro às aulas. Mas ninguém parece preocupar-se com os professores, um grupo de maior risco, até pela idade, do que a generalidade dos alunos. Descartada a hipótese do teletrabalho, o ME reitera que quem não estiver em condições de trabalhar presencialmente deve entrar de baixa e ser substituído. Mas pode presumir-se que todos os que o não fizerem têm saúde de ferro e estarão imunes aos efeitos da doença? Que devem estar expostos, longas horas consecutivas ao risco do contágio, sem que tenha sido feito tudo o que seria possível para o minimizar? Ou não passará tudo isto de uma tentativa radical de promover o rejuvenescimento da classe docente?…

Silly Season educativa

silly-season…Ao compartimentar os saberes, não se favorece a perceção de que o conhecimento resulta dos contributos de várias áreas do saber. Pior, devido à existência de provas finais e exames, incentivam-se os sujeitos a socorrer-se da memória para corresponder a esses momentos de avaliação externa, os quais são igualmente reproduzidos nos momentos formais de avaliação escrita realizada por cada professor. Se é certo que temos consciência da importância dos exames nacionais para o desenho do percurso universitário do estudante, sabemos igualmente que avaliam uma parcela demasiado estreita do perfil que se deseja num cidadão à saída da escolaridade obrigatória (vd. Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória).

Se as disciplinas, iniciadas nas oficinas, nos colégios militares e nos conventos, fazem algum sentido numa organização económica e social reguladora e condicionadora dos indivíduos a um padrão de obediência, temos hoje a certeza de que, neste século XXI, a educação tem de ser libertadora dos indivíduos que frequentam a escola, promovendo a construção de conhecimento pelo próprio, favorecendo a autonomia, a responsabilidade, o espírito crítico e a criatividade.

Por isso, a escola deverá avançar no sentido de se tornar uma comunidade de aprendizagem que promove a comunicação e a construção de relações interpessoais sólidas. Desiste da divisão dos alunos em turmas e em ciclos e favorece a construção de percursos individuais de aprendizagem, partindo dos interesses manifestados por cada educando, sendo nos roteiros individuais que vão sendo construídos pelo educando em conjunto com os educadores que o aluno trabalhará significativamente as Aprendizagens Essenciais. Para que tal possa acontecer, será necessário o envolvimento dos professores, dos assistentes administrativos e operacionais, das famílias, dos alunos e de todos os voluntários que poderão enriquecer os percursos realizados individualmente e em grupo. O que é curioso é que, desde 2018, a legislação já permite todos estes avanços. Terá falhado a formação?!

O artigo de opinião, assinado por uma professora de Português e um “activista licenciado em Direito”, ambos militantes do Livre, desenrola o chorrilho de vacuidades e banalidades em torno da mítica “educação do século XXI”. Não é novidade, e sabemos que, pelo menos na teoria, estas ideias encontram eco no ministério e nas academias. Mas é deprimente ver, numa esquerda que pretende ser moderna e alternativa, o repescar acrítico de ideias pedagógicas datadas, nalguns casos com mais de cem anos.

Ao contrário do que por ali se diz, a divisão disciplinar dos saberes não decorre da imposição de um qualquer modelo autoritário e disciplinador. Afirma-se, desde a Antiguidade, como a forma mais eficaz de aprendizagem: ela permite estruturar e organizar os conhecimentos a adquirir, ao mesmo tempo que facilita a necessária especialização de quem estuda, investiga e ensina as diversas matérias. Porque é que a autora se identifica como “professora de Português” e não, seguindo a lógica que defende para a educação do nosso tempo, como uma ensinante de conhecimentos holísticos?

Na verdade, a debilidade da argumentação, patente no texto, só encontra paralelo na incoerência e falta de rasgo e ambição dos autores. Então querem deitar abaixo a escola como a conhecemos tomando como referência essas bíblias do situacionismo educativo que são o Perfil dos Alunos e as Aprendizagens Essenciais? De certeza que invocam os exames nacionais, cada vez mais centrados nas competências e menos nos conhecimentos, para contestar o apelo à memorização? E como é que não são capazes de, sendo coerentes com o modelo de escola que defendem, rejeitar todo o tipo de exames, em vez de invocar a sua importância para a definição dos “percursos universitários” – justamente a dimensão mais contestada e discutível do actual modelo de avaliação externa?

Por outro lado, nenhuma criança “constrói o seu conhecimento”; aprender é uma construção social. E mesmo os “percursos individuais” de que hoje se fala só fazem sentido quando erigidos a partir de um conjunto de conhecimentos e competências de base solidamente estruturados. Ou alguém imagina que um cientista, um músico, um artista ou um escritor nascem de geração espontânea, sem necessidade de muito estudo, aplicação e esforço? O que leva a outra questão: a partir de que idade é aceitável que uma criança ponha de parte o estudo da Matemática, da Língua Materna, do Inglês ou da Educação Física – para dar apenas alguns exemplos – para seguir o seu próprio “roteiro”? E o que é relevante que conheça, destas matérias, antes de decidir se lhe interessam ou não? A existência de níveis de ensino e currículos formais dá respostas concretas a este tipo de questões. Mas quando tentamos irresponsavelmente desconstruir o currículo, há que ter consciência de que vamos prejudicar, em nome de uma escola supostamente mais prazerosa e certamente mais facilitista, o futuro de muitos alunos, que não obterão, através do seu meio social e familiar, o que a escola deixou de lhes proporcionar.

Neste ponto, curiosamente, os extremos tocam-se: estou a lembrar-me daquele pai que proibiu os filhos de irem às aulas de Cidadania. E a achar muito semelhantes, na defesa de um currículo feito à medida dos seus interesses e preconceitos, a atitude do pai de direita e a do “activista de Direito” que talvez não ache que o estudo da Matemática, da Física ou de qualquer outra matéria chata ou difícil seja suficientemente “libertador”…

Numa prosa lamentavelmente seguidista do eduquês do regime – e dos ditames da OCDE e do internacionalismo educativo das multinacionais e das fundações – não falta sequer o lugar-comum da falta de formação. Mas creio que, neste ponto, se terão enganado. Para aplicar ideias tão absurdas, o que pretendem não será formatação dos professores?…

Serviços públicos em tempo de pandemia

covid-balcao.JPG1. Igreja desafectada do culto, servindo como atendimento de junta de freguesia. Uma turista, seguindo a sugestão de ir para fora cá dentro, visita a própria cidade em que vive e interessa-se pelo interior do antigo espaço religioso, agora usado noutras funções. Solicita permissão para visitar.  A funcionária, detrás do balcão protegido por acrílico, informa que não é possível: as regras em vigor durante a pandemia interditam as visitas e limitam o atendimento a um utente de cada vez. O espaço terá, no mínimo, uns 100m2 de área e não estava ninguém, naquele momento, a ser atendido.

2. Loja do Cidadão de Coimbra. O atendimento faz-se unicamente por marcação prévia. À porta, um segurança impede a entrada dos cidadãos que, mesmo chegando à hora marcada, têm de aguardar, no exterior, até serem chamados. Dezenas de pessoas, incluindo idosos e pessoas com dificuldades de mobilidade acumulam-se junto à entrada, obrigadas a permanecer de pé à torreira do sol. Não cumprem as regras de distanciamento. Deveriam afastar-se mais, mas então não ouviriam a voz sumida do funcionário, a falar por baixo da máscara, chamando o seu nome. Lá dentro, nos corredores amplos e desertos, centenas de cadeiras vazias. Onde todos poderiam esperar, sentados a larga distância uns dos outros.

3. Centro de saúde aqui ao pé de casa. Utentes esperam, e nalguns casos desesperam, enquanto aguardam à porta para serem atendidos. O espaço, descoberto, está exposto ao sol abrasador do Verão, mas também à chuva e à nortada assim que o tempo arrefecer. Não há uma cadeira para sentar ou água para beber. Nem sequer é permitido o acesso ao interior diante da necessidade de usar o WC. A maioria das pessoas maltratadas desta forma estão fragilizadas pela idade ou pelas doenças. Os mais debilitados, obviamente, vão adiando consultas e tratamentos, pois não têm forças para suportar as condições de espera desumanas que lhes são impostas.

Os exemplos, que poderiam multiplicar-se, revelam em conjunto algo muito simples: a incapacidade da maior parte dos serviços públicos – ou de quem os dirige – em compatibilizarem as regras de protecção face à Covid-19 com os direitos, as necessidades e o bem-estar dos cidadãos. Medidas que eram aceitáveis no início da pandemia, face aos receios existentes e ao estado de emergência decretado, não fazem hoje qualquer sentido. São sinais do acomodamento a uma normalidade anormal, que acumula trabalho por fazer, sujeita os cidadãos a uma incomodidade quotidiana e, pior ainda, que em nome do combate à pandemia está a permitir a progressão de outras doenças que deixam de ser diagnosticadas e tratadas em tempo útil. E, ao protelar o “não urgente”, a comprometer o papel fundamental da medicina preventiva.

Ainda mais irracional se torna isto tudo quando antecipamos o cenário em preparação para as escolas portuguesas, daqui a poucas semanas: salas de aula repletas, cantinas, recreios, ginásios, casas de banho, tudo a funcionar, sem mais cuidados obrigatórios do que o uso da máscara – e mesmo esta apenas a partir dos 10 anos.

Entre o oito que se continua a tomar como referência na maioria dos serviços públicos e o oitenta que se quer impor nas escolas, entre as medidas de protecção maximalistas, ineficazes e insustentáveis e o desconfinamento irresponsável e sem regras, haverá um meio-termo que, a bem de todos, tarda em ser encontrado.