Apupos para António Costa

Curiosamente, quando são os professores do básico e secundário a protestar ruidosa e ostensivamente contra as políticas do governo para o sector, tendem a chover as críticas pelo despropósito, pelo radicalismo, pela falta de respeito. Apontam-se a dedo sindicatos e organizações de professores envolvidas nesse tipo de acções. E as críticas mais severas partem muitas vezes dos próprios professores, sobretudo daqueles que simpatizam pouco com manifestações e “coreografias” de protesto.

O que se diria dos professores do ensino não superior se, num encontro em que estivessem presentes e a que comparecessem membros do governo, desatassem a assobiar ao primeiro-ministro e virassem ostensivamente as costas ao ministro da Educação, mal ele começasse a falar? Pois foi isto mesmo que hoje fizeram dezenas de investigadores e bolseiros a António Costa e a Manuel Heitor.

Uma posição que, vinda de onde vem, não provoca escândalo público. Em vez disso, está a ser entendida como expressão legítima do descontentamento, insatisfação e revolta dos trabalhadores científicos, que apesar das elevadas qualificações que possuem não livram da exploração e da precariedade.

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É indisfarçável o mal estar entre investigadores e bolseiros que esta terça-feira de manhã receberam o primeiro-ministro, António Costa, e o ministro da Ciência, Manuel Heitor, vestidos de preto e com papéis a dizer que estão de “luto pela ciência”, chegando mesmo a apupar António Costa.

O primeiro-ministro disse que “é também fundamental continuar a investir nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento” e, neste instante, as dezenas de bolseiros presentes no Encontro Ciência 2018, que decorre em Lisboa, apuparam-no. Costa fez uma pausa e completou a frase: “De forma a continuar a valorizar o conhecimento científico do nosso país.”

Os apupos foram repetidos quando Costa falou em quem distorce as carreiras que “estão legalmente estabelecidas, em particular a carreira docente”. Já enquanto o ministro Manuel Heitor falou, os bolseiros estiveram de costas.

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Estão a gozar com os professores?

tiago-b-rodrigues.JPGNão sei se o governo goza connosco ou se apenas decidiram assumir, finalmente, uma realidade que aos professores e aos seus sindicatos é dura de aceitar: não querem nem nunca quiseram recuperar tempo de serviço aos professores. A actual carreira docente foi concebida justamente para que poucos ou nenhuns cheguem ao topo. E as perdas salariais decorrentes do roubo do tempo de serviço dão um contributo importante ao equilíbrio das contas públicas, ajudando a cumprir as metas de Bruxelas ao mesmo tempo que continuam a financiar bancos falidos e PPPs ruinosas com dinheiro do contribuinte.

A chantagem hoje feita pelo ministro da Educação aos representantes dos professores é vergonhosa, e deveria levar a plataforma sindical a tomar a decisão que se impõe: em vez de ameaçarem com greves às vigilâncias aos exames, condenadas ao fracasso, ou “ao lançamento de notas”, simplesmente ridículas, deveriam apoiar de imediato a greve convocada pelo STOP às avaliações desta semana. E não esperar por quinta-feira para tomar uma decisão numa fase em que queimar tempo é algo que só interessa, objectivamente, à estratégia governamental.

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, comunicou nesta segunda-feira à Federação Nacional de Professores (Fenprof) que nenhum do tempo de serviço prestado pelos docentes durante o período de congelamento será contado para efeitos de progressão na carreira, informou Mário Nogueira, secretário-geral da estrutura sindical. Isto, se os sindicatos não aceitarem o que o Governo propõe: contabilizar para efeitos de progressão apenas dois anos, nove meses e 18 dias dos anos que estiveram congelados.

“É uma chantagem”, acusou o líder da Fenprof, que perante isto não descartou a possibilidade de os professores virem também a fazer uma greve aos examesnacionais marcados para este mês. A decisão será tomada na próxima quinta-feira. Para já, mantém-se a greve às reuniões de avaliação.

Em declarações à Lusa no final do encontro com os nove sindicatos independentes de professores, que durou cerca de hora e meia, a presidente do Sindicato Independente de Professores e Educadores reafirmou as informações já antes avançadas por Mário Nogueira. “O ministério o que nos deu foi zero. No fundo foi quase uma chantagem”, afirmou Júlia Azevedo. “Luta, luta, luta” é o que os professores agora irão fazer, sublinhou Júlia Azevedo, acrescentando que “a greve às avaliações vai continuar até tempo indeterminado”.

Também André Pestana, do Sindicato de Todos os Professores (Stop), recentemente criado, confirmou ao PÚBLICO o ultimato do Governo. “O ministro disse-nos que ou aceitamos os dois anos, ou nem isso será garantido”, afirma. A posição do Ministério da Educação é “inaceitável” e “roça a pressão”, acusa aquele dirigente. 

Sionismo, o nazismo do século XXI?

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Há uma diferença de escala, de intensidade do conflito. Não há execuções em massa, matam-nos à vez. Nem campos de extermínio; toda a Palestina ocupada é um imenso gueto onde os palestinianos que não desistiram da sua pátria sobrevivem à mercê da violência, das anexações de território e do terrorismo de estado promovido por Israel.

Mas a política racista do governo israelita, o holocausto em lume brando que vitima o povo palestiniano desde 1948, a afirmação da raça superior pela expulsão ou a segregação dos que não partilham a pureza étnica e religiosa do “povo eleito”, as condições sub-humanas em que os palestinianos são condenados a viver, pela privação da terra, da água e do trabalho; as humilhações quotidianas a que são submetidos; tudo isto encontra um claro paralelo com a forma como os próprios judeus foram maltratados  e exterminados pelo nazismo.

Por muito que seja politicamente incorrecto dizê-lo, o sionismo de Netanyahu é o que mais se assemelha, no século XXI, à política racista do estado nazi. O estatuto dos territórios palestinianos só encontra paralelo nos bantustões da África do Sul no tempo do apartheid. E Israel é o único estado do mundo a quem a comunidade internacional permite, impunemente, a conquista e colonização de novos territórios. A Grande Alemanha de Hitler tem no Grande Israel dos sionistas um herdeiro à altura. E os descendentes das vítimas sobreviventes tornaram-se novos e ainda mais sofisticados opressores e assassinos.

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Há, contudo, uma diferença importante. Enquanto os nazis tentavam esconder ao mundo os aspectos mais macabros e tenebrosos da sua solução final para os judeus e outros indesejáveis ao Reich, os Israelitas, imbuídos da superioridade moral de todos os eleitos, fazem o que fazem à vista de toda a gente. Se durante a II Guerra Mundial, e depois dela, muitos puderam alegar que desconheciam o que se passava nos campos da morte nazis, hoje ninguém poderá dizer que ignora a violência gratuita e desproporcionada que é quotidianamente exercida por israelitas contra os palestinianos.

Como diz o poema, vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar.

O arco da corrupção

No dia em que Sócrates se desfilia do PS, pondo fim a uma situação que, segundo o próprio, era de “embaraço mútuo”, convém recordar que a teia da corrupção e das ligações ilícitas entre poder económico e político não envolve apenas Sócrates e os seus amigos e, do lado dos banqueiros, o Salgado ex-dono-disto-tudo.

A promiscuidade e o tráfico de influências não nasceram com a chegada de Sócrates ao poder, embora se possa suspeitar – os tribunais se encarregarão de o confirmar, ou não – que o socratismo lhes deu uma amplitude nunca antes alcançada.

Uma lista, certamente não exaustiva, que corre pelas redes sociais, recorda-nos tantos outros casos que envolveram dirigentes ou gente influente entre os partidos do chamado arco da governação Que acabaram, quase todos, no arquivamento ou na absolvição por falta de provas.

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Quarenta e quatro anos depois da Revolução dos Cravos, e quando a Terceira República já conta quase a mesma idade que tinha a ditadura quando foi derrubada, torna-se cada vez mais evidente que a refundação do regime, ou melhor, que a Revolução de Abril necessária para o século XXI não se faz com tanques nas ruas nem cravos nas espingardas: passa por um combate sem tréguas à corrupção e aos corruptos que se enquistaram no sistema político, económico e financeiro.

A dimensão do saque organizado ao Orçamento do Estado e ao património público dos últimos vinte anos é tal que torna inviável o desenvolvimento económico e a justiça social que queremos no nosso país. Quando a riqueza que é produzida, o rendimento do trabalho dos Portugueses e o dinheiro dos seus impostos vai quase todo para pagar as dívidas, os desfalques, as negociatas ruinosas dos empresários do regime e os buracos do sistema financeiro, é evidente que apenas restarão migalhas para manter a funcionar escolas, hospitais e restantes serviços públicos.

No momento em que todos os partidos condenam ou se dizem, no mínimo, envergonhados com o socratismo, talvez seja altura de dar um passo em frente contra a oligarquia de trafulhas e de corruptos que tem desgraçado o nosso país, a nossa economia, o nosso futuro colectivo: forçar a revelação dos nomes de todos os grandes devedores dos bancos intervencionados pelo Estado e de quem, no interior dessas instituições, autorizou os empréstimos sem garantias.

Haverá coragem para o fazer, ou ficaremos apenas pelo Sócrates e os seus comparsas?…

A Manada

Cinco jovens foram condenados a nove anos de prisão por abuso, não por agressão sexual. Um juiz queria a absolvição já que nos vídeos a vítima tinha uma expressão “relaxada”.

Os factos, sucedidos em Espanha em 2016 e dados como provados, contam-se em poucas palavras. Um grupo de cinco homens, que apropriadamente se chamavam a si próprios a “Manada”, rodearam uma jovem de 18 anos que tinham conhecido minutos antes, levaram-na para um local isolado e forçaram-na à prática de relações sexuais. A rapariga, perante a esmagadora superioridade física dos homens, ficou em choque, incapaz de resistir. Fechou os olhos e esperou que tudo acabasse o mais depressa possível.

Tratou-se de uma violação colectiva, como facilmente se percebe. Mas, para o tribunal que julgou o caso, foi apenas abuso sexual. E apesar de a sentença de nove anos de cadeia, mais o pagamento de indemnizações, não ter sido propriamente branda – em Portugal, talvez se safassem com uma pena suspensa – a decisão está a indignar a sociedade espanhola, tendo gerado manifestações de protesto nas principais cidades e uma onda de repúdio pela sentença e de solidariedade com a vítima encheu as redes sociais.

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No entanto, a decisão judicial não foi unânime entre os juízes:

Um deles defendia a absolvição, alegando que, nos vídeos que eles gravaram com o telemóvel, a expressão do rosto da vítima era “relaxada e descontraída” e por isso “incompatível com qualquer sentimento de medo, rejeição ou recusa” e que “os seus gestos e sons sugerem prazer”.

Este juiz matarruano é um bom exemplo do machismo e da insensibilidade atroz que infelizmente continua a marcar presença entre a magistratura. Passou-se em Espanha, mas também por cá temos alguns juízes dispostos, em casos deste tipo, em tornarem-se acusadores das vítimas, como se fossem elas que estivessem a ser julgadas. Nestas situações, como alguém comentou no Twitter, a mensagem que o sistema judicial continua a passar é,

Tinhas de ter fechado as pernas;
de ter resistido mais;
de ter gritado.
Morta, acreditaríamos em ti.
São rapazes, estavam a brincar.
A culpa é tua, mulher!

A dimensão avassaladora do movimento de repúdio e revolta que esta decisão está a ter em Espanha mostra que a sociedade espanhola já não se revê nesta justiça e nestes juízes. E isso alimenta a esperança de uma revisão da sentença, com a inevitável apreciação do caso por um tribunal superior.

Armas químicas na Síria: invenção ou realidade?

guerra-syria.JPGEnquanto se aguarda que os peritos internacionais digam de sua justiça, uma voz aparentemente insuspeita diz-nos, em bom Português, que a história das armas químicas foi inventada. A Irmã Myri é uma freira portuguesa a viver junto do cenário de guerra e a contactar directamente com as populações fustigadas pelos confrontos de uma guerra civil que tarda em acabar.

Uma “história inventada” e mais “uma desculpa para poderem atacar”. Foi assim que a Irmã Myri, uma jovem portuguesa que vive no Mosteiro de São Tiago Mutilado, em Qara, se referiu, segundo a Fundação AIS, ao ataque com armas químicas que o regime de Bashar al-Assad alegadamente realizou em Douma, no dia 7 de Abril, e que justificou a resposta militar conjunta na madrugada de Sábado pelos Estados Unidos, França e Reino Unido.

Maria de Lúcia Ferreira afirma que “não houve nenhum eco de armas químicas aqui no país. Não se ouviu dizer nada. Se tivesse havido algum massacre com armas químicas seguramente que teria havido alguém da parte do exército ou das famílias ou dos refugiados que saíram de Douma, e que são milhares… Mas não houve eco nenhum no país da utilização de armas químicas. É pois, para a população, mais uma história inventada, mais uma desculpa para poderem atacar.”

“As pessoas aqui habituaram-se à guerra… Uma pessoa estando no local não pode fazer outra coisa do que confiar-se em Deus e ficar.”

Reais ou inventadas, percebe-se que as armas químicas foram um pretexto para os países ocidentais que sentiram necessidade de marcar posição no conflito sírio através do lançamento de mais uma série de mísseis.

A verdade é que esta política errática do Ocidente, que ora apoia ditadores que garantem bons negócios e estabilidade política, ora incentiva movimentos rebeldes em nome de miríficas Primaveras Árabes que acabam a promover o fundamentalismo islâmico, está cada vez mais longe de garantir a paz e a segurança, no Médio Oriente e no resto do mundo.

Incentivar e promover a democracia e o respeito dos direitos humanos, apoiar o desenvolvimento económico e social e a laicização das sociedades muçulmanas, ajudar todos os que, por meios pacíficos, queiram contribuir para a paz e o bem-estar do seu próprio povo: eis algumas políticas que, a longo prazo, trarão verdadeiros benefícios. Ao contrário das tentativas frustradas de semear a democracia lançando bombas e atiçando guerras, que apenas alimentarão maiores rancores e novos radicalismos.

Sempre que os professores são elogiados…

20101207154026-autobus.gifCada vez que os professores são elogiados publicamente e, por pressão dos seus confrades internacionais, o governo reitera a necessidade de valorizar a profissão docente e o estatuto dos seus profissionais, logo o aparelho ministerial se agita. E alguém sopra cá para fora com uma notícia sensacionalista para  moderar o entusiasmo e tentar denegrir a imagem pública dos professores…

A Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) detetou escolas que promoviam viagens de finalistas e onde professores não só acompanhavam os alunos nessas excursões como assumiam funções de promotores turísticos. Os responsáveis e os docentes visados podem incorrer em sanções disciplinares, apurou o JN. Na sequência do relatório da IGEC, o Ministério proibiu expressamente todos os 811 agrupamentos escolares com ensino secundário de qualquer atividade de promoção ou organização de viagens.

Quem, onde, quando, como: as perguntas básicas do bom jornalismo ficam, obviamente, por responder. Não sabemos sequer se são mesmo professores os alegados promotores turísticos. Nem saberemos, quase de certeza, o resultado final destas averiguações. Mas também de nada interessa, pois o trabalho sujo de lançar a suspeição sobre a classe já foi feito, com a inestimável colaboração do JN.