No rescaldo dos incêndios – I

Quando se pensa que já vimos tudo, em termos de baixaria informativa, lá aparece quem nos mostre que é sempre possível afundar mais um pouco.

Uma capa inqualificável da revista Sábado.

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Homenagem à Catalunha

O que se está a passar hoje na Catalunha era até certo ponto previsível, mas nunca pensei que as forças policiais enviadas de Madrid chegassem aos excessos de violência e desordem que estamos a testemunhar.

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Respeito e valorizo os sentimentos identitários e autonomistas da Catalunha e até os anseios independentistas de uma parte significativa da sua população. Mas não me parece nem que a independência da região seja uma boa ideia nem que, após amplo debate democrático, e havendo a alternativa de um aprofundamento da autonomia, a maioria dos Catalães se deixasse seduzir pela separação completa de Espanha e a criação de um novo Estado independente, com tudo o que isso implicaria.

Espanta-me por isso a inépcia e a estupidez do poder político instalado em Madrid, que está a fazer hoje, pela causa independentista, mais do que terão feito, até hoje, todas as forças políticas que a têm defendido.

Mostrando uma brutalidade inédita para a maioria dos Espanhóis, e que para os mais velhos poderá ter paralelo com a repressão nos tempos do Franquismo, a reacção desproporcionada e descontrolada do governo de Rajoy só pode atiçar os ânimos contra o centralismo e a prepotência de Madrid. E estão a provocar revolta generalizada na Catalunha, onde muitos dos mais moderados, que nem tencionariam envolver-se em confusões, fazem agora questão de, enfrentando a Policia Nacional e a Guardia Civil, ir votar no referendo proibido.

Como se fosse possível resolver um problema político, que é o que está em causa no desafio referendário, com o uso gratuito da força policial, tentando calar e desmobilizar as pessoas pela violência e pelo medo. Claro que só vão aumentar o número de resistentes e descontentes, numa espiral que não sabemos onde parará. Mas que, em todo o caso, aprofunda o conflito, dificulta o diálogo e torna mais difíceis e distantes as soluções que ainda se possam vir a desenhar.

Independentemente de tudo o que se possa dizer sobre constituições e referendos em Espanha, parece-me evidente que a Catalunha conquistou, hoje, o seu direito à autodeterminação. E que Rajoy é, a partir de agora, um primeiro-ministro desacreditado e a prazo.

isaltino.JPGEmbora hoje também tivesse havido eleições por cá, elas passam para um plano secundário perante a enormidade do que está a suceder na Catalunha. Como se comentava há pouco no Twitter, por lá batem nas pessoas e prendem-nas por irem votar. Por cá, prefere votar-se em pessoas que já estiveram presas. Desculpem, mas não tem comparação.

O “homicídio qualificado” de Passos Coelho

sofia-v-rocha.JPGPedro Passos Coelho, depois de não ter mantido o governo em 2015, pensou que ia voltar rapidamente ao poder e, portanto, achou que as autárquicas não eram uma eleição importante e não era importante a eleição em Lisboa.

Eu considero que Pedro Passos Coelho matou o PSD em Lisboa e foi um homicídio qualificado.

Quem isto diz é Sofia Vala Rocha, quinta candidata na lista do PSD à câmara da capital, em entrevista ao DN. A mesma senhora que há um mês atrás defendia desta forma o grande líder do seu partido:

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Quando é evidente que o fraco resultado que se antecipa ao PSD em Lisboa não lhe permitirá ser eleita, foi a forma que encontrou para se demarcar desde já de uma liderança que terá, a partir de 1 de Outubro, os dias contados.

Resta saber se lá pelo PSD, onde andam a meter água há bastante tempo, apreciam quem segue o exemplo dos ratos. Que são sempre, como se sabe, os primeiros a abandonar o navio.

Concurso mais justo, a luta continua…

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O inconformismo dos professores, que continuam a contestar os resultados do concurso de mobilidade interna, e a intransigência do ME em corrigir as injustiças que a mudança de regras a meio do processo provocou estão a ter consequências que seriam expectáveis desde o início. E que deveriam ter levado o ME a repensar as suas decisões irreflectidas, antes de criar problemas evitáveis e perfeitamente desnecessários.

Na falta de respostas políticas, sucedem-se agora os processos de mais de uma centena de professores lesados em tribunal, que o ME tenta desvalorizar, dizendo que são apenas meia dúzia, mas que em todo o caso dificilmente originarão decisões judiciais antes do final do ano lectivo.

E, claro, também já está a suceder outra coisa que se podia prever e para a qual em devido tempo se alertou: os atestados médicos apresentados por professores colocados muito longe de casa e que alegam o desgaste físico e psicológico para não se apresentarem ao serviço.

Disto tudo nos dá hoje conta a notícia da TSF…

O Movimento dos professores por um concurso mais justo garante que já chegaram a tribunal “mais de 130 queixas” relativas ao concurso de colocação de docentes, mas o governo tem outros números e garante à TSF que só “foi citado em seis ações”.

Os professores defendem a impugnação do concurso de colocação de docentes, onde professores com menos tempo de carreira foram colocados à frente de docentes com mais anos de serviço, por causa da alteração feita pelo Ministério da Educação nos concursos deste ano, quanto à colocação de professores de Quadro de Zona Pedagógica (QZP), onde os docentes deveriam indicar se pretendiam ter horário completo.

Manuela Almeida descreve uma situação de “desespero” e alega que os resultados do concurso estão a ter efeitos não só no orçamento familiar, mas também na vida pessoal dos docentes.

“Há professores que estão com três casas para pagar, [situações em que] o marido ficou separado da esposa, ambos a centenas de quilómetros da sua residência habitual”, descreve Manuela Almeida.

A representante do Movimento de professores diz ainda que há professores colocados a centenas de quilómetros de casa que já pediram baixa, por não conseguirem suportar os custos da colocação. Uma situação que é confirmada pelos diretores escolares.

Ir à escola e não aprender

africa-aula.JPGÉ a triste realidade que se constata em muitas regiões pobres do mundo, especialmente no continente africano: apesar de frequentarem a escola – e nem todas as crianças o fazem – os alunos aprendem muito pouco enquanto lá andam, e abandonam-na sem terem adquirido competências essenciais.

Seis em cada dez crianças e adolescentes de todo o mundo não estão a conseguir alcançar níveis básicos de proficiência na aprendizagem escolar, aponta a ONU num relatório divulgado esta quarta-feira no qual classifica os resultados do estudo do Instituto de Estatísticas da UNESCO como “assombrosos”, num sinal de que estamos a viver uma “crise de aprendizagem” a nível global. O foco da ajuda humanitária internacional para a Educação tem incidido sobre a falta de acesso a escolas, em particular em países pobres da África subsariana e em zonas de conflito. Mas de acordo com a nova investigação, a ausência de qualidade nas escolas não é exclusiva dessas regiões, havendo neste momento mais de 600 milhões de crianças em idade escolar em todo o mundo que não têm conhecimentos básicos de matemática nem de leitura.

O caso da África subsariana, onde existem mais entraves à educação, é o mais gritante, com 88% das crianças e adolescentes a caminho da idade adulta sem saberem ler convenientemente. No sudeste asiático, o número de crianças sem níveis adequados de literacia ronda os 81%. Na América do Norte e na Europa, que concentram alguns dos países mais desenvolvidos do mundo, apenas 14% de crianças e adolescentes concluem os estudos num nível tão baixo — mas de acordo com a investigação, só 10% do total de crianças em idade escolar de todo o mundo é que vivem nesses países.

Conhecem-se relativamente bem as consequências desta realidade para os jovens que saem da escola mal preparados: integrarão uma força de trabalho não qualificada, precária e mal paga, o que também compromete o desenvolvimento económico e social das comunidades em que se integram, contribuindo para perpetuar o ciclo da pobreza e do subdesenvolvimento.

Determinar as causas da ineficácia do sistema educativo é, em contrapartida, mais difícil. Ainda assim, a notícia do Expresso aponta algumas pistas: muitas famílias são pobres e há crianças que sofrem de doenças e têm carências básicas, que começam logo na alimentação. É difícil valorizar as aprendizagens escolares de estômago vazio. As escolas carecem do mínimo de condições pedagógicas. Com baixos salários, nem sempre pagos pontualmente, desmoralizados, por vezes sem formação científica e pedagógica adequada, os professores também não raro se revelam, ao nível da assiduidade e do empenhamento profissional, exemplos a não seguir.

Há ainda assim sinais de esperança, pois percebe-se o interesse da comunidade internacional em ajudar as crianças e jovens destes países a realizar mais e melhores aprendizagens. Não apenas da UNESCO, da UNICEF, da União Europeia e das ONG que trabalham nesta área, mas também de instituições como a OCDE ou o Banco Mundial. A estes últimos certamente não escapa o potencial económico que é desperdiçado quando os países com uma demografia mais pujante não conseguem qualificar o seu “capital humano”, pelo que se dispõem a dar também o seu contributo. A questão é saber se as organizações do “internacionalismo monetário” serão capazes de ir ao encontro dos reais problemas e necessidades dos países pobres, ou se a ajuda se limitará a reproduzir uma cartilha ideológica que, mesmo nos países mais ricos, há muito demonstrou as suas limitações no campo da educação:

Entre outros problemas, é apontado no documento que não há escrutínio suficiente dos padrões educativos e que existe ausência de informações básicas sobre as conquistas de cada aluno ao longo do seu percurso académico.

Apesar de nos países ocidentais o debate público estar focado há vários anos no excesso de testes e exames a que as crianças são submetidas, o Banco Mundial refere que, nas nações mais pobres do mundo, há “muito poucos medidores de aprendizagem e não demasiados”.

Em suma, cambada de malandros, do que eles precisam é de mais exames e avaliações! Onde é que já ouvimos esta conversa?…

Fraude no exame de Português: revelada a identidade da suspeita

exp23set17.jpgSegundo a última edição impressa do Expresso – a notícia não se encontra, até ao momento, disponível online e a imagem foi retirada daqui – será Edviges Ferreira a autora da fuga de informação sobre o exame da 1ª fase de Português, que terá beneficiado um grupo de alunos a quem daria explicações e um número indeterminado de outros com quem a informação sobre os conteúdos da prova foi partilhada, via redes sociais.

Recorde-se que a gravação na altura divulgada fazia referência à “presidente de um sindicato de professores”, o que dará para supor que a aluna que aqui se ouve  terá confundido a Associação de Professores de Português, a que Edviges Ferreira preside, com um sindicato de professores:

Ressalvando sempre, nestas circunstâncias, que todo o suspeito se presume inocente até que seja condenado, espero que o caso tenha, a partir de agora, rápidos desenvolvimentos no sentido do apuramento de toda a verdade e da exemplar aplicação da justiça.

A confirmação das suspeitas agora vindas a público significa que o caso é especialmente grave: não se trata de uma professora qualquer – nesse caso, o mais provável era estar já a ser crucificada na praça pública – mas de alguém que lidera uma associação profissional que colabora ao mais alto nível com o ME.

Mais cuidado com futuras parcerias e, já agora, com o IAVE e as suas das equipas responsáveis pela elaboração das provas dos exames nacionais, é o que se recomenda. Pois nada garante que este seja um caso isolado; mas antes a ponta do icebergue da impunidade e dos abusos permitidos por um sistema assente na opacidade e no secretismo.

Ganhem vergonha!

vergonha.JPGÉ assim designado um site que se dedica a denunciar casos documentados de exploração do trabalho por parte de empresas e pessoas sem escrúpulos. Entre os casos mais frequentes estão as falsas ofertas de emprego, designadamente os anúncios que recrutam trabalhadores a custo zero sob a promessa de um “estágio” fictício ou uma experiência profissional “relevante” e enriquecedora do currículo.

Foi por aqui que soube que o externato A Ritinha, de Lisboa, pretende recrutar um professor do 1º ciclo para leccionar uma turma de três anos de escolaridade, pagando-lhe apenas a alimentação e os transportes!

A desfaçatez, como é habitual nestes casos, é disfarçada pela converseta do “crescimento profissional” e da experiência “desafiante” que propõem aos candidatos, valendo-se do desemprego generalizado entre os jovens professores.

Só visto, que contado há sempre quem não queira acreditar…

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