Liberalismo para totós… e colunistas aperaltados

O boneco já é um clássico das redes sociais, mas serve bem para compreender uma realidade simples que muitos fazem por desentender.

Basta substituir o imigrante pelo trabalhador desempregado ou em lay off forçado por causa da pandemia e o operário pelo “burguês em teletrabalho”, expressão insultuosa para designar o trabalhador que não ficou privado de emprego nem do seu rendimento habitual porque, mesmo confinado, continuou a trabalhar.

Quanto ao verdadeiro burguês, o dono e distribuidor das bolachas, esse manteve, e em muitos casos a aumentou, o seu rendimento. Continua a ser proprietário de meios de produção e redes de distribuição, podendo explorar a força de trabalho, tirando partido não só das novas oportunidades abertas pela globalização e pela economia digital, como das carências e novas necessidades trazidas pela pandemia. E, claro, continua a ter todas as facilidades para expatriar lucros para paraísos fiscais e recorrer à contabilidade criativa e às leis feitas à medida para contornar e minimizar as obrigações fiscais.

Redesenhado à medida da recente polémica nas redes sociais, o boneco poderia incluir um quarto elemento, representando uma pequena burguesia petulante e deslumbrada com a possibilidade de, papagueando umas idiotices, chegar às primeiras páginas dos jornais. Aparentemente, pensam pela sua cabeça, mas o que dizem e escrevem só é amplificado porque convém aos donos das bolachas.

Se uma coligação de interesses económicos e políticos criou a economia de casino que leva hoje a concentração de riqueza a níveis inauditos, os académicos aperaltados que transformaram as faculdades de Economia em escolas de negócios ao serviço dos senhores do mundo são objectivamente seus serventuários e aliados. Quando recorrem aos media para nos tentar convencer que devemos partilhar melhor as migalhas para que os pobres não morram de fome enquanto os ricos continuem a engrossar o seu bolo, a mensagem não é inocente, muito menos isenta. E é isso que precisa de ser intransigentemente denunciado.

Leituras: Conto de Natal contemporâneo

polyp_cartoon_israel_palestine_gaza_bethlehem_wall[1]Os tempos eram duros para José e Maria. A bolha imobiliária explodira. O desemprego aumentava entre trabalhadores da construção civil. Não havia trabalho, nem mesmo para um carpinteiro qualificado.

Os colonatos ainda estavam a ser construídos, financiados principalmente pelo dinheiro judeu da América, contribuições de especuladores de Wall Street e donos de antros de jogo.

“Bem”, pensou José, “temos algumas ovelhas e oliveiras e Maria cria galinhas”. Mas José preocupava-se, “queijo e azeitonas não chegam para alimentar um rapaz em crescimento. Maria vai dar à luz o nosso filho um dia destes”. Os seus sonhos profetizavam um rapaz robusto a trabalhar ao seu lado… multiplicando pães e peixes.

Os colonos desprezavam José. Este raramente ia à sinagoga, e nas festividades chegava tarde para fugir à dízima. A sua modesta casa estava situada numa ravina próxima, com água duma ribeira que corria o ano inteiro. Era mesmo um local de eleição para a expansão dos colonatos. Por isso quando José se atrasou no pagamento do imposto predial, os colonos apropriaram-se da casa dele, despejaram José e Maria à força e ofereceram-lhes bilhetes só de ida para Jerusalém.

José, nascido e criado naquelas colinas áridas, resistiu e feriu uns tantos colonos com os seus punhos calejados pelo trabalho. Mas acabou abatido sobre a sua cama nupcial, debaixo da oliveira, num desespero total.

Maria, muito mais nova, sentia os movimentos do bebé. A sua hora estava a chegar.

“Temos que encontrar um abrigo, José, temos que sair daqui… não há tempo para vinganças”, implorou.

José, que acreditava no “olho por olho” dos profetas do Antigo Testamento, concordou contrariado.

E foi assim que José vendeu as ovelhas, as galinhas e outros pertences a um vizinho árabe e comprou um burro e uma carroça. Carregou o colchão, algumas roupas, queijo, azeitonas e ovos e partiram para a Cidade Santa.

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O homicídio de Ihor e as razões de Joacine

Tornou-se hábito, por boas e más razões, criticar a postura e as intervenções públicas da deputada não inscrita Joacine Katar Moreira. Mas neste caso repugnante do assassinato de um cidadão ucraniano à guarda do SEF, um crime que, apesar das tentativas de encobrimento, é do conhecimento público desde Abril deste ano, Joacine está cheia de razão.

Os partidos que rejeitaram os meus requerimentos para a audição da directora do SEF e inspectores sobre o caso SEF/Ihor H. em Abril, são os mesmos que hoje pedem “mais esclarecimentos” e pedem a cabeça do ministro de administração interna.

Sabem o que é que eu quero? Que se acabem as torturas e a violência institucional sobre as minorias, os pobres e os imigrantes. Que ninguém se sinta tão confiante da impunidade reinante que não sinta medo de bater até matar alguém, estando em representação do estado. Indigna-me ver apenas hoje a indignação generalizada pelo homicídio de Ihor H às mãos do SEF, passados nove meses. Os media, de facto, controlam isto tudo. As emoções todas.

E nesta sequência, é lamentável tanto oportunismo político. Não querem saber de justiça para um cidadão estrangeiro morto à pancada. A maioria, aliás, está-se nas tintas para as condições de vida dos imigrantes. Para os Ihor desta vida. Usam o comportamento dos inspectores do SEF e todos os que compactuaram, não para colocar em causa o SEF e garantir que nunca mais se repitam situações de abuso e tortura, mas como oportunidade de ouro para atacar dirigentes… e pouco mais.

Nesta tragédia que nos deve indignar e envergonhar a todos, vemos uma agenda política comandada pelas manchetes da comunicação social, chocante falta de sentido de Estado dos mais altos responsáveis políticos, reles oportunismo de quem tenta retirar ganhos políticos de um crime hediondo em vez de pugnar pela defesa de direitos e valores basilares da nossa civilização. E a suprema hipocrisia com que sucessivos governos fecharam os olhos à verdadeira máquina de tortura montada nas instalações do SEF no aeroporto de Lisboa, dando carta branca aos torcionários que por lá exerciam. Tendo em conta o sentimento de impunidade que se foi instalando e ouvindo os testemunhos de gente que por ali foi sendo humilhada e agredida, percebe-se que seria apenas uma questão de tempo até que um acontecimento trágico, como o bárbaro assassinato de Ihor, viesse a acontecer.

Para o futuro, e enquanto se ensaiam demissões de ministros e danças de cadeiras, tentativas de mudar algo de forma a que tudo fique na mesma, é evidente que, além do julgamento dos assassinos e de todos os seus cúmplices e encobridores, só há uma coisa decente a fazer: extinguir esta espécie de PIDE para estrangeiros, integrando as suas funções administrativas na restante administração pública e as funções policiais na PSP e GNR. Será assim tão difícil entender isto?…

Divulgação: Calam-se as palmas

O testemunho que publico, da autoria de uma enfermeira portuguesa, vem na linha de muitos que tenho lido ultimamente e que dão conta do crescente mal estar, do desânimo e da exaustão que tem marcado o quotidiano de dezenas de milhares de profissionais de saúde desde o início da pandemia.

Sem que haja um fim à vista para as condições difíceis e precárias em que hoje se trabalha nos hospitais e centros de saúde, vai-se tornando evidente que quem decide e planeia não está à altura da gravidade dos problemas e das necessidades sentidas no terreno. E que não se pode pedir cada vez mais aos mesmos de sempre, fazendo orelhas moucas aos pedidos de ajuda, às críticas e aos gritos de alerta que, insistentemente, nos vão chegando.

Não basta bater palmas à janela ou entoar públicos louvores aos médicos e enfermeiros que têm estado na linha da frente. São precisos mais meios, melhor organização e, acima de tudo, investir nos profissionais, valorizando devidamente o mais valioso recurso das instituições que se dedicam a preservar a saúde e a vida dos portugueses.

Calaram-se as palmas e fecharam-se as janelas.
Calaram-se as palmas e a Alice morreu.
Despiu a bata no final do turno, saiu do Hospital, conduziu até casa, mas antes, antes de chegar à meta, interrompeu a viagem.
Suicidou-se.
Eu não sei as razões para a Alice desistir de tudo isto.
Sei que se fartou de um país que a mandou emigrar e a cujo apelo resistiu.
Sei que se cansou excessivamente de palmas sem eco.
Sei que, pelo caminho perdeu a identidade, oculta num escafandro pesado de suor e da dor dos outros.
Sei que existem incontáveis Alices na minha profissão. Que chegam a casa destruídas por um dia de trabalho sem fim, por uma batalha invisível de quem salva vidas (e não apenas as do Covid) ou de quem mediu vezes demais a frequência cardíaca daqueles que não chegaram a ter segunda oportunidade.
Estou certa, porém, por ser esse o nosso superior desígnio, que a Alice se revestiu, como todos os enfermeiros, de infindável compaixão para aguentar ter dois braços apenas. Num cenário de incompreensível amadorismo político, a saúde ficou para trás. A saúde de quem a perde, a saúde de quem a deve salvar.
Provavelmente, todas as famílias portuguesas têm no seu seio, ou conhecem, um enfermeiro. Provavelmente, todas as famílias portuguesas bateram palmas à janela aos profissionais de saúde quando tudo isto começou.
Nós estávamos “na linha da frente”, grandes heróis, estes que se confrontam com o destino determinados a cuspir-lhe na face e prosseguir.
Mas prosseguir a que custo? Quando é que um penso rápido substitui um profissional qualificado, preparado, confiante? Quando é que medidas avulsas com uma estratégia utópica e fictícia na sua ação dão lugar à primazia da saúde num verdadeiro cenário de guerra?
Quando é que as palmas superam a inação política?
Regresso todos os dias a casa com a exaustão no corpo e o medo no peito. Beijo os meus filhos ao de leve porque nem sei bem se vim sozinha para casa. E tenho tanto, tanto receio do que trago no corpo e na mente.
Confesso, há imagens que não me abandonam. O desespero dos outros, de não salvar os outros, que foi o que nos fez abraçar a profissão, o desespero de não saber com o que conto no dia seguinte.
Podemos continuar a fingir que não se passa nada neste país e que os nossos enfermeiros e restantes profissionais de saúde apenas tratam das arrastadeiras. Mas há um peso que todos vamos pagar, mais depressa do que se imagina. Cada vez mais Alices estão entre nós. Exaustas, exauridas, cansadas de prosseguir na estrada. Bizarramente sozinhas no meio de um incompreensível caos.
Esgotámos um tempo precioso e já não podemos fingir que está tudo controlado.

Silêncio, por favor. Baixe-se o pano.
Chega de palmas.
Morreu um enfermeiro, morreu um de nós.
Talvez algum político, daqueles que assinam decretos que fazem lei de verdade, se lembre de nós e nos dê a dignidade de sermos uma profissão de risco, honrando a nossa carreira e o nosso estatuto.
Talvez nesse dia perceba que não é com palmas e fintas infantis que se combatem guerras.
Talvez tudo o que baste seja apoiar verdadeiramente pessoas. Conceder-lhes o valor que têm e não fazer disso uma oportunidade para poupar mais trocos.
Talvez nesse dia perceba que a farda de anjos que caminham e sobrevivem nos escombros de si próprios não tem verdadeiramente preço, mas tem um custo.

E esse custo chama-se, simplesmente, Vida.

Natércia Lima (Enfermeira, mãe, filha)

Portugal não é racista

Claro que não. E estas pichagens nojentas que vão aparecendo, de quando em vez, junto à entrada de escolas e universidades da Grande Lisboa são apenas manifestações sadias da liberdade de expressão dos seus autores. Temos de ser tolerantes com os protofascistas que, agora, até elegem deputados e, eventualmente, compreender as suas razões…

Pela minha parte, continuo a defender a intolerância com os intolerantes. É certo que não podemos impedir cada um de pensar como entender. Mas quando passam do pensamento à acção, devemos criminalizar e punir os crimes que cometem contra os direitos dos restantes cidadãos.

Uma regra aplicável tanto a fundamentalistas islâmicos como a supremacistas brancos. E a todos os idiotas que, independentemente de ideologias, religiões ou da falta delas, cometem crimes de ódio e de incitação à violência.

O abandono da docência

Foi-lhe atribuído um horário de 16 horas e um salário abaixo do que lhe ofereciam fora do ensino, Ricardo Ferreira não hesitou. Optou pela garantia de estabilidade numa empresa de informática.

O caso do professor Ricardo, muito bem descrito na notícia, é exemplar. Colocado a 600 quilómetros de casa num horário incompleto, o que iria ganhar não chegaria sequer para as despesas, sobretudo se fizesse questão de vir à sua terra pelo menos uma vez por mês.

As escolas também nem sempre facilitam a vida a estes professores. Espalhar as 16 horas lectivas por várias manhãs e tardes de quatro dias é a forma de impedir, na prática, que o docente consiga completar o horário concorrendo a horas que surjam a concurso noutra escola.

Mas o pior de tudo é a insistência, por parte do ME, num modelo de concursos, contratações e vinculações completamente disfuncional e em muitos casos verdadeiramente desumano. Apenas funciona razoavelmente num quadro de desemprego massivo dos candidatos à docência e de ausência de alternativas profissionais.

Actualmente, um horário incompleto numa escola longe de casa já não é competitivo, sequer, com um emprego na caixa de um supermercado perto de casa. E apesar de as vocações docentes continuarem, felizmente, a existir, elas não são suficientes para convencer um professor contratado a aceitar a sina de andar mais de uma década a tapar buracos em escolas de norte a sul do país.

Pelo caminho, é uma geração inteira de professores que se debate entre a crónica precariedade da profissão e a escolha de um novo rumo profissional. E uma geração mais nova, que deveria estar agora a ser formada, que já nem sequer pondera candidatar-se a um curso de formação de professores.

Dir-se-ia que a classe política está desatenta em relação ao problema, ou que falta informação relevante para tomar decisões. Infelizmente, nada disto é verdade. A situação actual da classe docente e as projecções para a próxima década integram os estudos anuais da DGEEC e são bem conhecidas e escalpelizadas. E os políticos não se coíbem de falar do assunto, a maior parte das vezes para proferir declarações demagógicas e desprovidas de qualquer intencionalidade prática.

Eles sabem que um futuro sombrio espera a educação portuguesa, se nada for feito. Mas resignam-se a nada fazer. Estando em causa o nosso futuro colectivo, essa resignação que é bem mais grave do que a ignorância.

47 escolas com casos de covid-19

escola-covidO levantamento foi feito pela Fenprof e, atendendo ao clima de secretismo que tem pairado sobre o tema covid em contexto escolar, só poderá pecar por defeito. Sem indicação das escolas onde surgiram casos positivos, foram apontados os seguintes concelhos:

  • Ponte de Lima, Braga, Guimarães, Barcelos, Lixa, Guarda, Seia, Trancoso,
  • Vila Real, Bragança, Penedono, Viseu, Vila Nova de Paiva, Felgueiras, Lousada, Lourosa, Espinho,
  • Marco de Canavezes, Santo Tirso, Póvoa de Varzim, Porto, Gaia, Valongo,
  • Aguiar da Beira, Castelo Branco, Fundão, Coimbra, Leiria,  Santarém, Entroncamento,  Torres Novas, Ourém, Lisboa, Loures, Mafra, Sintra, Cascais,
  • Castelo de Vide, Reguengos de Monsaraz, Cuba, Faro, Portimão, Lagos, Loulé, Olhão, Castro Marim, Vila Real de Santo António.

Não deveria ser necessário lembrar que, num Estado de direito democrático, o direito à informação é sagrado. Ainda mais quando estão em causa direitos fundamentais dos cidadãos, como sejam a saúde e a vida de alunos, professores e funcionários. Mas pelos vistos começa a valer tudo para alimentar a ficção de que as escolas são lugares seguros e assim permanecerão, mesmo que não sejam respeitadas as regras de segurança obrigatórias noutros locais.

A Fenprof denuncia a gestão política que tem sido feita daquilo que é, acima de tudo, um grave problema de saúde pública, com riscos acrescidos para a classe docente. Porque os alunos são mandados para casa quando há suspeitas de infecção; mas aos professores parte-se geralmente do princípio que nada se lhes chega…

“Por estranho que possa parecer, num país em que vigoram protocolos tão apertados como os que se aplicam ao futebol ou a atividades ao ar livre – sejam festivas, políticas ou religiosas (e não os pomos em causa) –, no caso das escolas a norma tem sido, quando surgem casos positivos em alunos, manter os respetivos professores ao serviço sem realizar qualquer teste, pondo em causa a saúde destes, dos seus alunos e de quem vive com eles. Só excecionalmente a decisão foi diferente”, sublinhou.

Covid-19, filhos e enteados

cons-estado-covid

Todos os membros do Conselho de Estado testaram negativo à Covid-19, apurou a TVI24, sendo António Lobo Xavier é o único conselheiro de estado infetado.

CONSELHO DE ESTADO REUNIU-SE NA TERÇA-FEIRA, no Palácio da Cidadela, em Cascais, entre as 14:00 e as 18:00, tendo como convidada a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Esta foi a primeira reunião presencial do órgão político de consulta do Presidente da República em período de pandemia de covid-19, depois de duas reuniões por videoconferência.

O chefe de Estado escolheu o Palácio da Cidadela, em Cascais, precisamente para “assegurar o devido distanciamento físico”, de acordo com uma nota da Presidência da República.

A Presidência da República foi informada de que Lobo Xavier estava infetado com o novo coronavírus, pelo próprio, no domingo ao fim da tarde, e “avisou de imediato todas as pessoas que estiveram presentes” na reunião de terça-feira em Cascais.

Quase exemplares os procedimentos neste caso do conselheiro de Estado infectado pela covid-19. Após o teste positivo, informação imediata a todos os potenciais contactos de risco. Pouco mais de 24 horas passadas, já quase todos tinham o teste feito e o respectivo resultado.

A manchar o retrato, apenas a participação de alguns responsáveis de cargos políticos em iniciativas públicas, desrespeitando as regras de isolamento que são impostas ao comum dos cidadãos.

Agora compare-se a actuação rápida e eficaz perante uma possível contaminação no Conselho de Estado com a desorganização e o desleixo que, com o agravar da pandemia, alastram pelo país. Surtos nos lares, o que significa que a pandemia está de novo descontrolada e não se fazem os testes necessários a quem contacta grupos de risco. Infectados que não são vigiados e apoiados. Casos suspeitos, mas assintomáticos, a quem é dito para fazerem a vida normal. Demora na realização e obtenção de resultados dos testes. Alunos mandados para casa porque testaram positivo, mas os colegas continuam na escola. Os professores, esses, parecem ser cartas fora do baralho e devem já ser todos imunes ao “bicho”, pois não se equaciona sequer que possam ser também infectados, quanto mais a possibilidade de contagiarem outras turmas.

A República, cujo aniversário ontem se celebrou, fez-se para instituir, entre outras coisas, a plena igualdade de direitos entre os cidadãos. Para acabar com monarquias, fidalguias e outras formas de privilégio e discriminação. Mas há ainda um longo caminho a percorrer até que, na relação com os cidadãos – e mesmo estando em causa a saúde e a vida das pessoas – o Estado deixe de ter filhos e enteados.

Há quem se escandalize…

…com algum gozo e brincadeira em torno de Trump, cujo comportamento irresponsável levou a que ficasse infectado com o novo coronavírus.

Mas melhor fariam os trumpistas se guardassem as críticas para a figura que fez o anormal quando, há quatro anos atrás, gozava com a doença da sua adversária na corrida à Casa Branca.

Rodeado de privacidade e conforto e a receber os melhores tratamentos médicos disponíveis no hospital militar que o acolheu, certamente não terá de recorrer às desinfecções com lixívia ou às injecções de hidroxicloroquina que ainda há pouco tempo prescrevia aos outros infectados.

Independentemente das nossas preces ou simples desejos de boas melhoras, não lhe faltará nada do que precise para se pôr bom. Ao contrário do que sucede a milhões dos seus concidadãos quando esgotam os plafonds dos seguros de saúde.

Componente não lectiva

videoconfNo arranque do novo ano, foi assumido por todos o primado do ensino presencial e a necessidade absoluta de todos os professores em funções comparecerem, desde o primeiro dia, às aulas com os seus alunos.

E quanto à componente não lectiva que não envolva trabalho directo com alunos?

Porque não se determina, desde já, que durante o estado de pandemia todo o serviço não lectivo deve ser cumprido em teletrabalho?

Estou a pensar, naturalmente, no exercício de diversos cargos e funções que não implicam permanência física na escola: directores de turma (exceptuando atendimento presencial a pais ou a alunos), coordenadores de DT e de departamento, representantes de disciplina, membros de equipas de projectos e grupos de trabalho, trabalho colaborativo, etc. E a ter em conta a exiguidade dos espaços que as escolas destinam a salas de convívio e de trabalho de professores, onde será em muitos casos impossível acomodar toda a gente com o devido distanciamento.

Trata-se de uma medida muito simples de determinar e executar.  O simples facto de não ser sido considerada é revelador do desprezo da tutela pelos professores que, nas escolas, irão estar na primeira linha de exposição ao risco de contágio. Aos quais se exige, não só que cumpram integralmente, em condições arriscadas e penosas, o serviço lectivo, como se impõe a prestação do não lectivo em escolas sem as devidas condições para os acolher.