Sionismo, o nazismo do século XXI?

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Há uma diferença de escala, de intensidade do conflito. Não há execuções em massa, matam-nos à vez. Nem campos de extermínio; toda a Palestina ocupada é um imenso gueto onde os palestinianos que não desistiram da sua pátria sobrevivem à mercê da violência, das anexações de território e do terrorismo de estado promovido por Israel.

Mas a política racista do governo israelita, o holocausto em lume brando que vitima o povo palestiniano desde 1948, a afirmação da raça superior pela expulsão ou a segregação dos que não partilham a pureza étnica e religiosa do “povo eleito”, as condições sub-humanas em que os palestinianos são condenados a viver, pela privação da terra, da água e do trabalho; as humilhações quotidianas a que são submetidos; tudo isto encontra um claro paralelo com a forma como os próprios judeus foram maltratados  e exterminados pelo nazismo.

Por muito que seja politicamente incorrecto dizê-lo, o sionismo de Netanyahu é o que mais se assemelha, no século XXI, à política racista do estado nazi. O estatuto dos territórios palestinianos só encontra paralelo nos bantustões da África do Sul no tempo do apartheid. E Israel é o único estado do mundo a quem a comunidade internacional permite, impunemente, a conquista e colonização de novos territórios. A Grande Alemanha de Hitler tem no Grande Israel dos sionistas um herdeiro à altura. E os descendentes das vítimas sobreviventes tornaram-se novos e ainda mais sofisticados opressores e assassinos.

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Há, contudo, uma diferença importante. Enquanto os nazis tentavam esconder ao mundo os aspectos mais macabros e tenebrosos da sua solução final para os judeus e outros indesejáveis ao Reich, os Israelitas, imbuídos da superioridade moral de todos os eleitos, fazem o que fazem à vista de toda a gente. Se durante a II Guerra Mundial, e depois dela, muitos puderam alegar que desconheciam o que se passava nos campos da morte nazis, hoje ninguém poderá dizer que ignora a violência gratuita e desproporcionada que é quotidianamente exercida por israelitas contra os palestinianos.

Como diz o poema, vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar.

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O arco da corrupção

No dia em que Sócrates se desfilia do PS, pondo fim a uma situação que, segundo o próprio, era de “embaraço mútuo”, convém recordar que a teia da corrupção e das ligações ilícitas entre poder económico e político não envolve apenas Sócrates e os seus amigos e, do lado dos banqueiros, o Salgado ex-dono-disto-tudo.

A promiscuidade e o tráfico de influências não nasceram com a chegada de Sócrates ao poder, embora se possa suspeitar – os tribunais se encarregarão de o confirmar, ou não – que o socratismo lhes deu uma amplitude nunca antes alcançada.

Uma lista, certamente não exaustiva, que corre pelas redes sociais, recorda-nos tantos outros casos que envolveram dirigentes ou gente influente entre os partidos do chamado arco da governação Que acabaram, quase todos, no arquivamento ou na absolvição por falta de provas.

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Quarenta e quatro anos depois da Revolução dos Cravos, e quando a Terceira República já conta quase a mesma idade que tinha a ditadura quando foi derrubada, torna-se cada vez mais evidente que a refundação do regime, ou melhor, que a Revolução de Abril necessária para o século XXI não se faz com tanques nas ruas nem cravos nas espingardas: passa por um combate sem tréguas à corrupção e aos corruptos que se enquistaram no sistema político, económico e financeiro.

A dimensão do saque organizado ao Orçamento do Estado e ao património público dos últimos vinte anos é tal que torna inviável o desenvolvimento económico e a justiça social que queremos no nosso país. Quando a riqueza que é produzida, o rendimento do trabalho dos Portugueses e o dinheiro dos seus impostos vai quase todo para pagar as dívidas, os desfalques, as negociatas ruinosas dos empresários do regime e os buracos do sistema financeiro, é evidente que apenas restarão migalhas para manter a funcionar escolas, hospitais e restantes serviços públicos.

No momento em que todos os partidos condenam ou se dizem, no mínimo, envergonhados com o socratismo, talvez seja altura de dar um passo em frente contra a oligarquia de trafulhas e de corruptos que tem desgraçado o nosso país, a nossa economia, o nosso futuro colectivo: forçar a revelação dos nomes de todos os grandes devedores dos bancos intervencionados pelo Estado e de quem, no interior dessas instituições, autorizou os empréstimos sem garantias.

Haverá coragem para o fazer, ou ficaremos apenas pelo Sócrates e os seus comparsas?…

A Manada

Cinco jovens foram condenados a nove anos de prisão por abuso, não por agressão sexual. Um juiz queria a absolvição já que nos vídeos a vítima tinha uma expressão “relaxada”.

Os factos, sucedidos em Espanha em 2016 e dados como provados, contam-se em poucas palavras. Um grupo de cinco homens, que apropriadamente se chamavam a si próprios a “Manada”, rodearam uma jovem de 18 anos que tinham conhecido minutos antes, levaram-na para um local isolado e forçaram-na à prática de relações sexuais. A rapariga, perante a esmagadora superioridade física dos homens, ficou em choque, incapaz de resistir. Fechou os olhos e esperou que tudo acabasse o mais depressa possível.

Tratou-se de uma violação colectiva, como facilmente se percebe. Mas, para o tribunal que julgou o caso, foi apenas abuso sexual. E apesar de a sentença de nove anos de cadeia, mais o pagamento de indemnizações, não ter sido propriamente branda – em Portugal, talvez se safassem com uma pena suspensa – a decisão está a indignar a sociedade espanhola, tendo gerado manifestações de protesto nas principais cidades e uma onda de repúdio pela sentença e de solidariedade com a vítima encheu as redes sociais.

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No entanto, a decisão judicial não foi unânime entre os juízes:

Um deles defendia a absolvição, alegando que, nos vídeos que eles gravaram com o telemóvel, a expressão do rosto da vítima era “relaxada e descontraída” e por isso “incompatível com qualquer sentimento de medo, rejeição ou recusa” e que “os seus gestos e sons sugerem prazer”.

Este juiz matarruano é um bom exemplo do machismo e da insensibilidade atroz que infelizmente continua a marcar presença entre a magistratura. Passou-se em Espanha, mas também por cá temos alguns juízes dispostos, em casos deste tipo, em tornarem-se acusadores das vítimas, como se fossem elas que estivessem a ser julgadas. Nestas situações, como alguém comentou no Twitter, a mensagem que o sistema judicial continua a passar é,

Tinhas de ter fechado as pernas;
de ter resistido mais;
de ter gritado.
Morta, acreditaríamos em ti.
São rapazes, estavam a brincar.
A culpa é tua, mulher!

A dimensão avassaladora do movimento de repúdio e revolta que esta decisão está a ter em Espanha mostra que a sociedade espanhola já não se revê nesta justiça e nestes juízes. E isso alimenta a esperança de uma revisão da sentença, com a inevitável apreciação do caso por um tribunal superior.

Armas químicas na Síria: invenção ou realidade?

guerra-syria.JPGEnquanto se aguarda que os peritos internacionais digam de sua justiça, uma voz aparentemente insuspeita diz-nos, em bom Português, que a história das armas químicas foi inventada. A Irmã Myri é uma freira portuguesa a viver junto do cenário de guerra e a contactar directamente com as populações fustigadas pelos confrontos de uma guerra civil que tarda em acabar.

Uma “história inventada” e mais “uma desculpa para poderem atacar”. Foi assim que a Irmã Myri, uma jovem portuguesa que vive no Mosteiro de São Tiago Mutilado, em Qara, se referiu, segundo a Fundação AIS, ao ataque com armas químicas que o regime de Bashar al-Assad alegadamente realizou em Douma, no dia 7 de Abril, e que justificou a resposta militar conjunta na madrugada de Sábado pelos Estados Unidos, França e Reino Unido.

Maria de Lúcia Ferreira afirma que “não houve nenhum eco de armas químicas aqui no país. Não se ouviu dizer nada. Se tivesse havido algum massacre com armas químicas seguramente que teria havido alguém da parte do exército ou das famílias ou dos refugiados que saíram de Douma, e que são milhares… Mas não houve eco nenhum no país da utilização de armas químicas. É pois, para a população, mais uma história inventada, mais uma desculpa para poderem atacar.”

“As pessoas aqui habituaram-se à guerra… Uma pessoa estando no local não pode fazer outra coisa do que confiar-se em Deus e ficar.”

Reais ou inventadas, percebe-se que as armas químicas foram um pretexto para os países ocidentais que sentiram necessidade de marcar posição no conflito sírio através do lançamento de mais uma série de mísseis.

A verdade é que esta política errática do Ocidente, que ora apoia ditadores que garantem bons negócios e estabilidade política, ora incentiva movimentos rebeldes em nome de miríficas Primaveras Árabes que acabam a promover o fundamentalismo islâmico, está cada vez mais longe de garantir a paz e a segurança, no Médio Oriente e no resto do mundo.

Incentivar e promover a democracia e o respeito dos direitos humanos, apoiar o desenvolvimento económico e social e a laicização das sociedades muçulmanas, ajudar todos os que, por meios pacíficos, queiram contribuir para a paz e o bem-estar do seu próprio povo: eis algumas políticas que, a longo prazo, trarão verdadeiros benefícios. Ao contrário das tentativas frustradas de semear a democracia lançando bombas e atiçando guerras, que apenas alimentarão maiores rancores e novos radicalismos.

Sempre que os professores são elogiados…

20101207154026-autobus.gifCada vez que os professores são elogiados publicamente e, por pressão dos seus confrades internacionais, o governo reitera a necessidade de valorizar a profissão docente e o estatuto dos seus profissionais, logo o aparelho ministerial se agita. E alguém sopra cá para fora com uma notícia sensacionalista para  moderar o entusiasmo e tentar denegrir a imagem pública dos professores…

A Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) detetou escolas que promoviam viagens de finalistas e onde professores não só acompanhavam os alunos nessas excursões como assumiam funções de promotores turísticos. Os responsáveis e os docentes visados podem incorrer em sanções disciplinares, apurou o JN. Na sequência do relatório da IGEC, o Ministério proibiu expressamente todos os 811 agrupamentos escolares com ensino secundário de qualquer atividade de promoção ou organização de viagens.

Quem, onde, quando, como: as perguntas básicas do bom jornalismo ficam, obviamente, por responder. Não sabemos sequer se são mesmo professores os alegados promotores turísticos. Nem saberemos, quase de certeza, o resultado final destas averiguações. Mas também de nada interessa, pois o trabalho sujo de lançar a suspeição sobre a classe já foi feito, com a inestimável colaboração do JN.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Professores que não desistem da luta

Revelando uma ousadia e determinação que de início poucos adivinhavam, os professores lesados no último concurso de mobilidade interna continuam a aproveitar as festas do regime para confrontar publicamente os titulares dos órgãos de soberania com a falta de soluções concretas e satisfatórias para a sua situação…

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No Fundo: Um novo congelamento da carreira docente

É completamente inaceitável para os professores, mas é o que o ME está a querer impor nas negociações sobre os estrangulamentos na progressão na carreira docente no acesso ao 5º e ao 7º escalão: a abertura de vagas ficaria limitada a um número limitado de vagas definido anualmente, de forma arbitrária, pelo Ministério das Finanças…

O corpo das mulheres é público?

meu-corpo.jpgImpressionam os testemunhos de adolescentes e jovens portuguesas recolhidos na reportagem de fundo do DN sobre o assédio sexual.

O tema tem sido muito falado nos últimos tempos, sobretudo pelo grande número de mulheres conhecidas e influentes que têm vindo a público denunciar os abusos de que foram vítimas ao longo da sua carreira. Mas a peça de Fernanda Câncio não se foca no assédio no local de trabalho ou, de uma forma mais geral, nos abusadores que conhecem e convivem com a vítima. Descreve, isso sim, as ofensas, os insultos e as ameaças de teor sexual que homens desconhecidos dirigem a raparigas menores que, em muitos casos, teriam idade para ser suas filhas. Ou netas.

“Ó boa, essas pernas, esse rabo, o que eu te fazia. Desde os 12 anos que oiço esse tipo de comentários sobre o meu corpo. Sempre de homens mais velhos, muito mais velhos. Até já fui perseguida por um.”

Julgo que a realidade retratada nesta reportagem não será novidade para nenhuma rapariga. Pois desde muito cedo, por vezes ainda antes de chegar à adolescência, começam a ouvir, na rua, comentários e propostas indecentes:

“Ó pequenina, eu quero-te foder”, disse o homem de 65 anos à menina de 10.

Será que isto configura um crime de assédio? Para o Tribunal da Relação de Coimbra, não. Justificação? A lei define este tipo de assédio sexual como “conversa” com a vítima. Ora como a miúda não respondeu ao abusador, não existiu conversa, logo não houve crime. A decisão demonstra que de pouco valerão as leis enquanto a obtusidade e a incompreensão prevalecerem entre os juízes encarregados de as aplicar. E a verdade é que o assédio sexual continua a fazer parte de uma normalidade que, enquanto sociedade, nos temos esforçado pouco por modificar.

“Não me lembro de existir sem ser assediada. E não tenho uma mulher à minha volta que nunca o tenha sido. Parece que faz parte. O facto de eu andar na rua não é andar na rua, é estar a ser julgada e apreciada – se sou bonita se sou feia, etc. Faz-me confusão acharem que têm o direito de dar opinião sem ninguém pedir. Como é possível que alguém invada assim o meu espaço?”

O comportamento machista de uma minoria de homens, que se arrogam o direito de assediar mulheres no espaço público, não é apenas de falta de educação e de respeito. É uma questão de poder. Acham-se de facto superiores às raparigas com quem se cruzam, que existem para ser por eles apreciadas e, se for o caso, interpeladas ofensivamente.

“Acho que os homens pensam que têm poder sobre as raparigas. Por acharem se calhar que as raparigas mais novas estão desprotegidas, são frágeis, presas fáceis, que não vão reagir da “má forma” – ou seja da forma correta. Que não vão chamar a atenção e dizer: “Conheço-o de algum lado para falar assim comigo?”, que será se calhar a forma como uma mulher de 40 anos reagirá. A maioria de nós tem medo e não reage.”

Já para a maioria dos homens, que não têm, felizmente, estes comportamentos, a tendência é para os desvalorizar.

“Acho que os rapazes não têm noção daquilo que nós passamos – porque com eles não acontece, é diferente. Quantas histórias é que a gente conhece de um rapaz ir num autocarro e uma senhora mandar-lhe uma boca ou esfregar-se nele? Nenhuma. É a diferença.”

Aos jovens e aos adultos do sexo masculino é-lhes difícil colocar-se no lugar das companheiras, familiares ou amigas que têm de suportar as ofensas e os despropósitos. Mas quando o conseguem fazer, também são capazes de se indignar, percebendo finalmente que o combate ao assédio sexual é uma luta de todos:

Posso falar disto aos meus amigos rapazes vezes sem conta e desconsideram como “coisas da feminista maluca”, mas a primeira vez que veem acontecer ficam passados: “Isto é assim? Quantas vezes ouves estas coisas? Vais responder?” Digo-lhes que é o meu dia-a-dia e ficam de boca aberta. Não têm qualquer noção. As pessoas precisam de sentir as coisas na pele para se importarem. Já tinha falado com eles sobre isso e não ligavam – e depois de repente viram e sentiram a tensão e o desconforto, e nem sequer foram bocas chocantes.” Porque, reconhece Sofia, “é muito difícil quem nunca passou por isto, quem não passa por isto desde criança perceber o que é. Ser-se sexualizada à partida, antes mesmo de saber o que é a sexualidade, qual a minha sexualidade.