Ensinam mesmo quando fazem greve

cruzadas.pngInformam quando não andam a desinformar, espalhando notícias falsas.

Gozam com os professores, quando lhes falta a coragem para se meterem com os poderosos deste país.

Servem a agenda mediática do poder, em vez de agirem com isenção e rigor.

Estas charadas têm todas a mesma resposta. Mas, ao contrário do cruzadista do Expresso, não cometerei a injustiça de dizer que todos os jornalistas agem assim. Serão apenas alguns – embora exista uma especial concentração de jornaleiros manipuladores e tendenciosos no espesso semanário.

Quanto ao acto em si, na linha daquele humor pretencioso, acintoso e sem graça nenhuma  a que o semanário do regime há muito nos habituou, ele é digno, acima de tudo, do mais profundo desprezo da parte de todos os professores que se prezam.

Isso e não lhes comprar o fardo de papel que publicam todos os fins de semana.

Ainda a reutilização de manuais

Os alunos do 1.º ciclo do agrupamento de escolas de S. Julião da Barra, em Oeiras, puderam ficar com os seus manuais, no final do ano lectivo, ao contrário do que foi estabelecido pelo Ministério da Educação (ME). A direcção considerou que a regra “não faz sentido” por estes livros dificilmente poderem ser reutilizados e deu indicações aos encarregados de educação que podiam guardá-los em lugar de os entregar na escola.

No caricato folhetim que tem sido a devolução, para posterior reutilização, dos manuais usados, registe-se a decisão sensata tomada pelo director deste agrupamento de Oeiras.

No extremo oposto, surgem as escolas que se mostram incapazes de fazer cumprir a regra vigente em relação aos manuais dos alunos mais velhos: devem ser entregues de forma a poderem ser reaproveitados. A Educação para a Cidadania não deve ser apenas um título pomposo a enfeitar as últimas mudanças curriculares. Reutilizar deve vir antes de reciclar. Há aqui uma importante aula prática de educação ambiental que ficou por dar aos meninos e meninas que usaram estes manuais.

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Quanto às assistentes operacionais que estão a fazer, de empreitada, um trabalho que não lhes compete, parece-me evidente não só a penosidade da tarefa mas também os riscos para a saúde que poderão estar inerentes à sua repetição prolongada. As senhoras ficam com dores por estar a fazer isto o dia todo e, noutros contextos, já se falaria talvez em maus tratos e assédio laboral. Aqui, estamos numa escola pública. E, apesar da miséria que recebem ao final do mês, os assistentes operacionais continuam a ser vistos, demasiadas vezes, como pau para toda a obra. Mas isso não significa que os direitos e a dignidade destes trabalhadores devam ser menosprezados e desrespeitados.

A burrice é uma ciência?

smart_donkey[1]Santana Castilho evoca a sabedoria popular de António Aleixo para descrever um país em que a burrice ministerial manda nos homens e mulheres de inteligência que todos os dias, nas escolas, dão o seu melhor ensinando as novas gerações.

O cronista do Público desmascara o discurso maniqueísta do SE João Costa e dos seus sequazes: quem não é por nós, que somos bons e defendemos o sucesso, é mau e só quer reprovar alunos. Denuncia a cobardia política de um governo que, tendo ameaçado demitir-se por causa do possível impacto orçamental de uma lei do Parlamento, aceita agora que uma “nota informativa” de uma direcção-geral venha estabelecer, à margem da lei, normas com incidência orçamental. E expõe a falta de equidade e sentido de justiça patente na actuação de um governo que enfrenta os professores enquanto dobra a espinha perante os interesses dos juízes dos tribunais superiores.

…João Costa veio, em artigo de 30 de Maio passado (Observador), defender-se das críticas às suas teorias sobre flexibilidade e inclusão. Abalroada pela demagogia que a domina, a prosa do secretário de Estado assentou num maniqueísmo primário e populista. Segundo ele, uns querem sucesso e inclusão para todos (ele e prosélitos), outros (os que lhe criticam os métodos) preferem reprovar os alunos. Escapou-lhe considerar que o que separa a turma dele (perita em baixar a fasquia dos pobres em vez de lhes conferir os meios para chegarem onde os ricos chegam) da turma dos outros é a recusa, por parte dos segundos, a certificar a ignorância. E que o grande combate a favor da inclusão começa fora da Escola, sob responsabilidade alheia aos professores, colada, outrossim, à pele dos políticos promotores da mediocridade. E continuará na Escola, quando substituirmos proclamações palavrosas, papéis e burocracia por meios, recursos e dignidade para quem ensina.

[…]

Leu-se profusamente na imprensa que o Governo criou um regime especial de avaliação para que professores possam progredir na carreira. Ora o Governo não criou coisa nenhuma. Foi a DGAE que “criou”, com uma simples “nota informativa”, uma brincadeira para remediar a trapalhada que o Governo pariu. Ou seja, o homem demitia-se se a AR fizesse cócegas ao OE, para fazer justiça mínima aos professores. Mas não tugiu nem mugiu quando uma directora-geral resolveu (com impacto orçamental) ao contrário do que continua escrito na lei.

[…]

O Parlamento decidiu aumentar o salário dos juízes dos tribunais superiores, os quais, a partir de agora, poderão ganhar mais do que o primeiro-ministro. Ao fazê-lo, retirou legitimidade moral e ética à retórica da contenção salarial. Com efeito, é inaceitável, no domínio dos princípios constitucionais, que as carreiras das classes profissionais sejam tratadas em função da expressão numérica que as caracteriza, falemos de professores, militares ou outros portugueses…

Mexer com a dignidade dos professores

alex-parafita.jpgLemos e ouvimos, num tom geralmente provocatório, acusar os professores de serem uma classe privilegiada, que ganha muito e trabalha pouco.

São, claramente, comentários e críticas de quem nada sabe sobre a rotina e o desgaste dos professores. De quem desconhece a práxis estranguladora de um professor que concentra em si um rosário infindável de funções e tarefas, trabalhando de dia e de noite, a lecionar turmas numerosas, a elaborar planos de aula, planos de recuperação de alunos e de registos regulares de evolução, a elaborar materiais pedagógicos, projetos de turma, testes de diagnóstico, informação para encarregados de educação, relatórios de tutorias, de projetos, clubes, aulas de apoio, reuniões e elaboração das respetivas atas com encarregados de educação, conselhos de turma, de diretores de turma, de departamento, conselhos pedagógicos… e por aí adiante.

E que dizer de um professor a ter ainda de gerir a terrível realidade de alunos que levam para a escola toda a espécie de dramas, uns mal nutridos, outros violentos, a Polícia a ser chamada a todo o momento, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores…?

A escola é o berço da educação. Ver os professores a terem de vir para a praça pública gritar por dignidade é vergonhoso num país que se quer civilizado.

Por entre o coro de desmerecimentos, críticas e enxovalhos que comentadores com acesso privilegiado às televisões e aos jornais lançam contra os professores, lá se vai encontrando também, embora com alguma dificuldade, quem entenda a dura realidade que é o quotidiano docente. É o caso de Alexandre Parafita, hoje no JN.

Pois uma coisa é a argumentação no plano da falta de dinheiro, da sustentabilidade orçamental, do não dar agora para ter de retirar logo a seguir. Bem diferente é, com motivações de baixa política, orquestrar uma campanha indigna destinada a inferiorizar e denegrir uma classe profissional que é crucial para o desenvolvimento do país. Sem avaliar devidamente as consequências, não só para os visados, mas para o nosso futuro colectivo.

Não deveria ser difícil perceber que, com professores desmotivados e desmoralizados, dificilmente continuaremos na senda do sucesso educativo e da melhoria contínua de resultados dos nossos alunos, que tem sido destacada nos relatórios internacionais.

Nem é com uma carreira pouco ou nada atractiva que se atrairão os melhores profissionais que, num futuro próximo, terão de ser recrutados para a docência, à medida que a actual geração de professores se começar a aposentar em massa.

Cordão humano contra a violência escolar

cordaovaladares2Cerca de 70 pessoas fizeram hoje um cordão humano em Vila Nova de Gaia em protesto pela agressão quarta-feira a uma professora da Escola Básica nº 2 de Campolinho, alertando também para a falta de segurança.

Analisando os pormenores desta agressão cobarde e hedionda à professora da escola de Campolinho nota-se, com alguma clareza, um padrão típico destas situações: uma família desestruturada, uma criança de sete anos que não gosta das aulas e que, provavelmente, inventa e relata em casa supostos maus tratos ou agressões na sala de aula.

Juntem-se a isto a facilidade com que se acede ao interior de uma escola, o sentimento de impunidade induzido pela brandura das leis e a ineficácia da justiça e a desconsideração pública a que os professores são remetidos por parte de quem os tutela e que deveriam ser os primeiros a respeitar e valorizar a classe, e temos, em certas escolas, as condições propícias a que, quando menos se espera, surjam estes incidentes.

Neste caso, há que saudar a pronta manifestação de solidariedade e denúncia pública promovida pelos colegas desta docente e, pela negativa, a forma como o ME continua, não só a desvalorizar toda a problemática da segurança escolar, como a deixar entregues a si próprios os professores vítimas de agressões.

“A menina apenas se recusava a querer trabalhar na escola, chorava e não queria vir para as aulas. No recreio estava muito bem, mas quando tocava não queria voltar para a sala”, argumentou Manuela Castro [coordenadora da escola], admitindo que a aluna pudesse não se sentir “motivada” para aprender, salientando que esta está no segundo ano na escola e que “até agora teve um comportamento normal”.

Argumentando que os “problemas começaram há duas semanas”, disse que a aluna começou a “a queixar-se de que lhe doía a barriga”, atribuindo-o “talvez devido à ansiedade” de ter de estar na sala de aula.

“A professora nunca foi violenta com ela nem com ninguém”, garantiu a coordenadora admitindo pertencer a aluna a uma “família desestruturada” que de “imediato pediu a transferência para outro agrupamento”.

Apesar de “já ter havido alguns antecedentes na escola”, a agressão, segundo o encarregado de educação Alfredo Pinto “não era fácil de adivinhar”, elogiando até, a forma “rigorosa” como a professora dava as aulas.

Afirmando não conhecer os agressores, mostrou-se “indignado” pelo ato ter ocorrido “diante dos filhos”, testemunhando a esposa, Elisabete Martins, que os gémeos “estavam em estado de choque” e que “tiveram dificuldade em adormecer”.

O rol de críticas estendeu-se “à falta de segurança” numa escola em que “qualquer encarregado de educação pode entrar”, ainda que neste caso “conste que a funcionária foi empurrada”, referiu Elisabete Martins.

Da parte do Sindicato de Professores do Norte (SPN), a presidente Manuela Mendonça, acusou “as campanhas públicas contra os professores, como no recente processo de recuperação de anos de serviço, de criarem um clima que põe em causa a sua imagem e debilita a sua autoridade”.

“Não temos dúvidas que há responsabilidade de todos quantos injustamente atacam os professores porque estão a pôr em causa a sua autoridade”, acrescentou a sindicalista, exigindo que os “agressores sejam exemplarmente punidos”.

Podem criar quantas fundações quiserem…

…não é isso que vai construir uma imagem de responsabilidade social a quem não a tem. A gente que subiu na vida e pretende ser, agora, algo mais do que uma família de merceeiros ricos.

Pingodevergonha

O que lhes falta? Tratarem dignamente os seus trabalhadores, respeitando os direitos de quem contribui, dia a dia, para que o grupo do Pingo Doce tenha lucros de milhões – talvez este seja um bom ponto de partida…

Num comunicado enviado às redacções, o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP/CGTP-IN) dá conta da adesão «significativa» dos trabalhadores do Pingo Doce da loja da Estrada da Luz à greve agendada para o passado dia 28 de Março.

Explica ainda que, em piquetes à porta da loja, os trabalhadores procuraram transmitir aos clientes os problemas ali existentes, nomeadamente os baixos salários, os horários desregulados, a precariedade laboral e a «repressão/intimidação que a gerente de loja tenta exercer sobre os trabalhadores».

Neste contexto, a organização sindical sublinha que «o Pingo Doce lida mal com os direitos dos trabalhadores», acusando a empresa de ter chamado funcionários de outras lojas para substituir os que estavam em greve na da Estrada da Luz e de estar agora a proceder à transferência para outras lojas dos trabalhadores que aderiram à greve.

Trata-se de uma «retaliação por terem aderido à greve», denuncia o CESP, acrescentando que, se «não existe nada escrito que o comprove», a razão é dada a entender aos trabalhadores «de “boca”» e «não é a primeira vez» que acontece na empresa.

O sindicato criticou este «comportamento», que «só vem confirmar aquilo que o CESP já diz há muito tempo: a empresa não valoriza nem respeita os trabalhadores, aqueles que fazem com que a empresa tenha milhões e milhões de lucros por ano».

Greve de professores na Polónia

Uma greve de 600 mil professores e auxiliares educativos cumpriu ontem o seu quinto dia na Polónia. Está a ser praticamente ignorada pelos media internacionais, sempre tão atentos às recomendações da OCDE ou aos prémios para os docentes que se enquadram no modelo de professor missionário tão apreciado pelas fundações e multinacionais influentes no sector. Na imprensa portuguesa, tanto quanto me consegui aperceber, há zero notícias sobre o assunto.

Mas existe alguma informação disponível aqui e ali, bem como imagens que têm sido partilhadas em redes sociais relativas, nomeadamente, aos exames. Na falta de juízes reformados ou árbitros “representantes dos trabalhadores” que decretem a obrigatoriedade de os grevistas assegurarem este serviço, as autoridades recorrem aos bons serviços de padres e freiras para vigiarem as salas de exame…

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