age summit 2019

agesummit2.jpgNum formato moderno, em busca de maior visibilidade para a causa, uma denúncia e uma reivindicação antigas: Portugal tem um corpo docente excessivamente desgastado e envelhecido. E enquanto os mais velhos se arrastam para as salas de aula, porque lhes são impostos cortes incomportáveis se optarem pela saída antecipada, os professores mais jovens não conseguem exercer a profissão.

São necessárias respostas específicas para um problema que urge resolver antes que, dentro de meia dúzia de anos, se inicie um processo de aposentações em massa dos actuais docentes. É que nessa altura não haverá profissionais qualificados em número suficiente para satisfazer as necessidades…

Quanto às reivindicações nesta matéria, elas não são tão irrealistas nem tão dispendiosas como o Governo gosta de fazer crer. Na verdade, se forem feitas contas aos custos que estão a ter as mobilidades por doença e as substituições por baixa prolongada, percebe-se que no caso de muitos professores mais velhos, doentes e desgastados, haveria ganhos efectivos na sua substituição permanente por docentes mais jovens.

Fica o apontamento noticioso sobre a cimeira da idade hoje organizada pela Fenprof…

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São cada vez menos e cada vez mais envelhecidos. Por isso, saíram à rua esta quinta-feira de manhã com as suas idades, tempos de serviço e cortes na pensão ao peito. Os professores uniram-se em frente ao edifício da Presidência do Conselho de Ministros para pedir medidas urgentes por parte do governo, numa ação satírico-reivindicativa à qual chamaram “Age Summit” (Cimeira da Idade).

“Idade: 57 anos. Tempo de serviço: 36 anos. Corte na pensão: 2318€”, lê-se numa das credenciais dos professores, mostrando que a guerra iniciada este ano ainda não acabou. O parlamento aprovou a recuperação integral do tempo dos professores e o governo ameaçou demitir-se. A crise política atada à crise do corpo docente entretanto terminou, mas não ficou resolvida.

A Federação Nacional dos Professores (Fenprof), organizadores do protesto desta quinta-feira, não desistiu da luta. As vozes que se levantaram esta manhã visam “pressionar o governo sobre a questão da aposentação”, explica Vítor Godinho, da Fenprof.

Despesas profissionais

Não reconhecidas, muito menos assumidas pelo ME. E que, sendo os professores trabalhadores por conta de outrem, a quem a entidade patronal deveria fornecer gratuitamente todo o material de trabalho, nem sequer podem entrar no IRS…

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© Facetoons

Um retrato instantâneo da classe docente

cne-estudo.JPGO Conselho Superior de Educação publicou um estudo, encomendado pela Assembleia da República na anterior legislatura, sobre as necessidades futuras de recrutamento de professores. Mesmo numa leitura rápida, ressalta a abundância de informação e a elevada qualidade técnica do documento, sobretudo ao nível da caracterização da profissão docente.

Uma leitura recomendada a que se poderá aceder clicando na imagem ao lado. De um documento incontornável e a que seguramente voltarei em novos posts, ficam para já as “gordas”: um retrato da classe docente que, não sendo novidade, reforça aquilo que há muito se sabe sobre os professores. Mas que alguns, incluindo gente com responsabilidades, fazem por ignorar.

Nos estabelecimentos de educação e ensino público do Continente estavam recenseados 120 852 docentes em 2018.

Uma profissão essencialmente feminina. Corpo docente constituído por uma percentagem de 78% de mulheres, onde sobressaem as educadoras de infância com 99%. 

Um corpo docente envelhecido. O número de docentes com 50 ou mais anos de idade é muito elevado, enquanto o dos que têm menos de 35 anos é baixo. Em termos percentuais, o primeiro grupo representa 52,9% e o segundo 1,1%.

A classificação profissional média dos professores ronda os 14 valores.

Os professores têm uma elevada experiência profissional. A maioria dos docentes do quadro de agrupamento e de escola não agrupada tem muitos anos de serviço. Na educação pré-escolar, 46,4% dos docentes tem entre 30 a 34 anos de serviço e 28,8% tem entre 25 e 29 anos. No 1.º CEB, a maior percentagem (24,5%) situa-se nos que têm entre 15 e 19 anos de serviço, embora a maioria tenha mais de 20 anos de serviço. O 2.º CEB e o 3.º CEB e secundário registam as maiores percentagens nos intervalos entre os 20-24 anos e 25-29 anos.

Apesar disso, 58,4% dos docentes encontra-se nos primeiros quatro escalões dos índices remuneratórios e 0,02% no último escalão.

A atratividade pela profissão tem vindo a diminuir. Em termos de alunos inscritos [em cursos de mestrado nas áreas de formação para a docência], registou-se uma diminuição de cerca de 50% entre 2011/2012 e 2017/2018.

Até 2030 mais de metade dos professores do quadro (57,8%) poderá aposentar-se.

É para si, dr. António Costa

antonio-costaGoste-se mais ou menos do estilo, há que reconhecer que as prosas de Santana Castilho sobre o estado da Educação portuguesa são sempre eloquentes e incisivas. Ao contrário da grande maioria dos pedagogos do regime, que oscilam entre a cumplicidade com os decisores políticos e o discurso redondo, pretensamente crítico, mas, na prática, inconsequente, o cronista regular do Público consegue captar como poucos o que se sente e vive diariamente nas escolas portuguesas.

Ignorando o inútil ministro instalado no ME, Santana Castilho acerta em cheio, e marca pontos, ao dirigir-se directamente ao verdadeiro responsável pelo pântano em que se está a afundar a escola portuguesa. A ler na íntegra na edição de hoje do Público.

Sem rodriguinhos e medindo o que digo, é para si, dr. António Costa, que falo, que o ministro Tiago é tão-só seu mordomo. O dr. António Costa é um dos grandes responsáveis pela sucessão de políticas que têm reduzido os professores a simples funcionários, cada vez mais desautorizados e despromovidos socialmente. Um dos grandes responsáveis por, farisaicamente e de modo cruel e perverso, pôr a sociedade e a opinião pública contra os professores: para lhes retirar o direito à greve; para lhes retirar força salarial; para lhes roubar o tempo de trabalho cumprido. É duro o que lhe digo? Repito-lho na cara se quiser, sem seguranças de permeio, para ver se se domina, como o desgraçado professor da D. Leonor não se dominou.

O seráfico paternalismo com que os ideólogos a quem deu rédeas querem que os professores ensinem quem não quer aprender ou integrem quem não quer ser integrado tem de ser denunciado. Com efeito, é fácil medalhar os líricos que decidiram a “inclusão” universal. Mas é impossível, sem meios nem recursos (materiais e humanos), lidar, dia-a-dia, na sala de aula, com jovens com perturbações mentais sérias, descompensados por imposições pedagógicas criminosas.

O problema, dr. António Costa, é a natureza das políticas, que fizeram entrar o ensino em decadência. O problema é que o dr. António Costa afaga banqueiros e juízes sem perceber que morre lentamente uma sociedade que não acarinha os seus professores.

E agora, professores?

perguntas-sem-respostaÉ pouco abonatório o retrato da classe docente esboçado por Maria do Carmo Machado na sua crónica semanal da Visão. Um olhar crítico que exprime o desalento, mas também o conformismo, que vão grassando entre os professores. E que acabamos por compreender e aceitar, até porque sabemos que, de um modo geral, não anda longe da realidade. Ou não fosse a autora, ela própria, professora do ensino secundário.

Não ficaria surpreendida se me dissessem que muitos professores tinham votado PS ou se nem se tivessem dignado ir votar. Há muito que me habituei a uma atitude desistente por parte de muitos professores que, como qualquer funcionário administrativo, se limitam a cumprir horário e a função quase burocrática atribuída, sem criticar, sem ripostar, sem refletir, passando intocáveis pelas gotas de uma chuva que já não os molha. Mas aqueles que, como eu, ainda se molham, o que nos move?

De que se queixam os professores, afinal, perguntam muitos? Pressinto que o futuro será pouco feliz para quem ensina por vocação e faz desta profissão a sua vida. Uma coisa parece certa: não interessa às políticas educativas uma classe docente forte, unida e pensante. Pelo contrário, os políticos que nos governam congratulam-se com aquilo que somos: a classe profissional mais apatetada que este país deve possuir, criticando pelas costas e sorrindo pela frente, sem pingo de solidariedade pelo outro e, sobretudo, incapaz de se impor numa sociedade aniquilada pelo vazio cultural crescente.

Referindo em seguida apenas alguns tópicos de uma infindável lista, esquecidos que parecem já estar para muitos os congelamentos das carreiras, a sobrecarga do trabalho burocrático, a redução das horas letivas após determinado número de anos de serviço (de que muitos já não usufruíram), o aumento das áreas de zona pedagógica, a anormalidade dos mega-agrupamentos, a aumento da idade de reforma, a municipalização do ensino gerido por gente que nem falar sabe, quanto mais escrever, o que nos resta?

Goradas as esperanças de recuperação integral do tempo de serviço, que foram o principal galvanizador da luta dos professores, Carmo Machado propõe que, em vez de se deixarem vencer pelo desânimo ou continuarem a alimentar expectativas irrealistas, os professores centrem a sua acção reivindicativa num pequeno número de questões cruciais para a classe e para o futuro do sistema educativo: um sistema de reformas antecipadas sem penalizações que permita a saída dos professores mais desgastados e a renovação cada vez mais necessária do corpo docente; a redução efectiva do número de alunos por turma e a recriação da escola – e do trabalho dos professores – como espaço de liberdade e criatividade.

Os dois primeiros pontos são consensuais e sobre eles já muito se falou e escreveu. Falta apenas concretizar medidas que se continuam a adiar mas que todos, incluindo os decisores políticos, sabem ser incontornáveis.

Já sobre a reconquista da autonomia pedagógica haverá algo a acrescentar. Na verdade, basta olhamos para a catadupa de ordens, de papéis, de reuniões e de projectos que caem sobre os professores, impostos pelo ME ou pelas lideranças de proximidade, para percebemos a absoluta necessidade de, em nome da sanidade mental dos docentes e da qualidade da educação, libertar o trabalho docente das amarras burocráticas e da ditadura dos projectos que tolhem o exercício da profissão.

É imperioso que o professor deixe de ser um pau mandado ao serviço de “ordens superiores”, reafirmando a sua dignidade profissional e voltando àquilo que nunca deveria ter deixado de ser e que está na essência da sua profissão: um profissional autónomo, crítico e criativo.

Envelhecimento docente

Num futuro próximo, reunião de professor@s semanal sobre inclusão, cidadania e flexibilidade.

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…pelo traço inconfundível do nosso colega Paulo Serra. Retirado daqui.

Professores arrependidos

professora-tristeComo é possível que um terço dos professores portugueses desejasse mudar de emprego mas, ao mesmo tempo, mais de 90% se digam satisfeitos com a profissão?

O aparente paradoxo é uma das facetas do mal-estar docente – esse sentimento, difícil de definir, mas muito comum entre os professores portugueses. Na verdade, a grande maioria dos docentes escolheram a profissão por gosto e vocação, mas sentem-se desencantados com as difíceis condições de trabalho que enfrentam ano após ano, com a desconsideração a que são remetidos pela tutela e com a sensação de que o seu trabalho não é devidamente reconhecido e valorizado pela sociedade.

Nada disto é novidade, e o último relatório europeu sobre a profissão docente mais não faz do que confirmar uma realidade há muito conhecida…

Mais de um terço dos professores em Portugal (35,2%) diz que se pudesse voltar atrás não voltaria a escolher a profissão docente.

Na União Europeia apenas 22% dos docentes revela o mesmo arrependimento pela escolha da profissão. Os dados constam no Monitor da Educação e da Formação de 2019, quinta-feira divulgado pela Comissão Europeia, e são relativos ao estudo Talis de 2018, que inquiriu 260 mil docentes em mais de 40 países.

Paradoxalmente, 92,1% dos docentes diz estar satisfeito com a profissão (89,5% na UE), mas dizem sentir-se pouco valorizados pela sociedade.

O envelhecimento dos professores é um dos principais problemas apontados pela CE. “Os professores estão satisfeitos com o seu trabalho, mas subsistem desafios como o envelhecimento da população docente”, refere o documento da CE.