Inclusão, direito de todos

O professor tem o dever de elevar todos os alunos de uma turma e o gestor escolar tem o dever de elevar a escola que gere com os profissionais que a constituem.

Subscrevo a ideia que Paulo Prudêncio sintetiza com brilhantismo: assim como se espera que o professor trabalhe para o sucesso escolar de todos os seus alunos, também os docentes investidos em funções de gestão devem ser capazes de trabalhar profissionalmente com todos os colegas, para que o trabalho destes tenha os melhores resultados, em prol da escola e dos alunos.

Sempre desconfiei de milagres educativos em escolas onde é reservado o direito de admissão; assim como desconfio de ambiciosos directores com projectos educativos tão fantásticos que parecem só resultar quando aplicados por professores escolhidos a dedo.

Há uma insanável contradição naqueles que, invectivando a “escola do século XIX” revelam afinal uma mentalidade pedagógica tão oitocentista na forma como se exprime em projectos educativos selectivos e elitistas. Ignoram o superior desígnio da escola pública que se afirmou no século XX e que deveríamos ser capazes de transpor para o XXI: uma escola universal, capaz de escolarizar a todos, e a todos incluir na sua diversidade, o que exige tanto a atenção e o respeito à diferença entre os alunos, sobretudo os que têm necessidades especiais, como a aceitação da diversidade entre o corpo docente e da pluralidade de metodologias e pedagogias adoptadas pelos professores.

Um testemunho eloquente

Com um olhar lúcido e discurso a um tempo emotivo e assertivo, Armindo Olveira escreve, no Diário do Minho, sobre a escola que temos. Confrontando-a com a de um passado ainda não muito distante que este professor, já aposentado, recorda com saudade.

“Vim-me embora na altura certa” – quantos de nós ouvimos já esta afirmação, vinda de colegas estimados, profissionais empenhados e competentes que teriam ainda muito para dar à escola pública, mas irremediavelmente desencantados com o rumo que a política educativa, nos últimos 15 anos, têm vindo a tomar?

Consensualizada a importância de uma boa educação para enfrentar os desafios e as incertezas que o futuro nos reserva, nunca a sociedade, no seu todo, se mostrou tão exigente com a escola na formação das novas gerações. E, no entanto, nunca essas exigências se expressaram de modo tão contraditório e desacompanhado dos meios para concretizar as mudanças que todos acham necessárias…

Estou fora do sistema educativo há uns anos. Ainda hoje antigos colegas me perguntam se tenho saudades da Escola. Saudades da minha Escola,… claro. Fico, entretanto, pensativo, hesitante, um pouco absorto até, perante a questão, se bem que a minha resposta, já bem interiorizada, se mantenha sempre a mesma: Qual Escola? A Escola das burocracias, dos planos e dos projectos? Das reuniões intermináveis e maçudas? Das actas “alençoladas”? Da papelada infernal?

Desta Escola não tenho qualquer saudade. Nenhuma. O mesmo não acontece com os alunos e com os pais. Todos os alunos e a maioria dos pais. Sempre foram correctos comigo. Há sempre uns pais mais metediços e impreparados que estorvavam. E estorvam. Sempre tive relações espectaculares com a comunidade educativa por onde lecionei. Não deixei “rabos de palha”, nem contas por ajustar. Cumpri a minha “missão”.

1 – Tenho saudades, claro, da Escola em que o professor tinha “alguma” autoridade e em que os alunos eram disciplinados. Da Escola em que o professor era respeitado e até acarinhado pela comunidade educativa. Da Escola que se envolvia em actividades extracurriculares com gosto e entusiasmo. Da Escola em que os docentes motivados partilhavam experiências, vivências e saberes, numa atmosfera de bem-estar e de compreensão. Sim, da Escola participativa e viva. Da Escola em que os alunos eram o foco das preocupações dos seus professores e estes sabiam estar numa sala de aula como devia ser. Sim, desta Escola tenho saudades. Sem dúvida!

2 – Segundo informações que vou recolhendo junto de professores no activo, esta Escola, que esbocei simplesmente, uns retoques, acabou. Até me dizem que saí do sistema educativo na hora certa. Dizem mais: já não aturo a indisciplina, a falta de autoridade, a enormíssima carga burocrática, os pais zangados. A desmotivação docente é notória e influencia fortemente a acção pedagógica no dia-a-dia. Não é por acaso que as “baixas” por doença são uma marca bem negativa e real no momento educativo actual. Não é por acaso que não há professores para cobrir todas as necessidades da Educação. Não é por acaso que escasseiam candidatos a professores. Não é por acaso que há uma excessiva ingerência dos pais na vida escolar. Não é por acaso que a Escola se debate com problemas de violência e tem alunos sempre insatisfeitos e “desordeiros”. Nada é por acaso. Há causas e os efeitos estão à vista de todos.

3 – A Escola de hoje foi pensada para “amansar” os professores. “Amansá-los” nos salários, na progressão da carreira, no seu trabalho pedagógico, na sua influência socializadora, formadora e cultural. Havia a intenção de os contorcer e torná-los simples funcionários públicos, com todo o respeito pelos funcionários públicos. Os professores são, claramente, actores importantes e imprescindíveis na mudança de mentalidades e na construção de um país mais equilibrado, crítico e mais insubmisso. E esta influência e importância retratou-se durante o período pandémico, em que a capacidade dos professores – de trabalho, de inovação, de querer – veio ao cima. Mostrou a toda a gente que não há Escola sem professores.

Continuar a ler…

Pensamento do dia

Vocês estão todos muito chocados porque em Inglaterra o Príncipe Carlos esperou 73 anos para ser Rei quando em Portugal professores entram no quadro com 68 anos de idade.

O Cão Danado

Acrescente-se apenas, em abono da verdade, que a grande maioria destes professores que efectivam à beira da reforma são oriundos do ensino privado, que deles se serviu durante décadas e os dispensou, ou fez sentirem-se a mais, quando começaram a sair-lhe mais caros. De resto, que outro empregador, além do Estado, passa aos quadros trabalhadores sexagenários?…

A escola às avessas

Confrontar a escola actual com a de um “antigamente” já algo distante, mas que a maioria dos professores hoje no activo ainda conheceu, pode ser um exercício interessante e revelador, sobretudo quando feito com a indispensável dose de humor.

Poderemos nem concordar com todas as comparações feitas, mas há que reconhecer a inspiração, o sentido de oportunidade e a ironia mordaz do texto que aqui divulgo com a devida vénia. Rindo se dizem as verdades e se corrigem os maus costumes: eis dois velhos ensinamentos que a modernidade tende a esquecer.

A autoria é de Luís Costa, um dos mais antigos e activos professores-bloggers, actualmente a publicar através da sua conta de Facebook.

ANTES – Após o prazo legal, as faltas eram mesmo injustificadas.

AGORA – É preciso o DT andar atrás dos encarregados de educação e dos alunos para que eles aceitem justificar as faltas.

ANTES – As faltas contavam para reprovar.

AGORA – Só servem para dar trabalho ao DT.

ANTES – Só passava quem estava preparado.

AGORA – É preciso um aluno esforçar-se mesmo muito para ficar retido. E mesmo assim…

ANTES – Pais e professores responsabilizavam os alunos pelo seu mau comportamento.

AGORA – A Tutela, os pais e os alunos responsabilizam os professores.

ANTES – Pais e alunos receavam as faltas disciplinares e as medidas sancionatórias.

AGORA – A escola receia as faltas disciplinares e as medidas disciplinares sancionatórias.

ANTES – Pais e professores responsabilizavam os alunos pelo seu mau aproveitamento.

AGORA – A Tutela, os diretores, os pais e os alunos responsabilizam os professores.

ANTES – Pais e alunos temiam as reprovações. 

AGORA – A escola tem pavor das retenções.

ANTES – Nos exames, os alunos eram responsáveis pelo seu material, respeito pelas normas de realização do questionário, pelos dados fornecidos, pelas atitudes…

AGORA – Tudo se exige aos professores vigilantes: que confiram os cabeçalhos, se os meninos ultrapassam as margens, se escrevem a lápis onde não devem…

ANTES – Os pais educavam e a escola ensinava.

AGORA – A escola substitui os pais na educação, ocupa o tempo dos meninos, leva-os a viajar e… ensina, no tempo sobrante.

ANTES – Tudo o que era relevante ficava na ata, que era, normalmente, sucinta.

AGORA – A ata tem sempre mais de uma dezena de páginas, e têm ainda vários anexos.

ANTES – Ata, pauta e termos (nos anos terminais de ciclo) eram os documentos das reuniões de avaliação.

AGORA – As reuniões de avaliação são açambarcadas por uma autêntica resma de documentos (uns inúteis e outros que são meras câmaras de vigilância, de intimidação e de pressão).

ANTES – A papelada das matrículas era assunto dos pais, dos alunos e da secretaria.

AGORA – São os DT que tratam desse serviço e entregam a papelada na secretaria.

ANTES – A candidatura aos subsídios escolares era assunto dos pais, dos alunos e da secretaria.

AGORA – São os DT que tratam desse serviço e entregam os documentos na secretaria.

ANTES – As funções do DT estavam bem definidas e delimitadas .

AGORA – O DT é pau para toda a colher.

ANTES – Os professores eram respeitados pela Tutela, pelos pais e pelos alunos.

AGORA – A Tutela não respeita os professores, e é assustadora a quantidade de pais e de alunos que também não os respeitam.

ANTES – Havia sufrágios universais, livres e democráticos para os órgãos de gestão e coordenações.

AGORA – Não há, e o que se faz é um mero simulacro sempre condicionado, a montante.

ANTES – Na escola vivia-se a democracia.

AGORA – A escola é uma ditadura burocrática para os professores e uma anarquia para os alunos.

ANTES – A escola era um lugar saudável.

AGORA – A escola é um lugar doentio!

Da falta de vocações

Há duas ou três décadas notava-se a falta de padres para assegurar os serviços religiosos num país de tradição católica. Falava-se então da falta de vocações sacerdotais. Discutiam-se causas, e quase sempre se concluía que o conservadorismo da instituição e a rigidez das regras, nomeadamente em relação à obrigatoriedade do celibato, afastavam muitos jovens dos seminários.

Contudo, a “falta de vocações” religiosas apenas se notava – e nota – relativamente aos padres. No “topo da carreira” – bispos, arcebispos, cardeais e outros altos dignitários – nunca houve carência de candidatos nem se sente a tal falta de vocações…

Lembrei-me disto a propósito da falta de professores que se começa já a notar e que se irá agravar ao longo da próxima década. Também se constata que a profissão atrai pouca gente, apesar de ser, como era a de padre antes de os escândalos de pedofilia ensombrarem a imagem do clero católico, uma das mais prestigiadas socialmente.

Já nos gabinetes ministeriais, direcções-gerais, departamentos de Educação das universidades, ESEs ou centros de formação de professores, aí não parece haver falta de vocações “pedagógicas”. Nem falta de candidatos ou dificuldades em recrutar…

Prémio de carreira

Agora que professor volta a poder ser qualquer um, que tal um prémio de carreira para os docentes qualificados, competentes e esforçados que durante décadas aguentaram o barco? Aqueles que, nem sempre reconhecidos e apoiados pela tutela ministerial, conduziram os alunos portugueses a uma melhoria consistente dos seus resultados, comprovada pelas avaliações internacionais?

Bom, talvez seja melhor não dar ideias…

Imagem daqui.

Pensamento do dia

O estudo, o esforço, a disciplina e o trabalho são mitos, fantasmas da odiosa escola tradicional e oitocentista.

Excepto para os professores, que sempre serão os culpados de tudo o que está mal na sociedade porque lhes falta formação, esforço, trabalho e disciplina.

Daqui.

Jô Soares (1938-2022)

O professor está sempre errado!

O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!
É jovem, não tem experiência;
É velho, está superado!
Não tem automóvel, é um pobre coitado;
Tem automóvel, chora de “barriga cheia’!
Fala em voz alta, vive gritando;
Fala em tom normal, ninguém escuta!
Não falta ao colégio, é um ‘caxias’;
Precisa faltar, é um ‘turista’!
Conversa com os outros professores, está ‘malhando’ os alunos;
Não conversa, é um desligado!
Dá muita matéria, não tem dó do aluno;
Dá pouca matéria, não prepara os alunos!
Brinca com a turma, é metido a engraçado;
Não brinca com a turma, é um chato!
Chama a atenção, é um grosso;
Não chama a atenção, não sabe se impor!
A prova é longa, não dá tempo;
A prova é curta, tira as chances do aluno!
Escreve muito, não explica;
Explica muito, o caderno não tem nada!
Fala corretamente, ninguém entende;
Fala a ‘língua’ do aluno, não tem vocabulário!
Exige, é rude;
Elogia, é debochado!
O aluno é reprovado, é perseguição;
O aluno é aprovado, deu ‘mole’!
É, o professor está sempre errado…
Mas se você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!!!

Jô Soares

Consulta da FNE às condições do trabalho docente 2021/22

Os sindicatos de professores são frequentemente acusados de não estarem em sintonia com a classe que representam. Os seus principais dirigentes, alheados do quotidiano escolar, não vivenciam, muito menos sentem na pele, os reais problemas dos professores. E se esta generalização é injusta – no meu sindicato, por exemplo, sei que a grande maioria dos dirigentes são professores no activo – é inegável que nas cúpulas sindicais tende a haver, até pelas exigências do trabalho sindical, algum afastamento das escolas, que a escassa renovação dos dirigentes também acentua.

É por isso de saudar e divulgar esta iniciativa da FNE, como a de qualquer outro sindicato ou federação que vá no mesmo sentido, destinada a auscultar, para melhor perceber, as dificuldades, os constrangimentos e os anseios sentidos pelos professores nas suas escolas, ao longo do ano lectivo que agora termina.

O inquérito é anónimo e pode ser respondido, online, em poucos minutos.

Com este questionário pretendemos conhecer a opinião dos Educadores e Docentes da Educação Pré-Escolar e do Ensino Básico e Secundário em Portugal continental e nas Regiões Autónomas, assim como dos docentes do Ensino Português no Estrangeiro (EPE) acerca das condições de trabalho ao longo do ano letivo 2021/2022.

As respostas a esta consulta são muito importantes para a nossa intervenção e agradecemos todos os contributos.

Assim, pedimos que não deixe de colaborar com esta iniciativa da FNE, porque desta forma estará a contribuir para ser melhor defendido.

O prazo para preenchimento destes questionários termina às 18h00 do dia 8 de julho de 2022.

Preencha aqui o questionário sobre as condições de trabalho docente no ano letivo 2021/2022 :

DOCENTES do Ensino Pré-Escolar, Básico e Secundário de Portugal Continental e Regiões Autónomas – https://forms.gle/mAHttTn1ibh5Tm5o9

DOCENTES do EPE – https://forms.gle/qqQkS6UkrJRpDfp49

Quem são os professores-deputados?

Foi com enorme pesar e vivo repúdio que a FENPROF assistiu ontem (24 de junho) à não aprovação pela Assembleia da República de duas Resoluções e um projeto de Lei, apresentados, respetivamente, por PCP, BE e PAN, que visavam eliminar o regime de vagas na progressão dos docentes aos 5.º e 7.º escalões. O “chumbo” destas importantes iniciativas parlamentares deveu-se ao facto de o PS e a IL terem votado contra, sendo ainda de registar negativamente a abstenção do PSD. Foi particularmente repugnante assistir à votação de deputados e deputadas que são docentes, mas, em nome de interesses partidários, decidiram trair os seus colegas de profissão.

Confirma-se quem são os inimigos dos professores e educadores; quem são os que, apesar de responsáveis pelo roubo de anos de serviço cumprido pelos professores, não hesitam em manter um mecanismo administrativo que já impede mais de cinco mil professores de progredirem a escalões a que já deveriam ter progredido há cerca de dez anos.

A desvalorização da carreira e consequente quebra dos salários dos professores é um dos principais fatores do afastamento desta profissão e da crescente falta de professores nas escolas. Mas os responsáveis por esta grave situação sentida nas escolas, ao invés de investirem na profissão docente, decidem prosseguir a sua desvalorização, enquanto procuram formas desqualificadas de substituir os muitos milhares de profissionais que se aposentarão nos próximos anos.

A Fenprof tomou posição sobre a rejeição, por uma maioria parlamentar formada pelas bancadas do PS e da IL, de três propostas que pretendiam eliminar os bloqueios à progressão na carreira dos 5.º e 7.º escalões.

Além das críticas óbvias aos partidos que optaram pelo voto contra e ao habitual nim do PSD sempre que estão em causa as questões da carreira e da profissão docente, a Fenprof levanta uma questão antiga, mas incómoda, que estas votações suscitam: tem havido, em todas as legislaturas, um número significativo de deputados que são professores de profissão. O que leva estes deputados a agir contra o que supostamente seriam os seus próprios interesses, e os da classe a que pertencem? É um voto com convicção, ou limitam-se a obedecer ao respectivo directório partidário?

Claro que a resposta, pelo menos em parte, não é reconfortante: a maioria destes deputados-professores estão no Parlamento não para contribuir para a resolução dos problemas e bloqueios que afectam a carreira docente pela razão simples e prosaica de que não querem ser professores. E a forma de conseguirem na política uma carreira alternativa à docência depende de seguirem fielmente as orientações de voto ditadas pelo partido. Defendendo hoje, na AR, exactamente o oposto do que muitos deles reclamavam há poucos anos, quando exerciam ainda a profissão.

Ainda assim, os 230 deputados são os nossos representantes: exercem o poder legislativo e demais competências que a Constituição lhes confere em nome de todos os cidadãos. É justo por isso, e prática habitual em democracias consolidadas, que se vejam obrigados a justificar, perante os cidadãos, as suas opções políticas. Faz assim todo o sentido a promessa da Fenprof: divulgar a lista actualizada dos deputados-professores para que todos, docentes e não só, lhes possamos pedir contas…