Quem são os especialistas da Educação?

Os académicos que nunca deram uma aula fora da universidade?

Os burocratas ministeriais, enfiados nos seus gabinetes?

Os políticos em trânsito pelo Ministério da Educação?

Os psis, que atendem uma criança de cada vez?

Porque é tão difícil entender que os especialistas em Educação são os professores?

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Teóricos…

perito-ed.JPGQuando a ideia é aprender alguma coisa com eles, eis o método mais eficaz para avaliar o que cientistas da educação, pedagogos  e especialistas em desenvolvimento do currículo, inovação educativa, flexibilidade curricular, educação do século XXI terão para nos ensinar. Basta perguntar-lhes se dão mesmo aulas nalguma escola básica ou secundária.

Se a resposta for sim: óptimo, por favor compartilhe a sua experiência.

Se a resposta for não: obrigado, volte quando já o tiver feito.

Adaptado daqui.

A melhor pedagogia

aulaOs conselhos são de Javier, um professor que, à semelhança de outros colegas espanhóis, escreve sobre Educação com a clarividência e acutilância que por cá, demasiado submissos aos mestres académicos e às autoridades ministeriais, tantas vezes nos continuam a faltar.

Se os teus alunos não dominam os conteúdos, dá prioridade aos métodos de ensino directivos ou tradicionais.

Se os teus alunos dominam os conteúdos, então podes experimentar os métodos não-directivos.

Se és tu que não dominas os conteúdos que ensinas, vai dar ao mesmo, se bem que com os não-directivos disfarçarás melhor.

E agora pergunto eu: na perspectiva de quem quer pagar pouco aos professores, extinguir a carreira docente tal como, até 2005, a conhecemos, deseinvestir na formação de professores, apostar na indiferenciação e na polivalência dos docentes e em visões holísticas, integradoras ou transdisciplinares do saber – nas quais, em última análise, qualquer um pode ser professor de qualquer coisa -, nessa perspectiva, dizia eu, que métodos de ensino serão mais “eficazes”?…

O fim de uma greve

diabos_de_amarante.jpgLendo as palavras pesarosas e sofridas escritas pela Anabela Magalhães no seu blogue, percebi que a greve às avaliações caminha a passos largos para o seu fim. O esforço enorme que estes professores fizeram para manter viva uma luta que tantos abandonaram está agora a sucumbir perante a artilharia pesada do ME.

A minha escola, que eu jamais voltarei a escrever, palpita-me!, com letra maiúscula, morreu mesmo à minha frente antes do início de uma “coisa” a que agora também se chama reunião de avaliação. […] A reunião fez-se comigo em greve e comigo saíram mais dois elementos daquele conselho de turma que ainda não tinha começado.

O modus operandi não surpreende verdadeiramente, e mostra que o velho hábito de governar pelo medo, que julgávamos morto e enterrado com o fim do anterior regime, sobrevive afinal, escondido debaixo da capa da democracia.

Quando uma escola como a EB23 de Amarante, uma das resistentes desde a primeira hora, capitula, e os seus professores não escondem o desânimo e a revolta, percebe-se que o mesmo, ou algo semelhante, estará a suceder nas restantes escolas resistentes. Como testemunha outra professora…

Na minha escola fizeram-hoje todos os CT de 7.º, 8.º e 10° previstos. Sob ameaça e com a presença de uma inspetora durante quase todo o dia e com a Dgest a telefonar de hora a hora para pressionar. Digno dos mais negros tempos da ditadura salazarista.

É nestes momentos em que resplandecem os vícios do Portugal salazarento que percebemos o que ainda nos falta crescer, colectivamente, para nos assumirmos como um verdadeiro Estado de direito, uma democracia autenticamente respeitadora dos direitos dos cidadãos e com um governo ao serviço do povo, em vez de se servir dele.

Para dobrar os professores esgrimiram-se leis, pareceres, acórdãos, despachos. Mas a única coisa que funcionou – na verdade duas coisas – foi um mail não autenticado enviado para as escolas a uma sexta-feira à tarde. E, em complemento das instruções oficiosas, o envio de inspectores para as escolas recalcitrantes, a fim de as obrigar a cumprir, não a legalidade, mas as instruções ilegais emanadas pela DGEstE.

E eis que a doutora Pastor ganhou. Uma funcionária da Dgeste, uma funcionária pública, portanto, ganhou. Fabuloso! Ganhou mesmo à legislação que sempre nos norteou para a realização dos conselhos de turma de avaliação. Mas, ao ganhar, ali e agora, ao fazer ajoelhar/rastejar uma escola ao poder prepotente, arbitrário e indigno, matou uma escola que foi minha.

Não precisamos, afinal de contas, de Constituições nem de leis. Basta apenas haver quem mande e uma matilha de cães de fila que façam os outros obedecer. Colectivamente, continuamos a conviver melhor com a arbitrariedade e o autoritarismo, que nos dizem exactamente o que temos de fazer, do que com o primado da lei e o desafio da liberdade.

Centeno e o discurso da sustentabilidade

centenoEm entrevista publicada no jornal Público, Mário Centeno salienta que o Orçamento do Estado (OE) “é um exercício complexo e para todos os portugueses”.

“Temos em nome de todos os portugueses, de propor um orçamento que seja sustentável, que olhe para o futuro e mostre a continuação do caminho que temos vindo a seguir até aqui. Ninguém iria entender que não fizéssemos exatamente isto e, portanto, não gostaria de singularizar num só tópico. Temos um orçamento, repito, que é para todos os portugueses e que tem de ser sustentável”, disse.

O ministro lembra na entrevista que o Governo “tomou muitas decisões com incidência na carreira dos professores e a primeira foi assumir a contagem do tempo com descongelamento”.

“A dinâmica da carreira dos professores e das regras estabelecidas significa que, ao longo deste ano, 46 mil professores vão progredir e, embora esse impacto financeiro seja desfasado, este ano é de 37 milhões de euros. O OE para 2019 terá uma verba adicional de 107 milhões de euros para fazer face às progressões. Essa aceleração não tem paralelo nas outras carreiras da administração pública”, disse.

Mário Centeno defendeu uma ideia com a qual, em teoria, é difícil não estar de acordo: o Orçamento de Estado é feito para todos os portugueses e não deve estar refém dos interesses específicos de um grupo sócio-profissional.

Mas as verdades evidentes do ministro das Finanças deixam de o ser quando se percebe que está a falar especificamente para os professores, deitando um balde de água fria sobre as suas aspirações – e que usa o argumento do interesse colectivo para justificar o tratamento discriminatório que lhes tem sido dado comparativamente com outras carreiras da administração pública.

Se a recuperação de tempo de serviço dos professores tem um peso orçamental tão elevado, isso significa apenas que os professores, além de serem muitos, contribuíram com a parte de leão do esforço de contenção orçamental obtido através do congelamento das progressões. E que, consequentemente, recuperar nos próximos anos o tempo perdido não deveria ser visto como uma exigência irresponsável, mas sim como a reposição da normalidade numa estrutura de carreira que, boa ou má, nos foi imposta por um outro governo socialista.

Há outra razão para termos dificuldade em levar a sério as palavras de Centeno. É difícil acreditar que não há dinheiro para repor a legalidade da carreira docente quando se têm multiplicado, nos últimos tempos, os exemplos de outros grupos, que não os professores, a receber benesses injustificadas e nalguns casos completamente perdulárias pagas com dinheiro do Orçamento ou das suas adjacências.

Orçamento bloqueado pela luta dos professores?

professores-luta.jpgOu tudo não passará do habitual jogo negocial entre os três principais partidos que apoiam o governo, sabendo-se que arranjar mais dinheiro para os professores contende com outras prioridades e necessidades políticas e orçamentais?

O certo é que a radicalização da luta pelo STOP, o novo sindicato que foi capaz de dar corpo ao inconformismo e à revolta dos professores, parece ter vindo baralhar as negociações em preparação. Tanto a nível sindical, entre o Governo e a plataforma sindical, como a nível político, envolvendo os partidos que compõem a geringonça.

Lendo a imprensa do fim de semana, percebe-se a preocupação do PCP e do BE em alinharem posições ao lado dos professores, deixando clara a sua exigência de recuperação total do tempo de serviço. E corroborando a tese sindical de que essa medida já estava consagrada na lei do Orçamento deste ano, faltando apenas negociar os termos da sua concretização.

PCP e Bloco de Esquerda decidiram apertar o cerco ao Governo do PS, exigindo que seja negociada uma solução que vá ao encontro das reivindicações dos professores que reclamam a contagem integral do tempo de serviço e devidas remunerações. Primeiro foi Catarina Martins a pedir a intervenção directa do primeiro-ministro, António Costa; ontem foi a vez de o PCP exigir que o Governo cumpra o que a Lei do Orçamento do Estado para 2018 dispõe sobre a matéria.

“O que esta situação revela é sobretudo resultado do protelamento pelo Governo da resposta devida aos professores quanto à contagem do tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira”, disse à agência Lusa fonte oficial do PCP. A mesma fonte referiu que “mais do que a emanação de despachos, o que se exige é que o Governo cumpra o que a Lei do Orçamento do Estado para 2018 dispõe sobre a matéria”.

Para além de ter apelado à intervenção directa do primeiro-ministro, neste sábado, em Amarante, a coordenadora do BE, Catarina Martins, também exige que o Governo de António Costa cumpra a lei, lembrando que o BE aprovou “um Orçamento do Estado que dizia que as carreiras iam ser descongeladas para todas as profissões, incluindo para os professores, contando o tempo de serviço e que, depois, seriam negociados os prazos de como eram descongeladas, por causa do impacto orçamental”.

Já do lado do PS e do Governo, as cautelas são maiores. Nota-se a tentativa de não hostilizar os professores e de mostrar abertura negocial. E o reconhecimento de que, trazida para a centralidade da vida política, esta é agora uma questão-chave nas complexas negociações para aprovação do Orçamento para 2019.

Ora isto tem outro significado importante: para ter estar concluída a tempo de ao que vier a ser decidido poder ter cabimento orçamental, a negociação sobre o tempo de serviço a recuperar tem de ficar concluída em Setembro.

A chave de acesso à aprovação do Orçamento do Estado para 2019 será a negociação sobre o reconhecimento progressivo do tempo de serviço na carreira dos professores entre o Governo e a plataforma de sindicatos de professores, em particular com a Federação Nacional dos Professores (Fenprof). Essa é a convicção manifestada por um membro do Executivo ao PÚBLICO.

“O Governo já disse que ia reconhecer dois anos, nove meses e 18 dias”, do tempo total de nove anos, quatro meses e dois dias, afirma o mesmo responsável, explicando que as negociações prosseguem. “Agora, é acertar as contas. O Governo diz que reconhecer tudo o que os professores pedem custa 600 milhões, os professores dizem que é um terço disso. Chegaremos a um consenso”, garante o ministro ouvido pelo PÚBLICO.

Ainda que esta negociação com os sindicatos de professores não integre directa e formalmente as conversações sobre as contas do Estado para 2019, o seu resultado em termos de despesa pública, nomeadamente nos salários e nas reformas dos professores, tem incidência orçamental. Daí que o Governo esteja a apostar em que se chegue a um consenso negocial sobre este assunto em Setembro, de modo a que esteja encontrada a chave para a aprovação do último Orçamento do Estado da legislatura.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Os professores resistentes

Não faço parte do grupo – pelas minhas bandas as “hostilidades” terminaram, por entendimento mais ou menos consensual entre o corpo docente, na sequência da reunião do dia 11 – mas presto a minha sincera homenagem aos colegas que, corajosos e determinados, persistem em greve às avaliações…

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No Fundo: Os maus resultados dos exames

Os exames e provas nacionais continuam, ano após ano, a ser motivo de polémica. E 2018 não foi excepção. Desde logo porque o IAVE continua a não se mostrar capaz de manter, de ano para ano, um modelo mais ou menos consistente de prova, com um grau adequado e uniforme de dificuldade. E, não sendo pedir demais, critérios de classificação que também não variassem de acordo com as sensibilidades e humores de quem os elabora. Muito menos ao sabor de recados ou encomendas vindos do exterior…