E agora, professores?

perguntas-sem-respostaÉ pouco abonatório o retrato da classe docente esboçado por Maria do Carmo Machado na sua crónica semanal da Visão. Um olhar crítico que exprime o desalento, mas também o conformismo, que vão grassando entre os professores. E que acabamos por compreender e aceitar, até porque sabemos que, de um modo geral, não anda longe da realidade. Ou não fosse a autora, ela própria, professora do ensino secundário.

Não ficaria surpreendida se me dissessem que muitos professores tinham votado PS ou se nem se tivessem dignado ir votar. Há muito que me habituei a uma atitude desistente por parte de muitos professores que, como qualquer funcionário administrativo, se limitam a cumprir horário e a função quase burocrática atribuída, sem criticar, sem ripostar, sem refletir, passando intocáveis pelas gotas de uma chuva que já não os molha. Mas aqueles que, como eu, ainda se molham, o que nos move?

De que se queixam os professores, afinal, perguntam muitos? Pressinto que o futuro será pouco feliz para quem ensina por vocação e faz desta profissão a sua vida. Uma coisa parece certa: não interessa às políticas educativas uma classe docente forte, unida e pensante. Pelo contrário, os políticos que nos governam congratulam-se com aquilo que somos: a classe profissional mais apatetada que este país deve possuir, criticando pelas costas e sorrindo pela frente, sem pingo de solidariedade pelo outro e, sobretudo, incapaz de se impor numa sociedade aniquilada pelo vazio cultural crescente.

Referindo em seguida apenas alguns tópicos de uma infindável lista, esquecidos que parecem já estar para muitos os congelamentos das carreiras, a sobrecarga do trabalho burocrático, a redução das horas letivas após determinado número de anos de serviço (de que muitos já não usufruíram), o aumento das áreas de zona pedagógica, a anormalidade dos mega-agrupamentos, a aumento da idade de reforma, a municipalização do ensino gerido por gente que nem falar sabe, quanto mais escrever, o que nos resta?

Goradas as esperanças de recuperação integral do tempo de serviço, que foram o principal galvanizador da luta dos professores, Carmo Machado propõe que, em vez de se deixarem vencer pelo desânimo ou continuarem a alimentar expectativas irrealistas, os professores centrem a sua acção reivindicativa num pequeno número de questões cruciais para a classe e para o futuro do sistema educativo: um sistema de reformas antecipadas sem penalizações que permita a saída dos professores mais desgastados e a renovação cada vez mais necessária do corpo docente; a redução efectiva do número de alunos por turma e a recriação da escola – e do trabalho dos professores – como espaço de liberdade e criatividade.

Os dois primeiros pontos são consensuais e sobre eles já muito se falou e escreveu. Falta apenas concretizar medidas que se continuam a adiar mas que todos, incluindo os decisores políticos, sabem ser incontornáveis.

Já sobre a reconquista da autonomia pedagógica haverá algo a acrescentar. Na verdade, basta olhamos para a catadupa de ordens, de papéis, de reuniões e de projectos que caem sobre os professores, impostos pelo ME ou pelas lideranças de proximidade, para percebemos a absoluta necessidade de, em nome da sanidade mental dos docentes e da qualidade da educação, libertar o trabalho docente das amarras burocráticas e da ditadura dos projectos que tolhem o exercício da profissão.

É imperioso que o professor deixe de ser um pau mandado ao serviço de “ordens superiores”, reafirmando a sua dignidade profissional e voltando àquilo que nunca deveria ter deixado de ser e que está na essência da sua profissão: um profissional autónomo, crítico e criativo.

Envelhecimento docente

Num futuro próximo, reunião de professor@s semanal sobre inclusão, cidadania e flexibilidade.

profs-seniores.jpg

…pelo traço inconfundível do nosso colega Paulo Serra. Retirado daqui.

Professores arrependidos

professora-tristeComo é possível que um terço dos professores portugueses desejasse mudar de emprego mas, ao mesmo tempo, mais de 90% se digam satisfeitos com a profissão?

O aparente paradoxo é uma das facetas do mal-estar docente – esse sentimento, difícil de definir, mas muito comum entre os professores portugueses. Na verdade, a grande maioria dos docentes escolheram a profissão por gosto e vocação, mas sentem-se desencantados com as difíceis condições de trabalho que enfrentam ano após ano, com a desconsideração a que são remetidos pela tutela e com a sensação de que o seu trabalho não é devidamente reconhecido e valorizado pela sociedade.

Nada disto é novidade, e o último relatório europeu sobre a profissão docente mais não faz do que confirmar uma realidade há muito conhecida…

Mais de um terço dos professores em Portugal (35,2%) diz que se pudesse voltar atrás não voltaria a escolher a profissão docente.

Na União Europeia apenas 22% dos docentes revela o mesmo arrependimento pela escolha da profissão. Os dados constam no Monitor da Educação e da Formação de 2019, quinta-feira divulgado pela Comissão Europeia, e são relativos ao estudo Talis de 2018, que inquiriu 260 mil docentes em mais de 40 países.

Paradoxalmente, 92,1% dos docentes diz estar satisfeito com a profissão (89,5% na UE), mas dizem sentir-se pouco valorizados pela sociedade.

O envelhecimento dos professores é um dos principais problemas apontados pela CE. “Os professores estão satisfeitos com o seu trabalho, mas subsistem desafios como o envelhecimento da população docente”, refere o documento da CE.

Como melhorar a escola?

ilidia-cabral.jpgNo início de mais um ano escolar, e num tempo de almejada renovação da educação em Portugal, importa refletir sobre os desafios que se colocam às escolas. Entre muitos passíveis de serem enunciados, destaco sete, que sucintamente explicito:

1. Num sistema tendencialmente cego, é imperativo atender à singularidade, diversidade e heterogeneidade dos alunos.

2. Isto implica elevar a eficácia do diagnóstico pessoal de cada aluno, equacionar formas mais flexíveis e eficazes de os agrupar, de lhes alocar docentes, de gerir os tempos e os espaços escolares para, assim, podermos também recorrer a estratégias de ensino e de avaliação que não deixem ninguém para trás;

3. Romper com as rotinas paralisantes. Há uma imagem de escola e de professor na qual fomos sendo socializados e que tem vindo a contribuir para a cristalização das práticas escolares…

Foi neste ponto que me comecei a distrair da leitura, saturado como ando de textos recheados de frases feitas e lugares-comuns do pedagogês. É comovente o discurso em torno da escola para todos, mas a funcionar à medida de cada um, da inovação e da criatividade sempre a jorrarem por todos os lados, do pensamento estratégico, do questionar constante, da avaliação sistemática e permanente. De uma educação sempre a evoluir e a crescer, rumo ao nirvana educativo.

A questão de fundo é sempre a mesma: tudo isto, sendo em teoria muito bonito, é incomparavelmente mais fácil de dizer do que de fazer. Pois se assim não fosse, Ilídia Cabral e todos os teóricos que prescrevem estas coisas estariam nas escolas a pô-las em prática. Não a perorar, do alto das suas cátedras e dos seus centros de investigação, sobre o que os professores que trabalham nas escolas deveriam fazer.

Ainda assim há, nestas reflexões, quase sempre algo que se aproveita. Quando já estava prestes a abandonar a leitura, retive-me no último ponto. Guardado para o fim mas, como reconhece a autora, o mais importante de todos:

8. E, por fim, mas talvez o mais importante dos desafios, será o de assumir uma profissionalidade docente consciente, que liberte os professores de uma ordem vassálica e lhes permita ser autores e criadores de oportunidades de aprendizagem mais bem-sucedidas para todos. Isto significa, entre outras coisas, assumir a liberdade de criação e de libertação de uma ordem centralista que, sob a capa da autonomia e flexibilidade, coarta as possibilidades de desenvolvimento.

Em boa verdade, não há escola de qualidade sem valorização dos professores e confiança no seu trabalho. Ao contrário do que crêem os que querem derrubar as paredes das salas de aula para instrumentalizar os professores ao serviço da ditadura dos projectos, a verdadeira autonomia constrói-se na sala de aula, a partir da relação pedagógica que cada professor estabelece com os seus alunos.

Educação e professores no debate Costa-Rio

antonio_costa_rui_rio.jpgPoucas novidades, no que à Educação se refere, do debate de segunda-feira entre os líderes do PS e do PSD.

Ainda que discordando de António Costa, há que sublinhar a coerência: para ele, a recuperação integral do tempo de serviço dos professores é assunto encerrado e nem o facto de ter eleições à porta e muitos professores descontentes o faz alterar, uma vírgula que seja, à posição que o Governo tem assumido. Dali os professores já sabem com o que (não) podem contar, pelo que só lhes resta assumir essa certeza na altura de ponderar o sentido do seu voto.

Quanto a Rui Rio, e embora o PSD tenha cedido em toda a linha à chantagem do PS em matéria de tempo de serviço docente, tenta não fechar completamente a porta às aspirações dos professores. Mais dinheiro não haverá, admite, mas alguma compensação poderá ser obtida, por exemplo, em antecipação da idade de aposentação ou reduções de horário.

“Sobre esse tema não”. Se alguém ainda tinha dúvidas, António Costa foi taxativo a desfazê-las: não se vai sentar à mesa com os professores para dar resposta à reivindicação de contagem integral do tempo de serviço, nem mesmo com “soluções criativas”. No debate televisivo que colocou frente a frente António Costa e Rui Rio, o socialista sublinhou que a reposição que foi feita nesta legislatura foi “justa”, tendo em conta as reposições na restante função pública, e que o governo devolveu aos professores aquilo com que se tinha comprometido: o descongelamento das carreiras.

Por isso mesmo, fecha a porta até mesmo a soluções criativas como a que o presidente do PSD colocou em cima da mesa e que pode passar, por exemplo, pela antecipação da reforma. “Comigo, [os professores] vão sentar-se à mesa para negociar, sabendo de antemão que a margem para reconhecer as carreiras em salário é muito escassa, mas pode ser feito de outra forma, com antecipação de reforma, redução de horários, com diversas formas que podemos e devemos sentar à mesa com os professores”, explica Rui Rio numa piscadela de olho à classe que já tem prevista uma manifestação nacional para o dia anterior às eleições.

Do debate, ficou ainda uma proposta vaga de António Costa sobre concursos de professores. Aparentemente, pretende-se fixar mais cedo os professores numa escola, acabando com a via-sacra dos concursos a que se sujeitam os professores dos QZP, por vezes já com décadas de serviço. Uma ideia justa, mas que só fará sentido se houver um efectivo alargamento dos quadros de escola que permita efectiva mobilidade e aproximação ao local de residência. Esta parte, contudo, o primeiro-ministro “esqueceu-se” de referir…

Em relação à monodocência, António Costa deixou uma sugestão tentadora para os docentes próximos da idade de aposentação: a possibilidade de estes professores deixarem de ter grupo ou turma atribuída, passando a exercer outras funções, lectivas ou não-lectivas, nas escolas.

“Estamos disponíveis para negociar com os sindicatos um modelo em que, em vez de haver concursos obrigatórios de quatro em quatro anos, existam apenas concursos facultativos para quem queira mudar de escola”, defendeu.

António Costa mostra-se disponível para negociar com os sindicatos a possibilidade de, a partir de um limiar de idade, educadores de infância e do primeiro ciclo possam manter-se ativos, mas sem dar aulas diariamente.

Os malandros dos professores em tempo de férias

profs-feriasTêm, pelo menos, cinquenta dias de pausa por ano, que na prática representa o dobro das férias de todos os outros funcionários públicos, já para não falar dos que trabalham no privado. É verdade que levam muitas vezes trabalho para casa – uma exigência que está longe de ser um exclusivo e que se coloca a um cada vez maior número de profissões – , mas a carga horária semanal de exercício efetivo da atividade anda à volta das 24 horas, menos 11 horas semanais que as restantes atividades exercidas no público e menos 16 do que as exercidas no privado, precisamente para atender a essa situação. Segundo um relatório internacional que há uns meses foi tornado público, ganham em média mais do que os outros trabalhadores com formação superior em Portugal, uma tendência que até contraria a maioria dos países da OCDE. 

Para animar a silly season, um funcionário político da câmara de Famalicão (PSD/CDS) resolveu escrever sobre os professores – classe profissional que considera privilegiada e, mesmo assim, “lamechas”…

O argumentário, pobre, começa com o estribilho das férias excessivas. Agora já não são três meses, como dizia o outro: o escriba do Correio do Minho contabiliza 50 dias de férias para os professores. O resto gira em torno de uma visão deturpada da profissão que já não é novidade: a desvalorização do trabalho não lectivo, como se um professor só estivesse efectivamente em funções quando está com os alunos. E o eterno culto da mediocridade e do conformismo que nos vai mantendo na cauda da Europa: não se queixem porque há outros que estão ainda pior. Em vez de incentivar toda a gente a lutar pelos seus direitos, tenta-se nivelar por baixo. A lógica é a do quanto pior, melhor.

Por explicar fica, contudo, uma questão importante. Se a profissão docente tem tantos privilégios, por que razão o assessor camarário, profissionalizado na docência de Filosofia, não seguiu a via sacra dos recém-licenciados há vinte anos atrás, quando se formou: os concursos, as contratações temporárias, os horários incompletos, a digressão forçada por vilas e cidades do país para conseguir um contrato, um salário e tempo de serviço. Porque é que o homem que diz conhecer bem a realidade docente fugiu a sete pés desse caminho das pedras, que foi enfrentado por quase todos os professores da sua geração, preferindo em vez disso procurar empregos fugazes no privado até que lhe surgiu a oportunidade da sua vida: uma carreira de propagandista de serviço ao senhor presidente do município.

A diferença entre o articulista, que fugiu de uma profissão que diz ter sido, na sua experiência de professor estagiário, “gratificante”, e os professores “lamechas” que agora vem criticar, é que aquele desistiu cedo da profissão, preferindo lutar individualmente pela conquista do seu lugar ao sol. Já os docentes que trabalham quotidianamente nas escolas sabem – ou deviam saber – que só colectivamente podem fazer valer os seus direitos e aspirações. Ao contrário do assessor, que só tem de promover a boa imagem do presidente da câmara que o contratou, os professores assumem o dever de defender a escola pública e a responsabilidade de educar as novas gerações.

Morrer a trabalhar

morte-medievalParece estar a ser o destino de um número crescente de professores.

Não existem dados objectivos que associem directamente estas fatalidades com a exaustão, o stress, o burnout decorrentes do exercício da profissão docente. Poderão ser meras coincidências, mas a verdade é que, entre a professora que morre em plena sala de aula e os outros dois que falecem durante uma maratona laboral em período de avaliações, parece existir um padrão comum: todos terão estado sujeitos a excesso de trabalho.

Impõe-se por isso um olhar atento sobre estas situações, eventualmente até uma investigação do Ministério Público, como propõe a Fenprof, de forma a perceber-se até que ponto as condições desgastantes em que muitos professores trabalham não andarão, além de lhes tirarem saúde e da energia, também a colocar em risco a sua vida.

O alerta e o repto da Fenprof são importantes, mas não suficientes. Perante um ME que se recusa a reconhecer o excesso de trabalho imposto aos professores como um problema real, devem ser antes de mais os próprios docentes a acautelar a sua saúde física e mental. Não querendo dar passos maiores do que a perna, não aceitando trabalhar em excesso e sem limites ou correr riscos inaceitáveis em nome de um conceito mal compreendido de brio ou de dever profissional.

Quando o ME, apesar do corpo docente cada vez mais envelhecido e fragilizado, continua a não ter serviços de medicina no trabalho, quando permite que, diariamente, milhares de docentes se desloquem por sua conta e risco entre escolas do agrupamento, quando manda apresentar ao serviço professores com doenças terminais, quando não toma medidas para combater a indisciplina e o assédio laboral de que são vítimas os professores em muitas escolas, é evidente que são estes que têm de zelar intransigentemente pelos seus próprios direitos. Ou acabarão como peças descartáveis da máquina trituradora de docentes em que o sistema educativo se vem transformando…

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, disse esta terça-feira, no Porto, que vai solicitar ao Ministério Público (MP) que averigúe as causas da morte de três professores enquanto trabalhavam, nos últimos meses.

“Quando as coincidências são muitas, podem, de facto, não ser coincidências, e nós temos de saber disso. Iremos pedir ao MP que averigúe e tiraremos as conclusões. Há uma coisa que é verdade: os professores estão exaustos. Há um estudo que diz que mais de 70% dos professores apresentam níveis elevados de burnout”, sublinhou Mário Nogueira.

O dirigente da Fenprof, que falava numa conferência de imprensa destinada a fazer a avaliação do ano lectivo, o balanço da legislatura e apresentar perspectivas para o futuro, referiu o caso de uma professora, de Manteigas, que “em plena sala de aula, fulminantemente, caiu para o lado”

“Pode ser coincidência ou não, mas essa professora era titular de todas as turmas do 7.º ao 12.º anos de Inglês, seis níveis diferentes de preparação de aulas diariamente”, disse, apontando o caso de uma outra colega no Fundão. Esta “estava a corrigir 60 provas aferidas, a lançar as notas dos seus alunos e a fazer vigilâncias de exames. Aparece morta em cima do teclado do computador, em pleno lançamento das notas”, disse.

Um terceiro caso apresentado pela Fenprof ocorreu num agrupamento de Odivelas. “O professor enviou por e-mail, cerca da 1h00, os dados pedidos pela escola. No outro dia não apareceu. A medicina legal concluiu que teria morrido por essa hora”, acrescentou. Continuar a ler