Corrida do Professor e da Educação

É hoje à tarde, e quem não se inscreveu já não vai a tempo. Mas é sempre tempo de divulgar, assistir, apoiar.

A 3.ª Corrida Nacional do Professor e da Educação vai realizar-se amanhã, dia 23 de outubro, em Lisboa, pelas 16 horas. Esta é uma iniciativa da FENPROF que conta com o apoio da Companhia de Seguros Caravela e com a colaboração da Câmara Municipal de Lisboa e da Associação de Atletismo de Lisboa.

Esta prova, que também é aberta a clubes e, em geral, a todo o movimento associativo desportivo, contudo, tem uma participação prevalecente de docentes de todo o país, puderam nela inscrever-se individualmente todos os interessados, independentemente da profissão, idade ou género, numa das duas modalidades disponíveis:

  1. corrida de 10km, que também tem caráter competitivo;
  2. marcha de 5 Km, de caráter exclusivamente lúdico.

Também podem participar atletas de mobilidade reduzida que se desloquem em cadeira de rodas.

Com esta iniciativa, a FENPROF pretende destacar, de uma forma diferente, a importância central dos docentes no processo formativo da sociedade, devendo, por isso, merecer o maior respeito de todos, e, de uma forma especial, dos governantes do país e realçar a importância da Escola Pública.

Vamos, também desta forma, reafirmar a força dos docentes e exigir a valorização da nossa profissão.

Dia do Professor – António Nóvoa

Apesar de as comemorações oficiais da Implantação da República ofuscarem entre nós a celebração do Dia Mundial do Professor, António Nóvoa não deixou passar a oportunidade de reafirmar a importância de uma profissão tão essencial como insubstituível numa sociedade culta e desenvolvida. E explica porque, mesmo com paletes de computadores, robots e sistemas de inteligência artificial, necessitaremos sempre da inteligência e da sensibilidade humanas dos profissionais da Educação.

Num tempo de grandes mudanças, muitos alimentam visões “fantásticas” de um futuro sem escolas e sem professores. As escolas seriam substituídas por diferentes situações de aprendizagem, em casa e noutros lugares, através de momentos presenciais e virtuais. Os professores seriam substituídos por dispositivos tecnológicos, reforçados pela inteligência artificial, orientando a aprendizagem de cada criança, de forma personalizada, graças a um conhecimento aprofundado do seu cérebro e das suas características.

Seria um futuro sem futuro, pois a educação implica a existência de um trabalho em comum num espaço público, implica uma relação humana marcada pelo imprevisto, pelas vivências e pelas emoções, implica um encontro entre professores e alunos mediado pelo conhecimento e pela cultura. Perder esta presença seria diminuir o alcance e as possibilidades da educação.

Hoje, mais do que nunca, precisamos dos professores. O próximo relatório internacional da UNESCO tem um título que diz muito:
Reimagining our futures together: A new social contract for education. Os professores são indispensáveis para construir os futuros da educação, criando as condições para uma educação partilhada, através da qual os alunos aprendam a pensar, a colaborar e a estudar juntos.

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Dia Mundial do Professor

O fermento da sociedade

Quando, no início de Fevereiro, Gouveia e Melo assumiu o cargo de coordenador da task force da vacinação anti-covid, Portugal ocupava a nada invejável posição cimeira, a nível mundial, no número diário de novos casos da doença. Sete meses depois, e apesar da pandemia estar ainda longe de debelada, o primeiro lugar que ocupamos é bem diferente: o de país do mundo com maior taxa de vacinação contra a covid-19.

Este sucesso resulta naturalmente de um trabalho colectivo de milhares de profissionais espalhados por todo o país. Modesto e focado na sua missão, o vice-almirante que muitos querem transformar em herói improvável é o primeiro a recusar elogios e honrarias. Distribui o mérito por todos, numa atitude que só o dignifica e que, por se estar a tornar cada vez menos frequente entre as figuras públicas a quem a fama ou o poder sobem à cabeça, aumenta o respeito e a admiração que a grande maioria dos portugueses sentem por Gouveia e Melo.

Na verdade, a competência com que a task force vem executando a sua missão salta à vista naquela que é talvez a operação de saúde pública mais escrutinada de sempre. Se a nossa gestão pública e privada estivesse ao nível que Gouveia e Melo imprimiu ao seu grupo de trabalho, Portugal poderia ser um país muito melhor para os seus cidadãos. Má gestão e fracas lideranças continuam a ser os nossos calcanhares de Aquiles. E esta é, parece-me, uma das grandes lições que nos ficam da pandemia.

Pois não será apenas a eficácia e rapidez do processo de vacinação coordenado por Gouveia e Melo e pela equipa de que se soube rodear, que os portugueses valorizam. Compare-se a liderança serena, a confiança que sempre transmitiu aos subordinados e à população, a autoridade que se afirma pelo exemplo, com a atitude da ministra tresloucada que um dia destes irrompeu aos gritos por uma Loja do Cidadão a destratar os funcionários. Uma ministra que confunde autoridade com autoritarismo e a quem parece faltar noção e, sobretudo, educação. Apesar de também já ter passado, enquanto secretária de Estado no anterior governo, pelo ministério da dita cuja.

Ainda no capítulo da Educação, foi anteontem que, em visita à escola secundária onde estudou, em Viseu, o coordenador da task force se dirigiu-se aos professores que o receberam, salientando o papel fundamental que têm na formação das novas gerações. Se os jovens são a farinha que se transformará em pão, os professores serão o fermento que os faz crescer e desenvolver em toda a plenitude. Uma analogia feliz e oportuna, num tempo em que a lógica das políticas educativas e dos interesses dos mercados vai insidiosamente atacando o profissionalismo docente.

…vim encontrar paz aqui, neste Liceu. Essa paz foi-me transmitida, muito pelos professores e é isso que vos quero dizer enquanto professores. Os senhores são o verdadeiro fermento da evolução, a farinha são os alunos”, comparou por entre aplausos.

Gouveia e Melo disse aos professores que, apesar de acabarem por recordar três ou quatro alunos, “os alunos lembram-se de todos” os professores.

“O vosso exemplo de ética, de paciência, a estrutura que nos conferem, quando somos jovens, ajudando na educação que temos em casa e completando essa educação de casa. Os senhores são dos fatores mais relevantes da sociedade e devem ter orgulho disso e sentirem isso”, sublinhou.

O vice-almirante deu o seu exemplo de quando o questionam sobre a sua escolha profissional, lembrando que “discutem-se ordenados e isso”, mas “só queria ser militar para sentir que fazia parte de um processo e que tinha um papel relevante nesse processo”.

“Os senhores têm esse papel. São muito úteis e são a levedura do futuro desta sociedade. A educação é o futuro de qualquer sociedade e basta olhar para a história e perceber isso”, apontou.

BBD Vida Selvagem – parte II

Segunda parte da BBD Vida Selvagem (primeira parte aqui), um retrato bem humorado dos professores, essa espécie muito peculiar que se foi adaptando à vida na escola. Um habitat que, ainda assim, se revela muitas vezes inóspito aos mais desafortunados docentes. Créditos ao nosso colega e artista Luís Cardoso.

BBD Vida Selvagem – parte I

Esta divertida série de cartoons, do nosso colega Luís Cardoso, já tem alguns anos, mas só recentemente, e por mero acaso, a descobri.

Imaginando a escola como um habitat natural, neste caso a savana, eis alguns dos seus mais notórios habitantes…

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Ainda os bons e os maus professores

Ciclicamente, o mundo mediático desperta para a magia dos bons professores. Há cerca de vinte anos que não saímos dum imaginário maniqueísta exclusivo para professores. Não há nada de parecido com os melhores noutra profissão que não seja do espectáculo ou da precariedade. Nenhuma fundação se atreve a fazê-lo para os melhores psiquiatras, neurocirurgiões ou juízes, nem sequer para o desempenho de deputados, comentadores ou professores do ensino superior.

Desta vez, foi o estudo, “O impacto do Professor nas aprendizagens do aluno“, da Fundação Belmiro de Azevedo. A mediatização suscitou argumentos sobre os melhores e os piores professores que vão para além do estudo. Embora este recorra “à literatura mais recente” sobre os Valores Acrescentados do Professor (VAP), há quem prefira priorizar os Valores Acrescentados das Sociedades – gestão do território e distribuição da riqueza – e os Valores Acrescentados das Escolas – dimensão das escolas e das turmas, currículos consistentemente completos e ambientes civilizados -. Há muito que prevalece uma tensão discursiva entre o profissional e a sua circunstância, como se fosse possível tomar partido. Se numa regressão linear múltipla se escolher o impacto nos resultados dos alunos como variável dependente, decerto que se hierarquizará assim as variáveis independentes com valores acrescentados: sociedades, escolas e professores.

Paulo Prudêncio comenta, no Público e no seu blogue Correntes, o recente estudo sobre o “valor acrescentado” dos professores, a que o jornal deu vasta projecção. Num texto rico de ideias e reflexões, começa por recordar as origens desta pretensão absurda de que é possível isolar a qualidade dos professores das restantes variáveis que condicionam ou determinam o sucesso educativo. E, mais do que isso, torná-la o factor decisivo na melhoria sustentada dos resultados escolares.

A pretensão nasceu nos EUA, onde obteve amplo consenso político entre democratas e republicanos, e teve seguidores noutros países, seduzidos pela ideia de responder ao desafio de melhorar os resultados dos alunos sem realizar grandes investimentos públicos no sistema educativo ou em políticas sociais. Nesta perspectiva, os maus da fita passariam a ser, claro, os professores, avaliados através dos resultados dos seus alunos em provas externas padronizadas e sumariamente despedidos, os “maus”, ao mesmo tempo que se contratavam novos e se conservavam os “bons”. Sem chegar a ser claramente assumido, e por detrás de falinhas mansas e das boas intenções aparentes, é este o programa ideológico subjacente ao estudo patrocinado pelo grupo SONAE.

Claro que o programa reformista da escola pública norte-americana correu mal, como acabaram por reconhecer até alguns dos seus adeptos mais entusiastas. O clima de competitividade malsã, a pressão para produzir resultados lidando com factores que transcendem a escola, o foco nos exames e não nos alunos que se tem à frente, tudo isto desmotivou a afastou bons professores da profissão, ao mesmo tempo que afastou potenciais candidatos dos cursos de formação de docentes, deixando a profissão cada vez mais entregue a paraquedistas. E, claro, reduziu-se a presença dos professores da gestão das escolas, abrindo caminho às empresas privadas e às charter schools, escolas privadas com contrato de serviço público para as quais vai sendo canalizada uma parte crescente dos orçamentos educacionais.

Por cá, ainda não se concretizaram alguns destes erros e excessos, mas o caminho, lembra Paulo Prudêncio, está a ser feito: uma classe docente desgastada, envelhecida e – realidade de que se fala muito pouco – com cada vez menos autonomia no exercício da profissão. A gestão burocrática e autocrática dos mega-agrupamentos e dos directores. A “transição digital” a ser vista como oportunidade de ouro, não só para a venda de computadores e tecnologias, mas também para a imposição de modelos educativos cada vez mais padronizados e automatizados, onde a liberdade pedagógica, a criatividade, o movimento e o espírito crítico serão cada vez mais coarctados.

Ao contrário de outros países ocidentais, onde a escolarização generalizada da população é uma realidade consolidada ao longo de séculos, entre nós a escola universal, democrática e inclusiva é uma criação relativamente recente, cuja consolidação acompanhou a da própria democracia. Estaremos dispostos a destruí-la em nome de falsas pedagogias, pondo em causa, irremediavelmente, o direito universal à Educação?…

Educar ou deseducar, eis a questão

A apresentação do estudo, patrocinado pelo grupo SONAE, sobre a influência dos “bons professores” na melhoria dos resultados escolares, perdão, dos exames, suscitou algumas posições e reacções reveladoras. O lamentável tratamento jornalístico feito pelo jornal Público. A indecorosa colagem de antigos e actuais governantes na área da Educação a uma iniciativa que visa descredibilizar a escola pública que deveriam defender. As declarações oportunistas e ignorantes da CEO da SONAE acerca da escola portuguesa, que não estará a adestrar suficientemente bem os futuros trabalhadores e clientes do grupo.

Tudo isto levanta algumas questões essenciais. Deve a escola promover o conhecimento utilitário e prazeroso, ou focar-se nessas aparentes inutilidades que constituem as bases do conhecimento humano – línguas, matemática, ciências, artes e humanidades? Faz sentido a humanização da relação pedagógica num mundo cada vez mais robotizado, ou o futuro é a aprendizagem automática, baseada na tecnologia e avaliada através de testes padronizados? Pretendemos uma escola que conforme os jovens às inevitabilidades da nova ordem económica global decidida pelos poderes dominantes, ou deveremos preparar cidadãos intervenientes, críticos e activos, capazes de tomar nas suas mãos a construção do seu futuro? Queremos reservar o legado científico e cultural construído pela humanidade ao longo de milhares de anos a uma elite, ou acreditamos que as sociedades livres e democráticas em que escolhemos viver necessitam que o conhecimento e a cultura continuem a ser acessíveis a todos os cidadãos?

Raquel Varela é uma polemista de ideias fortes e, como agora se diz, bastante assertivas. Nem sempre se concorda com tudo o que diz ou com a forma como é dito. Mas parece-me que está a ver com bastante clareza toda esta polémica. E agradam-me as suas respostas às questões que acabei de formular.

…Nos países ricos faz-se ciência, nos pobres ensina-se a usar (e comprar) tecnologia. Num produz-se conhecimento, noutro aplica-se, um é independente, o outro dependente. Em Sillicon Valley os filhos dos criadores da tecnologia não só estão em colégios onde não há telemóveis, como se ensina filosofia grega clássica.

O nosso problema não é falta de máquinas na escola, é excesso delas, concomitante com a falta de de conhecimento e de amor ao conhecimento – sim, vivemos numa sociedade que promove e enaltece a ignorância todos os dias. O conhecimento só pode ser dado com muito bons professores, bem pagos, formados em muito boas universidades, onde chegam depois de ter muito bons professores no ensino secundário, onde chegam depois de ter muito bons professores no ensino primário, que ali chegaram porque tiveram muito bons professores na Universidade. E assim, em ciclos de conhecimento, interligados.

Que a SONAE, e o editorial do Público, propriedade da SONAE, cujo mercado opera em áreas cada vez mais automatizadas, da logística à distribuição, no fundo como alguém disse os dois homens mais ricos do país estão à frente de duas gigantes mercearias (Pingo Doce e Continente), onde se recebe a pronto e se paga a 3 meses, diga que lhes falta programadores para automatizarem as suas linhas de produção, é compreensível. Fazem o que devem para ter lucro e mercado – dois lugares que confesso não frequento. Que Ministros e jornais acarinhem estas estratégias, achando que é de mercearias que um país vive, e da operação de máquinas, é revelador sobre a concepção de educação que o Estado tem para quem anda na escola pública.

A Escola serve para dar o melhor do conhecimento produzido pela humanidade a todos – não serve para servir um mercado de trabalho cada vez mais pobre e desinteressante, desumanizado…

Professores: do que temos ao que queremos

Os nossos jovens, bem informados e cientes da realidade, não se encontram motivados para abraçar a carreira docente, dado a instabilidade que a caracteriza, acrescendo a certeza de virem a lidar com constrangimentos e injustiças várias, que contribuem marcadamente para a tornar pouco aliciante e/ou rentável; Não se estranha, assim, que os cursos universitários via ensino não registem candidaturas ou que estas se concretizem na insípida narrativa dos números. Vislumbram-se alternativas com maior índice de oportunidades de sucesso e realização noutros cursos que os demovem de ingressar nesta tão nobre e imprescindível profissão.

Numa mesma lógica de evidências, os professores que se encontram no ativo recorrem, cada vez mais, à licença sem vencimento de longa duração, que lhes possibilita experimentar outras áreas de atividade, na tentativa de garantirem melhores condições de vida e uma profissão gratificante onde as funções que desenvolvem mais comummente são reconhecidas.

É ético um país, onde a escassez de docentes é visível, tratar assim os seus professores?

E, porque não há duas sem três, sentimo-nos estupefactos e impotentes perante a tirania e ingratidão do sistema educativo em relação aos professores contratados!

Tirano, pois, a 31 de agosto de todos os anos, descarta-se destes profissionais, empurrando-os para o desemprego. E, na maioria dos casos, volta a necessitar deles poucos dias volvidos, quantas vezes acenando-lhes com horários completos e anuais.

Filinto Lima mostra-se demasiadas vezes contemporizador, nas suas intervenções públicas, com as políticas educativas do Governo, incluindo aquelas que desrespeitam os direitos e a dignidade profissional dos professores e que vão infernizando o quotidiano docente. Contudo, em Dia do Trabalhador, lá lhe ocorreu evocar os trabalhadores que os professores também são – e equacionar o futuro cada vez mais comprometido da profissão.

As constatações que faz, não sendo novidade, são pertinentes. A docência é actualmente uma profissão atolada em burocracia, que desgasta e rouba tempo aos professores para o essencial, que é o que melhor sabem fazer: ensinar. As regras que durante décadas nortearam a profissão e trouxeram estabilidade e previsibilidade à gestão da carreira vão sendo postas em causa por procedimentos injustos, arbitrários e penalizadores nos concursos, avaliações do desempenho e distribuição de serviço. Apesar do acentuado envelhecimento da profissão, continuam a não se vislumbrar medidas para atrair e fixar novos professores, insistindo-se em contratações precárias que além de penalizam os docentes também não servem os interesses das escolas e dos alunos.

No entanto, a falta de professores é uma realidade para a qual vamos, de ano para ano, tendo sinais cada vez mais abundantes e evidentes. Os cursos de formação de professores há muito deixaram de ser atractivos. Para quem precisa de um salário ao fim do mês, um contrato de seis meses num supermercado perto de casa é certamente mais compensador do que um horário docente incompleto e temporário a centenas de quilómetros de distância. Com o ritmo das aposentações a aumentar e o da formação de novos professores a diminuir, não faltará muito para que deixe de haver professores qualificados em número suficiente para acudir às necessidades do sistema. Se nada for feito entretanto, assistiremos em breve ao regresso às escolas de professores improvisados, com habilitações suficientes e mínimas, uma realidade comum há 20 ou 30 anos que se pensaria estar definitivamente ultrapassada.

O tempo urge, mas ainda haverá margem fazer as reformas necessárias no regime de quadros, concursos e contratações que possam satisfazer as necessidades a médio prazo do sistema educativo. Mas o Governo continua a ignorar a realidade, limitando-se a gerir o quotidiano e a rejeitar todas as propostas para resolver os problemas que vai empurrando com a barriga. Até quando?…

Professores stressados

Os professores portugueses do 3.º ciclo são os que mais se queixam de stress, os mais insatisfeitos com o salário e os que têm carreiras mais precárias. Quem o diz é um estudo comparativo da Eurydice, que comparou as condições em que é exercida a profissão docente nos diferentes países europeus.

Analisando não apenas as queixas dos docentes portugueses mas comparando também as suas condições de trabalho, carreira, remuneração e avaliação do desempenho com as dos seus colegas europeus, percebem-se muitas das razões pelas quais a profissão deixou de ser atractiva e motivadora. E que sucessivos governos e administração educativa têm muitas responsabilidades na actual situação.

Fica uma síntese da imprensa com os principais destaques do relatório. O documento integral (em inglês) pode ser consultado aqui.

Quase nove em cada 10 docentes portugueses que dão aulas a alunos do 7.º ao 9.º ano disseram sofrer “muito” ou “bastante” de stress quando estão a trabalhar, segundo o relatório “Professores na Europa: Carreiras, Desenvolvimento e Bem-Estar” da Eurydice, um organismo da Comissão Europeia.

A rede de informação sobre os sistemas educativos na Europa comparou a situação dos professores dos 27 estados-membros e de outros países europeus e concluiu que o stress é “comum entre os professores europeus”.

No entanto, numa comparação com a situação vivenciada nos outros países, Portugal destaca-se pela negativa, uma vez que a média europeia de docentes que se queixa de stress fica-se pelos 50% e em Portugal chega aos 87,2%.

Entre as razões pelas quais os portugueses consideram que o trabalho pode ser stressante estão o trabalho administrativo e o “manter-se a par das mudanças exigidas pelas autoridades”.

“Em França, Malta, Lituânia e Portugal, mais de 60% dos professores atravessam momentos de stress devido às mudanças, vivem em stress devido às mudanças requeridas pelas autoridades”, refere o relatório da Eurydice.

Questionados se estavam satisfeitos com o seu salário, apenas 37,8% dos europeus considerou o ordenado satisfatório ou muito satisfatório.

Nesta análise, os portugueses voltam a surgir no fim da tabela, agora ao lado dos islandeses: Menos de um em cada 10 mostrou-se satisfeito com o salário, ao contrário dos Austríacos e Belgas (70%).Portugal é também referido como um dos exemplos com mais docentes com contratos a termo:”

Embora a percentagem de contratos a termo certo normalmente caia à medida que os professores envelhecem, em alguns países existem elevadas percentagem de docentes na faixa etária dos 35-49 anos que ainda estão em empregos temporários como, por exemplo, em Espanha (39%), Itália (32%) e Portugal (41%)”.

Os portugueses são também dos que mais se queixam dos impactos negativos do trabalho na saúde física e mental, segundo os resultados do Inquérito Internacional de Ensino e Aprendizagem 2018 (TALIS — Teaching and Learning Internacional Survey), da OCDE, utilizado no relatório hoje divulgado.

Na Europa, um em cada quatro professores (24%) considera que o trabalho diário afeta a sua saúde mental e 22% apontam consequências físicas.

Os portugueses surgem ao lado dos belgas com “mais de metade dos docentes a considerar que o seu trabalho afeta negativamente a sua saúde física e mental”, refere o inquérito.