A professora que não gosta de ler

prof-isaA professora de português que deu a primeira aula da telescola deu uma entrevista ao Expresso este fim de semana onde diz que nunca gostou de ler, cito, e está a fazer um esforço para ler um livro no Verão. Como professora e mãe também senti vergonha alheia. Na realidade há muito que acho que a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância. O burnout docente contagiou as crianças, o desinteresse pega-se, contagia. O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem – crianças – para um mercado de trabalho desqualificado.

A confissão da professora Isa, uma das mais conhecidas e mediáticas docentes que o #EstudoEmCasa trouxe aos lares portugueses, incomoda muitos dos que se interessam pelo mundo da Educação. Afinal de contas, espera-se que a escola, além de ensinar a ler e a escrever, seja capaz de despertar também o gosto pela leitura e a boa literatura. Mas como se pode transmitir algo que não se tem?…

Claro que existem aqui várias condicionantes. O apelo da leitura concorre com uma miríade de outras actividades capazes de se tornar, no imediato, mais sedutoras e prazerosas. Os professores do primeiro ciclo são generalistas, é natural que alguns não gostem muito de ler, assim como outros se sentirão menos entusiasmados, por exemplo, com as matemáticas, não deixando uns e outros de exercer bem a profissão. E sendo o ofício de ensinar, por diversas razões, cada vez menos atractivo, é natural que os candidatos aos cursos de formação de professores surjam menos motivados e revelem um perfil cada vez mais distante da imagem idealizada do professor.

De facto, há um aspecto do problema que Raquel Varela explica muito bem e que passa pela proletarização da classe docente e pela desqualificação do seu labor profissional. O professor deveria ser visto como um profissional autónomo e criativo, um trabalhador intelectual especializado que constrói e aplica criticamente o seu próprio saber. Mas quantos docentes portugueses se conseguem ver hoje, a si mesmos, dessa forma?

A professora de português que não gosta de ler não é um caso, mas um problema disseminado na educação – a proletarização dos docentes, transformados em mediadores de entrega de conteúdos pré feitos, desprovidos e expropriados do seu ser-pensar-intelectual. No nosso estudo sobre o trabalho docente era visível a desintelectualização da profissão e a falta de consciência desse processo. Quando nós dissemos aos docentes que eles eram intelectuais expropriados uma larga parte ficava impressionado, “então eu devia ser um intelectual”? pensavam com estranheza. Insistimos que para não haver burnout eles tinham que se assumir como sapateiros e não como vendedores de sapatos. Como produtores de conteúdos e não entregadores de conteúdos. E tinham que lutar por isso, não havia e não há outra forma de driblar a depressão, perda de qualidade e sentido do trabalho que não seja lutar contra estas condições de trabalho, por mais ioga e auto ajuda que façam. 

Reflectindo sobre o mesmo tema, Bárbara Wong nota que o problema se evidencia logo nas ESEs e universidades onde se formam professores: o desinteresse, a falta de entusiasmo, o derrotismo estarão, segundo a jornalista do Público, generalizados entre os futuros professores, o que afectará a forma como irão desenvolver o seu trabalho. Este é um problema tanto dos estudantes como das instituições que os formam, fechadas nas suas torres de marfim e alheias à realidade actual das escolas e dos seus próprios alunos. Pela sua transversalidade e amplitude, não é difícil concordar que é, em boa verdade, um problema de toda a sociedade.

Não é fácil encontrar culpados. Temos faculdades vetustas e que se julgam imunes aos preconceitos que existem em relação às ciências sociais e humanas, não os combatendo, convencidas que estão num Olimpo inatingível — há que lembrá-las que os deuses morreram. Temos escolas básicas e secundárias que trucidam professores, afogando-os em trabalho burocrático, em vez de lhes darem espaço para criarem, para fazerem alguma coisa em benefício dos seus alunos. Temos pais que acham graça à função decorativa do livro, que vivem em casas onde o ecrã da televisão é panorâmico, tal como o do smartphone. Temos filhos que “não gostam de ler”, porque ninguém lhes pôs um livro na mão nem no coração. Temos um Plano Nacional de Leitura activo, muito activo, com imensos projectos, mas cujos resultados pouco se vêem porque, afinal, os livros são bons para ter, mas não para ler. Temos uma sociedade que reflecte isso mesmo: bom é ter, não é ser.

Professores, estrelas televisivas?

rap-estudoemcasaO mediatismo que alguns professores da “telescola” adquiriram nos últimos tempos extravasou das aulas para a presença noutros programas televisivos e para o comentário na imprensa e nas redes sociais. E levou-me a escrever sobre o assunto no balanço da semana que faço habitualmente no blogue ComRegras. Este texto recupera e desenvolve o breve comentário que então fiz.

É tão invulgar a presença de professores do básico ou do secundário na televisão portuguesa que as emissões do “EstudoEmCasa teriam, forçosamente, de dar nisto: o cidadão comum apercebeu-se de que o ensino já não é hoje a tal escola retrógrada e parada no tempo que se tornou cliché de uns quantos charlatães da (semi)nova pedagogia. Afinal, parece que as aulas dos professores formados na “escola do século XX” podem ser dinâmicas, integrar recursos diversificados e recorrer às tecnologias. Os professores podem ser imaginativos e até divertidos, na constante busca de formas eficazes de ensinar e aprender. Mesmo que o ensino continue a ser directivo e expositivo, o que no caso da telescola é uma inevitabilidade, tendo em conta o carácter unidirecional da comunicação pelo meio televisivo.

O #EstudoEmCasa trouxe fama a alguns professores e deu-os a conhecer a outros públicos, além dos alunos da telescola. O caso mais notório foi o da dupla de professoras de Inglês que inventou uma espécie de rap para ensinar os meses do ano. O convite para irem a programas de entretenimento televisivo foi insistente, e as colegas acabaram decidir comparecer.

Durante a semana, o assunto foi amplamente discutido entre os professores. Uma discussão que começou com um post algo polémico no ComRegras, chegou à imprensa e se espraiou pelas redes sociais. Não tendo estado em causa, suponho, a liberdade pedagógica inerente à criação de uma estratégia motivadora para os alunos, a questão colocou-se sobretudo ao nível do estrelato televisivo. Devem os professores expor-se desta forma, a eles e ao seu trabalho, em programas de entretenimento? Discutível, sobretudo quando uma das envolvidas acabou a confessar o seu arrependimento e as pressões a que terá sido sujeita.

Mas… por outro lado, porque não? Estará um professor civicamente diminuído em relação à generalidade dos cidadãos que desta forma se dão a conhecer? Se um ministro, que calhou ser da Educação, pode ir a um programa de entretenimento matinal falar do que não sabe, não fará melhor figura um professor a falar da sua profissão?

Pela minha parte, bato-me há muitos anos por uma maior visibilidade pública da classe docente e por um papel mais influente desta, tanto junto da opinião pública como na definição das políticas educativas. Pelo que só devo congratular-me com o protagonismo dado às colegas, ainda para mais assente no reconhecimento da sua competência profissional.

Contudo, importa estar atento às cedências e compromissos que os quinze minutos de fama televisiva podem implicar. Quer isto dizer que qualquer professor que, sendo convidado nessa qualidade, vá à televisão, deve estar consciente de que, mesmo involuntariamente, está de alguma maneira a representar a sua profissão.

Intervir de uma forma que valorize o nosso trabalho e dignifique a nossa profissão, num ambiente que não é aquele a que estamos habituados, nem sempre é fácil, sobretudo em programas que abusam do tom ligeiro, e às vezes brejeiro, para entreter audiências. Pelo que o desafio é usar com inteligência o meio televisivo, sem se deixar instrumentalizar por ele. Há a considerar que reduzir o trabalho docente à caricatura da sala de aula e à piada fácil, preconceituosa e estereotipada é uma velha tradição do humor à portuguesa. Que vem já do tempo, pelo menos, das Lições do Tonecas

Reflexões em torno de uma pintura

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O site espanhol da National Geographic publicou um artigo muito interessante sobre o pintor Diego Velázquez e a sua obra-prima mundialmente conhecida, Las Meninas. Não se focando apenas na inspiração, na originalidade e no talento de Velázquez, mas explorando também o contexto em que o quadro de grandes dimensões foi produzido.

Quando pintou esta obra, que podemos considerar de maturidade, Velázquez era já um artista consagrado. Pintor oficial da corte de Filipe IV, o seu talento era reconhecido por todos. O que lhe faltava era o prestígio social que, na sociedade aristocrática espanhola do século XVII, estava reservado aos membros da velha nobreza. Mesmo tendo sido alvo dos favores régios, com a nomeação para diversos cargos e a atribuição de um título nobiliárquico, havia quem achasse o artista da corte indigno de tal posição. Afinal de contas, ele dedicava-se à pintura, exercendo assim um ofício mecânico. Ora a um verdadeiro nobre estava interdito o trabalho manual.

Vexado por estes preconceitos, Velázquez empenhou-se então em afirmar, através do quadro de que estamos a falar, que o seu trabalho era arte na sua forma mais pura, e não um mero ofício de pintar, misturando cores e reproduzindo figuras numa tela. Os diversos recursos estilísticos utilizados, a técnica muito própria do pintor e até a sua presença física, do lado esquerdo da imagem, tudo se conjuga para fazer desta obra-prima um manifesto em defesa da pintura como arte liberal e não como ofício mecânico assente na mera reprodução da realidade. E do estatuto social e intelectual do artista que a criou.

Para além do interesse pessoal pelo tema, há outra razão que me levou a escrever sobre ele num blogue especialmente dedicado à educação. É que, tal como no Antigo Regime sucedia com a pintura, também hoje a profissão docente se encontra numa aparente encruzilhada.

Em tempos de massificação das tecnologias de informação, do ensino à distância, das plataformas de e-learning, da aprendizagem automática, do conhecimento dito “na palma da mão”, qual deverá ser o papel do professor? Um técnico de TIC, um facilitador no uso das tecnologias?  Uma peça na engrenagem de um sistema de ensino padronizado e massificado? Um explicador de recurso quando a máquina se engasga e não consegue dar conta do recado, mas que em regra se dispensa, em nome de pedagogias mais modernas e apelativas?

A minha opinião é que o professor deve continuar a afirmar-se, no século XXI, como um profissional autónomo, crítico e criativo, um trabalhador intelectual cujo principal instrumento de trabalho não é a mão nem o computador, mas o cérebro. Trabalhando incessantemente na busca e na transmissão do conhecimento e na mais nobre de todas as tarefas, a de ajudar os mais novos a descobrirem-se a si próprios e ao mundo à sua volta, a adquirirem os conhecimentos e competências necessários à sua vida como futuros adultos autónomos, responsáveis e conscientes da sua vontade e das suas escolhas.

As novas tecnologias são ferramentas novas e, nalguns casos, bastante poderosas, capazes de dar maior alcance e eficácia ao trabalho dos professores. Mas, a não ser que estejamos a pensar em criar um ensino de quinta categoria para os deserdados da fortuna, é um erro pensar que os substituem. Não há educação de qualidade sem bons professores, reconhecidos e valorizados no exercício da profissão.

Mais um “amigo dos professores”…

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O plano do Ministério da Educação para o regresso às aulas presenciais para os alunos do 11.ª e os 12.ª anos de escolaridade não será perfeito. Mas classificá-lo como irresponsável e absurdo, como fez o líder do maior sindicato dos professores, é passar um atestado de incompetência aos diretores de escolas, aos professores e também aos alunos.

É certo que o cumprimento das regras anunciadas vai depender em grande parte da capacidade das escolas e dos recursos técnicos e humanos disponíveis. Todos os estabelecimentos de ensino têm as suas particularidades, quer em dimensão quer em contexto social e económico. Todos são diferentes, como o são professores e alunos.

O que é importante é minimizar as desigualdades no ensino. É bom não esquecer que a presença dos alunos não será obrigatória e, portanto, adivinha-se que os estudantes com melhores condições económicas vão socorrer-se de mais explicações, recurso que já seria frequente nesta fase do calendário escolar, independentemente das circunstâncias atuais. Portanto, é necessário garantir aos outros alguma justiça nas condições em que serão avaliados.

Duvidar ainda que os alunos serão capazes de se comportarem dignamente durante os intervalos que terão de permanecer dentro das salas de aulas é tratar, por exemplo, os mesmos jovens que estão na vanguarda da consciencialização ambiental como irresponsáveis.

O texto de opinião do director-adjunto do JN ainda prossegue, mas o essencial está dito. O primeiro parágrafo da prosa é especialmente revelador: quando um articulista pretende enaltecer os professores começando por atacar os seus representantes, é certo e sabido que o elogio é venenoso e interesseiro. Tentar desacreditar os sindicatos que defendem os direitos e interesses de uma classe é uma velha estratégia para atacar a classe no seu todo. Claro que é mais fácil dobrar os professores quebrando a sua consciência colectiva e deixando cada um isolado no seu “contexto”. “Todos diferentes”, para que seja cada um por si e se tornem mais difíceis a união e a luta colectiva. Este Molinos sabe muito…

Na verdade, a posição sindical não chama incompetentes aos professores. Pelo contrário, enaltece a sua competência profissional. Pois os profissionais da Educação são isso mesmo, professores e educadores, não médicos, epidemiologistas, enfermeiros ou técnicos de saúde pública. Os professores já são, involuntariamente ou por dever de ofício, muitas coisas. Não nos obriguem também a ser especialistas em confinamentos, desinfecções e contaminações. E se mesmo em hospitais, laboratórios e centros de saúde, onde é suposto trabalharem especialistas que sabem o que andam a fazer, os contágios acontecem, não é difícil perceber que as oportunidades de propagação da doença aumentam exponencialmente no meio escolar, caso não se tomem os devidos cuidados. A abertura apressada das escolas pode despoletar um grave problema de saúde pública, se o assunto não for entregue a quem saiba o que anda a fazer.

Vem depois a deriva em torno das desigualdades no sistema, um velho problema que se teima em manter desligado da questão de fundo que o origina, que é a desigualdade na própria sociedade. E a incapacidade de pôr em causa uma das vacas sagradas do regime, os exames para entrar na faculdade. Como se fosse impossível conceber outra forma, mais lógica, coerente e justa para organizar o acesso ao ensino superior, do que usar para o efeito os exames do secundário. Enquanto os mais ricos pagam as explicações e os colégios que garantem as notas de acesso, outros vão-se contentando em exigir “alguma justiça” para os pobres e os remediados. Só que a justiça não é algo que deva ser servido às meias doses. Não será já tempo de exigir simplesmente justiça – um sistema de acesso ao ensino superior justo para todos?…

Finalmente, os jovens. E a velha tentação de tratar a juventude como uma categoria homogénea, quando entre os jovens, como no resto da sociedade, existe de tudo. Há-os social e ambientalmente responsáveis, há-os respeitosos e cumpridores. Mas também os há irresponsáveis, impulsivos, egocêntricos, inconscientes. E há quem possa ser um pouco disto tudo. Afinal de contas, estamos a falar de personalidades em processo de formação e amadurecimento, no qual as componentes afectivas e emocionais assumem um papel muito importante. Quem lida com gente jovem sabe como os humores variam e que a mesma pessoa, em diferentes contextos, pode reagir de formas muito distintas. E quão poderosa pode ser a dinâmica de grupo na modelação de atitudes, comportamentos e formas de estar e de agir dos nossos alunos.

Sim, a juventude pode ser egocêntrica e irresponsável, até mesmo aquela que se mobiliza em torno de causas nobres como a da defesa do nosso planeta. Um reconhecimento que não deve servir para acusar os mais jovens de não terem a maturidade, o conhecimento e a experiência que são atributo dos mais velhos. O activismo corajoso e determinado de Greta Thunberg não pode servir de desculpa para a inacção dos decisores políticos e económicos. Da mesma forma, não é admissível que o sentido de responsabilidade de alunos e professores sirva de pretexto para que os responsáveis da Educação e da Saúde se eximam às suas responsabilidades.

“A escola do século XX morreu!”

escuela[1]Num post de 2017 que continua a estar entre os mais lidos deste blogue, tentei explicar que as divagações de alguns medíocres “cientistas da educação” da nossa praça sobre a escola do século XIX não passam de tentativa patética de construção de um mito. A caricatura de uma escola que, na verdade, nunca existiu.

Pois bem: ontem, numa prosa inspirada, o Alexandre Henriques encarregou-se de desmontar um outro mito geralmente associado ao primeiro que referi: o de que, atrelados às escolas oitocentistas, teríamos retrógrados professores do século XX, sem pedalada para os desafios da escola e dos alunos do século XXI.

Uma narrativa mentirosa, ao serviço de variados e dissimulados interesses, desde os de políticos e tecnocratas da educação, que querem desmoralizar os professores e desqualificar a profissão docente, até aos negociantes em busca de espaço para os seus lucrativos projectos educacionais, passando pelos idiotas úteis das academias e dos gabinetes do ministério, que precisam de construir currículo e apresentar serviço. Ou ainda se sujeitam a ter de vir para uma escola básica ou secundária aplicar as teorias que apregoam, mas nunca praticaram, nas salas de aula de que fogem a sete pés.

Não vou acrescentar muito mais ao que aqui fica claramente explicado. A escola do século XX, ou a imagem estereotipada que se faz dela, desapareceu há muito tempo. Mas foi preciso o ensino a distância irromper pelas casas portuguesas para que a opinião pública se apercebesse de que a escola dos dias de hoje é significativamente diferente da que, enquanto alunos, conheceram.

Hoje é seguro afirmar que a escola do século XX morreu! Passámos o ponto de não retorno. Poderá existir um ou outro docente que depois destes meses queira regressar ao tempo pré-covid, mas será algo residual. Os professores pós-covid, serão diferentes, serão melhores, não porque dominem melhor os conteúdos, mas porque aprenderam e dominaram áreas que há 2 meses muitos desconheciam. Além disso, mesmo os professores mais velhos conseguem neste momento estabelecer um diálogo tecnológico com os seus alunos, aproximando assim duas gerações que até há bem pouco tempo encontravam-se em polos completamente opostos.

A escola e as suas aulas estiveram fechadas durante décadas, onde o aluno era o único transmissor para o mundo externo, para os pais, mas este, pela sua imaturidade e inexperiência, não tinha capacidade para “avaliar” da forma mais correta ou transmitir da forma mais correta o que se passava dentro daquelas paredes. Hoje já não é assim, as emissões do #EstudoEmCasa e as aulas online que entram dentro de casa dos pais, vão muito mais longe do que o ensino à distância. Mostram a competência dos professores, a sua capacidade de improviso, domínio das tecnologias e capacidade oratória, algo que a população em geral desconhecia, associando o professor ao século XX, alguém antiquado, frio, distante…

Os professores não são assim, são muito próximos dos seus alunos, quantas vezes não são psicólogos, confidentes, conselheiros e até substitutos dos encarregados de educação. A voz do professor pode ser austera, mas também pode ser quente, mas nunca, nunca será uma voz ausente.

As incógnitas do recomeço das aulas

escola-wuhan.JPGMilhares de professores poderão estar afastados à partida da possibilidade de assegurarem aulas presenciais do 11.º e 12.º anos, caso estas sejam retomadas ainda este ano lectivo, conforme o Governo está a prever que aconteça a partir de 18 de Maio.

Este afastamento pode ser motivado tanto pela idade, como a situações de doença, e é um dos cenários que estão a afligir os directores escolares numa altura em que, devido às regras de saúde por causa da pandemia, poderão até precisar de mais professores do que aqueles que estão ao serviço.  

“Precisamos de saber quantos alunos poderemos ter por sala de aula para sabermos se precisamos ou não de mais professores. Se, por exemplo, só puder ter dez alunos por sala, então para uma turma de 30 alunos, se calhar, vou precisar de ter mais dois professores”, alertou, em declarações à Lusa, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

Tanto o Ministério da Educação (ME), como a Direcção-Geral de Saúde têm vindo a indicar que, no caso de as escolas reabrirem, os professores que pertencem a grupos de risco não têm de regressar devido ao perigo acrescido de infecção no âmbito da actual pandemia. Estão nestes grupos os mais velhos (as autoridades de Saúde ainda não definiram quais os “critérios etários”) e os que sofrem de doenças de base, segundo especificou a directora-geral de Saúde, Graça Freitas, nesta segunda-feira.

A menos de três semanas da anunciada reabertura parcial das aulas presenciais no secundário, a incerteza e a desorientação pairam no ar. E tardam as orientações e os apoios concretos que permitam às escolas o muito que delas se vai, muito em breve, exigir.

Começando, desde logo, pela questão dos professores. Quantos farão parte de grupos de risco e estarão, por esse motivo, dispensados de dar aulas presenciais? E havendo falta de professores, como se faz? Recorre-se aos que leccionam outros anos de escolaridade e níveis de ensino? E continuarão, nesse caso, com a responsabilidade de acompanhar também os alunos que continuam em casa? Ou haverá luz verde para a contratação de novos docentes, nos casos em que isso se revele necessário? Claro que estas situações têm de ser determinadas localmente, mas o ME tarda a definir critérios claros e objectivos que permitam às escolas orientar-se.

Outro problema é o desdobramento das turmas. Tendo em conta as limitações de espaço da generalidade das salas de aula poderão implicar, tendo em conta as regras de isolamento social aplicáveis noutras situações, que não possam estar presentes, em simultâneo, mais do que dez ou doze alunos. Em muitas escolas, com as turmas constituídas no limite máximo de alunos permitido, isto significa quase triplicar o número de grupos-turma em relação ao que temos actualmente. E, eventualmente, leccionar em regime de turnos, pois poderá não haver salas suficientes para todos terem aulas em simultâneo.

Finalmente, colocam-se os problemas logísticos relacionados com a limpeza e desinfecção dos espaços escolares e do fornecimento de máscaras e outros equipamentos protectores. Quem fornece esses materiais, sabendo que o minguado orçamento das escolas não comporta verbas para este tipo de imprevistos e que os procedimentos dos concursos públicos e das “centrais de compras” tendem a ser morosos e burocráticos, sem capacidade de resposta perante situações emergentes como a que estamos a viver?

A vinte dias da reabertura das aulas, as escolas continuam sem saber as linhas com que se irão coser. Saberão os responsáveis ministeriais?…

Homenagem aos professores

Independentemente do muito que se possa argumentar e discutir em torno da escola de emergência em que todos estamos envolvidos, é bom assistir ao reconhecimento público da qualidade e do profissionalismo dos professores portugueses.

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Estou de um lado da mesa a trabalhar no meu argumento enquanto, do outro, o Pedro está a ter uma aula de História. Vou ouvindo o que se passa ali (ele hoje já teve três aulas) e estou maravilhado com a maneira como as professoras dele estão a conseguir fazer isto funcionar. Matéria está a ser dada, exercícios estão a ser feitos, perguntas estão a ser respondidas. É notável a adaptação a esta situação tão nova. Permitam-me por isso a homenagem aos professores – não apenas os do Pedro, que hoje me deixaram mais tranquilo com o rumo dos próximos tempos do ano escolar, mas todos os que, por estes dias, estão a contornar este gigante obstáculo para fazer a vida dos miúdos andar para a frente.

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Professores de todas as cores

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Podem ser, os professores, da cor que quiserem. A diversidade é, aliás, altamente desejável numa classe profissional que, mais do que meros transmissores de conhecimentos, exige profissionais reflexivos, críticos e criativos.

O que não convém é que o contraste entre os diferentes coloridos nos cegue e nos impeça de ver, para além das naturais diferenças, o muito que temos em comum.

Claro que quem quer desqualificar, subjugar e proletarizar os professores prefere ver-nos divididos e consumidos em guerras e rivalidades que nos desgastam e enfraquecem.

O poder político, que entende as reformas da Educação como uma luta contra os profissionais do sector, receia acima de tudo ter de enfrentar professores unidos em torno da defesa de direitos e interesses comuns e determinados a votar ao desprezo quem há muito os despreza. Docentes comprometidos com os seus alunos e a sua profissão em vez de serventuários do governo. Na sua tentativa constante de domesticar a classe, os governantes de turno recorrem a tudo o que tiverem à mão para manter os professores isolados, temerosos, desmoralizados e divididos.

Saibamos, com determinação e inteligência, contrariá-los…

Os professores de Abril

cravo25aMuitos destes professores vão abandonar o ensino na presente década, chamo-lhes os “Professores de Abril“, colando-os um pouco à imagem dos “Capitães de Abril“. Gente que sentiu na pele a opressão, as dificuldades de um regime castrador, tendo vivenciado momentos históricos que dificilmente voltaremos a constatar.

O 25 de abril moldou o caráter de muitos destes professores e são estes os que agora mais sofrem com a indisciplina reinante, pois viveram numa escola para alguns, de rédea curta e chicote na mão. Se por algum milagre tecnológico fosse possível regressar a esses tempos, ficaríamos chocados com o que se passava nas escolas de então, quer pelas condições de trabalho, quer pelas estratégias utilizadas para ensinar/domar os alunos. Eu que nasci em Liberdade, cheguei a levar reguadas por cometer erros e acreditem que a palavra “sumário” nunca mais deixou de ter acento…

Mas se um certo exagerado é dispensável, a verdade é que estes professores têm algo que os atuais não têm (e contra mim falo que tenho 42 anos). Uma capacidade quase inata de combater e resistir às opressões vindas de cima, com uma coluna vertebral de titânio, teimosamente determinada a manter padrões de exigência que agora se perderam.

Não serei propriamente um professor de Abril. Não sendo novo, nem para lá caminhando, estou ainda longe da idade da reforma. Mas gostei de ler as palavras inspiradas do Alexandre Henriques e, até certo ponto, revejo-me nelas.

Era criança quando a Revolução aconteceu, e embora tenha recordações bastante nítidas do período revolucionário e e dos primeiros anos da democracia, formei-me e ingressei na docência já nos anos 80, em plena ressaca pós-revolucionária. Era o tempo da adesão à CEE e da chegada ao poder de Cavaco Silva, onde haveria de permanecer durante uma década, moldando o país ao pragmatismo tecnocrático do cavaquismo.

Nas escolas, o alargamento da escolaridade para nove anos impulsionava a expansão da rede escolar e a construção de novas escolas para um número de alunos continuamente a aumentar. Com Roberto Carneiro, iniciou-se a primeira e talvez a mais profícua das reformas educativas da III República. Dando resposta à expansão acelerada do sistema educativo, a classe docente era então um grupo profissional relativamente jovem.

Nos últimos 40 anos muita coisa mudou no sistema educativo. Melhoraram as condições das escolas e as qualificações dos professores. Introduziram-se as novas tecnologias. Investiu-se em bibliotecas e noutros recursos educativos. Mas talvez o que mais incomode os professores mais antigos seja o aparente triunfo, a todos os níveis, do facilitismo.

Ultrapassada a fase crítica de expansão e massificação do sistema – quando as carências eram muitas e se davam aulas em pré-fabricados de madeira, se construíam escolas sem pavilhão desportivo para poupar nos custos e se combatia a sobrelotação improvisando salas de aula em todos os espaços disponíveis nas escolas – acreditou-se que o foco passaria a estar, já não na quantidade, mas na qualidade. Que, com a estabilização e a progressiva diminuição do número de alunos, o dinheiro até aí gasto a construir escolas e a contratar professores permitiria equipar e requalificar o parque escolar, reduzir o número de alunos por turma, apostar na carreira, na formação e na melhoria das condições de trabalho dos professores. Assegurada a escola para todos, estaria na altura de universalizar também critérios de qualidade, rigor e exigência no sistema educativo.

Na verdade, o que sucedeu foi, como todos sabemos, um forte desinvestimento na Educação. Num sector onde há 20 anos atrás se gastava o equivalente a 5% do PIB tem-se diminuído gradualmente a despesa, estagnando, nos últimos anos, em torno dos 3,6%.

A ordem, para os sucessivos ministros da tutela, foi para poupar. E onde mais se poupou foi na carreira dos professores. Conquistada em 1990, com o primeiro Estatuto da Carreira Docente, esta tem sido sistematicamente torpedeada por sucessivos governos, incomodados com a autonomia profissional conquistada pelos professores e, sobretudo, com a possibilidade de todos poderem atingir, no final, o último escalão remuneratório.

Lutadores e resistentes, na sua grande maioria, em defesa dos seus interesses e da sua profissão, os professores de Abril vão sucumbindo, como todos os outros, ao desânimo e à descrença. Na luta por uma escola pública de qualidade e uma profissão dignificada, os professores têm estado praticamente sozinhos. E os taticismos políticos que sustentaram a geringonça governativa não se mostraram favoráveis às reivindicações dos professores.

Os professores de Abril partem desencantados, abandonando gradualmente uma escola em que já não se reconhecem.

age summit 2019

agesummit2.jpgNum formato moderno, em busca de maior visibilidade para a causa, uma denúncia e uma reivindicação antigas: Portugal tem um corpo docente excessivamente desgastado e envelhecido. E enquanto os mais velhos se arrastam para as salas de aula, porque lhes são impostos cortes incomportáveis se optarem pela saída antecipada, os professores mais jovens não conseguem exercer a profissão.

São necessárias respostas específicas para um problema que urge resolver antes que, dentro de meia dúzia de anos, se inicie um processo de aposentações em massa dos actuais docentes. É que nessa altura não haverá profissionais qualificados em número suficiente para satisfazer as necessidades…

Quanto às reivindicações nesta matéria, elas não são tão irrealistas nem tão dispendiosas como o Governo gosta de fazer crer. Na verdade, se forem feitas contas aos custos que estão a ter as mobilidades por doença e as substituições por baixa prolongada, percebe-se que no caso de muitos professores mais velhos, doentes e desgastados, haveria ganhos efectivos na sua substituição permanente por docentes mais jovens.

Fica o apontamento noticioso sobre a cimeira da idade hoje organizada pela Fenprof…

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São cada vez menos e cada vez mais envelhecidos. Por isso, saíram à rua esta quinta-feira de manhã com as suas idades, tempos de serviço e cortes na pensão ao peito. Os professores uniram-se em frente ao edifício da Presidência do Conselho de Ministros para pedir medidas urgentes por parte do governo, numa ação satírico-reivindicativa à qual chamaram “Age Summit” (Cimeira da Idade).

“Idade: 57 anos. Tempo de serviço: 36 anos. Corte na pensão: 2318€”, lê-se numa das credenciais dos professores, mostrando que a guerra iniciada este ano ainda não acabou. O parlamento aprovou a recuperação integral do tempo dos professores e o governo ameaçou demitir-se. A crise política atada à crise do corpo docente entretanto terminou, mas não ficou resolvida.

A Federação Nacional dos Professores (Fenprof), organizadores do protesto desta quinta-feira, não desistiu da luta. As vozes que se levantaram esta manhã visam “pressionar o governo sobre a questão da aposentação”, explica Vítor Godinho, da Fenprof.