Portugueses confiam nas escolas públicas

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De acordo com o estudo de opinião realizado pela Aximage para o Negócios e o Correio da Manhã, as forças policiais são a instituição na qual os portugueses mais confiam: numa escala de zero a 20, o índice de confiança na capacidade que estes profissionais têm de combater o crime reúne uma pontuação de 14. De seguida na tabela, com uma pontuação de 13, constam as escolas e a sua capacidade de ensinarem coisas novas aos alunos. 

Consensual entre os eleitores das diversas forças partidárias é a ideia de que as escolas desempenham melhor o seu papel (ensinar coisas úteis aos alunos) do que as famílias (educar as crianças para o futuro de amanhã) […].

Não é, felizmente, novidade: a confiança dos portugueses nas escolas e no trabalho dos professores costuma salientar-se neste tipo de estudos. Ainda na semana passada, uma investigação da Universidade Católica colocava igualmente as escolas públicas em segundo lugar entre as instituições relevantes da sociedade portuguesa, atribuindo o topo das apreciações positivas à Presidência da República.

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Já os bancos, os tribunais (que não aplicam a lei com celeridade e justiça), os sindicatos (que não defendem eficazmente os trabalhadores) e as igrejas (que parecem ter dificuldade em conduzir os fiéis pelo caminho do Bem) mereceram apreciação negativa em ambos os estudos.

Curiosamente, os bombeiros, uma classe profissional que costuma estar também no topo da confiança dos portugueses, não aparecem em nenhuma destas sondagens. E é pena, pois seria interessante saber até que ponto a tragédia dos fogos do Verão passado terá tido reflexos na imagem pública destes profissionais.

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Pela Universidade: os professores que não gostam de ensinar

Gabriel-Leite-Mota_web.pngVão distantes os meus tempos de estudante universitário, mas recordo que, já nesses anos 80 do século passado, se notava a tendência que a actual mania das avaliações e dos rankings acentuou: os professores universitários eram valorizados pela investigação que faziam e pelos artigos que publicavam e não pela qualidade do seu trabalho pedagógico. E isto levava a maioria a desinvestir na preparação de boas aulas e de materiais pedagógicos, especialmente quando se encarregavam de leccionar cadeiras que não estavam directamente relacionadas com a sua área de especialização.

Num artigo de opinião que se saúda, desde logo pela raridade que é vermos académicos a discutir publicamente a carreira universitária – normalmente preferem opinar sobre os problemas dos professores “inferiores” – Gabriel Leite Mota expõe clara e frontalmente um problema que vem de longe:

Quando se abrem concursos (de professor auxiliar a catedrático) em que a componente científica tem ponderações de 60%, 70% ou até 80%, e os critérios de exclusão por falta de mérito absoluto são o número de publicações e nunca as capacidades docentes, está a dar-se um sinal claro: as instituições querem investigadores, não docentes.

Acontece que as instituições de ensino superior precisam, em primeiro lugar, de docentes: a sua principal função é formar alunos. Não esquecer que os docentes do ensino superior em Portugal não necessitam de qualquer formação pedagógica para ensinar (nem têm qualquer programa tutorial ou estágio). O pressuposto por detrás dessa não exigência é obtuso: os alunos do superior não precisam de pedagogia porque já são suficientemente maduros para aprenderem por si.

Quem já tiver tido experiência no ensino superior sabe bem que essa tal maturidade não é verdadeira. Para além disso, quem tiver sido aluno numa instituição de ensino superior em Portugal sabe outra coisa: abundam os maus professores. Não será porque não se teve em conta as suas competências pedagógicas aquando da contratação, nem se forneceram as formações adequadas ao desenvolvimento das mesmas?

Como é evidente, se as universidades precisam de recrutar os melhores investigadores, não é possível garantir que estes reúnem as melhores qualidades para serem professores. Já os bons professores, mesmo que sejam igualmente bons na investigação, são em geral menos produtivos, pois acabam por despender mais tempo com as actividades lectivas. Para este imbróglio difícil de resolver, o autor encontra no entanto uma solução a contento:

Defendo, por tudo isto, que sejam criadas carreiras claramente diferenciadas: investigadores, que se ocupariam da produção científica, integrados nos centros de investigação e a quem competiria dar apenas poucas aulas, em formações avançadas (principalmente de terceiro ciclo) e fazer orientações de mestrados e doutoramentos; os docentes dariam mais aulas (principalmente primeiro e segundo ciclos), fariam acompanhamentos tutoriais aos alunos, receberiam formação contínua ao nível da pedagogia e teriam que inovar nos métodos de ensino e nos programa leccionados. Ambas as carreiras teriam a mesma dignidade, o mesmo vencimento, a mesma rapidez de progressão e o mesmo poder institucional.

Esta especialização laboral – todo o economista e gestor sabem isto – levaria a ganhos de produtividade que se consubstanciariam em ganhos de performance para as instituições de ensino superior: mais investigação de qualidade, mais alunos bem-ensinados e satisfeitos, o que se materializaria em mais receita (mais alunos inscritos, mais financiamento para a investigação). O que agora se faz, contratar professores para serem investigadores forçados a dar aulas, é uma perversidade idiota.

Colaborações: ComRegras

No Topo: A difícil unidade dos professores

Por muitas e variadas razões, a classe docente, ao longo da sua história, tem-se caracterizado pela sua desunião. Ao contrário de outras classes profissionais, com maior consciência de o serem e de terem objectivos comuns que só unidos podem conseguir, entre os professores quase sempre prevaleceram as divisões e os individualismos. No entanto, após o advento da democracia, uma identidade profissional e uma consciência de classe foram-se, lentamente, forjando…

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No Fundo: Demasiadas reuniões…

Na altura das chamadas reuniões intercalares, há uma evidência que se impõe em muitas escolas portuguesas: o excesso de reuniões com que os professores são sobrecarregados e que se vêm somar a uma carga lectiva que continua a ser das mais elevadas entre os professores europeus. E àquelas que estão legalmente previstas e dificilmente se podem evitar, juntam-se outras que servem quase só para perder tempo. E que duram, duram…

O maior insulto aos professores

passos-coelho.jpgO maior insulto aos professores que ouvi nos últimos tempos foi a explicação de Pedro Passos Coelho, um recém-desempregado da política, acerca do que irá fazer nos próximos tempos.

No domingo, Pedro Passos Coelho deixa de ser líder do PSD. A pasta será entregue a Rui Rio, após quase oito anos a comandar o partido, dos quais quatro a governar o País. Para já, o líder cessante social-democrata irá dedicar-se à vida académica. O líder cessante tenciona dar aulas em várias universidades, apurou o DN.

Já nem vou focar-me no fiasco do homem enquanto governante, nas sucessivas inconstitucionalidades dos orçamentos de Estado do seu governo, nas previsões falhadas ou nas aldrabices tecnofórmicas. Basta-me olhar para a mediocridade do seu percurso académico e questionar como é que um país que se dá ao luxo de exportar doutorados ou de os manter no desemprego tem universidades com lugares à disposição de alguém tão desqualificado como Passos Coelho.

Quando um medíocre deste calibre anuncia desta forma o recurso à docência, e logo em “várias universidades”, isto só pode ser visto como uma demonstração de desprezo pela profissão de professor, tida como uma espécie de biscate que qualquer um pode exercer enquanto espera por “desafios” mais aliciantes. O homem que em tempos mandou os professores desempregados emigrar não desdenha agora, afinal, um lugarzito no ensino. Desde que seja coisa pouco cansativa, presume-se, e numa universidade…

E se isto deslustra todos os professores, ainda mais ofensivo será para quem faz um trabalho sério e exigente na docência universitária. Que não poderá deixar de questionar: então deixam entrar toda a gente?…

Excesso de reuniões

reuniaoNão acontece em todas as escolas. Para ser honesto, devo até reconhecer que não é habitual suceder no meu local de trabalho. Mas todos sabemos que em demasiadas escolas e agrupamentos há excesso de reuniões, e a maior parte delas não são para obedecer a imperativos legais nem para dar resposta a problemas concretos dos alunos. Fazem-se para cumprir calendário, ou porque o senhor director, ou o regulamento interno assim o determinam. Passaram a ser convocadas, muitas vezes, apenas porque uma equipa de inspectores sugeriu que se deveria “articular” ou “supervisionar” mais o trabalho dos professores.

Mas a verdade é que todas estas reuniões significam uma sobrecarga de trabalho que não está, regra geral, contemplada nos horários dos professores. Percebe-se bem que a grande maioria dos docentes que responderam ao último inquérito do blogue ComRegras se mostrem contrários à obrigatoriedade, vigente na maioria das escolas, das reuniões intercalares. Para um professor com seis a oito turmas, e mesmo considerando a hipótese benigna de reuniões de uma hora, a brincadeira fica em seis a oito horas de trabalho suplementar não remunerado. E sem contar o tempo de preparar ou de fazer a acta de uma dessas sessões – mais uma ou duas horas – nem considerando as horas tantas vezes perdidas entre o fim das aulas e o início da reunião marcada para o final da tarde.

Continua a existir um enorme desrespeito pelo trabalho dos professores e pela sua absoluta necessidade de tempo para prepararem bem as suas aulas, que não se reduz apenas às horas ou minutos que se sentam a elaborar as planificações. De facto, um bom professor precisa de tempo para ler, estudar, reflectir, investigar. E esse desrespeito, que começa frequentemente nas excelentes lideranças escolares, está também patente ao mais alto nível no próprio ministério. Ou não é verdade que o projecto da flexibilidade curricular, a ser experimentado em mais de 200 escolas, é especialmente exigente ao nível do trabalho de equipa dos professores? Quantas reuniões de trabalho já se fizeram nas escolas participantes? Espera-se, claro, que os professores envolvidos assumam, em prol dos alunos, esse sacrifício. Mas, apesar de, na Europa, os professores portugueses serem dos que mais horas trabalham nas escolas, não me recordo de ter sido anunciada alguma redução da componente lectiva como justa compensação…

Ora é justamente esta ideia do professor como um profissional com um horário não lectivo de contornos mal definidos, ao qual se pode tomar o tempo de ânimo leve e de forma virtualmente ilimitada, que é preciso denunciar e combater. Não creio que, mesmo nas escolas mais atacadas pelo vírus da reunite, estejam constantemente a convocar o pessoal administrativo e auxiliar para reuniões: é que esse tempo é necessário para as tarefas que os funcionários têm de realizar. Já dos professores, espera-se que cumpram até o mais absurdo calendário de reuniões e que continuem, zelosamente, a cumprir integralmente a sua componente lectiva. E parece ignorar-se a utilidade do email para divulgar e trocar informação de uma forma bem mais rápida e eficaz.

Ao contrário da associação que insidiosamente se vai fazendo da autonomia escolar com a municipalização, os planos de actividades de escola ou os projectos curiculares das turmas, creio que a autonomia de que verdadeiramente precisamos, e que tem sido metodicamente destruída ao longo da última década, é de mais autonomia profissional dos professores. Não é de professores esmagados por reuniões, burocracias e regulamentos, comandados por governantes, comissários políticos, autarcas e directores, mas de profissionais detentores de um saber estruturado, crítico e reflexivo sobre a sua profissão e com tempo para o desenvolver e usar em proveito dos seus alunos. E isto até pode levar, eventualmente, a articular projectos e actividades com outros colegas. Mas aqui, fazendo-o em função de interesses, necessidades ou motivações reais, nascidas da dinâmica própria do quotidiano escolar, e não de flexibilidades obrigatórias impostas a partir de cima.

 

A DGAE convida…

edugest.JPGDepois de os ter convidado a conferir os dados do recenseamento, a DGAE voltou a recorrer à mailing list dos professores portugueses para lhes apresentar uma nova proposta.

Caro(a) Docente,

O presente questionário insere-se no projeto de investigação EDUGest – Gestão Escolar e Melhoria das Escolas, um projeto financiado pela Fundação Belmiro de Azevedo e desenvolvido pela Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, em colaboração com a DGAE (Direção-Geral da Administração Escolar).

O questionário inclui questões de caracterização sociodemográfica e a Escala de Avaliação da Gestão Instrucional do Diretor, desenvolvida pelo Professor Phillip Hallinger. É ANÓNIMO E ABSOLUTAMENTE CONFIDENCIAL, sendo as respostas rececionadas única e exclusivamente pela equipa de investigação do projeto, que se compromete à preservação dos dados recolhidos de acordo com a Carta Ética da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação.

É um questionário a ser preenchido apenas por Educadores de Infância e Professores, que se encontrem em exercício de funções.

Não sendo já a primeira vez que a DGAE surge a fazer este tipo de convites aos professores, é inevitável perguntar: o que levará um organismo governamental, com funções específicas e bem definidas, a promover iniciativas de instituições privadas?

Talvez a resposta a esta dúvida se encontre na natureza do inquérito aos docentes que os investigadores pretendem realizar: focando o sempre sensível tema da gestão escolar, as suas conclusões terão óbvio interesse, não apenas para a academia, mas também para quem tutela as escolas e as suas “lideranças”. Sobretudo se as perguntas que coloca forem as adequadas

Quanto ao inquérito propriamente dito, e independentemente do interesse que este, em concreto, possa ter – e que irei analisar oportunamente – há uma objecção de fundo que coloco a investigações desta natureza. É que elas tomam o actual modelo concentracionário e burocratizado de gestão escolar como um dado adquirido. Admite-se que a gestão dos senhores directores possa ser melhorada e aperfeiçoada em diversos pormenores. Mas sempre sem pôr em causa o carácter unipessoal do órgão de direcção, o processo de escolha dos directores ou mesmo a excessiva dimensão de muitas unidades orgânicas – os chamados mega-agrupamentos.

Se não me custa reconhecer que alguns directores conseguem fazer um bom trabalho à frente das suas comunidades escolares apesar deste modelo de gestão escolar, também não posso ignorar que ele promove, em demasiados sítios, a afirmação de autênticos tiranetes locais a quem confere excessivo poder. Ora ao responderem em massa a inquéritos como aquele que agora é proposto, há uma leitura que pode ser feita e que me parece não corresponder, de todo, à realidade: a de que os professores estão globalmente satisfeitos com a forma como as escolas são governadas e apenas alterariam, no actual modelo, alguns pormenores de somenos importância.

Haverá por certo outros assuntos neste momento prioritários na agenda reivindicativa dos professores. Mas essa realidade não deve deixar cair no esquecimento uma exigência fundamental dos professores: a de um modelo mais democrático e participativo de gestão das escolas portuguesas.

Petição dos professores lesados discutida ontem no Parlamento

parlamento.JPGAtacado à esquerda e à direita por causa das injustiças nas colocações de professores, o PS insiste na ideia de que o governo agiu correctamente e dentro da lei. Embora, no Parlamento, não tenha convencido nenhuma das outras bancadas. Muito menos os professores lesados que assistiram, nas galerias, ao debate parlamentar.

O debate foi suscitado por uma petição enviada ao Parlamento, que suscitou também a apresentação do projecto de resolução do PCP que deverá ser votado amanhã, sexta-feira.

Com o ano lectivo a meio, já não foram pedidas, no debate, novas colocações de docentes. Mas seria importante que o governo reconhecesse o erro e tomasse medidas efectivas para o corrigir futuramente, reparando a situação dos professores que viram a sua vida virada do avesso e não repetindo, em próximos concursos, a alteração de procedimentos que tão mau resultado deu este ano.

Quanto à solução há muito anunciada pelo governo – um novo concurso alargado no próximo ano, com a possibilidade de todos os lesados e insatisfeitos poderem concorrer – ela dificilmente será satisfatória para a maioria dos professores deslocados para longe de casa. Pois as vagas que lhes interessam estão hoje ocupadas por colegas que, na grande maioria dos casos, não as libertarão. E isso mesmo foi ontem, no Parlamento, uma vez mais salientado.

Ana Mesquita sublinhou hoje que “a proposta do Ministério da Educação reconhece o problema, mas não o resolve”, uma vez que deixa de fora muitos professores que se sentiram prejudicados com as colocações, crítica na qual foi acompanhada pela generalidade das bancadas parlamentares.

Luís Monteiro, do Bloco de Esquerda, enumerou algumas consequências práticas dos problemas causados pelas colocações nestes concursos, como a necessidade de alugar casas e o afastamento das famílias imposto aos docentes com colocações mais distantes, para afirmar que a situação coloca “questões sobre toda a burocracia em que hoje se encontra a colocação de professores” e que é necessário “rever toda a lógica” dos concursos.

Pelo lado do PSD, a deputada Germana Rocha lembrou que “numa primeira fase” o Ministério da Educação “negou o erro, sendo depois forçado a admiti-lo”, não tendo sido “capaz de avançar com uma solução justa”, recordando um parecer do Provedor de Justiça, no qual se advogava que as condições dos concursos devem ser conhecidas de forma atempada.

O CDS-PP, pela voz da deputada Ilda Araújo Novo, defendeu que é “inaceitável que não tenham sido colocados a concurso os horários incompletos”, acusando o Ministério da Educação de ter provocado “uma trapalhada”, de ter defraudado as “expectativas legítimas” dos professores e atacado o “princípio da confiança” que deve reger os concursos, ao ter mudado sem aviso as regras com que habitualmente se processa o recrutamento na mobilidade interna.

“O Ministério da Educação defrauda continuamente os professores. Não são fiáveis nem confiáveis”, acusou a deputada centrista.