Os malandros dos professores em tempo de férias

profs-feriasTêm, pelo menos, cinquenta dias de pausa por ano, que na prática representa o dobro das férias de todos os outros funcionários públicos, já para não falar dos que trabalham no privado. É verdade que levam muitas vezes trabalho para casa – uma exigência que está longe de ser um exclusivo e que se coloca a um cada vez maior número de profissões – , mas a carga horária semanal de exercício efetivo da atividade anda à volta das 24 horas, menos 11 horas semanais que as restantes atividades exercidas no público e menos 16 do que as exercidas no privado, precisamente para atender a essa situação. Segundo um relatório internacional que há uns meses foi tornado público, ganham em média mais do que os outros trabalhadores com formação superior em Portugal, uma tendência que até contraria a maioria dos países da OCDE. 

Para animar a silly season, um funcionário político da câmara de Famalicão (PSD/CDS) resolveu escrever sobre os professores – classe profissional que considera privilegiada e, mesmo assim, “lamechas”…

O argumentário, pobre, começa com o estribilho das férias excessivas. Agora já não são três meses, como dizia o outro: o escriba do Correio do Minho contabiliza 50 dias de férias para os professores. O resto gira em torno de uma visão deturpada da profissão que já não é novidade: a desvalorização do trabalho não lectivo, como se um professor só estivesse efectivamente em funções quando está com os alunos. E o eterno culto da mediocridade e do conformismo que nos vai mantendo na cauda da Europa: não se queixem porque há outros que estão ainda pior. Em vez de incentivar toda a gente a lutar pelos seus direitos, tenta-se nivelar por baixo. A lógica é a do quanto pior, melhor.

Por explicar fica, contudo, uma questão importante. Se a profissão docente tem tantos privilégios, por que razão o assessor camarário, profissionalizado na docência de Filosofia, não seguiu a via sacra dos recém-licenciados há vinte anos atrás, quando se formou: os concursos, as contratações temporárias, os horários incompletos, a digressão forçada por vilas e cidades do país para conseguir um contrato, um salário e tempo de serviço. Porque é que o homem que diz conhecer bem a realidade docente fugiu a sete pés desse caminho das pedras, que foi enfrentado por quase todos os professores da sua geração, preferindo em vez disso procurar empregos fugazes no privado até que lhe surgiu a oportunidade da sua vida: uma carreira de propagandista de serviço ao senhor presidente do município.

A diferença entre o articulista, que fugiu de uma profissão que diz ter sido, na sua experiência de professor estagiário, “gratificante”, e os professores “lamechas” que agora vem criticar, é que aquele desistiu cedo da profissão, preferindo lutar individualmente pela conquista do seu lugar ao sol. Já os docentes que trabalham quotidianamente nas escolas sabem – ou deviam saber – que só colectivamente podem fazer valer os seus direitos e aspirações. Ao contrário do assessor, que só tem de promover a boa imagem do presidente da câmara que o contratou, os professores assumem o dever de defender a escola pública e a responsabilidade de educar as novas gerações.

Morrer a trabalhar

morte-medievalParece estar a ser o destino de um número crescente de professores.

Não existem dados objectivos que associem directamente estas fatalidades com a exaustão, o stress, o burnout decorrentes do exercício da profissão docente. Poderão ser meras coincidências, mas a verdade é que, entre a professora que morre em plena sala de aula e os outros dois que falecem durante uma maratona laboral em período de avaliações, parece existir um padrão comum: todos terão estado sujeitos a excesso de trabalho.

Impõe-se por isso um olhar atento sobre estas situações, eventualmente até uma investigação do Ministério Público, como propõe a Fenprof, de forma a perceber-se até que ponto as condições desgastantes em que muitos professores trabalham não andarão, além de lhes tirarem saúde e da energia, também a colocar em risco a sua vida.

O alerta e o repto da Fenprof são importantes, mas não suficientes. Perante um ME que se recusa a reconhecer o excesso de trabalho imposto aos professores como um problema real, devem ser antes de mais os próprios docentes a acautelar a sua saúde física e mental. Não querendo dar passos maiores do que a perna, não aceitando trabalhar em excesso e sem limites ou correr riscos inaceitáveis em nome de um conceito mal compreendido de brio ou de dever profissional.

Quando o ME, apesar do corpo docente cada vez mais envelhecido e fragilizado, continua a não ter serviços de medicina no trabalho, quando permite que, diariamente, milhares de docentes se desloquem por sua conta e risco entre escolas do agrupamento, quando manda apresentar ao serviço professores com doenças terminais, quando não toma medidas para combater a indisciplina e o assédio laboral de que são vítimas os professores em muitas escolas, é evidente que são estes que têm de zelar intransigentemente pelos seus próprios direitos. Ou acabarão como peças descartáveis da máquina trituradora de docentes em que o sistema educativo se vem transformando…

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, disse esta terça-feira, no Porto, que vai solicitar ao Ministério Público (MP) que averigúe as causas da morte de três professores enquanto trabalhavam, nos últimos meses.

“Quando as coincidências são muitas, podem, de facto, não ser coincidências, e nós temos de saber disso. Iremos pedir ao MP que averigúe e tiraremos as conclusões. Há uma coisa que é verdade: os professores estão exaustos. Há um estudo que diz que mais de 70% dos professores apresentam níveis elevados de burnout”, sublinhou Mário Nogueira.

O dirigente da Fenprof, que falava numa conferência de imprensa destinada a fazer a avaliação do ano lectivo, o balanço da legislatura e apresentar perspectivas para o futuro, referiu o caso de uma professora, de Manteigas, que “em plena sala de aula, fulminantemente, caiu para o lado”

“Pode ser coincidência ou não, mas essa professora era titular de todas as turmas do 7.º ao 12.º anos de Inglês, seis níveis diferentes de preparação de aulas diariamente”, disse, apontando o caso de uma outra colega no Fundão. Esta “estava a corrigir 60 provas aferidas, a lançar as notas dos seus alunos e a fazer vigilâncias de exames. Aparece morta em cima do teclado do computador, em pleno lançamento das notas”, disse.

Um terceiro caso apresentado pela Fenprof ocorreu num agrupamento de Odivelas. “O professor enviou por e-mail, cerca da 1h00, os dados pedidos pela escola. No outro dia não apareceu. A medicina legal concluiu que teria morrido por essa hora”, acrescentou. Continuar a ler

Ensinam mesmo quando fazem greve

cruzadas.pngInformam quando não andam a desinformar, espalhando notícias falsas.

Gozam com os professores, quando lhes falta a coragem para se meterem com os poderosos deste país.

Servem a agenda mediática do poder, em vez de agirem com isenção e rigor.

Estas charadas têm todas a mesma resposta. Mas, ao contrário do cruzadista do Expresso, não cometerei a injustiça de dizer que todos os jornalistas agem assim. Serão apenas alguns – embora exista uma especial concentração de jornaleiros manipuladores e tendenciosos no espesso semanário.

Quanto ao acto em si, na linha daquele humor pretencioso, acintoso e sem graça nenhuma  a que o semanário do regime há muito nos habituou, ele é digno, acima de tudo, do mais profundo desprezo da parte de todos os professores que se prezam.

Isso e não lhes comprar o fardo de papel que publicam todos os fins de semana.

Os verdadeiros especialistas em Educação

orador.gifLapidar este quadro comparativo que coloca lado a lado aquilo a que podemos chamar, à falta de melhor, os gurus educativos – os conferencistas, youtubers, cientistas e peritos em educação que tendem a monopolizar o debate público sobre Educação – e os verdadeiros especialistas – os professores que diariamente trabalham com os seus alunos.

Não se pretende afirmar, naturalmente, que só os professores percebem de educação. Apenas denunciar que algo está muito mal quando a sua experiência, o seu conhecimento, a sua voz são sistematicamente postos de lado na altura de discutir e redefinir as políticas educativas.

Traduzido e adaptado daqui, o quadro foi construído a partir da realidade espanhola. No essencial, igualzinha à que conhecemos no nosso país…

GURU EDUCATIVO ESPECIALISTA EM EDUCAÇÃO
1.   Não põe o pé na sala da aula. 1.   Está a dar aulas.
2.   Tem nula ou pouca experiência docente. 2.   O seu melhor mestre é a experiência.
3.   Faz carreira criticando e desvalorizando o corpo docente. 3.   Respeita os seus colegas.
4.   Tem interesses económicos e negócios privados. 4.   O seu único interesse é a aprendizagem dos alunos.
5.   Tudo é espontâneo: a inteligência, a criatividade, o talento, a vocação… 5.   Sabe que ensinar e aprender exige um grande esforço e que as circunstâncias sociais e económicas são determinantes.
6.   Nunca equaciona a influência das políticas educativas. 6.   Sofre diariamente o impacto de políticas educativas corrosivas.
7.   Acha que ser docente é muito fácil: só exige usar dispositivos tecnológicos e procedimentos estandardizados. 7.   Sabe que a sua profissão é complexa e não existem receitas milagrosas.
8.   Colecciona mitos e mantras educativos. 8.   Colecciona erros.
9.   Não tem contradições. 9.   Alberga dúvidas e inseguranças.
10. Amigo e colaborador de bancos, políticos e empresas tecnológicas. 10. Questiona bancos, políticos e empresas tecnológicas.

Mexer com a dignidade dos professores

alex-parafita.jpgLemos e ouvimos, num tom geralmente provocatório, acusar os professores de serem uma classe privilegiada, que ganha muito e trabalha pouco.

São, claramente, comentários e críticas de quem nada sabe sobre a rotina e o desgaste dos professores. De quem desconhece a práxis estranguladora de um professor que concentra em si um rosário infindável de funções e tarefas, trabalhando de dia e de noite, a lecionar turmas numerosas, a elaborar planos de aula, planos de recuperação de alunos e de registos regulares de evolução, a elaborar materiais pedagógicos, projetos de turma, testes de diagnóstico, informação para encarregados de educação, relatórios de tutorias, de projetos, clubes, aulas de apoio, reuniões e elaboração das respetivas atas com encarregados de educação, conselhos de turma, de diretores de turma, de departamento, conselhos pedagógicos… e por aí adiante.

E que dizer de um professor a ter ainda de gerir a terrível realidade de alunos que levam para a escola toda a espécie de dramas, uns mal nutridos, outros violentos, a Polícia a ser chamada a todo o momento, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores…?

A escola é o berço da educação. Ver os professores a terem de vir para a praça pública gritar por dignidade é vergonhoso num país que se quer civilizado.

Por entre o coro de desmerecimentos, críticas e enxovalhos que comentadores com acesso privilegiado às televisões e aos jornais lançam contra os professores, lá se vai encontrando também, embora com alguma dificuldade, quem entenda a dura realidade que é o quotidiano docente. É o caso de Alexandre Parafita, hoje no JN.

Pois uma coisa é a argumentação no plano da falta de dinheiro, da sustentabilidade orçamental, do não dar agora para ter de retirar logo a seguir. Bem diferente é, com motivações de baixa política, orquestrar uma campanha indigna destinada a inferiorizar e denegrir uma classe profissional que é crucial para o desenvolvimento do país. Sem avaliar devidamente as consequências, não só para os visados, mas para o nosso futuro colectivo.

Não deveria ser difícil perceber que, com professores desmotivados e desmoralizados, dificilmente continuaremos na senda do sucesso educativo e da melhoria contínua de resultados dos nossos alunos, que tem sido destacada nos relatórios internacionais.

Nem é com uma carreira pouco ou nada atractiva que se atrairão os melhores profissionais que, num futuro próximo, terão de ser recrutados para a docência, à medida que a actual geração de professores se começar a aposentar em massa.

Todos contra os professores

pacheco-pereira…há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre Dame com aviões tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.

A última e excelente crónica de José Pacheco Pereira no Público analisa a visível hostilidade contra os professores que, a pretexto da luta pela recuperação do tempo de serviço, se levantou. JPP nota como esta campanha, intensamente alimentada pela comunicação social, se inscreve numa evolução muito negativa que a nossa sociedade está a experimentar.

A ofensiva contra os professores é, antes de mais, o ataque ao capital de saber e da capacidade de o transmitir que os professores representam. Depois, acompanha a tendência muito pós-moderna da inveja social, de ver todos os que lutam colectivamente pelos seus direitos como inimigos a abater. Sejam professores ou camionistas, enfermeiros ou estivadores, enquanto houver um miserável conformado com a sua situação, não se acha legitimidade nas lutas dos “privilegiados”.

O exemplo inspirador que as lutas sociais tiveram no passado está hoje fora de moda. A ideia é: não quero que os outros tenham mais do que eu, mas não me disponho a lutar para conseguir para mim o que eles reivindicam. A satisfação colectiva com a derrota dos professores tem o seu contraponto nas indignações que por aí andam com o anúncio dos 1400 euros mensais que os camionistas de materiais perigosos irão auferir.

JPP reconhece que os professores enfrentam desafios sérios e têm, nos nossos dias, uma das profissões mais difíceis. Mesmo assim, exorta-os a resistir: ler e estudar mais, claro, mas também olhar com maior severidade para as modas do “deslumbramento pedagógico”. Não posso concordar mais: é pelo reforço do espírito crítico e da cultura profissional que nos podemos diferenciar dos novos ignorantes que pululam por aí…

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Tempo de reflexão

Os professores são hoje uma classe cansada, descrente, dividida. Superar o desânimo, estabelecer objectivos realistas e recuperar a confiança em si mesmos, começando pelas batalhas que podem ganhar – eis um ponto de partida para a necessária reflexão que, em conjunto, precisamos de fazer…

No Fundo: A violência contra os professores

O final da semana ficou marcado por mais uma inqualificável agressão a uma professora, praticada por familiares de uma aluna do 2º ano. O acto, ao qual assistiu toda a turma, mereceu o imediato repúdio dos colegas da professora, que reagiram manifestando-se, logo no dia seguinte, em defesa da segurança e contra a violência escolar. A escola terá feito o que está ao seu alcance, participando a ocorrência e garantindo o apoio aos alunos e a substituição da professora agredida.