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Pensamento do dia

Quanto a casos concretos, não são um nem dois…

Turma de colégio em Braga de quarentena após caso positivo de covid-19

Alunos do 7.º ao 12.º do colégio Saint Julian’s em quarentena

Fechar escolas só em “situações extraordinárias”

graca-freitasLá para os lados onde trabalho o bicharoco tem andado muito activo. Com mais de uma dezena de casos confirmados e umas largas dezenas ainda a serem testados ou a aguardar resultados, a situação está em vias de de se tornar mesmo “extraordinária”…

Com mais de 200 focos activos por todo o país, creio que não seremos caso isolado…

Durante a conferência de imprensa diária sobre o impacto do vírus no país, a Direção-Geral de Saúde (DGS) garantiu que a possibilidade de encerramento de escolas é muito reduzida, argumentando que está só vai ser ponderada em “situação extraordinárias”.

“Existem vários fatores para determinar o encerramento dessas escolas. A decisão tem que ser feita com a autoridade de saúde regional e depois com autoridade de saúde nacional”, explicou Graça Freitas, acrescentando que “o encerramento de uma escola tem um impacto tão grande que tem que haver uma decisão conjunta , uniformização e ponderação e ver se todos os aspetos foram analisados”.

A pergunta surge depois de 70 alunos da escola alemã, em Lisboa, terem sido obrigados a cumprir isolamento preventivo em casa. A medida foi tomada pela autoridades de saúde, depois de ter sido detetado um caso de infeção entre os estudantes. Um funcionário também testou positivo e cinco outros estão em isolamento profilático.

“Há um mecanismo que vai ser adotado para que essa escola tenha que ser encerrada”, assegurou uma vez mais a diretora-geral de Saúde. “Vai ser tido em conta o número de infetados ou casos suspeitos e o contacto tido com um “setor” ou “bolha” de estudantes. Tem que haver uma avaliação de risco que é feita pela autoridade de saúde e o agrupamento de escolas”, finalizou.

Teste positivo

covid
Começa bem, Txitxa!…

Não há condições…

aulas-covidHá uma realidade que tende a ser comum a todos os responsáveis e especialistas que se pronunciam sobre a reabertura das escolas, elogiando o trabalho que está a ser feito e garantindo que tudo irá correr bem: nenhum deles irá enfiar-se, em breve, em salas de aula sobrelotadas de alunos, para aí passar cinco ou seis horas diárias.

Sendo esse o destino que me espera, e vendo como estão as coisas a decorrer, só consigo olhar com apreensão para este regresso às aulas que se está a preparar em pleno agravamento da pandemia. Até aqui pela região centro, que tem sido relativamente calma comparativamente com o litoral norte e a Grande Lisboa, se nota de dia para dia o aumento do número de casos.

Um primeiro sinal de pretensa confiança e optimismo no regresso à normalidade foi dado por alguns directores que andaram a convocar reuniões presenciais de dezenas e centenas de professores, descurando a evidência de que os ajuntamentos – que continuam proibidos – são um risco de saúde pública perfeitamente evitável. O que é que se faz num conselho de turma, departamento ou grupo disciplinar presencial, que não se consiga fazer trabalhando a partir de casa? Mais, porque é que continua a haver tantos directores mais preocupados em agradar a quem manda, do que em tomar as melhores decisões em prol da sua comunidade educativa? Porque é que foi preciso o próprio secretário de Estado recomendar o regime não presencial para as excelências finalmente se convencerem?…

Quanto aos preparativos em marcha para o arranque da escola presencial, sabemos que muito do que haveria a fazer não foi feito. A começar pelas condições em que se irá trabalhar nas escolas: a generalidade das turmas continua a ter bem mais do que 20 alunos, e nem as salas de aula aumentaram de tamanho nem houve qualquer flexibilidade para, num ano excepcional, constituir grupos mais pequenos.

Por estes dias, ficámos a saber que um ajuntamento de mais de 20 pessoas é ilegal em qualquer parte do país… excepto se ocorrer dentro de uma sala de aula. Há escolas a limitar a lotação dos espaços, definindo por exemplo que não podem permanecer mais do que 10 ou 12 pessoas dentro da biblioteca ou da sala de professores. Mas se for numa sala de aula, com área muito mais reduzida, já pode estar o dobro ou o triplo sem qualquer problema.

Muitas escolas não conseguem garantir sequer duas coisas que deveriam ser básicas: o respeito pelo distanciamento mínimo nas salas de aula – mesmo dando de barato que possa ser de apenas um metro – e uma mesa individual para cada aluno. Aposta-se tudo no uso da máscara, fazendo por ignorar as múltiplas situações em que os alunos a irão retirar ou a terão mal colocada. E que os mais novos estarão dispensados de a usar.

Na prática, o reforço orçamental das escolas permitiu apenas a compra de máscaras e de gel desinfectante. Não foi atribuída qualquer verba para aquisição de divisórias acrílicas ou outros equipamentos que possam ser usados como barreira na propagação do vírus.

E há coisas de que não se fala. Por exemplo, casos de alunos infectados que foram fazer os exames da 2.ª fase. Alguns deles foram detectados – o que implica novos testes e quarentenas entre colegas, professores e funcionários que com eles possam ter contactado – mas quantos mais, assintomáticos, haverá por identificar?

Na comunicação social, todo o esforço é feito no sentido de sossegar os pais em relação ao regresso seguro às aulas. Mas ninguém parece preocupar-se com os professores, um grupo de maior risco, até pela idade, do que a generalidade dos alunos. Descartada a hipótese do teletrabalho, o ME reitera que quem não estiver em condições de trabalhar presencialmente deve entrar de baixa e ser substituído. Mas pode presumir-se que todos os que o não fizerem têm saúde de ferro e estarão imunes aos efeitos da doença? Que devem estar expostos, longas horas consecutivas ao risco do contágio, sem que tenha sido feito tudo o que seria possível para o minimizar? Ou não passará tudo isto de uma tentativa radical de promover o rejuvenescimento da classe docente?…

A segunda vaga

criancas-covidCom epicentro em Espanha, a segunda vaga da covid-19 na Europa está aí à porta, e a abertura das escolas sem condições de segurança sanitária poderá mesmo escancarar a entrada ao virulento coronavírus.

Mensagens de confiança e optimismo soam sempre bem, mas convém que se faça primeiro o trabalho de casa, com medidas sérias e consequentes para travar o avanço da pandemia.

Na maioria das escolas, não está a suceder. E não é por incompetência ou irresponsabilidade dos professores e das direcções. É mesmo porque não são dados os meios e as condições para fazer diferente…

Espanha já está a enfrentar uma “segunda vaga” da pandemia do novo coronavírus, defende um estudo desenvolvido por um hospital e uma universidade da Catalunha conhecido este domingo, alertando que esta pode chegar aos outros países europeus nos próximos dias.

Conhecido só hoje, este estudo, datado de 2 de setembro, é assinado pelo Hospital Universitário Germas Trias i Pujol, de Badalona (Barcelona), e pela Universidade Politécnica da Catalunha e foi entretanto enviado à Comissão Europeia.

Intitulado “Análise e previsão da covid-19 para a União Europeia (UE) – Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA) – Reino Unido, na tradução em português”, o estudo adverte as autoridades europeias de que o atual momento é crucial para travar uma segunda vaga.

Caso nada seja feito nesse sentido, advertem os investigadores, a Europa poderá regressar a uma situação semelhante à de março, quando eclodiu uma transmissão descontrolada do novo coronavírus.

Botellón à moda do Porto

A zona histórica do Porto registou, durante este fim de semana, um ajuntamento que reuniu centenas de pessoas para beber e dançar na rua sem que fossem observadas as regras de distanciamento social e respeitados os horários de consumo de álcool.

O Jornal de Notícias escreve que as zonas com maior procura são as galerias de Paris e toda a zona envolvente dos jardins da Cordoaria e que as esplanadas estavam cheias, com música ao vivo e várias pessoas a dançar.

À TSF, o presidente da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto, António Fonseca, garante que os ajuntamentos com muitos jovens a beber na rua acontecem “quase todos os dias” e há até um “dois em um”, que explica.

“No que verificamos que é proibido, as autoridades não estão a funcionar”, critica António Fonseca, que adianta até que há quem leve o carro e sirva bebidas a partir dos mesmos: “Abrem as malas, mesmo com o impulso do botellón, e até tiram de lá umas caixinhas com garrafas de bebidas alcoólicas.”

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Segundo os dados mais recentes, a região Norte já superou Lisboa e Vale do Tejo no número de novos casos de infecção pela covid-19. Com a sucessão de botellones que, com a complacência das autoridades, têm animado a noite portuense, a capital do norte está bem lançada na disseminação da pandemia que os mais ingénuos julgavam já controlada. 

Foi desta forma que a situação em Espanha se descontrolou, lançando o país, em vésperas do arranque das aulas, numa segunda vaga de contágios. Mas nem os ajuntamentos ilegais na via pública, as jantaradas dos betinhos da Católica, os leitores que se acotovelam nos expositores da Feira do Livro ou os adeptos-comensais nos os comícios do Chega parecem incomodar o país. O grande problema está, a acreditar na mega-operação de manipulação mediática a que assistimos nas duas últimas semanas – e na qual o grupo Impresa e a SIC desempenharam um papel especialmente vergonhoso – na festa do Avante.

Terminada a festa comunista, cabe agora à comunicação social avençada dos grandes interesses económicos e dos apoios governamentais encontrar outros pretextos para ir desinformando do acessório, para que não se discuta o essencial.

Essencial que será, nos tempos mais próximos, a reabertura das escolas sem que estejam asseguradas as devidas condições de distanciamento e segurança sanitária. Com a colaboração prestimosa de representantes dos directores e dos pais, os principais noticiários continuam a garantir-nos que as escolas são seguras, que tudo está a ser preparado e que haverá distanciamento mínimo garantido de um metro entre os alunos. E o pessoal confia…

Até quando?…

O novo normal?

francaPelo menos 22 estabelecimentos de ensino tiveram de ser encerrados em França quatro dias depois do início do ano escolar por terem sido detectados casos de covid-19, anunciou o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer.

Dez das escolas encerradas são em França, e 12 na ilha de Reunião, território ultramarino francês a Leste de Madagáscar, no oceano Índico. No total, há 60 mil estabelecimentos de ensino em França. “Se falarmos em salas de aula estamos a referir-nos a 100 (salas de aula encerradas) mas isto muda todos os dias, evidentemente”, afirmou Blanquer, aos microfones da rádio Europe 1.

Em França, mais de 12,4 milhões de estudantes voltaram à escola na terça-feira, com o uso de máscara obrigatório para professores e para os alunos com mais de 11 anos. Bélgica, Polónia, Rússia e algumas regiões do Reino Unido regressaram às aulas no mesmo dia.

O ministro explicou que o protocolo sanitário de precaução consiste em isolar de forma imediata o aluno ou o professor que eventualmente se encontram contaminados pedindo-lhes para se manterem em casa.

“Depois, as autoridades sanitárias levam a cabo uma investigação para estabelecer os contactos, determinar a realização das provas médicas de diagnóstico. Todos os dias iniciámos cerca de 250 protocolos por suspeita de covid-19”, explicou.

O protocolo sanitário, em França, estabelece que mais de três casos de contaminação levam ao encerramento do estabelecimento de ensino, mas as autoridades sublinham que “cada caso é um caso particular”.

Embora com nuances importantes de país para país e de região para região, há uma tendência que, na evolução da pandemia, parece generalizar-se no continente europeu: o desconfinamento gradual da vida económica e social e a intensificação dos contactos sociais em tempo de férias trouxeram consigo um aumento dos contágios. Embora as infecções respiratórias tendam a diminuir ou até a quase desaparecer nos meses de Verão, o afrouxamento da prevenção e da vigilância levaram ao aumento de novos casos positivos à covid-19.

Em Setembro, o regresso às aulas será o próximo grande teste à nossa capacidade colectiva de conter o avanço da pandemia. Sendo já admitido por todos os responsáveis que os contágios em meio escolar serão inevitáveis, resta uma interrogação: quando os primeiros casos começarem a aparecer, quão eficazes serão as medidas destinadas a impedir a propagação exponencial?

Numa abordagem mais radical – mandar para casa todos os que possam ter estado em contacto com um infectado – poderemos ter a breve trecho um grande número de escolas fechadas. Mas manter na escola um número indeterminado de possíveis infectados assintomáticos será, a prazo, a receita para o desastre.

No meio-termo, tem-se falado muito da teoria da bolha: em regra um grupo-turma, que deve permanecer o mais possível isolado das outras bolhas. Assim, se um aluno se infectar, apenas os colegas e professores da turma teriam de ser colocados de quarentena.

Qualquer que seja o cenário, no entanto, uma realidade parece incontornável para os próximos tempos, até que chegue finalmente a vacina ou o tratamento eficaz para a actual pandemia: teremos escolas a funcionar em pleno, a par de outras a meio-gás, com parte da população escolar contaminada ou de quarentena e, nos casos mais graves, o encerramento total dos estabelecimentos.

Alemanha, França e outros países que se nos anteciparam na abertura das aulas dão-nos hoje uma antevisão do futuro à nossa espera…

A caminho da escola

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A abertura do ano escolar segundo Paulo Serra

A festa da Covid segundo Homem Cristo

covid-partyO arranque do próximo ano lectivo com aulas presenciais, em Setembro, deveria ser uma festa à volta do papel imprescindível da escola – para a aprendizagem, para o desenvolvimento pessoal dos miúdos, para a promoção da igualdade de oportunidades, para o combate às desigualdades sociais, para o carácter insubstituível dos professores, para a construção de um futuro melhor para milhares de crianças que, sem escola, ficariam entregues à sua sorte. No entanto, tudo aponta para que a reabertura das escolas seja, sobretudo, um campo de batalha.

O “investigador” residente do Observador para os temas educativos junta-se ao grande consenso social e político que se tenta criar em torno da reabertura das aulas.

Depois das loas tecidas pelos habituais “especialistas” da Educação ao ensino à distância – que nas versões mais delirantes assumia contornos de uma verdadeira revolução educativa – a palavra de ordem é, agora, o retorno às aulas presenciais. A todo o custo e a qualquer preço. E, como é costume neste tipo de cruzadas, levando à frente toda e qualquer objecção ou crítica, sobretudo se partir dos suspeitos do costume – os professores.

Quanto ao guião pró-regresso às aulas, ele revela-se, no mínimo, pouco imaginativo. Assume-se que a escola presencial é imprescindível aos alunos, que os pais precisam de trabalhar e que a economia não aguenta novos confinamentos. A partir daqui, deturpam-se as legítimas apreensões dos professores e dos pais mais conscientes e responsáveis acerca da forma como está a ser preparado o novo ano lectivo. E acusam-se os professores, sem pudor algum, de quererem continuar em casa, insensíveis aos prejuízos que o ensino não presencial causa aos alunos, sobretudo aos mais fragilizados.

A verdade é que foram os professores os primeiros a reconhecer as limitações do ensino remoto e a alertar para o empobrecimento das aprendizagens e o agravamento das desigualdades no acesso à educação que o encerramento físico das escolas potenciou. Nenhum professor consciente e responsável está contra a reabertura das escolas. O que todos querem é que o desconfinamento escolar se faça, tal como sucede noutros sectores da actividade económica e social, de forma segura.

Enquanto se definiram restrições na entrada e permanência em todo o tipo de espaços públicos – hospitais e centros de saúde, bancos e repartições, lojas e centros comerciais – nas escolas praticamente tudo fica na mesma. À excepção do uso de máscara, tornado obrigatório apenas a partir do 2.º ciclo, as regras de distanciamento e isolamento são para cumprir apenas “se possível”. Não estão previstas reduções ou desdobramentos das turmas, funcionamento por turnos ou redução parcial da carga lectiva. Ora é precisamente contra este “tudo ao molho e fé em Deus” que os professores, em Portugal e noutros países onde idêntica situação se verifica, se têm vindo a insurgir.

Ensaiando um tom conciliador e condescendente, o escriba do Observador tenta reduzir a polémica a um problema de comunicação: o ME e a DGS têm as soluções correctas, apenas estão com dificuldades em as explicar de forma convincente.

Não creio que assim seja. Penso que fogem às explicações porque a solução encontrada para o desconfinamento escolar está muito longe de ser satisfatória. Sabem que não forneceram meios nem criaram condições para o regresso seguro às aulas para todos os alunos e professores, pois tal implicaria, além de capacidades de organização e planeamento inexistentes no aparelho ministerial, um significativo reforço de recursos materiais e humanos dedicados ao sector. Ora investir na Educação, seja por que razão for, é uma opção liminarmente rejeitada por todos os governos que temos tido ao longo das duas últimas décadas.