Aprender menos e ter melhores notas

exame-ginasio.JPGOs professores do ensino superior alertaram esta segunda-feira para o risco de os alunos que este ano fazem os exames nacionais terem melhores resultados, mas estarem pior preparados para frequentar as universidades e institutos politécnicos.

No arranque da primeira fase dos exames nacionais, que este ano são facultativos e apenas relevam enquanto provas específicas para o acesso ao ensino superior, é expectável um panorama avaliativo diferente do habitual.

Como as notas dos exames – que tendem a ser inferiores às classificações internas dos alunos – não contam para a média final das disciplinas, o efeito imediato será um inflacionamento das notas finais.

Mas também as notas dos exames poderão ter tendência a aumentar, relativamente a anos anteriores. Isto mesmo assumindo que as condições atípicas em que decorreu o terceiro período condicionaram negativamente a consolidação de aprendizagens. É que, por um lado, a maioria das perguntas são opcionais, sendo consideradas apenas aquelas que os estudantes escolherem ou em que tiverem melhores resultados. A percepção geral, que o exame de Português hoje realizado parece confirmar, é a de que teremos este ano provas mais acessíveis.

Por outro lado, ao funcionarem exclusivamente como provas específicas, será menor o universo de alunos a avaliar. Os alunos que se inscreveram nos exames são, à partida, os que têm a ambição de se candidatar ao ensino superior e apenas se inscrevem em disciplinas que são essenciais para a área ou o curso que pretendem seguir, o que traz só por si uma motivação acrescida.

E eis as razões pelas quais 2019/2020 poderá muito bem vir a ser o ano lectivo em que menos se aprendeu, mas também aquele em que melhores notas se obtiveram…

Pensar fora da caixa

thinking-outside-the-box.jpgIndo além das numerosas contingências e sacrifícios que nos vai impondo, o combate à pandemia poderia ser uma oportunidade de mudança na Educação. Recentrando a escola, não nos preconceitos, nos dogmas e nas ambições pessoais dos governantes e dos seus medíocres conselheiros, mas no que é realmente importante e estruturante para a formação escolar, social e pessoal dos alunos.

Precisaríamos, claro, de decisores que não fossem tão quadrados no pensamento e na acção, capazes de pensar fora da caixa, sacudindo de vez as teias mentais que tolhem o passo em direcção às mudanças realmente necessárias.

E não é muito difícil encontrar soluções simples, eficazes e não necessariamente muito mais dispendiosas para continuar a aprender na escola presencial. Se são ignorantes nestas matérias – como o ministro, cada vez que abre a boca, faz questão de demonstrar – ou não encontram ajuda e inspiração entre a sua corte, deveriam ter a sensatez a a humildade de ouvir quem sabe – nomeadamente os professores que estão no terreno, que trabalham diariamente na sala de aula e que nunca abandonaram os seus alunos em busca de outros desafios.

Leiam por exemplo a proposta do nosso colega Duilio Coelho, que explica com clareza o que poderia ser alterado no primeiro ciclo, em alternativa à salgalhada curricular em que sucessivas e insensatas reformas o transformaram.

Os alunos do 1.º ciclo deveriam ter apenas aulas no periodo da manhã, deixando as tardes para:
– Atividades Extra-Curriculares;
– Estudo;
– Atividades Desportivas;
– Atividades Culturais;
– Atividades Musicais;

Não tenho qualquer dúvida em afirmar que a aprendizagem dos alunos seria bem superior, os níveis de motivação e concentração de manhã são muito superiores ao periodo da tarde.
O segundo aspeto era reduzir a gordura curricular, pois o atual currículo é reconhecidamente desadequado para a maioria dos alunos, não dando tempo para trabalhar consistentemente os aspetos mais importantes do desenvolvimento do aluno.

A continuação do trabalho do professor poderia ser de forma remota, de tarde, para os alunos com dificuldades de aprendizagem, que recebiam lições extra em casa ou na escola acompanhados de adultos.

Este horário permitia acionar mais facilmente um plano de emergência “COVID” sem os sobressaltos da última interrupção lectiva presencial. Reduzia os tempo de presença de alunos e professores nas escolas e diminuía o risco de contágios, quer da gripe quer do Covid e outros problemas relacionados com permanência excessiva em ambiente escolar.

Como é que quatro elefantes cabem num Mini?

mini.jpgClaro que terão de ser dois à frente e dois atrás, o problema é enfiá-los lá dentro…

A piada já tem barbas, mas o modo de pensar é o mesmo que segue o ministro da Educação. Dê por onde der, as turmas têm de caber nas salas que lhes estão destinadas.

Claro que com turmas mais pequenas seria possível, além de os enfiar nas salas, respeitar igualmente o distanciamento físico entre alunos recomendado pelas autoridades de saúde pública.

E nunca as teorias de certos pedagogos acarinhados pelo ME, que defendem o derrube das paredes físicas das salas de aula, estiveram tão actuais.

Mas tudo isto é liminarmente descartado pelo ministro:

Os alunos vão caber todos na mesma sala. Não haverá desdobramento de turmas.

Entre a contenção orçamental no sector da Educação e a tomada de medidas que possam reduzir os riscos de propagação do novo coronavírus no contexto escolar, a opção está feita, e é óbvio que a escolha feita não é a que melhor defende a preservação da saúde de alunos e professores.

Mais (des)orientações

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Em complemento do documento orientador para a organização do próximo ano lectivo, que comentei no post anterior, também foram ontem divulgadas orientações mais específicas, elaboradas em conjunto com a DGS, acerca dos condicionamentos impostos pela pandemia ao funcionamento das escolas e infantários.

Passando adiante o que todos já sabem – arejar e higienizar os espaços, evitar ajuntamentos de alunos e entrada de pessoas exteriores à comunidade escolar, manter um espaço de isolamento de casos suspeitos, lavar e desinfectar as mãos com frequência – na organização das aulas há duas expressões que se destacam: “sempre que possível” e “preferencialmente”.

Ou seja, não se mexe no número de alunos por turma, mas espera-se que os alunos caibam todos nas salas existentes, cumprindo as regras de distanciamento. Ou então pensam que existem dúzias de salões, ginásios, auditórios, salas de convívio nas escolas portuguesas, e basta levar as turmas para esses espaços.

Encurta-se a distância mínima para um metro – pode ser que assim caibam, pensarão os doutores orientadores – mas esquece-se que a generalidade das escolas está equipada com mesas duplas. E não se equaciona sequer a compra de mais mesas ou a colocação de divisórias acrílicas que possam criar algum isolamento entre alunos.

Lendo este documento, a ideia que fica é a de uma visão ficcionada da escola portuguesa, idealizando-se uma realidade, decorrente do desconfinamento, que é impossível de concretizar.

Uma vez mais, discorre-se sobre uma imensidade de coisas que directores, professores e funcionários deverão fazer, para tornar as escolas espaços seguros mesmo durante a pandemia. Mas não há uma palavra que expresse qualquer tipo de compromisso dos responsáveis, no sentido de que essas condições de segurança possam ser criadas.

Orientações para o novo ano lectivo

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Chamam-lhe Orientações para a organização do ano letivo 2020/2021, mas o documento é um verdadeiro plano de trabalhos para que as escolas acrescentem, a tudo o que já faziam antes, autênticos milagres de distanciamento físico em salas e com turmas que continuam com as mesmas dimensões que tinham antes da pandemia, de gestão de horários, enfiando numa manhã ou numa tarde as aulas que antes ocupavam o dia, de atender a uns alunos presencialmente e a outros por contacto remoto, sem esquecer aqueles que poderão estar em regime misto.

O mais degradante disto tudo é que o aumento de recursos que se disponibilizam, nomeadamente em crédito horário, é pouco mais do que simbólico. Em contrapartida, e como sucede sempre que o ME decide “orientar” as escolas, aumenta a carga burocrática que recai sobre os professores. Quase tudo tem de ser reportado e, nalguns casos, autorizado. E em vez de dar orientações mais precisas e comprometedoras, o ME prefere resguardar-se, dando às escolas autonomia para irem fazendo… Um presente envenenado, pois responsabiliza-as directamente por tudo o que venha a correr mal. Quanto ao ME, fará aquilo que, com a pandemia, se tornou regra obrigatória: lavar bem as mãos. Irá, obedecendo às instruções da DGS, lavá-las muitas vezes…

Do documento, que se pode descarregar a partir do link no topo do post, deixo os principais destaques:

  • Escolas e agrupamentos devem estar preparados para alternar entre regime presencial, não presencial e misto, consoante a evolução da pandemia e as indicações das autoridades de saúde pública;
  • O regime presencial é a situação desejável e deve ser mantida sempre que possível;
  • No caso de não ser possível manter todos os alunos na escola, é dada prioridade aos alunos do 1.º e do 2.º ciclo, aos que não têm em casa os meios e os apoios para estudar e aos que necessitam de apoios educativos que tenham de ser dados presencialmente;
  • Se for implementado o ensino não presencial, seguir-se-á uma rotina semelhante à que conhecemos este ano, com a elaboração de um plano de ensino a distância e a recolha semanal de evidências do trabalho e da participação dos alunos.
  • Haverá um reforço do crédito horário, traduzido na fórmula CH = 8 × n.º de turmas – 50 % do total de horas do artigo 79.º do ECD, que nos TEIP será um pouco mais generoso – o multiplicador 8 aumenta para 11;
  • O Apoio Tutorial Específico, uma invenção da equipa de João Costa cuja real utilidade continua por demonstrar, será no próximo ano alargado a todos os alunos que ficaram retidos;
  • Além do programa de tutorias, haverá também um programa de “mentorias”, com o qual se tentará que alunos com melhor aproveitamento ajudem outros em dificuldades – também aqui, o voluntariado inter pares fica mais barato do que contratar professores e técnicos de apoio…

Costa bem, Marcelo mal

À esquerda, máscara têxtil de produção nacional, reutilizável.

À direita, máscara descartável de fabrico chinês.

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Também nestas pequenas coisas há uma mensagem que deve ser passada por quem detém responsabilidades políticas…

Imagem e inspiração daqui.

E agora, as avaliações…

estatisticaNão são precisos grandes dotes adivinhatórios para antever que o sucesso escolar irá bater, este ano, todos os recordes.

Será o ano em que, fruto das contingências e dos confinamentos, menos se aprendeu. Mas também aquele em que, muito provavelmente, os resultados mais subirão. Quer venham traduzidos na escala de 1 a 5, quer nas velhinhas classificações de 0 a 20. E quanto às detestadas retenções, o mais certo é ficarem finalmente reduzidas a números residuais.

Quanto às razões para isto suceder, elas são evidentes, e só a má-fé e a eterna desconfiança da equipa ministerial em relação aos professores pode ver nisto uma tentativa de, na falta de um punhado de exames, subverter o processo avaliativo com um brutal inflacionamento das notas.

De facto, se nos colocarmos na perspectiva de qualquer professor, a realidade torna-se fácil de compreender. Não é aceitável prejudicar alunos que, devido à pandemia, ficaram privados da escola e, por variadas razões, não puderam prosseguir no mesmo ritmo as suas aprendizagens. Uns porque não dispunham dos equipamentos necessários, outros porque os tinham de partilhar com pais e irmãos, outros por carecerem de suficiente autonomia e disciplina para trabalharem sozinhos, outros ainda por falta de motivação ou adequado acompanhamento parental. Sejam quais forem as situações, a verdade é que a desigualdade de condições reinou, traduzindo-se em poderosas condicionantes que, na maioria dos casos, os professores não estavam em posição de controlar ou remediar.

Por outro lado, se os alunos que menos fizeram não podem ser prejudicados por circunstâncias que, no essencial, os ultrapassam, o que fazer em relação àqueles que se superaram? Os que estudaram, fizeram todas as tarefas, participaram activamente nas sessões síncronas e fizeram progressos efectivos e comprovados nas suas aprendizagens? Será escandaloso que, nalguns destes casos, possa haver uma melhoria da nota do segundo período? Não será esta uma questão de elementar justiça?…

Com um sucesso praticamente universal como dado adquirido na generalidade das escolas, a principal incógnita é o alcance desta excepcionalidade. Será ela apenas o fruto isolado de um ano diferente de todos os outros ou, pelo contrário, marcará a consolidação de uma tendência pró-sucesso que já vem de trás?

Para já, o mais interessante é registar a forma súbita como o ME transferiu as suas habituais preocupações com as retenções para o combate às “notas inflacionadas”. Mas também estou curioso em ver o que acontecerá, daqui para a frente, com a indústria da promoção do sucesso instalada no ME e ancorada em financiamentos europeus. Se os seus objectivos forem atingidos antes do tempo previsto, fará sentido continuar a verdascar os professores?…

Tudo controlado…

Com uma média diária de 300 a 400 novos casos confirmados, e depois de já termos sido uma referência, em termos europeus, na forma como conseguimos conter a pandemia na sua fase inicial, os números continuam a não baixar.

O vírus parece não se condoer dos idosos há demasiado tempo afastados das famílias, dos jovens que querem divertir-se, das famílias que têm saudades de ir à praia ou, os menos afortunados, passear para os centros comerciais. Nem mesmo a economia em risco, os turistas ausentes, o desemprego e o lay off demovem o coronavírus.

Muito menos o estado de negação e a conversa de chacha dos altos responsáveis…

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Imagem daqui.

 

Proibir os ajuntamentos

marcelo-covidO Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, avisou este domingo que esta é a fase de dissuadir e apelar, mas que se for necessário serão tomadas medidas para determinadas localidades ou “mais duras” para impedir ajuntamentos devido à pandemia.

Não deixou de surpreender positivamente a docilidade com que a juventude, mesmo a mais irreverente e contestatária, aceitou as medidas de confinamento impostas para conter o surto do coronavírus.

No entanto, além do civismo e do sentido de responsabilidade que a generalidade dos jovens demonstrou, há um outro factor que a muitos terá passado despercebido. Mas que, nas suas conversas e comentários, se conseguia perceber: a ideia era salvar o Verão. Aceitar o mais rigoroso dos isolamentos em tempo de aulas, ir até além das medidas impostas pelas autoridades, para debelar o “bicho” antes da chegada do bom tempo, da praia e das discotecas, esplanadas e festivais de Verão.

Só que, numa comparação feliz que li por aí, o combate ao covid-19 não se assemelha a uma corrida de velocidade; é mais parecido com uma prova de resistência. E pelo menos enquanto não existir vacina ou tratamento eficaz, é o vírus que nos condiciona; não somos nós que lhe podemos dizer: “Aquieta-te por aí uns tempos, que agora queremos gozar as férias e aproveitar o Verão”. O Verão, pelo menos da forma como é entendido por muitos, se não está irremediavelmente estragado, estará certamente comprometido.

Mas os mais impacientes não se conformam. Os grupos de jovens e menos jovens na rua, sem uso de máscaras nem distanciamento físico, são uma verdadeira roleta russa na provocação ao vírus. Está a formar-se uma onda de comportamentos de risco que, se não for travada, vai fazer recrudescer a pandemia. Como sucede em todos os países onde reina a imprudência. Com mais de cem mil casos diários no mundo inteiro, estamos ainda muito longe da vitória.

Mas é inquestionável que quando, em vez do laxismo, medidas rigorosas de controle, isolamento e protecção são aplicadas, tendem a ser bastante eficazes. Quando a China e outros países com governos ditatoriais ou autoritários demonstram a eficácia dos seus métodos a controlar novos surtos da pandemia, cresce o desafio para as democracias ocidentais: serão elas capazes de impor as restrições eficazes para isolar os infectados e quebrar as cadeias de contágio, sem colocar em causa os direitos fundamentais dos cidadãos?

Covid-19: aumentam infecções em crianças e jovens

covid19Enquanto se tenta “regressar à normalidade” sem que o surto do coronavírus esteja controlado – meses de confinamento permitiram apenas eliminar focos e oportunidades de propagação, mas o bicho continua por aí, sem vacina nem tratamento eficaz – o aumento dos casos parece inevitável e vai acontecendo. E mesmo que as creches, infantários e escolas secundárias sejam, em regra, espaços seguros, nada impede que as pessoas cheguem infectadas do exterior.

Nesta segunda vaga de infecções que parece estar a esboçar-se, são afectadas pessoas geralmente mais jovens, os casos são mais ligeiros e uma grande parte, provavelmente a maioria, serão assintomáticos. O que significa também que, quanto menos se testar, menos serão detectados. Uma tentação perigosa, pois deixar-nos-á desprevenidos perante novos e mais graves surtos da doença.

Há uma lição inquestionável que deveria estar a ser retirada do aumento do número de casos positivos envolvendo crianças e jovens: nas escolas que recebem ou venham a receber alunos, testar com regularidade e de forma sistemática deverá ser uma prioridade.

Mais do que duplicaram os casos de covid-19 em crianças com menos de 10 anos, durante o último mês e meio. Desde o início de maio, foram confirmados 500 casos do novo coronavírus em crianças – 224 destes só no mês de junho, que marcou o regresso do ensino pré-escolar. Isto quer dizer que um em cada quatro casos de Covid-19 em crianças foi diagnosticado desde que voltaram a abrir as creches.

São agora 897 as crianças entre os 0 e os 9 anos de idade que já testaram positivo para a Covid-19, com 56% destas a surgirem no boletim epidemiológico da DGS a partir deste mês de maio, ou seja, já após o levantamento de restrições e do estado de emergência em Portugal.

Após a reabertura das creches, a 1 de junho, já foram confirmadas 224 crianças com Covid-19 – 33% de todas as crianças desde o início de maio e 25% de todos os casos.

Os dados mais recentes da Covid-19 em Portugal revelam ainda que, no mesmo período, foram infetadas 576 crianças e jovens entre os 10 e os 19 anos de idade, quase 400 desde o regresso às aulas presenciais para alunos do ensino secundário nas disciplinas consideradas essenciais aos exames nacionais.

Isto significa que quase um em cada três casos da Covid-19 nesta faixa etária foram registados desde que se iniciou a segunda fase de desconfinamento e representam quase metade de todos os casos diagnosticados desde o início de maio.