Professores e funcionários madeirenses vacinados na Páscoa

Cada vez mais, a Educação madeirense mostra ser – para melhor! – um mundo à parte.

A questão é simples: se queremos que as escolas sejam um lugar seguro, não é a repetir mil vezes a mesma lengalenga que o desejo se torna realidade. É preciso tomar medidas concretas que garantam essa segurança.

Por cá, bem podiam deixar-se de vagas promessas e demagógica propaganda, e aprender como se faz.

O presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, anunciou, esta manhã, no Santo da Serra, que a Secretaria da Saúde vai avançar “em breve”; com a vacinação dos professores e pessoal não docente das escolas da Madeira.

“Vamos aproveitar este período de interrupção lectiva da Páscoa para iniciarmos a vacinação dos professores e funcionários das escolas porque isso vai dar-nos uma garantia de contenção do número de infecções nas escolas. Apesar das infecções terem origem em factores exteriores à escola, (a vacinação) vem dar-nos uma garantia de que no recomeço das aulas presenciais temos a situação mais controlada”, disse o governante.

Finalmente, alguma coisa a mexer…

Sinal de que o reforço das medidas de prevenção e segurança sanitária, no contexto da reabertura das aulas presenciais, poderá não ser apenas uma figura de retórica.

Depois de pela primeira vez se reconhecer a importância do uso da máscara também no 1.º ciclo, fica a faltar o passo seguinte, que é decretar o seu uso obrigatório. Uma medida cuja necessidade é óbvia, mas em relação à qual o governo, incompreensivelmente, parece hesitar.

O Ministério da Educação (ME) vai transferir cerca de sete milhões de euros para reforçar os orçamentos das escolas públicas de modo a que estas possam comprar os equipamentos de protecção necessários para alunos, professores e funcionários, quando for retomado o ensino presencial. Este procedimento já tinha sido seguido no início do ano lectivo. A novidade é que, desta feita, também vão ser entregues máscaras aos alunos do 1.º ciclo.

Parece-me justo

Vacinar todos os professores e funcionários escolares seria o ideal, diz ao PÚBLICO o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof). Este universo ronda as 250 mil pessoas, estima. Mas se tiverem de ser definidas prioridades, Mário Nogueira não tem dúvidas: “Devem ser aqueles, professores e funcionários, que nunca saíram da escola. Estou a falar dos que pertencem ao grupo de intervenção precoce, que asseguram a educação especial e o funcionamento das escolas de acolhimento, entre outros casos de excepção, nomeadamente de apoio aos alunos que não dispõem de Internet ou computador em casa para poderem acompanhar as actividades lectivas.” Estes não devem ir além dos dez mil no total, calcula o líder da Fenprof.

Mário Nogueira espera que a possibilidade admitida por Marta Temido seja mesmo “uma certeza” e que dentro de semanas não surja uma ideia em contrário. “Não queremos que isto seja como as obras de Santa Engrácia, que nunca mais acontecem”, afirma, recordando que a Fenprof formalizou a proposta de vacinação prioritária três vezes junto do Ministério da Educação, mas que nunca obteve resposta.

“Esta é uma das medidas que consideramos fundamental para que as escolas possam abrir e manter-se abertas”, afirmou, acrescentando que também seria importante investir em testes e distanciamento nas salas de aulas, o que considera ter falhado no primeiro período.

A vacinação dos professores na primeira fase também está a ser implementada noutros países, referiu Mário Nogueira, dando como exemplo a Espanha, o Chile, os EUA, a Alemanha e o Reino Unido. “E a vacinação dos professores é recomendada por entidades internacionais como a ONU e a Unicef”, afirmou.

Sendo consensual a necessidade de reabrir as escolas em pleno assim que a evolução da pandemia o permita, é necessário proteger os profissionais que ficarão indubitavelmente expostos a um risco acrescido: o que decorre da permanência, durante horas, em espaço confinado, com uma ou várias turmas, sem o devido distanciamento físico.

O que Mário Nogueira e outros sindicalistas reafirmaram publicamente a este respeito faz todo o sentido e penso que exprime a posição da grande maioria dos professores, pelo que me custa a compreender a indignação e o acinte de Paulo Guinote: os professores devem ser considerados grupo prioritário na vacinação. Contudo, se não for possível vacinar no imediato os mais de cem mil docentes no activo – a escassez de vacinas é uma realidade nesta fase -, então que se comece, não pelos que, como eu ou o Paulo, estão em casa em teletrabalho, mas por quem permanece na escola a assegurar o acompanhamento a alunos filhos de trabalhadores essenciais ou com necessidades especiais.

No resto, não se trata de ir vacinando enquanto se dá umas aulas, mas de, uma vez reconhecida a necessidade da vacinação, para todos, exigir que pelo menos a primeira toma seja dada antes do regresso às aulas. Sendo previsível que a educação pré-escolar e o primeiro ciclo reabram mais cedo, é inteiramente justo que estes colegas sejam vacinados à minha frente, que sou do 3.º ciclo e secundário.

Acima de tudo, parece-me essencial, quando a possibilidade de antecipar a vacinação de quem trabalha nas escolas não passa de uma vaga sugestão lançada, como que a apalpar terreno, pela ministra, que os professores se mantenham unidos na exigência da sua concretização. Demonstrar logo à partida desunião e desentendimento parece-me um claro tiro no pé, que do lado do Governo e dos habituais críticos da classe docente será lido de forma muito clara: nós até estávamos dispostos a vaciná-los, mas a ideia não é consensual entre os próprios professores.

Nem por acaso, surgiu já uma petição a exigir a vacinação prioritária dos docentes cujos alunos não usam máscara. Uma exigência justa, na perspectiva que atrás referi, mas que corre o risco de, apresentada desta forma, semear a divisão e a discórdia. E há também quem, nas redes sociais, vá fazendo questão de dizer que dispensa a vacina ou que este ou aquele deveria ser vacinado primeiro. A estes, há apenas que lembrar que quem não quer, não tem de condicionar o querer, muito menos o direito à saúde dos outros. Como se dizia antigamente aos esquisitos, quem não quer, coloca na beira do prato.

Pediatras querem escolas reabertas

A Sociedade Portuguesa de Pediatria defende a reabertura urgente das escolas, especialmente no ensino pré-escolar e nos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, chamando a atenção para as consequências do fecho no desenvolvimento das crianças.

Numa posição conjunta, a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), a direcção do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos e a Comissão Nacional da Saúde Materna, da Criança e do Adolescente consideram urgente que os decisores equacionem a reabertura das escolas e a integração das crianças em actividades adequadas às suas reais necessidades.

“A aproximação ao normal poderá ter de ser faseada, com avaliação contínua e adequada, mas tem de ser rápida e programada de forma consistente”, referem.

Para aquelas entidades, a urgência é maior no ensino pré-escolar e no 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, seja pelo importante papel que o contacto com os educadores e com outras crianças tem no desenvolvimento psicomotor de competências básicas, seja pelo maior impacto no funcionamento em sociedade e pelo menor risco de contagiosidade comunitária.

“A abertura das escolas para as restantes fases de ensino poderá ter de seguir uma progressão gradual, por ciclos de ensino, deixando os mais diferenciados, em que os métodos de ensino não presencial colocam menos dificuldades, para mais tarde. Mas não esqueçamos a necessidade de socialização dos adolescentes, cuja saúde mental está em risco”, sublinham.

Nada de novo na posição das organizações representativas da pediatria em defesa da reabertura das escolas. Toma-se como fiável a propaganda governamental em torno das escolas seguras, sem estudos ou evidências sólidas que a corroborem. Mesmo os escassos e inconclusivos dados disponíveis sobre surtos nas escolas só foram divulgados, pelo ME, após intimação judicial. E ignoram-se os desenvolvimentos mais recentes da pandemia, para se continuar irresponsavelmente a afirmar que as crianças raramente são infectadas pela covid-19 e menos ainda contaminam quem as rodeia.

Na verdade. o apelo da Sociedade de Pediatria ao desconfinamento escolar é uma posição de quem está acima de tudo preocupado, como é natural e compreensível, com a saúde e o bem-estar infantil. Dando como garantida a relativa inoquidade do novo coronavírus para os grupos etários mais jovens, uma simples análise de risco permite concluir que serão maiores os danos, para a população escolar, de um confinamento prolongado, do que o risco de que uma ínfima parte das crianças possa ser contagiada.

O problema de uma análise deste tipo é que se foca apenas nas crianças, esquecendo quem está à sua volta. Mesmo dando de barato que uma turma inteira pode ser contaminada e ninguém adoecer, o mesmo não se passará com os professores e funcionários da escola nem com outros membros do agregado familiar. Embora não haja, convenientemente, dados estatísticos a esse respeito, em muitos agrupamentos escolares constatou-se que houve mais professores infectados no 1.º ciclo, onde a máscara não é obrigatória, do que noutros níveis de ensino. As crianças contagiam, sim. Mas como raramente revelarem sintomas da doença, nunca são rastreadas e só são testadas, regra geral, quando já há outros familiares infectados, têm-se tornado agentes silenciosos e invisíveis na propagação da pandemia.

Embora a reabertura das aulas seja benéfica e desejável para todas as crianças, esse não é o único factor a ser considerado. Neste momento, reduzir a transmissibilidade da doença pandémica, intensificar processos de rastreio e testagem sistemáticos e acelerar o processo de vacinação – incluindo nele o pessoal docente e não docente que se quer promover à condição de trabalhadores essenciais – parece-me bem mais prioritário e urgente do que umas semanas a mais ou a menos de aulas presenciais.

Como já por aqui ficou escrito, numa escolaridade de doze anos, não há aprendizagens importantes que, impossíveis de concretizar em confinamento, se não possam mais tarde recuperar. Irreversíveis são as milhares de mortes devidas à covid-19 ou a doenças que, por causa do recrudescimento da pandemia, não tiveram o tratamento adequado. Para não falar das dezenas de milhares de doentes graves que ficarão com insuficiências respiratórias ou outras sequelas que comprometerão irremediavelmente a sua qualidade de vida.

Na pandemia, como em quase tudo na vida, é importante olhar para o quadro no seu todo. E não nos limitarmos, nem querermos limitar os outros, a ver apenas um dos lados do problema.

Luz ao fundo do túnel?

A ministra da Saúde admite vacinar professores e funcionários das escolas, revelando que essa “hipótese está a ser analisada em Portugal e noutros países”.

“Poderá fazer sentido que os adultos que trabalham nesses locais tenham uma vacinação diferenciada”, disse Marta Temido, esta terça-feira à noite, em entrevista à SIC.

Finalmente, embora ainda no plano das hipóteses muito hipotéticas, uma medida realmente relevante para escorar a aposta na reabertura das aulas presenciais. Se querem os professores nas salas de aula, perante turmas numerosas e sem distanciamento, então faz todo o sentido que sejam tratados como o grupo de risco que estão condenados a ser. Coloquem-nos na lista de prioritários para a vacinação contra a covid-19.

Embora me pareça que nada disto se deva aos lindos olhos dos professores ou a qualquer súbito desvelo para com a classe docente. Terá mais a ver, digo eu, com a existência de algumas sobras da vacina da AstraZeneca, que não é recomendada a maiores de 65 anos…

Falta estratégia para o desconfinamento escolar

Os testes de rastreio para detectar infecções pelo novo coronavírus vão ser alargados a todas as escolas do continente, independentemente do nível de ensino. Em todas estão “recomendados” rastreios regulares a professores e funcionários, mas apenas no ensino secundário serão testados igualmente os alunos. Esta é a principal novidade da actualização à Estratégia Nacional de Testes para SARS-CoV-2, que foi revista esta sexta-feira. A estratégia, criada em Outubro, tinha sido alterada há pouco mais de duas semanas.

Outra novidade é a possibilidade de serem realizados testes moleculares, os chamados PCR, através da recolha de saliva e não a partir de uma amostra de secreções retiradas da naso ou orofaringe, o que implica a utilização de uma zaragatoa, muitas vezes um procedimento desagradável para o visado. “As amostras de saliva podem ser consideradas nos testes moleculares como alternativa, às amostras do trato respiratório, particularmente em situações de rastreio comunitário”, lê-se na norma da Direcção-Geral da Saúde.

Apesar da insistência com que se vai pedindo, nos media, a reabertura das aulas, o Governo continua a não se comprometer com datas concretas para a reabertura faseada, que só deverão ser reveladas no final da próxima semana. Percebem-se as cautelas, tendo em conta a desastrosa gestão da pandemia nos últimos meses, e nota-se também outra coisa: estão a adiar a abertura porque não querem tomar medidas de fundo para reforçar a segurança sanitária nas escolas, mesmo quando é evidente que as regras estabelecidas em Setembro são claramente insuficientes e as estirpes agora em circulação têm maior capacidade de contágio entre as camadas jovens da população.

Em termos mais gerais, continua em alta o truque demagógico que já se tornou imagem de marca deste governo: anunciam mil vezes a mesma coisa – neste caso os testes e rastreios sistemáticos à covid-19 – enquanto vão fazendo o exacto o contrário do que apregoam: Portugal continua a ser dos países europeus que menos testes fazem, e enquanto assim for poderemos até baixar artificialmente o número de novos casos, mas continuaremos longe de conseguir controlar a evolução da pandemia. Se não investigamos e estudamos poderemos sempre evitar tomar medidas difíceis e dispendiosas alegando que não está demonstrado isto ou aquilo. Mas quando a desgraça nos bater à porta, como sucedeu em Janeiro, estaremos condenados a reagir aos acontecimentos com medidas drásticas, em vez de antecipar problemas e prevenir riscos.

No concreto, continua a tardar o anúncio de medidas, até mesmo as mais simples e eficazes. Por exemplo, quando se pretende reabrir prioritariamente as aulas dos alunos mais novos, o que se espera para determinar a obrigatoriedade do uso de máscara no 1.º ciclo? Vamos continuar a negar as evidências e a presumir que as crianças não adoecem nem contagiam, verdade de conveniência que foi assumida no desconfinamento?

Relativamente a medidas já anunciadas, como a testagem regular nas escolas, a mesma coisa: porque se insiste na testagem apenas de professores, funcionários e alunos do secundário? Faz algum sentido excluir dos rastreios toda a população escolar das escolas do ensino básico, ainda para mais quando se admite, finalmente, que os testes podem ser feitos a partir da saliva, tornando menos penosa e problemática a aplicação? Tem alguma lógica testar, no 1.º ciclo e no pré-escolar, o único mascarado da sala, enquanto as criancinhas se contagiam livremente naquilo que alguém decretou ser um “lugar seguro”?

Não estará mais do que na altura de reconhecer que, quando se defende a necessidade absoluta de reabrir as escolas, se está a impor aos professores que trabalhem em condições de proximidade física e de densidade de ocupação do espaço a que mais nenhum profissional está a ser sujeito? O que lhes falta para conseguirem perceber, como noutros países se entende sem dificuldade, que fazer da classe docente cobaia do desconfinamento deveria implicar prioridade na vacinação? E que, enquanto tal não for possível, o mínimo que deveriam fazer era reforçar efectivamente a sua segurança. Por exemplo, assegurar-lhes um fornecimento diário daquelas máscaras de “bico de pato” que dizem ser as mais seguras, como faz qualquer empregador cuidadoso em relação aos seus trabalhadores mais expostos ao contágio. Ou será que, tal como os computadores da escola digital, também ficaram retidas na China?…

Liberalismo para totós… e colunistas aperaltados

O boneco já é um clássico das redes sociais, mas serve bem para compreender uma realidade simples que muitos fazem por desentender.

Basta substituir o imigrante pelo trabalhador desempregado ou em lay off forçado por causa da pandemia e o operário pelo “burguês em teletrabalho”, expressão insultuosa para designar o trabalhador que não ficou privado de emprego nem do seu rendimento habitual porque, mesmo confinado, continuou a trabalhar.

Quanto ao verdadeiro burguês, o dono e distribuidor das bolachas, esse manteve, e em muitos casos a aumentou, o seu rendimento. Continua a ser proprietário de meios de produção e redes de distribuição, podendo explorar a força de trabalho, tirando partido não só das novas oportunidades abertas pela globalização e pela economia digital, como das carências e novas necessidades trazidas pela pandemia. E, claro, continua a ter todas as facilidades para expatriar lucros para paraísos fiscais e recorrer à contabilidade criativa e às leis feitas à medida para contornar e minimizar as obrigações fiscais.

Redesenhado à medida da recente polémica nas redes sociais, o boneco poderia incluir um quarto elemento, representando uma pequena burguesia petulante e deslumbrada com a possibilidade de, papagueando umas idiotices, chegar às primeiras páginas dos jornais. Aparentemente, pensam pela sua cabeça, mas o que dizem e escrevem só é amplificado porque convém aos donos das bolachas.

Se uma coligação de interesses económicos e políticos criou a economia de casino que leva hoje a concentração de riqueza a níveis inauditos, os académicos aperaltados que transformaram as faculdades de Economia em escolas de negócios ao serviço dos senhores do mundo são objectivamente seus serventuários e aliados. Quando recorrem aos media para nos tentar convencer que devemos partilhar melhor as migalhas para que os pobres não morram de fome enquanto os ricos continuem a engrossar o seu bolo, a mensagem não é inocente, muito menos isenta. E é isso que precisa de ser intransigentemente denunciado.

Prioridades

Angela Merkel, que ainda não foi vacinada contra a covid-19, defendeu que os educadores de infância e professores do ensino básico devem ser vacinados à sua frente.

Numa entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine, publicada esta quinta-feira, a chanceler alemã revelou que está “à espera de ser vacinada”, mas defendeu que uma “educadora de infância” ou “um professor do 1º ciclo” devem ser vacinados primeiro.

“Estas são as pessoas que deveriam estar à minha frente na fila”, considerou.

Atente-se no exemplo de Angela Merkel e olhe-se de seguida para Portugal, onde os comentadores do regime, em teletrabalho, pressionam despudoradamente o governo para que reabra as creches já para a semana. “Com todas as condições de segurança”, acrescenta-se, sabendo-se bem que no sector educativo elas se aplicam apenas “se possível”. No caso da educação pré-escolar, a “segurança” significa crianças sem máscara nem distanciamento, impossíveis de assegurar nessas idades, e sem quaisquer planos para incluir rapidamente educadoras/es no plano de vacinação.

As regras de segurança sanitárias devem ser definidas em função da sua real eficácia, e não de calculismos políticos ou conveniências. Assumida a sua necessidade, a aplicação não pode ser opcional: enquanto não for possível garantir segurança, devemos manter o confinamento. E ganhamos mais em mobilizar vontades e recursos para fazer o que é preciso do que em gastar energias a formar grupos de pressão ou a alimentar demagogias e ânsias de protagonismo. Tudo isto é de compreensão simples e deveria ter sido aprendido com a experiência do primeiro desconfinamento. Mas custa a entrar na cabeça dura de alguns doutores da faculdade…

E uma carta aberta pelo fim da pobreza?

O argumento de que há outras medidas igualmente eficazes ao fecho das escolas pode até ser verdadeiro. Mas relembro que foi esse argumento que manteve as escolas abertas até ao final de janeiro com os resultados que são conhecidos. Rastrear, dizem. Rastrear contacto funciona na Alemanha. Estive mais de 30 minutos numa sala com um caso positivo, com máscara, mas não foi sequer considerado para rastreio. Entende-se por que razão este argumento não serve.

Outros pontos com os quais concordo são aqueles que se referem à proteção da saúde mental dos mais novos, ao desenvolvimento harmonioso da criança/jovem, as desigualdades de acesso aos meios digitais, à eficácia do ensino à distância, às condições que a generalidade dos portugueses tem nas habitações. Sobre este assunto é importante que se esclareça cabalmente que não é pelo facto de as escolas abrirem que esses problemas desaparecem. Eles lá continuam, deixam é de ser notados e com isso deixa de haver necessidade de os resolver. Será? Não me recordo de ter visto nenhuma carta aberta para se acabar com a pobreza… Talvez tenha estado desatento.

Alberto Veronesi faz, assumindo a sua condição de professor, o contraditório à carta aberta em que mais de uma centena de notáveis defendeu a prioridade à reabertura das escolas. Tal como também já por aqui escrevi, no plano teórico não é difícil estar de acordo com muitas das ideias e princípios enunciados. Qualquer professor em teletrabalho tem consciência do alcance limitado do seu trabalho à distância, da debilidade das aprendizagens que assim se conseguem realizar e do aprofundamento de desigualdades que a falta de apoio efectivo aos que mais precisam origina.

No entanto, também sabemos que no outro lado da balança estão os riscos de saúde pública que, com um desconfinamento irresponsável, se podem traduzir em milhares e milhares de doentes, internamentos e mortes devidas à covid-19. Sabemos, da experiência de reabertura das aulas em Setembro, que as medidas de segurança reforçada que agora de novo se reclamam vieram sempre com a ressalva “se possível”. E, na grande maioria das vezes, não o foram.

Há na verdade uma estranha condescendência com um governo que continua a reagir aos acontecimentos em vez de antecipar, planear e agir preventivamente e que se especializou em exercícios de demagogia que continuam a enganar demasiada gente, a começar por boa parte da opinião que se publica. O Governo anuncia uma coisa, faz exactamente o seu contrário, mas continua a receber aplausos. Basta ver como repetidamente se anuncia uma nova política de testagem e rastreios em massa, ao mesmo tempo que se vai sabendo que Portugal foi dos países europeus que menos testou no passado mês de Janeiro.

É precisamente pela falta de condições no terreno e de vontade política para as criar, que o confinamento escolar se tornou inevitável e, pela mesma razão, o desconfinamento não será tão rápido como muitos desejariam. A prioridade às escolas dificilmente acontecerá pela simples razão de que as escolas há muito deixaram, no nosso país, de ser prioritárias.

Mas se o desconhecimento da realidade das escolas, em tempo de pandemia, por uma parte tão significativa da nossa intelectualidade bem pensante, é até certo ponto desculpável, há uma outra linha de argumentação que é de todo inaceitável. Veronesi toca no ponto fulcral quando recorda, como já outros têm feito, que não foi a pandemia que trouxe a miséria e desigualdade. Elas já existiam entre nós, a crise apenas lhes deu uma maior visibilidade. E estamos muito próximos do grau zero argumentativo quando se defende a reabertura das escolas porque há crianças pobres que passam fome e frio nas suas casas. Se há uma real preocupação com a saúde e o bem-estar dos mais novos, se é isso que está em causa e não o fazer um frete político ao governo, é caso então para perguntar, como faz o nosso colega: não seria mais simples e eficaz escrever uma carta aberta a pedir a erradicação da pobreza?

E agora, a palavra aos especialistas a sério…

Está praticamente tudo explicado nesta peça do Público. Com uma análise rigorosa de números e factos, não com a expressão de vontades e estados de alma nem exercícios de demagogia.

Se cada infectado com covid-19 contagiar menos de uma pessoa, os números da pandemia descem. Se infectar mais do que uma, irão subir. Os dados disponíveis mostram a dificuldade de manter este valor de Rt em valores desejáveis com as escolas abertas. A ausência de sintomas, comum entre a população jovem infectada, dificulta o controle da pandemia. Quando o número de novos casos dispara, o confinamento torna-se incontornável para evitar a catástrofe sanitária. O reforço da medidas sanitárias e o aumento da capacidade de testagem podem ser uma alternativa quando se pretende abrir escolas e outros serviços públicos, mas não se está a investir o suficiente nestas áreas. O atraso na distribuição de vacinas também não ajuda. Sem uma mudança profunda nas regras de segurança sanitária vigentes nas escolas, abri-las prematuramente é abrir o caminho à quarta vaga pandémica quando ainda nem debelámos a terceira. E não nos venham com o argumento demagógico de que os danos da privação da escola são superiores aos riscos da pandemia. Estão simplesmente a comparar o que não é comparável.

Fica um excerto da notícia, mais longo do que é habitual, com destaques da minha responsabilidade.

A abertura das escolas em Setembro fez o risco de transmissibilidade (Rt) subir cerca de 20% a 25% ao final de seis dias, explicou Jorge Buescu, professor de matemática da Universidade de Lisboa, ouvido esta quarta-feira na comissão parlamentar de acompanhamento da pandemia. O especialista alertou ainda para o descontrolo que pode acontecer se o Rt ficar acima de 1,2: “É quase garantido que poderá haver uma quarta vaga”.

“Se queremos ter a noção do efeito de abrir as escolas, é olhar para o que aconteceu ao Rt” em Setembro quando estas abriram, respondeu o especialista aos deputados. “Seis dias depois da abertura das escolas o Rt começou a subir e passados mais 15 dias tinha subido 20 a 25%. Se pensarmos que vai acontecer a mesma coisa, o que temos fazer é uma conta relativamente simples: Estamos com um Rt suficiente para que acrescentando mais 20% continuemos abaixo de 1 ou não?”, explicou Jorge Buescu.

A resposta foi também simples. “Se o Rt antes de abrirmos as escolas estiver 0,98 diria que é mais do que imprudência, é quase procurar problemas sérios, correr um risco muito grande de uma nova vaga”, disse Jorge Buescu, dando como exemplo o que aconteceu por altura do Natal em que o Rt estava neste valor e acabou por subir com o desconfinamento dado nessa altura. E um Rt acima de 1, referiram os quatro matemáticos, é ter “um aumento exponencial de casos”.

Explicou ainda que a análise diária do Rt, ainda que menos fina, permite perceber que evolução da incidência se pode esperar ao final de dez a 15 dias. E fazer baixar o Rt leva tempo. Explicou que, com as medidas gradualistas tomadas no início do ano, este indicador levou cerca de mês e meio a descer. Já após o fecho das escolas, o Rt desceu a menos de 1.

Henrique Oliveira, professor de matemática do Instituto Superior Técnico, referiu que nas escolas “grande parte transmissão é feita através de [doentes] assintomáticos ou sintomáticos antes dos sintomas [se manifestarem]” e que esta transmissão é “o grande perigo da doença”. “É muito difícil combater a pandemia por causa dos assintomáticos.”

“Quanto mais jovem, mais se está no estado assintomáticos ou com poucos sintomas. As escolas servem para transmitir a doentes de agregado familiar para agregado familiar”, alertou o especialista, fazendo ainda referência ao desporto escolar que realizado “sem máscara permite maior transmissibilidade”. “Temos de ser cuidado nesta questão. Tem de ser feito ao ar livre e com distância. Em ambiente fechado existe muita transmissão assintomática”, reforçou Henrique Oliveira.

Já Carlos Antunes, também professor da Universidade de Lisboa e elemento da equipa do epidemiologista Manuel Carmo Gomes, mostrou a análise da incidência que fez por faixas etárias para dizer que no final do ano passado a taxa de incidência dos grupos 6-12 anos e 13-17 anos “crescia na ordem dos 6% ao dia” e que a 22 de Fevereiro eram os grupos que mais desceram na taxa de incidência. Segundo o especialista, houve “uma redução drástica a 31 de Janeiro que tem a ver com algo que aconteceu nos dias 21 a 23”, já que “a transmissibilidade dá-se antes do inicio sintomas”, data pela qual faz a análise.

O especialista falou ainda sobre o modelo de análise de risco que criaram em Outubro e que junta vários indicadores que permitiram estabelecer cinco níveis de risco que podem servir de guia para o início de um confinamento ou desconfinamento. Linhas vermelhas que não devem ultrapassar um Rt de 1,1, uma média de incidência a sete dias de 3000 novos casos, uma taxa de positividade de 7,5% e um limite de 242 camas em cuidados intensivos e de 1300 em enfermaria.