O colapso da esquerda à esquerda

Foto: Gonçalo Rosa da Silva

Boaventura Sousa Santos analisa, de forma perspicaz e por vezes contundente, o desaire eleitoral da esquerda à esquerda do PS. Reduzidos a menos de metade da sua anterior expressão eleitoral, a debandada de boa parte do seu eleitorado habitual para o PS permitiu a este partido uma vitória folgada nas eleições de 30 de Janeiro. Um feito em contra-ciclo com a tendência de dispersão do voto que se tem manifestado em Portugal e de um modo geral por toda a Europa: o PS é agora o único partido socialista europeu em condições de governar com maioria absoluta.

Escrevendo nas páginas de um jornal brasileiro, BSS dirige-se a leitores pouco familiarizados com a política portuguesa, focando-se no essencial e seguindo uma linha de raciocínio clara e objectiva. Uma leitura essencial a uma esquerda claramente desorientada e aparentemente incapaz de reflectir e de perceber os sinais dos tempos e as motivações e os resultados do voto popular. Na busca atarantada das razões do seu declínio, mias terão a ganhar, os partidos de esquerda, em olhar para si próprios do que persistir na procura de culpados para o que lhes aconteceu. O texto de BSS é um bom contributo para essa imprescindível reflexão.

[…] Os resultados eleitorais mostram que a esquerda à esquerda do PS perdeu a oportunidade histórica que granjeou depois de 2015 ao construir uma solução de governo de esquerda que ficou conhecida por geringonça (PS, BE, PCP), uma solução que travou a austeridade da imposta pela solução neoliberal da crise financeira de 2008 e lançou o país numa recuperação económica e social modesta mas consistente. Esta solução começou a precarizar-se em 2020 e colapsou em finais de 2021 com a rejeição do orçamento apresentado pelo governo. Foi isso que levou às eleições antecipadas de 30 de Janeiro.

Levará tempo até que estes partidos de esquerda tenham outra oportunidade e oxalá que então se lembrem dos desaires anteriores e aprendam a não os repetir. Serão certamente outros líderes e é de esperar que sejam também outras as políticas. A análise mais aprofundada dos resultados terá de vir depois. Por agora, podemo-nos ficar pelo mais evidente. É preciso distinguir entre o BE e o PCP. Os dois partidos têm um passado remoto comum, a fratura do movimento operário no início do século XX entre socialistas e comunistas. O PCP pertence à facção comunista e o BE, às divergências que ocorreram posteriormente no seio desta facção em resultado da evolução da Revolução Russa de 1917. O que une os dois partidos e é mais relevante para entender as causas profundas do seu desaire nestas eleições é que para ambos o PS é, no fundo, um partido de direita, uma direita que se disfarça de esquerda, mas que verdadeiramente não o é. Esquerda verdadeira são eles. Os seus dirigentes não o dizem, mas pensam-no. Não imaginam considerar a vitória do PS nestas eleições como uma vitória de esquerda.

O PCP tem razões históricas para esta atitude, pois os comunistas e a sua base privilegiada (o movimento operário) foram muitas vezes vítimas das políticas socialistas e, em parte por isso, esta atitude anti-socialista é largamente partilhada entre dirigentes, militantes e simpatizantes. No caso do BE a história é mais ambígua, tal partilha não existe nos mesmos termos e isso foi evidente desde a fundação do partido. Ambos os partidos têm uma tradição de pensamento vanguardista. Quando a teoria colapsa ante a realidade (por exemplo, colapso eleitoral) a culpa é da realidade, nunca da teoria. O patético discurso de Catarina Martins na noite das eleições foi prova cabal disso. E lembremos que, em 2011, o mesmo desprezo pela realidade levou o BE a chumbar o Plano de Estabilidade e Crescimento do governo socialista (José Sócrates), abrindo as portas para a direita mais anti-social que o país já conheceu. Desta vez, é mérito incondicional do PS de António Costa ter evitado a emergência de uma geringonça de direita. Mesmo assim, a porta para a extrema direita ficou mais que entreaberta.

No contexto português, a queda do PCP é estrutural porque está ligada ao declínio dos sindicatos, a base da implantação social do partido. O PCP é um dos únicos partidos comunistas europeus que não se renovou depois da queda do muro de Berlim e por isso ficou refém da evolução da sua base social organizada, os sindicatos. O declínio destes arrasta o declínio do partido. A não renovação do PCP foi, aliás, uma das razões da emergência e do êxito do BE. A tragédia do BE tem sido a de, em vez de acentuar a sua diferença, deixar que ela se vá diluindo. Nestas eleições, ninguém notou qualquer diferença relevante entre o discurso bloquista e o comunista. Mas a queda do BE explica-se pela acumulação de outros erros nos últimos anos. […]

O BE não entendeu os sinais do seu eleitorado porque o seu pensamento vanguardista não lhe permitiu descer até onde os cidadãos discutem, nos seus próprios termos, os seus medos e as suas esperanças. Não os escutou e se algum impacto teve foi o de os fazer suspeitar que o seu reforço eleitoral significaria mais instabilidade. A dirigente bloquista passou a primeira metade da campanha a justificar a decisão da rejeição do Orçamento e a segunda metade a parecer querer pedir desculpa por tê-lo feito. Que credibilidade pode ter tal dirigente? Acresce que se o BE tivesse aprovado o OE, este poderia ter sido melhorado na especialidade e em boa parte graças às propostas tecnicamente competentes do BE. Em vez disso acabou por objectivamente contribuir para eventualmente virmos a ter um OE menos bom do que aquele que teríamos se não tivesse havido eleições. Acresce que, ao auto-infligir-se esta derrota, deixou o PS solto para ser menos de esquerda do que que gostaríamos que fosse. O partido que consegue dar simultaneamente dois tiros nos dois pés só por milagre não cairia.

Maioria absoluta

Um resultado que pouquíssimos vaticinavam, mas que a vontade popular, em democracia sempre soberana, determinou: uma votação expressiva no PS, de norte a sul do país, conduziu o partido à maioria absoluta.

Apesar do crescimento eleitoral do PS, a direita tem uma presença reforçada no novo quadro parlamentar: Chega e Iniciativa Liberal tornaram-se terceira e quarta forças políticas, evidenciando ainda mais o indisfarçável declínio eleitoral do Bloco de Esquerda e do PCP.

Com os magros resultados da CDU, o PEV perde mesmo a representação no Parlamento, tal como quase sucedeu ao PAN. Caso para dizer, aqui, que se o finca-pé orçamental de PCP e BE não trouxe bons resultados ao partido, a posição contemporizadora, dialogante e equidistante do partido animalista também não impediu a sua erosão eleitoral.

Da hecatombe à esquerda do PS parece apenas salvar-se Rui Tavares, que conseguiu recuperar a representação parlamentar do partido, perdida quando Joacine Katar Moreira se desvinculou do compromisso com o partido pelo qual concorreu.

Perspectivando o futuro ele deverá ser, no essencial, de continuidade das políticas dos últimos seis anos, agora com menos obstáculos em termos de governabilidade, o que significa também ausência de desculpas para as hesitações, os erros e os falhanços. O “diálogo”, que Costa garante continuará a existir, será agora uma mera figura de retórica – algo que no fundo já vinha sucedendo nos últimos dois anos de poder socialista.

Não sendo a continuidade necessariamente má – há sectores da governação onde o PS, há que o admitir, vinha fazendo um bom trabalho – na Educação ela é em grande medida um caminho para a desgraça. Estando longe de ser considerado prioritário ou estratégico para o desenvolvimento do país, o financiamento do sector será mantido nos mínimos e o investimento continuará dependente dos programas comunitários que se consigam aproveitar para esse fim.

Sem nada mudar de substancial nas políticas, o mais provável é que António Costa opte por refrescar lideranças: será quase certa a saída de Tiago Brandão Rodrigues, um ministro sem carisma nem competência, que apenas para sublinhar o desprezo do PS para com os professores se manteve tanto tempo no cargo. Apostando em novos políticos, para não ter de alterar as políticas. No dealbar de uma nova legislatura será necessário, como dizia o grande Tomás de Lampedusa, que algo mude, para que tudo fique na mesma.

Voto útil

O que pode fazer um eleitor de esquerda, sem especial inclinação partidária, mas resolvido a dar o seu contributo para evitar a formação de uma geringonça de direita, nas eleições do próximo domingo?

Se residir no distrito de Lisboa ou do Porto, seguirá o critério que deveria ser sempre determinante nestas ocasiões: votar no partido da sua preferência, aquele com cujas propostas, globalmente, mais se identifica.

No entanto, se viver num distrito menos populoso e quiser mesmo assim dar utilidade ao seu voto, o leque de escolhas reduz-se substancialmente. Os pequenos partidos não conseguem, na prática, somar uma percentagem de votos que permita a eleição de qualquer deputado, pelo que os votos nestes partidos, embora sejam naturalmente contabilizados, acabam por ser desperdiçados em relação àquilo que verdadeiramente interessa: a eleição dos 230 deputados que irão compor o novo Parlamento. Que opções tem por exemplo um eleitor de Portalegre, onde apenas dois mandatos estão em jogo? Não é preciso ser muito sagaz para perceber que serão divididos entre os dois maiores partidos, sendo irrelevantes as eventuais aspirações de renovação e mudança que possam existir entre o eleitorado.

Na prática, a lógica do voto útil à esquerda funciona como aqui se está a ver: em metade dos círculos eleitorais (faltam os dois da emigração, que são também círculos pequenos) o único voto útil do lado esquerdo do espectro partidário é no PS. Um partido que, tendo em atenção o seu passado e as suas políticas, só com muito boa vontade pode ser considerado de esquerda… Semelhante exercício poderia ser feito à direita, com resultados idênticos e porventura ainda mais explícitos: em mais de metade dos círculos eleitorais apenas o PSD estará em condições de eleger deputados.

Há um evidente défice democrático num sistema eleitoral que reduz o leque das escolhas e a influência do voto a quem o exerce fora das grandes áreas metropolitanas. É necessária uma reforma do sistema eleitoral que aproxime eleitos dos eleitores e que dê utilidade a todos os votos. Tecnicamente é possível fazer, e já se fizeram vários estudos e propostas nesse sentido. Mas na hora de decidir entram em cena os habituais calculismos políticos. Os grandes partidos do centrão gostam de um sistema que os beneficia e que permite a formação de maiorias absolutas com 42% ou 43% dos votos e temem a fragmentação política que lhes retiraria poder. Já os pequenos partidos receiam que uma reforma da lei eleitoral cozinhada entre os dois grandes os possa reduzir à irrelevância política.

Enquanto a lei não muda, jogamos com o que temos: pela minha parte, disposto a travar o passo à direita sem contribuir para o reforço da maioria socialista, optarei pela melhor alternativa à esquerda para dar – assim o espero – utilidade ao meu voto.

Neoliberais e cheganos, a mesma luta

…o programa socioeconómico da Iniciativa Liberal […] É uma versão intelectualmente aprimorada do programa do Chega. Afinal de contas, estes dois partidos são herdeiros da radicalização neoliberal que ocorreu com o governo da Troika, liderado por Pedro Passos Coelho: das privatizações ao aumento dos poderes patronais, correlativo da diminuição dos direitos laborais, passando pela erosão de serviços públicos estruturalmente subfinanciados. Ambos insistem na subsidiação do capitalismo no campo da educação ou da saúde, à boleia da retórica da «liberdade de escolha», desestruturando os serviços públicos e corroendo a autonomia e o carácter dos seus profissionais, ainda não submetidos à lógica do lucro. E ambos insistem na redução acentuada da progressividade de um sistema fiscal, por sua vez já corroído pela fuga das grandes empresas e dos mais ricos aos impostos, indissociável da liberdade internacional de circulação dos capitais. Esta tem sido promovida por uma integração europeia que ambos os partidos defendem nos seus dois principais pilares, o do mercado único e o da moeda única, ou seja, da política demasiado única e estruturalmente enviesada para as direitas. O cosmopolitismo de pendor federalista da IL, culturalmente partilhado por demasiados intelectuais de esquerda, por oposição ao nacionalismo etno-racial do Chega, esconde mal um alinhamento profundo das direitas, das novas e das velhas, com a continuação da política da Troika. A soberania popular e democrática, de base nacional, materialmente assente num maior controlo democrático da economia, é o grande inimigo comum.

João Rodrigues desmonta a narrativa neoliberal e a apropriação indevida que ela faz do conceito de liberdade, focando-se na liberdade de explorar e oprimir e na subordinação dos indivíduos ao funcionamento dos mercados. E reduzindo o “Estado forte” ao duplo papel de perpetuar a desigualdade e a injustiça social e de promotor e financiador de negócios privados.

No Portugal democrático, a onda das políticas neoliberais iniciou-se relativamente cedo, com as privatizações, que serviram de base à reconstituição dos grandes grupos económicos e ao aumento da dependência externa do país, com a entrada de investidores estrangeiros. A par de alguns investimentos no tecido produtivo, o que mais se acentuou foi a velha tradição do capitalismo rentista, avesso ao risco e viciado no lucro fácil e nos negócios feitos à sombra do Estado. Nada é mais falso do que os bramidos dos ditos liberais contra o “socialismo”: foram políticas neoliberais que nos trouxeram ao ponto em que estamos, numa tendência comum a governos mais à esquerda ou à direita: privatizações, desregulação e precarização do trabalho, dependência externa, perda da soberania financeira com a adesão ao euro. Uma política que atingiu o auge durante o governo de Passos Coelho, que à boleia da troika mas indo até além das suas exigências, impôs o mais duro programa de austeridade, empobrecimento e emagrecimento das funções económicas e sociais do Estado.

O sucesso dos primeiros quatro anos de geringonça deveram-se em larga medida à reversão parcial das políticas austeritárias. Mas a mudança de rumo deixou frustrados os órfãos do passismo, que deixaram de se identificar com um PSD agora menos radicalizado em torno de políticas neoliberais. E é assim que encontramos, sem grande surpresa, muitos antigos militantes do partido a animar tanto o protofascismo chegano como a salfífica Iniciativa Liberal. Duas faces, afinal, da mesma moeda: um projecto político assente no individualismo, na perpetuação e agravamento das desigualdades, entendidas como a ordem natural das coisas, e na captura do Estado, colocado ao serviço de interesses privados.

O discurso aparentemente mais sofisticado dos autoproclamados liberais esconde mal a crueza das ideias. O verniz neoliberal estala facilmente à menor das objecções ou provocações, o que se observa com muita facilidade nas redes sociais. Mas a retórica simplista e aparentemente sedutora parece estar a colher bem entre aquele eleitorado jovem com mais ambição individual do que consciência social. Já o discurso chegano, mais populista e ainda menos escrupuloso na exploração do racismo e da inveja social, é claramente dirigido a uma clientela intelectualmente menos sofisticada, mas certamente mais numerosa quando saímos do ambiente das elites urbanas e olhamos para o país real que andámos a construir nas últimas décadas.

Afinal de contas, como já alguém disse, o Chega não é mais do que o plano B dos neoliberais…

O programa do PS?

António Costa continua eloquente no debate e no discurso, mas a sua mensagem, neste período de pré-campanha, parece mais virada para o passado do que para o futuro. Relembra a obra feita – modesta, que os níveis quase residuais de investimento público não permitem milagres – e o virar da página da austeridade. Pode congratular-se de ter conseguido, pela primeira vez na história da democracia, cumprir uma legislatura com um governo estável assente numa maioria parlamentar de esquerda. Mas a geringonça morreu, para todos os efeitos, em 2019, quando o PS recusou acordos com os partidos à sua esquerda, alinhando-se politicamente ao centro e contando com apoios tácitos, à esquerda e à direita, para fazer passar leis e orçamentos.

Sem ideias para o futuro, o PS parece apostado em repetir erros do passado. Como o de pensar que pode governar sozinho, contra tudo e todos, sem pontes com os outros partidos nem diálogo social. Quando António Costa saca do Orçamento de Estado chumbado pelo Parlamento e o apresenta como se fosse um programa de governo, é evidente o alheamento da realidade, num político que até costuma ser hábil a ler os sinais dos tempos.

As sondagens continuam a dar ao PS uma confortável vitória, ainda que longe da maioria absoluta. Mas o mais provável é que a disposição de forças no novo Parlamento não seja substancialmente diferente da que tivemos até agora. Um Rui Rio em boa forma deverá suster a queda do PSD. Também não será desta que a direita e a extrema-direita, demasiado fragmentadas e divididas, reforçarão significativamente a presença parlamentar. E o PAN, que parece ser a última esperança de um PS mais apostado em conseguir uma muleta parlamentar do que em arranjar parceiros de legislatura, não terá condições para absorver as eventuais perdas do BE e da CDU.

No complicado xadrez político que deverá surgir das eleições do dia 30, o orçamento chumbado será definitivamente uma carta fora do baralho. Assim como boa parte das figuras, umas notoriamente desgastadas, outras claramente incompetentes, que até aqui titularam as pastas ministeriais. Numa pré-campanha que está a ser mais rica do que é habitual em discussão política e ideológica, o PS não pode responder aos reptos dos outros partidos e da sociedade civil com o discurso tecnocrático ao jeito de Cavaco Silva e do seu proverbial “deixem-me trabalhar!” Renovação política e diálogo democrático precisam-se, na política à portuguesa. Quanto mais depressa o PS o entender, melhor.

Votar ou confinar, eis a questão

Na terça-feira, o Governo pediu ao Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República se existe uma fórmula legal que permita que as pessoas que estão isoladas por causa da Covid-19 possam votar nas eleições legislativas. Ao que o Expresso apurou, a ideia é perceber qual o direito que prevalece, ou seja, se as pessoas têm o direito a votar restringido ou não por estarem isolados.

As perguntas que o Governo enviou à PGR são no sentido de perceber o que deve prevalecer juridicamente se a “proibição de circulação decorrente da determinação de isolamento ou a liberdade de voto”, explica ao Expresso fonte do Executivo. Na prática, como é possível resolver esta situação juridicamente. O pedido seguiu com caráter de urgência e o Governo espera agora a resposta da PGR.

Como conciliar o direito de voto com as regras de isolamento e quarentena essenciais para conter a pandemia? A questão não é nova: já se colocou nas anteriores eleições autárquicas, quando as regras sanitárias impediram alguns cidadãos, infectados ou em isolamento profiláctico, pudessem votar. O problema, agora, está na sua dimensão: expectativas relativamente optimistas apontam para pelo menos meio milhão de cidadãos que poderão estar obrigados ao dever de isolamento, impedidos de se deslocarem aos locais de voto.

Sendo uma questão complexa, o que causa perplexidade é ver o Governo a tentar resolver aquilo que basicamente é um problema de saúde pública com um parecer jurídico. Ao fim de dois anos de pandemia, ainda acham que os vírus se regem pelas leis e regulamentos dos humanos? Que um douto parecer da PGR coloca em sentido o SARS-COV-2?

Como é evidente, em cima da mesa não estão problemas jurídico-constitucionais, mas apenas a dificuldade em responder a duas questões fundamentais:

– Está o Governo disposto a criar um regime de excepção para o acto eleitoral, sabendo que poderá estar a abrir um precedente e a dar um sinal de que as regras sanitárias só são para cumprir quando dá jeito?

– Mais, estão o Governo e a sociedade preparados para assumir os riscos de um eventual agravamento da actual vaga pandémica, especialmente contagiosa, com as inevitáveis consequências na pressão sobre os hospitais e no funcionamento das actividades económicas?

Em todo o caso, é sempre comovente ver os poderes públicos preocupados com o abstencionismo eleitoral, uma verdadeira pandemia cívica e política que vem corroendo a nossa democracia e que, além de medidas pontuais e palavras de circunstância, não tem merecido a devida atenção de governantes, deputados e partidos políticos.

Segundo ano de covid

O segundo ano da pandemia covid-19 termina com números recorde de novas infecções, mas num quadro geral muito menos preocupante: graças à vacinação em massa da população, os números de casos graves que requerem hospitalização ou podem causar a morte mantêm-se relativamente estáveis. E o vírus, com as suas sucessivas mutações, parece estar a fazer a evolução natural deste tipo de microorganismos: tornando-se mais contagiosos mas menos infecciosos, aumentam as suas próprias hipóteses de propagação e sobrevivência.

Se globalmente a pandemia continuou a ser o tema dominante, no mundo da Educação pudemos assistir a um fenómeno curioso. Os inegáveis e inevitáveis prejuízos que os sucessivos confinamentos e outras medidas restritivas causaram nas aprendizagens dos alunos foram aproveitados, de forma pouco escrupulosa, para impor e reforçar mudanças e pseudo-inovações que já vinham de trás, agora apresentadas como respostas às dificuldades trazidas pela pandemia. O ME, que nunca teve uma estratégia clara para garantir o direito à Educação durante a pandemia, andando quase sempre a reboque das decisões da DGS e do Conselho de Ministros, tornou-se ainda mais controlador do trabalho das escolas e das respostas que estas foram encontrando para se manterem ligadas com os seus alunos e prosseguirem, dentro das novas contingências, a sua missão educativa e formativa.

Os últimos meses de 2021 foram também marcados, na política interna, pelo chumbo da proposta de Orçamento de Estado e a consequente dissolução do Parlamento e a marcação de eleições antecipadas. O novo quadro político que sairá das eleições de 30 de Janeiro é ainda uma incógnita, embora se possa antever que o falhanço de um entendimento à esquerda nesta legislatura e a improbabilidade de uma futura maioria absoluta de qualquer dos grandes partidos facilite entendimentos mais à direita, seja através de uma solução de Bloco Central, seja pela reconstituição, neste momento muito improvável, de uma maioria de direita.

Qualquer que venha a ser a cor, ou as cores, do próximo governo, na área educativa a sensação que prevalece é a de um claro esgotamento do modelo actual. Um ministro inexistente, que passeia a sua nulidade por eventos desportivos e inaugurações, um secretário de Estado permeável à acção dos lobbies que se sabem insinuar junto do poder, uma total incapacidade de diálogo construtivo com os professores e os seus representantes, a burocracia e o controleirismo galopantes, a ausência de resposta aos problemas de fundo dos professores, das escolas e do sistema educativo: o rumo da Educação portuguesa tornou-se insustentável. Sendo as próximas eleições uma oportunidade de mudança, elas são olhadas com alguma expectativa pelos professores e demais agentes educativos.

Expectativa moderada, saliente-se. Na verdade, para quem vem observando o plano inclinado em que caminha a Educação portuguesa, há poucas razões para permanecer optimista. Pois se há coisa que duas décadas de más políticas educativas nos demonstraram cabalmente é que, por muito mal que estejamos num dado momento, é sempre possível, a quem venha a seguir, fazer ainda pior. Que ninguém pense que batemos no fundo: existe sempre a possibilidade de escavar mais um pouco e descer ainda mais baixo…

Tiago «Nulo» Rodrigues

O ministro da Educação revelou que Portugal já encomendou 300 mil doses de vacinas contra a covid-19 destinadas a crianças com idades entre os cinco e 11 anos.

Tiago Brandão Rodrigues acredita que a operação “está preparada” e terá como objetivo concluir a vacinação deste grupo etário até ao início das aulas, marcado para 10 de janeiro.

“O que desejamos é que a vacinação entre os 5 e os 11 ocorra rapidamente e em grande extensão”, explica.

O responsável pelo ensino nacional lembra que esta fase da vacinação “éimportante” para tornar as “escolas mais resistentes” contra a covid-19 e possíveis mutações.

O ministro explica que este processo de imunização vai permitir alterar os protocolos a adotar em caso de infeções na comunidade escolar também para este grupo etário, tal como aconteceu para os estudantes entre os 12 e 17 anos, minimizando as situações de quarentenas escolares ou de isolamento de turmas completas.

Brandão Rodrigues deixou ainda uma mensagem aos encarregados de educação que procuram saber como poderão vacinar as crianças. “As autoridades de saúde, no momento próprio, dirão e explicarão às famílias o que fazer, como fazer e quando fazer”, disse.

Habitualmente desaparecido, o ministro aparece pouco em público, e geralmente em ambientes controlados, de preferência eventos desportivos, onde possa continuar a desempenhar, até ao fim, o papel que António Costa lhe destinou nesse já longínquo ano de 2015: fazer da Educação um não assunto, papagueando frases de circunstância e declarações simpáticas e consensuais, distraindo a imprensa, distanciando-se dos professores e deixando a gestão dos dossiers aos secretários de Estado e suas equipas.

A aparição mais recente foi paradigmática: falou do que não é da sua competência – a vacinação das crianças é um processo decidido, coordenado e executado pelo Ministério da Saúde – e nada disse a respeito das responsabilidades do seu próprio ministério ou de decisões que este poderia influenciar: novos rastreios nas escolas, reforço vacinal para professores, orientações às escolas para que adoptem o teletrabalho nas reuniões de avaliação e noutras tarefas não lectivas que possam dispensar a presença física dos professores nas escolas, muitas vezes partilhando espaços exíguos e, sobretudo no Inverno, mal ventilados.

Pode perguntar-se, como já se fez muitas vezes, como conseguiu esta nulidade ministerial manter-se no cargo durante seis anos, tornando-se o ministro da Educação há mais tempo consecutivo no cargo desde o advento da democracia. Com formação na área das ciências da vida, Brandão Rodrigues saberá muito bem que uma das mais eficazes estratégias de sobrevivência, sobretudo quando se enfrentam adversários mais fortes ou bem preparados, é fazer-se de morto. Nos mortos não se bate, e sendo uma figura tão apagada – mas que nem por isso deixa de ser calculista e dissimulada – este ministro foge assim à sina da maioria dos seus antecessores. Apesar de ser uma nulidade, cumpriu o que se pretendia: ser um zero à esquerda e à direita. E é assim que, para este nulo, o lugar destacado nas listas eleitorais do PS continua garantido…

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, é o número um da lista de candidatos do PS pelo círculo eleitoral de Viana do Castelo às eleições legislativas de 30 de janeiro. A Federação Distrital aprovou esta quarta-feira a lista, ainda sem Brandão Rodrigues, que vai ser o escolhido por António Costa.

O país não tem de esperar pelo PSD

Imagem daqui.

Posta definitivamente de parte a hipótese de apresentação de uma segunda proposta de Orçamento de Estado, não há motivos para que as eleições não sejam marcadas o mais cedo possível. Cumprindo todos os prazos e preceitos constitucionais, nem será preciso confiar na proverbial hiperactividade do professor Marcelo para se conseguir eleger o novo Parlamento em meados de Janeiro.

As razões para exigir uma rápida clarificação política são óbvias, tamanhos são os desafios e as dificuldades que o país enfrenta. E nem deveria ser necessário relembrá-las a uma direita que sempre se afirmou defensora da “estabilidade política” e dos orçamentos aprovados “a tempo e horas”.

Contudo, parece que a inusitada crise política resultante da rejeição da proposta de OE apanhou a direita, perdoem-me a expressão, de calças na mão. PSD e CDS têm lideranças fortemente contestadas, e as oposições internas parecem achar-se donas do país ao ponto de entender que o país pode esperar. É espantosa a lata de um indivíduo como Paulo Rangel a propor eleições no final de Fevereiro, para que ele próprio possa ter tempo de conquistar a liderança do PSD. Tão lamentável como a audiência que prestimosamente o Presidente da República lhe concedeu. Recebo toda a gente, afirmou Marcelo. Não é verdade: recusa-se frequentemente a receber, por exemplo, representações sindicais ou comissões de trabalhadores. Não queira por isso fazer de nós parvos: recebe quem ele quer. E no caso de Rangel, quis obviamente recebê-lo, o que tem todo o direito de fazer. Convém é que o assuma sem ser por meias palavras.

Voltando à ideia-base que motivou este post: os partidos políticos existem para servir o país, não é este que se tem de moldar às conveniências das lutas partidárias. Um partido que se diz líder da oposição tem de estar permanentemente preparado, não só para avaliar criticamente o governo em funções mas também para disputar eleições em qualquer altura em que seja necessário. Urge combater um vício que se está a enquistar na política portuguesa, fazendo dela um pasto de políticos medíocres e oportunistas: quando se prevê um afastamento mais ou menos longo do poder, barões e baronetes partidários retiram-se para bom recato, deixando a liderança ao primeiro militante voluntarioso que aparecer. São poucos os que querem trilhar o caminho das pedras da oposição ao governo, sem cargos ou prebendas para oferecer. Mas quando se vislumbra a possibilidade de voltar ao poder, eis que reaparecem os candidatos à liderança e as respectivas entourages.

Ora o país não tem de estar refém dos jogos de poder no interior dos partidos. Dois meses entre a marcação das eleições e a sua realização são mais do que suficientes para que confirmem ou substituam as direcções partidárias, mais os congressos, as directas, os directórios e os foguetórios que bem entenderem. Tudo o resto pode resumir-se numa palavra: organizem-se!

Pensamento do dia

Estava aqui a recordar-me que sempre que a esquerda parlamentar votou em consonância com a direita para derrubar um governo PS, o que se seguiu foi invariavelmente uma mudança de ciclo político com a ascensão da direita ao poder. Claro que foi escolha democrática e o povo, em democracia, é soberano. Mas teremos mesmo de seguir novamente esse caminho, antecipando o final de um ciclo político?

Por outro lado, são evidentes sinais de algum esgotamento da actual solução governativa: a falta de diálogo com partidos e sindicatos, a recusa sistemática de uma remodelação governamental num governo recheado de evidentes nulidades e uma lógica de clientelismo que se vai instalando na administração pública não ajudam a ultrapassar.

À direita, a excitação com a possibilidade do regresso ao poder mais cedo do que pensavam apenas é moderada pelas apreensões suscitadas pela disputa da liderança em curso nos dois principais partidos. No cenário cada vez mais provável de eleições antecipadas, conseguirão organizar-se a tempo de enfrentar António Costa numa eventual coligação, única forma de lhe disputarem a vitória eleitoral?

É impressão minha, ou já se sente o cheiro das velhas raposas a rondar a capoeira?…