Pedófilo, mas pouco

O Tribunal da Relação de Évora reduziu e suspendeu a pena de prisão efetiva aplicada pelo Tribunal de Setúbal a um professor de inglês por entender que as carícias que o homem fez a alunas menores não constituem crime de abuso de sexual.

O professor tinha sido condenado a oito anos e meio de cadeia por 20 crimes de abuso sexual pelo Tribunal de Primeira Instância de Setúbal. Mas, no último dia 24, os juízes desembargadores Ana Bacelar (relatora), Renato Barroso e Gilberto Cunha decidiram que estão em causa antes e apenas 11 crimes de importunação sexual, que decidiram punir com uma pena de prisão de quatro anos e sete meses, suspensa na sua execução – o arguido ficou proibido de lecionar durante 5 anos.

Não sou jurista, e há certamente, nos meandros da lei portuguesa, muitas subtilezas jurídicas que escapam ao comum cidadão. Mas o que retenho deste caso é que um professor de Inglês do 1.º ciclo manteve com uma a duas dezenas de alunas condutas impróprias com conotações sexuais. Convenhamos que não é adequado, nem inocente, que um docente introduza a sua mão por baixo da roupa de uma miúda de 7 ou 8 anos e a apalpe no peito, na barriga ou noutras partes do corpo.

O Tribunal de Setúbal, que julgou o caso em primeira instância, não teve dúvidas em reconhecer a gravidade dos factos dados como provados. Se isto não é pedofilia, então não sei o que seja. Mas a Relação de Évora, num longo e rebuscado acórdão, onde até se discute se as meninas daquela idade têm ou não “maminhas”, conseguiu desagravar a pena, livrando o réu do cumprimento de prisão efectiva.

A justiça portuguesa, à qual fez imensa falta, em devido tempo, o seu 25 de Abril, tem destas coisas. Certamente que os doutores juízes desembargadores saberão o que andam a fazer. Eu só posso dizer, sendo sincero, que esta é uma justiça que, enquanto cidadão, me envergonha. O acórdão está aqui.

O direito a negociar

A Fenprof insiste numa exigência antiga: sendo definidas, através do despacho de organização do ano lectivo, diversas matérias que regulam horários e condições de trabalho dos professores, este diploma deveria ser objecto de negociação obrigatória com as organizações sindicais.

Só que o ME, e já não é de agora, tem feito ouvidos de mercador à reivindicação. Exagerados e implicativos, estes sindicatos. Afinal de contas, tudo corre bem nas escolas e os professores, aparentemente, não se queixam.

Claro que a realidade é outra, e bem conhecida: o ME delega na “autonomia das escolas”, ou seja, nos directores, o poder discricionário que lhes permite, quase sempre impunemente, desrespeitar os direitos laborais dos professores. As inspecções, dos serviços do ME ou da IGEC, só se preocupam, em regra, em salvaguardar os interesses da administração, nunca os direitos dos professores. E o ME assobia para o lado, fingindo que de nada sabe.

Nem todas as escolas alinham pelo mesmo diapasão, mas os abusos na distribuição de serviço, nas reuniões fora de horas, na invasão da componente de trabalho individual pelo tempo de estabelecimento e deste por tarefas que deveriam estar na componente lectiva são ainda um panorama demasiado frequente nas escolas portuguesas.

Respondendo ao repto do novo ministro, e procurando relançar o assunto na agenda da Educação, a Fenprof enumera, numa longa lista, os principais problemas que se eternizam com os horários dos professores:

– Início de uma reflexão sobre o desgaste dos professores e os seus horários, dando cumprimento a Declaração de Compromisso assinada entre o Governo e as Organizações Sindicais em 18 de novembro de 2017. Embora com atraso significativo, a FENPROF está disponível para essa reflexão que nunca se iniciou;

– Clarificação entre componente letiva e componente não letiva que se limitou à remissão para o ECD. Não tendo havido orientações para os diretores, de uma forma geral a sobrecarga com atividades falsamente não letivas prosseguiu, desvirtuando o propósito da clarificação; o uso dado às horas de redução da CNL prevista no art.º 79.º do ECD é um dos expedientes mantidos que levam à sobrecarga e à exaustão. Neste e noutros pontos estamos perante um problema de ineficácia das medidas;

– Relativamente aos intervalos do 1.º Ciclo na componente letiva dos professores, continuam a ocorrer situações que contrariam o que se anunciava. Se é verdade que chegou a existir um documento oficial no qual se definia o enquadramento a dar ao tempo de intervalos no 1.º CEB, persistem práticas que demonstram a necessidade de uma orientação dirigida aos diretores; ainda recentemente constatámos que a consideração dos intervalos como componente não letiva era seguida em agrupamentos, designadamente da área do Porto. Os esclarecimentos oriundos do ME não foram, portanto, eficazes para alguns diretores;

– Embora se referisse que se inscreviam as reuniões de caráter regular para fins pedagógicos na componente não letiva de estabelecimento, salvo raras exceções, tal não tem acontecido. A esmagadora maioria das reuniões pedagógicas para que os docentes são convocados continua sem estar assinalada no seu horário. A componente não letiva de estabelecimento que pode ir até 150 minutos está, em regra, consagrada a outros fins, pelo que, quando há reuniões elas ocorrem para além de todas as outras tarefas semanais, invadindo tempos que haviam de ser de trabalho individual – que as reuniões, manifestamente, não são – ou, pura e simplesmente, decorrendo em sobretrabalho. É fácil de comprovar que na generalidade dos horários as reuniões não estão assinaladas;

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A segunda melhor empresa para trabalhar

São denúncias de assédio sexual, moral e manipulação na Farfetch. O programa A Prova dos Factos ouviu testemunhos de atuais e antigos funcionários da empresa luso-britânica: relatam um ambiente de humilhação e discriminação em alguns departamentos.

A multinacional luso-britânica Farfetch está a questionar a orientação sexual e a etnia dos candidatos a emprego. A resposta é, segundo a Farfetch, apenas para fins estatísticos, opcional e anónima. Contudo, a Comissão para a Cidadania e Igualdade (CIG) avisa que os anúncios de oferta a emprego “não podem conter” estas questões “sob pena de ilegalidade”.

Há uma semana atrás, o jornalismo “de negócios” garantia que a Farfetch era a segunda melhor empresa para trabalhar em Portugal.

Afinal, parece que há uma enorme distância entre o mundo das aparências e da boa imprensa e a realidade laboral que os trabalhadores de algumas empresas da nova economia têm de enfrentar.

Os ambientes super-competitivos, as práticas de gestão que normalizam a discriminação, a humilhação e o assédio dos “colaboradores”, o poder colocado nas mãos de gente ambiciosa, prepotente e mal formada, tudo isto pode criar ambientes laborais extremamente tóxicos, capazes de destruir a saúde física e mental dos mais incautos.

Décadas de divisionismo e enfraquecimento do movimento sindical, a par de autoridades fiscalizadoras a quem tudo isto vai passando ao lado perpetuam o quadro negro de um país onde os direitos dos trabalhadores continuam a ser quotidiana e impunemente desrespeitados.

Abuso de poder é crime, sr. director

Nenhum director escolar está acima da lei. Os poderes que a lei lhes confere, demasiado generosos por sinal, destinam-se a garantir a boa gestão das escolas e do pessoal docente e não docente sob a sua tutela. As decisões que tomam devem ter conformidade legal e o poder, que a alguns sobe rapidamente à cabeça, não é para ser usado de forma discricionária: devem tratar os seus subordinados de acordo com critérios de equidade e justiça, cumprindo escrupulosamente a lei e os regulamentos em vigor.

Quando assim não sucede, e usam o poder que têm nas mãos para discriminar ou prejudicar quem não lhes cai nas boas graças, então é bom que os lesados se queixem e os tribunais actuem. Como sucedeu agora em Montalegre, com o tribunal local a condenar o antigo director por ter lesado e ultrajado três professoras do agrupamento que dirigia.

A decisão vai ainda ser alvo de recurso, mas há um sinal que fica dado: prejudicar intencionalmente os docentes com maus horários, périplos forçados pelas escolas distantes do agrupamento, recusa no pagamento de ajudas de custo ou outros abonos que sejam devido são motivos suficientes para levar o director mais ufano e pesporrente a sentar-se no banco dos réus.

O Tribunal de Montalegre condenou o ex-diretor do Agrupamento de Escolas Doutor Bento da Cruz a uma pena de multa de 1.700 euros pelo crime de abuso de poder, de que era acusado por três professoras.

Segundo a sentença a que a agência Lusa teve esta terça-feira acesso, o arguido foi ainda condenado a pagar, solidariamente com o Ministério da Educação, uma indemnização de cerca de 18.800 euros às três professoras.

Contactado pela Lusa, o ex-diretor Paulo Alves afirmou que vai recorrer da sentença, proferida na segunda-feira, confiante de que irá “ganhar” no Tribunal da Relação onde acredita que “se fará justiça”.

Esta é uma fase pela qual temos que passar para podermos fazer justiça, ou seja, para fazer a minha defesa. Deus nos livre de decisão de primeira instância”, referiu, falando ainda de um “longo calvário”.

O tribunal condenou Paulo Alves pela prática, em autoria material e na forma continuada, de um crime de abuso de poder, na pena de 170 dias de multa, à taxa diária de 10 euros, o que totaliza uma quantia de 1.700 euros, considerando que enquanto diretor do agrupamento escolar agiu “com o propósito concretizado de lesar, prejudicar e ultrajar as ofendidas”.

Troika da Educação ameaça professores

A denúncia parte da Fenprof, que acusa a task force da DGEstE/DGAE/DGE de estar, nas visitas às escolas com horários docentes por preencher, a induzir procedimentos à margem da lei e desrespeitadores dos direitos dos professores.

O ministério que andou seis anos a ignorar a expectável falta de professores num futuro que hoje já é presente. Quer agora, de uma penada, resolver o problema à custa dos professores que ainda mantém no sistema, sobrecarregando-os de trabalho que muitos não querem nem estão em condições de aceitar.

Confirma-se também, contrariando as habituais vozes críticas que se fizeram ouvir na altura, a justeza e oportunidade da convocação da greve às horas extraordinárias: quando os enviados às escolas não têm pejo em ameaçar os professores com consequências disciplinares do não cumprimento do serviço que consideram “de aceitação obrigatória”, obrigando mesmo, coisa nunca vista, a justificar faltas a trabalho extraordinário, faz todo a sentido a cobertura legal de um pré-aviso de greve para refrear a deriva prepotente e autoritária que parece ter tomado conta de um ME até aqui tão “inclusivo” e respeitador dos direitos de cidadania.

Tudo isto por razões que ainda não entendi se relevam de um economicismo estúpido, porque de vistas curtas, mera incompetência ou sinal da absoluta irrelevância política a que o ME foi remetido ao longo destes anos e que o incapacitam de resolver mesmo os problemas mais simples e óbvios. Talvez seja isto tudo em conjunto, pois a verdade é que o problema da falta de professores, que por enquanto se cinge aos horários temporários e incompletos, não é ainda um quebra-cabeças: existem professores habilitados para assumir as turmas sem alunos; bastaria apenas oferecer-lhes melhores condições para trabalhar, nomeadamente completando horários e corrigindo as injustiças de que são vítimas nos descontos para a segurança social.

Em muitos casos, ficaria até mais barato atribuir a um contratado para um horário completo do que andar a reparti-lo em horas extraordinárias atribuídas a professores do quadro. O que mostra bem, só por si, a incompetência e a teimosia desta gente que desgoverna a Educação portuguesa.

A task-force criada pelo Ministério da Educação para ajudar as escolas a resolverem a falta de professores, como se esperava, não está a ajudar, mas a dificultar a vida das escolas e dos professores.

Esta task-force, constituída pela troika DGEstE-DGAE-DGE, está a visitar escolas em que não têm sido preenchidos os horários colocados em oferta para contratação de escola e, na sequência dessas visitas, a informação que é enviada aos professores é a seguinte:

a) as horas que se mantêm a concurso serão distribuídas pelos docentes colocados;

b) as horas distribuídas serão tidas como extraordinárias e de aceitação obrigatória, alegando-se, para esse efeito, o disposto no artigo 83.º do Estatuto da Carreira Docente (ECD). O que não é esclarecido na informação que está a chegar aos professores é que o mesmo artigo 83.º, no qual se refere que o docente não pode recusar o cumprimento do serviço extraordinário, termina dizendo “podendo no entanto solicitar dispensa da respectiva prestação por motivos atendíveis”;

c) refere, ainda, a informação, que até 5 horas extraordinárias não carece de autorização superior, o que também resulta do disposto no ECD;

d) de seguida informa-se que as horas extraordinárias podem ser atribuídas a docentes em acumulação e com artigo 79.º do ECD, ou seja, com componente letiva reduzida nos termos deste artigo. A informação omite, no entanto, que, de acordo com o disposto artigo 83.º, não pode ser atribuído serviço extraordinário “àqueles que beneficiem de redução ou dispensa total da componente letiva nos termos do artigo 79.º, salvo nas situações em que tal se manifeste necessário para completar o horário semanal do docente em função da carga horária da disciplina que ministra”, o que , manifestamente, não é o caso. As escolas são assim impelidas a violarem a lei, o que as poderá tornar alvo de queixa nos tribunais;

e) como forma de ameaça, é dito aos professores que as faltas às horas extraordinárias terão de ser justificadas, caso contrário será aberto processo disciplinar. Ora esta é uma forma repugnante de tentar contornar, através do medo, a possibilidade de os professores recorrerem à greve às horas extraordinárias, que está convocada pela FENPROF. Os professores, sempre que aderirem a esta greve, não terão de apresentar qualquer justificação e a abertura de processo disciplinar levaria a abrir, isso sim, um processo na justiça contra quem o promovesse. Ou seja, mais uma vez, o ministério da Educação empurra o odioso do problema e as suas consequências para cima dos/as diretores/as das escolas e agrupamentos;

f) conclui a informação aos professores que as manchas horárias que lhes foram atribuídas e que cumprem desde o início do ano poderão ser alteradas, se necessário.

É deplorável a atuação do ME em mais este processo, no caso através da já referida troika DGEstE-DGAE-DGE, empurrando eventuais problemas jurídicos para cima das direções das escolas. 

Abaixo de cão

Cartoon daqui

Perante os gritos destemperados e insultuosos de Rui Fonseca e Castro contrastando com a serenidade e contenção dos polícias que o mandaram pôr a máscara, só me lembrei da velha máxima de Napoleão: nunca interrompas o adversário quando ele estiver a cometer um erro.

Em face dos factos que todos presenciámos, e havendo decência e justiça, o juiz negacionista que ontem deu espectáculo perante as câmaras televisivas deveria ser definitivamente erradicado da classe a que ainda pertence.

Gostaria de encarar isto como um caso isolado. Infelizmente, assim como as polícias e outras profissões ligadas à segurança atraem por vezes pessoas violentas, temo que também entre os juízes haja pessoas a quem a função judicial atraiu pelo fascínio do poder. No entanto, se no caso dos polícias os baixos salários não permitem muita selectividade no acesso à profissão, os juízes são os mais bem pagos funcionários do Estado: o que eles nos custam paga bem o comportamento ético e cívico exemplar que temos o direito de lhes exigir.

Não foi às aulas e ficou aprovado

O caso sucedeu numa escola secundária espanhola e reúne um conjunto de elementos que se vão tornando habituais na escola do século XXI: pais que querem substituir o dever de educar os filhos pelo direito de mandar na escola, directores tão prepotentes com os seus subordinados como temerosos dos inspectores, professores vulneráveis a pressões, critérios de avaliação e de transição de ano cada vez mais complexos mas que, no final, não interessam para nada, porque qualquer pretexto serve para concluir que a passagem de ano é a medida que melhor serve “os interesses do aluno”. Mesmo que este não tenha ido às aulas e para o passar seja preciso alterar oito classificações.

Claro que a excepcionalidade da pandemia ajuda à festa. Embora por cá não se tenha ainda, julgo eu, chegado ao extremo que aqui é relatado, a verdade é que já faltou mais…

A escola secundária Félix Rodríguez de la Fuente, em Sevilha (Espanha), está envolta em polémica depois de o jornal EL Mundo ter revelado que os professores de oito disciplinas decidiram mudar, subitamente, as notas de um aluno que iria ser reprovado. O aluno acabou assim por passar às ditas disciplinas sem sequer ter ido às aulas.

Segundo conta a publicação, a mudança de notas aconteceu depois de a mãe do aluno ter apresentado uma queixa em que acusava a instituição de ter negligenciado a educação do filho.

Por medo de uma inspeção, a diretora da escola acabou por persuadir os professores a retificar a situação e a mudar as notas.

Segundo documentos a que o jornal teve acesso, a mulher terá alegado que o filho era asmático e que não fora às aulas por receio de ser infetado, dado que era um doente de risco. Contudo, em momento algum apresentou um atestado médico confirmando a doença do filho. A mãe acusava ainda a instituição de não dar atenção ao aluno.

Machismo na academia

Quando começarão os ventos da modernidade, do respeito e da igualdade a arejar, finalmente, todos os cantos e recantos das universidades?

É inaceitável e inqualificável que, após décadas de democracia, de gestão autónoma e de internacionalização, ainda subsistam mestres intocáveis que não encontram melhor forma de afirmação do que a humilhação dos seus alunos. Neste caso, nem se pode sequer invocar a vetustez da instituição, pois a Faculdade de Direito é quase tão jovem como a maior parte dos alunos: tem apenas 26 anos.

Cabe agora aos responsáveis da faculdade, além de esclarecer os contornos da situação denunciada, tomar medidas para que comportamentos abusivos e discriminatórios não voltem a ocorrer.

Um professor da Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP) ter-se-á recusado a entregar o enunciado de um exame a uma aluna, na sexta-feira, por causa da forma como estava vestida, considerando que a estudante estava “muito destapada”, segundo a denúncia feita por um núcleo da faculdade nas redes sociais. A direcção da Faculdade de Direito da Universidade do Porto instaurou um “processo de averiguações relativamente aos factos reportados”, confirmou fonte da universidade ao PÚBLICO.

Mesmo depois de a aluna ter cedido à “pressão” para vestir um casaco, o enunciado do exame de recurso da unidade curricular História do Direito só terá sido entregue depois da insistência de outro aluno. A estudante acabou por fazer o exame, mas com menos tempo. A situação foi denunciada no sábado nas redes sociais do núcleo HeforShe da FDUP, em que dizem tratar-se de “um triste episódio de machismo na academia”.

A confirmarem-se as denúncias, o caso “configura uma situação grave de incumprimento daquilo que são quer as normas quer o espírito da universidade”, diz a mesma fonte da Universidade do Porto. Numa nota enviada pela direcção da FDUP a toda a comunidade ao final da tarde de segunda-feira, confirma-se a recepção de “denúncias” sobre o episódio que aconteceu no exame feito a 2 de Junho e é referido que foi aberto um processo de averiguações — o primeiro passo para a instauração de um processo disciplinar, após contraditório.

Enchendo chouriços…

Triste ideia esta de, a um ano lectivo já artificialmente alongado, no que ao 1.º e 2.º ciclos diz respeito, acrescentar ainda mais duas semanas para compensar a interrupção forçada e desnecessária do mês de Janeiro.

Só mesmo nas mentes delirantes que povoam os gabinetes ministeriais se poderá conceber que, em pleno Julho, ainda existem condições físicas e anímicas, nas escolas portuguesas, para trabalhar afincadamente na recuperação das “aprendizagens perdidas”…

O boneco é uma criação da sempre inspirada Txitxa!…

Professores com mais de 500 alunos

Mais de oito níveis, duas disciplinas (TIC e Cidadania), 24 turmas, cerca de 500 alunos. Foi esta a realidade vivida no ano letivo passado pela professora Isabel Moura. A situação repete-se um pouco por todo o país, principalmente com os docentes que lecionam Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). “A maior dificuldade foi não ter conseguido conhecer os meus alunos. As relações interpessoais estabelecidas não foram as desejáveis num processo de ensino aprendizagem, que se pretende focado no aluno. Apenas nos víamos uma vez por semana durante 45 minutos, para termos uma aula prática que, além de em termos de trabalho realizado pouco rendia, quando chegávamos à aula seguinte já ninguém se lembrava daquilo que tinha sido realizado na semana anterior”, explica ao DN. Isabel Moura diz tratar-se de uma situação “desumana”.

“Por muito que se dedique e goste da sua profissão nunca vê as suas tarefas chegadas ao fim. Por outro lado, os alunos merecem aprender com qualidade e ter um professor disponível, atento e que os conheça. Educar sem afetos e sem tempo não é educar, é passar informação”, sublinha. Segundo a professora, as alturas de avaliações (correção de testes e reuniões de conselhos de turma de final de período) são “as mais difíceis”. “É uma loucura. Como se avaliam cerca de 500 miúdos, com cinco ou seis aulas dadas e quase sem elementos de avaliação? As dúvidas são imensas e a sensação de poder estar a ser injusta é muito má. O número de horas gastas para avaliar tantos alunos e em tantas disciplinas é desgastante. Estar presente em tantos conselhos de turma de avaliação é extenuante. São os dias todos destinados às reuniões (entre 3 a 5 dias), de manhã à noite sempre a trabalhar e sem sequer conseguir preparar cada reunião como cada turma merece”, relembra. A solução, conta, passa primeiro pela “vontade de resolver o problema” e uma “mudança da legislação”.

“Os professores deviam ter no máximo seis ou sete turmas e não mais do que quatro níveis (disciplinas/anos) diferentes para lecionar, deviam acabar com a divisão entre tempos letivos e não letivos. Os tempos (agora chamados de não letivos) para preparar aulas, realizar avaliações, realizar reuniões, fazer trabalho colaborativo, realizar todo o trabalho burocrático, devia ser proporcional ao número de turmas e ao número de níveis, pois um professor com mais turmas precisa de mais tempo para fazer todas as outras tarefas”, refere.

A situação descrita pelo DN é uma realidade comum a muitos professores, embora poucos cheguem as extremos aqui retratados. Mas a partir do momento em que se atribuem apenas um tempo lectivo semanal a uma disciplina, é evidente que um professor sem reduções lectivas precisará de 22 a 24 tempos para completar o seu horário. O que lhe dá, sem dificuldade, mais de 500 alunos para ensinar e avaliar. Claro que uma situação destas impede qualquer um de ser professor no pleno sentido do termo, e a primeira coisa a que tem de se resignar é que chegará ao final do ano sem chegar a identificar pelo nome a maioria dos seus alunos.

A fragmentação curricular é um velho problema do 3.º ciclo do ensino básico, que as reformas e contra-reformas educativas dos últimos vinte anos só vieram agravar, em vez de resolver. Com os governos socialistas a situação tende sempre a piorar, pois há uma irresistível tendência para criar novos acrescentos curriculares. Noutros tempos foi a área de projecto ou o estudo acompanhado, agora são as aulas de Cidadania e a generalização da disciplina de TIC, ainda que com um tempo lectivo pouco mais do que simbólico. É o resultado prático de políticas educativas de costas voltadas para as escolas e os professores. Mesmo que as intenções possam ser boas, há uma série de problemas práticos que se levantam e que raramente ocorrem aos especialistas de gabinete. E mesmo quando percebem que fizeram asneira, mais facilmente confiam à “autonomia das escolas” a tarefa de endireitar o que nasceu torto, do que tentam eles próprios corrigir e melhorar o seu trabalho.

A organização curricular é hoje um terreno minado do qual os decisores ministeriais fogem a sete pés. Existem demasiadas disciplinas no 3.º CEB, mas como se exige que todas sejam leccionadas em todos os anos de escolaridade e está fora de questão aumentar a carga horária dos alunos, cerca de metade dessas disciplinas ficam apenas com um ou dois tempos semanais. No ponto em que estamos, só com medidas de fundo como a fusão ou a eliminação de disciplinas se poderia criar um currículo mais coerente e exequível. Mas este governo sempre se mostrou avesso ao enfrentamento dos problemas reais do sistema educativo, adoptando sempre a solução mais fácil, que é empurrar para as escolas a gestão do caos.

Sem alterações na estrutura curricular, resta o caminho que é proposto na peça do DN: criar regras que evitem a sobrecarga extrema que, no quadro actual, pode recair sobre alguns professores. Isto consegue-se estabelecendo um limite para o número máximo de alunos que podem ser atribuídos a cada docente, independentemente da quantidade de turmas que caibam no seu horário. E reforçando a componente não lectiva dos que têm mais turmas, pois é evidente que estes precisam de mais tempo para preparar as aulas e mais ainda para avaliar os alunos.

Embora estes abusos atinjam sobretudo os professores mais jovens e em situação mais precária nas escolas, as mudanças curriculares dos últimos anos têm contribuído para aumentar o número de turmas e de níveis de praticamente todos os professores. É uma realidade que tende a generalizar-se, não um azar que apenas acontece a alguns. A criação de regras justas e explícitas de distribuição de serviço, com limites claros ao que pode ser exigido a cada docente, deveria ser uma luta do interesse de todos os professores. Estaremos disponíveis para a travar?…