Uma greve simpática

Pretensas greves em torno de causas tendencialmente consensuais, como a de ontem contra as alterações climáticas, ou a da semana passada em defesa da igualdade de género e dos direitos das mulheres, sendo iniciativas respeitáveis, têm um risco: contribuem para veicular uma ideia errada do que é efectivamente uma greve e para descredibilizar o exercício de um direito fundamental dos trabalhadores.

Na verdade, perante o genuíno entusiasmo e as sinceras convicções dos jovens unidos na defesa do planeta há um contraste que, subliminarmente, se pode projectar: reparem como a nova geração se une numa greve global por uma causa comum e universal, ao contrário dos malandros dos trabalhadores, que lutam apenas pelos seus interesses egoístas e corporativos…

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Estas greves, simpáticas para os governos porque não trazem consigo exigências concretas, nem têm um destinatário óbvio, nem comprometem sequer os próprios manifestantes a viver em consonância com os princípios que defendem, acabam por ser protestos simbólicos e, quase sempre, inconsequentes. Apesar do indiscutível mediatismo e do agitar de algumas consciências, tendem a cair rapidamente no esquecimento.

E há um sinal claro de que a iniciativa que ontem decorreu foi uma greve “boa”, que não incomodou os governos, nem os patrões, nem outros poderes instituídos: ninguém veio reclamar de mais uma greve marcada à sexta-feira…

Para que serve a escola?

escolinhaQual é o objectivo fundamental da escola?

Proporcionar aos seus alunos um espaço adequado onde, em conjunto com os seus pares, realizem aprendizagens relevantes e ajustadas ao seu nível etário e ao seu grau de desenvolvimento físico, intelectual e emocional?

E como verificar se essas aprendizagens foram de facto realizadas, senão através de uma avaliação objectiva dos conhecimentos e competências dos alunos, feita de forma contínua e sistemática?

Ou, pelo contrário, nada disto é importante, e consideramos que tudo vai bem se os alunos estiverem felizes e “incluídos” na sua escola, se as flexibilidades e os DACs ajudarem a amenizar o incómodo de estudar e aprender, se as avaliações “formativas” e feitas à medida permitirem escamotear o insucesso?

Para Eduardo Lemos, Director da Escola Secundária Eça de Queirós e Presidente do Conselho das Escolas, a actual política parece ser a receita para o desastre: está-se a substituir estratégias e objectivos claros, focados numa melhoria das aprendizagens aferida através da evolução dos resultados, por uma manta de retalhos feita de novos e vagos “paradigmas”, “inclusões” e “flexibilidades”, sem que ninguém perceba muito bem o que se pretende e o que anda a fazer.

Independentemente do reconhecimento da necessidade da mudança e do benefício da dúvida que se queira conceder às políticas deste ministério, julgo que é impossível, a qualquer professor atento ao que se vai passando nas escolas, não comungar da perplexidade e da apreensão que se percebem nas palavras do “director dos directores”…

Atualmente, vemos que os resultados escolares não constam da agenda educativa, nem da agenda mediática, tendo desaparecido completamente do discurso político, como se queimassem a boca de quem se atravesse a verbalizá-los.

Os desafios que se lançam hoje às Escolas e que se tornarão, inclusive, objeto central da avaliação externa, são a “flexibilidade curricular”, a “inclusão”, as “aprendizagens essenciais” (ainda há bem pouco tempo, “significativas”), a “avaliação formativa”, “os projetos”… Enfim, as Escolas são confrontadas hoje com objetivos de natureza diferente daqueles que perseguiram durante anos. E a tendência será para se alinharem por estes novos objetivos, de caráter holístico, é certo, mas de discutível escrutínio e tangibilidade.

O processo de ajustamento a este “novo paradigma” educativo refletir-se-á, do meu ponto de vista, negativamente no quotidiano escolar pois, não apenas obrigará as Escolas a alterar, uma vez mais, os projetos educativos, os regulamentos internos, os critérios de avaliação e dezenas de procedimentos, em extenuantes trabalhos de Sísifo, como também afetará a perceção e o discernimento dos professores na distinção entre o que é essencial e acessório no seu trabalho.

Temo que os professores, mesmo aqueles que foram seduzidos por estes novos desafios teóricos que se lançam às Escolas e à profissão, não demorarão muito a perceber que perderam a bússola em mar alto. Perceberão, também, que o que lhes falta em meios e recursos para materializar os novos projetos e metodologias sobeja em formulários, reuniões e burocracia. Perceberão, ainda, que a substituição de objetivos claros e mensuráveis por objetivos intangíveis e demasiado flexíveis é o primeiro passo para se desviarem do caminho que leva os alunos ao sucesso escolar.

Em resultado de tudo isto, temo que os alunos – afinal, aqueles para quem trabalhamos – nem terão mais facilitado o acesso ao sucesso no Ensino Superior, nem o acesso e sucesso no mercado de trabalho.

Uma carreira roubada

.ladrao..Sou o exemplo de alguém que sabe que tem algum talento para outras coisas (e já viveu muito bem dele) e que se fartou do que fazem à educação nacional. A imoralidade tem limites e quem a sofre placidamente partilha da imoralidade dos que a criam. O que vou fazer com estas constatações pessoais ainda medito…

…Ganho 1250 euros líquidos por mês, ao fim de 23 anos de profissão (e não falemos da formação e currículo, para não ter ainda mais a sensação que andei a desperdiçar a vida). É muito mau que, quem forma jovens, acumule a desilusão de que, fazer isso (esforçar-se, estudar e formar-se), é desperdiçá-la…

…E aumentar-me é um problema terrível para os que enchem a boca com a necessidade de “ter os melhores professores no sistema”.

Num extenso post publicado no ComRegras, Luís Braga confessa a sua revolta e o desencanto que lhe vai na alma pela forma como vêm sendo tratados os professores portugueses. É que os mais velhos, sendo sem dúvida os mais desgastados, podem na maior parte dos casos alimentar ainda a esperança de alcançar o topo da carreira. Mas os mais novos – e aqui o “novo” significa quase sempre ter mais de 40 anos e acumular duas décadas ou mais de serviço docente – são severamente penalizados por um congelamento das progressões que lhes irá impedir o acesso aos escalões do topo.

E não se diga que são apenas questões financeiras que estão em jogo. Os professores sentem-se desconsiderados e maltratados porque não são parvos e percebem bem que o sacrifício que está a ser feito da sua carreira e dos seus direitos e expectativas profissionais serve em grande medida para que o poder político continue a fechar aos olhos à corrupção e ao compadrio na gestão pública, a premiar banqueiros e gestores incompetentes, a tapar os buracos do sistema financeiro com o dinheiro que deveria servir para remunerar condignamente os professores e outros profissionais, em vez de colocar atrás das grades os vigaristas que o roubaram.

Tudo isto é ignóbil e revoltante, e só não comungo inteiramente do pessimismo do Luís porque ainda acredito que podemos lutar e resistir. Não creio em derrotas definitivas nem desisti de pensar que podemos e devemos lutar por um futuro melhor. Para as escolas públicas e os nossos alunos, para a nossa profissão e o nosso país. Até porque uma boa parte dessa mudança se constrói nas escolas, no trabalho quotidiano com as futuras gerações.

Termino com mais alguns excertos de um post que convido a ler na totalidade.

…Este, que não será dos piores, daqui a pouco vai-se embora porque ganhará juízo. E não devo ser o único. Há maneiras de ganhar mais. E há muito mundo. Implica risco, mas não há que ter medo do risco…

O outro, pelo menos, não era hipócrita…. Saiam da vossa zona de conforto. E se se sair da área do desconforto?

…Temos vergonha de que, para trabalhar bem, precisemos de ser bem pagos? Os professores não são mercenários, mas não têm de ser missionários. 1380 euros é assim um salário tão alto, para um profissional qualificado e experiente, senior, como agora se diz?…

…Milhares de horas de formação depois, avaliado de excelente com aulas observadas, reconhecido pelos alunos. Que mais querem para me pagarem um salário que ache justo? E mais ainda, o que me prometeram, quando em 1995 decidi escolher desperdiçar os meus talentos potenciais para outras coisas a escolher ser professor?

Porque havia uma carreira e certos direitos…..Roubaram-ma.

Querem os melhores na profissão? É isso? E que tal pagarem com o mesmo ângulo com que pagam aos “melhores gestores”.

Os meus alunos têm resultados comigo (por seu mérito, mas também porque, pelo menos, façam-me essa justiça, não os estrago…). Podem dizer-me o mesmo dos que gerem ou geriram os bancos e empresas que tanto reverenciam?

Se eu for multado na estrada que me leva à escola posso meter a multa à escola? Pois não…. Isso era roubar.

Conselhos às futuras professoras

senhorita-rotesmeier.jpgSeñorita Rotesmeyer é como assina uma professora espanhola do ensino básico que sigo no Twitter. Um destes dias, a propósito de um diálogo com algumas caloiras dos cursos de Ciências da Educação, brindou-nos com uma sequência de tweets que traduz uma interessantíssima reflexão sobre a profissão de professor. E que não quis deixar de partilhar. A tradução e adaptação dos textos é da minha responsabilidade.

Hoje algumas alunas do 1.º ano de Ciências da Educação vieram  fazer-me umas perguntas. Entre elas: – “Qual é a melhor metodologia para a sala de aula?”

– A que funcione com o teu grupo. Não te deixes levar por modas. Experimenta daqui e dali. E o que resultar com as características e peculiaridades do teu grupo, essa será a metodologia perfeita. Se insistimos em fazer funcionar algo que não serve para o teu grupo, só porque a maioria o faz, estarás fechando portas, e a escola serve para abrir o mundo a esses meninos e meninas.

Outra: – “Pensas o mesmo sobre educação que quando começaste?”

– Não. Quando terminas o curso és idealista e tens uma visão da escola baseada nas pedagogias estudadas e no lado bonito. Quando começas a enfrentar problemas, descobres a realidade. E quão difícil é às vezes ter as ferramentas necessárias para resolver muitos aspectos que nos escapam das mãos. Queremos “salvar” cada criança de ambientes complicados, queremos ajudar em situações para as quais não estamos preparados. E é quando aceitas que não podes fazer tudo, que descobres verdadeiramente o sentido de educação.

E no final, a que eu mais gostei: – “Que tens para nos dizer a nós, que só há seis meses estudamos para ser professoras?”

– Digo-vos que acreditem em vocês próprias e no importante trabalho que irão desenvolver. Sois um elo imprescindível ao futuro da sociedade. Sois as criadoras de todas as profissões. Sois as que dão asas para voar aos vossos alunos.

– E digam o que disserem, critiquem o que criticarem, nunca esqueçam que toda a criança que passe pelas vossas mãos merece o maior respeito e carinho. Um dia, muitos anos depois, só posso desejar-vos que olhem para trás e se sintam tão orgulhosas como naquele dia em que pensaram: EU QUERO SER PROFESSORA. Que nunca se esqueçam.

O golpe anticonstitucional contra o direito à greve

greve-cirurgicaÉ impressão minha, ou parece haver, nalguns sectores sindicais, uma indisfarçável satisfação com o golpe anticonstitucional do governo para desmobilizar a greve dos enfermeiros?

Se assim é, então estão a fazer uma leitura muito errada do que está a suceder. Porque não é só a greve dos enfermeiros, à qual já se chamou de tudo, que está em causa. Futuramente, toda e qualquer greve que prejudique mais o patrão ou o Estado do que os trabalhadores poderá ser ilegalizada com base nos mesmos abstrusos argumentos agora usados no parecer da Procuradoria-Geral da República a que o Governo tenta dar força de lei.

O que se pretende é que, daqui para a frente, só se façam greves inúteis: simbólicas, inóquas e inconsequentes. Um dia ou dois para “marcar posição” e a descontar integralmente no vencimento dos trabalhadores, para que sintam a penalização no bolso e tão cedo não se queiram meter noutra. Nada de greves que prejudiquem a entidade patronal ao ponto de esta se sentir forçada a ceder às reivindicações dos trabalhadores. Nada de fundos de greve, muito menos quando estas envolvam a participação solidária de outros trabalhadores. A solidariedade é muito bonita, mas é suposto ser interclassista e esgotar-se nos peditórios para os pobrezinhos da dra. Jonet e noutros voluntariados do regime. E nem pensar em greves “self-service” – esse portentoso conceito jurídico inventado pelos procuradores da República. Na verdade, onde é que já se viu o atrevimento de quererem ser os trabalhadores a decidir, livremente, quando e como fazem a sua greve?…

E no entanto, como lembra a historiadora Raquel Varela, os fundos de greve são um instrumento poderoso para viabilizar esta forma de luta desde os primórdios do sindicalismo. A greve, sendo o último recurso nas lutas laborais, deve ser também uma arma decisiva. Não pode banalizar-se de forma inconsequente e, em lutas mais duras e prolongadas, faz todo o sentido ser usada de forma selectiva. O forte ataque ao direito à greve que estamos a presenciar significa que as elites políticas e económicas que dominam o país perceberam o potencial subversivo de uma greve inteligente e incisiva, feita para desequilibrar a relação de forças em favor dos trabalhadores. Perante a ameaça de uma classe profissional que não se satisfaz com promessas ocas, o governo vê-se obrigado a reconhecer a sua incapacidade negocial. Para defender a sua política económica assente na contenção salarial – afinal de contas, é preciso haver dinheiro para continuar a salvar bancos – não hesita em atacar o direito à greve, a liberdade sindical e, em última análise, a própria democracia. Uma luta na qual está a encontrar demasiadas conivências, algumas vindas de onde menos se esperaria. Como muito bem explica Raquel Varela…

Quem achava que as ameaças à liberdade vinham de um grupo de criminosos de extrema direita infiltrados numa manifestação popular, hoje deve pensar bem, o dia todo, na casca de banana em que escorregou, e caiu, de tombo. Já que a Procuradoria Geral da República, – leiam para ver com os próprios olhos – acaba de fazer um parecer onde diz que a greve ou afecta mais os trabalhadores do que o patrão (é isto mesmo que lá está) ou deve ser considerada ilegal. Portugal vai ter mais conflitos sociais, e a resposta não vai ser o fascismo a curto ou mesmo médio prazo, mas o Bonapartismo, de Estado – que cai sobre quem não apanhou a doença da resignação e do possibilismo.

Se o parecer que a PGR fez sobre a greve dos enfermeiros for assumido pelos tribunais (se…) todas as greves eficazes daqui para a frente serão ilegais – na prática o parecer sugere a proibição de fundos de greves e diz – vejam! – que os trabalhadores deixam de receber por todos os dias que se solidarizam com a greve, mesmo quando estavam a trabalhar. É evidente que este parecer é um atentado ao direito à greve – e vai ser usado não só contra os enfermeiros, mas contra o sector industrial privado.

O Governo da Geringonça depois de patrocinar furas greves em Setúbal veio com a requisição civil e , agora, – em plena greve da função pública – lança este parecer. Há uns anos lembro-me de Marcelo, ainda comentador na TVI, nas conversas de Domingo em família, explicar que os Governos PS são muito melhores para mexer na lei laboral porque, cito-o, o PSD não tem força para isso…

Se algum sindicato pensa que são só os enfermeiros que estão em risco reflicta rapidamente, por favor. Hoje todos os sindicatos portugueses estão sob ameaça, e a democracia em risco.

Uma geração de niilistas?

cao-danado.jpgSentir que de nada serve tentar porque aparentemente alguns alunos não parecem munidos de valores mínimos suficiente para simplesmente saber onde começa a falta de respeito e de educação.

Observar esses mesmos alunos durante o intervalo, a serem agressivos uns com os outros (okay, energia a ser dissipada e tal), mas observar também os mesmos a insultarem-se gratuitamente uns com outros e em casos mais graves insultarem elementos de pessoal não docente sempre que podem.

Em cada oportunidade, observar os mesmos a deitarem lixo para o chão, apesar das inúmeras conversas sobre reciclagem e sobre plásticos nos oceanos. Riscarem as cadeiras e as mesas e em último caso destruir equipamento da escola de forma quase gratuita por mero capricho.

Quando apanhados com “a boca na botija” na sala por algum comportamento desviante, usam a “carta” de vitimização. “Não foi eu, exclamam” e por vezes em tom jocoso ou agressivo gritam na aula desafiando o professor.

A sensação é que estamos por um fio e que já não existem sequer parcos valores onde nos segurar e que muitos alunos não sabem lidar com a frustação independentemente de estarem na escola ou em casa. Sabem os pais que estão a criar uma geração de niilistas?

Não conheço o autor anónimo das Crónicas do Cão, mas quem descreve tão bem o (mau) ambiente de algumas salas de aula do século XXI só pode ser, naturalmente, professor.

É mesmo assim, dirão todos os professores que não têm a sorte de estar numa das poucas e afortunadas escolas onde se trabalha para tentar chegar ao topo dos rankings. Ou onde, mesmo sem essas ambições, ainda se conseguem encontrar os alunos atentos, motivados, empenhados e participativos que estimulam qualquer bom professor.

E não adianta dizer que é porque não sei quê, a tecnologia e o conhecimento na palma da mão, os nativos digitais, as mudanças de mentalidade. Na grande maioria dos casos é mesmo o não saber estar, a falta de objectivos e de valores. O niilismo, um sentimento próprio de idosos que já nada esperam da vida, parece ir-se apoderando das novas gerações…

Dizem-nos que a escola tem de mudar e isso, até certo ponto, é verdade. Mas desenganem-se os que pensam que é voltando às mesas em U ou à multiplicação trabalhos de projecto, colocando cadeiras com rodinhas, distribuindo “tabletes” ou sessões de mindfulness a toda a gente que se irão resolver os problemas de fundo de um sistema educativo em profunda crise.

Rankings, exames e autonomia

ranking…exauridas que foram as energias utópicas da revolução, em meados dos anos oitenta, logo a seguir à nossa integração na então CEE, começam a ser mais claros os sinais de aproximação a um novo ciclo internacional, constituído pelas agendas educativas neoconservadoras e neoliberais, então emergentes em alguns países capitalistas centrais. E algumas das expressões mais forte destas agendas, com especificidades em cada caso, foram precisamente os ataques à escola pública e a defesa da privatização, a liberdade de escolha apoiada por mecanismos de mercado (como os rankings), maior controlo central sobre o currículo, o cerceamento à autonomia das escolas e dos professores, e a adoção dos exames nacionais.

Concordo no essencial com a análise do professor Almerindo Janela Afonso: a publicitação de rankings de escolas é a consagração de uma visão neoliberal da escola, centrada na aferição externa dos resultados da aprendizagem. Uma concepção assente no velho mantra de que, com mais informação, as pessoas fazem melhores escolhas – um pressuposto ainda por demonstrar – e que o exercício da “liberdade de escolha” levaria os alunos a afluir às melhores escolas, ao mesmo tempo que forçaria as piores a melhorar.

Como é evidente, tudo isto é um disparate pegado. A prova é que, após quase duas décadas de publicitação de rankings, as escolas tidas por “más”, porque os seus alunos obtêm notas baixas nos exames, assim continuam. E as escolas “boas”, ficaram com a vida facilitada para serem ainda “melhores”, uma vez que a fama trazida pelas posições cimeiras nos rankings lhes permite serem ainda mais selectivas na escolha dos seus alunos.

Mas há um ponto em que discordo de Janela Afonso: quando ele estabelece uma dicotomia, a meu ver errónea, entre avaliação externa, centralista, limitadora e controladora, e o primado da avaliação contínua, assente no trabalho e na autonomia profissional dos professores. Defendendo, em nome do reforço da autonomia dos professores e das escolas, o fim dos exames nacionais.

Claro que o facto de haver uma prova externa no final condiciona o trabalho do professor, que passa a ter em conta a necessidade de preparar os alunos para a realizar. Mas não me parece que isso limite a sua autonomia, que nunca entendi como o direito a gerir livremente, sem quaisquer condicionantes ou limitações, o trabalho pedagógico com os alunos. Pelo contrário: existem os programas das disciplinas e existe um currículo nacional a que todos os alunos devem aceder e que todos os professores devem respeitar. Claro que os programas devem ser geridos por cada docente e que pedagogicamente há muitas maneiras de fazer as coisas, mas as aprendizagens essenciais de cada disciplina não devem ser postas em causa. Pois só assim se concretiza a igualdade de oportunidades, um direito fundamental que a escola pública deve promover.

Ora isto leva-me a uma conclusão aparentemente paradoxal: nos tempos que correm, a existência de exames é, seguramente, mais um aliado da autonomia profissional dos professores do que uma ameaça. É que a autonomia tende hoje a ser vista como uma prerrogativa, não de cada professor, mas da escola – leia-se do director e de outras “lideranças” locais – e brevemente também dos poderes autárquicos. A autonomia é o pretexto para a invasão das aulas dos professores por todo o tipo de projectos, flexibilidades, transversalidades e educações para isto e para aquilo. E o professor é tido, cada vez mais, como um mero executante do que equipas ministeriais, direcções, conselhos pedagógicos ou conselhos municipais de educação decidiram em seu nome.

A existência de um currículo nacional e de provas estandardizadas, sejam elas de aferição ou de avaliação final, são elementos fundamentais para que os professores que ainda não desistiram de que nas suas aulas se ensine e aprenda possam reivindicar o tempo e o espaço adequados ao desenvolvimento das matérias curriculares. É uma defesa essencial contra a deriva facilitista que invadirá as escolas no dia em que deixar de haver exames ou qualquer tipo de avaliação externa com consequências e a ordem taxativa de que “é para passar toda a gente” adquirir significado pleno.

Acredito que, visto a partir dos gabinetes das universidades ou dos centros de investigação, o panorama não se apresente tão sombrio. Mas para quem trabalha no terreno cada vez mais difícil das escolas básicas e secundárias e sente a forma como o poder político vai tirando o tapete à autonomia profissional dos professores, restam poucas dúvidas acerca do que se está a preparar.