A “Uber-escola” e a falta de professores

Paulo Prudêncio escreve, no Público, sobre o problema, já indisfarçável, da falta de professores. Uma reflexão rica e muito interessante, desde logo porque foge aos habituais lugares-comuns sobre o assunto, analisando-o no contexto mais vasto da experiência internacional – o que parece ser entre nós um problema novo, subsiste há décadas em países mais desenvolvidos – e das políticas económicas dominantes, assentes na desregulação, na precariedade, no agravamento das desigualdades e na promoção do individualismo, a par do enfraquecimento do Estado social.

Os mecanismos da economia informal com que se tenta reinventar o capitalismo no século XXI parecem estar a invadir paulatinamente a escola e as políticas de Educação. Assim como o vulgar cidadão pode fazer uns biscates como motorista, colocando o seu carro particular ao serviço da Uber, também a escola, a braços com a falta de professores qualificados, poderá recorrer, de forma pontual ou permanente, a quem quer que se disponha a vir dar umas aulas. Ou, à falta de melhor, a entreter os alunos.

O nosso colega identifica, bem, cinco sinais claros na origem deste processo: a degradação do estatuto da carreira e do sistema remuneratório, levando à perda de atractividade da profissão; uma avaliação de professores com quotas e vagas que dilacera o bom ambiente escolar, premiando o individualismo e promovendo o assédio laboral; uma escola a tempo inteiro que se transformou em educação a tempo inteiro na escola; um modelo autocrático de gestão norteado por interesses divergentes da missão da escola pública e combinado com um modo de agrupar escolas único na Europa; um ranking de escolas sempre “em progressão”. Estas não são decisões erradas deste ou daquele ministro: Paulo Prudêncio nota a inépcia e a inércia de sucessivos governos; eu iria mais longe e acrescento que tudo isto faz parte de um programa educativo profundamente lesivo da escola pública, seguido deliberadamente pelos vários governos em nome de inconfessáveis interesses. Um verdadeiro pacto educativo dos partidos do centrão, não escrito, mas que nem por isso deixa de ser levado a sério, e que se evidencia no Parlamento sempre que alguma proposta divergente ousa apresentar-se a votação.

Tudo isto está bem patente no mal-estar docente, que se respira nas salas de professores e nas redes sociais que estes frequentam. É a conclusão do artigo de opinião no Público, que os não-assinantes podem ler no Correntes – provavelmente o blogue mais antigo da blogosfera docente, que Paulo Prudêncio continua a alimentar diariamente.

A recente aversão dos professores, bem documentada nos espaços de opinião, à Escola Ubuntu (mas podia ser outro projecto e também bem intencionado), é uma reacção cansada e irritada ao efeito mediático de distracção que a inflação de projectos provoca em relação às questões fundamentais. E depois, há uma espécie de entretenimento infernal promovido por personalidades que gravitam na galáxia dos governantes e numa órbita distante das salas de aula.

Em suma, a inundação de projectos (exactamente o que mais originou a crise finlandesa) provoca climas de adesão militante ou de revolta contida: escolas que querem agradar ao poder que as avalia e professores avaliados sobrecarregados com as burocracias mil vezes identificadas e outras tantas invisíveis para governantes.

A máquina de matar professores

A escola pública portuguesa tem sofrido assaltos sucessivos de grupos de pressão que, directa ou indirectamente, se têm instalado nos feios prédios do Aterro lisboeta, à Avenida 24 de Julho. Quem conheça o meio, sabe bem quem o povoa e quem por lá tem influência e é ouvido. As políticas educativas que conseguem impor, graças a eficazes manobras de propaganda, de pressão ou de manipulação, não visam nem alguma vez visaram a qualidade da escola e das aprendizagens. Não querem saber dos alunos nem das famílias nem dos professores. Servem interesses académicos e pessoais, agendas políticas e sociais, estratégias económicas. Pretendem usar a escola como palco, como ferramenta de manipulação ideológica, como caixa multibanco. As técnicas de sedução são exímias. Chegam a cativar muitos docentes, aliciando-os, ludibriando-os, estimulando os seus instintos mais escusos. Sabem recompensá-los. Usam-nos, depois, como armas de arremesso contra os seus colegas que têm a ousadia de pensar pela sua própria cabeça e de afirmar, sem medo, que o rei vai nu, que as “maravilhas fatais” apresentadas em formações e deformações não passam de quinquilharia velha ou sem valor, destinada a enganar meio mundo e a outra metade. A maioria dos professores não é, todavia, parva. Percebe o que está a suceder. Tem percebido. Tem resistido como pode. Essa resistência é conhecida. E detestada por muitos directores, por demasiados colegas, por muitos pais inconscientes e, obviamente, pela tutela do Ministério. Há mais de duas décadas que o assalto vem crescendo.

Ninguém ignora que o assédio moral dentro das escolas é uma realidade constante e reiterada. Quase sempre, subtil. […] Pais envenenados, colegas manipulados ou interesseiros, hierarquias picadas pelo Ministério sujeitam quem quer fazer o seu trabalho honestamente a pressões inimagináveis, a humilhações de que poucos suspeitam. Visam destruir a sua autonomia científica, técnica e pedagógica que, apesar de garantida pelo Estatuto da Carreira Docente, vem sendo dinamitada há muito tempo, com especial intensidade nos últimos seis anos (nos quais têm pontificado os fiéis continuadores da guerrilha promovida com eficácia, entre 2005 e 2009, por uma senhora chamada Maria de Lurdes Rodrigues e seus comparsas). Junte-se a isto a subversão das regras de avaliação do trabalho dos docentes (alvo de um constante tráfico de influências e das mais mirabolantes manobras), o congelamento da sua progressão na carreira, a desconsideração do seu mérito efectivo (em benefício de um lambe-botismo atávico), a intromissão nas suas aulas (que chega ao ponto de impor “coadjuvantes” dentro das salas que, na prática, são muitas vezes vigilantes e bufos), o apagamento ou manipulação do rigor na avaliação e na disciplina – e não serão muitos os resistentes. Quem está perto da reforma, aposenta-se o mais depressa que pode, mesmo com prejuízo na carteira. Quem consegue encontrar uma porta aberta por onde possa fugir, muda de emprego, definitivamente ou durante algum tempo. Outros, infelizmente, não resistem e sofrem graves consequências na sua saúde, nem sempre remediáveis.

Ruy Ventura traça, nas páginas do Público (acesso exclusivo a assinantes) e no seu mural do Facebook, um retrato deprimente, mas certeiro e incisivo, da escola portuguesa nestas primeiras décadas do século XXI. Demonstrando como ela se transformou, pela incompetência, perfídia e laxismo de dirigentes e governantes, numa máquina que lentamente corrói a energia e a alma dos professores. Que os adoece, matando neles, pouco a pouco, a dedicação e o gosto que um dia tiveram pela sua profissão.

Num sistema educativo subordinado a uma gestão economicista de vistas curtas, dominado por uma burocracia galopante e capturado por lobbies eduqueses de diversas cores e feitios, o superior interesse dos alunos acaba por ser mero pretexto, tantas vezes invocado em vão, para o experimentalismo permanente, uma sucessão de falsas inovações que apenas acentua a falta de rumo da escola pública. Apanhados no turbilhão das exigências e das mudanças sem sentido, os professores assistem à degradação das suas condições de trabalho, ao ataque às suas carreiras e autonomia profissional, ao alastrar da indisciplina e do assédio moral, à imposição de um modelo de gestão autocrático e de um sistema de avaliação injusto, punitivo e vexatório.

Neste quadro, a propalada autonomia das escolas pouco mais é do que a liberdade de as comunidades educativas fazerem o que quiserem, desde que queiram o mesmo que o ministério pretende. Esta é mais uma forma de menorizar e domesticar a classe docente, pondo em causa a autonomia científica, técnica e pedagógica dos professores, consagrada no artigo 5.º do Estatuto da Carreira Docente ainda em vigor.

E é assim que décadas de menosprezo, de humilhação e assédio contra os professores, vistos como alvos a abater numa quadro de uma política educativa feita contra os professores, têm agora o resultado há muito previsível, mas que parece surpreender e perturbar as cabeças (pouco) pensantes do ministério: há falta de professores. Muitos dos profissionais habilitados para ensinar fartaram-se de servir um patrão que os maltrata. E a profissão deixou de ser atractiva para as novas gerações. Haverá discernimento para encarar a realidade, compreendendo a necessidade de defender e valorizar a profissão docente? Ou irá prosseguir a política de tiro ao alvo aos professores, esses seres perigosos porque habituados a pensar pela sua cabeça e a cultivar valores fora de moda como a ética, a exigência e o rigor, até que não sobre nenhum digno desse nome?…

Uma escola sem rumo

Vou ao terreno. Falo com atores locais. Vejo muita gente boa e empenhada. Mas também vejo muitas medidas inconsequentes, fazer por fazer. Falta de estratégia. Tudo ancorado no voluntarismo e boa vontade de alguns. Projetos que começam e acabam sem ninguém saber para que serviram. Diretores que têm tantos projetos a decorrer que são incapazes de os identificar.

Pessoas cansadas. Muitas horas em sala de aula, uns a falar demais outros a absorver de menos. Uns ricos e muitos pobres, tendencialmente distribuídos por escolas segregadas. A escola de hoje já não é a do século XIX, mas não sabemos bem o que é, nem tão pouco o queremos que seja. Estamos a caminho, temos um mapa, tantas ruas, tantas opções… para onde vamos?

Isabel Flores faz, no Observador, algumas reflexões interessantes sobre o rumo que levam as escolas neste século XXI. Como sucede com muitos olhares exteriores, também aqui se nota uma visão eivada de algum romantismo e voluntarismo. Há no entanto um esforço para compreender a realidade no terreno e uma identificação correcta de alguns dos maiores problemas e desafios que vamos enfrentando:

Há dinheiro fresco para gastar, mas falta estratégia: poupa-se na contratação de professores e adia-se a renovação geracional da classe docente. Gasta-se em computadores e formações que pouco ou nada acrescentam ao uso eficaz da tecnologia nas escolas.

A pobreza infantil resolve-se fora da escola. Eis uma frase que os governantes deveriam repetir e copiar mil vezes, a ver se lhes entra na cabeça. Se há crianças com fome, negligenciadas ou com outras necessidades básicas por satisfazer, essas carências têm de ser resolvidas através do apoio directo e do acompanhamento às famílias.

O planeamento educativo e a propalada autonomia das escolas deveriam estar ao serviço dos alunos, orientadas para a melhoria dos recursos e das práticas pedagógicas. Em vez disso, continuamos atolados em burocracia, a trabalhar para os papéis e a prestar contas aos comissários políticos do ministério em vez de o fazermos perante a comunidade educativa.

Segue-se uma política errada de desvalorização dos conteúdos disciplinares, tidos como difíceis, inúteis e aborrecidos, promovendo-se em alternativa uma catadupa de projectos, incentivando as escolas a desconstruir o currículo. Ultimamente, tenta-se incutir uma verdadeira obsessão com a avaliação, voltando-se a velhas e inúteis discussões em torno da dicotomias que deveriam já estar ultrapassadas, como exames versus avaliação contínua ou avaliação formativa versus sumativa.

Em vez de toda esta ganga eduquesa, seria mais proveitoso ocupar o tempo dos professores e dos alunos a ensinar a a aprender, investindo-se em metodologias e recursos educativos para tornar o ensino, não menos exigente, como alguns parecem desejar, mas mais proveitoso e aliciante.

Leituras: Algo fizemos de errado

Todas as sextas-feiras desde que começou o ano lectivo se tem armado a barraca do botellón nas grandes cidades. Acontece que a festa acaba com pedradas à polícia, abusos sexuais variados e uma ou outra navalhada que escapa. Estamos a falar de gerações que tiveram a sorte de viver num lugar democrático (com todas os seus defeitos, que os tem) e com escolas que deram prioridade, por diferentes meios e nomenclaturas, à aquisição de valores cívicos, de cidadania, emocionais e de rejeição de qualquer tipo de violência. Pois bem, senhores, algo fizemos de errado (incluo as famílias e a sociedade), porque a muitos não lhes entrou.

Talvez seja preciso, sem abandonar, evidentemente, os ensinamentos acima mencionados, dar importância à responsabilidade e ao respeito, coisas que há tempos nos soam muito mal porque se conseguiu (isto, sim) associá-los a elementos de uma educação oitocentista e retrógrada. Dos ventos de “a criança deve ir à escola para ser feliz” e “se não progride, a culpa é do professor que não a compreende” vêm as tempestades de “vou para a noite porque tenho o direito de ser feliz como me apetece” e “se a polícia vier para dispersar porque o que fazemos é ilegal, corro-os à pedrada porque são fascistas que restringem os meus direitos”.

Os direitos, sobretudo das crianças e dos jovens, são intocáveis e devem continuar a sê-lo se quisermos ser uma sociedade moderna e civilizada; mas devemos ter a coragem de afirmar que eles também têm deveres e estes devem ser tão intocáveis como os primeiros. Esta tarefa cabe principalmente às famílias, embora deva ser adequadamente reforçada nas escolas e apoiada pela sociedade como um todo. Caso contrário, qualquer dia acabarão em frente a um juiz com o código penal debaixo do braço e aí não há baboseiras ou infantilidades que lhes valham. Está dito. E agora abro o guarda-chuva pois vai-me chover em cima.

Tiziano Tizona

No rescaldo das autárquicas

Eleições autárquicas têm, como se sabe, uma especificidade muito própria, que desaconselha imprudentes leituras a nível nacional. Cada concelho tem a sua realidade própria, e o perfil dos candidatos às presidências de câmara e de junta é muitas vezes mais determinante na escolha dos eleitores do que os símbolos partidários. Mas nem sempre: há outros factores que pesam na criação de uma dinâmica vitoriosa que, no entanto, também não é receita garantida de sucesso eleitoral. E o inesperado também conta, como se viu na surpreendente reviravolta operada na corrida para a câmara da capital.

Ficam, para memória futura, algumas notas sobre as autárquicas de 2021.

Este PS está cansado e já cansa. Está há demasiado tempo no poder, mostra-se incapaz de aprender com os erros e as críticas. Revela uma preocupante incapacidade de renovação de pessoas e ideias. Para partido com vocação de poder e há tanto tempo no poder, deveria ser capaz de atrair e confiar responsabilidades políticas a gente mais capaz e bem preparada, substituindo políticos medíocres e sem visão, carisma ou capacidade de liderança. As autárquicas deram aqui mais um conjunto de sinais claros de uma realidade de que quem acompanha com atenção a política portuguesa há muito se apercebeu. Será António Costa capaz de dar ele próprio a varredela necessária, ou irá ser ele próprio varrido, como sucedeu ao seu delfim na câmara de Lisboa?

Nem tudo foram vitórias do PSD. E nem sempre os media resistiram à tentação de levar ao colo o principal partido da oposição, atribuindo-lhe vitórias em que o mérito de Rui Rio, por vezes contra a vontade do próprio partido, foi sobretudo o de se associar a dinâmicas locais vitoriosas, coligando-se com outros partidos e associando-se a candidatos independentes com prestígio local. Ainda assim, o PSD segurou os seus resultados e a sua implantação local e capitalizou com um punhado de autarquias recuperadas e com o resultado inesperado de Carlos Moedas em Lisboa: ainda não foi desta que os opositores à liderança de Rui Rio encontraram um pretexto forte para o tentar derrubar.

O lento declínio do PCP. De derrota em derrota até à irrelevância final, o PCP não consegue inverter a trajectória descendente de resultados eleitorais, e servir de muleta orçamental a um PS cada vez menos disponível para cedências e convergências à esquerda parece estar a funcionar como o temido abraço do urso que alguns vaticinavam nos primeiros tempos da geringonça. A qualidade do trabalho de alguns autarcas eleitos também não parece entusiasmar os eleitores, que optam pela mudança. E é pena que assim seja, pois o PCP continua a ocupar e a representar um espaço político e social que me parece essencial à nossa democracia.

A irrelevância dos pequenos partidos. Incluindo aqui o Bloco de Esquerda, que a nível nacional se apresenta como a terceira força partidária mas localmente não consegue mais do que eleger um ou outro vereador e alguns representantes nas assembleias municipais e de freguesia. Incluindo igualmente o partido chegano, outro que é levado ao colo pela comunicação social, mas cujos resultados continuam a ser irrelevantes. E sem esquecer o Livre de Rui Tavares, um historiador talentoso com notória inabilidade política: não direi que a derrota de Fernando Medina seja devida à aliança com o Livre, mas que parece mau olhado, parece…

Candidaturas independentes e movimentos de cidadãos. Continuam a surgir em vários concelhos, com resultados muito variados. E nem sempre são independentes genuínos, mas antes autarcas de candeias às avessas com o partido de origem. O sucesso mais notório é o de Rui Moreira, no Porto. Isaltino Morais continua imparável em Oeiras. Santana Lopes regressou a uma Figueira da Foz que já governou. Mas noutros lados os movimentos independentes não conseguem ser suficientemente mobilizadores, limitando-se a reproduzir os lugares-comuns das candidaturas partidárias, mas sem os meios dos partidos políticos para captar o eleitorado.

O partido da abstenção. Com 46,35% dos cidadãos inscritos que não se dignaram ir votar, o partido da abstenção continua a ser o vencedor, por larga margem, das eleições portuguesas. E as autárquicas não são excepção: costumam ser até, a despeito do maior número de candidatos e da maior proximidade destes às populações, das menos participadas. Muito haveria a dizer, e ainda mais a especular, sobre este fenómeno. Fico-me pelo mais evidente: quando quase metade dos eleitores opta por não comparecer nas urnas, está em causa a qualidade da nossa democracia e a representatividade dos eleitos para decidir politicamente em nome do povo. Os mais velhos entre nós recordarão ainda o tempo da ditadura, mas quem tem menos de 50 anos não terá memória directa desse período. Julgarão por isso que a democracia é um dado seguro e adquirido para sempre, não precisando de ser valorizada e consolidada por cada uma das novas gerações?

Pensamento do Dia

autocarrosVotar em alguém não é como casar, é como apanhar um autocarro. Talvez não haja um autocarro que vá exatamente para onde tu queres ir. Mas há-de haver um que vá para as redondezas. Não apanhar autocarro nenhum porque nenhum vai exatamente para onde queres é estúpido.

Mais estúpido ainda é apanhares um na direção contrária. Apanha o autocarro que for para mais perto de onde queres ir e deixa-te de purismos ideológicos!

Daqui.

Leituras: A escola conspira contra o mundo

Um belíssimo texto em defesa da Educação e da escola pública, escrito por Jaime Buedo, um jovem professor espanhol, na forma de uma carta aos seus alunos, finalistas do Secundário em tempo de pandemia. Exemplar este colega, na forma como encara os seus alunos e concebe a sua profissão. Mas nunca ganharia um desses prémios de professores do ano com que as multinacionais da Educação tentam domesticar a profissão docente…

Queridos alunos, queridas alunas:

Penso que é justo que comece por vos felicitar. Hoje chegais ao fim de um caminho que começastes há alguns anos e do qual creio que deveis estar orgulhosos. Um orgulho, certamente, que vos pertence a todos, independentemente de qual tenha sido o vosso percurso específico ao longo deste caminho comum a que chamamos ensino secundário.

Por que deveis estar orgulhosos?

Não vou esconder o facto de que iniciar um discurso lisonjeando o seu público principal é o truque retórico mais antigo que existe. Portanto, lamento dizer-vos que, para demonstrar que as minhas felicitações são rigorosamente honestas e não uma mera estratégia discursiva, não tenho outra escolha senão apelar a uma dessas histórias filosóficas que estais fartos de escutar nas minhas aulas.

Acontece que há mais de dois mil anos, um famoso rei macedónio, Ptolomeu II, quis aprender geometria. Para acrescentar um pouco de contexto, a geometria era uma tendência em moda na civilização grega e os geómetras mais famosos eram praticamente estrelas de rock. Naqueles tempos, o geómetra mais famoso chamava-se Euclides, e tinha escrito um livro muito complicado onde reunia e sistematizava todo o conhecimento geométrico dos gregos até então.

Assim, o famoso monarca agarrou naquele livro, que se intitulava Os Elementos, e dispôs-se a mergulhar em teoremas e demonstrações, quem sabe se para se exibir depois, calculando hipotenusas perante a corte. Aparentemente, o rei não tinha ultrapassado a segunda página quando já exigia a presença do mestre no palácio. “Ei, Euclides, não podes dar-me um truque para que eu possa aprender geometria sem ter de ler este calhamaço?”

O que pensam que Euclides respondeu ao homem mais poderoso da Grécia?

“Meu senhor, em geometria não há atalhos para a realeza”.

Com isto, Euclides quis mostrar ao rei Ptolomeu qual tinha sido a verdadeira descoberta dos gregos: dependendo da condição social com que nascemos, o nosso caminho na vida pode ser mais pesado ou mais leve; pelo contrário, compreender a geometria exige o mesmo de todos nós. Não importa se é o rei da Macedónia ou uma jovem de Usera, porque quando se trata de aprender o teorema de Pitágoras, os mesmos passos devem ser dados pelos filhos de uma dinastia imperial e pelos filhos de um humilde camponês.

E o que foi dito sobre este teorema deve também ser dito sobre a Lei da Gravitação Universal, as descobertas arqueológicas de Atapuerca, o imperativo categórico de Kant, ou os poemas de Garcia Lorca. O fascinante do episódio de Euclides é que ele nos mostra como o teorema de Pitágoras, que todos conhecem, não só exige que o quadrado da hipotenusa seja a soma do quadrado dos catetos; mas ao mesmo tempo exige, com a mesma necessidade, a existência de uma escola pública. E exige-o porque o conhecimento científico e humanístico constitui uma riqueza comum que não pode ser apropriada com dinheiro ou privilégios, mas só é acessível através do uso da razão. O único caminho aqui, portanto, é o da curiosidade, do esforço e do estudo.

Espero, pois, que estejais orgulhosos, porque o caminho que percorreram aqui é o mesmo que Euclides exigia ao rei Ptolomeu; o mesmo que a humanidade levou séculos a conquistar. E por isso, merecem todo o meu reconhecimento, para além dos vossos resultados concretos, pelo simples facto de terem decidido percorrer este caminho. Com isso contribuíram, tenham consciência disso ou não, para preservar a única vacina que conhecemos até agora contra a tirania, o abuso de poder e as desigualdades sociais: o acesso público ao conhecimento.

Por outro lado, creio que deveis estar orgulhosos porque o último ano não vos facilitou a vida. Calhou-vos terminar o Secundário num contexto de pandemia mundial, de crise económica galopante e de mudanças que transformaram a vida quotidiana num filme de ficção científica. Chegais ao fim desta etapa num momento em que o mundo vos mostra os dentes. Não posso esconder a minha indignação por ver como os media utilizaram o rótulo de “os jovens” para fazer de vós o símbolo da cidadania irresponsável; ao mesmo tempo que fui testemunha diária da força com que assumiram a privação do contacto com os seus pares, do direito a verem-se as caras e mesmo do calor no Inverno.

A esses rostos, que agora só posso ver do nariz para cima, gostaria também de expressar os meus sinceros agradecimentos. Não vos surpreenderá saber que esses rostos, os vossos rostos, foram os primeiros a que, há três anos atrás, pude chamar “meus alunos”. E foram esses rostos, olhando para mim do outro lado da sala de aula, que pela primeira vez se dirigiram a mim como “professor”. É inevitável, portanto, reconhecer que em muitos aspectos foram vocês que me ensinaram, e por isso vos ficarei eternamente grato.

Eu tinha proposto chegar ao fim deste discurso evitando qualquer tipo de conselho para o futuro. Não vos vou mentir: o futuro é um tempo verbal que hoje é difícil de conjugar.

Gostaria de vos poder dizer, aproveitando a história de Euclides, que um mundo geométrico vos espera, onde a igualdade entre hipotenusas e catetos se traduz em igualdade entre mulheres, homens, classes e povos. Mas a verdade é que saís para um mundo que conspira contra a geometria.

Gostaria de vos ter dito que saís para um mundo belo, como o amor é belo em Garcilaso, como a Lua é bela em García Lorca, mas a verdade é que saís para um mundo que conspira contra a beleza, contra o amor e mesmo contra a Lua.

Finalmente, queridos alunos, porque vão para um mundo que conspira, lembrem-se da escola; pois ainda assim, felizmente, a escola conspira contra o mundo.

Jaime Buedo

Leituras: Disciplinas ou domínios curriculares?

Faz sentido fragmentar o conhecimento em disciplinas quando no mundo real estas estão interligadas? Haverá vantagens em desconstruir o currículo escolar sob o conceito dos domínios de aprendizagem? Em Espanha, a nova lei educativa abre caminho às pretensas inovações pedagógicas que por cá já conhecemos há algum tempo, com resultados que estão longe de ser brilhantes. Desmontando os novos mitos educativos, deixo-vos a oportuna, esclarecedora e muito bem fundamentada reflexão de Gregorio Luri.

Parece que na pedagogia de hoje é preciso ser imaginativo para estar actualizado. Mas como a um dia se segue o outro, tem de se ser imaginativo ao quadrado. A pedagogia tornou-se uma corrida de inovações em busca da actualidade. A penúltima é o desprezo pelas disciplinas, com o argumento muito singular de que na vida nunca se encontram disciplinas, mas sim problemas multidisciplinares ou, para o dizer de uma forma mais moderna, “ambientes multitarefa” em que a experiência e o conhecimento estão integrados. Conclusão: as disciplinas não servem para compreender a realidade, mas para a dividir de forma caprichosa. São instrumentos classificatórios arbitrários que dificultam a aquisição do conhecimento.

Admitamos que a racionalidade pedagógica não vive propriamente uma época de ouro. Algumas luminárias cobram quantias muito substanciais por darem palestras clonadas nas quais denunciam que “o sistema educativo tradicional ensina certezas”. Como se os pais mandassem os seus filhos para a escola para adquirirem conhecimentos rigorosos! “A escola é uma prisão que maltrata os nossos filhos”, pontificam outros. Há quem utilize argumentos axiomático-dedutivos em palestras magistrais para criticar o raciocínio dedutivo das aulas magistrais. Fui testemunha. O que não compreendo é porque é que estes génios não usam as suas energias para construir uma escola alternativa onde as crianças venham todas as manhãs a saltar de alegria depois de saírem da cama à primeira, felizes porque hoje é também um dia de trabalho.

A rejeição das disciplinas anda de mãos dadas com o desprezo pelos livros escolares, que se tornaram o estigma da velha escola. Como é que as gerações obrigadas a utilizar livros escolares aprenderam alguma coisa, quando as fotocópias amarrotadas no fundo da mochila, junto da banana esquecida na semana passada, são tão pedagógicas! Esta rejeição não é, estritamente falando, nova. Foi generosamente praticada por Kilpatrick há cem anos atrás. Assim, quando se legaliza o que agora se chama “domínio” da aprendizagem, (o agrupamento de duas ou mais disciplinas numa nova), está-se a repor o relógio da modernidade nos felizes 20 anos do século passado.

Quer queiramos aceitá-lo ou não, a missão da escola não é trazer o mundo real para a sala de aula, mas acelerar a aquisição de conhecimentos do aluno num ambiente artificial, para que ele possa cobrir em poucos anos a distância que separa o grunhido do homem das cavernas de um soneto de Lope e o machado de pedra da Internet. A escola está sempre a lutar contra o tempo e nunca soube como ter sucesso com todos os alunos. Este é o drama que estimula o aparecimento de propostas educativas que, para serem amigáveis, escondem a relevância do tempo. Não é fácil ter o tempo educativo necessário que é exigido por aqueles que, por avançarem a um ritmo mais lento, se ressentem e sofrem com o ritmo médio da turma.

É claro que os domínios de aprendizagem não poupam tempo. No mundo real não há nada mais comum do que encontrar problemas que tenham a ver com matemática, geografia, química ou literatura, ou seja, com disciplinas. Não há nada mais comum do que a necessidade de recorrer a um especialista eficiente, desde o dentista ao gestor. É por isso que é dever da escola assegurar que todos os alunos, e especialmente os mais desfavorecidos culturalmente, tenham a oportunidade de adquirir conceitos científicos sobre o mundo. Quando uma criança usa as palavras “gato” ou ” mamã” o seu significado é fortemente impregnado com as suas experiências únicas e intransmissíveis com o seu gato e a sua mamã. Os conceitos científicos de “gato” ou ” mamã” transcendem a experiência individual para se tornarem conceitos acessíveis a uma experiência universal. A ciência é o domínio do conceito. É por isso que quando nos é dito que em “ambientes multitarefa” a experiência e o conhecimento estão integrados, temos de ser claros que a experiência e o conhecimento da criança estão, em qualquer caso, a caminho de se tornarem científicos, mas ainda estão longe de o ser.

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Direito à ignorância

A pedagogia é dominada pelo construtivismo de Piaget e suas inúmeras vertentes. Isto parece um palavrão para quem me lê mas seu eu concretizar vão reconhecer: o professor é um “mediador”, não é um “educador”; a escola é quase um mal que retira, ao ensinar, autonomia às crianças que já vinham com um “saber espontâneo”; o desenvolvimento dá-se por etapas que acompanham as idades e o seu desenvolvimento biológico e a escola acompanha essas etapas – se a criança não consegue mais a culpa é da biologia e das “etapas”, devemos ter paciência e esperar que ela lá chegue um dia (nunca chega porque só chega com educação intencional, daí a proibição de retenções, não sabe, mas passa); transmissão de conhecimento é palavra tabu, agora fala-se em dar “ferramentas” para “competências” e “valências”. O verbo ensinar é quase um insulto, um ataque ao saber “puro” inato da criança e das suas etapas. Tudo isto é um erro gigante que visa adaptar o ensino à massificação para um mercado de trabalho que divide trabalho manual de intelectual, gestores de executores, dirigentes de dirigidos, representantes de representados, quem domina e quem não domina o conhecimento. A linguagem é a da democracia – “escola para todos” -; a realidade é a da produção de elites e vasta camada de dirigidos.

Raquel Varela é uma autora de ideias assertivas e intencionalmente polémica. Nem sempre concordo com o que escreve e, mais frequentemente, com a forma como expõe ou se expõe na defesa dos seus pontos de vista. Mas há que reconhecer que as suas prosas são frequentemente estimulantes no melhor sentido do termo: seja para as refutar, seja para as defender, elas põem-nos a pensar. O que, nestes tempos de superficialidades e unanimismos, de opiniões instantâneas e pensamento único, forjado em consensos politicamente correctos, nunca é demais valorizar.

Aqui, a conhecida historiadora e comentadora atira-se à pedagogia de Piaget, um acto que parece uma heresia perante uma figura que as ciências da Educação se habituaram a incensar. Mas a crítica tem fundamento: há um aproveitamento das teses construtivistas, que o próprio Piaget provavelmente reprovaria, que está a ter um efeito profundamente deseducativo nas novas gerações, aprofundando brechas e desigualdades no acesso ao conhecimento. A verdade é que educar é, sempre foi, um acto intencional, que envolve esforço, vontade, persistência, motivação, determinação. Presumir que a criança aprende naturalmente e ao seu ritmo é condená-la a permanecer na ignorância da cultura e do pensamento mais elaborado construído pela humanidade ao longo de toda a sua existência. Que era o que acontecia quando as crianças não iam à escola, aprendendo com os pais o básico de que necessitavam para assegurar a sobrevivência. E o ensino, sendo apenas para as elites, perpetuava na sua posse o conhecimento que sempre funcionou como uma garantia de poder, eliminando a concorrência dos pobres.

Onde nos levam estas teorias do saber espontâneo, da escola divertida e dos alunos felizes, ainda que ignorantes? Elas integram um programa ideológico e político muito claro, numa sociedade em que se perspectiva que, apesar dos enormes progressos económicos, científicos e tecnológicos, a próxima geração poderá vir a ter um nível de vida inferior ao dos seus pais. Com o crescimento das desigualdades e da exclusão, com da concentração da riqueza numa pequena elite de privilegiados, joga bem uma Educação conformista que mantenha em baixa as expectativas da grande massa da população.

O corolário do saber espontâneo, onde o professor cuida mas não ensina nem exige, e sofre, é o da criança que aprende o que pode, é o dos professores que não se chateiam, a culpa é dos miúdos, deixaram de a forçar (com pedagogias de ensino e não de mediação) a aprender porque isso é uma “violência”. Passámos da reguada – política de um ensino ditatorial sem pedagogia – , à “liberdade ” de ser ignorante, livres para não saberem nada. […] Estas pedagogias espelham outro tema – os pais destes miúdos não acreditam na mobilidade social. Pensam, sem pensar e assumir, “porque vou chateá-lo com o telemóvel, arranjar uma discussão, perguntar-lhe o que estudou, se ele não vai a lado algum mesmo?”

Emotivismo educativo

A ideia de que aprender é algo de intrinsecamente aborrecido e que, em última análise, só se aprende aquilo de que se gosta, tem vindo a ser activamente promovida na agenda educativa do mundo globalizado. Para confirmar que não é só por cá, nem precisamos de ir muito longe: basta espreitar o outro lado da fronteira para constatar que também por Espanha o emotivismo educativo, desvalorizando o conhecimento em nome do primado das emoções, é uma das pedras de toque das reformas educativas que se tenta implantar.

Embora reflectindo sobre uma realidade distinta, este excerto de um texto de Alberto Royo, que traduzi e adaptei, sinaliza bem aquilo que é cada vez mais, nos tempos que correm, um combate universal: por uma escola capaz de cumprir a mais nobre das suas funções, que é a de ensinar e abrir horizontes aos seus alunos, em vez de os entreter com patranhas, mediocridade e facilitismo.

A mudança fundamental que podemos apreciar no debate educativo, e mais ainda desde a irrupção dos Globalteacherprize, é a ênfase na emoção e o desdém pela razão. Alguns vão chamar-me exagerado, vão dizer-me que a emoção e a razão não são incompatíveis….. E assim é, à partida, mas a emoção pode ser encontrada no conhecimento, na ciência e na cultura. Aprendemos a apreciar o belo através da emoção que o conhecimento nos dá (e não através de atalhos foleiros e superficiais cujo estímulo é escasso, precisamente porque não é necessário esforço para o alcançar). É tão certo que não podemos deixar a emoção de lado na aprendizagem como é verdade que estamos enganados se nos preocuparmos apenas com isto e esquecermos que quanto maior for a nossa solidez intelectual, em melhor situação estaremos para desfrutar do que vale a pena ser apreciado.

O delírio emotivista é tal que falar de exigência está associado à lista dos reis godos e ao velho ditado “a letra entra com sangue”, enquanto caímos em concepções vazias como “ensinar com o coração” (o que pensaria um cardiologista disto?) ou “educar as emoções”, o que acabará por transformar o ensino, primeiro em puro e simples entretenimento e, a seguir, em terapia. Terapia e emoções, como proclama a nossa ministra. Por acaso os nossos alunos são todos disfuncionais ou estão todos doentes? Porque transformar o professor em terapeuta vai deixar as crianças que precisam de terapia sem o profissional certo para as ajudar e a todos sem o que é essencial: conhecimento.

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Voltámos a cair na sobrevalorização dos aspectos mais subjectivos, arbitrários e questionáveis da educação, quando o que é urgente é basear o nosso sistema no sólido, no científico, na evidência e na experiência dos que todos os dias dão o litro na sala de aula com o objectivo de ensinar e formar cidadãos. Os próprios psicólogos denunciam a intrusão de pseudociências como o “coaching” (soa familiar?) no seu campo de trabalho, que “poderia”, denunciam, “desorientar pacientes desinformados”. Temos estudantes (naturalmente) desinformados, que também estamos a desorientar por meio de gracejos, placebos e métodos miraculosos que não servirão para alcançar o seu bem-estar nem ajudarão a moldar uma sociedade madura, crítica e emocional e intelectualmente saudável.

Texto original e integral publicado aqui: Metamorfosis educativa y emotivismo terapéutico