Com a saúde não se brinca. E com a educação?

medico-e-papelada.jpgImagine-se que os responsáveis pela Saúde de um pequeno país concluíam que quase tudo o que andava a ser feito nos hospitais e centros de saúde estava errado e precisava de ser reformulado: que os médicos se focavam na cura das doenças e não na interacção com os doentes, que pacientes com doenças mais graves eram internados em serviços especializados em vez de se praticar a inclusão hospitalar, que os profissionais de saúde precisavam de construir projectos para tratar os pacientes em conjunto, curando-os de várias doenças ao mesmo tempo, em vez de se restringir, cada um, à respectiva especialidade clínica. E que, com base nestas ideias, ordenavam às administrações hospitalares: refaçam toda a vossa organização, desenvolvam novas práticas, invistam o vosso tempo na construção de planos para o funcionamento dos serviços e o tratamento dos doentes segundo os novos princípios e tendo em conta o novo perfil do doente ajustado ao século XXI.

Um bocado ridículo, não?…

Mesmo descontando algum exagero que resulta de se estar a comparar o que não pode ser directamente comparado, julgo que a analogia dá para perceber que andamos há décadas a promover, na escola pública, o que nem por sombras nos passaria fazer, por exemplo, com o Serviço Nacional de Saúde:

  • Um experimentalismo permanente, introduzindo mudanças ao sabor dos achismos e das convicções dos governantes ou dos interesses e das pressões dos lobbies do sector, sem se ponderar o seu impacto nem ouvir os agentes educativos que as irão pôr em prática;
  • A falta de avaliação das políticas educativas e dos seus resultados, ou uma avaliação superficial, fragmentada e enviesada, que invariavelmente chega às conclusões pretendidas pelos promotores da “mudança” e dos novos “paradigmas”;
  • A rotina de menosprezar ou denegrir os profissionais do sector e o seu trabalho, como forma de lançar o descrédito, a dúvida e a desconfiança e ganhar espaço, dessa forma, para impor as mudanças pretendidas;
  • O uso da burocracia escolar para asfixiar a criatividade e a autonomia profissional dos professores, retirando-lhes tempo e espaço de actuação tanto na definição do currículo e na organização escolar como na própria sala de aula, esgotando-os em intermináveis reuniões e na produção de planos, projectos e outra papelada destinada a condicionar e a “normalizar” o trabalho docente.

E, no entanto, temos um sistema educativo que tem feito progressos consistentes, visíveis tanto na melhoria dos resultados dos alunos como nas avaliações internacionais. O desafio não pode ser destruir o que foi sendo feito para reconstruir a partir do zero, mas procurar melhorar o que já temos, com o permanente cuidado de não destruir o bom trabalho realizado até aqui.

Da mesma forma, a autonomia das escolas não pode continuar a ser pretexto para a administração educativa e os gurus eduqueses que ela patrocina continuarem a inventar problemas que as escolas, cada uma à sua maneira, tentam resolver. Deve, isso sim, servir para que as escolas possam encontrar e aplicar as suas próprias soluções para os problemas reais que estão a enfrentar.

Em vez de irresponsavelmente se continuar a brincar às escolas e às reformas educativas, dando poder a pedagogos passados de validade e a burocratas da administração escolar, precisamos de, enquanto sociedade, confiar nos professores: ouvi-los, perceber os problemas e dificuldades com que se deparam e dar-lhes o que necessitam para poderem fazer um melhor trabalho com os alunos.

E se em vez de uma política de pequenas e contínuas melhorias, o que já não seria mau, queremos mesmo abalançar-nos a uma reforma educativa, então que ela assuma objectivos claros e concretos, racionalize a organização curricular, simplifique a burocracia escolar, assente em medidas eficazes para melhorar o ensino e as aprendizagens e dê autonomia às escolas para fazerem os ajustamentos que, a nível de currículo, de metodologias ou de organização se venham a mostrar necessários: eis o que bastaria para melhorar a educação portuguesa do século XXI. É assim tão difícil de fazer?

O aventureirismo do ME segundo Santana Castilho

tiago-brandao-rodrigues.JPGSantana Castilho continua, mesmo em tempo de férias, a desancar de alto a baixo a política educativa do PS. Começando por identificar um conjunto de tendências que considera preocupantes – o “facilitismo eduquês”, o experimentalismo irresponsável, o falível modernismo tecnológico e o “ódio” aos professores – nota que o vazio de ideias de um ministro notoriamente impreparado para a função foi rapidamente preenchido pela “torrente de iniciativas desastradas” do seu secretário de Estado.

Não acompanho Castilho em todas as suas críticas nem nalguns evidentes exageros retóricos. Mas partilho o cepticismo em relação à maioria das reformas que têm sido anunciadas e postas em acção nos últimos tempos, começando pelos pomposos PNPSE, os planos para o sucesso, e acabando no recente surto de burocracia eduquesa que, como Paulo Guinote tem vindo laboriosamente a demonstrar (vejam-se um e outro dos mais recentes posts do seu Quintal) não passa de recriação desinspirada de velhas pedagogias que se tentaram impor, sem grande sucesso, na década final do século XX.

O cronista do Público critica também a “caldeirada tecnológica” que por aí vem, à boleia da Estratégia TIC 2020. E lembra, no final do seu artigo, os riscos de uma aposta excessiva nas tecnologias educativas que, pela minha parte, subscrevo inteiramente.

É inegável que os tablets permitem armazenar muitos livros, protegendo do peso das mochilas as colunas vertebrais, sem abdominais nem dorsais que as sustentem, de crianças obesas, em parte porque se tornaram escravas sedentárias da “usabilidade” e da “interoperabilidade” de tablets, smartphones e demais gadgets do século XXI. Mas já há reflexão que importa e desaconselha a substituição radical do papel pelo digital.

Nos EUA fizeram contas e concluíram que o uso de tablets multiplicou por cinco o custo dos clássicos manuais. Porque são caros, partem-se facilmente e não se arranjam facilmente. Ficam obsoletos rapidamente, como convém ao negócio. E há que pagar royalties anuais a editores, custos de infra-estruturas wi-fi e treino de professores para os usar. E quanto ao ambiente? Desenganem-se os ecologistas porque, segundo o The New York Times de 4 de Abril de 2010 (How green is my iPad?), a produção de tablets é bastante mais destrutiva e perigosa do que a produção de livros em papel. Mas, acima de tudo, há evidências científicas de que ler em papel facilita a compreensão e a memorização por comparação com a leitura digital e que a perda da motricidade fina que a aprendizagem da escrita com papel e lápis permite é danosa para o desenvolvimento das crianças. Finalmente, há a certeza de que o preço dos tablets e a ausência de wi-fi na casa das crianças pobres as deixará ainda mais para trás.

Ainda as escolas com falta de vagas

Dança-das-CadeirasÉ antigo o problema da falta de vagas em algumas escolas públicas para todos os alunos que as querem frequentar. O Público volta a um tema que este ano está a ter maior visibilidade, devido às movimentações de pais residentes em algumas zonas de Lisboa que não conseguem matricular os filhos nas escolas da sua área de residência, porque outras famílias, recorrendo aos critérios previstos na lei – ou a expedientes para os contornar – lhes passam à frente.

A verdade é que esta questão, se por um lado se presta a aproveitamentos demagógicos, por outro torna-se também incómoda ao revelar as incoerências e contradições de tanta gente, começando pelos defensores, à esquerda, da escola pública, e acabando nos paladinos, à direita, da liberdade de escolha.

A lei define várias prioridades nas matrículas, sendo as primeiras consensuais: os alunos com necessidades especiais e os que já frequentam ou têm irmãos a frequentar o estabelecimento. A seguir vêm, e aqui é que a porca torce o rabo, os que residem na área de influência da escola ou têm um dos pais a trabalhar nessa zona. Nas áreas centrais das cidades, onde geralmente se situam as escolas mais procuradas, até pode haver lugar para todos os alunos que aí vivem. Mas se os que lá trabalham quiserem também matricular os filhos, o número de vagas torna-se insuficiente. E se outros pais arranjarem familiares ou amigos na zona que aceitem ser, ainda que apenas no papel, encarregados de educação dos filhos, as coisas complicam-se ainda mais.

Não é difícil perceber que, atraídos pelo bom ambiente de determinadas escolas ou pelos bons resultados obtidos pelos alunos, algumas escolas tenham hoje uma procura que excede largamente a sua capacidade. E, nestes casos, deixemo-nos de demagogias: se só cabem mil e há dois mil a quererem entrar, então, de uma forma ou de outra, a selecção terá de ser feita. E se, mesmo restringindo o acesso aos que têm o encarregado de educação a residir ou a trabalhar na zona, continuam a não caber todos, o que fazer? Seriamos os alunos pelos resultados escolares? Ou tiramos à sorte os que entram e os que serão recambiados para outra escola?

A questão é complexa porque apanha nas suas malhas defensores da escola pública que não querem os seus filhos em determinadas escolas estatais, tidas por mal frequentadas. Mas também nos mostra a clara contradição em que incorrem os defensores da liberdade de escolha, que andaram estes anos todos a promover rankings de exames e a competitividade entre as escolas, e agora se espantam com o excesso de procura nas escolas tidas por excelentes e se fingem escandalizados com o facto de as excelentes escolas seleccionarem excelentes alunos como matéria-prima do seu bem sucedido “projecto educativo”.

A solução para estes problemas não passa, a meu ver, por apostar numa maior rigidez de critérios administrativos que já sabemos que podem ser torneados com relativa facilidade. Pelo contrário, se há alunos a fugir de determinadas escolas e a acumular-se noutras, temos, primeiro, de perceber bem porque é que isto sucede. Em segundo lugar, de definir e desenvolver políticas de discriminação positiva que permitam resolver os problemas que comprometem a qualidade de ensino nas escolas “más” e tornar atractivas para os alunos as escolas que hoje quase ninguém quer.

Não se trata de impedir os alunos, apenas porque não residem no local certo, de irem estudar para determinada escola. Precisamos, isso sim, de ter projectos educativos de qualidade em todas as escolas portuguesas. Para que as opções se façam, então, tendo em conta os interesses dos alunos e das famílias e não esta lógica maniqueísta da escola boa e da escola má que está a minar o nosso sistema educativo e que é necessário romper e inverter.

Todas as escolas têm de ser boas escolas, pois o ensino de qualidade é um direito de todos os alunos.

Desinvestimento em educação

inteligencia

Há dois anos atrás, quando publiquei este boneco, fi-lo porque ele exprimia uma perplexidade que, com o tempo, se foi desvanecendo.

Hoje não me restam muitas dúvidas de que o objectivo de tanto investimento em novas tecnologias é mesmo o de dispensar, o mais possível, ter gente inteligente nas diversas actividades de que depende a vida contemporânea.

Um pequena minoria, não mais de 10% da população, tornar-se-á suficiente, a breve prazo, para planear, projectar, decidir e supervisionar o trabalho das máquinas – e dos humanos que ainda estiverem ocupados em tarefas subalternas que os computadores e os robôs não consigam fazer.

Os outros, não sabendo usar as mãos para fazer nem o cérebro para pensar, estarão dependentes, em tudo, dos donos das máquinas.

Nesta sociedade, a escola dita do século XXI, com tabletes electrónicas em vez de ardósias, fará exactamente o mesmo que as suas antecessoras, que é reproduzir as desigualdades tidas por naturais e inevitáveis: de um lado, as elites que servirão os proprietários das novas tecnologias, do outro, a multidão de cidadãos ignorantes e consumidores compulsivos…

 

Sete ideias para descomplicar a educação

collaborative-work[1]Descomplicar a educação, eliminando o excesso de burocracia, uniformizando e simplificando os processos administrativos, focando os professores no trabalho com os seus alunos e melhorando gradualmente as condições pedagógicas em que se realiza. É disto que precisamos, não de flexibilidades que ninguém pediu, autonomias que nos deixam à mercê da boa vontade e dos humores do sr. vereador, projectos curriculares que nos desgastam irremediavelmente na redescoberta da roda inventada há milhares de anos.

Esqueçam as velhas sebentas da profissionalização em exercício dos anos 90 e as falhadas experiências pedagógicas das áreas-escolas e áreas de projecto, deixem de dar ouvidos à velha cassete dos mestres de Boston passados de validade e ouçam os professores. Os verdadeiros, os que trabalham diariamente nas escolas básicas e secundárias. Com alunos reais, não com manuais de teoria da educação, estatísticas em folha de excel ou relatórios da OCDE.

Em sete pontos, algumas ideias para uma escola muito melhor do que a que temos hoje, sem perder muito mais tempo, nem gastar muito dinheiro.

1. Matrizes curriculares claras e coerentes. Acabem com a contagem ao minuto dos tempos curriculares e com as aulas de 90 minutos criadas por um anterior governo do PS e que foi das piores e mais tristes ideias que já se puseram em prática na educação portuguesa. Definam matrizes curriculares simples, baseadas em tempos de 50 minutos, que deixem espaço às ofertas locais e ao enriquecimento curricular sem ser em detrimento do currículo nacional.

2. Esqueçam novas disciplinas. Valorizem efectivamente as disciplinas que já existem, sobretudo aquelas que mais têm perdido com as reformas, as autonomias e as “minutagens” dos últimos anos, e que são mais do que suficientes. Percebam que uma disciplina escolar deve ter por base um corpo de conhecimentos definido e não a promoção de um programa ideológico, de um estilo de vida ou de um conjunto de comportamentos tido como política ou moralmente correcto.

3. Programas ajustados, exequíveis e objectivos. Eliminem a sobreposição de programas, metas, orientações e aprendizagens essenciais e reduzam tudo a um único documento, por disciplina, que explicite claramente as matérias essenciais de tratamento obrigatório. Certifiquem-se que conteúdos e objectivos estão ajustados ao tempo disponível e à idade dos alunos. E, já agora, obriguem os fazedores de programas a falar uns com os outros e a articular as aprendizagens nas áreas em que as diferentes disciplinas se tocam: não façam da inter e da transdisciplinaridade apenas um dever dos professores.

4. Soluções chave-na-mão para a burocracia escolar. Um sistema informático centralizado e público para gerir toda a área de alunos, e outro para a parte administrativa das escolas, em vez dos programas manhosos comprados no mercado informático e das múltiplas plataformas ministeriais onde se consome grande parte do tempo que as direcções deveriam dedicar aos assuntos pedagógicos. Um modelo-tipo para o regulamento interno, o projecto educativo e outros documentos estruturantes, elaborados pelo ministério, e que as escolas poderiam adaptar, no que entendessem necessário, às suas especificidades.

5. Definição clara do lectivo e do não-lectivo. Genericamente, toda a actividade directa com alunos e que envolva preparação prévia e/ou avaliação deve ser equiparada a uma aula, e é fácil perceber porquê. Mas isso deveria ser assumido e explicitado, preto no branco, pois só dessa forma se evitarão abusos.

6. Crédito horário adequado para todas as escolas. Os professores precisam de tempo para estar com os alunos, mas essas horas não devem ser roubadas ao tempo extra-lectivo dos docentes. Defina-se uma bolsa de horas com critérios mais generosos do que os actuais, procurando dar proporcionalmente mais às escolas em que as carências e necessidades são maiores, pois só assim se habilitarão as escolas a dar a adequada resposta a todas as necessidades educativas dos seus alunos.

7. Autonomia e flexibilidade no que realmente interessa. Que é construir respostas educativas diferenciadas para os alunos com dificuldades em aceder ao currículo regular. Incrementar apoios ao nível da educação especial. Facilitar a criação de turmas reduzidas, percursos curriculares alternativos, cursos de educação e formação, sempre que as características do público escolar o tornam aconselhável. Mudar, diferenciar, flexibilizar, articular em função do interesse  dos alunos e não para satisfazer desejos da equipa ministerial.

50 mil vagas no ensino superior

universitarioAs universidades e politécnicos criaram quase 300 novas vagas em cursos das áreas de Informática e Física para o próximo ano lectivo, respondendo positivamente às indicações dadas pelo Governo de que fossem privilegiadas estas formações na altura de definir a oferta do sector. Ao todo, há 50.838 lugares para novos alunos no ensino superior, mais 150 do que no ano passado, o que significa um crescimento pelo segundo ano consecutivo.

A abertura de vagas no acesso ao ensino superior é um tema que se tem prestado a abordagens superficiais e demagógicas, onde o discurso politicamente correcto joga a favor dos interesses estabelecidos e se vão escamoteando e adiando as reformas que seriam necessárias para alargar o acesso e melhorar a qualidade e os resultados deste subsistema de ensino.

Quando algumas Engenharias já superam, nas médias de entrada, as notas exigidas pelos cursos de Medicina, tornou-se de bom tom falar da falta de profissionais qualificados na Informática e na Física, o que talvez queira dizer, não que esses profissionais rareiem assim tanto, mas que quem trabalha na área ainda consegue exigir, e obter, um salário um pouco maior que o ordenado mínimo que se paga hoje em dia à maioria dos jovens com formação superior. Este repto para formar mais engenheiros, físicos e programadores significa então que as empresas que os procuram precisam, não de mais profissionais, mas sobretudo de trabalhadores mais baratos.

Outra conversa que cai sempre bem é dizer-se que as vagas para acesso ao superior ainda são poucas, que precisamos de qualificar mais os nossos jovens e de ter mais gente a estudar nos politécnicos e universidades. Ora a verdade é que abrem todos os anos cerca de 50 mil vagas para menos de 90 mil estudantes que concluem, anualmente, o ensino secundário nas suas diversas modalidades. Caso possam e queiram, mais de metade destes jovens têm lugar no ensino superior. E com uma economia incapaz de os absorver, admitir ainda mais jovens nos cursos superiores serviria apenas para aumentar ainda mais a exportação de mão-de-obra qualificada e intensificar a exploração do trabalho que já recai sobre os recém-formados.

E há outro problema que tem a ver com a capacidade económica das famílias para manterem os filhos a estudar no ensino superior. Actualmente já são sobretudo jovens de famílias de rendimentos médios ou elevados que conseguem suportar os custos, sobretudo quando os filhos têm de ir residir para outra localidade. Ora alargar o ensino superior a um universo significativamente maior de estudantes implicaria um investimento sério em residências, bolsas e outros apoios aos estudantes carenciados, coisa que alguns dos nossos sapientíssimos reitores não consideram sequer ser matéria que os deva preocupar.

Por último acrescente-se que, se o número de candidatos e o número total de vagas são sensivelmente idênticos, nem por isso deixam de ficar, todos os anos, alguns milhares de estudantes por colocar. Isto sucede porque há uma grande procura dos cursos associados a maior empregabilidade e às universidades mais prestigiadas do litoral. Nos cursos com menos saídas profissionais, nas escolas politécnicas e nas universidades do interior é frequente ficarem muitas vagas por ocupar, por falta de interessados.

Visto exteriormente, notam-se demasiadas desigualdades e assimetrias no sistema público de ensino superior, que tardam em ser corrigidas. E não serão os ajustes anuais no número de vagas que se tiram ou acrescentam neste curso ou naquele que irão resolver os problemas de fundo que subsistem ano após ano.

Estupores morais, ou quando no melhor pano cai a nódoa…

“O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe.”

À partida, também tenho muitas reservas em relação ao facto de um milionário, independentemente da nacionalidade ou profissão, decidir comprar filhos da mesma forma que adquire uma nova mansão ou troca o automóvel topo de gama.

Mas se me custa aceitar que um pai possa privar os filhos de terem uma mãe, também não gosto de condenar, quem assim o decidiu, de forma tão peremptória e definitiva como o fez o conhecido pediatra e cirurgião Gentil Martins.

Vendo as coisas noutra perspectiva, haverá diferença substancial entre um homem que contrata um útero para gerar o seu filho e uma mulher solteira que recorre a um banco de esperma para a sua “produção independente”?

Repugna-me que, tirando partido das necessidades económicas das pessoas, se reduzam mulheres à condição, que me parece aviltante, de barrigas de aluguer. Mas a partir do momento em que é de livre vontade, e conscientes das vantagens económicas que irão obter da situação, que o aceitam fazer, será que temos o direito de as condenar, quando achamos perfeitamente normal o negócio dos bancos de esperma e dos seus fornecedores?

Indo um pouco mais longe, e pegando na expressão infeliz do nosso decano da cirurgia pediátrica: com tão estritos padrões de moralidade, será que ele se atreveria a chamar “estupor moral” ao próprio pai, que nunca reconheceu o primeiro filho que teve, nascido de uma relação extra-conjugal?

Provavelmente não, e não seria só por uma questão de respeito filial. Também porque as mentalidades, e com elas as moralidades, evoluem. E se há cem anos atrás se considerava normal que um homem de condição “superior” seduzisse e engravidasse uma jovem solteira para depois a deixar, abundando por essa altura os “filhos de pai incógnito” nos registos de nascimento, hoje já não se aceita, nem legal nem socialmente, a fuga às responsabilidades paternais. Tal como a Medicina também já não considera, e ainda bem, a homossexualidade como uma doença.

Salazar-por-Rosa-Casaco.jpgAinda assim, o filho de mãe solteira de que venho falando fez carreira como indefectível apoiante do Estado Novo e homem de mão de Salazar e da PIDE para as missões mais secretas e delicadas, como a da brigada que assassinou Humberto Delgado. Ou como autor de algumas das raras fotografias de Salazar na intimidade…

Sim, é dele mesmo que estou a falar. O meio-irmão de António Gentil Martins era o inspector da PIDE António Rosa Casaco.