Pensamento do dia

O mundo está a transformar-se numa caverna igual à de Platão: todos a ver imagens e a acreditar que são a realidade.

José Saramago

Daqui.

Empregos de merda

belanciano

O confinamento mostrou que certas actividades são essenciais para vivermos (empregos produtivos que implicam fabricação, transportação, entrega, reparação ou manutenção, bem como cuidadores, profissionais de saúde, etc) e outras foram vitais para nos fazerem sentir vivos (cultura, artes, humanidades, ensino, comunicação). A questão, para [David] Graeber, são as actividades intermédias, muitas delas de administração ou supervisão, que terão crescido exponencialmente nas últimas décadas, sem que se vislumbre uma razão lógica – administrativos, gerentes de fundos de investimentos, accionistas, consultores, especuladores, oficiais de justiça, conselheiros jurídicos, serviços financeiros, telemarketing, direito empresarial ou recursos humanos.

[…]

O resultado é profissionais de outras actividades (no ensino, investigação, saúde) perderem tempo precioso com burocracia porque nos níveis intermédios existe quem tenha de justificar a sua ocupação. Porque é que isso acontece? Não é apenas oferta e procura. Há motivações económicas e políticas, da ordem da complexidade sistémica, mas também morais. A idealização do trabalho, enquanto valor em si mesmo, da produção e do consumo. A ideia de que a criação de empregos é sinónimo de prosperidade. Por outro lado, muitos empregos produtivos foram automatizados, mas em vez da redução do tempo de trabalho, o que se assistiu foi a um aumento dos empregos administrativos em sentido amplo. E há também mecanismos de controlo. Dividir para reinar. Criar postos de trabalho que se identifiquem com as visões e valores das classes dominantes, ao mesmo tempo que se promovem ressentimentos contra os que têm um trabalho de valor social inegável – não é a isso que se vislumbra quando existem manifestações de enfermeiros ou professores?

E aqui estamos. Quanto mais útil é o trabalho, mais mal pago é, parece ter sido o ensinamento do confinamento, segundo Graeber, com óbvias excepções, como os médicos. As políticas que tornaram a vida e o emprego mais difícil para tantas pessoas produziram em simultâneo uma série de actividades inconsequentes e com regalias para muitas outras. Antes de morrer, alertou para o facto de o mundo não ter aprendido nada com a crise de 2008, não sendo capaz de perceber quais os empregos sistemicamente mais importantes e os mais irrelevantes. E agora?

Pegando no conceito de empregos de merda criado por David Graeber, Vítor Belanciano tece interessantes e oportunas reflexões acerca da necessidade e do valor do trabalho nas sociedades do século XXI.

Na base, um aparente paradoxo. Vivemos num mundo onde os computadores, os robôs e as redes de comunicação deveriam progressivamente dispensar o trabalho humano, criando condições para a libertação da humanidade da obrigação de trabalhar, um pesado fardo que transportamos connosco desde, pelo menos, os alvores do Neolítico. No entanto, para a grande massa da população, a globalização económica e a revolução tecnológica da computação e da automação não estão a permitir, nem trabalhar menos, nem obter melhor remuneração ou maior realização pessoal do trabalho realizado.

Mesmo quem realiza trabalho produtivo, fabricando bens ou prestando serviços, vê-se muitas vezes constrangido a passar boa parte do seu tempo, não a produzir, mas a justificar aquilo que fez ou o que irá fazer. Quem é professor, por exemplo, sabe bem quando do seu tempo vai sendo tomado pela burocracia, pela produção de relatórios, planificações e todo o tipo de registos escritos que, na maioria dos casos, ninguém irá ler. Mas que são necessários a um número crescente de pessoas que justificam os seus salários pela intermediação que fazem entre os decisores no topo da hierarquia e, na base, os executores das tarefas e os prestadores dos serviços.

Subitamente, o confinamento imposto pela pandemia abriu-nos os olhos para uma realidade pouco visível: há profissões essenciais, sem as quais a economia e a vida em sociedade, tal como as conhecemos, se desmoronariam. O comércio de bens essenciais, a produção agrícola e industrial, o fornecimento de água, energia e telecomunicações, os serviços de saúde, os cuidados geriátricos, a educação – tudo isto se revelou essencial e não deixou de funcionar. Mas, com a óbvia excepção dos médicos, quantos trabalhadores destas áreas são efectivamente valorizados pelo trabalho que realizam?

Em contrapartida, temos sectores da administração pública e privada, dos bancos e serviços financeiros, das consultadorias e advocacias do regime, que pagam salários milionários aos seus funcionários de topo, apesar de os seus serviços pouco ou nenhum valor acrescentarem à economia ou à felicidade individual e ao bem-estar colectivo: em muitos casos, limitam-se a parasitar o Estado e a economia privada e a complicar a vida dos cidadãos.

Na base da pirâmide dos empregos de merda, temos uma série de profissões com diferentes graus de utilidade, mas em geral desprezadas e mal pagas, que subsistem enquanto os arquitectos do capitalismo pós-industrial não os conseguirem dispensar: o novo proletariado ao serviço das ubers e amazons nos transportes, nas logísticas e nas entregas porta-a-porta.

O dinamismo laboral da nova economia disfarça mal uma realidade que veio para ficar: um elevado desemprego estrutural, que tende a crescer à medida que aumenta a produtividade e a eficácia das empresas e organizações. Em vez da desejada reforma laboral, que passaria pela redistribuição e a valorização do trabalho – trabalho para todos, trabalhar menos, viver melhor – vemos ressurgir, mesmo em países desenvolvidos, formas de precariedade e exploração laboral dignas dos primórdios do capitalismo. E nem o discurso politicamente correcto da inclusão e da igualdade de direitos e oportunidades consegue escamotear o crescimento das desigualdades.

Leituras: Ética, consumismo, capitalismo

yuval-harari…Na Europa medieval, os aristocratas gastavam o seu dinheiro sem qualquer critério em luxos extravagantes, enquanto os camponeses viviam frugalmente, contando os tostões. Hoje, os ventos mudaram. Os ricos têm imenso cuidado a gerir os seus activos e investimentos, enquanto os menos abastados contraem dívidas ao comprar carros e televisões de que não necessitam realmente.

As éticas capitalista e consumista são dois lados da mesma moeda, uma fusão de dois mandamentos. O mandamento supremo dos ricos é: «Investe!» O mandamento supremo dos restantes é: «Compra!»

A ética capitalista-consumista é revolucionária noutro aspecto. A maior parte dos sistemas éticos anteriores apresentava às pessoas um acordo bastante difícil. Era-lhes prometido o Paraíso, mas apenas se cultivassem a compaixão e a tolerância, ultrapassassem o seu desejo insaciável e a sua fúria, e controlassem os seus interesses egoístas. Isto era demasiado duro para a grande maioria das pessoas. A história da ética é um conto triste de ideais maravilhosos a que ninguém consegue corresponder. A maior parte dos cristãos não imitou Cristo, a maior parte dos budistas não conseguiu seguir o Buda e a maior parte dos confucianos deixaria Confúcio em desespero.

Hoje, pelo contrário, a grande maioria das pessoas está plenamente à altura do ideal capitalista-consumista. A nova ética promete o Paraíso na condição de os ricos se manterem gananciosos e passarem o seu tempo a ganhar mais dinheiro, e de as massas darem rédea solta aos seus desejos e paixões… e comprarem cada vez mais. É a primeira religião na história cujos seguidores fazem, realmente, o que lhes é pedido. Como sabemos que vamos receber o Paraíso em troca? Vimos na televisão.

Yuval Noah Harari, Sapiens, De Animais a Deuses (2013)

Contaminai-vos uns aos outros

jovens

“Jovens, contaminem-se uns aos outros”, defende infecciologista francês

Olhando para a evolução da pandemia da covid-19 e para a forma como tem sido gerida a crise de saúde pública, percebe-se a necessidade de dar ouvidos aos especialistas do sector – médicos, cientistas, autoridades de saúde pública. Temos o exemplo de países, como os EUA ou o Brasil, onde a prevalência das decisões de políticos incompetentes conduziu à progressão descontrolada dos contágios e a um verdadeiro desastre epidemiológico.

Contudo, também se vai tornando evidente que, tendo em conta a complexidade das decisões e as pesadas consequências económicas e sociais que delas decorrem, não podemos as podemos deixar entregues apenas aos especialistas.

Depois de um confinamento que poderá ter sido, na opinião de alguns, excessivo, e com custos que a quase paragem da economia levará anos a superar, parece estar agora a ganhar força, de novo, a tese da imunidade de grupo. Expressa por vezes em formulações radicais e irresponsáveis, como a do epidemiologista francês que abre este post.

Como professor, tenho criticado muitas vezes, aqui e noutros lados, a tomada de decisões em matérias educativas sem se ouvirem os profissionais no terreno. Como se estes fossem meros executantes de políticas superiormente decididas, sem discernimento nem sentido crítico para compreender as necessidades dos alunos e quais as reformas realmente necessárias. Mas nunca me passaria pela cabeça exigir que fossem os professores a determinar a política educativa, indiferentes às necessidades e aspirações dos alunos, das famílias e da sociedade.

Em democracia, devem ouvir-se e fazer participar nas discussões e na construção de consensos os especialistas, os profissionais, os diversos intervenientes e destinatários das decisões. Mas deixar aos responsáveis políticos a responsabilidade de definir o rumo das políticas, acima de lobbies organizados, grupos de pressão influentes ou comités de sábios. No combate à pandemia, tal como na Economia, na Justiça ou na Educação.

Ainda a demagogia dos rankings

raquel-varelaPolémica, por vezes excessiva, para alguns, na forma como exprime os seus pontos de vista, Raquel Varela tem o imenso mérito de não alinhar com os consensos pantanosos que continuamente se vão erigindo na área da Educação. Sob a batuta da OCDE e do internacionalismo financeiro e traduzido naquela novilíngua de tiradas pedantes e chavões pretensiosos a que convencionou chamar-se eduquês.

A pretexto ainda dos rankings das escolas, feitos a partir dos resultados dos exames, e das leituras que deles vão sendo feitas, a investigadora demarca-se tanto do discurso da direita elitista em busca das melhores escolas e da glorificação do ensino privado, como do discurso miserabilista de alguma esquerda, que louva as pequenas vitórias das escolas do fundo da tabela. As escolas onde a maioria dos alunos não aprendem satisfatoriamente, mas em contrapartida realizam outras “conquistas”: vêm às aulas em vez de vadiarem na rua, convivem com os colegas, almoçam na cantina – nalguns casos a única refeição completa que fazem ao longo do dia.

Ora a escola é, acima de tudo, o lugar onde se ensina e aprende. Onde, pela educação, os alunos se descobrem a si mesmos, mas também ao mundo em que vivem, na sua imensa variedade e complexidade, e as pessoas que os rodeiam. Uma escola onde os alunos não aprendem até poderia ter uma cantina com estrelas Michelin, mas continuaria a falhar redondamente na sua missão educativa. E são indignas e miseráveis todas as esquerdas que se conformem e compactuem com esta realidade.

Deixemo-nos de demagogia, que cresce fértil no país, e será cada vez pior com a promoção da ignorância a que assistimos. Uma escola que está no fim do ranking não fez um bom trabalho porque “pelo menos os alunos comem, e não andam no tráfico de droga”. A escola é um lugar para educar e transmitir o pensamento científico às novas gerações. Não é uma cantina, um depósito de crianças, nem um departamento da assistência social. O professor é um educador, não é um mediador, nem um cuidador, nem um animador cultural. Uma escola com média de 1,7 em 20 é um lugar onde os alunos são analfabetos funcionais. Contra a direita segregadora que defende a lei da selva, uma parte da esquerda, com responsabilidades governativas, resume a sua política cada vez mais à defesa do Estado Assistencial em vez do Estado Social, universal, de qualidade. O direito à educação plena é basilar de uma sociedade democrática. Que andemos a discutir no século XXI que “pelo menos eles comem” não é um sintoma de boas políticas do governo, é a confissão do seu falhanço total. Estas escolas servem para produzir mão de obra para limpar centros comerciais às 4 da manhã por 2 euros e meio à hora e serventes de pedreiro. 

Educação para a adversidade

we-can-do-it…se há uma falha evidente na “filosofia” actual que domina o nosso sistema educativo é desajustamento entre uma ideologia baseada num desmesurado optimismo e uma crença no progresso das sociedades humanas, que está em claro contra-ciclo com a realidade que se tem vivido nas últimas décadas. O século XXI, até ao momento, se trouxe alguns ganhos no combate à pobreza extrema em algumas zonas do mundo, não se tem revelado especialmente favorável no combate às desigualdades económicas, à justiça social ou à estabilização das condições laborais da maioria da população das economias consideradas “desenvolvidas”.

O nosso tão aclamado “Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória” é um documento ambicioso na enunciação de tudo o que se acha que os indivíduos devem desenvolver para serem cidadãos de uma sociedade mais justa, sustentável, inclusiva, humanista e tolerante, mas pouco ou nada tem acerca do modo como se deve lidar com a adversidade. Porque não chega ser-se flexível, crítico ou reflexivo, se isso é envolvido por uma retórica que dá a entender que tudo será um caminho para a felicidade e o bem-estar. Porque pouco ou nada se contempla quanto a reagir a situações negativas, de emergência, de crise global, como as que a maioria do mundo enfrentou já por duas vezes desde a viragem para o século XXI.

Não acompanho Paulo Guinote na intensidade da crítica ao E@D. Não me parece que tivesse sido possível, mesmo “parando para pensar” um pouco mais, ou escutando outras vozes, indo além do habitual círculo de avençados e cortesãos do SE Costa, fazer muito mais, ou melhor, do que foi conseguido com o ensino remoto dito de emergência.

Quanto ao essencial do post, contudo, subscrevo inteiramente. Há um problema de fundo que vem de trás, mas que o confinamento agravou, e que assenta numa visão da Educação centrada no lúdico, no fácil, nos mitos educativos do conhecimento inato e da aprendizagem espontânea, na ilusão de tudo se pode aprender rapidamente e sem esforço e de que a missão fundamental dos professores do século XXI é a de facilitadores da aprendizagem, removendo da frente dos meninos e das meninas tudo o que possa representar obstáculo na senda do conhecimento.

A verdade é que o caminho da felicidade e da realização pessoal não se faz apenas de facilidades, sendo preciso desenvolver a persistência, a resiliência, capacidades de adaptação e superação, hábitos de trabalho: competências de base essenciais para superar as dificuldades, não apenas da escola, mas sobretudo ao longo de toda a vida. Para nos conhecermos a nós mesmos, as nossas capacidades e os nossos limites. E, transformando as dificuldades em desafios, conseguir, sempre que isso é possível, dar a volta por cima.

No rol das muitas educações para a cidadania que se recomendam para o desenvolvimento de competências transversais, falta certamente uma educação para a adversidade. E isso nota-se, cada vez com mais frequência, nas nossas crianças e jovens, quando as coisas não lhes correm como pretendido. Lidar com a frustração e o fracasso, enfrentar os constrangimentos, retirar ganhos e ensinamentos mesmo das más experiências da sua vida: parece haver um claro défice destas competências entre as gerações mais novas.

Paulo Guinote nota, acertadamente, que ao não capacitarmos os nossos alunos para reagir à adversidade estamos a remetê-los a uma especial vulnerabilidade. E nem é tanto na escola, onde existem cada vez mais redes de segurança, que garantem que nenhum aluno é “prejudicado”. Se for preciso será até, como vai acontecendo cada vez mais, levado ao colo, para não se cansar demasiado.

Mas, fora da escola, a vida não é assim. E é quando começam a dar os primeiros tombos, na vida social ou sentimental, no ingresso na universidade ou na entrada no competitivo mundo laboral, que as vulnerabilidades vêm ao de cima. A descoberta de que nem sempre conseguimos concretizar os nossos sonhos ou ganhar os nossos desafios traduz-se em números preocupantes de adolescentes e jovens adultos vítimas de depressões, crises de ansiedade, tentativas de suicídio. Frágeis, inseguros e dependentes de drogas de todos os tipos, tanto as ilícitas como as que se vendem nos supermercados e nas farmácias.

Temo que o vanguardista perfil dos alunos e todo o modelo de escola que se tenta construir a partir dele estejam a desvalorizar esta realidade preocupante. Como a pandemia e o confinamento demonstraram, aprender a lidar com a adversidade e o imprevisto pode não ser um tema curricular apelativo. Mas a sua necessidade tornou-se, no tempo que vivemos, clara e evidente.

E agora, as avaliações…

estatisticaNão são precisos grandes dotes adivinhatórios para antever que o sucesso escolar irá bater, este ano, todos os recordes.

Será o ano em que, fruto das contingências e dos confinamentos, menos se aprendeu. Mas também aquele em que, muito provavelmente, os resultados mais subirão. Quer venham traduzidos na escala de 1 a 5, quer nas velhinhas classificações de 0 a 20. E quanto às detestadas retenções, o mais certo é ficarem finalmente reduzidas a números residuais.

Quanto às razões para isto suceder, elas são evidentes, e só a má-fé e a eterna desconfiança da equipa ministerial em relação aos professores pode ver nisto uma tentativa de, na falta de um punhado de exames, subverter o processo avaliativo com um brutal inflacionamento das notas.

De facto, se nos colocarmos na perspectiva de qualquer professor, a realidade torna-se fácil de compreender. Não é aceitável prejudicar alunos que, devido à pandemia, ficaram privados da escola e, por variadas razões, não puderam prosseguir no mesmo ritmo as suas aprendizagens. Uns porque não dispunham dos equipamentos necessários, outros porque os tinham de partilhar com pais e irmãos, outros por carecerem de suficiente autonomia e disciplina para trabalharem sozinhos, outros ainda por falta de motivação ou adequado acompanhamento parental. Sejam quais forem as situações, a verdade é que a desigualdade de condições reinou, traduzindo-se em poderosas condicionantes que, na maioria dos casos, os professores não estavam em posição de controlar ou remediar.

Por outro lado, se os alunos que menos fizeram não podem ser prejudicados por circunstâncias que, no essencial, os ultrapassam, o que fazer em relação àqueles que se superaram? Os que estudaram, fizeram todas as tarefas, participaram activamente nas sessões síncronas e fizeram progressos efectivos e comprovados nas suas aprendizagens? Será escandaloso que, nalguns destes casos, possa haver uma melhoria da nota do segundo período? Não será esta uma questão de elementar justiça?…

Com um sucesso praticamente universal como dado adquirido na generalidade das escolas, a principal incógnita é o alcance desta excepcionalidade. Será ela apenas o fruto isolado de um ano diferente de todos os outros ou, pelo contrário, marcará a consolidação de uma tendência pró-sucesso que já vem de trás?

Para já, o mais interessante é registar a forma súbita como o ME transferiu as suas habituais preocupações com as retenções para o combate às “notas inflacionadas”. Mas também estou curioso em ver o que acontecerá, daqui para a frente, com a indústria da promoção do sucesso instalada no ME e ancorada em financiamentos europeus. Se os seus objectivos forem atingidos antes do tempo previsto, fará sentido continuar a verdascar os professores?…

“Fiz muitos trabalhos, mas não aprendi nada!”

MadeupSaltyGarpike-small.gifDepois de ter ouvido, um por um, os mais de 150 alunos a quem dei aulas, primeiro presenciais, depois remotamente, foi esta confissão sincera e espontânea, de um dos menos dotados para os estudos, que mais me impressionou.

Qualquer reflexão sobre a aprendizagem não presencial deve ter presente esta realidade insofismável: somos seres sociais e, de um modo geral, aprendemos mais e melhor quando estamos com outras pessoas: os pais, os professores, os colegas de escola ou profissão, os amigos. Um sistema educativo confinado à casa de cada um e às limitadas interacções que as tecnologias nos possibilitam pode admitir-se como alternativa de recurso. Mas será sempre uma solução empobrecedora, até para os alunos mais motivados, autónomos e organizados. Para os restantes, os que executam sem aprender e os que simplesmente desligam, resulta ainda pior. Fomentando, como já muitas vezes se disse, a desigualdade no acesso à Educação.

Há outra ideia, subjacente à afirmação que titula este post, que convém salientar: na impossibilidade de ensinar, ou de mobilizar ferramentas eficazes de aprendizagem adequadas aos seus alunos, muitos professores optaram por mandar fazer “trabalhos”. E em vez das pomposas designações que se foram inventando, como o Plano de Trabalho, o E@D ou o #EstudoEmCasa, quantos alunos nossos não chamaram à realização das tarefas solicitadas, simplesmente, fazer o trabalho de casa? Quantos milhares de emails não terão recebido os professores, nas últimas semanas, dizendo algo do género: “Stor, envio o TPC”?…

Contrariando o mito construtivista, atrever-me-ia a dizer que, em boa verdade, não é a “fazer trabalhos” que se aprende. Eles podem servir para consolidar e aplicar conhecimentos previamente adquiridos e desenvolver diversas competências. Mas se as aprendizagens de base não forem feitas, o “trabalho” torna-se uma tarefa puramente mecânica. Que com a orientação do professor ou a ajuda de outros adultos, até pode sair bem feita. Mas será que de facto se aprendeu alguma coisa? Com o brutal investimento de tempo e energias despendido no ensino remoto, e o seu incorrigível optimismo, muitos professores gostam de acreditar que sim. Mas são os próprios alunos que, tantas vezes, nos fazem cair na dura realidade…

Equívocos da E@D

EADO ensino remoto de emergência não poderia correr bem, nem em Portugal nem em parte nenhuma do mundo, por razões biológicas básicas: a atenção, a memória e a disciplina intelectual de uma criança têm limites que ninguém pode contornar. Só por distração se poderia acreditar que o ensino remoto de emergência iria “cumprir os programas”, sobretudo com as crianças mais novas.  Acresce que a autonomia para a aprendizagem da maioria das crianças portuguesas, que não é incentivada nem pelas escolas nem pelas famílias, as colocava em desvantagem para uma modalidade de aprendizagem que assenta, acima de tudo, na autonomia.

António Dias Figueiredo reflecte, no sinal Aberto, um interessante site que se auto-define como jornalismo de interesse público, sobre o que chama equívocos da educação à distância. A prosa, algo extensa, faz uma análise aprofundada das vicissitudes deste ensino de emergência aplicado remotamente. E toca em diversos pontos que outras leituras, mais superficiais, tendem a ignorar.

Por exemplo, que o online tem limitações próprias e nunca substituirá, nem na aprendizagem nem na vida, o contacto presencial. Mas foi o online que, no auge da pandemia, nos manteve ligados uns aos outros e ao mundo, a começar pelos seus mais assanhados críticos.

Na altura certa não se ouviu, a esses mesmos críticos da escola online, qualquer ideia ou sugestão de como deveria a escola reinventar-se durante o confinamento. E que, mais do que as tibiezas e hesitações do ME, foi a iniciativa dos professores, que não baixaram os braços, a dar corpo a um ensino de emergência que, se não deu para “cumprir os programas”, manteve um importante elo de ligação entre os alunos e a escola e permitiu prosseguir, com as inevitáveis limitações, algumas aprendizagens.

O autor revela-se consciente das limitações do ensino remoto: é adequado essencialmente para jovens e adultos com elevados níveis de disciplina e autonomia, não se adapta a aprendizagens práticas e experimentais, exige uma sofisticação tecnológica que requer tempo de preparação e recursos humanos e financeiros que não estão ao alcance de todas as instituições. Mostra-se no entanto adepto do chamado b-learning: um ensino presencial complementado por uma componente online.

A argumentação é pertinente: queiramos ou não, estamos imersos no mundo digital. É recorrendo aos smartphones e aos computadores que tratamos de uma quantidade crescente de assuntos do nosso dia a dia, que contactamos com outras pessoas, que sabemos o que se passa no país e no mundo. Tanto os destinatários como os emissores da informação que circula através dos nossos aparelhos estão necessariamente distantes de nós. Ora se a distância já integra as nossas vidas, a escola, tal como a universidade, devam desenvolver formas de se prolongar, também, nessa distância.

Tendendo a concordar com o autor e com a perspectiva de um online com conta, peso e medida, deixo ainda assim uma ressalva: é que esta é uma porta, que pode abrir passagem a interesses poderosos e tentações perigosas. E não são apenas os vendedores de hardware e software que se perfilam para os prometedores negócios da educação do século XXI, oferecendo as suas soluções chave-na-mão para aprendizagens automáticas à distância de um clique. Para políticos que vêem a educação como despesa, há enormes poupanças que podem ser feitas mantendo os alunos mais tempo em casa, em vez de virem para a escola consumir os seus parcos recursos. E recorrendo aos computadores para substituir professores…

Automatizar a escola

Captura de ecrã 2020-06-13, às 23.42.08A pandemia fez menos pela substituição de professores por máquinas do que inicialmente se julgava. Apesar de apressadas declarações que pareciam incluídas numa corrida entre países para ver quem se antecipava no sucesso do ensino por internet, a realidade impôs-se: ainda estamos no tempo do ensino presencial com humanos como professores. Mas os pedagogos humanistas não se devem iludir: quem constrói os orçamentos dos estados não cederá na redução dos alunos por turma nem na valorização da carreira dos numerosos professores. A educação, também porque não tem resultados imediatos, é um investimento que os contraria; a dor de cabeça nesse domínio é a crescente e irreversível falta de professores. E é também nesse sentido que a atracção pelas máquinas pode ser uma fatalidade que não ouvirá quem sabe que a aula é presencial e uma simbiose do conhecimento com as emoções.

Dito isto, interrogamo-nos: os professores vão ser substituídos por máquinas? E quando? É imprevisível num tempo veloz, incerto e de fenómenos invisíveis. E não confundamos os efeitos, e as dimensões, das políticas: os 400 milhões de euros que Portugal vai receber para o digital na educação destinam-se a assegurar o que existe e a contemplar com um computador os mais pobres; é um digital que consumirá produtos das indústrias europeias de computadores e de serviços digitais. 

Nas voltas que vou dando pela blogosfera docente, nem sempre com a exacta regularidade que desejaria, é sempre com gosto que leio as prosas inspiradas e reflexivas do Paulo Prudêncio. O blogue Correntes é, tanto quanto sei, o mais antigo blogue sobre educação em actividade regular. E a ser diariamente alimentado com reflexões que, sendo actuais e oportunas, procuram ir além da espuma dos dias, convidando-nos a pensar sobre o presente e o futuro da Educação.

Aqui, Paulo Prudêncio escreve sobre uma tendência e um propósito que já pairavam por aí, aos quais a pandemia veio dar súbito fôlego e sentido de oportunidade: o de substituir professores de carne e osso por máquinas de aprendizagem automática. E o conhecimento, a inteligência e a sensibilidade humanas por sensores e algoritmos, capazes de monitorizar os alunos e de ajustar o processo cognitivo às suas necessidades.

Claro que é uma eficácia meramente economicista que dita esta opção por um ensino que se pretende destinar às massas, mas que as elites nunca quererão para os seus filhos. Professores levam tempo a formar e ficam caros, nem tanto pelo que individualmente recebem, mas por serem a categoria mais numerosa de trabalhadores intelectuais. E como se isso não bastasse, tendem a adquirir algo que, nos tempos que correm, é cada vez mais visto como um defeito: insistem em pensar pela sua cabeça. E, pior ainda, tentam transmitir esse detestável hábito aos seus alunos…

Não é preciso imaginar um futuro muito distante para antever uma sociedade em que os computadores e os robôs, comandados pela inteligência artificial, farão quase todo o trabalho produtivo, além de substituírem os humanos em muitas profissões hoje tidas como altamente qualificadas. Neste mundo em que não haverá trabalho – pelo menos trabalho socialmente produtivo – para a maior parte da população, uma educação à antiga será vista como um desperdício. Em vez disso, uma escolarização barata e massificada, baseada nas máquinas e nos algoritmos, cumprirá as necessidades.

Ainda assim, creio que a escola com professores, espaços e actividades diversificadas, aprendizagens complexas e enriquecedoras,  nunca desaparecerá. Mas poderá voltar a ser, como nos primórdios da educação, reservada às elites. Os outros ficarão entregues às escolas digitais, ocupados num infinito scroll, deslizando os dedos num ecrã enquanto vêem a vida, em alta resolução, a passar a sua frente. Ao mesmo tempo que abanam o capacete… da realidade virtual!