O desencanto dos professores

Paulo Prudêncio continua a brindar-nos com as suas reflexões profundas, fundamentadas e estimulantes acerca da educação e dos professores. Esta semana, em artigo no Público partilhado também no seu blogue Correntes, o mote é o desencanto dos professores. Como é que uma profissão que continua, apesar de tudo, a ser socialmente valorizada, que ao longo do tempo sempre despertou vocações e que tem potencial para assegurar uma plena realização pessoal e profissional a quem gosta de a exercer, caminha a largos passos para uma situação de défice estrutural de professores qualificados?

A tentativa de explicação, como sucede em geral com todos os fenómenos sociais de alguma complexidade, exige algum recuo no tempo.

Pensemos no início do milénio. Quando se exigia das políticas educativas mais cooperação, mais inclusão e menos representatividade, aplicou-se o oposto. Antecipou-se as tais armas da democracia – divisão e separação na carreira e na avaliação – e eliminou-se a democracia directa através de um modelo de gestão exclusivamente representativo. Optou-se pelo taylorismo (poucos pensam e avaliam, muitos executam) do início do século XX em detrimento do moderno achatamento das organizações do século XXI.

E como a competência eleitoral passou para os conselhos gerais das escolas, rapidamente a falta de massa crítica, associada à ausência de mecanismos de audição da vontade dos representados, promoveu arbitrariedades, mais injustiças e mais desencanto. É que se a democracia é a vontade da maioria em respeito pelas minorias, nas escolas abriu-se a porta à vontade das minorias em desrespeito pelas maiorias. Um reduzido número de eleitores passou a escolher um ainda mais reduzido número de representantes e abriu espaço para a autocracia.

Como hoje se comprova, a eliminação da eleição directa também sustentou os outros dois instrumentos de divisão: degradação e precarização da carreira e avaliação que exclui.

Há um antes e um depois da passagem de Maria de Lurdes Rodrigues pelo ME, a verdade é que a ministra de Sócrates deu corpo e ousadia a uma política de domesticação dos professores e da autonomia das escolas que já antes se enunciava. E nenhum governo dos que se lhe seguiram fez qualquer esforço, antes pelo contrário, para reverter as grandes linhas de uma política educativa assente no super-poder dos directores, nos mega-agrupamentos, na precariedade docente, na carreira armadilhada, na avaliação docente punitiva e vexatória. E nem o reconhecimento público em 2015, por parte de António Costa, das injustiças cometidas pelo PS contra os professores motivou uma reversão, ainda que parcial, das políticas hostis à classe.

Quando quase todos apontam um novo mundo educativo, feito de tecnologia e emoções positivas, como a solução para superar os bloqueios e as frustrações do presente, Paulo Prudêncio tem a ousadia de fazer uma sugestão contra a corrente, que pela minha parte subscrevo sem reservas: em vez dos amanhãs que cantam, tomar a escola de há vinte anos atrás como referência seria um bom começo para resolver a falta de professores e outros problemas estruturais da educação portuguesa.

A guerra segundo Edgar Morin

Vivemos uma paz guerreira, os nossos corpos instalados na paz, os nossos espíritos entre bombas e escombros. Atacamos um inimigo com palavras e ele ataca-nos com ameaças, mas nós dormimos numa cama e não num abrigo.

Edgar Morin, filósofo francês de origem judaica, completou já 100 anos de vida, mas a idade não lhe retirou lucidez na análise que faz da guerra na Ucrânia. Um texto ponderado, sensato e equilibrado, que evita o exagerado emotivismo e começa por recordar o óbvio: há na Europa uma onda de solidariedade sem reservas com o povo ucraniano, vítima insofismável da invasão russa. Mas enquanto uns, protegidos pelo guarda-chuva norte-americano, recebem da Rússia apenas ameaças e bravatas inconsequentes, os outros vão vendo as suas cidades e as suas vidas paulatinamente destruídas pelos bombardeamentos.

Recorda-nos também alguns padrões das guerras soviéticas, que persistem no novo império em formação: os ataques massivos de artilharia, as violações em massa, a linguagem do terror. E nota que a guerra, à qual o envio de armamento ocidental para a Ucrânia atenuou o desequilíbrio de forças inicial, está agora para durar. Embora uma guerra nuclear global seja um cenário improvável, pela garantia de destruição mútua que implicaria, Morin não põe de parte nem o recurso a armas nucleares tácticas, de alcance mais limitado, nem o alastramento do conflito a países vizinhos. E considera inevitável uma maior restrição de liberdades e o aumento da vigilância dos estados sobre as populações.

Para escapar à lógica infernal da guerra, o filósofo francês vê numa paz de compromisso que inclua a neutralidade da Ucrânia e cedências territoriais legitimadas por referendo a única solução viável. Mas recorda que as imensas riquezas do solo ucraniano aguçam o apetite das superpotências. E integra a busca de uma paz estável no quadro mais vasto das complexas relações entre as grandes potências e os problemas geopolíticos da Europa de Leste, que a desagregação abrupta da URSS e do Pacto de Varsóvia deixou mal resolvidos.

A Ucrânia é mártir não só da Rússia mas também do agravamento das relações conflituosas entre os Estados Unidos e a Rússia das quais fazem parte evidentemente o alargamento da NATO, ele próprio inseparável das inquietudes suscitadas pela guerra russa na Chechénia e a sua intervenção militar na Geórgia.

A salvação da Ucrânia não está apenas na sua libertação da invasão russa, mas também em se libertar do antagonismo entre a Rússia e os Estados Unidos.

Esta dupla libertação permitiria aos países da União Europeia libertarem-se igualmente deste conflito e procurarem unir a segurança e a autonomia.

As sanções contra a Rússia, ao atingirem duramente não apenas o regime de Putin, mas também o povo russo, não sabemos até que ponto, atingem também os sancionadores voltando-se parcialmente contra eles: não é só o seu aprovisionamento em energias e em alimentação que está ameaçado, é sem dúvida, com a inflação a crescer e as restrições que virão, a sua economia e toda a sua vida social. Uma crise económica é sempre, ela própria, geradora de regressões autoritárias e da instalação duradoura de sociedades de submissão.

A Rússia de Putin é um abominável regime autoritário. Mas ela não é comparável à Alemanha hitleriana; o seu hegemonismo pan-eslavo não é, como foi o hitleriano, a vontade de colonizar a Europa e de escravizar os povos racialmente inferiores. Qualquer hitlerização de Putin é excessiva.

Nós estamos num mundo dominado pelos antagonismos entre superpotências e entregue aos delírios religiosos, étnicos, nacionalistas, racistas.

Por muito repugnantes que sejam as superpotências a diversos títulos, o apaziguamento dos seus conflitos é uma condição sine qua non para evitar os desastres generalizados. Assim, devemos aspirar a um compromisso. A humanidade não ficaria a salvo; ganharia uma prorrogação e, talvez, uma esperança.

Pensamento do dia

Nós, professores, queremos criar cidadãos autónomos e críticos, mas, em vez disso, estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento, sem léxico. Estamos vendo o triunfo de uma religião tecnocrática que evolui para menos conteúdo e alunos mais idiotas. Estamos servindo a tecnologia e não a tecnologia a nós. O professor está exausto, devorado por uma burocracia para gerar estatísticas que lhe tira a energia mental para dar aulas.

Andreu Navarra

Notas sobre a guerra na Ucrânia

O sentimento nacional que, segundo Putin, seria inexistente neste país artificial, está a ser insuflado, em ritmo acelerado, com a invasão russa. Obrigando os ucranianos a lutar pela sua pátria, Putin terá já perdido definitivamente a antiga república soviética que queria atrair para a sua órbita.

Com esta crise, o mundo ocidental volta a aperceber-se dos riscos da economia de casino e da desregulação dos mercados financeiros de são a base do poder dos oligarcas russos que mantêm o regime corrupto e violento de Moscovo. Cortar os fluxos de dinheiro sujo que alimentam o tráfico de pessoas, armas e drogas, a criminalidade mafiosa, o terrorismo e as ditaduras sanguinárias é imperativo para construir, de forma consistente, um mundo mais pacífico e seguro.

Fugidos às centenas de milhares para os países vizinhos, a Polónia já aceita os refugiados no seu território. Por enquanto apenas os mais branquinhos, ucranianos legítimos – negros e orientais são barrados na fronteira e mandados para trás – mas já é um bom começo.

Após as hesitações iniciais, a União Europeia parece começar a concertar posições e a falar a uma só voz na questão ucraniana e nas sanções e restrições contra a Rússia.

Independentemente das razões que levaram à guerra, a partir do momento em que ela é real o urgente é ajudar o povo que está a ser atacado e todos os que legitimamente defendem o seu território. Usando de todos os meios legítimos para enfraquecer política e economicamente o agressor, forçando-o a parar a guerra.

Invasões e agressões não devem ser aceites como forma de resolver diferendos entre povos e nações, ou simplesmente entre facções da elite política e financeira dominante à escala global. Acabar com todas as guerras deveria ser um imperativo civilizacional em pleno século XXI. E isto aplica-se tanto à guerra na Ucrânia como a todos os outros conflitos que subsistem no mundo. A guerra no Iémen, de que pouco se fala. O lento genocídio do povo palestiniano. Ou, aqui tão perto de nós e tão esquecida, a opressão marroquina sobre o povo saraui.

Recentrar a escola

Paulo Prudêncio analisa, em artigo de opinião no Público e também no seu blogue, a decadência da escola no mundo ocidental. A Educação, um sector que já foi essencial e estratégico nas políticas económicas e sociais, sobrevive hoje, como diria o poeta, em apagada e vil tristeza: subfinanciamento, turmas numerosas, experimentalismo irresponsável e permanente, falta estrutural de professores. Acrescento: não existe uma política educativa digna deste nome, o investimento público no sector anda próximo do zero e, prova definitiva da irrelevância e da quase marginalidade a que o sector foi confinado: qualquer nulidade, sem peso político nem conhecimento do sector, pode chegar a ministro. Como se viu ao longo dos últimos seis anos.

O nosso colega é muito claro a assinalar algo que a outros tende a levantar pruridos: foi uma sucessão desastrosa de políticas e políticos de direita que nos fizeram chegar ao ponto em que nos encontramos. Desde Reagan e Thatcher, a escola pública tem vindo a ser delapidada de meios e recursos, promovendo-se cortes sucessivos na despesa ao mesmo tempo que se desviavam verbas para o financiamento público de escolas privadas, supostamente de maior qualidade e melhor gestão. Uma tendência que também pegou por cá, com o gradual desinvestimento na escola pública e na carreira dos professores, a par do florescimento dos contratos de associação e com David Justino, ex-ministro, ex-conselheiro da Educação, uma verdadeira eminência parda da educação à portuguesa, a afirmar em 2004 “que só não contratava pessoas como João Rendeiro, do BPP, para dirigir as escolas porque não tinha dinheiro para lhes pagar”. A memória é curta, e por isso há afirmações que, colando-se irremediavelmente a quem intencionalmente as profere, é sempre oportuno recordar…

É […] irrefutável que a escola pública portuguesa é governada por políticas da direita quase radical que falharam redondamente e que “negaram” os progressos alcançados no século XX. É também evidente que os imutáveis três instrumentos referidos – estatuto da carreira, gestão das escolas (agravada com impensados agrupamentos) e avaliação dos professores – são responsáveis pela fuga a ser professor. Para além disso, a redução de professores “prometida” pela digitalização não só tarda em acontecer como agrava as desigualdades educativas. Aliás, percebe-se uma dicotomia eloquente: enquanto nas escolas das elites o tempo está suspenso, a atitude perante o conhecimento é clássica, as turmas não são numerosas e o digital é um auxiliar usado com critério, nas escolas das restantes classes os conteúdos digitais são massificados e as turmas numerosas.

Conclui-se que é imperativo recentrar as políticas educativas. Por exemplo, Olaf Scholz, o novo chanceler da Alemanha, já sente o aumento brutal das desigualdades educativas e da falta estrutural de professores que atingiu primeiro os EUA e o RU. Defende as teses de Daniel Markovits e Michael Sandel muito críticas da meritocracia. Sabe que a armadilha meritocrática bloqueou o elevador social. O investimento financeiro conta mais do que o talento e o esforço e criou um fosso crescente entre as elites e as restantes classes que resultou na polarização política que expôs os votos dos excluídos a demagogos autoritários. Há um contraditório que teme pela recuperação de modelos totalitários de esquerda onde, diz-se, não existia meritocracia. É falso. Havia meritocracia. Só que nesses regimes o investimento financeiro foi trocado pela ascensão no partido único com os resultados que também se conhece.

Não se trata, portanto, de buscar receitas antigas. Trata-se, desde logo e antes que seja demasiado tarde, de reequilibrar, redistribuir melhor, investir na educação pública, democratizar o ambiente escolar e olhar para o futuro com as lentes do optimismo e da não desistência. Seria um perigo para a democracia se o PS teimar em não recentrar a escola.

Pensamento do dia

Sempre me incomodou algo que costuma ser aceite de ânimo leve: que a escola deve ensinar o aluno a “ser”.

Ensinar a ser, num contexto em que o ideal de “ser” vem completamente definido pelos valores impostos por um sistema socio-económico injusto, é simplesmente reproduzir esse sistema.

Adaptado daqui.

Pensamento do dia… de reflexão

Falou-se de liberdade ao longo da campanha eleitoral, ideia instrumentalizada e trazida quase sempre à baila pelos partidos da extrema-direita. Mas é um conceito pobre e muito limitado de liberdade o que cheganos e liberais nos trazem: reduz-se à liberdade económica e já nem é, como no liberalismo clássico, o de cada um pagar do seu bolso as escolhas que faz livremente. Agora, o que se espera é que o Estado, ao mesmo tempo que baixa impostos a quem tem mais rendimentos, pague as escolhas dos cidadãos. E que estes obtenham através dos mercados o acesso à Saúde ou à Educação.

Mas a liberdade não é isto. Liberdade não é transformar direitos universais dos cidadãos em negócios chorudos. Liberdade, no século XXI, passa por assegurar, através de uma política justa de rendimentos e das garantias do Estado Social, as condições de base para uma vida digna para todos: alimentação, habitação, saúde, educação.

Depois de 48 anos de ditadura, as gerações que viveram a Revolução de Abril tinham poucas dúvidas acerca do valor da liberdade. E desta, um entendimento bem mais abrangente do que aquele que nos propõe a cantilena neoliberal. Basta revisitar, por exemplo, a Liberdade de Sérgio Godinho, uma cantiga que hoje me acompanha nas reflexões pré-eleitorais.

Pensamento do dia

Entra alguém entra numa padaria sem dizer bom dia, bate com a porta, fala aos gritos, atira qualquer coisa ao chão e não a apanha, passa à frente da fila, exige que lhe dêem o pão, resmunga ao pagar ou insulta outro cliente… Dizemos ao padeiro que é normal e o respeito tem que ser conquistado?

Ninguém aceita esta normalidade, a não ser em certos contextos educativos, onde se insinua demasiadas vezes, aos professores, que têm de conquistar, da parte dos seus alunos, o direito a ser respeitado.

Claro que a missão da escola também é educar no respeito e nas boas maneiras aqueles que não trazem educação de casa, e muito se poderia dizer a este respeito. Mas a convicção que tenho é que a escola perde demasiado tempo a tentar, em vão, educar os mal educados. Na vida real aprendem, em meia dúzia de dias, o que a escola, ao fim de doze anos, não lhes conseguiu ensinar. Porque ninguém está disposto admitir-lhes nem metade do que os professores lhes aturam.

A “Uber-escola” e a falta de professores

Paulo Prudêncio escreve, no Público, sobre o problema, já indisfarçável, da falta de professores. Uma reflexão rica e muito interessante, desde logo porque foge aos habituais lugares-comuns sobre o assunto, analisando-o no contexto mais vasto da experiência internacional – o que parece ser entre nós um problema novo, subsiste há décadas em países mais desenvolvidos – e das políticas económicas dominantes, assentes na desregulação, na precariedade, no agravamento das desigualdades e na promoção do individualismo, a par do enfraquecimento do Estado social.

Os mecanismos da economia informal com que se tenta reinventar o capitalismo no século XXI parecem estar a invadir paulatinamente a escola e as políticas de Educação. Assim como o vulgar cidadão pode fazer uns biscates como motorista, colocando o seu carro particular ao serviço da Uber, também a escola, a braços com a falta de professores qualificados, poderá recorrer, de forma pontual ou permanente, a quem quer que se disponha a vir dar umas aulas. Ou, à falta de melhor, a entreter os alunos.

O nosso colega identifica, bem, cinco sinais claros na origem deste processo: a degradação do estatuto da carreira e do sistema remuneratório, levando à perda de atractividade da profissão; uma avaliação de professores com quotas e vagas que dilacera o bom ambiente escolar, premiando o individualismo e promovendo o assédio laboral; uma escola a tempo inteiro que se transformou em educação a tempo inteiro na escola; um modelo autocrático de gestão norteado por interesses divergentes da missão da escola pública e combinado com um modo de agrupar escolas único na Europa; um ranking de escolas sempre “em progressão”. Estas não são decisões erradas deste ou daquele ministro: Paulo Prudêncio nota a inépcia e a inércia de sucessivos governos; eu iria mais longe e acrescento que tudo isto faz parte de um programa educativo profundamente lesivo da escola pública, seguido deliberadamente pelos vários governos em nome de inconfessáveis interesses. Um verdadeiro pacto educativo dos partidos do centrão, não escrito, mas que nem por isso deixa de ser levado a sério, e que se evidencia no Parlamento sempre que alguma proposta divergente ousa apresentar-se a votação.

Tudo isto está bem patente no mal-estar docente, que se respira nas salas de professores e nas redes sociais que estes frequentam. É a conclusão do artigo de opinião no Público, que os não-assinantes podem ler no Correntes – provavelmente o blogue mais antigo da blogosfera docente, que Paulo Prudêncio continua a alimentar diariamente.

A recente aversão dos professores, bem documentada nos espaços de opinião, à Escola Ubuntu (mas podia ser outro projecto e também bem intencionado), é uma reacção cansada e irritada ao efeito mediático de distracção que a inflação de projectos provoca em relação às questões fundamentais. E depois, há uma espécie de entretenimento infernal promovido por personalidades que gravitam na galáxia dos governantes e numa órbita distante das salas de aula.

Em suma, a inundação de projectos (exactamente o que mais originou a crise finlandesa) provoca climas de adesão militante ou de revolta contida: escolas que querem agradar ao poder que as avalia e professores avaliados sobrecarregados com as burocracias mil vezes identificadas e outras tantas invisíveis para governantes.

A máquina de matar professores

A escola pública portuguesa tem sofrido assaltos sucessivos de grupos de pressão que, directa ou indirectamente, se têm instalado nos feios prédios do Aterro lisboeta, à Avenida 24 de Julho. Quem conheça o meio, sabe bem quem o povoa e quem por lá tem influência e é ouvido. As políticas educativas que conseguem impor, graças a eficazes manobras de propaganda, de pressão ou de manipulação, não visam nem alguma vez visaram a qualidade da escola e das aprendizagens. Não querem saber dos alunos nem das famílias nem dos professores. Servem interesses académicos e pessoais, agendas políticas e sociais, estratégias económicas. Pretendem usar a escola como palco, como ferramenta de manipulação ideológica, como caixa multibanco. As técnicas de sedução são exímias. Chegam a cativar muitos docentes, aliciando-os, ludibriando-os, estimulando os seus instintos mais escusos. Sabem recompensá-los. Usam-nos, depois, como armas de arremesso contra os seus colegas que têm a ousadia de pensar pela sua própria cabeça e de afirmar, sem medo, que o rei vai nu, que as “maravilhas fatais” apresentadas em formações e deformações não passam de quinquilharia velha ou sem valor, destinada a enganar meio mundo e a outra metade. A maioria dos professores não é, todavia, parva. Percebe o que está a suceder. Tem percebido. Tem resistido como pode. Essa resistência é conhecida. E detestada por muitos directores, por demasiados colegas, por muitos pais inconscientes e, obviamente, pela tutela do Ministério. Há mais de duas décadas que o assalto vem crescendo.

Ninguém ignora que o assédio moral dentro das escolas é uma realidade constante e reiterada. Quase sempre, subtil. […] Pais envenenados, colegas manipulados ou interesseiros, hierarquias picadas pelo Ministério sujeitam quem quer fazer o seu trabalho honestamente a pressões inimagináveis, a humilhações de que poucos suspeitam. Visam destruir a sua autonomia científica, técnica e pedagógica que, apesar de garantida pelo Estatuto da Carreira Docente, vem sendo dinamitada há muito tempo, com especial intensidade nos últimos seis anos (nos quais têm pontificado os fiéis continuadores da guerrilha promovida com eficácia, entre 2005 e 2009, por uma senhora chamada Maria de Lurdes Rodrigues e seus comparsas). Junte-se a isto a subversão das regras de avaliação do trabalho dos docentes (alvo de um constante tráfico de influências e das mais mirabolantes manobras), o congelamento da sua progressão na carreira, a desconsideração do seu mérito efectivo (em benefício de um lambe-botismo atávico), a intromissão nas suas aulas (que chega ao ponto de impor “coadjuvantes” dentro das salas que, na prática, são muitas vezes vigilantes e bufos), o apagamento ou manipulação do rigor na avaliação e na disciplina – e não serão muitos os resistentes. Quem está perto da reforma, aposenta-se o mais depressa que pode, mesmo com prejuízo na carteira. Quem consegue encontrar uma porta aberta por onde possa fugir, muda de emprego, definitivamente ou durante algum tempo. Outros, infelizmente, não resistem e sofrem graves consequências na sua saúde, nem sempre remediáveis.

Ruy Ventura traça, nas páginas do Público (acesso exclusivo a assinantes) e no seu mural do Facebook, um retrato deprimente, mas certeiro e incisivo, da escola portuguesa nestas primeiras décadas do século XXI. Demonstrando como ela se transformou, pela incompetência, perfídia e laxismo de dirigentes e governantes, numa máquina que lentamente corrói a energia e a alma dos professores. Que os adoece, matando neles, pouco a pouco, a dedicação e o gosto que um dia tiveram pela sua profissão.

Num sistema educativo subordinado a uma gestão economicista de vistas curtas, dominado por uma burocracia galopante e capturado por lobbies eduqueses de diversas cores e feitios, o superior interesse dos alunos acaba por ser mero pretexto, tantas vezes invocado em vão, para o experimentalismo permanente, uma sucessão de falsas inovações que apenas acentua a falta de rumo da escola pública. Apanhados no turbilhão das exigências e das mudanças sem sentido, os professores assistem à degradação das suas condições de trabalho, ao ataque às suas carreiras e autonomia profissional, ao alastrar da indisciplina e do assédio moral, à imposição de um modelo de gestão autocrático e de um sistema de avaliação injusto, punitivo e vexatório.

Neste quadro, a propalada autonomia das escolas pouco mais é do que a liberdade de as comunidades educativas fazerem o que quiserem, desde que queiram o mesmo que o ministério pretende. Esta é mais uma forma de menorizar e domesticar a classe docente, pondo em causa a autonomia científica, técnica e pedagógica dos professores, consagrada no artigo 5.º do Estatuto da Carreira Docente ainda em vigor.

E é assim que décadas de menosprezo, de humilhação e assédio contra os professores, vistos como alvos a abater numa quadro de uma política educativa feita contra os professores, têm agora o resultado há muito previsível, mas que parece surpreender e perturbar as cabeças (pouco) pensantes do ministério: há falta de professores. Muitos dos profissionais habilitados para ensinar fartaram-se de servir um patrão que os maltrata. E a profissão deixou de ser atractiva para as novas gerações. Haverá discernimento para encarar a realidade, compreendendo a necessidade de defender e valorizar a profissão docente? Ou irá prosseguir a política de tiro ao alvo aos professores, esses seres perigosos porque habituados a pensar pela sua cabeça e a cultivar valores fora de moda como a ética, a exigência e o rigor, até que não sobre nenhum digno desse nome?…