Pensamento do dia

208511.pngFazem-nos crer que nos devemos nos adaptar às necessidades do mercado, e que é essencial integrar as soluções, programas, conteúdos e procedimentos que oferece o edu-business. Na verdade, são eles que dependem da educação para manter uma democracia corrupta.

Daqui.

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Reflexões natalícias

Vector concept of investment in education

Em tempo de pausa lectiva, por uns dias afastados da azáfama do quotidiano docente, talvez sobrem alguns momentos para pensar um pouco na verdadeira missão da escola, no que deve ser o trabalho dos professores e do que esperar dos alunos que a frequentam.

Já sabemos que não é fácil, desde logo porque não pensamos todos da mesma forma – e ainda bem! – e a multiplicidade de experiências, vivências, leituras que cada um foi fazendo moldaram a sua forma de olhar a escola, os alunos e a profissão docente.

Com a ajuda de um tweet de Javier, proponho começar pelo que não queremos: por tudo aquilo em que querem transformar a escola – e que a escola não deve ser.

O conhecimento não é uma mercadoria.
O professor não é um técnico.
A aprendizagem não é um produto.
O aluno não é um consumidor.
As famílias não são clientes.
A tecnologia não é uma finalidade.
Soluções tecnocráticas não resolvem os nossos problemas.
A educação não é um negócio.

João, o Costa da Educação

joao-costaConfiante no tecido legislativo criado durante o seu mandato e na eficácia das medidas que, como peças Lego, encaixam umas nas outras na perfeição, apoiado pela brigada eduquesa que tem formado a base doutrinária dos governos PS no sector da Educação, inchado pelos elogios da OCDE, inebriado pelas sessões de propaganda que tem promovido com os directores de todo o país, o secretário de Estado João Costa segue imparável na senda do sucesso educativo. E, em declarações ao Observador, torna-se ainda mais explícito e eloquente do que lhe é habitual.

Este homem é perigoso. Convicto das ideias que defende ou simplesmente ambicioso, como tantos outros que passaram pela pasta da Educação, poderá ainda causar muitos danos ao sistema educativo antes de levar o “pontapé para cima” e abraçar a carreira internacional que provavelmente almeja.

O discurso, mais elaborado do que é habitual na actual geração de políticos medíocres, tende a tornar-se convincente e sedutor até, pelo encadeamento lógico das ideias e pela mensagem de fundo que consegue passar aos mais incautos: tudo isto é feito em nome da felicidade, do sucesso e do superior interesse dos alunos. Postas as coisas nestes termos, quem se atreve a discordar?…

O Observador espreita, pelas palavras do governante, aquilo que o actual Governo espera deixar, no lançamento do próximo ano lectivo, como legado a quem vier a seguir. E aos que por cá irá continuarem…

Planos do Governo para o próximo ano lectivo incluem hipótese de escolas reduzirem o número de alunos por turma, além das aulas por semestre e da autonomia a 100%. Objetivo final é acabar com chumbos.

Se pensarmos um bocadinho, percebemos que a anunciada “autonomia a 100%” é um disparate: há ou não um currículo nacional em vigor que tem de ser seguido em todas as escolas e a que todos os alunos devem aceder? Desde quando o “perfil do aluno” e outras vacuidades produzidas pela verborreia ministerial se sobrepõem à Lei de Bases do Sistema Educativo e demais legislação estruturante em vigor? Pode uma escola decidir que os seus alunos deixem de estudar Matemática, ou Física, ou Inglês, em nome do direito ao sucesso? Aparentemente sim, pois estamos a falar de autonomia curricular total. Ou então limitamo-nos a brincar com as palavras, em exercícios irresponsáveis de demagogia.

Também a organização semestral do ano lectivo, uma ideia com alguns defensores entre os professores e, sobretudo, os directores escolares, tem que se lhe diga: por detrás da aparente simplificação de reduzir de três para dois os momentos avaliativos, está uma armadilha para aumentar a burocracia e o controle sobre o trabalho dos professores. Pois como um semestre é um período demasiado longo, logo se tratará de introduzir momentos da avaliação intercalar. O actual sistema, com três momentos de avaliação, dará lugar a quatro ou cinco avaliações anuais, sendo parte delas qualitativas – ou seja, baseadas não na atribuição de uma nota, mas na produção de relatórios ou sínteses descritivas, o que é ainda mais trabalhoso do que uma avaliação formal. Como já se faz experimentalmente nalgumas escolas, sob aplauso de João Costa.

E afinal de contas, para quê tanta burocracia escolar? Articulações, monitorizações, reuniões, formações – para quê a sobrecarga de trabalho dos professores sem qualquer compensação ou respeito, sequer, pelos seus direitos profissionais? A perspectiva dos governantes é que o êxito escolar só se consegue obter desta forma: detectando as dificuldades dos alunos para agir em função delas, reconduzindo todo e qualquer aluno que não aprende à senda do sucesso. Claro que, na prática, sem acréscimo de meios, e com um corpo docente cada vez mais envelhecido, cansado e desmotivado, a única coisa que se consegue é uma escola mais facilitista: se é para passar toda a gente, pensa o professor assoberbado com as suas seis ou sete turmas e quase duas centenas de alunos, mais uma montanha de fichas e trabalhos para avaliar, para que vou estar à procura de problemas que não terei forma de resolver?

Claro que João Costa nega a acusação de facilitismo: ele quer o melhor dos mundos, mas sem gastar mais dinheiro – que os alunos aprendam bem e que não “chumbem”, e que as escolas resolvam, com o passe de mágica da “autonomia”, não só a carência de recursos próprios, mas também as que são inerentes aos próprios alunos e ao meio social e familiar de proveniência. Nalguns momentos, o discurso torna-se claro como água: a autonomia a 100% surge na condição de haver sucesso a 100%. E como tal é apertadamente controlada pelo ME, que criou ainda um sistema pelo qual as escolas participantes no processo se policiam umas às outras – ou se “monitorizam”, para usar a terminologia eduquêsmente correcta…

Por detrás do discurso do sucesso a todo o custo e a qualquer preço – baseado na noção falaciosa dos custos e da ineficácia das retenções, ou na simples “crença” de que repetir um ano é uma estratégia que não funciona – está uma ideia que é tão determinista como a dos adeptos da “linha dura” do ensino rigoroso e exigente, dos exames padronizados e das retenções. De facto, uns e outros desvalorizam, embora de forma diferente, a vontade e o esforço do aluno. Uns porque, apesar de tentar e dar o melhor de si mesmo, não atingiu as “metas” estabelecidas. Outros, porque acham que se falhou foi apenas porque a escola não usou as estratégias ou propôs os desafios adequados para aquele aluno em concreto.

Os adeptos do sucesso a 100% acreditam que podem “obrigar” o aluno a ser bem sucedido, mesmo que ele o não queira. Que conseguem resolver na escola as carências de crianças com famílias desestruturadas e manter todos os adelescentes no sistema educativo até aos 18 anos, aprendendo as diferentes matérias e cultivando as competências do “perfil”, mesmo que esses jovens tenham outros interesses e simplesmente não estejam para aí virados.

Os eduqueses socialistas olham para o aluno como um sujeito passivo, que pode ser eficazmente doutrinado nas virtudes da cidadania ou aprender qualquer coisa que a escola decida ser adequada para ele, independentemente do seu esforço e da sua vontade de aprender. Que não precisam de tornar mais justa a sociedade ou mais equitativa a distribuição de rendimentos, nem de melhorar as más condições que muitas famílias têm para criar os filhos. Que tudo se consegue com sucesso fictício, fabricado nas escolas, para OCDE ver…

Sinais…

Sejam sinais de aviso ou de perigo, a onda inusitada de greves mostra que o governo sustentado na geringonça não está a saber gerir expectativas criadas ao longo da legislatura. Esta aproxima-se a passos largos do seu termo e, se a situação económica do país melhorou significativamente, os cidadãos sentem ainda muito poucos efeitos concretos dessa melhoria.

A sensação que se tem é que tudo o que tem sido conseguido está ainda muito preso por arames: o défice reduziu-se à custa dessa austeridade encapotada que são as cativações, a dívida continua entre as maiores da Europa, a economia continua dominada pelo capital estrangeiro e, apesar da elevada carga fiscal, sobra muito pouco dinheiro para as despesas públicas essenciais, pois a dívida, a corrupção, as fraudes bancárias e as parcerias ruinosas com os privados deixaram uma pesada herança que continua a condicionar o presente e a hipotecar o futuro.

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© Henricartoon

Reuniões de avaliação, dia 1

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Não sei se será preciso mandar umas fumaças, como sugere o cartoon do sempre inspirado Paulo Serra, ou se será necessária uma sessão prévia do mindfulness agora tão em voga nalgumas escolas…

Mas há uma enorme irracionalidade nesta obsessão de transformar as reuniões de avaliação em sessões de produção e verificação de papelada.

Uma azáfama que começa muitos dias antes, com os directores de turma a recolher todo o tipo de informações – relatórios, justificações, participações, monitorizações – e quase sempre se prolonga por mais umas horas, depois da reunião terminada – é preciso conferir pautas e registos, finalizar a acta, imprimir documentos…

Continuamos presos – ou melhor, querem-nos prender – à ideia de que transformamos a realidade, não através da acção, mas escrevendo sobre ela. Perante a falta de meios para construirmos a escola que realmente queremos, criamos no papel a escola virtual onde tudo funciona às mil maravilhas…

Pensamento do dia

aulaCrença da inovação educativa do século XXI: quanto mais simples, rápida, divertida e fácil for a aprendizagem, melhor.

Evidência empírica: quanto mais difícil e maior esforço exija por parte do aluno, mais duradoura e sólida será a aprendizagem.

Enfermeiros e professores, a mesma luta?…

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Apesar de as duas profissões serem bem distintas, há alguns paralelismos que se podem observar entre as recentes lutas laborais dos professores e dos enfermeiros portugueses.

São dois dos mais numerosos grupos profissionais da administração pública. Ambos assistiram nos últimos anos, embora de formas diferentes, à desvalorização remuneratória da profissão. No caso dos professores, através da criação de sucessivos entraves à progressão na carreira. Aos enfermeiros, com a recusa em dar expressão, a nível salarial, ao carácter altamente especializado que a profissão tem vindo a adquirir e ao papel fulcral que os enfermeiros hoje desempenham no serviço nacional de saúde.

Perante a falta de resultados das lutas convencionais, ambas as classes profissionais adoptaram, este ano, processos de luta mais selectivos e eficazes na defesa dos seus interesses. Os professores resolveram tirar partido da importância dos conselhos de turma na avaliação interna dos alunos, boicotando o seu funcionamento através de uma greve prolongada a este serviço. E os enfermeiros concentraram o seu esforço na paralisação dos principais blocos operatórios do país. Num e noutro caso, organizaram-se fundos de greve para que os colegas pudessem compensar financeiramente os que, em nome de todos, fazem efectivamente a greve.

No caso dos enfermeiros, o grau de determinação e mobilização estará a ser eventualmente superior, e embora a influência política seja aqui mais forte – são notórias as ligações dos principais mentores e apoiantes ao principal partido da oposição – percebe-se que o Governo não conseguirá desmobilizar o pessoal em greve com umas ameaças veladas ou ordens de serviço ilegais, como fez com os professores.

Repete-se, contudo, uma táctica já usada pelo Governo contra a greve de longa duração dos professores: deixar correr, apostar no desgaste dos grevistas, esperar que a opinião pública, influenciada pela propaganda e pela imprensa amiga, se volte lentamente contra os profissionais em greve, isolando-os e desmoralizando-os. Uma táctica que pode ter algum impacto nos professores, sempre muito sensíveis à questão da “imagem” e do “respeito” que gostam de cultivar junto da sociedade, mas que não me parece que surta grande efeito com os enfermeiros: estes sabem que contam acima de tudo consigo próprios e que o respeito que pretendem para si e para a sua profissão passa, acima de tudo, por se fazerem respeitar.

O exemplo de unidade e determinação dos enfermeiros, o ineditismo e a dimensão da operação de crowdfunding, o distanciamento das centrais sindicais, a vontade já demonstrada de prosseguir uma luta justa: tudo isto está a abrir sérias fracturas na paz podre que a geringonça instalou nas políticas sócio-laborais. O engonhanço negocial com que o Governo, durante três anos, entreteve os sindicatos, é hoje uma fórmula esgotada perante reivindicações justas e demasiadamente adiadas dos trabalhadores.

Também fica exposta a profunda hipocrisia do PS e de amplos sectores da direita perante o direito à greve, que em teoria todos aceitam, mas que na prática pretendem condicionar ou mesmo proibir sempre que os trabalhadores mostram ser capazes de fazer um uso inteligente e eficaz desta forma de luta. Querem o contra-senso absurdo de greves que não prejudiquem ninguém…

Contudo, a verdade é só uma: se uma greve está a causar prejuízos excessivos e inaceitáveis, isso não é culpa dos trabalhadores que exercem, dentro da legalidade, um direito constitucional. Revela apenas a incompetência do Governo em resolver os problemas de fundo que estão na sua base. E também, e cada vez mais, a sua cobardia política: agora sem um colégio arbitral para lhe fazer o trabalho sujo de transformar serviços mínimos em serviços máximos, o Governo hesita perante a hipótese de arcar com os custos políticos de decretar a requisição civil dos enfermeiros.

Acima disto tudo, permanece a questão essencial: se os enfermeiros fazem tanta falta nos hospitais e centros de saúde, se o seu trabalho é tão importante que a sua ausência coloca em risco a saúde e em casos extremos até a vida dos doentes, o que se espera para pagar dignamente as funções especializadas que os enfermeiros desempenham?

Ao persistir no braço de ferro com os enfermeiros, em vez de negociar seriamente com os seus representantes sindicais, o que o Governo demonstra é que prefere gastar milhões com os hospitais privados, na realização das cirurgias que agora estão a ser adiadas, do que investir esse dinheiro no sistema de saúde público e na valorização dos seus profissionais. É destas, e doutras coisas, que deveremos pedir-lhes contas no próximo acto eleitoral.