Um testemunho eloquente

Com um olhar lúcido e discurso a um tempo emotivo e assertivo, Armindo Olveira escreve, no Diário do Minho, sobre a escola que temos. Confrontando-a com a de um passado ainda não muito distante que este professor, já aposentado, recorda com saudade.

“Vim-me embora na altura certa” – quantos de nós ouvimos já esta afirmação, vinda de colegas estimados, profissionais empenhados e competentes que teriam ainda muito para dar à escola pública, mas irremediavelmente desencantados com o rumo que a política educativa, nos últimos 15 anos, têm vindo a tomar?

Consensualizada a importância de uma boa educação para enfrentar os desafios e as incertezas que o futuro nos reserva, nunca a sociedade, no seu todo, se mostrou tão exigente com a escola na formação das novas gerações. E, no entanto, nunca essas exigências se expressaram de modo tão contraditório e desacompanhado dos meios para concretizar as mudanças que todos acham necessárias…

Estou fora do sistema educativo há uns anos. Ainda hoje antigos colegas me perguntam se tenho saudades da Escola. Saudades da minha Escola,… claro. Fico, entretanto, pensativo, hesitante, um pouco absorto até, perante a questão, se bem que a minha resposta, já bem interiorizada, se mantenha sempre a mesma: Qual Escola? A Escola das burocracias, dos planos e dos projectos? Das reuniões intermináveis e maçudas? Das actas “alençoladas”? Da papelada infernal?

Desta Escola não tenho qualquer saudade. Nenhuma. O mesmo não acontece com os alunos e com os pais. Todos os alunos e a maioria dos pais. Sempre foram correctos comigo. Há sempre uns pais mais metediços e impreparados que estorvavam. E estorvam. Sempre tive relações espectaculares com a comunidade educativa por onde lecionei. Não deixei “rabos de palha”, nem contas por ajustar. Cumpri a minha “missão”.

1 – Tenho saudades, claro, da Escola em que o professor tinha “alguma” autoridade e em que os alunos eram disciplinados. Da Escola em que o professor era respeitado e até acarinhado pela comunidade educativa. Da Escola que se envolvia em actividades extracurriculares com gosto e entusiasmo. Da Escola em que os docentes motivados partilhavam experiências, vivências e saberes, numa atmosfera de bem-estar e de compreensão. Sim, da Escola participativa e viva. Da Escola em que os alunos eram o foco das preocupações dos seus professores e estes sabiam estar numa sala de aula como devia ser. Sim, desta Escola tenho saudades. Sem dúvida!

2 – Segundo informações que vou recolhendo junto de professores no activo, esta Escola, que esbocei simplesmente, uns retoques, acabou. Até me dizem que saí do sistema educativo na hora certa. Dizem mais: já não aturo a indisciplina, a falta de autoridade, a enormíssima carga burocrática, os pais zangados. A desmotivação docente é notória e influencia fortemente a acção pedagógica no dia-a-dia. Não é por acaso que as “baixas” por doença são uma marca bem negativa e real no momento educativo actual. Não é por acaso que não há professores para cobrir todas as necessidades da Educação. Não é por acaso que escasseiam candidatos a professores. Não é por acaso que há uma excessiva ingerência dos pais na vida escolar. Não é por acaso que a Escola se debate com problemas de violência e tem alunos sempre insatisfeitos e “desordeiros”. Nada é por acaso. Há causas e os efeitos estão à vista de todos.

3 – A Escola de hoje foi pensada para “amansar” os professores. “Amansá-los” nos salários, na progressão da carreira, no seu trabalho pedagógico, na sua influência socializadora, formadora e cultural. Havia a intenção de os contorcer e torná-los simples funcionários públicos, com todo o respeito pelos funcionários públicos. Os professores são, claramente, actores importantes e imprescindíveis na mudança de mentalidades e na construção de um país mais equilibrado, crítico e mais insubmisso. E esta influência e importância retratou-se durante o período pandémico, em que a capacidade dos professores – de trabalho, de inovação, de querer – veio ao cima. Mostrou a toda a gente que não há Escola sem professores.

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Como avaliar o trabalho docente?

Alexandre Mano faz interessantes reflexões acerca da avaliação do trabalho docente, uma profissão em que os resultados dificilmente se conseguem medir objectivamente. Desde logo, porque boa parte do trabalho do professor é solitário e invisível: preparar aulas, materiais pedagógicos e instrumentos de avaliação, orientar e avaliar trabalhos de alunos, cumprir as exigências da burocracia escolar…

Na escola trabalha, em regra, longe dos olhares de colegas e direcção. E mesmo com os alunos a relação é ambivalente: a empatia é um ponto importante na relação pedagógica, mas no dia-a-dia de um bom professor impõe-se a necessidade de incentivar e motivar os alunos a querer saber e fazer mais, a ir mais longe na busca de conhecimento e na compreensão e aplicação do que se aprende nas aulas.

Em suma, ser bom professor não é assumir-se como o bonzinho que evita aos alunos esforços e canseiras e faz vista grossa às suas falhas e disparates; é cultivar na sala de aula aquele ambiente de ambição e exigência moderadas que leve cada um a progredir dando o seu melhor, sabendo-se à partida que nem todos aprenderão ao mesmo ritmo ou alcançarão os mesmos resultados.

Muitos alunos são capazes de reconhecer, à posteriori, os bons professores que tiveram no seu percurso escolar e o que estes fizeram por si. Mas como identificar, de uma forma mais simples e imediata, as boas práticas de cada docente?

A resposta mais comum a esta necessidade passa pela apresentação de “evidências”, mas esta solução mais facilmente identifica os habilidosos na produção de registos escritos e de folclore escolar do que a qualidade e a relevância científica e pedagógica das actividades desenvolvidas. Ou o efectivo contributo para a melhoria das aprendizagens dos alunos. E rapidamente desemboca num aumento exponencial da burocracia escolar.

Sem a preocupação de encontrar uma resposta definitiva, o nosso colega deixa o convite à reflexão…

Um pedreiro faz um muro e o muro lá fica; um marceneiro constrói uma mesa e passa-se o mesmo. O trabalho das artes manuais é duradouro.

Há quem seja avaliado pela performance. Um atleta, um advogado ou até mesmo um médico podem apresentar o resultado do seu trabalho em quantidades.

E há quem venda produtos. Para estes também se pode medir a capacidade de trabalho em horas e receitas.

E um professor? Como se mede o trabalho de um professor?

Vem esta reflexão atrelada ao facto de ter concluído a formação de uma turma do ensino profissional que acompanhei do 10º ao 12º ano. Consultados os meus apontamentos, foram mais de 500 horas com cada um dos alunos só em sala de aula, sem contar com outros contextos, como estágio, trabalho de projeto final, recuperações, etc.

Chegando ao fim deste ciclo, pergunto-me: o que fiz eu que fosse mensurável, que se possa quantificar, que objetivamente tenha feito a diferença?

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O desencanto dos professores

Paulo Prudêncio continua a brindar-nos com as suas reflexões profundas, fundamentadas e estimulantes acerca da educação e dos professores. Esta semana, em artigo no Público partilhado também no seu blogue Correntes, o mote é o desencanto dos professores. Como é que uma profissão que continua, apesar de tudo, a ser socialmente valorizada, que ao longo do tempo sempre despertou vocações e que tem potencial para assegurar uma plena realização pessoal e profissional a quem gosta de a exercer, caminha a largos passos para uma situação de défice estrutural de professores qualificados?

A tentativa de explicação, como sucede em geral com todos os fenómenos sociais de alguma complexidade, exige algum recuo no tempo.

Pensemos no início do milénio. Quando se exigia das políticas educativas mais cooperação, mais inclusão e menos representatividade, aplicou-se o oposto. Antecipou-se as tais armas da democracia – divisão e separação na carreira e na avaliação – e eliminou-se a democracia directa através de um modelo de gestão exclusivamente representativo. Optou-se pelo taylorismo (poucos pensam e avaliam, muitos executam) do início do século XX em detrimento do moderno achatamento das organizações do século XXI.

E como a competência eleitoral passou para os conselhos gerais das escolas, rapidamente a falta de massa crítica, associada à ausência de mecanismos de audição da vontade dos representados, promoveu arbitrariedades, mais injustiças e mais desencanto. É que se a democracia é a vontade da maioria em respeito pelas minorias, nas escolas abriu-se a porta à vontade das minorias em desrespeito pelas maiorias. Um reduzido número de eleitores passou a escolher um ainda mais reduzido número de representantes e abriu espaço para a autocracia.

Como hoje se comprova, a eliminação da eleição directa também sustentou os outros dois instrumentos de divisão: degradação e precarização da carreira e avaliação que exclui.

Há um antes e um depois da passagem de Maria de Lurdes Rodrigues pelo ME, a verdade é que a ministra de Sócrates deu corpo e ousadia a uma política de domesticação dos professores e da autonomia das escolas que já antes se enunciava. E nenhum governo dos que se lhe seguiram fez qualquer esforço, antes pelo contrário, para reverter as grandes linhas de uma política educativa assente no super-poder dos directores, nos mega-agrupamentos, na precariedade docente, na carreira armadilhada, na avaliação docente punitiva e vexatória. E nem o reconhecimento público em 2015, por parte de António Costa, das injustiças cometidas pelo PS contra os professores motivou uma reversão, ainda que parcial, das políticas hostis à classe.

Quando quase todos apontam um novo mundo educativo, feito de tecnologia e emoções positivas, como a solução para superar os bloqueios e as frustrações do presente, Paulo Prudêncio tem a ousadia de fazer uma sugestão contra a corrente, que pela minha parte subscrevo sem reservas: em vez dos amanhãs que cantam, tomar a escola de há vinte anos atrás como referência seria um bom começo para resolver a falta de professores e outros problemas estruturais da educação portuguesa.

A guerra segundo Edgar Morin

Vivemos uma paz guerreira, os nossos corpos instalados na paz, os nossos espíritos entre bombas e escombros. Atacamos um inimigo com palavras e ele ataca-nos com ameaças, mas nós dormimos numa cama e não num abrigo.

Edgar Morin, filósofo francês de origem judaica, completou já 100 anos de vida, mas a idade não lhe retirou lucidez na análise que faz da guerra na Ucrânia. Um texto ponderado, sensato e equilibrado, que evita o exagerado emotivismo e começa por recordar o óbvio: há na Europa uma onda de solidariedade sem reservas com o povo ucraniano, vítima insofismável da invasão russa. Mas enquanto uns, protegidos pelo guarda-chuva norte-americano, recebem da Rússia apenas ameaças e bravatas inconsequentes, os outros vão vendo as suas cidades e as suas vidas paulatinamente destruídas pelos bombardeamentos.

Recorda-nos também alguns padrões das guerras soviéticas, que persistem no novo império em formação: os ataques massivos de artilharia, as violações em massa, a linguagem do terror. E nota que a guerra, à qual o envio de armamento ocidental para a Ucrânia atenuou o desequilíbrio de forças inicial, está agora para durar. Embora uma guerra nuclear global seja um cenário improvável, pela garantia de destruição mútua que implicaria, Morin não põe de parte nem o recurso a armas nucleares tácticas, de alcance mais limitado, nem o alastramento do conflito a países vizinhos. E considera inevitável uma maior restrição de liberdades e o aumento da vigilância dos estados sobre as populações.

Para escapar à lógica infernal da guerra, o filósofo francês vê numa paz de compromisso que inclua a neutralidade da Ucrânia e cedências territoriais legitimadas por referendo a única solução viável. Mas recorda que as imensas riquezas do solo ucraniano aguçam o apetite das superpotências. E integra a busca de uma paz estável no quadro mais vasto das complexas relações entre as grandes potências e os problemas geopolíticos da Europa de Leste, que a desagregação abrupta da URSS e do Pacto de Varsóvia deixou mal resolvidos.

A Ucrânia é mártir não só da Rússia mas também do agravamento das relações conflituosas entre os Estados Unidos e a Rússia das quais fazem parte evidentemente o alargamento da NATO, ele próprio inseparável das inquietudes suscitadas pela guerra russa na Chechénia e a sua intervenção militar na Geórgia.

A salvação da Ucrânia não está apenas na sua libertação da invasão russa, mas também em se libertar do antagonismo entre a Rússia e os Estados Unidos.

Esta dupla libertação permitiria aos países da União Europeia libertarem-se igualmente deste conflito e procurarem unir a segurança e a autonomia.

As sanções contra a Rússia, ao atingirem duramente não apenas o regime de Putin, mas também o povo russo, não sabemos até que ponto, atingem também os sancionadores voltando-se parcialmente contra eles: não é só o seu aprovisionamento em energias e em alimentação que está ameaçado, é sem dúvida, com a inflação a crescer e as restrições que virão, a sua economia e toda a sua vida social. Uma crise económica é sempre, ela própria, geradora de regressões autoritárias e da instalação duradoura de sociedades de submissão.

A Rússia de Putin é um abominável regime autoritário. Mas ela não é comparável à Alemanha hitleriana; o seu hegemonismo pan-eslavo não é, como foi o hitleriano, a vontade de colonizar a Europa e de escravizar os povos racialmente inferiores. Qualquer hitlerização de Putin é excessiva.

Nós estamos num mundo dominado pelos antagonismos entre superpotências e entregue aos delírios religiosos, étnicos, nacionalistas, racistas.

Por muito repugnantes que sejam as superpotências a diversos títulos, o apaziguamento dos seus conflitos é uma condição sine qua non para evitar os desastres generalizados. Assim, devemos aspirar a um compromisso. A humanidade não ficaria a salvo; ganharia uma prorrogação e, talvez, uma esperança.

Pensamento do dia

Nós, professores, queremos criar cidadãos autónomos e críticos, mas, em vez disso, estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento, sem léxico. Estamos vendo o triunfo de uma religião tecnocrática que evolui para menos conteúdo e alunos mais idiotas. Estamos servindo a tecnologia e não a tecnologia a nós. O professor está exausto, devorado por uma burocracia para gerar estatísticas que lhe tira a energia mental para dar aulas.

Andreu Navarra

Notas sobre a guerra na Ucrânia

O sentimento nacional que, segundo Putin, seria inexistente neste país artificial, está a ser insuflado, em ritmo acelerado, com a invasão russa. Obrigando os ucranianos a lutar pela sua pátria, Putin terá já perdido definitivamente a antiga república soviética que queria atrair para a sua órbita.

Com esta crise, o mundo ocidental volta a aperceber-se dos riscos da economia de casino e da desregulação dos mercados financeiros de são a base do poder dos oligarcas russos que mantêm o regime corrupto e violento de Moscovo. Cortar os fluxos de dinheiro sujo que alimentam o tráfico de pessoas, armas e drogas, a criminalidade mafiosa, o terrorismo e as ditaduras sanguinárias é imperativo para construir, de forma consistente, um mundo mais pacífico e seguro.

Fugidos às centenas de milhares para os países vizinhos, a Polónia já aceita os refugiados no seu território. Por enquanto apenas os mais branquinhos, ucranianos legítimos – negros e orientais são barrados na fronteira e mandados para trás – mas já é um bom começo.

Após as hesitações iniciais, a União Europeia parece começar a concertar posições e a falar a uma só voz na questão ucraniana e nas sanções e restrições contra a Rússia.

Independentemente das razões que levaram à guerra, a partir do momento em que ela é real o urgente é ajudar o povo que está a ser atacado e todos os que legitimamente defendem o seu território. Usando de todos os meios legítimos para enfraquecer política e economicamente o agressor, forçando-o a parar a guerra.

Invasões e agressões não devem ser aceites como forma de resolver diferendos entre povos e nações, ou simplesmente entre facções da elite política e financeira dominante à escala global. Acabar com todas as guerras deveria ser um imperativo civilizacional em pleno século XXI. E isto aplica-se tanto à guerra na Ucrânia como a todos os outros conflitos que subsistem no mundo. A guerra no Iémen, de que pouco se fala. O lento genocídio do povo palestiniano. Ou, aqui tão perto de nós e tão esquecida, a opressão marroquina sobre o povo saraui.

Recentrar a escola

Paulo Prudêncio analisa, em artigo de opinião no Público e também no seu blogue, a decadência da escola no mundo ocidental. A Educação, um sector que já foi essencial e estratégico nas políticas económicas e sociais, sobrevive hoje, como diria o poeta, em apagada e vil tristeza: subfinanciamento, turmas numerosas, experimentalismo irresponsável e permanente, falta estrutural de professores. Acrescento: não existe uma política educativa digna deste nome, o investimento público no sector anda próximo do zero e, prova definitiva da irrelevância e da quase marginalidade a que o sector foi confinado: qualquer nulidade, sem peso político nem conhecimento do sector, pode chegar a ministro. Como se viu ao longo dos últimos seis anos.

O nosso colega é muito claro a assinalar algo que a outros tende a levantar pruridos: foi uma sucessão desastrosa de políticas e políticos de direita que nos fizeram chegar ao ponto em que nos encontramos. Desde Reagan e Thatcher, a escola pública tem vindo a ser delapidada de meios e recursos, promovendo-se cortes sucessivos na despesa ao mesmo tempo que se desviavam verbas para o financiamento público de escolas privadas, supostamente de maior qualidade e melhor gestão. Uma tendência que também pegou por cá, com o gradual desinvestimento na escola pública e na carreira dos professores, a par do florescimento dos contratos de associação e com David Justino, ex-ministro, ex-conselheiro da Educação, uma verdadeira eminência parda da educação à portuguesa, a afirmar em 2004 “que só não contratava pessoas como João Rendeiro, do BPP, para dirigir as escolas porque não tinha dinheiro para lhes pagar”. A memória é curta, e por isso há afirmações que, colando-se irremediavelmente a quem intencionalmente as profere, é sempre oportuno recordar…

É […] irrefutável que a escola pública portuguesa é governada por políticas da direita quase radical que falharam redondamente e que “negaram” os progressos alcançados no século XX. É também evidente que os imutáveis três instrumentos referidos – estatuto da carreira, gestão das escolas (agravada com impensados agrupamentos) e avaliação dos professores – são responsáveis pela fuga a ser professor. Para além disso, a redução de professores “prometida” pela digitalização não só tarda em acontecer como agrava as desigualdades educativas. Aliás, percebe-se uma dicotomia eloquente: enquanto nas escolas das elites o tempo está suspenso, a atitude perante o conhecimento é clássica, as turmas não são numerosas e o digital é um auxiliar usado com critério, nas escolas das restantes classes os conteúdos digitais são massificados e as turmas numerosas.

Conclui-se que é imperativo recentrar as políticas educativas. Por exemplo, Olaf Scholz, o novo chanceler da Alemanha, já sente o aumento brutal das desigualdades educativas e da falta estrutural de professores que atingiu primeiro os EUA e o RU. Defende as teses de Daniel Markovits e Michael Sandel muito críticas da meritocracia. Sabe que a armadilha meritocrática bloqueou o elevador social. O investimento financeiro conta mais do que o talento e o esforço e criou um fosso crescente entre as elites e as restantes classes que resultou na polarização política que expôs os votos dos excluídos a demagogos autoritários. Há um contraditório que teme pela recuperação de modelos totalitários de esquerda onde, diz-se, não existia meritocracia. É falso. Havia meritocracia. Só que nesses regimes o investimento financeiro foi trocado pela ascensão no partido único com os resultados que também se conhece.

Não se trata, portanto, de buscar receitas antigas. Trata-se, desde logo e antes que seja demasiado tarde, de reequilibrar, redistribuir melhor, investir na educação pública, democratizar o ambiente escolar e olhar para o futuro com as lentes do optimismo e da não desistência. Seria um perigo para a democracia se o PS teimar em não recentrar a escola.

Pensamento do dia

Sempre me incomodou algo que costuma ser aceite de ânimo leve: que a escola deve ensinar o aluno a “ser”.

Ensinar a ser, num contexto em que o ideal de “ser” vem completamente definido pelos valores impostos por um sistema socio-económico injusto, é simplesmente reproduzir esse sistema.

Adaptado daqui.

Pensamento do dia… de reflexão

Falou-se de liberdade ao longo da campanha eleitoral, ideia instrumentalizada e trazida quase sempre à baila pelos partidos da extrema-direita. Mas é um conceito pobre e muito limitado de liberdade o que cheganos e liberais nos trazem: reduz-se à liberdade económica e já nem é, como no liberalismo clássico, o de cada um pagar do seu bolso as escolhas que faz livremente. Agora, o que se espera é que o Estado, ao mesmo tempo que baixa impostos a quem tem mais rendimentos, pague as escolhas dos cidadãos. E que estes obtenham através dos mercados o acesso à Saúde ou à Educação.

Mas a liberdade não é isto. Liberdade não é transformar direitos universais dos cidadãos em negócios chorudos. Liberdade, no século XXI, passa por assegurar, através de uma política justa de rendimentos e das garantias do Estado Social, as condições de base para uma vida digna para todos: alimentação, habitação, saúde, educação.

Depois de 48 anos de ditadura, as gerações que viveram a Revolução de Abril tinham poucas dúvidas acerca do valor da liberdade. E desta, um entendimento bem mais abrangente do que aquele que nos propõe a cantilena neoliberal. Basta revisitar, por exemplo, a Liberdade de Sérgio Godinho, uma cantiga que hoje me acompanha nas reflexões pré-eleitorais.

Pensamento do dia

Entra alguém entra numa padaria sem dizer bom dia, bate com a porta, fala aos gritos, atira qualquer coisa ao chão e não a apanha, passa à frente da fila, exige que lhe dêem o pão, resmunga ao pagar ou insulta outro cliente… Dizemos ao padeiro que é normal e o respeito tem que ser conquistado?

Ninguém aceita esta normalidade, a não ser em certos contextos educativos, onde se insinua demasiadas vezes, aos professores, que têm de conquistar, da parte dos seus alunos, o direito a ser respeitado.

Claro que a missão da escola também é educar no respeito e nas boas maneiras aqueles que não trazem educação de casa, e muito se poderia dizer a este respeito. Mas a convicção que tenho é que a escola perde demasiado tempo a tentar, em vão, educar os mal educados. Na vida real aprendem, em meia dúzia de dias, o que a escola, ao fim de doze anos, não lhes conseguiu ensinar. Porque ninguém está disposto admitir-lhes nem metade do que os professores lhes aturam.