Qual é a melhor ferramenta?

cx-ferramentas.jpgOs nossos colegas espanhóis continuam imparáveis, no Twitter, a desmontar falsos mitos educativos. Com a clarividência que quase sempre tem faltado aos lusos e conceituados cientistas da educação

Perguntar qual é o melhor método de ensino ou aprendizagem é como perguntar qual é a melhor ferramenta da caixa de ferramentas.

Em pedagogia, a receita universal não existe. Como nota Héctor Ruiz Martin, nenhum método consegue ser eficaz para todos os alunos, em todos os contextos e em todas as situações de aprendizagem.

Da mesma forma que o técnico escolhe, na caixa de ferramentas, a mais adequada ao trabalho que pretende realizar, também o professor, o único e verdadeiro especialista em Educação, deve seleccionar o método de ensino mais eficaz em cada circunstância, tendo em conta as características do grupo de alunos e os conteúdos que pretende desenvolver.

Por outro lado, seja ela mecânica ou educativa, não basta escolher a ferramenta apropriada. É preciso usá-la adequadamente. Assim como existem formas correctas e incorrectas de fazer uso de um martelo, um serrote ou uma chave de parafusos, também em pedagogia não basta invocar os pedagogos ou as correntes pedagógicas em voga para garantir que estamos a fazer um excelente trabalho.

Quer isto dizer que não basta seleccionar o melhor método pedagógico: o importante, na prática, são os detalhes da sua aplicação. E aqui o colega que venho a citar dá-nos uma pista importante: qualquer método será bom, à partida, se cumprir com os requisitos básicos relacionados com aquilo que é, verdadeiramente, aprender.

Ou seja, se a aprendizagem implica procurar significado naquilo que se aprende, então um bom método pedagógico é todo aquele que coloca os alunos a pensar no que estão a aprender.

Não gostam do ministro? Houve piores…

tiago-rodriguesNão gostam deste ministro?
Qual dos anteriores é que preferiam?
Mal por mal, antes este, que pouco ou nada fez para pior.

Foi mais ou menos nestes termos que alguém comentou, no Facebook, a partilha de um post recente sobre Tiago Brandão Rodrigues.

À partida, há aqui um ponto em que o comentador terá razão: o importante não são os políticos que transitoriamente ocupam os lugares, mas as políticas seguidas pelo governo a que pertencem.

No caso da Educação, sabemos bem que o sector deixou há muito de ser considerado estratégico ou prioritário, pelo que a preocupação essencial de todos os governos tem sido conter a despesa, aplacar conflitos e focos de descontentamento e melhorar, sem alocar mais recursos ao sistema, os indicadores estatísticos de referência.

Isto significa que nenhum ministro, por mais relevante que seja o seu conhecimento, competência ou prestígio no sector, conseguirá ter margem de manobra para impor a sua política. Por isso mesmo, o cargo ministerial há muito deixou de atrair quer os barões da política partidária quer os académicos com ambições reformistas. Como muito bem explica Paulo Guinote, o acesso ao poder, influência e dinheiro para gastar faz-se mais através das secretarias de Estado e dos interesses privados instalados à mesa do orçamento educativo do que a partir do gabinete ministerial.

Podemos então concluir que, se o lugar de ministro não interessa nada, devemos deixar em paz o pobre Tiago que, apesar de acidentalmente se ter tornado ministro, até tem pinta de rapaz simpático?

Não me parece. A nomeação de um ministro notoriamente sem perfil nem competência para o cargo merece, agora e sempre, ser denunciada. Não pelo ataque pessoal, mas pelo significado político da decisão: é um sector de tal forma irrelevante para o actual poder que qualquer um serve para o gerir.

Pois ao fim de quatro anos não vimos, da parte de Tiago Brandão Rodrigues, uma única iniciativa relevante, um único gesto revelador de determinação, uma só demonstração de capacidade de liderança.

Colocar uma marioneta à frente de um ministério é sempre um sinal de que se pretende mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Manter inalterados os consensos de regime alcançados e permitir que os lobbies e outros poderes ocultos se continuem a movimentar na sombra e a fazer prevalecer as suas vontades e os seus interesses.

Ou será que já somos um país tão rico e tão bem governado, que até nos podemos dar ao luxo de ter ministros que apenas fingem governar?

Menos crianças e mais adultos infantis

wuant.gifA média etária aumenta incessantemente, a população envelhece, mas os traços adolescentes permanecem numa porção significativa de sujeitos adultos. A juventude converteu-se em ícone de culto, objecto de incessante elogio, de veneração. O grave não é que as pessoas tentem aparentar juventude física, recorra em excesso à cirurgia estética ou aos implantes capilares. É mais preocupante o afã de uma crescente percentajem de adultos no cultivo consciente da sua própria imaturidade.

É um fenómeno paradoxal da sociedade dos nossos dias.

A busca activa da eterna juventude leva a que algumas adolescências se prolonguem, indefinidamente, pela idade adulta. Os próprios comportamentos dos adultos tendem a infantilizar-se – veja-se a popularidade crescente dos videojogos, dos filmes de aventuras, dos super-heróis, da moda adolescente, entre gente de outras idades e gerações.

A maturidade que acompanha o crescimento e se adquire com a responsabilidade e a experiência de vida é um valor em queda. E um número crescente de decisões com impacto na vida colectiva são tomadas, não com base no conhecimento e na ponderação, mas no impulso e na emoção do momento.

Ao mesmo tempo, pressente-se o crescimento de um certo sentimento de rejeição em relação às crianças. Desde os casais que por opção não querem ter filhos – o que em si mesmo é uma decisão legítima, apenas se torna notória por ser hoje assumida por tanta gente – até ao conceito cada vez mais em voga dos hotéis adults only, nota-se um crescente incómodo com a presença de crianças.

Ou melhor: a criança que está sossegada e silenciosa com o telemóvel ou a consola de jogos aparentemente não incomoda. O que perturba são, isso sim, as crianças activas, que reclamam atenção daqueles que as rodeiam, que brincam, que fazem perguntas e se mostram curiosas com o mundo à sua volta. Em suma, crianças a ser crianças.

Claro que há miúdos cujos comportamentos em espaços públicos se tornam inconvenientes e incomodativos. Mas estão longe de ser a maioria e evidenciam, não um pecado original da infância ou um qualquer “defeito de fabrico” mas, sobretudo, a falta da educação que os pais não lhes souberam ou quiseram dar. O que, nestes casos, quase sempre nos diz mais sobre os adultos (ir)responsáveis do que sobre as próprias crianças.

Num mundo que nos dizem estar em acelerada mudança de paradigmas, entre a negligência de uns, a permissividade de outros e a indiferença de muitos, estaremos a educar da melhor forma as crianças do século XXI?

O futuro das Ordens

A eventual criação de uma ordem de professores é uma ideia que surge com alguma regularidade entre a classe docente.

Há uma associação quase inevitável das ordens com classes profissionais prestigiadas e bem remuneradas. Pelo que parece lógica a ideia de que a existência de uma Ordem dos Professores traria à classe a dignidade e o estatuto que lhe têm vindo a ser recusados.

A este respeito, ler o que dizem, das respectivas ordens, os profissionais que as têm, pode ser bastante esclarecedor. Dá para perceber o mal-estar de um número crescente de associados, que se vêm obrigados a integrar e a sustentar organizações nas quais não se revêem, as quais servem acima de tudo as ambições e interesses políticos de quem por lá passa.

Em boa verdade, do que muitos trabalhadores sentem falta é de sindicatos mais fortes e representativos. Contudo, uma ordem profissional existe, não para defender a classe profissional, tal como fazem os sindicatos, mas para regular a profissão, impondo regras, deveres e, se necessário, sanções aos seus membros. Tudo isto em troca da licença para exercer a profissão.

Depois de pensar bem no assunto, quem é que ainda quer ser posto na ordem?…

Todos contra Pardal

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A invulgar ousadia e determinação dos camionistas, na sua luta por melhores salários e condições de trabalho, já levou a que, na luta mediática que nestas alturas sempre se trava, se começasse a recorrer ao jogo sujo para tentar desmoralizar a classe e os seus representantes. Isto sucede quando, em vez de se discutirem a justeza das causas, as posições em conflito e as possibilidades de entendimento, se parte para o ataque directo aos sindicalistas.

Neste caso, tem estado debaixo de fogo o porta-voz dos camionistas de materiais perigosos. Têm sido lembradas algumas situações dúbias e eventualmente delituosas relacionadas com o passado de Pardal Henriques, enquanto empresário de empresas falidas. Mas é atacado sobretudo por falar nome de uma classe a que não pertence: não é, nunca foi, ele próprio, um camionista.

Aqui, há uma coisa que deve ficar clara: faz parte dos princípios inalienáveis do sindicalismo que os sindicatos sejam formados e dirigidos exclusivamente por membros da classe profissional que representam. Mas isso não impede que possam ser assessorados, em matérias específicas ou de especial complexidade, por profissionais especializados. É cada vez mais o caso, hoje em dia, das “greves a doer”: as armas jurídicas a que Governo e patronato recorrem com cada vez maior intensidade para anular efeitos das greves torna praticamente impossível conduzir eficazmente a luta, do lado dos sindicatos, sem o apoio permanente de juristas especializados em direito laboral. Mas ninguém questiona o currículo ou a probidade moral e cívica de quem é contratado para a trincheira governamental ou patronal como se faz sistematicamente com as figuras de proa do movimento sindical.

Claro que seria muito mais fácil para governantes e patrões negociar com sindicalistas em part-time. Bem melhor lidar com o amadorismo de representantes genuínos, mas técnica e politicamente impreparados, do que enfrentar juristas argutos e sindicalistas tarimbados e carismáticos.

Aliás, o ataque ao líder dos camionistas que não tem carta de pesados é muito semelhante, na sua essência, ao que é regularmente alimentado, nalguns sectores, contra os representantes dos professores que há muitos anos não dão aulas. Mas não se diz, por exemplo, que a associação do ensino privado se faz representar por um dirigente que não é proprietário nem director de qualquer das escolas associadas. Nem mereceu grande atenção pública a tentativa, aqui há uns anos, de alteração de estatutos da CONFAP, destinada a permitir que o seu eterno líder, Albino Almeida, continuasse como eminência parda a dirigir a confederação, mesmo já não tendo filhos em idade escolar.

Quer como espectador atento das lutas sociais e políticas que ocorreram no país nas últimas décadas, quer como participante directo naquelas que me disseram respeito, há um indicador que desde cedo se me tornou evidente: quando um dirigente sindical se torna, do ponto de vista mediático, um alvo a abater, há uma elevada probabilidade de que a luta em que está envolvido esteja a ter eficácia. Ou, no mínimo, a incomodar quem detém efectivo poder…

Exemplificando – e finalizando – com os professores: quantas vezes já se ouviu a converseta do em torno do “eterno líder” da Fenprof, da idade que já tem, das décadas que passou sem dar aulas ou da assumida militância partidária?… Pois bem: João Dias da Silva, o líder da outra federação de professores, a FNE, também já está há dezenas de anos afastado da prática docente. E é mais velho do que Mário Nogueira, está há mais tempo no cargo e tem igualmente filiação partidária. Quantas vezes é que já nos deparámos, nos media, com o pedido do seu afastamento?…

Como será a escola em 2100?

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Como evoluirá o sistema educativo nos próximos 80 anos? Como será a escola no limiar do século XXII?

A pergunta, colocada por Javier aos seus numerosos seguidores no Twitter, suscitou algumas respostas interessantes e que dão que pensar. Aqui fica uma breve selecção…

Para ricos: presencial, poucos alunos por professor e tecnologia, pouco ou nenhuma em idades precoces. Natureza e materiais didácticos seleccionados.
Para pobres: online e massificada. Muita pesquisa e pouca qualidade de conteúdos.

Três ou mais escolas. Uma para elites, o conhecimento para uns poucos. Outra para ricos, distribuidora de títulos. Outra para os restantes, para formar trabalhadores.

Segregadora, elitista, garante da “paz social” num mundo injusto… se não o impedirmos.

Automatizada. É que querem e estão a preparar. Isso se não colapsarmos antes…

Em catacumbas. Perseguida por ser hermética e subversiva.

Não há escola, aprendem em casa, agarrados aos gurus do youtube. O diploma é emitido pela máquina de coca-cola.

O mesmo de sempre, mas com carros movidos a hidrogénio, publicidade nas paredes e inteligência artificial por todo o lado. Mas, em linhas gerais, o mesmo. Alunos e professores…

Crónica britânica – III

Fleumáticos, snobs, reservados? Nem por isso. Acredito que em determinados meios o conservadorismo social e os preconceitos classistas continuem a impor-se, mas nos espaços públicos e no contacto casual com as pessoas, até mesmo com os estrangeiros, os britânicos mostram-se geralmente simpáticos e acessíveis. Embora ciosos do seu espaço e das suas idiossincrasias, não demonstram aquela frieza e arrogância que uma certa tradição lhes atribui. Uma ideia que já tinha desde que visitei Londres, e que associava à amálgama étnica, social e cultural que produz o carácter especial e único dos londoners, mas que afinal se confirma noutras cidades inglesas.

English breakfast. O pequeno-almoço é talvez a refeição inglesa mais conhecida internacionalmente, sendo especialmente apreciada por quem defende que a primeira refeição do dia deve ser a mais substancial. No entanto, não consigo achar piada àquelas fritalgadas de ovos, salsichas, bacon e outras comidas gordurosas com que, por aqui, se costuma iniciar a manhã. E o breakfast escocês não é muito diferente… Como é que conseguem comer aquilo tudo sem ficarem mal dispostos? Por mim, embora haja outros alimentos mais interessantes nos pequenos-almoços britânicos, ao fim de uns dias já vou sentindo saudades do pãozinho português e das nossas comidas matinais…

Pronúncia escocesa. O acento pronunciado com que muitos escoceses falam o Inglês é um traço marcante e distintivo da cultura de um povo que, ao fim de séculos de união política com o vizinho mais a sul, continua a manter orgulhosamente uma identidade própria. É algo que identificamos e apreciamos nos filmes e séries televisivas, confortavelmente apoiados pelas legendas que aparecem no ecrã. Mas quando temos mesmo de os entender, sem tradução nem legendagem, aí a coisa muda de figura, e algumas pronúncias mais cerradas tornam-se mesmo incompreensíveis para os ouvidos desabituados. Quando se viaja do norte da Inglaterra para a Escócia não se notam descontinuidades geográficas relevantes que assinalem a passagem de uma fronteira. Em contrapartida, basta começar a ouvir as vozes dos nativos para perceber que já não estamos em solo inglês…

Obras por todo o lado. É uma realidade que geralmente se associa ao boom imobiliário de Londres, mas que encontrei em todas as cidades que visitei. Enormes prédios em construção, nalguns casos quarteirões inteiros devorados pela voragem urbanística que parece varrer todo o Reino Unido. É praticamente impossível tirar uma fotografia panorâmica do centro de uma grande cidade sem que o skyline registe a presença de alguns guindastes. Para quem já viveu algo de semelhante no seu país, esta euforia tem algo de dejá vu. É verdade que a economia inglesa tem uma pujança que não é comparável à dos países ibéricos e tem até agora sustentado os grandes investimentos no sector da construção. brexit-island.jpgContudo, a maior incógnita parece estar nas consequências do Brexit e na inevitável retracção económica que provocará. Irá o imobiliário continuar a apoiar a economia real, absorvendo investimento, criando empregos e gerando mais-valias, ou as suas dificuldades acabarão, como sucedeu noutros países, por arrastar toda a economia para uma profunda crise? As dúvidas e apreensões de um Brexit agora cada vez mais provável transformam o futuro, tanto no imediato como a médio e longo prazo, numa imensa e irresolúvel incógnita…