Emotivismo educativo

A ideia de que aprender é algo de intrinsecamente aborrecido e que, em última análise, só se aprende aquilo de que se gosta, tem vindo a ser activamente promovida na agenda educativa do mundo globalizado. Para confirmar que não é só por cá, nem precisamos de ir muito longe: basta espreitar o outro lado da fronteira para constatar que também por Espanha o emotivismo educativo, desvalorizando o conhecimento em nome do primado das emoções, é uma das pedras de toque das reformas educativas que se tenta implantar.

Embora reflectindo sobre uma realidade distinta, este excerto de um texto de Alberto Royo, que traduzi e adaptei, sinaliza bem aquilo que é cada vez mais, nos tempos que correm, um combate universal: por uma escola capaz de cumprir a mais nobre das suas funções, que é a de ensinar e abrir horizontes aos seus alunos, em vez de os entreter com patranhas, mediocridade e facilitismo.

A mudança fundamental que podemos apreciar no debate educativo, e mais ainda desde a irrupção dos Globalteacherprize, é a ênfase na emoção e o desdém pela razão. Alguns vão chamar-me exagerado, vão dizer-me que a emoção e a razão não são incompatíveis….. E assim é, à partida, mas a emoção pode ser encontrada no conhecimento, na ciência e na cultura. Aprendemos a apreciar o belo através da emoção que o conhecimento nos dá (e não através de atalhos foleiros e superficiais cujo estímulo é escasso, precisamente porque não é necessário esforço para o alcançar). É tão certo que não podemos deixar a emoção de lado na aprendizagem como é verdade que estamos enganados se nos preocuparmos apenas com isto e esquecermos que quanto maior for a nossa solidez intelectual, em melhor situação estaremos para desfrutar do que vale a pena ser apreciado.

O delírio emotivista é tal que falar de exigência está associado à lista dos reis godos e ao velho ditado “a letra entra com sangue”, enquanto caímos em concepções vazias como “ensinar com o coração” (o que pensaria um cardiologista disto?) ou “educar as emoções”, o que acabará por transformar o ensino, primeiro em puro e simples entretenimento e, a seguir, em terapia. Terapia e emoções, como proclama a nossa ministra. Por acaso os nossos alunos são todos disfuncionais ou estão todos doentes? Porque transformar o professor em terapeuta vai deixar as crianças que precisam de terapia sem o profissional certo para as ajudar e a todos sem o que é essencial: conhecimento.

[…]

Voltámos a cair na sobrevalorização dos aspectos mais subjectivos, arbitrários e questionáveis da educação, quando o que é urgente é basear o nosso sistema no sólido, no científico, na evidência e na experiência dos que todos os dias dão o litro na sala de aula com o objectivo de ensinar e formar cidadãos. Os próprios psicólogos denunciam a intrusão de pseudociências como o “coaching” (soa familiar?) no seu campo de trabalho, que “poderia”, denunciam, “desorientar pacientes desinformados”. Temos estudantes (naturalmente) desinformados, que também estamos a desorientar por meio de gracejos, placebos e métodos miraculosos que não servirão para alcançar o seu bem-estar nem ajudarão a moldar uma sociedade madura, crítica e emocional e intelectualmente saudável.

Texto original e integral publicado aqui: Metamorfosis educativa y emotivismo terapéutico

Pensamento do dia

Que a escola centre a sua atenção apenas no conhecimento “útil” não é preparar os alunos para a vida, mas sim prepará-los para uma vida para que seja útil a outros.

Daqui.

A pobreza não justifica tudo

…é meritória e generosa a preocupação pandémica com os mais pobres (cerca de dois milhões que incluem 500 mil crianças). Revela sentido de Estado. E não só com as aprendizagens escolares, mas também com as refeições em dias úteis (a ironia diria que não comem nas férias nem nos fins-de-semana e feriados). Mas a pobreza não justifica tudo no não-encerramento das escolas, e no descontrolo da pandemia, nem sequer na impossibilidade do ensino à distância. Se não será fácil a condição de pobreza, a intensa mediatização das “culpas” reforçará um justo sentimento de indignação.

Recorde-se que as nações que falham durante décadas, e séculos, têm nas turmas numerosas um factor decisivo para as desigualdades. Portanto, o encerramento das escolas não aumentou as desigualdades; apenas tornou mais visíveis as existentes. O que é certo em relação a este assunto, é simples: o fecho das escolas aumentou o espaço entre as pessoas, categoria que inclui pobres, e o vírus. E a pobreza também não tem qualquer responsabilidade na inacção em medidas que reduziriam os 3 C’s dentro e fora das escolas: horários desfasados, turmas mais pequenas ou por turnos, desconcentração de intervalos, pequenas interrupções a cada quatro ou cinco semanas de aulas e redução temporária da carga curricular.

Reflexões sempre interessantes, pertinentes e inspiradoras de Paulo Prudêncio nas páginas do Público. De facto, e ao contrário do que nos diz a propaganda governamental, não é a pandemia que, por si só, aumenta as desigualdades. Apenas lhes dá maior visibilidade, evidenciando também o fracasso dos socialismos conformistas do século XXI em atacar, de forma consistente, os factores que as determinam.

Quando se opta, por exemplo, por uma escola assistencialista, que os alunos não podem deixar de frequentar, mesmo em tempos de pandemia, porque é o único local que lhes fornece uma sopa quente, essa opção reflecte o fracasso óbvio de uma intervenção a montante, garantindo a cada família condições dignas para criar os seus filhos.

Quando se escolhe, em nome de ilusórias poupanças, manter escolas com turmas numerosas, sabendo-se que esta decisão compromete os alunos mais frágeis e com maiores dificuldades de aprendizagem, impedindo a atenção individualizada e a diferenciação pedagógica, está-se a comprometer o sucesso educativo da parte mais vulnerável da população escolar.

E, é claro, a pandemia também não tem culpa da falta de computadores ou da internet aos soluços em muitas zonas do país. Essas carências já existiam antes, e se afectam acima de tudo os mais pobres, a culpa não é da doença nem da pobreza em que vive, talvez, meio milhão de crianças portuguesas. É de um governo que não fez o seu trabalho, providenciando os meios e condições necessários a um ensino à distância capaz de chegar, com qualidade, a todos os alunos.

Como muito bem recorda Paulo Prudêncio, a escolarização em massa é um fenómeno relativamente recente na história portuguesa. Muitos dos nossos pais, e seguramente a maioria dos nossos avós e bisavós, eram homens e mulheres de poucas letras, que cedo trocaram os bancos da escola pelo trabalho nos campos, fábricas e oficinas ou pelos caminhos da emigração. Mas nem a falta de estudos nem a pobreza fizeram com que educassem os filhos “com menos amor, sentido ético ou ambição escolar”. Na verdade, uma dos grandes dramas da nossa história colectiva é termos estado quase sempre, enquanto povo, uns bons furos acima da mediocridade das nossas elites. E esta é só mais uma verdade inconveniente que a pandemia tem tratado de evidenciar.

Retrocesso digital

A imagem, que colhi no Quintal de Paulo Guinote, é exemplo levado ao extremo de uma tendência preocupante que parece estar a assolar muitas escolas, nesta semana de preparação do ensino não presencial, e que me deixa perplexo: a adopção de um modelo que privilegia as sessões síncronas com as turmas, obrigando a um regime de sessões contínuas e deixando muito pouco tempo para o trabalho autónomo dos alunos e para a preparação e avaliação de tarefas pelos professores.

É desolador constatar que, aparentemente, pouco ou nada se aprendeu com o primeiro confinamento, estando-se agora, em vez de tentar melhorar os aspectos menos conseguidos do ensino à distância, que todos reconhecemos ter tido muitas falhas e insuficiências, a cometer precisamente os erros que, na altura, se tentaram evitar.

O maior de todos esses erros é, sem dúvida, em vez de reconhecer as especificidades e limitações próprias do E@D, estar-se a alimentar a ideia de que o ensino à distância, sendo por natureza menos eficaz do que o presencial, decorrerá tanto melhor quanto mais emular a aprendizagem em sala de aula. E então transformam-se as aulas presenciais em aulas virtuais com a mesma duração e sequência que têm nos horários lectivos das turmas. Depois de tudo o que já se disse e escreveu sobre o assunto, não deveria ser necessário estar a explicar porque é que isto será, além de um completo disparate do ponto de vista pedagógico, também um verdadeiro martírio para alunos e professores.

De facto, para crianças até aos dez anos, 15 minutos consecutivos será o tempo máximo que conseguirão manter-se atentos em ambiente virtual. Entre os alunos mais velhos a capacidade de concentração aumenta, mas os elementos que podem induzir dispersão e distracção também são mais variados e apelativos. É pura ilusão pegar nos horários densos, construídos propositadamente para o ensino presencial em contexto de pandemia, com as disciplinas concentradas em blocos de 90 ou 100 minutos e os intervalos reduzidos ao mínimo e achar que se consegue replicar o mesmo modelo em ambiente virtual, mantendo os alunos atentos, a olhar para um ecrã, durante uma manhã ou uma tarde inteira.

E, no entanto, dizem-nos os manuais das boas práticas e diz-nos também a experiência de três meses de escola à distância, sessões curtas e focadas no essencial são mais eficazes do que longas prelecções num Zoom pejado de rectângulos pretos. Revisões de matérias, esclarecimento de dúvidas e apresentações de trabalhos, tudo com a participação activa dos alunos, resultam mais do que um despejar de matérias que, a determinada altura, já quase ninguém está a ouvir, muito menos a compreender.

O ensino à distância vive muito, tal como o presencial, do esforço e do compromisso de cada aluno na construção do seu conhecimento. Mas para isso é necessário tempo, entre as aulas ou depois destas, para ler o manual, pesquisar, responder a fichas ou exercícios, produzir textos e outros trabalhos. Não deixa de ser irónico que o construtivismo, que tanto se tem promovido como filosofia de base das novas flexibilidades curriculares, esteja a ser liminarmente descartado no contexto da aprendizagem à distância, onde pode fazer todo o sentido.

Tal como sucedeu no ano anterior, a insistência em aplicar estratégias da sala de aula que não funcionam no ensino à distância só se poderá traduzir no paulatino afastamento dos alunos com menor motivação e maiores dificuldades, sem que haja propriamente ganhos para os restantes. Alimentar o mito de que uma escola com muitos tempos lectivos é necessariamente mais exigente apenas aumentará o fosso entre os que conseguirão corresponder a essa exigência e os que ficarão para trás.

Não sabemos ainda quanto tempo irá durar este confinamento escolar, mas percebe-se que, nos moldes em que está a ser planeado, contribuirá para aumentar o insucesso escolar. Ou, o que vai dar ao mesmo, um insucesso real transformado em sucesso fictício, funcionando as avaliações finais, tanto internas como externas, como um verdadeiro bodo aos pobres. Tal como sucedeu no ano passado.

O falhanço das turmas numerosas

quanto mais tarde se fecham as turmas numerosas numa pandemia descontrolada, pior. O seu encerramento foi fundamental na 1.ª vaga e permitiu evidências científicas: em 17 de Junho já se percebia que “uma turma de 20 contacta 800 pessoas em 48 horas” — quanto mais de 30 — e em 9 de Dezembro “concluía-se que a reabertura das escolas foi uma das decisões mais relevantes para a segunda vaga pandémica na Europa e na América do Norte”.

Além disso, desde Setembro que se observava que as escolas (por muito que se esforçassem professores, outros profissionais de educação e alunos) não cumpriam os 3 c’s (distância física, espaços fechados e aglomeração de pessoas) e que não eram avisadas as epifanias da “escola é segura” e do “está tudo a correr bem”. E num momento imperativo para palavras-chave como incerteza e humildade, havia uma “confraria pela verdade” que integrava comentadores, deputados, dirigentes escolares e dirigentes de pais, que o advogava acrescentando outro aparecimento: “Os números de infectados sobem quando as escolas encerram.”

A menos que se tivesse algum contacto divino para solicitar a falta de comparência do vírus nas escolas — “já Laplace dissera a Napoleão: na ciência Deus é uma hipótese desnecessária” —, os dados da perda de controlo da pandemia em Portugal eram taxativos: não se conheciam, em Dezembro, 87% dos locais de contágio e os universos sanitário e escolar tiveram, em Novembro, a indicação de que a “covid-19 acelerou entre a população mais jovem, que foi no grupo dos 10 aos 19 que o contágio mais cresceu com a agravante de ser nas crianças e nos jovens que se concentra o maior número de falsos negativos e assintomáticos”.

Enquanto a cadeia de contactos acelerava, o discurso recorria à historicamente insensata pedagogia da criança-rei: “A geração que está na escola não pode perder novamente semanas de aulas.” Ou seja, é uma geração que não se deve sacrificar para salvar a vida dos avós ou bisavós...

Paulo Prudêncio faz uma associação feliz entre o insucesso escolar – ou o sucesso fictício, de baixa qualidade, para OCDE ver – e o desinvestimento público na Educação, uma política que tem um dos seus traços mais evidentes na persistência de turmas numerosas, que despersonalizam o ensino e impedem a construção de respostas educativas mais eficazes.

As turmas numerosas, tal como as escolas sobrelotadas ou os horários escolares a tempo inteiro, deram também um contributo importante à difusão da pandemia, fazendo das escolas espaços não tão seguros como nos garantiam e como, efectivamente, poderiam ter sido. Bastaria diminuir o número de alunos por turma e reduzir cargas lectivas, possibilitando o desdobramento de horários e o funcionamento por turnos, de forma a permitir isolamento e distanciamento. Ou mesmo equacionar modalidades de ensino misto, conjugando o presencial com o não presencial de forma a aproveitar, dentro dos condicionalismos da pandemia, o melhor dos dois sistemas.

Em vez disto, e contrariando todas as teses que se tornaram populares nos últimos anos sobre o fim da escola, a auto-aprendizagem e o conhecimento na palma da mão, assistimos, perplexos, a uma súbita revalorização da aprendizagem presencial, da aula tradicional e do papel fulcral do professor.

O editor do blogue Correntes, desta vez a escrever no Público, chama ainda a atenção para um contraponto importante, mas quase sempre ignorado, da escola a tempo inteiro: a ausência da sociedade na Educação. Se nas sociedades tradicionais era necessária uma aldeia para educar uma criança, agora nem mesmo a família nuclear se mostra sempre à altura das suas responsabilidades. E é neste ponto que nos deparamos, numa nação de turmas numerosas e de escolas fechadas devido à pandemia, com o paradoxo de escolas que não podem fechar: elas são o garante, para muitas crianças, da única refeição quente que comem ao longo do dia.

Presidenciais 2021

De umas Presidenciais sem entusiasmo nem grandes surpresas, algumas notas soltas no rescaldo da noite eleitoral…

Marcelo Rebelo de Sousa cumpre a expectativa da reeleição à primeira volta, prosseguindo o que já se tornou tradição na democracia portuguesa no que se refere aos segundos mandatos presidenciais. Os cerca de 60% dão-lhe uma margem mais do que confortável, mas longe do quase unanimismo que provavelmente ambicionaria.

Ana Gomes consegue um honroso segundo lugar, embora com menos votos do que, em eleições anteriores, obtiveram outros candidatos fortes da área socialista. A vitória sobre André Ventura deveria levar este, se fosse homem de palavra, a abandonar a liderança do partido. Não o fará, obviamente, desde logo porque o partido é ele próprio e depois porque o seu resultado está longe de ser uma derrota: em muitos concelhos do interior desertificado e empobrecido do país, o facho aparece em segundo lugar, por vezes com mais de 20% dos votos. Significa que existe descontentamento e que há problemas reais das populações que não estão a ser ouvidos e tidos em conta pelos partidos tradicionais e que este descontentamento tenderá a alimentar, agora e no futuro, projectos populistas e autoritários, ainda que disfarçados de anti-sistémicos.

Mas, relativamente a Ventura, há mais: o candidato que agora obteve nas urnas quase meio milhão de votos poderá ter, se tivermos em conta a elevada abstenção e projectarmos este valor no total do universo eleitoral, mais de um milhão de potenciais apoiantes: ou seja, cidadãos sensíveis ao discurso securitário, racista, xenófobo e proto-fascista do líder do Chega.

Quanto a João Ferreira e Marisa Matias, embora tenham tido boas prestações em campanha – mais ele, com um discurso quase sempre incisivo, oportuno e bem articulado, do que ela, notoriamente menos inspirada do que em campanhas anteriores – são candidatos derrotados na medida em que não conseguiram segurar, sequer, o eleitorado habitual dos respectivos partidos. Aliás, a esquerda é toda ela derrotada numas eleições em que os quatro candidatos oriundos do universo PS-BE-PCP não atingem, juntos, nem 25% dos votos expressos.

Finalmente, o liberal Tiago Mayan demonstrou que a narrativa liberal com que se tenta construir uma alternativa política à direita continua pouco convincente e desajustada da realidade económica e política do país. O voto liberal tende a concentrar-se em nichos da população jovem e urbana, o que a noite eleitoral tornou bem visível, pois só já para o final, com o apuramento dos votos nos maiores centros urbanos, é que o candidato da Iniciativa Liberal conseguiu relegar Tino de Rans, seguramente o candidato com menores ambições, para o último lugar.

Pensamento do dia

O mundo está a transformar-se numa caverna igual à de Platão: todos a ver imagens e a acreditar que são a realidade.

José Saramago

Daqui.

Empregos de merda

belanciano

O confinamento mostrou que certas actividades são essenciais para vivermos (empregos produtivos que implicam fabricação, transportação, entrega, reparação ou manutenção, bem como cuidadores, profissionais de saúde, etc) e outras foram vitais para nos fazerem sentir vivos (cultura, artes, humanidades, ensino, comunicação). A questão, para [David] Graeber, são as actividades intermédias, muitas delas de administração ou supervisão, que terão crescido exponencialmente nas últimas décadas, sem que se vislumbre uma razão lógica – administrativos, gerentes de fundos de investimentos, accionistas, consultores, especuladores, oficiais de justiça, conselheiros jurídicos, serviços financeiros, telemarketing, direito empresarial ou recursos humanos.

[…]

O resultado é profissionais de outras actividades (no ensino, investigação, saúde) perderem tempo precioso com burocracia porque nos níveis intermédios existe quem tenha de justificar a sua ocupação. Porque é que isso acontece? Não é apenas oferta e procura. Há motivações económicas e políticas, da ordem da complexidade sistémica, mas também morais. A idealização do trabalho, enquanto valor em si mesmo, da produção e do consumo. A ideia de que a criação de empregos é sinónimo de prosperidade. Por outro lado, muitos empregos produtivos foram automatizados, mas em vez da redução do tempo de trabalho, o que se assistiu foi a um aumento dos empregos administrativos em sentido amplo. E há também mecanismos de controlo. Dividir para reinar. Criar postos de trabalho que se identifiquem com as visões e valores das classes dominantes, ao mesmo tempo que se promovem ressentimentos contra os que têm um trabalho de valor social inegável – não é a isso que se vislumbra quando existem manifestações de enfermeiros ou professores?

E aqui estamos. Quanto mais útil é o trabalho, mais mal pago é, parece ter sido o ensinamento do confinamento, segundo Graeber, com óbvias excepções, como os médicos. As políticas que tornaram a vida e o emprego mais difícil para tantas pessoas produziram em simultâneo uma série de actividades inconsequentes e com regalias para muitas outras. Antes de morrer, alertou para o facto de o mundo não ter aprendido nada com a crise de 2008, não sendo capaz de perceber quais os empregos sistemicamente mais importantes e os mais irrelevantes. E agora?

Pegando no conceito de empregos de merda criado por David Graeber, Vítor Belanciano tece interessantes e oportunas reflexões acerca da necessidade e do valor do trabalho nas sociedades do século XXI.

Na base, um aparente paradoxo. Vivemos num mundo onde os computadores, os robôs e as redes de comunicação deveriam progressivamente dispensar o trabalho humano, criando condições para a libertação da humanidade da obrigação de trabalhar, um pesado fardo que transportamos connosco desde, pelo menos, os alvores do Neolítico. No entanto, para a grande massa da população, a globalização económica e a revolução tecnológica da computação e da automação não estão a permitir, nem trabalhar menos, nem obter melhor remuneração ou maior realização pessoal do trabalho realizado.

Mesmo quem realiza trabalho produtivo, fabricando bens ou prestando serviços, vê-se muitas vezes constrangido a passar boa parte do seu tempo, não a produzir, mas a justificar aquilo que fez ou o que irá fazer. Quem é professor, por exemplo, sabe bem quando do seu tempo vai sendo tomado pela burocracia, pela produção de relatórios, planificações e todo o tipo de registos escritos que, na maioria dos casos, ninguém irá ler. Mas que são necessários a um número crescente de pessoas que justificam os seus salários pela intermediação que fazem entre os decisores no topo da hierarquia e, na base, os executores das tarefas e os prestadores dos serviços.

Subitamente, o confinamento imposto pela pandemia abriu-nos os olhos para uma realidade pouco visível: há profissões essenciais, sem as quais a economia e a vida em sociedade, tal como as conhecemos, se desmoronariam. O comércio de bens essenciais, a produção agrícola e industrial, o fornecimento de água, energia e telecomunicações, os serviços de saúde, os cuidados geriátricos, a educação – tudo isto se revelou essencial e não deixou de funcionar. Mas, com a óbvia excepção dos médicos, quantos trabalhadores destas áreas são efectivamente valorizados pelo trabalho que realizam?

Em contrapartida, temos sectores da administração pública e privada, dos bancos e serviços financeiros, das consultadorias e advocacias do regime, que pagam salários milionários aos seus funcionários de topo, apesar de os seus serviços pouco ou nenhum valor acrescentarem à economia ou à felicidade individual e ao bem-estar colectivo: em muitos casos, limitam-se a parasitar o Estado e a economia privada e a complicar a vida dos cidadãos.

Na base da pirâmide dos empregos de merda, temos uma série de profissões com diferentes graus de utilidade, mas em geral desprezadas e mal pagas, que subsistem enquanto os arquitectos do capitalismo pós-industrial não os conseguirem dispensar: o novo proletariado ao serviço das ubers e amazons nos transportes, nas logísticas e nas entregas porta-a-porta.

O dinamismo laboral da nova economia disfarça mal uma realidade que veio para ficar: um elevado desemprego estrutural, que tende a crescer à medida que aumenta a produtividade e a eficácia das empresas e organizações. Em vez da desejada reforma laboral, que passaria pela redistribuição e a valorização do trabalho – trabalho para todos, trabalhar menos, viver melhor – vemos ressurgir, mesmo em países desenvolvidos, formas de precariedade e exploração laboral dignas dos primórdios do capitalismo. E nem o discurso politicamente correcto da inclusão e da igualdade de direitos e oportunidades consegue escamotear o crescimento das desigualdades.

Leituras: Ética, consumismo, capitalismo

yuval-harari…Na Europa medieval, os aristocratas gastavam o seu dinheiro sem qualquer critério em luxos extravagantes, enquanto os camponeses viviam frugalmente, contando os tostões. Hoje, os ventos mudaram. Os ricos têm imenso cuidado a gerir os seus activos e investimentos, enquanto os menos abastados contraem dívidas ao comprar carros e televisões de que não necessitam realmente.

As éticas capitalista e consumista são dois lados da mesma moeda, uma fusão de dois mandamentos. O mandamento supremo dos ricos é: «Investe!» O mandamento supremo dos restantes é: «Compra!»

A ética capitalista-consumista é revolucionária noutro aspecto. A maior parte dos sistemas éticos anteriores apresentava às pessoas um acordo bastante difícil. Era-lhes prometido o Paraíso, mas apenas se cultivassem a compaixão e a tolerância, ultrapassassem o seu desejo insaciável e a sua fúria, e controlassem os seus interesses egoístas. Isto era demasiado duro para a grande maioria das pessoas. A história da ética é um conto triste de ideais maravilhosos a que ninguém consegue corresponder. A maior parte dos cristãos não imitou Cristo, a maior parte dos budistas não conseguiu seguir o Buda e a maior parte dos confucianos deixaria Confúcio em desespero.

Hoje, pelo contrário, a grande maioria das pessoas está plenamente à altura do ideal capitalista-consumista. A nova ética promete o Paraíso na condição de os ricos se manterem gananciosos e passarem o seu tempo a ganhar mais dinheiro, e de as massas darem rédea solta aos seus desejos e paixões… e comprarem cada vez mais. É a primeira religião na história cujos seguidores fazem, realmente, o que lhes é pedido. Como sabemos que vamos receber o Paraíso em troca? Vimos na televisão.

Yuval Noah Harari, Sapiens, De Animais a Deuses (2013)

Contaminai-vos uns aos outros

jovens

“Jovens, contaminem-se uns aos outros”, defende infecciologista francês

Olhando para a evolução da pandemia da covid-19 e para a forma como tem sido gerida a crise de saúde pública, percebe-se a necessidade de dar ouvidos aos especialistas do sector – médicos, cientistas, autoridades de saúde pública. Temos o exemplo de países, como os EUA ou o Brasil, onde a prevalência das decisões de políticos incompetentes conduziu à progressão descontrolada dos contágios e a um verdadeiro desastre epidemiológico.

Contudo, também se vai tornando evidente que, tendo em conta a complexidade das decisões e as pesadas consequências económicas e sociais que delas decorrem, não podemos as podemos deixar entregues apenas aos especialistas.

Depois de um confinamento que poderá ter sido, na opinião de alguns, excessivo, e com custos que a quase paragem da economia levará anos a superar, parece estar agora a ganhar força, de novo, a tese da imunidade de grupo. Expressa por vezes em formulações radicais e irresponsáveis, como a do epidemiologista francês que abre este post.

Como professor, tenho criticado muitas vezes, aqui e noutros lados, a tomada de decisões em matérias educativas sem se ouvirem os profissionais no terreno. Como se estes fossem meros executantes de políticas superiormente decididas, sem discernimento nem sentido crítico para compreender as necessidades dos alunos e quais as reformas realmente necessárias. Mas nunca me passaria pela cabeça exigir que fossem os professores a determinar a política educativa, indiferentes às necessidades e aspirações dos alunos, das famílias e da sociedade.

Em democracia, devem ouvir-se e fazer participar nas discussões e na construção de consensos os especialistas, os profissionais, os diversos intervenientes e destinatários das decisões. Mas deixar aos responsáveis políticos a responsabilidade de definir o rumo das políticas, acima de lobbies organizados, grupos de pressão influentes ou comités de sábios. No combate à pandemia, tal como na Economia, na Justiça ou na Educação.