Liderar ao murro

murro.gifJá em tempos se escreveu por aqui sobre a Escola Básica e Secundária Azevedo Neves. Uma escola com um público escolar heterogéneo, multicultural e, tendo em conta o grande número de alunos imigrantes, os correspondentes problemas de integração.

Ao longo do tempo, foi-se construindo uma resposta educativa assente naquilo que os responsáveis políticos costumam valorizar: uma “liderança forte” e soluções autónomas e criativas para os problemas. Por exemplo: o director, entretanto afastado do cargo por suspeitas de irregularidades na gestão, acalmava os ânimos de alunos mais indisciplinados sujeitando-os a duches frios em pleno Inverno.

Agora ficou a saber-se que José Biscaia, o ex-director, não aplicava castigos físicos apenas aos alunos. Foi judicialmente condenado por difamação e agressões a um professor da escola. A notícia demonstra que o desrespeito, o assédio, as ameaças e agressões contra os professores não vêm apenas de alguns alunos ou, como agora parece estar na moda, dos seus progenitores. Também um director prepotente, a quem o poder sobe à cabeça, pode ser uma ameaça real para os professores que não caem nas suas boas graças.

José Biscaia, antigo diretor do Agrupamento de Escolas José Azevedo Neves, Damaia (Amadora), foi esta segunda-feira condenado a 10 meses de prisão, convertidos em multa, por difamação e agressões físicas agravadas a um professor.

O ex-diretor apertou o pescoço e esmurrou Miguel Martinho, de 47 anos, em novembro de 2015 e maio de 2016.

Noutro caso, Biscaia foi absolvido, já este ano, de sete crimes de maus-tratos a alunos que foram obrigados a tomar duches frios como castigo.

Para os juízes, os duches eram eticamente reprováveis mas não provocaram dano físico. Biscaia dirigiu o agrupamento mais de 20 anos e foi exonerado em 2017 pelo Ministério da Educação por irregularidades.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Tempo de reflexão

Os professores são hoje uma classe cansada, descrente, dividida. Superar o desânimo, estabelecer objectivos realistas e recuperar a confiança em si mesmos, começando pelas batalhas que podem ganhar – eis um ponto de partida para a necessária reflexão que, em conjunto, precisamos de fazer…

No Fundo: A violência contra os professores

O final da semana ficou marcado por mais uma inqualificável agressão a uma professora, praticada por familiares de uma aluna do 2º ano. O acto, ao qual assistiu toda a turma, mereceu o imediato repúdio dos colegas da professora, que reagiram manifestando-se, logo no dia seguinte, em defesa da segurança e contra a violência escolar. A escola terá feito o que está ao seu alcance, participando a ocorrência e garantindo o apoio aos alunos e a substituição da professora agredida.

Cordão humano contra a violência escolar

cordaovaladares2Cerca de 70 pessoas fizeram hoje um cordão humano em Vila Nova de Gaia em protesto pela agressão quarta-feira a uma professora da Escola Básica nº 2 de Campolinho, alertando também para a falta de segurança.

Analisando os pormenores desta agressão cobarde e hedionda à professora da escola de Campolinho nota-se, com alguma clareza, um padrão típico destas situações: uma família desestruturada, uma criança de sete anos que não gosta das aulas e que, provavelmente, inventa e relata em casa supostos maus tratos ou agressões na sala de aula.

Juntem-se a isto a facilidade com que se acede ao interior de uma escola, o sentimento de impunidade induzido pela brandura das leis e a ineficácia da justiça e a desconsideração pública a que os professores são remetidos por parte de quem os tutela e que deveriam ser os primeiros a respeitar e valorizar a classe, e temos, em certas escolas, as condições propícias a que, quando menos se espera, surjam estes incidentes.

Neste caso, há que saudar a pronta manifestação de solidariedade e denúncia pública promovida pelos colegas desta docente e, pela negativa, a forma como o ME continua, não só a desvalorizar toda a problemática da segurança escolar, como a deixar entregues a si próprios os professores vítimas de agressões.

“A menina apenas se recusava a querer trabalhar na escola, chorava e não queria vir para as aulas. No recreio estava muito bem, mas quando tocava não queria voltar para a sala”, argumentou Manuela Castro [coordenadora da escola], admitindo que a aluna pudesse não se sentir “motivada” para aprender, salientando que esta está no segundo ano na escola e que “até agora teve um comportamento normal”.

Argumentando que os “problemas começaram há duas semanas”, disse que a aluna começou a “a queixar-se de que lhe doía a barriga”, atribuindo-o “talvez devido à ansiedade” de ter de estar na sala de aula.

“A professora nunca foi violenta com ela nem com ninguém”, garantiu a coordenadora admitindo pertencer a aluna a uma “família desestruturada” que de “imediato pediu a transferência para outro agrupamento”.

Apesar de “já ter havido alguns antecedentes na escola”, a agressão, segundo o encarregado de educação Alfredo Pinto “não era fácil de adivinhar”, elogiando até, a forma “rigorosa” como a professora dava as aulas.

Afirmando não conhecer os agressores, mostrou-se “indignado” pelo ato ter ocorrido “diante dos filhos”, testemunhando a esposa, Elisabete Martins, que os gémeos “estavam em estado de choque” e que “tiveram dificuldade em adormecer”.

O rol de críticas estendeu-se “à falta de segurança” numa escola em que “qualquer encarregado de educação pode entrar”, ainda que neste caso “conste que a funcionária foi empurrada”, referiu Elisabete Martins.

Da parte do Sindicato de Professores do Norte (SPN), a presidente Manuela Mendonça, acusou “as campanhas públicas contra os professores, como no recente processo de recuperação de anos de serviço, de criarem um clima que põe em causa a sua imagem e debilita a sua autoridade”.

“Não temos dúvidas que há responsabilidade de todos quantos injustamente atacam os professores porque estão a pôr em causa a sua autoridade”, acrescentou a sindicalista, exigindo que os “agressores sejam exemplarmente punidos”.

Violência nas escolas NÃO

Mais uma agressão cobarde a uma professora, desta vez pela mãe a a avó de uma aluna, que acabou com a professora a ser empurrada escadas abaixo com a turma a assistir.

O ME não garante a segurança de quem trabalha em escolas problemáticas, um problema que estaria há muito resolvido se, de quando em vez, fosse um ministro, secretário de estado ou outro responsável ministerial o alvo das bordoadas. E a brandura das autoridades e do sistema judicial parece convencer alguns pais e outros familiares de que podem irromper pela escola para ofender, agredir e humilhar qualquer professor.

É por isso importante que, enquanto este panorama não muda, os professores saibam que podem contar com a solidariedade dos colegas. E que, todos juntos, nos vamos consciencializando de um problema que é de todos e que precisa de estar mais presente na nossa agenda reivindicativa.

A todos os que possam estar presentes, fica o apelo à participação.

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Uma professora da Escola Básica do Campolinho, em Valadares, Gaia, foi agredida pela mãe e avó de uma aluna. As crianças, todas com menos de 11 anos, assistiram à agressão.

A docente leciona na Escola Básica do Campolinho desde meados do segundo período. Na quarta-feira à tarde, a professora foi agredida pela mãe e pela avó de uma aluna e acabou a ser empurrada pelas escadas abaixo. Foi levada para o hospital por agentes do programa Escola Segura. Encontra-se em casa a recuperar, mas o Ministério da Educação garantiu que “as atividades letivas estão devidamente asseguradas”.

Cerca das 15.30 horas, a funcionária que se encontrava no portão foi abalroada pelas familiares da aluna. A mãe, na casa dos 20 anos, e a avó, na casa dos 60, dirigiram-se de seguida à sala de aula da professora – que já conheciam das reuniões de pais – onde a agrediram. O confronto acabou com a docente a ser atirada pelas escadas abaixo em frente aos alunos da escola.

Ao que o JN conseguiu apurar, a mãe da aluna alegou, junto da PSP, que a professora em questão “agredia a filha, dava puxões e atirava livros”.

Professor brasileiro, alvo a abater

julio-cesar-barroso.jpgUm professor foi morto na tarde desta terça-feira após levar dois tiros de um estudante dentro de uma escola em Valparaíso de Goiás, a 35 km de Brasília. O adolescente, de 17 anos, já foi identificado, mas está foragido. A vítima é Júlio César Barroso de Sousa, 41, que também atuava como coordenador de turno do colégio.

A história conta-se em poucas palavras e serve para assinalar, no Dia do Trabalhador, a insegurança com que muitos docentes exercem quotidianamente a sua profissão: no turno da manhã, o aluno de uma escola brasileira insultou e ofendeu uma professora. O coordenador da escola interveio: suspendeu-o, mandando-o sair da escola e avisando-o de que chamaria a polícia se voltasse. À tarde, o jovem regressou com uma arma de fogo, que usou para matar o professor.

Quando o próprio ministro da Educação diz, a quem o quer ouvir, que “os comunistas merecem levar bala na cabeça”, percebe-se que, para os políticos actualmente instalados no poder, combater a perpetuação desta cultura de violência e morte que é potenciada pelo acesso fácil às armas está longe de ser uma preocupação. Pelo contrário, vêem-na até como solução para diversos problemas, reais ou imaginários.

No Brasil, como em quase todo o mundo, tenta-se fazer da escola, e não das ruas, dos locais de trabalho ou das prisões, o espaço privilegiado de integração de todos os marginalizados, incluindo reais ou potenciais delinquentes. Mas sem dotar as escolas dos recursos necessários para lidar com a diversidade e com a complexidade dos problemas, os conflitos tornam-se inevitáveis. Obrigados a assumir uma autoridade que nem sempre têm condições para impor, os professores tornam-se, facilmente, um alvo a abater. A docência transforma-se, assim, numa profissão de alto risco. Como a tragédia de ontem infelizmente demonstrou.

Sabem por isso a muito pouco os lamentos das autoridades, mesmo quando garantem que têm “feito todos os esforços no sentido de contribuir para a cultura da paz”. Depois de consumado o crime, a comunidade escolar verá reforçados os meios – psicólogos, assistentes sociais, vigilantes – que seriam importantes, acima de tudo, se pudessem ser aplicados na prevenção destas tragédias.

Divulgação: VIGÍLIA NACIONAL – Basta de violência contra os PROFESSORES!

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Aderir à vigília (determinante):

Todos os colegas devem inscrever-se na cidade onde participarão (inscrição até dia 25 de abril)!
Basta clicar no LINK do evento / “Discussão

Embora esteja aberta a marcação de vigílias em qualquer localidade, apenas os locais com 100 ou colegas garantidos serão incluídos no cartaz, a publicar e divulgar, depois de dia 25 de abril.

Isto para evitar efeitos contrários ao pretendido, ou seja, como todos sabemos, uma fraca presença de professores num determinado local, poderá ser um fator de desmobilização e passar uma fraca imagem da nossa classe…

Sobre o evento (como consta no próprio evento):

Todos os professores e os membros de todas as comunidades educativas, UNIDOS, devem expressar ao país o seu total repúdio face a todo o tipo de violência: “A escola é para ensinar e aprender não é para sofrer”!

No último episódio visível de violência escolar, amplamente público, um professor de 63 anos, na Escola Básica Francisco Torrinha (Porto) foi vítima de um crime público na sala de aula.
Mas este episódio é apenas a “ponta do iceberg”, pois todos nós já estivemos em escolas e/ou conhecemos colegas que foram vítimas, muitos dos quais por medo, vergonha, ou por receio da Direção, ficam calados!

Sentir repúdio não basta para combater uma problemática como esta, é preciso AGIR!

Iniciativa da vigília:

A iniciativa foi da colega Anabela Sousa, e surgiu na sequência do episódio mediático mais recente de violência contra um professor (referido anteriormente), tendo levantado uma onda de apoio nas redes sociais. Entretanto juntaram-se outros colegas de todo o país, os quais estão a ajudar a organizar e a partilhar a Vigília.

Dos contactos estabelecidos com sindicatos docentes, apenas obtivemos o apoio do S.TO.P, tendo o próprio sindicato lançado o desafio aos restantes sindicatos para se juntarem, infelizmente sem obter, também, resposta.

Qualquer outro esclarecimento, disponham,

Desde já o nosso muito obrigado,

Anabela Sousa e Pedro Monteiro

O que fazer para não “levar no focinho”

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Volto ao caso do professor agredido a soco e pontapé por um aluno de 12 anos para destacar alguns desenvolvimentos.

O director do agrupamento decidiu, bem, suspender preventivamente o aluno. Nem outra atitude seria de esperar quando se afirma que a escola em causa é “tranquila” e este foi um “caso isolado”. Perante casos de gravidade excepcional tomem-se, então, as medidas excepcionais previstas na lei.

Contudo, afastar temporariamente da escola o aluno agressor não é em si mesmo uma punição disciplinar, nem encerra o caso. Perante a gravidade do que se passou, e independentemente de todas as condicionantes que possam ter levado o aluno a agir como agiu, só há uma coisa a fazer. Não vale a pena estarmos com rodriguinhos burocráticos e judiciais: este aluno deixou de ter condições de frequentar aquela escola e de se cruzar com o professor que agrediu. Pelo que esteve bem o director ao responsabilizar desde já o Ministério da Educação pela transferência de escola deste aluno, que é a medida que se impõe e que só o ME pode decidir.

O diretor do agrupamento Garcia de Orta […] admite que a escola está de “mãos atadas” para expulsar ou transferir o aluno. “A direção vai ter de recorrer ao Ministério da Educação para que se encontre uma solução para este caso”, explicou Ernesto Pereira ao JN.

Entretanto, João André Costa, um colega nosso que trabalha em Inglaterra mas escreve regularmente na imprensa portuguesa, onde se tem vindo a assumir como um digno representante da “pedagogia do coitadinho”, veio já publicar o que, vaticinava eu anteontem, não demoraria a aparecer. Em post publicado no blogue DeAr Lindo, o João André, ele próprio vítima de agressão, aqui há uns tempos, tenta explicar ao colega do Porto o que deveria ter feito para evitar “levar no focinho”.

Percebe-se pelos comentários que alguns colegas tentaram ver ironia no texto publicado. Mas não, João André Costa não está a ser irónico. Ele fala a sério. E acha mesmo que se apanhamos dos alunos é porque alguma coisa fizemos que conduziu à agressão. Daqui a culpar o professor por não ter agido como deveria e a desculpabilizar o aluno, vítima também das suas circunstâncias, vai um passo muito curto que muitos dão sem hesitar…

Nunca, desde que o aluno entrou na sala aos pontapés à bola até ser entregue à Directora de Turma, nunca ninguém perguntou ao aluno o que se estava a passar. Aconteceu alguma coisa? Queres falar? Estou aqui para te ouvir. Não me ouves? Vou pedir ajuda, espera um pouco, já volto, estou aqui para ti. Queres jogar à bola? Vamos lá para fora, eu jogo à bola contigo, estou aqui para ti. Sou teu professor, mas também me preocupo contigo.

Nunca. Em vez disso, o castigo, a admoestação, o confronto, a falta de empatia, a agressão física. Não toquem num aluno, nunca toquem num aluno, quando tocamos num aluno, tudo pode acontecer. E aconteceu. Neste caso, aconteceu.

O trecho que transcrevi não resume por inteiro o texto publicado, que tenta enquadrar o caso na problemática mais vasta da integração escolar de menores em risco, fazendo algumas reflexões pertinentes. No entanto, parece-me que o colega olha mais para a realidade que conhece no país onde trabalha, esquecendo que em Portugal a actuação da maioria das CPCJ é pouco eficaz, há crianças em risco que ficam meses à espera de uma simples consulta psiquiátrica ou de uma intervenção da segurança social. E sobre o funcionamento dos tribunais de menores e a sensibilidade e as decisões de alguns juízes, nem valerá a pena falar…

No meio disto tudo, só as escolas assumem por inteiro a sua responsabilidade perante estes menores, recebendo-os diariamente e tentando dar-lhes tudo o que têm para lhes oferecer. Claro que para os professores este é quase sempre um trabalho sem rede, difícil e arriscado. Quando alguma coisa falha, há pouquíssima margem de manobra para controlar o que possa acontecer a seguir. Como é óbvio, a solução destes problemas não é capacitar super-professores para se transformarem em psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais ou mediadores culturais dos alunos problemáticos. Passa, se queremos uma escola inclusiva à qual estes alunos também pertencem, por integrar todas essas valências no ambiente escolar.

Entre as dezenas de reacções que o post de João André Costa suscitou, também se encontra a resposta do professor agredido. Por ela se percebe uma coisa muito simples de entender quando se é um professor no terreno: por vezes, e embora apliquemos toda a experiência, sensatez e profissionalismo de um professor, há situações que escapam mesmo ao nosso controle. Finalizo, então, com o testemunho de Aurélio Terra:

Como Professor que levou no focinho só espero que o texto de João André Costa seja um exercício de pura ironia, embora me pareça mal conseguido aqui e acolá. Se pelo contrário, de modo sério, quer insinuar inabilidade minha para lidar com aquela situação então gostaria que tivesses estado no meu lugar para que eu pudesse ver como é que devia ter agido. Acredito, prefiro assim, que está do meu lado e que manifestou essa solidariedade através daquele texto. Se é é assim o meu muito obrigado.
Apesar dos meus 63 anos, não sou um “velhinho” que se arrasta pela escola. Tinha capacidade física para resolver a situação de outra forma. Aí ninguém me valia e a minha carreira que conta já com 43 anos de serviço terminaria de forma inglória.
Que este episódio, do qual não avanço pormenores por estar entregue aos tribunais, sirva para todos nós Professores nos indignarmos com a insegurança com que desempenhamos a nossa missão com a melhor de todas as intenções. Obrigado a todos, os colegas que que se solidarizaram comigo.