«Se estás grávida, vais deixar de estar»

A violência escolar, um problema que persiste no nosso sistema educativo, foi ontem tema de destaque no programa do Goucha. No site da TVI, um resumo da emissão, com depoimentos de professoras vítimas de agressão por encarregadas de educação e a entrevista ao Luís Sottomaior Braga, o professor que mais tem contribuído, nos últimos anos, para a denúncia e a discussão pública de um problema que demasiada gente responsável e influente insiste em esconder debaixo do tapete.

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Malucos perigosos podem andar na escola?

Na aula de História o aluno começou a insinuar-se, nomeadamente a nível sexual à colega da turma que está sentada atrás dele, proferindo as seguintes palavras: “Faz-me sexo oral”.

Por vezes faz comentários obscenos à colega e não permite que os colegas se aproximem dela. Chegou mesmo a atirar um colega ao chão só porque este se aproximou da colega para conversar.

Seguia [a colega] nos intervalos, dirigia-lhe comentários que a intimidavam e que, manifestamente, são do seu desagrado: ““vou-te violar”.

Os alunos da turma começaram a dizer para ele se calar. Não gostando da reação dos seus colegas ameaçou a turma dizendo “Meto-vos um pau no rabo”.

Quando estava a sair da sala ameaçou verbalmente a professora, proferindo as seguintes palavras “Dou-lhe um estalo”.

O testemunho surge, em forma de denúncia, no VozProf, de onde retirei os excertos supracitados.

Estes casos, a que os responsáveis continuam a não dar a devida atenção, podem ser profundamente perturbadores, disruptivos e traumatizantes para alunos e professores. Seguindo o exemplo do banqueiro do regime a quem “atribuíram Alzheimer”, também um número crescente dos nossos alunos vai vendo os seus comportamentos violentos e desordeiros sendo desculpados por razões médicas. Nos últimos anos, então, o “espectro do autismo” vai justificando cada vez mais atitudes que, independentemente das patologias que lhes possam estar associadas, revelam, à vista desarmada, uma alarmante negligência ao nível da educação que trazem de casa.

Diga-se o que se disser, a verdade é que nenhum professor tem de ser obrigado a suportar insultos, ameaças ou outros destemperos no exercício da sua profissão. Tal como nenhum aluno tem de aguentar empurrões, agressões ou ameaças à sua integridade física da parte de um colega que não se sabe comportar. Os simplesmente percebeu que pode, sem consequências, fazer o que lhe apetece. Por muitos direitos que tenha a criança ou o adolescente perturbado, eles não são superiores nem se sobrepõem aos direitos dos restantes elementos da comunidade escolar.

Quando se sinaliza uma doença ou perturbação mental como causa de comportamentos violentos, isto não pode nunca funcionar como uma desculpa para que se tolere o intolerável, muito menos para que se faça da escola pública manicómio ou de quem lá anda saco de pancada: se o aluno está doente, deve ser tratado e controlado nos seus sintomas, de forma a que possa socializar sem constituir perigo para os outros e, nalguns casos, para si próprio.

Enquanto se permitir que haja psicopatas, sociopatas ou meros delinquentes com reais ou alegadas perturbações mentais à solta nas escolas, a questão tem de colocar-se de forma muito simples: o direito à educação de um não pode impedir que 20 ou 25 usufruam desse direito. E nenhum professor tem de ser obrigado a trabalhar em condições que ponham em causa a sua saúde ou a sua segurança.

Pondo a questão em termos propositadamente simplistas, para que todos entendam: na escola não pode haver lugar para malucos perigosos. E se aos bem-pensantes politicamente correctos deste país incomodam estes plebeísmos, então é muito simples: diagnostiquem e tratem devidamente os malucos, para que deixem de o ser. Em vez de tanta preocupação hipócrita com a “saúde mental”, de tanto projecto e conversa da treta em torno de terapias de grupo, apoios tutoriais, ubuntus e mentorias nas escolas, concentrem e reforcem recursos para tratar e acompanhar quem realmente precisa. Os primeiros candidatos são, precisamente, estes alunos violentos e inadaptados que nos vão surgindo nas escolas.

Cerco aos professores

Um professor de 60 anos foi agredido, esta terça-feira, pelos pais de um aluno da Escola Secundária do Cerco, no Porto, tendo sofrido ferimentos numa orelha e na cervical, disse à Lusa fonte dos Bombeiros de Valbom.

O alerta foi dado pelas 16.16 horas, tendo a PSP, no local, procedido à identificação dos dois agressores, revelou fonte da Polícia.

As agressões “ocorreram no interior da escola”, acrescentou a fonte dos bombeiros.

O ferido foi transportado ao Hospital São João.

A Escola do Cerco a ser notícia por más razões, neste caso a agressão a um professor. Culpados evidentes e indesculpáveis são os pais agressores, mas o achincalhamento público da profissão docente e da escola pública, que dirigentes e governantes têm promovido irresponsavelmente ao longo das últimas décadas, encoraja os energúmenos.

Da parte dos professores, de todos os professores, só pode haver lugar à repulsa do acto violento e de quem o praticou e à solidariedade com o colega agredido. As escolas e contextos educativos não são todos iguais e sabemos que alguns “territórios educativos” são especialmente propensos à ocorrência da violência escolar. Mas ninguém diga desta água não beberei. Muito menos se ceda à tentação vergonhosa de insinuar, como demasiadas vezes sucede, a eventual “culpa” do colega no que sucedeu. Nada, mas mesmo nada, justifica uma agressão, e qualquer um pode ser a próxima vítima. Desculpar ou tentar “compreender” os agressores serve apenas para alimentar o ciclo infernal da violência escolar.

Daqui para a frente, além da solidariedade e apoio à vítima, o que se espera é a punição exemplar dos criminosos, com um processo judicial que siga até às últimas consequências. Tivéssemos no ministério responsáveis conscientes da importância de valorizar e defender os profissionais da Educação, em vez dos políticos medíocres e oportunistas que nos apoucam e envergonham, e estariam já a tratar do assunto.

Bullying e agressões no Entroncamento

Uma jovem de 11 anos foi brutalmente agredida pelas colegas de escola no Entroncamento, não tendo recebido, segundo a mãe, qualquer apoio por parte dos responsáveis do estabelecimento de ensino. A agressão ocorreu na passada sexta-feira na Escola EB 2,3 Dr Ruy D’Andrade e foi filmada pelo grupo de agressoras.

A mãe mostra-se inconformada pela inação da escola, até porque o caso de bullying de que é alvo a filha não é de agora. “Já durante as férias de Natal ela foi ameaçada por elas que diziam que a odiavam e que ela se devia matar”, conta Antónia Melo que apresentou esta manhã queixa na esquadra da PSP.

A filha de 11 anos não sofreu ferimentos graves apesar de, como se vê no vídeo, ter sido agredida pela colega com estaladas, socos e pontapés. Mais tarde, nessa mesma tarde, receberia mais uma bofetada de uma outra aluna do grupo de agressoras.

Desentendimentos entre crianças podem sempre acontecer. O que não é admissível é que as escolas se demitam da sua obrigação de garantir a segurança de todos os que as frequentam. Conhecendo, antes de mais, os seus alunos, prevenindo, identificando e antecipando eventuais problemas de integração escolar. Mas também exercendo uma vigilância discreta, mas eficaz, sobre os recreios e outros espaços em que os alunos interagem mais livremente, e onde conflitos e desacatos podem mais facilmente ocorrer. Neste caso, é bastante mais grave, pois não se tratou de um problema pontual entre duas raparigas. Pelo que a notícia refere e o vídeo divulgado testemunha, tratou-se de bullying puro e duro: agressões, insultos, ameaças e humilhações feitas de forma continuada e uma agressão de grupo contra uma vítima isolada e indefesa.

Sem que se devam fazer julgamentos apressados acerca de um caso do qual não conhecemos todos os contornos, parece óbvio que a lei do silêncio e a recusa sistemática em dar esclarecimentos públicos têm de deixar de ser o padrão de comportamento habitual das direcções escolares, quando confrontadas com estes casos, que naturalmente sobressaltam os pais e a opinião pública. De uma vez por todas, deveria assumir-se que gerir bem uma escola implica o primado da gestão pedagógica sobre a parte administrativa da papelada e das plataformas. É preciso que os gestores escolares circulem pelos espaços da escola, falando com as pessoas, fazendo uma gestão adequada do pessoal auxiliar, antecipando problemas, necessidades e constrangimentos. Mais: é vergonhoso e inaceitável que seja necessário recorrer à exposição pública das agressões, o que constitui, para as vítimas, uma nova agressão, para que os responsáveis percebam que têm de actuar. Que não podem continuar a virar a cara, esperando que problemas deste tipo se resolvam sozinhos.

Quanto ao ME, esperar-se-ia também uma atitude mais atenta e proactiva nestes casos, indo além das generalidades, das vacuidades e dos votos de boas intenções que em regra enuncia quando confrontado com a violência exercida por alunos nas escolas. E que contrasta vivamente com a actuação bem mais assertiva e determinada quando estão em causa os, igualmente inaceitáveis, comportamentos incorrectos de professores. Nem de propósito, no mesmo dia em que este caso foi conhecido, foi igualmente divulgado que o ME indeferiu o recurso do professor da Póvoa de Varzim, suspenso por alegadamente ter divulgado vídeos obscenos aos seus alunos.

Criança agredida, funcionária suspensa

Uma bofetada na cara de uma criança brasileira de 7 anos dada por uma auxiliar de uma escola na Área Metropolitana de Lisboa, que levou a sangramento nasal, rompeu o silêncio das mães diante de agressões em escolas portuguesas. A Sputnik Brasil recebeu relatos de violência em outros três colégios.

O sangue no nariz de X. foi limpo rapidamente para “limpar a cena do crime”, de acordo com o relato à Sputnik Brasil da carioca Maria Venâncio, mãe da vítima, que só soube do sangramento por intermédio de uma outra mãe brasileira, cujo filho presenciou o golpe desferido pela auxiliar. O motivo? A criança só tomou a sopa e não queria comer toda a refeição.

Segundo Maria, X. tem diagnóstico inconclusivo do espectro de autismo, uma das suas maiores dificuldades é a alimentação. O caso foi revelado pela Coluna de Terça, que acompanhou a mãe até a Escola Básica Manuel Coco, em Odivelas, na Área Metropolitana de Lisboa (AML).

O caso, que a imprensa portuguesa ontem divulgou, foi noticiado em primeira mão por um jornal brasileiro, que associa a agressão à criança a xenofobia e racismo. Na verdade, o que desencadeou a bofetada não terá sido a nacionalidade da vítima, nem tão-pouco a recusa de comer o segundo prato, mas o facto de o menino ter reagido à pressão da funcionária dando-lhe um pontapé.

Claro que uma coisa não justifica a outra, assim como também não podemos naturalizar que alunos com perturbações mentais agridam professores ou funcionários. Tudo isto tem de ser prevenido, o que envolve a necessidade, cada vez mais imperiosa, de dotar as escolas de mais recursos para dar resposta ao número crescente de alunos com necessidades especiais, bem como de assegurar ao pessoal não docente uma formação adequada às funções que exerce.

Bem sei que a indiferenciação fica mais barata, mas não faz muito sentido, num país onde cada vez mais gente desiste de ter filhos porque não se sente disposta ou preparada para enfrentar os desafios da parentalidade, presumir-se que qualquer trabalhador indiferenciado está apto a trabalhar numa escola, acompanhando e supervisionando crianças pequenas.

A funcionária em causa foi entretanto transferida para outras funções, mas o problema de fundo persiste: é necessário garantir que as escolas sejam lugares seguros e confiáveis para todos, com os recursos necessários para apoiar e enquadrar todas as crianças, mesmo as mais problemáticas, sem que se tornem, elas próprias, uma ameaça para os outros. Uma gestão pedagógica e de proximidade, em vez do modelo centralista e burocrático que temos actualmente, teria condições para responder de forma mais eficaz aos desafios da inclusão.

O que não muda nas escolas

Há quatro agressões por dia nas escolas. Os dados da PSP e da GNR mostram que o número de ofensas corporais dentro das instituições aumentou face a 2020 e diminuiu face a 2019.

Segundo avança o Jornal de Notícias, durante o primeiro período foram assinaladas 431 as agressões: a PSP tem registo de 361 casos de ofensas corporais e a GNR recebeu 70 participações de agressões em ambiente escolar.

Filinto Lima, da Associação Nacional dos Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, acredita que as agressões correspondem na sua maioria a problemas trazidos de fora para dentro da escola.

Sucedem-se os governos e, à superfície, parecem mudar as políticas para a Educação. Exames para aqui, aferições para acolá. Metas curriculares ou aprendizagens flexíveis. Mudanças curriculares superiormente decididas ou feitas nas escolas à vontade do freguês…

Mas há coisas que, infelizmente, não mudam. A gestão centralista e por vezes autocrática dos mega-agrupamentos, a avaliação do desempenho punitiva e vexatória, uma política de quadros e concursos injusta e cada vez mais desajustada da realidade, o facilitismo avaliativo e… a indisciplina e a violência escolar.

Problemas que, decretam os responsáveis, não nascem na escola, são trazidos do exterior. E, portanto, é como se não existissem. Só que existem, e podem ser altamente traumatizantes para as vítimas, maioritariamente alunos mas também, por vezes, professores e funcionários. Se para os incidentes menos graves a política nas escolas é, quase sempre, varrê-los para debaixo do tapete – ninguém quer ficar mal visto por reportar problemas, pois isso é sinal, não de honestidade e de os querer denunciar e resolver, mas de que se “não tem mão” nos alunos – quando os casos metem intervenção policial ou idas ao hospital, aí já não dá para esconder. E os números – que diminuíram por causa dos confinamentos, não porque as escolas ou o ambiente que as rodeia se tivessem tornado mais pacíficos – estão de novo a aumentar.

Do novo governo espera-se – sentado, por via das dúvidas – que em vez de mandar sair mais uma flexibilidade inclusiva ou uma inovação curricular para a mesa do canto, coisas que ninguém encomendou, comece a olhar a sério para a realidade das escolas. Os problemas já lá estão, não é necessário inventá-los. Preciso é fazer algo que se veja, na escola e na sociedade, para os começar a resolver.

O futuro da segurança escolar?

A instalação de câmaras de vigilância na escola EB 2,3/S de Valença e a manutenção da segurança privada são duas das medidas decididas pelo Conselho Municipal de Educação, na sequência de uma rixa entre alunos que fez quatro feridos.

Em comunicado enviado este sábado às redacções, a Câmara de Valença, distrito de Viana do Castelo, adiantou que, além do circuito interno de videovigilância, o Conselho Municipal de Educação, convocado na sequência daquele caso de violência, no dia 26 de Novembro, decidiu manter a segurança privada.

Aquele serviço foi accionado pela autarquia, liderada pelo socialista José Manuel Carpinteira, logo após a rixa entre dois grupos de alunos que feriu dois estudantes, de 13 e 16 anos, e duas funcionárias, de 48 e 56 anos, que tentaram separar os jovens.

O serviço contratado pelo município, apenas até ao final do actual período lectivo, vai ser prolongado por decisão do Conselho Municipal de Educação.

Para grandes males grandes remédios, pelo que não critico à partida a decisão do município de Valença. Perante a escalada de violência e a aparente sensação de impunidade que leva os agressores a tornar-se cada vez mais ousados e agressivos, a autarquia assumiu a existência do problema e enfrentou prontamente a situação. Contrariando a inacção habitual do ME, adoptou uma solução que, não sendo definitiva nem resolvendo os problemas de fundo, foge à atitude de fingir que no pasa nada.

Não me parece, no entanto, que esteja aqui a chave para a resolução da violência e dos conflitos, por vezes com motivações étnicas e sociais, que campeiam nalgumas escolas do país. Desde logo, porque nem todos os autarcas têm o voluntarismo ou os recursos que em Valença foram rapidamente mobilizados. Mas sobretudo porque alunos, professores e funcionários têm direito a um ambiente escolar são e seguro, sem necessidade de se refugiarem debaixo do aparato securitário da videovigilância e das patrulhas da Escola Segura ou de seguranças privados.

Não deveria ser preciso ser chegano para assumir que há um problema de integração da comunidade cigana em Valença, e que jovens desta comunidade introduzem comportamentos disruptivos na escola básica e secundária. Pelo contrário, omitir este tipo de informação nas notícias que se dão dos incidentes, que geralmente só se obtém pelo conhecimento pessoal ou através da imprensa local, é municiar a habitual demagogia da direita racista e securitária, entregando-lhe de bandeja a prerrogativa de falar em nome das populações preocupadas com a segurança dos seus filhos.

Acima de tudo, há um princípio que deveria ser perseguido de forma intransigente: as escolas têm de ser lugares de tolerância zero para a violência. Invista-se o que for preciso em psicólogos, mediadores, animadores e terapeutas e criem-se condições para a inclusão escolar de todas as crianças e jovens. Dêem-se todas as oportunidades possíveis para a integração, mas não se transija com quem não se quer integrar. Não se pode admitir que, depois de se terem erradicado das escolas os castigos físicos e as punições humilhantes, se aceite agora que alunos levem armas brancas para a escola ou que nos recreios possa imperar a violência física e a lei do mais forte.

Violência escolar: o problema que ninguém quer ver

Adormecido durante os confinamentos, o problema da violência escolar nas suas múltiplas manifestações – indisciplina, bullying, agressões verbais, físicas e psicológicas entre alunos que por vezes também tomam como alvo professores e funcionários – ressurge nas escolas portuguesas.

Claro que os casos mais graves são comparativamente raros, se tivermos em conta o número de escolas e alunos. Tendem a concentrar-se em escolas por natureza complicadas, tendo em conta os públicos escolares e a natureza do meio envolvente. Mas que ninguém pense que a sua escolinha, por mais simpática, acolhedora ou familiar que seja, está imune a qualquer ocorrência, enquanto o ambiente geral for de permissividade e de tolerância: o ME a ignorar todos os casos que não terminem na esquadra de polícia ou na urgência do hospital, os directores a esconder os incidentes para que a sua imagem de gestores escolares não saia beliscada e um enquadramento legal e pedagógico desculpabilizador de actos que, na verdade, podem configurar crimes graves contra os direitos, a dignidade e a integridade física das vítimas.

Não falo de cor nem escrevo para atrair visualizações com títulos sensacionalistas. Simplesmente vou acompanhando o que a imprensa vai escrevendo sobre escolas, professores e educação em geral. E noto a regularidade preocupante com que, nas últimas semanas, a violência escolar vai fazendo títulos e manchetes nos media. Fica, sem a preocupação de ser exaustivo, um breve apanhado.

Violência na escola leva Câmara de Valença a contratar empresa de segurança

Aluno de 16 anos acusado de bater na professora em escola do Porto

GNR registou desde janeiro 64 crimes associados ao “bullying”

A violência ocorre fora da visão dos adultos e grande parte das vítimas não reage ou denuncia a agressão sofrida.

Menina de 10 anos agredida em escola no Cacém. “A minha filha não pode chegar assim a casa e ninguém fazer nada”

Mafra | Alunos passeiam-se pelos telhados da Escola Básica 2,3 da vila

Dois alunos feridos devido a agressão com x-ato em escola de Alcobaça

O domínio da boa educação…

… a rubrica da gentileza, a área de competência da empatia, os descritores do respeito pelos outros, não deveriam fazer parte das aprendizagens essenciais?

Agora que aparentemente se concluiu que os conhecimentos estão na internet e só é preciso saber ir lá buscá-los, que o confinamento deixou muita gente a “bater mal” e o que importa é desenvolver competências, quando se assumirá que a indisciplina, o bullying e mesmo a violência escolar são realidades que, com o regresso da escola presencial, se vão de novo instalando no quotidiano?

É certo que os programas da abelha Maia e quejandos estarão a dar bom dinheiro a ganhar a formadores e instituições de ensino superior e a justificar destacamentos de gente que o que menos deseja é ter de experimentar na prática docente a teoria que anda a vender aos outros. Mas não seria já altura de parar de inventar problemas e complicações e de olhar a realidade que temos à nossa volta?

Como professora no terreno, Carmo Machado percebe bem o que se passa. E não receia colocar o dedo na ferida.

Se a escola conseguir, neste ano letivo em curso, definir e concretizar – como aprendizagens essenciais – uma melhoria da boa educação e da gentileza dos alunos, terá alcançado a sua primeira missão no contexto da sociedade atual. Quando o professor se sente minúsculo perante o chorrilho de palavrões que ouve diariamente, isto é bullying. Quando o professor se sente humilhado, ofendido, vilipendiado no desempenho da sua profissão e nada se faz para o apoiar, isto é bullying. Quando os alunos se descalçam na aula, se sentam com as estendidas e pousadas nas cadeiras da frente, isto é bullying. Quando entram e se mantém propositadamente de capuz, isto é bullying. Quando os alunos emitem sons impróprios e recusam obedecer às ordens do professor para sair da sala, isto é bullying. Quando ofendem os funcionários, boicotam as aulas, humilham os professores de todas as formas possíveis, isto é bulllying. Quando o professor tem de dar a aula num clima de guerrilha quase permanente, obrigando-se a uma gestão minuciosa de todas as palavras ditas – por perigo de deturpação imediata das mesmas – isto é bullying. Quando o professor adoece por exaustão emocional, isto é bullying, Quando a sensação de impotência do professor aumenta na exata proporção da sensação de impunidade dos alunos, isto é bullying. Eis o estado a que chegámos em  muitas das nossas escolas e contra o qual é urgente lutar.

Importa repensar quais são as verdadeiras aprendizagens essenciais numa sociedade cada vez mais empobrecida de valores. Quando a má educação e os comportamentos insolentes servem, na maioria dos casos, de veículo de aceitação, integração e afirmação social dentro do grupo-turma, tocámos no fundo. Quando a escola permite que indivíduos cheguem ao 12º ano sem a mínima interiorização das regras básicas de educação e de socialização, sem respeito por si próprios e pelos outros, sem vontade de cumprir os seus deveres, sem consciência do triste estado em que se encontram, quem falhou?      

Falhámos todos.

Bullying violento em Torres Vedras

As notícias sobre o caso de um menino de 12 anos que foi vítima bullying no Agrupamento de Escolas Madeira Torres, em Torres Vedras começaram ontem a circular na comunicação Social.

“AFINAL NÃO FOI UMA QUEDA
As mães têm um super poder que lhes diz que os filhos estão a mentir. Quis saber pormenorizadamente como foi a suposta queda. A queda que nos trouxe a este internamento. (…) ele conta-me que um grupo de meninos, na sala de aula lhe bateram, pregaram rasteiras, incessantemente até à professora chegar.
A professora ignorou o choro dele e sugeriu que apanhasse ar.
À saída da escola uma auxiliar achou-o em baixo e ofereceu lhe um chá.(…) Quase perdemos o meu filho entre Sábado e segunda. Todos os médicos perguntaram várias vezes se tinha sido apenas uma queda uma vez que haviam mais lesões e não batia certo.
O Santi não quis acusar ninguém porque não é aceite na turma..”, escreveu a mãe do menino nas suas redes sociais.
Marta Veloso acrescenta ainda que “a professora com quem tenho mantido contato afinal SABIA QUE FORA AGRESSAO E NAO QUEDA E NAO ME DISSE NADA! Enfim. Lamentável”.
[das redes sociais de Marta Veloso mãe da criança]

O menino apresentava hematomas no braço e inicialmente disse aos pais que tinha caído, mas acabou por ser internado no domingo passado, inicialmente em Torres Vedras sendo depois transferido para Lisboa com um enfisema pulmonar e múltiplas lesões.

Podemos continuar entretidos a inventar problemas e desafios para a “escola do século XXI”, mas isso não elimina os problemas reais que subsistem nas comunidades escolares e que podem tornar a vida de alunos e professores num verdadeiro inferno.

O bullying, tal como a violência escolar em geral, esteve mais ou menos contido durante a pandemia e o ensino à distância, mas não desapareceu. Não podemos afirmar que episódios com a gravidade do que aqui é descrito sejam o dia a dia das nossas escolas. Mas é verdade que o bullying é continua a ser um problema comum em muitos sítios, que nem todos fazem tudo o que podem e devem para o prevenir e combater e que mesmo as escolas consideradas calmas e seguras não devem considerar-se imunes ao fenómeno.

Havendo um pequeno número de alunos que tenderão, por diversas razões, a tornar-se instigadores do bullying, tudo depende do ambiente escolar ser mais ou menos propício ao seu florescimento. Se há um trabalho feito junto das turmas que ajude os miúdos a identificar as situações de humilhação, abuso e assédio por parte de colegas, eles poderão ter um papel decisivo, apoiando a vítima, isolando o agressor e denunciando o que se está a passar. Adultos atentos, nomeadamente funcionários vigilantes em relação ao que se passa nos recreios e professores às interacções na sala de aula, gestores escolares que circulam pela escola em vez de passarem o dia fechados no gabinete da direcção, tudo isto contribui para prevenir e combater eficazmente o bullying, evitando a escalada de situações que venham a ocorrer e que podem ter consequências muito graves. Não será preciso recordar que, além do imenso sofrimento psicológico, há casos que terminam em hospitalização das vítimas, com sequelas físicas e psicológicas para o resto da vida e, em casos extremos, suicídios tentados ou concretizados.

O país que se ufana de ser, nas estatísticas internacionais, o terceiro ou quarto mais seguro do mundo, deveria levar mais a sério os problemas da segurança escolar: indisciplina, violência, bullying e ciberbullying. Não podemos acordar para os problemas apenas quando eles acabam na esquadra de polícia ou na urgência hospitalar. Assobiar para o lado não chega, e não esperem os responsáveis convencer quem quer que seja com o habitual discurso de circunstância, que já conhecemos de cor e salteado: a escola é segura, que foi um pequeno desentendimento entre alunos que acabou mal, não houve omissão de auxílio e irá ser instaurado o sacramental inquérito para “apuramento de responsabilidades”.

O menino agredido em Torres Vedras já teve alta hospitalar e vai ficar em casa, acamado, durante duas semanas. Espera-se que recupere bem dos traumas físicos, pois os psicológicos irão por certo ser mais persistentes.