Violência e agressões numa escola de Loures

eb-2-3-mario-sa-carneiro.jpgOs encarregados de educação da escola Básica 2,3 Mário de Sá Carneiro, em Loures, realizaram uma vigília contra a insegurança no estabelecimento de ensino, relatando casos de violência e agressões, ocorridas nas últimas semanas.

O protesto foi convocado pela associação de pais e juntou vários encarregados de educação, alunos, autarcas e representantes de forças políticas, que alertaram para o “crescente clima de violência” sentido na vila de Camarate, onde se situa esta escola, no concelho de Loures, distrito de Lisboa.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da associação de pais do agrupamento de escolas de Camarate, Ricardo Oliveira, explicou que no espaço de um mês ocorreram “dois episódios graves de violência” na escola, sendo que no primeiro houve “uma invasão e agressão e ameaças a funcionários”.

“Tudo começou com problemas entre dois alunos, sendo que um deles é de uma família problemática. Ele chamou familiares que vieram à escola armados”, relatou.

Sente-se um aumento da violência na zona de Camarate, concelho de Loures. Crianças de famílias problemáticas trazem para a escola comportamentos agressivos e perturbadores. Não satisfeitos com a forma como os filhos resolvem as desavenças com os colegas, os pais, não menos “problemáticos”, parecem sentir-se no direito de entrar na escola para fazer “justiça” à sua maneira. Professores e funcionários que tentem manter a ordem e disciplinar os gandulos arriscam-se a ser também agredidos. A Escola Segura tem apenas dois agentes para sete escolas complicadas e nem uma única viatura: os polícias deslocam-se a pé ou conseguem, se tiverem sorte, uma boleia. Temendo pela segurança dos filhos, os pais mostram-se preocupados. E demonstram-no publicamente.

A notícia do JN dá conta de tudo isto, apresentando também as desculpas e os silêncios habituais nestas situações. A Câmara diz que vai ver o que se passa com o policiamento. A PSP e a direcção da escola remetem-se ao silêncio. E o Governo promete ir averiguar a situação. No jogo do empurra somos todos bons. O que nos falta quase sempre, nas alturas críticas, é quem resolva os problemas e assuma as responsabilidades.

Anúncios

Bullying, a última fronteira

Girl-Bullying.jpgUma aluna do quinto ano da Escola Básica (EB) de Vila Verde teve de receber tratamento hospitalar depois de, segundo a mãe, ter sido vítima “mais do que uma vez” de bullying por parte de outros alunos.

Tudo começou porque, explicou a mãe, a criança usa mochila com rodinhas. Foi apresentada queixa na GNR de Vila Verde e a direção da escola iniciou um processo de averiguações.

A menina, de constituição física muito frágil, foi empurrada, quando se encontrava sentada, e agredida por outros jovens no recreio. Aliás, por diversas vezes que já se terá queixado de atos de violência e “gozo” por colegas de turma e alunos de outros anos. […]

Na passada quarta-feira, a menina estaria sentada num banco do recreio e terá sido empurrada por duas colegas, tendo, no final, ficado com a cara inchada e o sobrolho teve de ser suturado.

O caso surpreende sobretudo pela idade da vítima e das suas agressoras. Pois estamos habituados a associar o bullying a adolescentes e os bullies ao sexo masculino. Mas a verdade é que este tipo de comportamentos podem surgir em todas as idades. E continuam a ser uma realidade preocupante nas escolas portuguesas.

Não que seja mais frequente hoje do que há umas décadas atrás. Como sucede com outros fenómenos que antigamente eram ignorados, escondidos e desvalorizados, o que existe actualmente é uma maior consciência da gravidade do bullying e das marcas indeléveis que ele pode deixar nas vítimas, causando-lhes profundo sofrimento e comprometendo o seu desenvolvimento pessoal e social.

Contudo, se temos feito progressos na identificação e na denúncia dos casos se que vão sucedendo, continuamos a falhar num ponto fulcral: o bullying precisa de ser prevenido nos ambientes escolares e, quando se manifesta, detectado precocemente e combatido logo aos primeiros sinais.

Já há muitos anos que deixou de aceitar os castigos corporais nas escolas. Hoje não se admite, e muito bem, que um professor levante a mão a um aluno ou que o uso da violência seja uma forma de educar, ou sequer de controlar comportamentos disruptivos.

No ambiente familiar a evolução foi mais recente, mas também já não se reconhece, hoje, a legitimidade da “palmada pedagógica” dos pais como método educativo.

Pelo que cumpre perguntar porque é que, se não apanham dos pais, professores ou educadores, algumas crianças têm de se sujeitar a ser agredidas pelos seus companheiros de escola. Quando seremos capazes de banir esta última fronteira do abuso e da violência? E até, indo um pouco mais longe, o que é que leva crianças que não são tratadas dessa forma a desenvolver comportamentos intolerantes e violentos com outros miúdos?…

Claro que a reflexão nos poderia levar a uma interminável discussão sobre a natureza humana, o que não é o objectivo deste post. Será o “homem lobo do homem”, como vaticinava Hobbes, precisando, desde tenra idade, de ser refreado nos seus impulsos agressivos e dominadores? Ou existirá em cada criança o “bom selvagem” descrito por Rousseau?

Qualquer que seja a resposta a estas perguntas ou o posicionamento filosófico de cada um, há um factor que será sempre fundamental: é pela educação que se pode aprender, desde criança, a refrear os comportamentos impulsivos e prejudiciais aos outros e a nós próprios. E é também educando-nos que potenciamos as nossas boas qualidades.

Assim sendo, parece-me que atitudes, valores e cidadanias se devem aprender no concreto, no contexto das relações interpessoais e das diversas actividades escolares. Mais importante do que a “estratégia” ou a “planificação”, é estarmos atentos aos sinais que os miúdos nos dão e entendermos claramente quando e como devemos actuar.

Zelando pelo bem-estar e pela educação das crianças e jovens, não pelo sucesso dos burocratas da OCDE.

O que se passa na escola da Maia?

bullying[1]Os pais e avós dos alunos da Escola EB1/JI do Lidador, na Maia, decidiram criar patrulhas para vigiar o recreio, tendo por finalidade evitar confrontos entre as crianças que estudam naquela unidade de ensino. Os encarregados de educação queixam-se de falta de funcionários para vigiar o período de lazer dos alunos, mas a autarquia – responsável pela escola – fundamenta que as duas funcionárias são “suficientes” para garantir a segurança dos alunos.

Uma escola do 1º ciclo com jardim de infância. Um grupo de alunos mais velhos que aterroriza e agride os mais novos. Duas funcionárias, que a autarquia diz serem mais do que suficientes. Nas entrelinhas a suspeita de que estão aqui envolvidos miúdos de uma etnia cujo nome é politicamente incorrecto referir. E a revelação incómoda de que não se trata de um punhado de alunos mais turbulentos e agressivos que se envolvem em confrontos físicos. São agressões cobardes de miúdos mais velhos a crianças mais novas. Numa palavra, bullying. Os pais que podem retiram os filhos daquele inferno, enquanto os outros lá ficam a sofrer o castigo.

Os responsáveis dizem que os incidentes estão resolvidos e o que não está se encontra em vias de resolução. Mas percebe-se que não é assim. O ME não aceita responsabilidades numa área – o pré-escolar e o 1º CEB – há muito entregue às autarquias, limitando-se a considerar boa qualquer solução que os outros finjam ter encontrado. A câmara prefere poupar no pessoal, garantindo que já fez a sua parte e deixando os pais, professores e funcionários da escola com o menino nos braços. A sede do agrupamento está lá longe, e nada no actual modelo de gestão escolar convida os directores a abandonar a zona de conforto do gabinete e das plataformas informáticas para ir gerir, no terreno, as situações complicadas.

E querem convencer-nos de que a solução para isto são patrulhas de pais nos intervalos das aulas, a vigiar a escola pelo lado de fora, para prevenir mais agressões?…

“Sou professor e hoje um aluno partiu-me os óculos”

51aidIRWkoL._UX466_.jpgOs óculos foram à vida e algumas lágrimas, presas, ficaram por chorar. Meio cego, a ausência dos óculos é a cicatriz que não consigo esconder durante os próximos dias, a violação do corpo, a cobardia do desafio sem resposta.

Não se fala disto, eu não falo disto, se me perguntarem está tudo bem e, ao chegar a casa, foi mais um dia normal. Mas isto não é normal, ainda não estou em mim, interiorizo tudo e isto também, estou calado, ando mudo, há-de passar mas não passa e só através da escrita consigo fazer a catarse.

Contexto: trabalho numa escola de alunos excluídos do ensino secundário por problemas de comportamento. Como os miúdos têm a mania de fazer “cavalinhos” no meio da estrada à hora de almoço e no meio do trânsito, temos de lhes prender as bicicletas a cadeado.

Estava de plantão no recreio, só para ter a certeza que não havia problema nenhum, quando um aluno veio ter comigo e exigiu que lhe desprendesse a bicicleta.

Disse-lhe que não, que não podia, só ao fim do dia, por uma questão de segurança. O aluno insistiu e ordenou, acrescentando precisar da bicicleta à hora de almoço e, como mais uma vez lhe disse não poder, o rapaz não hesitou, agarrou-me os óculos e atirou-os violentamente contra o chão.

Quinhentos euros para o chão, talvez mais, assim, num par de segundos.

Voltei para dentro da escola e afastei-me do aluno, aluno esse que entretanto fugiu a correr rua abaixo, ou assim me disseram depois. Não estava em mim.

O testemunho, emotivo e revoltante, saiu ontem no Público e refere-se a uma das facetas mais penosas e sombrias da profissão docente: aquelas ocasiões em que um aluno descompensado, frustrado, violento ou apenas mentalmente desequilibrado agride o professor. Foi, naturalmente, partilhado em blogues e redes sociais.

Mas parece-me que poucos se terão apercebido de um pormenor: embora o autor seja português e professor, ele não trabalha em Portugal. É professor, já há alguns anos, em Inglaterra, onde a situação descrita se terá passado.

Na verdade, João André Costa é um nome relativamente conhecido da mais jovem geração de professores, pois durante anos animou o blogue Como dar aulas em Inglaterra, no qual ajudava outros jovens professores, fustigados pelo desemprego em Portugal, a tentar a sua sorte em terras britânicas.

Mesmo desconhecendo o autor, há uma parte da peça publicada que não deixa dúvidas a quem, conhecendo a realidade educativa nacional, a ler com atenção: este desfecho dificilmente se poderia passar, desta forma, numa escola portuguesa. Os subtítulos são da minha responsabilidade. A reflexão sobre o que é verdadeiramente a autonomia das escolas e o ensino centrado nos alunos e nas suas necessidades, essa cabe-nos a todos…

E se pensam que a escola, e consigo a direcção, se estiveram nas tintas e que este é mais um texto para incendiar opiniões, estão enganados. Cinco minutos depois já tinha o director ao meu lado a querer saber de mim, como estava, o que é que podia fazer, e que não me preocupasse com os óculos que a escola paga tudo.

O resto do dia foi um corrupio de gente a querer inteirar-se do meu estado, que eu tinha feito tudo bem e nada mais havia a fazer numa situação destas. Não entrei em conflito com o aluno, desviei o olhar, repeti a mensagem. Podia ter-me afastado, mas estava com as costas coladas ao portão. Não havia nada a fazer.

O aluno em questão já não volta para esta escola, continuando a sua escolaridade num outro pólo, mais pequeno, com mais professores e profissionais, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, mais ajuda, por conseguinte, para o aluno e para os pais.

Professora condenada por maus tratos aos alunos

angry-teacherOs factos dados como provados pelo tribunal ocorreram entre 2009 e 2016 em duas escolas do 1º ciclo do concelho de Barcelos. A professora foi condenada a cinco anos de prisão, com pena suspensa, por dez crimes que envolveram agressões, insultos e maus tratos a alunos com dificuldades de aprendizagem. Terá ainda de indemnizar em cerca de 12 mil euros aos ofendidos.

Segundo o tribunal, a professora usava frequentemente “calão grosseiro” em frente aos alunos, dirigindo-lhes expressões insultuosas como “arrastão”, “aselha”, “burro”, “preguiçoso” e “lesma”.

As agressões físicas passavam, nomeadamente, por bofetadas, calduços (pancadas na nuca) ou agressões na cabeça com canetas ou com os dedos em que tinha anéis.

Ainda de acordo com a sentença, os alunos sofriam ainda outros castigos, como não frequência das atividades extracurriculares ou privação dos recreios.

A docente terá também baixado as calças e/ou cuecas a alguns alunos, em plena sala de aulas, agredindo-os com sapatadas nas nádegas.

Impunha aos alunos um “ameaçador pacto de silêncio”, para que não contassem em casa nada do que se passava na escola.

Perante os factos relatados, que a acusada não reconheceu em tribunal, presume-se que as provas recolhidas e a convergência de testemunhos tornaram a acusação irrefutável, não havendo muito mais a acrescentar.

Sendo uma pequena minoria, é óbvio que haverá maus profissionais na Educação, como os haverá em todas as profissões. Nalguns casos extremos, são mesmo pessoas que não têm o mínimo perfil ou o necessário equilíbrio psicológico para trabalhar com crianças, muito menos para as educar. Estão, como é evidente, na profissão errada.

Médico agredido no centro de saúde

csaude-chamusca.JPGUm médico de família do centro de saúde da Chamusca foi agredido por recusar passar uma baixa a uma utente, situação que está a indignar a Ordem dos Médicos, que vai avançar para tribunal.

O médico, recém-especialista, contou à agência Lusa que foi agredido fisicamente pelo companheiro de uma utente que lhe tinha solicitado uma renovação de baixa médica, após ter recusado passá-la.

Afinal, dir-se-á, não são apenas os professores que ocasionalmente são vítimas de agressões no seu local de trabalho. Os centros de saúde e os hospitais têm sido identificados como locais de crescente conflitualidade, com os profissionais de saúde a serem sujeitos a uma pressão excessiva da parte dos utentes e das condições de funcionamento do próprio sistema.

Há, contudo, uma diferença importante. Além de ter recebido o apoio da Ordem dos Médicos e do sindicato, também o responsável político pela Saúde percebeu que lhe competia dirigir um gesto de preocupação e solidariedade para com o médico agredido:

Segundo o profissional, o ministro da Saúde soube da situação e já lhe telefonou.

Na Educação, quando teremos um ministro capaz de condenar publicamente os actos de violência contra os professores? Ou, simplesmente, de se interessar por estas situações, de sentir a necessidade de se mostrar atento e solidário, de perceber que os problemas que enfrentam os seus profissionais, no exercício de funções, são também problemas da Educação?

Alguém imagina um certo Tiago a telefonar pessoalmente, por sua iniciativa, a um docente vítima de agressão?…

Não à violência nas escolas do Cerco

cerco-manif.JPGOs docentes do Agrupamento de Escolas do Cerco do Porto manifestaram-se, esta segunda-feira, a propósito da recente agressão que uma professora foi alvo por parte de quatro familiares de um aluno na Escola do Lagarteiro.

Apoiados pelo SPN, que convocou a manifestação, diversos professores do Agrupamento de Escolas do Cerco falaram à reportagem do JN. Com serenidade, mas de forma clara e assertiva, evocaram o seu quotidiano num agrupamento que recebe alunos difíceis provenientes de um meio familiar e social complicado. E do que está a falhar quando o Estado, que obriga todos os jovens com menos de 18 anos a frequentar a escola, não toma medidas para garantir a segurança de quem aí estuda e trabalha.

Entre os professores, expressa-se a revolta contra o facto de as pessoas não se sentirem seguras no seu local de trabalho. Falhando os apoios sociais e sendo insuficientes aqueles que a escola pode prestar aos alunos, os docentes sentem que a escola se transforma num barril de pólvora, prestes a explodir ao mais pequeno incidente. A falta de pessoal auxiliar, uma responsabilidade camarária que não estará a ser devidamente assumida, agrava os problemas, pois desguarnece o acompanhamento aos alunos e a vigilância das entradas e do recinto escolar.

Os professores lamentam ainda que, embora estejam anos sucessivos a funcionar como uma almofada da sociedade e a tentar, além de ensinar os alunos, fornecer-lhes referências morais e afectivas que a família não lhes dá, não vejam a importância do seu trabalho ser reconhecida e valorizada pelos responsáveis da Educação.

E questionam: passaria pela cabeça de alguém que um criminoso que não gostasse da sentença do juiz se virasse contra ele em pleno tribunal? Claro que não, assim como também nenhum político espera receber represálias cada vez que toma uma decisão prejudicial a alguns cidadãos. Pois é precisamente este direito de poder trabalhar sem estar sujeito a ameaças ou ofensas à sua integridade física o que os professores, à semelhança de todos os outros trabalhadores, reivindicam. Nem mais, nem menos.