O que se passa na escola da Maia?

bullying[1]Os pais e avós dos alunos da Escola EB1/JI do Lidador, na Maia, decidiram criar patrulhas para vigiar o recreio, tendo por finalidade evitar confrontos entre as crianças que estudam naquela unidade de ensino. Os encarregados de educação queixam-se de falta de funcionários para vigiar o período de lazer dos alunos, mas a autarquia – responsável pela escola – fundamenta que as duas funcionárias são “suficientes” para garantir a segurança dos alunos.

Uma escola do 1º ciclo com jardim de infância. Um grupo de alunos mais velhos que aterroriza e agride os mais novos. Duas funcionárias, que a autarquia diz serem mais do que suficientes. Nas entrelinhas a suspeita de que estão aqui envolvidos miúdos de uma etnia cujo nome é politicamente incorrecto referir. E a revelação incómoda de que não se trata de um punhado de alunos mais turbulentos e agressivos que se envolvem em confrontos físicos. São agressões cobardes de miúdos mais velhos a crianças mais novas. Numa palavra, bullying. Os pais que podem retiram os filhos daquele inferno, enquanto os outros lá ficam a sofrer o castigo.

Os responsáveis dizem que os incidentes estão resolvidos e o que não está se encontra em vias de resolução. Mas percebe-se que não é assim. O ME não aceita responsabilidades numa área – o pré-escolar e o 1º CEB – há muito entregue às autarquias, limitando-se a considerar boa qualquer solução que os outros finjam ter encontrado. A câmara prefere poupar no pessoal, garantindo que já fez a sua parte e deixando os pais, professores e funcionários da escola com o menino nos braços. A sede do agrupamento está lá longe, e nada no actual modelo de gestão escolar convida os directores a abandonar a zona de conforto do gabinete e das plataformas informáticas para ir gerir, no terreno, as situações complicadas.

E querem convencer-nos de que a solução para isto são patrulhas de pais nos intervalos das aulas, a vigiar a escola pelo lado de fora, para prevenir mais agressões?…

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“Sou professor e hoje um aluno partiu-me os óculos”

51aidIRWkoL._UX466_.jpgOs óculos foram à vida e algumas lágrimas, presas, ficaram por chorar. Meio cego, a ausência dos óculos é a cicatriz que não consigo esconder durante os próximos dias, a violação do corpo, a cobardia do desafio sem resposta.

Não se fala disto, eu não falo disto, se me perguntarem está tudo bem e, ao chegar a casa, foi mais um dia normal. Mas isto não é normal, ainda não estou em mim, interiorizo tudo e isto também, estou calado, ando mudo, há-de passar mas não passa e só através da escrita consigo fazer a catarse.

Contexto: trabalho numa escola de alunos excluídos do ensino secundário por problemas de comportamento. Como os miúdos têm a mania de fazer “cavalinhos” no meio da estrada à hora de almoço e no meio do trânsito, temos de lhes prender as bicicletas a cadeado.

Estava de plantão no recreio, só para ter a certeza que não havia problema nenhum, quando um aluno veio ter comigo e exigiu que lhe desprendesse a bicicleta.

Disse-lhe que não, que não podia, só ao fim do dia, por uma questão de segurança. O aluno insistiu e ordenou, acrescentando precisar da bicicleta à hora de almoço e, como mais uma vez lhe disse não poder, o rapaz não hesitou, agarrou-me os óculos e atirou-os violentamente contra o chão.

Quinhentos euros para o chão, talvez mais, assim, num par de segundos.

Voltei para dentro da escola e afastei-me do aluno, aluno esse que entretanto fugiu a correr rua abaixo, ou assim me disseram depois. Não estava em mim.

O testemunho, emotivo e revoltante, saiu ontem no Público e refere-se a uma das facetas mais penosas e sombrias da profissão docente: aquelas ocasiões em que um aluno descompensado, frustrado, violento ou apenas mentalmente desequilibrado agride o professor. Foi, naturalmente, partilhado em blogues e redes sociais.

Mas parece-me que poucos se terão apercebido de um pormenor: embora o autor seja português e professor, ele não trabalha em Portugal. É professor, já há alguns anos, em Inglaterra, onde a situação descrita se terá passado.

Na verdade, João André Costa é um nome relativamente conhecido da mais jovem geração de professores, pois durante anos animou o blogue Como dar aulas em Inglaterra, no qual ajudava outros jovens professores, fustigados pelo desemprego em Portugal, a tentar a sua sorte em terras britânicas.

Mesmo desconhecendo o autor, há uma parte da peça publicada que não deixa dúvidas a quem, conhecendo a realidade educativa nacional, a ler com atenção: este desfecho dificilmente se poderia passar, desta forma, numa escola portuguesa. Os subtítulos são da minha responsabilidade. A reflexão sobre o que é verdadeiramente a autonomia das escolas e o ensino centrado nos alunos e nas suas necessidades, essa cabe-nos a todos…

E se pensam que a escola, e consigo a direcção, se estiveram nas tintas e que este é mais um texto para incendiar opiniões, estão enganados. Cinco minutos depois já tinha o director ao meu lado a querer saber de mim, como estava, o que é que podia fazer, e que não me preocupasse com os óculos que a escola paga tudo.

O resto do dia foi um corrupio de gente a querer inteirar-se do meu estado, que eu tinha feito tudo bem e nada mais havia a fazer numa situação destas. Não entrei em conflito com o aluno, desviei o olhar, repeti a mensagem. Podia ter-me afastado, mas estava com as costas coladas ao portão. Não havia nada a fazer.

O aluno em questão já não volta para esta escola, continuando a sua escolaridade num outro pólo, mais pequeno, com mais professores e profissionais, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, mais ajuda, por conseguinte, para o aluno e para os pais.

Professora condenada por maus tratos aos alunos

angry-teacherOs factos dados como provados pelo tribunal ocorreram entre 2009 e 2016 em duas escolas do 1º ciclo do concelho de Barcelos. A professora foi condenada a cinco anos de prisão, com pena suspensa, por dez crimes que envolveram agressões, insultos e maus tratos a alunos com dificuldades de aprendizagem. Terá ainda de indemnizar em cerca de 12 mil euros aos ofendidos.

Segundo o tribunal, a professora usava frequentemente “calão grosseiro” em frente aos alunos, dirigindo-lhes expressões insultuosas como “arrastão”, “aselha”, “burro”, “preguiçoso” e “lesma”.

As agressões físicas passavam, nomeadamente, por bofetadas, calduços (pancadas na nuca) ou agressões na cabeça com canetas ou com os dedos em que tinha anéis.

Ainda de acordo com a sentença, os alunos sofriam ainda outros castigos, como não frequência das atividades extracurriculares ou privação dos recreios.

A docente terá também baixado as calças e/ou cuecas a alguns alunos, em plena sala de aulas, agredindo-os com sapatadas nas nádegas.

Impunha aos alunos um “ameaçador pacto de silêncio”, para que não contassem em casa nada do que se passava na escola.

Perante os factos relatados, que a acusada não reconheceu em tribunal, presume-se que as provas recolhidas e a convergência de testemunhos tornaram a acusação irrefutável, não havendo muito mais a acrescentar.

Sendo uma pequena minoria, é óbvio que haverá maus profissionais na Educação, como os haverá em todas as profissões. Nalguns casos extremos, são mesmo pessoas que não têm o mínimo perfil ou o necessário equilíbrio psicológico para trabalhar com crianças, muito menos para as educar. Estão, como é evidente, na profissão errada.

Médico agredido no centro de saúde

csaude-chamusca.JPGUm médico de família do centro de saúde da Chamusca foi agredido por recusar passar uma baixa a uma utente, situação que está a indignar a Ordem dos Médicos, que vai avançar para tribunal.

O médico, recém-especialista, contou à agência Lusa que foi agredido fisicamente pelo companheiro de uma utente que lhe tinha solicitado uma renovação de baixa médica, após ter recusado passá-la.

Afinal, dir-se-á, não são apenas os professores que ocasionalmente são vítimas de agressões no seu local de trabalho. Os centros de saúde e os hospitais têm sido identificados como locais de crescente conflitualidade, com os profissionais de saúde a serem sujeitos a uma pressão excessiva da parte dos utentes e das condições de funcionamento do próprio sistema.

Há, contudo, uma diferença importante. Além de ter recebido o apoio da Ordem dos Médicos e do sindicato, também o responsável político pela Saúde percebeu que lhe competia dirigir um gesto de preocupação e solidariedade para com o médico agredido:

Segundo o profissional, o ministro da Saúde soube da situação e já lhe telefonou.

Na Educação, quando teremos um ministro capaz de condenar publicamente os actos de violência contra os professores? Ou, simplesmente, de se interessar por estas situações, de sentir a necessidade de se mostrar atento e solidário, de perceber que os problemas que enfrentam os seus profissionais, no exercício de funções, são também problemas da Educação?

Alguém imagina um certo Tiago a telefonar pessoalmente, por sua iniciativa, a um docente vítima de agressão?…

Não à violência nas escolas do Cerco

cerco-manif.JPGOs docentes do Agrupamento de Escolas do Cerco do Porto manifestaram-se, esta segunda-feira, a propósito da recente agressão que uma professora foi alvo por parte de quatro familiares de um aluno na Escola do Lagarteiro.

Apoiados pelo SPN, que convocou a manifestação, diversos professores do Agrupamento de Escolas do Cerco falaram à reportagem do JN. Com serenidade, mas de forma clara e assertiva, evocaram o seu quotidiano num agrupamento que recebe alunos difíceis provenientes de um meio familiar e social complicado. E do que está a falhar quando o Estado, que obriga todos os jovens com menos de 18 anos a frequentar a escola, não toma medidas para garantir a segurança de quem aí estuda e trabalha.

Entre os professores, expressa-se a revolta contra o facto de as pessoas não se sentirem seguras no seu local de trabalho. Falhando os apoios sociais e sendo insuficientes aqueles que a escola pode prestar aos alunos, os docentes sentem que a escola se transforma num barril de pólvora, prestes a explodir ao mais pequeno incidente. A falta de pessoal auxiliar, uma responsabilidade camarária que não estará a ser devidamente assumida, agrava os problemas, pois desguarnece o acompanhamento aos alunos e a vigilância das entradas e do recinto escolar.

Os professores lamentam ainda que, embora estejam anos sucessivos a funcionar como uma almofada da sociedade e a tentar, além de ensinar os alunos, fornecer-lhes referências morais e afectivas que a família não lhes dá, não vejam a importância do seu trabalho ser reconhecida e valorizada pelos responsáveis da Educação.

E questionam: passaria pela cabeça de alguém que um criminoso que não gostasse da sentença do juiz se virasse contra ele em pleno tribunal? Claro que não, assim como também nenhum político espera receber represálias cada vez que toma uma decisão prejudicial a alguns cidadãos. Pois é precisamente este direito de poder trabalhar sem estar sujeito a ameaças ou ofensas à sua integridade física o que os professores, à semelhança de todos os outros trabalhadores, reivindicam. Nem mais, nem menos.

Não à violência escolar!

Fica a divulgação de uma iniciativa muito oportuna do SPN e o apelo à participação de todos os colegas da região do Porto que, amanhã, possam comparecer.

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Violência contra os professores

telemovel-ja.JPGSegundo um memorando da actividade do Ministério Público (MP) na Comarca de Lisboa referente a 2017, dos 121 inquéritos iniciados em contexto escolar 87 referem-se a casos de violência contra professores.

Apenas um pequeno excerto da notícia se refere à violência escolar reportada às autoridades. Mas a informação é preocupante, pela dimensão que dá a um tipo de crimes que não costumam merecer grande atenção, nem das autoridades, nem dos responsáveis políticos, ao ponto de se diluir na criminalidade geral. Contudo, como os números evidenciam, ser professor, pelo menos nalgumas escolas públicas do nosso país, é hoje uma profissão de alto risco.

Como sucede sempre que temos um problema que precisa de resolução, a primeira coisa a fazer é assumir a sua existência. Ser insultado, assediado ou agredido não pode ser uma fatalidade a que se tenham que resignar alguns professores que tiveram a desdita de lhes calhar uma daquelas escolas ou turmas complicadas que todos sabemos existirem.

Em segundo lugar, é preciso perceber a importância de prevenir a indisciplina, a violência escolar e os comportamentos disruptivos em geral. Um caminho que não é fácil, que por vezes não sai barato, nem produz resultados imediatos, mas que é o mais eficaz a longo prazo. Implica a existência de estruturas e apoios específicos à integração escolar dos alunos problemáticos, reforçando o trabalho dos professores, e que passa por lhes incutir os comportamentos, atitudes e valores que o meio social e familiar não lhes transmitiu e que são indispensáveis à vida em sociedade, tanto na escola como fora dela.

Finalmente, combater a violência contra os professores passa também pela condenação clara e imediata de todas as agressões, intimidações, coacções ou outros actos de violência física ou psicológica de alunos e pais contra os docentes. Uma condenação que deve ser expressa publicamente por colegas, direcção escolar e pelo próprio ministério. Não pode aqui haver lugar a silêncios ou a subterfúgios. Não há “inquéritos”, “averiguações” ou “segredos de justiça” que sirvam de desculpa a quem não quer ver o que é óbvio: uma agressão é sempre ilícita e condenável e ninguém, em circunstância alguma, tem o direito de bater nos outros, fazendo justiça pelas próprias mãos. Nenhum professor “fez por merecer” que lhe batessem. E um governo democrático, num Estado de direito, não deveria ter quaisquer dúvidas a este respeito.