A banalização do mal

soco.jpgUma professora primária grávida de seis semanas foi agredida, durante a manhã de ontem, pela mãe de um aluno dentro das instalações da Escola Professor Agostinho da Silva, em Lisboa. 

Ao Notícias ao Minuto, fonte da PSP informou que a encarregada de educação, de 28 anos, agrediu a vítima – que terá uma gravidez de risco – por não ter concordado com uma reprimenda verbal que a docente, de 35 anos, terá dado ao seu filho, de seis anos, no dia anterior. 

Na sequência das agressões, a professora foi transportada para a Maternidade Alfredo da Costa e, posteriormente, encaminhada para Hospital de São José para realizar exames complementares. Até ao momento, não foi possível apurar o estado de saúde da vítima. 

O Ministério da Educação informou, esta quarta-feira, à agência Lusa que a professora já foi substituída e que a agressora será presente a tribunal. “A professora está ausente de serviço, tendo já sido substituída para que a atividade letiva prossiga naquela turma“, sustentou a tutela. 

Mais uma agressão a uma docente – a 24.ª que o contador do ComRegras contabiliza este ano – desta feita com especiais requintes de premeditação e malvadez: a agressora, fez-se acompanhar dos próprios filhos, que assistiram às agressões, tal como os alunos da turma do 1.º ano de escolaridade leccionada pela professora, presentes na sala.

Quanto aos motivos, a futilidade habitual, alguma coisa que a mãezinha não gostou que a professora terá dito ao seu rico filho. Em pano de fundo, o sentimento que se instalou insidiosamente nalguns sectores da sociedade: pode-se insultar, desconsiderar e até agredir os professores, que nada acontece.

O ministério, percebendo que teria de dizer alguma coisa sobre o assunto, tenta sossegar os pais com o recomeço das aulas – será a terceira professora que aquelas crianças terão este ano, uma realidade que não parece incomodar muito os responsáveis, tal como o trauma de alunos de 6 anos terem presenciado a agressão. E acrescentou, pois fica sempre bem, que “repudia veementemente todas as formas de violência, em particular em ambiente escolar, e convida os encarregados de educação para uma atitude proativa de prevenção de comportamentos violentos e de desrespeito”.

Pela minha parte, entendo que os professores portugueses têm direito a muito mais do que às palavras hipócritas e de mera circunstância que os responsáveis proferem nestas ocasiões. Deveria o ministro pronunciar-se claramente, condenando as agressões e solidarizando-se incondicionalmente com a vítima, em vez de se esconder atrás de sonsas e anónimas “notas de imprensa”. Quanto ao ME, deveria agir judicialmente até às últimas instâncias em defesa de quem tem ao seu serviço e que tantas vezes arrisca a saúde e a integridade física no exercício da profissão. Para que fosse feita, em todos estes casos, efectiva justiça.

Os casos mais graves de violência escolar, habitualmente perpetrados por alunos mais velhos ou pelos seus encarregados de educação só serão eficazmente combatidos se forem tratados, desde o primeiro momento, como aquilo que efectivamente são: crimes ignóbeis que devem ser exemplarmente punidos.

Está explicado!

violencia-escolar.JPGEstá explicado como é que, apesar do sentimento de crescente insegurança que se vive nas escolas, continuamos a ser sossegados pelos responsáveis, que nos garantem que a violência escolar continua, de ano para ano, a diminuir.

Se todos fizerem como a GNR de Abrantes que, perante a agressão violenta  que a seguir é descrita, qualifica a ocorrência como “desentendimento entre adolescentes”, então quer dizer que continuamos, colectivamente, a alimentar um enorme embuste dos qual os maiores prejudicados serão os nossos alunos, os nossos filhos.

Significa que desistimos de melhorar o mundo em que vivemos, normalizando a violência em vez de a combater e abrindo “inquéritos” em vez de se tomarem medidas imediatas e eficazes para punir os agressores, condenando sem reservas e desencorajando estes comportamentos.

A direção do Agrupamento de Escolas de Sardoal abriu um “processo de inquérito” para averiguar “factos” que envolveram a agressão de um aluno na quarta-feira, no interior da escola, confirmou ao mediotejo.net a diretora Ana Paula Sardinha.

O caso de agressão na Escola E.B. 2,3/S Drª Maria Judite Serrão Andrade, em Sardoal, não mereceu da parte da Guarda Nacional Republicana, chamada ao local, classificação de “criminalidade violenta” mas sim “um desentendimento entre adolescentes”, explicou ao mediotejo.net o Capitão Flambó, do destacamento da GNR de Abrantes.

Na quarta-feira, dia 27 de novembro, pela hora de almoço, entrou na escola um jovem, segundo a GNR de 18 anos, tendo solicitado na portaria entrada no edifício no sentido de se dirigir à secretaria para recolher documentação necessária a um processo de transferência escolar. Acabou como suspeito de agredir um dos alunos daquele estabelecimento escolar, no caso o filho do presidente da Junta de Freguesia.

A desavença terá começado na rede social Twitter e acabou dentro da escola. “Fui chamado à direção, soube que o meu filho tinha sido agredido, vi alunos mais jovens e que assistiram às agressões muito tensos, crianças a tremer, olhares assustados”, referiu Miguel Alves ao nosso jornal.

Frisou que o filho “não saiu da escola quando recebeu chamadas telefónicas e mensagens para se dirigir ao jardim mesmo em frente. Não saiu da escola, quando o ameaçaram junto ao portão da mesma. Foi agredido de uma forma grotesca, à cabeçada, ao murro e com uma peça metálica que lhe atingiu as fontes”, disse Miguel Alves.

O aluno ferido foi conduzido ao Hospital de Abrantes, apresentando escoriações e hematomas. “Danos que podiam ser irreparáveis, tudo isto dentro das instalações da sua escola”, acrescentou o pai, indicando que o agressor chegou a Sardoal acompanhado de um grupo de cinco jovens vindos de um outro concelho em viatura automóvel (alguns maiores de idade).

Professor não pode ser saco de pancada

billy_bully_ready_for_a_fight_lg_clr[1]Foi no dia 23 de outubro. Já tinha acabado as aulas [na Escola Maria Alberta Meneres, em Sintra] e estava na reprografia quando uma funcionária apareceu a pedir ajuda, porque um aluno de 11 anos estava a abrir os cacifos dos colegas. Decidi ir falar com ele. Estou nesta escola há 20 anos e eles conhecem-me. Quando chegámos lá, estava completamente fora de si. Dizia para a funcionária [de 54 anos]: “Vai-te f…., vai para o c……, filha da p…” Aproximei-me para tentar que viesse comigo, mas assim que lhe agarrei no braço ele começou às cotoveladas, murros e empurrões. Eu e a funcionária éramos autênticos sacos de boxe. Acabámos as duas por ir para o hospital.

Continuar a denunciar as agressões a professores é fundamental para que ninguém possa negar que o problema existe, embora esteja longe de ser generalizável à maioria das escolas. Felizmente, o bom relacionamento entre professores e alunos continua a ser regra entre nós, atestada por sucessivas avaliações internacionais.

Claro que a violência entre alunos também é grave e os casos, muito mais raros, de agressões de professores a alunos são condenáveis sem reservas. A diferença é que, enquanto o professor agressor se torna alvo imediato do poder disciplinar do ME, os professores agredidos são muitas vezes incentivados a perdoar e a esquecer o mal que lhes fizeram. Quando a tutela e, muitas vezes, as lideranças de proximidade encaram as ofensas verbais e físicas aos professores como “ossos do ofício”, em vez de os apoiar e assumir a sua defesa contra o agressor, torna-se bem claro que os professores estão por sua conta. Têm de agir, individual e colectivamente para, também aqui, exigirem respeito e fazerem valer os seus direitos.

Outro ponto a considerar tem a ver com aquilo que pode ser visto como o lado negro da escola inclusiva que todos queremos, supostamente, construir. Meter na escola todos os menores de 18 anos, incluindo os que não querem lá estar e aqueles que, sem apoios e condições especiais, pouco aprenderão, implica um reforço de meios adequados para integrar todos os alunos, gerir conflitos e garantir a segurança das pessoas e das instalações. Aqui, pensamos geralmente em jovens delinquentes ou pré-delinquentes, mas actualmente vão sendo cada vez mais frequentes os casos de alunos com perturbações, patologias ou distúrbios mentais que, não sendo devidamente tratados e acompanhados, se podem tornar violentos. Ainda recentemente uma direcção escolar justificava a agressão a uma professora pelo facto de o aluno ter uma perturbação do espectro do autismo, sendo assim “normal” que ele se torne violento e ataque quem estiver à sua beira.

Ora esta normalização da agressão verbal e física, a pretexto de que o aluno não se controla, vive uma vida difícil ou é aquela a forma que tem de se exprimir, não é de todo aceitável. Os maus tratos, a tortura e outras situações degradantes da dignidade humana não podem aceitar-se em local ou circunstância alguma, muito menos na escola. E se todos reconhecemos o avanço civilizacional que foi o fim dos castigos corporais e das humilhações psicológicas nas escolas, não podemos agora, sob o pretexto de que queremos a escola inclusiva e de que temos de aceitar todos os alunos tal como eles são, permitir que estes possam ofender ou atacar professores, funcionários ou colegas que deles se aproximem.

Finalmente, o caso ontem relatado pelo Expresso e que motiva este post serve de alerta para os excessos de voluntarismo: perante um miúdo violento e descontrolado, o melhor é não lhe tocar sem que se tenha a certeza de conseguir controlar, em segurança, a situação. Caso contrário, corremos o risco de passarmos a ser nós o bombo da festa. Tal como polícias, bombeiros e outros profissionais de segurança fazem há muito, em situações de perigo há que intervir e ajudar os outros, mas preservando a nossa segurança em primeiro lugar. Se ninguém protege os professores, devem eles proteger-se, em primeiro lugar, a si próprios. E se a nova regra é que, em nome da inclusão, devemos aceitar que meninos e meninas façam tudo o que lhes apetecer, então o melhor é sair-lhes da frente.

Denunciar a violência nas escolas

Os pais de dois alunos de 5 anos do Centro Escolar de Riachos, Torres Novas, denunciaram “várias agressões” aos filhos, por outras crianças, acusando os responsáveis escolares de “nada fazerem”.
Ao CM, a coordenadora disse que “está a ser feito tudo” para resolver “situações de sala de aula”. “O meu filho é agredido com pontapés e murros, é ofendido ao máximo e sofre de racismo”, disse ao CM Flávio Salinas.

Duas jovens, de 16 e 17 anos, envolveram-se numa luta, motivada pelo que se pensam ser motivos amorosos, tendo a mais nova agredido a mais velha com um canivete, provocando-lhe um corte na orelha.
A altercação ocorreu por volta das 11 horas, desta terça-feira, 19 de Novembro, nas imediações da Escola Básica e Secundária de Salvaterra de Magos, onde as duas jovens estudam, tendo a jovem de 17 anos sido transportada ao Centro de Saúde de Salvaterra de Magos, onde foi assistida aos ferimentos sofridos durante as agressões.

Um estudante de 16 anos, da escola secundária Joaquim de Araújo, em Penafiel, foi agredido, na terça-feira, por um professor, dentro da sala de aula. O jovem em causa sofre de surdez e teve, por isso, que receber assistência médica em dois hospitais. A direcção do agrupamento abriu um processo disciplinar e pediu a sua suspensão preventiva. 

Na Escola Eb. 2/3 de Fânzeres (Agrupamento de Santa Bárbara – Gondomar), no dia 6 de novembro de 2019, dois professores foram agredidos dentro do recinto escolar.
No primeiro caso, um aluno com antecedentes disciplinares dá um estalo a um professor de 62 anos de idade fugindo depois da escola.
No segundo caso, uma aluna apostou com as colegas que se tirasse negativa puxava o cabelo à professora. Tirou e puxou.
Ambos os alunos foram suspensos.

Já deu para perceber que, ao contrário do que afirma a propaganda governamental, a violência escolar está longe de ser um fenómeno “residual” ou circunscrito a um punhado de escolas que servem os bairros mais problemáticos dos principais centros urbanos. Também não é, felizmente, uma realidade do quotidiano da maioria das escolas portuguesas. O que aí domina, sim, é a pequena indisciplina, que quando não é controlada e combatida pode ser, também já se percebeu, o caldo de cultura que propicia incidentes mais graves.

Aqui, entram em jogo as direcções escolares e o próprio ME, que não actuam como deveriam nestas situações. Em nome de uma permissividade indevidamente associada à ideia de “escola inclusiva” e da preservação do que entendem ser a boa imagem das escolas, continuam a esconder-se e a desvalorizar-se agressões graves, não se punindo os agressores nem protegendo adequadamente as vítimas. O facto de serem cada vez mais frequentes as agressões a professores é um sintoma, não só que estes são cada vez menos respeitados e considerados por certas franjas da sociedade, mas também de um salto qualitativo no fenómeno da violência em meio escolar: um aluno que se atreve a bater num professor, o que não fará a um colega com quem se desentenda?…

Quanto aos professores, é ainda de notar que a falta de solidariedade das direcções e, por vezes, dos próprios colegas, leva a que, com demasiada frequência, o professor tenha vergonha de assumir sozinho que se foi maltratado, insultado e agredido. E passa por uma segunda humilhação que é constatar a impunidade do agressor.

Enquanto os responsáveis continuam a fingir que o problema da violência nas escolas não existe, ou não lhes diz respeito – talvez tencionem também passá-lo para as autarquias, à boleia da descentralização de competências! – é importante continuar a denunciá-lo. A comunicação social tem estado, honra lhe seja feita, atenta aos casos que vão sendo conhecidos.

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Mas há um esforço que deve ser feito pelos próprios professores e por todos aqueles que podem falar em seu nome. Entre todos, destaco o trabalho meritório e a todos os títulos exemplar do blogue ComRegras, que criou o Contador de agressões a docentes e não docentes e onde se vai mantendo um registo actualizado dos casos que vão sendo do conhecimento público e daqueles que lhes chegam através de denúncia.

Meninos grunhos e pedagogos do regime

santana-castilhoO programa Prós e Contras de 3 do corrente, supostamente sobre a indisciplina e a violência que reina nas escolas, mostrou que há muitos professores que aceitam como coisa sua aquilo que é coisa das famílias, dos políticos e do Estado. […]

Apesar da função dos professores ser promover o conhecimento, ensinando com independência, o programa mostrou ainda que a propaganda oficial os coloniza e leva demasiados a aceitarem que os “meninos” são grunhos e violentos porque as aulas não são motivadoras, “flexíveis” e as escolas não têm teatro.

Atento à realidade e acutilante na escrita, Santana Castilho continua a fazer uma análise certeira dos problemas de fundo que afectam a Educação portuguesa. E que, a não serem resolvidos, farão das escolas públicas portuguesas lugares de frequência cada vez menos recomendável.

A verdade é que o nosso sistema educativo, embora com naturais insuficiências, foi um dos principais factores do desenvolvimento do país e da qualificação das novas gerações. As retenções, hoje tão diabolizadas, permitiram que um sistema com fracos recursos conseguisse assegurar a universalização da escolaridade, primeiro para nove, depois para doze anos, sem que essa massificação fosse acompanhada por uma degradação irreparável dos níveis de exigência aos alunos ou da qualidade de ensino.

Com a população escolar há muitos anos em queda, deveríamos hoje ser capazes de reduzir ainda mais o insucesso escolar, reforçando os meios materiais e humanos ao serviço das escolas, de forma a assegurar mais e melhores aprendizagens a todos os alunos. O que só não acontece porque a Educação, apesar de vital para o futuro do país, não é assumida como uma prioridade política. E bem anda Santana Castilho ao desmascarar a demagogia e o cinismo dos pedagogos do regime…

Maria Emília Brederode está certa na proposição (fácil é reprovar os alunos, difícil é criar condições para que aprendam) mas erra, com dolo, quanto à solução. Porque sabe bem que as condições não estão nas mãos dos professores mas nas decisões políticas de quem a elegeu. Porque sabe bem que acabar com os chumbos só se consegue baixando o nível de exigência ou criando medidas sociais de erradicação da pobreza e de apoio à destruturação das famílias e medidas educativas sérias (mais tutores, mais professores de apoio, mais psicólogos e técnicos especializados, redução do número de alunos por turma e mais meios e materiais de ensino). A alternativa que implícita e hipocritamente sugere é a primeira. Porque sabe bem que as outras, as sérias, são incompatíveis com as mentes captas dos seus prosélitos e com a limpeza do balanço do Novo Banco (mais 700 milhões).

Questionando mesmo os consensos tidos por inquestionáveis – como aquele que obriga a permanecer na escola até aos 18 anos jovens que lá não querem andar – o cronista que venho a citar antevê, para a Educação portuguesa, um futuro que já é o presente noutros países: a uma escola pública mergulhada no caos da burocracia, da indisciplina e do facilitismo, contrapõem-se as escolas privadas de excelência onde serão formadas as novas elites…

Se nas escolas continuarmos a preterir o que verdadeiramente importa a favor de trivialidades aparentemente livres e avançadas, estaremos a breve trecho face a uma sociedade com duas escolas: uma, que valoriza o conhecimento e premeia o estudo e o esforço, para os que a possam pagar e para os filhos e netos dos governantes e dos pedagogos do regime; outra, para o povo, “flexível”, manicomial, carregada de planos e projectos, onde só chumbarão (e cada vez mais) os professores/escravos.

O professor do ano justifica-se

rui-correiaO professor do ano disse no Prós e Contras da RTP que nunca mandou nenhum aluno para a rua, em trinta anos de aulas. Ora, esse professor sou eu. E esse professor, quer se queira, quer não se queira, nunca mandou nenhum aluno para a rua. O alvoroço provocado em algumas pessoas, e a que esta revista deu espaço, por ter tido o topete de confessar publicamente um dado que para mim é “concreto e definido, como outra coisa qualquer” da minha vida profissional, gerou em mim uma atenção que não esperava. 

Rui Correia, citado na prosa de Carmo Machado que ontem comentei, acusa o toque. E responde na mesma revista à censura colectiva que sente erguer-se à sua volta e que é visível, por exemplo, nos grupos de professores que, nas redes sociais, comentaram a sua prestação no programa televisivo sobre violência escolar.

Claro que, se Rui Correia nunca mandou um aluno “para a rua”, não precisa de dizer que já o fez para deixar os colegas satisfeitos. Apesar do tom algo pretensioso e rebuscado da argumentação, percebe-se a ideia principal: não quis alinhar no coro de vitimização e de lamúrias em relação à classe docente, acha que são os sucessos dos professores, bem mais numerosos do que os fracassos, que se devem evidenciar e que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, uma intervenção positiva é sempre possível e desejável.

Contudo, não foi esta a leitura que muitos, diria mesmo a maioria dos espectadores do programa, fizeram. O “professor do ano” mostrou pouca solidariedade, compreensão e empatia com os seus colegas que, trabalhando em contextos sócio-educativos mais desfavoráveis do que o seu, se arriscam diariamente a “levar no focinho”. Preferiu centrar-se nos seus sucessos, no seu “eu” notoriamente insuflado, o que é naturalmente uma opção legítima. Tal como o são as críticas que outros professores fizeram à sua prestação televisiva, algo a que está sempre sujeito quem se expõe publicamente.

Pela minha parte, não desejo entrar numa polémica sem grande substância. Aproveito antes para recordar uma realidade que se esconde por detrás destes prémios que algumas multinacionais com interesses na educação distribuem por professores escolhidos a dedo: quem se encontrava no palco daquele Prós e Prós, não era o professor da Escola de Santo Onofre, mas sim o Embaixador da Fundação Varkey. Cumprindo uma das obrigações do professor do ano, que é a de actuar como agente de propaganda da fundação que atribui o prémio e das suas concepções educativas. Quem duvidar pode confirmá-lo consultando o regulamento do concurso, onde se diz claramente que um dos deveres do vencedor é:

(ii) desempenhar o papel de Embaixador do “Global Teacher Prize Portugal” (o “Prémio”).  

O Embaixador do Prémio deve participar em conferências e outros eventos, programas promovidos pelos meios de comunicação social e promover a realização de ações de formação e outras atividades. Os custos com as deslocações no exercício da tal função serão da inteira responsabilidade da entidade promotora do Prémio. 

Pois é, os 30 mil euros trazem consigo um preço a pagar. Desenganem-se aqueles que acham que um “professor do ano”, nomeado por organizações que têm a sua própria agenda educativa, irá alguma vez defender e representar a classe docente. A ideia é exactamente a oposta: trata-se de promover uma imagem de professor destinada a funcionar como modelo para os outros profissionais da educação. Não se pretende exibir o professor típico dos nossos tempos, mas sim o super-professor em que querem que nos transformemos. Quem participa nestes concursos começa por aceitar a proibição de fazer ou dizer tudo o que possa desagradar às autoridades educativas e aos promotores privados da iniciativa.

De facto, os sucessivos professores do ano que já tivemos projectaram sempre uma imagem idealizada da profissão, na qual elementos perturbadores como alunos violentos, professores agredidos, bullying ou aulas dominadas pela indisciplina simplesmente não podem existir. O professor do ano ama a sua profissão e concretiza a magia ensinar todos os alunos, mesmo os que não querem aprender. Não reclama, não reivindica, nem faz greves – ou pelo menos não pode falar disso publicamente.

A lógica do professor do ano é empobrecedora e limitativa. Reproduz as concepções neoliberais de uma sociedade atomizada, onde cada professor trabalha isoladamente, competindo com todos os outros para ser o melhor. Alimenta o mito do professor que, sozinho, inspira sonhos, transforma realidades, muda a vida e o destino dos alunos que passam por ele. Concretiza a mudança na escola, para que a ordem económica e social que gera a desigualdade e a injustiça não tenha de mudar.

Pela minha parte, prefiro lutar por uma sociedade mais justa e por um modelo escolar democrático e colaborativo, em que todos os professores cooperem na construção de uma escola melhor. E defendo uma profissão docente dignificada e valorizada, na qual todos possam ser bons professores, ano após ano.

Violência escolar: o rei vai nu…

carmo-machadoTambém eu já fui injuriada. A minha experiência profissional com três décadas de escola pública mostra que os alunos dos cursos profissionais são, em regra, mais indisciplinados do que os alunos dos cursos do ensino regular e que os do ensino básico provocam mais problemas do que os do secundário. Porém, é tudo uma questão de sorte. Já me chamaram “filha da puta”. Já entraram e saíram da sala com estrondo, aos pontapés e aos palavrões. Já me ameaçaram. Já amarrotaram e rasgaram testes corrigidos, atirando-os para o caixote do lixo, ali mesmo à minha frente. Todos os dias, dia após dia, há professores a passar por alguma situação de violência. São atos contínuos que vão corroendo a mente e o corpo. Num dia normal de trabalho, um professor lida com cerca de 90 a 120 alunos. Todos diferentes, sim! Mas também todos iguais na sua adolescência, na sua atribulada vida familiar, no seu (des)interesse pela escola, na sua (des)preocupação com as notas, na sua obsessão pelo telemóvel, na sua descoberta da sexualidade, na sua atitude de revolta.

Que razões levam os professores a não marcarem faltas disciplinares amiúde ou, em casos mais trágicos, a não denunciar os alunos à polícia? Medo? Vergonha? Sensação de impunidade? No meu caso, é cansaço. É sobretudo cansaço, como diz o poeta.

Tomando como pretexto o debate televisivo da semana passada sobre a violência escolar, Carmo Machado volta ao tema, trazendo à discussão a sua experiência pessoal, semelhante à de muitos outros professores, numa crónica pertinente e inspirada que merece leitura integral.

Apesar de os responsáveis educativos se recusarem a, já nem digo enfrentar o problema, mas pelo menos a reconhecer a sua existência, a verdade é que o caldo de cultura que é a pequena indisciplina, disseminada na grande maioria das nossas escolas, potencia, quando estão presentes outros factores, uma escalada no sentido da indisciplina grave e das agressões verbais e físicas de alguns alunos contra colegas e professores.

A grande maioria destas situações são resolvidas pelos professores na sala de aula, admite a colega Carmo. Mas a verdade é que são muitas vezes mal resolvidas, como também reconhece: deixam-se passar sem castigo comportamentos inaceitáveis, não se fazem queixas e participações para não colocar em causa o nome das escolas e dos responsáveis. Ou, simplesmente, porque há a noção da inutilidade de avançar com a queixa para a ver acabar esquecida num qualquer fundo de gaveta. É isto que faz com que a violência se perpetue e agrave em certos ambientes escolares. E é também por esta via que se permite que o ME continue a afirmar, cinicamente, que a violência escolar está a diminuir. Algo que os professores no terreno, sobretudo os que lidam diariamente com os ambientes mais complicados, podem categoricamente desmentir.

Na verdade, do lado dos docentes, pode afirmar-se que a insegurança e as ameaças que se tornaram parte do quotidiano, nalgumas escolas TEIP e não só, estão a ter graves efeitos na saúde mental dos professores. Quando estes circulam com medo em certas zonas das escolas, quando receiam enfrentar determinadas turmas, é evidente que algo terá urgentemente de ser feito para reprimir os agressores e devolver a segurança e a tranquilidade aos espaços escolares e a quem neles estuda e trabalha. Termino com as palavras pesarosas, mas ao mesmo tempo sensatas e realistas, da cronista da Visão que venho a citar…

A sensação de impotência e de vazio espalha-se pelas salas de professores. Lidamos diariamente com comportamentos de baixo impacto mas de elevada frequência. E, pouco a pouco, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, o reflexo destes comportamentos aliado à urgência em apagar tantos fogos ao mesmo tempo vão-se acumulando dentro de nós. Eis-nos chegados a um ponto em que a nossa caixa de ressonância começa a vibrar cada vez menos com a escola. Vivemos as semanas de trabalho na esperança de que os meses e os períodos se sucedam rapidamente e o ano letivo termine. Por tudo isto, considero urgente um debate honesto sobre o cansaço, a exaustão e a desilusão dos profissionais de ensino em Portugal. Neste contexto, dificilmente conseguiremos chegar aos 66 anos e muitos meses na posse de plenas capacidades mentais. Eu por mim falo!