Sapos do Ano

Geralmente alheio a concursos de popularidade, foi com surpresa que recebi a notícia da nomeação da Escola Portuguesa para a eleição dos Sapos do Ano, uma iniciativa que visa escolher, por votação dos leitores, os melhores blogues portugueses em diversas categorias.

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Na categoria de Educação, os outros blogues finalistas são O Meu Quintal, do Paulo Guinote, que dispensa apresentações, o Pedimos gomas como resgate, de Maria Joana Almeida, e mais dois blogues que desconhecia: o Educar (Com)Vida, de Maribel Maia, e o CONTRAOFACILITISMO, de Rui Ferreira. Pois esse é também um dos objectivos assumidos deste concurso, que registo com agrado: mais do que atribuir prémios, dar a conhecer blogues desconhecidos, criando assim oportunidades para novas e interessantes leituras.

Cumpre-me naturalmente agradecer a quem nomeou a Escola Portuguesa – eu não fui, seguramente! –  e aos organizadores dos Sapos do Ano, que seleccionaram este blogue para a lista de finalistas. Claro que nem eu, nem provavelmente a maioria dos bloggers que escrevem sobre educação, andamos nesta vida em busca de notoriedade. Mas gostamos, obviamente, de saber que somos lidos e que o nosso trabalho é, de quando em vez, destacado publicamente. Muito obrigado.

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Trabalhar para ganhar a vida, ou gastar a vida a trabalhar?

Carreiras profissionais de 50 a 60 anos de duração, mudar de emprego 10 ou 12 vezes, fazer formação profissional continuamente, porque o mercado laboral não pára de fazer novas exigências. Eis o futuro delirante que nos oferecem as multinacionais, as fundações empresariais e as organizações internacionais.

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Incapazes de perspectivar o futuro fora das formatações mentais do capitalismo neoliberal e tecnológico dominante neste início de século, os doutrinadores da “era digital” não conseguem antever coisas tão simples como a escassez de trabalho no mundo informatizado, automatizado e robotizado que prevalecerá dentro de duas ou três décadas.

É preciso uma completa falta de juízo para imaginar septuagenários e octogenários a trabalhar ao ritmo imposto em muitas profissões. Mas já seria mais fácil se colocassem uma questão bem mais simples e que encontra resposta na realidade do presente: quantas empresas existem, nos dias de hoje, a recrutar novos trabalhadores com 50 ou 60 anos de idade? Irão recrutá-los, no futuro, quando tiverem com 70 anos?

Para quem exerce a profissão docente, todo este discurso chega a parecer surrealista, tamanha a exaustão profissional que vemos afectar a maioria dos professores com mais de 60 anos – e alguns bem mais novos. Está mais que demonstrado que há profissões – e a docência é uma delas – mais desgastantes do que a maioria. Nesses casos, é um completo disparate pensar que se poderia trabalhar até mais tarde. Quando muito, deveria pensar-se em começar mais cedo a carreira, melhorando as condições em que os jovens professores podem aceder e exercer a profissão.

Quanto ao problema das reformas e da insustentabilidade dos actuais regimes de segurança social, o que fazemos é andar às voltas, adiando a idade da aposentação e penalizando ainda mais quem já muito trabalhou e descontou. Claro que isto nada resolve em definitivo: o subfinanciamento do sistema de pensões é um problema que só será resolvido quando as máquinas que substituem o trabalho humano descontarem para a segurança social na proporção dos ganhos que proporcionam aos seus donos.

Uma geração superficial?

estudo-e-telemovelBom dia ou boa noite, professora. Nas próximas duzentas a trezentas palavras lerá aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou escrever. Por isso mesmo, sente-se, coma qualquer coisa e tenha misericórdia de mim.

A professora Carmo Machado usa esta advertência do seu aluno como ponto de partida para uma interessante reflexão sobre os efeitos que a falta de hábitos de leitura e a omnipresença dos jovens na internet e nas redes sociais está a ter na capacidade de concentração, na compreensão do pouco que lêem e, também, nas competências de escrita dos actuais estudantes. Estaremos, com a ajuda do dr. Google, do Youtube e das redes sociais, a formar uma geração superficial?

Sim, a maior parte dos alunos tem aversão à escrita porque não lê, sentindo uma enorme dificuldade em escrever, problema que aumenta de ano para ano. Ler estimula o raciocínio, desenvolve o vocabulário, aumenta a capacidade de interpretação, diminui os erros ortográficos, ajuda a produzir textos coesos, desenvolve a capacidade argumentativa, só para referir algumas vantagens. De facto, se vocês não lerem, como irão conseguir escrever? A esta pergunta, alguns alunos respondem-me de imediato: Ó stora, mas a gente lê. Todos os dias lemos imensas coisas na Internet… Bingo!

[…] A geração com que trabalho é uma geração alienada e cada vez mais superficial. A internet, sabemo-lo, veio mudar o mundo. Está a mudar as nossas vidas e começou já a transformar os nossos cérebros.

A dependência do computador e da ligação à rede começa a interferir na forma como percecionamos o mundo, provocando danos irreparáveis na maneira como utilizamos a linguagem. Penso que reside aqui, neste uso e abuso que fazemos das tecnologias, uma das principais causas das dificuldades crescentes dos alunos no uso da escrita. O que pode então a Ciência dizer-nos sobre as consequências do uso da internet nos nossos cérebros e nos cérebros dos nossos alunos? Muito mesmo. Vários estudos realizados por educadores, investigadores de diferentes áreas como psicólogos e neurobiólogos mostram que quando os alunos estão em rede (o que acontece a maior parte do tempos nos dias que correm), o ambiente em que se encontram promove uma leitura negligente e rápida. Ora, neste contexto, o pensamento torna-se também ele apressado sendo a aprendizagem que fazemos das coisas cada vez mais superficial.

O que fazemos quando estamos em rede acarreta consequências neurológicas impercetíveis no imediato mas cujo efeito é preocupante. Não é preciso ser-se professor para se constatar que a capacidade de concentração dos jovens e adolescentes é cada vez menor. Na verdade, tal como o tempo gasto a explorar páginas web (na maior parte das vezes sem qualquer conteúdo de interesse) suplanta o tempo que passamos a ler noutros registos e formatos (já nem me atrevo a referir-me aos livros), também o tempo que se consome a redigir mensagens curtas de texto (vulgo sms) suplanta o tempo que se utiliza a escrever um parágrafo, vários parágrafos, um texto… Deste modo, enquanto saltitamos entre hiperligações que nos levam a nenhures perdemos a oportunidade de refletir silenciosamente. Eis o ponto seguinte desta rede de vazios. O silêncio é praticamente inexistente na vida dos nossos alunos. Dentro ou fora da aula, os alunos não o conhecem. Logo, os antigos processos e funções intelectuais que permitiam o raciocínio aprofundado e a reflexão começaram a destruir-se e a desaparecer. O cérebro recicla os neurónios e as sinapses não utilizadas, dando-lhe outras tarefas mais urgentes. É certo que os alunos possuem e/ou ganharam outras competências que nós não possuímos mas perderam capacidade de foco e de concentração. Segundo Nicholas Carr, o nosso cérebro está a regredir ao cérebro primitivo ou reptiliano, em alerta e distração permanente.

Há muito que se notava que as novas tecnologias de informação estão a mudar o modo como aprendemos e como nos relacionamos com as outras pessoas – sobretudo os mais novos, cujas mentes são mais influenciáveis e moldáveis. Mas hoje, os professores e os pais mais atentos vão-se apercebendo de que, apesar de podermos ter “o conhecimento na palma da mão”, nem todas as mudanças não positivas.

As evidências que se vão somando parecem demonstrar que a exigência de uma escola livre de telemóveis, por exemplo, não é apenas um capricho de professores que querem dar as suas aulas sem distracções. Ela pode vir a ser condição essencial para satisfazer a necessidade de criar, na vida das nossas crianças e adolescentes, espaços e tempos em que permanecem desligados da rede. Para que os jovens cérebros possam processar o excesso de informação que vão recebendo e dar uso às funções que vão atrofiando. Ganhando tempo para falarem e se ouvirem uns aos outros e aos seus professores, e a oportunidade de fazerem coisas como ler um livro ou, simplesmente, ouvir o som do silêncio…

A complexidade do problema e dos efeitos a longo prazo que a alienação digital poderá ter nas gerações ditas do milénio recomenda ainda duas precauções básicas. A primeira, que se continue a investigar e a discutir o tema, pois não se pode agir acertadamente sem conhecimento suficiente. A outra é afastar o mais possível, dos processos de decisão, a influência dos maus conselheiros:  os vendedores de tecnologia, os demagogos da sociedade de informação e todos os influenciadores e empreendedores em busca de dinheiro fácil ou fama imediata.

O babysitter do século XXI

Nove em cada dez casas portuguesas têm smartphones, tablets, computadores portáteis ou ligação à Internet. Os dispositivos electrónicos são usados por crianças cada vez mais novas. Os pais são os primeiros a passá-los para as mãos dos filhos e as crianças que mais usam aplicações (apps) são as que têm entre zero e os dois anos, revela o estudo Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Faculdade de Ciências Humanas, da Universidade Católica Portuguesa, que é apresentado em Lisboa nesta terça-feira.

Tal como nos anos de 1980, o Papa João Paulo II alertava para a televisão como a “ama electrónica” das crianças, agora, este estudo vem confirmar que os ecrãs continuam a ter essa função, quer em casa quer na rua, por exemplo, nos restaurantes, onde as crianças são postas frente a um tablet ou a um smartphone, dizem 587 pais dos mil que respondem que os filhos usam aplicações. Em casa, acontece quando os pais precisam de trabalhar ou fazer tarefas domésticas, respondem 490. Os dispositivos também podem ajudar a resolver uma birra para 99 dos pais.

O estudo, recentemente publicado, mostra uma realidade preocupante: numa idade crucial para o desenvolvimento das interacções sociais e a gradual descoberta do mundo à sua volta, as crianças até aos dois anos recebem telemóveis com aplicações para que estejam entretidas e não perturbem os afazeres ou o descanso dos pais.

E embora se tentem iludir com as supostas vantagens educativas dos aparelhos electrónicos, são os próprios pais que reconhecem as suas maiores desvantagens: comprometem a actividade física e o desenvolvimento de competências sociais e perturbam o sono. Mas sabe tão bem ter as criancinhas sossegadas e agarradas aos ecrãs…

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Há nesta utilização precoce dos smartphones uma falha que é especialmente notada pelos investigadores: raramente os pais se dispõem a explorar as aplicações em conjunto com os filhos. E confiam que, como as capacidades dos miúdos mais pequenos são naturalmente limitadas, não correrão os riscos a que estão sujeitos os mais velhos, mesmo em aparelhos ligados à internet.

E, no entanto, a investigação parece apontar uma realidade um pouco distinta: as crianças tendem a saber mais coisas acerca dos telemóveis, tablets e computadores colocados à sua disposição do que pensam pais. E por vezes a fazer um uso diferente daquele que está planeado. Há relatos e evidências de que as crianças começam cada vez mais cedo a pesquisar no Google, a instalar aplicações e mesmo a aceder a redes sociais. E a fazer estas coisas, frequentemente, sem a supervisão dos pais.

Detenções nocturnas

jabelmanta1.jpgJosé Preto afirmou, na última noite, que houve “abusos extraordinários” durante a detenção do ex-presidente leonino, Bruno de Carvalho, em declarações registadas pela RTP.

“A lei hoje permite detenções à noite, o que não era sequer possível no Salazarismo, e permite estes abusos extraordinários de pretensas diligências que são, objetivamente, atuações infamantes, aviltantes e vexatórias”, declarou. O advogado criticou até o facto de a detenção ter sido feita no Dia de São Martinho. “Foi escolhida uma data que não é apenas um domingo à noite, é uma data em que as famílias costumam reunir-se”.

Claro que prendiam pessoas à noite, em casa, no tempo do salazarismo. Era, aliás, uma das especialidades da PIDE. O doutor advogado do ex-presidente sportinguista a contas com a justiça, das duas uma: ou é ignorante, ou quer enganar-nos.

Costumavam era reservar estes tratamentos aos opositores políticos do regime. Deveria portanto, o dito advogado, explicar melhor a sua ideia: no tempo de Salazar não se tratavam desta forma as “pessoas importantes”…

Deter, investigar e levar a julgamento ex-dirigentes políticos, desportivos e empresariais é uma prática muito recente da nossa democracia. Um campo onde ainda há muito a aprender e a melhorar. Por exemplo, na coragem de não ficarem à espera que os prevaricadores abandonem dos cargos para então os investigarem.

Fica, com a imortal música e voz de José Afonso, a lembrança de um passado repressivo que nunca deverá ser menorizado. Muito menos esquecido.

Penso, logo existo…

…nas redes sociais!

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© Henricartoon

Recuperação do tempo de serviço: até ao lavar dos cestos é vindima…

Vindima.pngAs hesitações e os posicionamentos que se vão assumindo, em torno do decreto-lei da recuperação parcial do tempo de serviço dos professores, mostram que a luta dos professores pela contagem total está longe de terminada.

O Governo deu por encerradas as negociações com os sindicatos e transformou em decreto-lei, já aprovado em Conselho de Ministros, a sua proposta de devolução de 2 anos, 9 meses e 18 dias a partir de 2019, a atribuir aquando da primeira mudança de escalão que vier a ocorrer. Mas o documento, que estará a aguardar parecer das assembleias regionais, ainda não chegou a Belém para promulgação pelo Presidente.

Aqui, não são de descartar nem a hipótese do veto político, nem o envio para o Tribunal Constitucional, pois a proposta que se conhece, ao permitir ultrapassagens entre professores, é de constitucionalidade duvidosa.

O Presidente da República não garante promulgar o decreto do Governo que pretende recuperar dois anos, nove meses e 18 dias para efeitos de progressão de carreira dos professores. O diploma ainda não chegou a Belém, mas Marcelo Rebelo de Sousa já analisou eventuais argumentos para um veto. Fonte da Presidência confirmou ao Expresso que a promulgação não está garantida e que o dilema presidencial está em “50%-50%”.

Se o diploma for promulgado, PCP e BE já se comprometeram a chamá-lo à apreciação parlamentar. E é aqui que surge a novidade: o PSD reclama estar ao lado dos professores e anunciou a disponibilidade para chumbar, ao lado dos dois partidos de esquerda, o diploma do Governo.

A revogação do decreto-lei implicaria o retorno, de Governo e sindicatos, à mesa das negociações. Na prática, faria regressar o assunto à estaca zero.

O Público de hoje faz um bom ponto da situação actual e daquilo que, para os tempos mais próximos, é possível antecipar.

Se o Presidente da República promulgar o decreto-lei da contagem parcial do tempo de serviço dos professores, uma coligação negativa formada por PCP, BE e PSD vai anular o diploma do Governo. Cai por terra a intenção de António Costa, que sempre se mostrou inflexível nesta matéria, de contar dois anos, nove meses e 18 dias. O decreto-lei nunca entrará em vigor, não porque os partidos da oposição sejam contra a devolução do tempo de serviço aos professores mas porque consideram que contar dois anos (e não a totalidade dos nove anos congelados) é pouco.