A Escola Portuguesa no Facebook

Facebook-Good[1]Se tiver de dividir os leitores deste blogue de acordo com a forma como chegam até este espaço, o resultado será, grosso modo, o seguinte: um terço são visitantes habituais, que acedem directamente, outro chega através de pesquisas no Google e outros motores de busca e o terço restante através de partilhas nas redes sociais, com destaque para o Facebook.

Ora é para estes últimos, utilizadores regulares do Facebook que procuram novidades e assuntos de interesse através daquela que continua a ser, entre os professores, a mais popular das redes sociais, que criei, já há uns meses, a página Escola Portuguesa.

Seguindo e visitando a página poderão os leitores, sem sair do Facebook, ver o resumo dos posts mais recentes do blogue, bem como reagir às publicações, comentá-las e partilhá-las conforme entenderem.

Estejam à vontade para visitar, seguir, gostar e comentar…

Simplex na Educação?

simplex.PNGEm ano de eleições, e não tendo os professores portugueses grandes motivos de contentamento com este Governo, decidiu-se recuperar uma velha receita para de alguma forma satisfazer os professores, indo ao encontro de uma das maiores queixas da classe docente: o excesso de burocracia nas escolas.

A ideia é simples: não queremos devolver aos professores todo o tempo de serviço que lhes foi retirado. Melhorar as condições de trabalho nas escolas, facilitar as aposentações ou melhorar o sistema de quadros e de concursos também não fazem parte dos nossos planos. Então vamos prometer aos professores uma vida profissional menos stressante e trabalhosa, simplificando processos organizacionais e administrativos. Eis, senhoras e senhores, o novo SIMPLEX+…

Medida 1 – Atas + Simples
Medida 2 – Visitas de Estudo + Simples
Medida 3 – Instrumentos de Autonomia + Simples
Medida 4 – Contratação de Apoio Jurídico
Medida 5 – Aquisição de Manuais Escolares + Simples
Medida 6 – Concurso de Ideias: Escolas + Simples

Lendo despreocupadamente o documento de apresentação do Simplex educativo, até parece simples e eficaz. Mas se virmos com um pouco mais de atenção, logo começaremos a topar que, por baixo da aparente modernidade, dormita o velho espírito kafkiano da burocracia à portuguesa.

Por exemplo, as actas. Dizem-nos que não precisam de conter mais do que a informação relevante, e é verdade. Que a famosa “folha de rosto” mais não é do que um registo das presenças e não precisa de fazer parte da acta. A bem da protecção de dados, até convém que não faça. Mas logo a seguir refere-se que entre as menções obrigatórias no corpo da acta está a indicação dos ausentes na reunião. Ou seja, lista de presenças, sai, lista de ausências, é obrigatória. E a lógica, é uma batata?…

Neste tipo de medidas, sobretudo quando apresentadas como coelho tirado da cartola em período pré-eleitoral, surge sempre a tentação irresistível de confundir uma verdadeira desburocratização, identificando com rigor e eliminando tudo o que são procedimentos desnecessários e redundantes, com a mera desmaterialização dos documentos. Cria-se a ilusão de que, porque se trabalha numa plataforma, num documento de texto ou numa folha de cálculo, não se está a produzir papelada. Quando o que se está a fazer, na verdade, é a aproveitar o baixo custo do armanenamento digital e as potencialidades do copy/paste para aumentar exponencialmente a produção de registos. Na qual se consomem horas incontáveis e que, em grande parte dos casos, ninguém chega sequer a ler.

O resto é o discurso típico da nossa burocracia educativa, na sua crença que se muda a realidade trabalhando para os papéis. E que, viciada na papelada, não consegue ter sequer a noção de que nas escolas temos alunos a quem dar atenção. A nossa vida não é a deles. E são justamente eles, os burocratas do Simplex que nos dizem, do alto da sua sabedoria: isto é tudo muito simples. Basta preencher o documento x, acrescentar a ficha y e anexar o relatório z, enviando cópia para o serviço tal, tendo em conta o disposto nesta portaria e o determinado no outro despacho e sem esquecer de lançar tudo na plataforma xpto até ao dia tantos do tal. Simplex, não é?…

Liderar ao murro

murro.gifJá em tempos se escreveu por aqui sobre a Escola Básica e Secundária Azevedo Neves. Uma escola com um público escolar heterogéneo, multicultural e, tendo em conta o grande número de alunos imigrantes, os correspondentes problemas de integração.

Ao longo do tempo, foi-se construindo uma resposta educativa assente naquilo que os responsáveis políticos costumam valorizar: uma “liderança forte” e soluções autónomas e criativas para os problemas. Por exemplo: o director, entretanto afastado do cargo por suspeitas de irregularidades na gestão, acalmava os ânimos de alunos mais indisciplinados sujeitando-os a duches frios em pleno Inverno.

Agora ficou a saber-se que José Biscaia, o ex-director, não aplicava castigos físicos apenas aos alunos. Foi judicialmente condenado por difamação e agressões a um professor da escola. A notícia demonstra que o desrespeito, o assédio, as ameaças e agressões contra os professores não vêm apenas de alguns alunos ou, como agora parece estar na moda, dos seus progenitores. Também um director prepotente, a quem o poder sobe à cabeça, pode ser uma ameaça real para os professores que não caem nas suas boas graças.

José Biscaia, antigo diretor do Agrupamento de Escolas José Azevedo Neves, Damaia (Amadora), foi esta segunda-feira condenado a 10 meses de prisão, convertidos em multa, por difamação e agressões físicas agravadas a um professor.

O ex-diretor apertou o pescoço e esmurrou Miguel Martinho, de 47 anos, em novembro de 2015 e maio de 2016.

Noutro caso, Biscaia foi absolvido, já este ano, de sete crimes de maus-tratos a alunos que foram obrigados a tomar duches frios como castigo.

Para os juízes, os duches eram eticamente reprováveis mas não provocaram dano físico. Biscaia dirigiu o agrupamento mais de 20 anos e foi exonerado em 2017 pelo Ministério da Educação por irregularidades.

Matemática: 24 medidas para melhorar aprendizagens

gtmO Grupo de Trabalho de Matemática produziu um extenso relatório intitulado Recomendações para a melhoria das aprendizagens dos alunos em Matemática onde se analisa exaustivamente, em quase 300 páginas, a evolução recente e o actual ponto da situação relativamente à disciplina de Matemática.

Colocado em consulta pública por 90 dias – pareceres podem ser enviados para o e-mail dsdc@dge.mec.pt  – a eventual aplicação das sugestões da equipa de trabalho caberá já ao próximo ME.

Embora muito do que ali se escreva não seja novo ou original – andamos há demasiado tempo a repetir os mesmos erros e a adiar o que todos sabem que precisa de ser feito – o documento apresenta dados, ideias e reflexões interessantes, que se destacam mesmo numa leitura em diagonal. Por agora destaco apenas, entre as 24 medidas apresentadas, algumas propostas que me parecem especialmente pertinentes e importantes.

A elaboração urgente de um currículo de Matemática para todos os ciclos de escolaridade (do 1.º Ciclo do Ensino Básico até ao final do Ensino Secundário). Este currículo deverá substituir todos os Programas de Matemática, em particular o Programa e as Metas Curriculares em vigor, bem como as Orientações de Gestão Curricular e as Aprendizagens Essenciais que deles decorreram, eliminando a profusão de documentos curriculares nacionais díspares, que atualmente coexistem dirigidos ao ensino da Matemática.

A diferenciação pedagógica no ensino da Matemática deverá não só dirigir-se a alunos com dificuldades, como àqueles que estão em condições de aprofundarem as suas aprendizagens.

O currículo de Matemática para o Ensino Básico deve ser coerente, garantindo a articulação vertical ao longo dos três ciclos, em todos os domínios de conteúdo a ser considerados.

O currículo de Matemática do Ensino Secundário deve ser composto por um núcleo comum que defina o que é essencial na formação matemática à saída do ensino obrigatório, a ser frequentado por todos os alunos. Deve também prever núcleos complementares, que respondam às diferentes necessidades de formação matemática específica relativa a percursos diferenciados no prosseguimento de estudos.

O desenvolvimento curricular nas escolas deve ser apoiado por condições diversas indispensáveis quando se pretende a implementação de um novo currículo. Estas condições devem garantir:

  • A possibilidade efetiva de realização de trabalho colaborativo entre professores (tempo e horários) dirigido à elaboração dos documentos curriculares locais de Matemática, à preparação de aulas, à partilha e reflexão sobre experiências de ensino e práticas de avaliação;
  • Existência de um trabalho de coadjuvação em algumas aulas de Matemática, favorecendo a realização de práticas de ensino compatíveis com a aprendizagem matemática pretendida, a articulação vertical entre professores de diferentes ciclos e a partilha entre professores com formações distintas; […]

Deve ser reforçado o investimento na formação inicial de professores que ensinam Matemática antes que as carências que se preveem criem uma situação de perturbação das escolas e sistema educativo. Este investimento deve considerar medidas que sensibilizem a sociedade para a atratividade da profissão, não só com a possibilidade de empregabilidade mas, sobretudo, com a valorização social da profissão.

Promoções

tiagobr-alexleitao.JPGTiago Brandão Rodrigues é o escolhido do Partido Socialista para liderar a lista de deputados à Assembleia da República (AR) no distrito de Viana do Castelo.

Alexandra Leitão é a cabeça de lista do PS por Santarém

Terão cumprido os objectivos da legislatura à frente de um ministério difícil de gerir, sobretudo desde que a Educação deixou de ser uma prioridade política, passando a ser encarada apenas como fonte de despesa.

Ele é o ministro da Bola e do Abandono Escolar – pois há muito marca presença assídua nos eventos desportivos, sobretudo quando se realizam no estrangeiro, para evitar assim o contacto directo com as escolas, os professores e os problemas da Educação.

Já a secretária de Estado mostrou-se, desde o início, mais determinada e corajosa. Contudo, depois de ganhar a guerra dos contratos de associação, perdeu grande parte do seu capital político ao enredar-se em alterações manhosas das regras dos concursos.

Ainda assim, a folha de serviços de ambos terá um saldo largamente positivo. Pelo que chegou a altura de premiar o sacrifício destes quatro anos e anunciar as recompensas: serão ambos cabeças de lista do PS nas próximas legislativas.

Do secretário de Estado da Flexibilidade & Inclusão, mais discreto, vamos tendo menos notícias. Pelo que é provável o regresso ao lugar de recuo na universidade, para tomar balanço para os novos e mais altos voos, talvez internacionais, daquele que já é, hoje, um dos directores da OCDE.

Morrer a trabalhar

morte-medievalParece estar a ser o destino de um número crescente de professores.

Não existem dados objectivos que associem directamente estas fatalidades com a exaustão, o stress, o burnout decorrentes do exercício da profissão docente. Poderão ser meras coincidências, mas a verdade é que, entre a professora que morre em plena sala de aula e os outros dois que falecem durante uma maratona laboral em período de avaliações, parece existir um padrão comum: todos terão estado sujeitos a excesso de trabalho.

Impõe-se por isso um olhar atento sobre estas situações, eventualmente até uma investigação do Ministério Público, como propõe a Fenprof, de forma a perceber-se até que ponto as condições desgastantes em que muitos professores trabalham não andarão, além de lhes tirarem saúde e da energia, também a colocar em risco a sua vida.

O alerta e o repto da Fenprof são importantes, mas não suficientes. Perante um ME que se recusa a reconhecer o excesso de trabalho imposto aos professores como um problema real, devem ser antes de mais os próprios docentes a acautelar a sua saúde física e mental. Não querendo dar passos maiores do que a perna, não aceitando trabalhar em excesso e sem limites ou correr riscos inaceitáveis em nome de um conceito mal compreendido de brio ou de dever profissional.

Quando o ME, apesar do corpo docente cada vez mais envelhecido e fragilizado, continua a não ter serviços de medicina no trabalho, quando permite que, diariamente, milhares de docentes se desloquem por sua conta e risco entre escolas do agrupamento, quando manda apresentar ao serviço professores com doenças terminais, quando não toma medidas para combater a indisciplina e o assédio laboral de que são vítimas os professores em muitas escolas, é evidente que são estes que têm de zelar intransigentemente pelos seus próprios direitos. Ou acabarão como peças descartáveis da máquina trituradora de docentes em que o sistema educativo se vem transformando…

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, disse esta terça-feira, no Porto, que vai solicitar ao Ministério Público (MP) que averigúe as causas da morte de três professores enquanto trabalhavam, nos últimos meses.

“Quando as coincidências são muitas, podem, de facto, não ser coincidências, e nós temos de saber disso. Iremos pedir ao MP que averigúe e tiraremos as conclusões. Há uma coisa que é verdade: os professores estão exaustos. Há um estudo que diz que mais de 70% dos professores apresentam níveis elevados de burnout”, sublinhou Mário Nogueira.

O dirigente da Fenprof, que falava numa conferência de imprensa destinada a fazer a avaliação do ano lectivo, o balanço da legislatura e apresentar perspectivas para o futuro, referiu o caso de uma professora, de Manteigas, que “em plena sala de aula, fulminantemente, caiu para o lado”

“Pode ser coincidência ou não, mas essa professora era titular de todas as turmas do 7.º ao 12.º anos de Inglês, seis níveis diferentes de preparação de aulas diariamente”, disse, apontando o caso de uma outra colega no Fundão. Esta “estava a corrigir 60 provas aferidas, a lançar as notas dos seus alunos e a fazer vigilâncias de exames. Aparece morta em cima do teclado do computador, em pleno lançamento das notas”, disse.

Um terceiro caso apresentado pela Fenprof ocorreu num agrupamento de Odivelas. “O professor enviou por e-mail, cerca da 1h00, os dados pedidos pela escola. No outro dia não apareceu. A medicina legal concluiu que teria morrido por essa hora”, acrescentou. Continuar a ler

Evidentemente!

papelada.JPGGrupo de peritos nomeado pelo Ministério da Educação frisa que o ensino da Matemática está a ser norteado por documentos “inconciliáveis” entre si e que todos, incluindo as novas aprendizagens essenciais, devem ser revogados de modo a dar corpo a novo currículo, que se distinga também pela sua curta extensão.

Nem os programas aprovados por Nuno Crato, nem as aprendizagens essenciais sufragadas por Tiago Brandão Rodrigues. Para que a Matemática possa vir a ser um caso de sucesso em Portugal é preciso começar do zero, com um novo currículo que “deverá substituir todos os programas” actualmente existentes.

Já o escrevo há vários anos: em vez de um currículo construído de sucessivas camadas eduquesas – programas, metas, orientações, aprendizagens -, resultado incoerente de cada governo, cada associação profissional ou científica, cada grupo de trabalho, querer deixar a sua marca, há que deitar tudo fora e ter a coragem de construir de novo e de raiz. O que o grupo de peritos propõe para a Matemática deveria aplicar-se à generalidade das disciplinas.

Os documentos estruturantes do currículo deveriam ser mais objectivos, claros e concisos. Concebidos como instrumentos de trabalho e não como intragáveis exercícios da erudição barroca dos seus autores, o que sucede demasiadas vezes.

E não, não necessitamos de metas de aprendizagem, como pretendia Nuno Crato, nem de aprendizagens essenciais, como defendem os actuais governantes, para saber o que devemos ensinar. Precisamos apenas de um programa para cada disciplina. Curto, claro, exequível, que defina com rigor aquilo que todas as crianças e jovens que frequentam o sistema educativo português devem aprender. 

Ao contrário do que parecem pensar os responsáveis educativos, na sua defesa insensata de flexibilidades a 100%, existe uma coisa que se chama o currículo nacional, que é para ser cumprido e respeitado. Não consta que a Lei de Bases do Sistema Educativo tenha sido revogada…