E depois da manifestação?

costa-gigantoneNo rescaldo da manifestação de ontem, a resolução aprovada pelos manifestantes aponta os próximos passos de uma luta dos professores que já há quem considere interminável. Quero acreditar que a questão do tempo de serviço pode ser resolvida, e espero que na sessão parlamentar do próximo dia 16 de Abril sejam dados passos decisivos nesse sentido. Mas a verdade é que o tempo e as energias que se gastam em conflitos laborais seriam perfeitamente evitáveis se houvesse, da parte dos políticos, um reconhecimento justo da importância e do valor do trabalho dos professores. E já agora – julgo que não é pedir demais – uma atitude de respeito pelos profissionais da Educação.

Depois de condenar a tentativa do Governo de destruir a carreira docente, retirando aos professores seis anos e meio das suas vidas profissionais, impedindo a maior parte deles de atingir o topo da carreira, a resolução exprime os apelos dos professores e educadores aos partidos com assento parlamentar:

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Olhando para o futuro próximo, e apesar de os olhares e as esperanças se centrarem agora, inevitavelmente, no Parlamento, outros cenários e frentes de luta são também equacionados. E quatro acções concretas ficaram, desde logo, delineadas.

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Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: A manifestação dos professores

Culminando um processo negocial longo e infrutífero, ao longo do qual as expectativas dos professores foram sendo sucessivamente defraudadas, os professores de todo o país uniram-se para deixar, ao Governo, ao Parlamento, ao Presidente da República e ao país uma mensagem clara: não aceitam o roubo de mais de 6 anos do tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira…

No Fundo: A falta de funcionários nas escolas

Não são só os problemas profissionais dos professores que ensombram o final da legislatura no sector da Educação. Menos falados, menos visíveis, os assistentes operacionais asseguram quase todo o serviço não docente que não é menos essencial ao bom funcionamento das escolas. E também entre estes profissionais o mal-estar é evidente…

Recuperar todo o tempo de serviço docente – a proposta do PCP

A proposta do PCP parece sensata e equilibrada: inspira-se na solução adoptada na Região Autónoma da Madeira e prevê a recuperação faseada de todo o tempo de serviço cumprido pelos professores até 2025.

Claro que todos pretenderíamos mais, em menos tempo. Mas ao contrário do Paulo Guinote, que critica a moderação do PCP nacional, alinhado pelas posições do PSD madeirense, parece-me lógica essa aproximação. Obviamente, parto do princípio de que o que se pretende é explorar a possibilidade de construir uma convergência parlamentar favorável aos professores.

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A manifestação em imagens

Foi uma boa acção de luta e de protesto, a que a comunicação social deu justo destaque.

Fica uma selecção de imagens das diversas reportagens fotográficas que cobriram o evento.

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Os professores disseram o que pretendem. Ficou claro que a exigência da recuperação de todo o tempo de serviço não é, como alguns opinadores por vezes afirmam, fruto da manipulação e do radicalismo de certos dirigentes sindicais.

Esgotado há muito o diálogo com o Governo, têm agora a palavra os partidos com assento no Parlamento.

A nova amiga dos professores

benavente.JPGPara a ex-secretária de Estado da Educação de Guterres, o braço-de-ferro com os professores foi uma ‘birra’ do Governo e tão cedo os docentes não votarão no PS. Sobre o atual ministro da Educação, Ana Benavente diz não ter dúvidas de que está no cargo apenas para «fazer o que o mandam fazer», não lhe reconhecendo «nenhuma competência».

Quem diria? Em dia de manifestação nacional de professores, Ana Benavente sai em defesa dos professores. Em entrevista ao Sol, a antiga secretária de Estado de Marçal Grilo assume um posicionamento crítico em relação ao actual governo socialista. Desde logo, no reconhecimento de que o ministro da Educação anda a apanhar bonés: sem experiência nem conhecimento do sector, sem iniciativa nem liderança, limita-se a fazer o que lhe mandam. Ainda bem que, na área do PS, alguém admite o que os professores dizem há muito.

Quanto ao resto da entrevista, e mesmo concordando, é impossível não esboçar pelo menos um sorriso quando se vê uma das principais promotoras do eduquês a verberar o excesso de burocracia nas escolas portuguesas…

É uma classe que tem uma brutal carga burocrática em cima. É inacreditável, ninguém imagina a parafernália de documentos que é preciso articular, desde o perfil, os objetivos, as competências essenciais, as reuniões que têm que fazer. A vida dos professores é uma vida de exaustão, é uma classe muito envelhecida.

Já quando critica os mega-agrupamentos, Ana Benavente toma uma posição muito comum em socialistas da velha guarda e até mesmo em antigos serventuários políticos do PS, hoje navegando por outras águas: as nossas políticas eram boas e necessárias, tínhamos motivações exclusivamente pedagógicas e nada economicistas. Quem veio depois de nós é que estragou tudo…

Os agrupamentos surgiram por razões pedagógicas, para articular os ciclos da escolaridade obrigatória. Isso funcionou em alguns territórios e foi uma experiência muito positiva. Mas os mega-agrupamentos são uma coisa tremenda. As escolas perderam a sua identidade, perderam o seu ritmo e não foram acompanhados pelo aumento do número de funcionários. Se está aberta a cantina está fechada a reprografia, a biblioteca fecha para abrir o bar. E isto são situações de um país subdesenvolvido.

A importância do latim

frederico-lourenco.JPGO lento declínio do ensino das humanidades não é de agora, apesar de a intenção hipócrita de diminuir o seu peso curricular, ao mesmo tempo que se tecem loas ao humanismo, se ter tornado evidente com o actual governo.

Veja-se como as línguas clássicas, cuja aprendizagem era comum, entre os alunos de humanidades, ainda há duas ou três décadas atrás, estão hoje praticamente extintas no ensino não superior português. E nisto deveremos ser, tanto quanto julgo saber, caso único entre os países latinos…

Em nome de uma modernidade mal entendida, vamos paulatinamente esquecendo e desvalorizando as raízes históricas e culturais da nossa civilização e da nossa identidade colectiva. Como se estas pudessem ser substituídas, na aprendizagem escolar, por uns quaisquer módulos de “cidadania”.

Neste contexto, ganham sentido e pertinência as reflexões de Frederico Lourenço na entrevista que concedeu a propósito do lançamento da sua Nova Gramática do Latim.

O tempo é uma conquista consciente da minha parte. Só consigo fazer os trabalhos que faço porque abdico de muitas outras coisas. […] Tomei a opção de fazer aquilo que considero o “meu” trabalho, não só porque o considero mais importante do que outras atividades a que me poderia dedicar, mas também porque me dá gosto fazê-lo.

…arqueologia, história antiga e medieval, filosofia, teologia, linguística portuguesa. Nunca deixa de me surpreender que haja entre nós investigadores e professores dessas áreas que sabem pouco ou nenhum latim.

…as pessoas começam, na maior parte dos casos, a aprender latim já adultas, numa fase do desenvolvimento do cérebro humano em que já não se consegue aprender vocabulário quase por osmose, como é possível aos 10 anos. Por isso sou apologista de que o latim deve ser ensinado na escola, de forma lúdica mas progressiva, a partir dos 10 anos.

…o latim é uma língua em que tudo se pode exprimir, desde os palavrões mais crus até aos pensamentos mais sublimes. É a língua de Vergílio e da Vulgata, sim; mas é também a língua de grafitos obscenos escritos nas paredes por pessoas que davam os mais delirantes erros de ortografia.

Preparando a Manifestação

profs-luta.jpgDo lado dos organizadores, a imprensa confirma: tudo está a ser preparado para que a manifestação de amanhã venha a ser uma das maiores de sempre no sector da Educação.

Não será realista esperar números de participação semelhantes aos das mega-manifestações de 2008. Desde logo porque somos menos professores no activo e estamos todos dez anos mais velhos. Mas, independentemente das razões de cada um, que há que respeitar, a verdade é que só uma presença expressiva da classe docente pode conduzir à leitura política que interessa retirar da manifestação: a de que os professores estão unidos em torno das reivindicações que, em seu nome, têm sido intransigentemente defendidas pelos seus sindicatos.

Numa altura em que o palco da luta se transfere para o Parlamento, onde ainda nem todos os partidos definiram claramente uma posição, a demonstração de força, unidade e determinação dos professores pode ter uma importância decisiva.

Renovo, assim, o apelo à participação.

Na sede da Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL), e da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), não havia na quinta-feira à tarde, a dois dias da manifestação que os sindicatos querem grande e a fazer lembrar aquela que em 2008 encheu o Terreiro do Paço, uma azáfama de professores e sindicalistas a ultimar cartazes, faixas e bandeiras para encher o olho – e as imagens – na manifestação do próximo sábado.

Começa-se por definir “a oportunidade” do protesto, ou seja, é preciso garantir que ela acontece num momento em que pode provocar “um efeito, uma consequência”, que neste momento, mais do que protestar contra o Governo, é pressionar a Assembleia da República, na apreciação parlamentar agendada para 16 de abril, para forçar uma revisão do decreto-lei do Governo que apenas conta parte do tempo congelado reivindicado pelos professores, sendo para isso necessário que uma maioria parlamentar se entenda nesse sentido.

É ainda preciso tempo para esclarecer os professores dos objetivos da manifestação, razão pela qual na última semana e meia os sindicatos se desdobraram em plenários por todo o país, para ouvir, mas também para explicar a razão da importância da manifestação e da participação dos docentes, que está longe de ser um dia de passeio, defendeu Mário Nogueira.

“Uma manifestação não é estala-se um dedo, vamos fazer uma manifestação e vamos passar um dia a Lisboa. Longe disso. Aliás, o sacrifício para muitos é muito grande. Há gente que vai sair de casa às 05:00 e chega a casa às 04:00 do dia seguinte, porque as viagens são longas. Vem gente de muito longe, vem gente de Sagres, Vila Real de Santo António até Vinhais, Bragança e Mirandela”, disse o líder da Fenprof à Lusa.

Depois há “todo um trabalho preparatório”, que neste caso envolve 10 estruturas sindicais e canais de comunicação abertos em permanência, para se encontrarem consensos em aspetos como palavras de ordem, decidir qual o sindicato que vai à frente na manifestação, o que “às vezes dá uma discussão grande”, porque “as pessoas gostam de ir à frente e depois aborrecem-se porque se vão atrás quando chegam [ao término do desfile] até já acabaram as intervenções”, ou até a localização do palco para as intervenções.

Há ainda as faixas, o discurso, a mensagem inicial e os adereços, pensados para dar uma identidade e imagem de marca à manifestação que a diferenciem das anteriores e das que se lhe seguirem, a pensar na memória futura.

Há também a segurança e a comunicação no decurso da manifestação, decidindo os momentos adequados para passar a mensagem, “sem a veleidade dos partidos políticos”, que procuram abrir telejornais, mas tentando capitalizar diretos nos canais de notícias no cabo.

Sem pormenorizar, Mário Nogueira adiantou que é possível que na frente da manifestação de sábado exista “algo muito visível”, num “recado aos partidos” que “simbolize o que o Governo fez e que simbolize o que se espera dos partidos políticos na Assembleia da República”.

Mário Nogueira não se quis comprometer com números, mas garante que será “uma grande manifestação”, que terá o “duplo sentido de repúdio ao Governo, por não contar aos professores seis anos e meio de tempo de serviço, e de “expectativa, e até esperança” aos partidos políticos, dos quais esperam uma solução.