Não me representa

Muito preocupada com a situação em Israel e Gaza.

Condeno os ataques indiscriminados do Hamas a Israel.

Civis de todos os lados devem ser protegidos.

A violência deve acabar agora.

Não me revejo numa União Europeia incapaz de, em defesa dos direitos humanos e em nome dos valores que presidiram à sua própria fundação, assumir posições corajosas e consequentes perante os conflitos internacionais.

Lamento, senhora Ursula, mas perante a imensa desproporção de forças em confronto, a anexação ilegal de territórios na Palestina por parte de Israel e a redução dos palestinianos à condição de prisioneiros no seu próprio país, a pretensa neutralidade não passa de um repugnante exercício de hipocrisia.

O direito de resistência à violência e à opressão, quando nenhuma autoridade legítima nos pode proteger, faz parte dos direitos humanos fundamentais. Quando o oprimido se revolta contra o opressor, condenar da mesma forma a violência dos dois lados é tomar inequivocamente o partido do opressor. Mas a líder europeia vai ainda mais longe, condenando explicitamente os ataques do Hamas sem fazer qualquer referência às agressões e ao terrorismo de estado promovidos por Israel.

Quero crer que a maioria dos europeus não se revêem nas lamentáveis declarações expressas no tweet de Ursula von der Leyen, pelo que me parece que a senhora deveria reconsiderar seriamente se está à altura de continuar a representar politicamente os povos e os valores europeus.

Uma questão a clarificar, porque se a Europa unida, justa, solidária e defensora da paz e dos direitos humanos em que acredito está expressa neste tweet, então, afirmo-o desde já, não quero ser europeu.

Em qualquer dos casos, esta senhora não me representa.

3 anos, 7 professores

Um grupo de pais de alunos do 3.º ano da Escola Básica da Praia, em Matosinhos, pediu hoje uma “solução urgente” para a “constante substituição de professores” na turma que, em três anos, já teve sete docentes.

Ao longo destes três anos, os 24 alunos desta turma já tiveram sete professores, na sequência de sucessivas substituições devido a pedidos de baixas médicas por parte dos mesmos, contou à Lusa a mãe de um aluno Célia Machado, concentrada à porta deste estabelecimento de ensino.

No 1.º ano, a professora titular ficou de baixa e, depois de meses sem ser substituída, veio uma nova e, a seguir a esta, uma outra, referiu.

“Só no primeiro ano, foram três professores que os meninos tiveram”, afirmou.

No 2.º ano a situação repetiu-se com a docente titular a colocar atestado médico, o que levou os alunos a serem acompanhados por uma professora de coadjuvação, salientou.

Atualmente, e estando estes agora no 3.º ano, aconteceu novamente o mesmo, contou.

Um caso como o que é descrito nesta notícia poderá ser invulgar, mas as substituições temporárias ou definitivas de professores, geralmente por motivo de doença, não só são comuns como se vêm tornando cada vez mais frequentes. Resultam principalmente de duas situações. A primeira, e mais óbvia, é o envelhecimento da classe docente: os problemas de saúde tornam-se mais frequentes, implicando baixas médicas cada vez mais prolongadas. Mas também o recurso excessivo à contratação a termo, muitas vezes em condições penalizadoras para os docentes colocados, torna difícil a aceitação e a manutenção nos respectivos lugares por parte dos professores colocados.

Este estado de coisas não serve a ninguém. Não dá estabilidade aos jovens professores nem permite uma retirada digna aos docentes mais idosos e desgastados, no final de uma longa carreira. Mas também é altamente prejudicial aos alunos que ficam sem aulas, sobretudo quando isto ocorre nos primeiros anos de escolaridade, em que tanto a sequencialidade das aprendizagens como a qualidade e o aprofundamento da relação pedagógica são essenciais. E é claro que não dá segurança nem confiança às famílias, apreensivas com os atrasos nas aprendizagens, que esperam e desesperam pela substituição de sucessivos professores.

Contudo, este é claramente um exemplo de como os interesses dos professores, dos alunos e das famílias tendem a ser naturalmente convergentes na busca de soluções para uma melhor Educação. Promover a estabilidade profissional e o acesso à carreira dos jovens professores; reforçar os quadros das escolas e agrupamentos, de forma a criar folgas que possam cobrir ausências temporárias; facilitar o acesso à reforma e à pré-reforma aos professores mais antigos – estas são velhas reivindicações dos professores que também beneficiariam os alunos e as famílias. Porque caminham professores e pais de costas voltadas, apesar do muito que teriam a ganhar se unissem esforços em defesa da qualidade do ensino e dos interesses dos alunos?

Neste contexto de desunião, por vezes até de hostilidade da parte de alguns confederados representantes dos pais, prevalece a perspectiva economicista e de vistas curtas que tem norteado a actuação do ME. Escamoteando a sua dimensão pedagógica e reduzindo-o a uma questão egoísta e corporativa dos professores, o ministério tem-se dado ao luxo de ignorar olimpicamente o problema da falta de professores e das dificuldades crescentes na sua substituição. Até quando?…

A escola segura é uma ideia de esquerda

Subscrevo inteiramente o ponto de vista do Luís Braga em defesa de um ambiente escolar seguro e pacífico, que corresponde ao que sempre pensei sobre o assunto. Uma escola pública de qualidade tem de ser uma escola que garanta a segurança, a tolerância e a convivência pacífica entre todos os seus membros. Ser pobre ou pertencer a uma minoria étnica ou social não pode ser um estigma, um confinamento forçado a um “território educativo” onde se baixam sucessivamente as fasquias das aprendizagens e dos comportamentos sociais, até que todos estejam “integrados”.

A escola pública de qualidade para todos é efectivamente um ideal de esquerda e a garantia mais sólida da promoção da igualdade de direitos e oportunidades. Fundamental e demasiado importante para ser abandonado ao oportunismo demagógico e ao discurso securitário da extrema-direita. E nem a social-democracia nórdica nem o socialismo real do antigo Bloco de Leste, os modelos que, para o bem e para o mal, mais se aproximaram de uma concretização dos ideais socialistas, consta que em algum momento tivessem convertido a escola à rebaldaria em que um neo-progressismo irresponsável e desculpabilizador a pretende transformar.

Viver em paz na escola é uma ideia de esquerda

Ontem, alguém me tentou explicar que querer sossego, ordem e paz nas escolas, sem hesitações e adiamentos, com a emergência que alguns casos já exigem, pode não ser uma ideia de esquerda.

Ri-me para dentro, mas fico triste que haja quem possa tentar impor um ponto de vista assim.

A direita, em especial, a extremista e fascistoide, aproveita-se da violência e indisciplina escolar para a sua agenda, mas, realmente, usa isso só para potenciar a sua agenda de destruição da escola pública.

O Chega faz grandes paragonas com as unhas partidas da escola da Amadora mas, quanto mais houver, e quanto mais se falar disso, melhor para os seus intentos.

A violência escolar é como a gangrena e, por isso, não pode ser deixada à direita como tema.

E a esquerda não pode continuar com a sua visão de que se resolve com aspirinas e só no longo prazo. Uma escola pública que funcione em paz no real imediato do quotidiano é uma ideia de esquerda.

Uma escola pública bagunçada e violenta é uma ideia radical de direita, porque serve melhor os instintos privatizadores.

Os padrões de funcionamento progressistas têm de incluir resolver, de forma rápida, certa e sem hesitações, os casos de alunos que se batem entre si, batem em professores e assistentes, impedem aulas de ocorrer, vandalizam, traficam ou aterrorizam colegas.

Por isso, chamem-me direitolas e excomunguem-me da comunidade de esquerda. Antes de tudo sou professor.

A unanimidade de todos os lados sérios da política na escola é que queremos paz e sossego para ensinar. Também eu acredito em mediação, no papel da arte, da música e do desporto. Mas, na emergência, acho que a esquerda tem de advogar também as CPCJ a funcionar bem, e depressa, tribunais a agir, mais meios de acção punitiva internos para quem recusa regras mínimas e mecanismos de segurança visíveis, que garantam que não haja professores a só circular aos pares nos corredores, por medo de apanhar.

A escola segura é uma ideia de esquerda. Quer o programa da PSP, quer o conceito abstrato. O imobilismo dogmático, que não ouve e vê o real, não é de esquerda.

Rejuvenescer a profissão docente

Embora os tempos de pandemia não pareçam de feição para as lutas laborais, não julgo que os professores se possam ou devam dar ao luxo de abdicar da resolução dos seus problemas ou de desistir das suas justas reivindicações. O que implica dar visibilidade à sua luta, na imprensa e nas redes sociais, mas também em acções de rua, como a que delegados, dirigentes e activistas sindicais da Fenprof ontem protagonizaram em Lisboa.

Da intervenção de Mário Nogueira (vídeo disponível aqui) retive uma passagem reveladora: de todos os ministérios e serviços governamentais a que os sindicalistas se dirigem, é o Ministério da Educação o que os trata com menos consideração e respeito. Concretizando aliás o que Tiago Brandão Rodrigues deixou claro, aos sindicatos, no início do seu novo mandato: se os professores quiserem seguir a agenda do Governo, terão uma auto-estrada para percorrer. Se persistirem nas questões da carreira, do tempo de serviço e das aposentações, entrarão num beco sem saída.

Pela minha parte, além de deixar a habitual síntese da imprensa acerca do evento, pouco ou mais haverá a acrescentar em relação a assuntos já por aqui muitas vezes tratados. Apenas deixar bem expresso o meu agradecimento aos colegas que protagonizaram o protesto colectivo, num tempo em que voltou a ser de bom tom olhar a luta sindical com indiferença, quando não comiseração e desprezo, em especial quando feita através de acções de rua.

Em declarações à Lusa, no dia em que se realizou o segundo protesto de um conjunto de quatro previstos para o mês de maio, Mário Nogueira defendeu que, desde o início da legislatura, “o ministro da Educação bloqueou completamente o diálogo e as negociações com as organizações sindicais no sentido de resolver problemas que afetam muito os professores, portanto as escolas e, logo, os alunos”.

O protesto, realizado esta quinta-feira em frente ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para coincidir com o dia e local em que se realiza o Conselho de Ministros, teve como foco a aposentação e envelhecimento da classe docente.

Nos últimos 20 anos, aumentou o fosso entre os docentes com menos de 30 anos e os que já ultrapassaram os 50 anos, segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência: mais de 85% dos docentes têm acima de 40 anos e 50% já passaram os 50 anos, enquanto os docentes que têm até 30 anos de idade não chegam a 0,3%.

“Os mais velhos não se conseguem aposentar e os mais novos não conseguem entrar na profissão. Este problema continuará a agravar-se a cada ano que passa. Dentro de poucos anos haverá falta de professores jovens e poderá acontecer o mesmo que noutros países — ter de se contratar docentes com menos qualificações –, o que significa um grande retrocesso [na educação]”, alertou o presidente do Sindicato dos Professores da Zona Sul (SPZS), Manuel Nobre.

Para o dirigente do SPZS é necessário dialogar com o Governo para se encontrar uma medida equilibrada que permita “evitar o desgaste acelerado” dos professores que estão a trabalhar até aos 66 anos de idade desde a troika. Apesar das exigências de negociação por parte dos docentes o Governo foi acusado de continuar a não dar respostas.

“No ano passado entregámos, por duas vezes, propostas fundamentadas ao Ministério da Educação e este ano voltámos a repetir por duas vezes para darem acesso a um processo negocial. O Ministério até hoje não se preocupou em agendar uma reunião”, afirmou Vítor Bento, professor de secundário de Almeirim, também presente no protesto.

“Há um bloqueio negocial para qualquer matéria incluindo esta [aposentação e envelhecimento]. Nós temos propostas, nós queremos negociar, mas o Ministério da Educação acha que está tudo bem e vai deixando envelhecer cada vez mais o corpo docente”, sublinhou por seu lado Ana Simões, educadora de infância de Olhão.

Desacatos em manifestações de professores???

A permanente fuga às responsabilidades é uma atitude e um modo de estar na política que mancha, de forma indelével, demasiados membros do actual governo. No caso em apreço, até não custa muito admitir que ao secretário de Estado do Desporto dificilmente se poderão assacar responsabilidades directas nos lamentáveis festejos da vitória sportinguista. Mas escusava de se exprimir de uma forma tão deselegante e até insultuosa para os professores, uma classe profissional que ainda por cima é tutelada pelo ministério a que pertence. Haverá memória, em 47 anos de democracia, de uma manifestação de professores em que tivesse havido qualquer tipo de desacatos?…

“Não é querer estar, como diz o povo, a sacudir a água do capote. Mas a verdade é que não é o secretário de Estado do Desporto, tal como não é por haver uma manifestação de professores onde haja desacatos que é chamado à colação o ministro da Educação“, considera João Paulo Rebelo.

Sendo aparentemente, como a grande maioria dos “ajudantes de ministro” deste governo, um adepto do low profile no exercício do cargo, não necessitaria de se expor desta forma, invocando despropositada e ofensivamente, os professores. Mas já que o fez, e me obriga a lembrar a sua existência política, aproveito para recordar as circunstâncias em que chegou ao poder. Foi uma segunda escolha no lugar que ocupa, depois do primeiro titular se ter demitido. João Wengorovius não se entendeu com o ministro com quem iria trabalhar e bastaram-lhe poucos meses para avaliar, em definitivo, as qualidades políticas e o carácter pessoal de Tiago Brandão Rodrigues. Ao contrário do seu sucessor, que se mantém no cargo até hoje, transitando do primeiro para o segundo governo de António Costa.

“Deixo hoje o XXI Governo Constitucional, convicto de que tinha um bom projeto e uma excelente equipa – e de que estávamos no caminho certo – contudo, em profundo desacordo com o Sr. Ministro da Educação no que diz respeito à política para a juventude e o desporto, e ao modo de estar no exercício de cargos públicos“, escreve João Wengorovius Meneses.

Foi em 2016, ainda mantinha Brandão Rodrigues o estado de graça e a aura de jovem cientista talentoso e comprometido com os desafios da Educação portuguesa. E é premonitório do que viria a seguir…

Aposentação justa, profissão rejuvenescida

Como sucederá em todas as quintas-feiras de Maio, hoje é mais um dia de protesto dos professores. A Fenprof, que promove a acção, continua a denunciar a situação de bloqueio negocial que se vive desde que o actual governo tomou posse, recusando-se a reunir com os representantes da classe docente, discutir os seus problemas e encontrar, através da via negocial, soluções a contento de ambas as partes. E como do ME pouco ou nada há a esperar, o protesto dirige-se ao Conselho de Ministros, que reúne habitualmente neste dia da semana.

O foco do protesto de hoje centra-se em duas questões que surgem interligadas. O envelhecimento e o desgaste acentuado de um elevado número de professores recomenda a criação de um regime especial de aposentação que, sem penalizações excessivas, facilite a retirada dos professores mais idosos e desgastados. Mas o desejado rejuvenescimento dos quadros impõe que a profissão docente se torne mais atractiva, o que implica a valorização da carreira e o combate à precariedade de jovens e menos jovens professores. É necessário um redimensionamento dos quadros, concursos mais justos e transparentes e uma melhoria geral das condições de trabalho, que permitam aos professores focar-se nos seus alunos, dar mais eficácia ao seu trabalho e desenvolver as suas competências pedagógicas em vez de continuarem a perder tempo com burocracias e sem sentido.

Este segundo protesto tem como enfoque o muito preocupante envelhecimento dos profissionais docentes. Um envelhecimento para o qual entidades nacionais, como o Conselho Nacional de Educação, e internacionais, como a OCDE, já alertaram, instando o governo a tomar medidas destinadas a dar resposta a este problema. 

Como é conhecido, mais de metade dos docentes em Portugal já tem mais de 50 anos, um número crescente já passou os 60 anos (na ordem dos 15%) e, hoje, mesmo os que entram nos quadros contribuem pouco para o rejuvenescimento, pois já têm uma idade média superior a 45 anos. Quanto a jovens até aos 30 anos, são cada vez mais residuais.  

O rejuvenescimento da profissão docente é indispensável para criar novas dinâmicas nas escolas, neste tempo em que se anuncia a transição para a escola digital, se prepara um plano para recuperar aprendizagens, se pretende avançar para a transição ambiental, se considera indispensável promover uma educação inclusiva, se prepara um plano nacional de combate ao racismo… Estes são, apenas, alguns dos principais desafios que se colocam a um corpo docente desgastado, resultado não só do envelhecimento, mas também de anos de sobretrabalho, em que têm sido muitos os abusos e as ilegalidades que sobre si se abatem, e de uma crescente burocratização da sua atividade, em ambos os casos, para superar a falta de recursos com que as escolas se debatem. 

Rejuvenescer  a profissão docente é fundamental para o futuro da Educação. As escolas necessitam desse rejuvenescimento, que, contudo, só terá lugar se a profissão ganhar atratividade, com a eliminação da precariedade, a valorização da carreira e a melhoria das condições de trabalho.

A violência dos opressores

Uma nova escalada de violência entre Israel e os Palestinianos relembra-nos a persistência, em pleno século XXI, de um estado colonialista à maneira do século XIX, o único a quem a comunidade internacional permite, com inteira impunidade, a anexação de territórios que não lhe pertencem.

Se procurarmos termos de comparação, a manta de retalhos cada vez mais desconexa que são os territórios palestinianos só encontra paralelo nos bantustões criados pelo regime sul-africano do apartheid. Sem receio de afrontar o politicamente correcto, nem as rotineiras acusações de anti-semitismo a todos os que criticam as agressões israelitas e defendem os direitos do povo palestiniano – que não é menos semita do que o judeu – pode facilmente constatar-se que é no estado fundado pelos sobreviventes do Holocausto que sobrevivem hoje os ideais nazis do estado racista e da limpeza étnica dos indesejados.

Sobra a questão da violência, e aqui há a salientar a enorme desproporção de forças em conflito. É evidente que os palestinianos nunca conseguirão derrotar militarmente Israel, pelo que a luta armada estará condenada a ser arma de extremistas. Que as provocações e humilhações israelitas continuamente atiçam, como justificação para manter o estado de guerra, as violências e as anexações.

Contudo, a violência do opressor e a do oprimido nunca deverão colocar-se no mesmo plano. Fazê-lo é aceitar a lei do mais forte, caucionando a exploração e a opressão. Como muito bem explicou, na televisão, o cantor popular Toy. As suas canções podem não corresponder ao melhor dos gostos musicais, mas o homem pensa bem. Clarificando o que está verdadeiramente em jogo no conflito israelo-palestiniano, Toy pede meças a muito intelectual encartado e colunista avençado da nossa praça…

Actividades de sala de aula

São os clássicos de sempre, associados a uma ou outra moda recente, ou é já a preparação dos nossos alunos para as profissões do futuro, as tais que ainda não foram inventadas?

No post original, na página do Facebook Txitxa’slife, os comentários enumeravam alguns bonecos ausentes mas bem conhecidos nas salas de aula: o/a que rodopia a garrafa da água, o/a que desinfecta toda a mesa, a caneta, o lápis o estojo e até o caderno com doses generosas de “alcongel”, o/a que se enfia debaixo da mesa à procura da borracha…

Violência à solta na Secundária de Ponte de Sor

Na Escola Secundária de Ponte de Sor, o fosso existente entre os membros da comunidade escolar parece não parar de crescer. Os estudantes sentem-se ameaçados, os professores impotentes, os encarregados de educação revoltados e a associação de pais critica a falta de comunicação com a direção.

A extensa e bem documentada reportagem do jornal i traça um retrato muito preocupante do ambiente desta escola do Alto Alentejo: um grupo de alunos faz a vida negra aos colegas, aos professores e aos funcionários. Ouvindo quase todos os intervenientes, como é regra do bom jornalismo, mas nem sempre possível de concretizar nos casos de violência escolar: muitas vezes imperam o medo, a lei do silêncio imposta de cima ou os interesses cínicos e calculistas de quem, mais do que resolver os problemas, deseja ficar bem na fotografia.

Além de dar voz às vítimas, que acabam por ser quase todos os que têm de cruzar os portões da escola para trabalhar ou estudar, denuncia-se o extenso cardápio de violências físicas e psicológicas exercidas pelo bando de desordeiros: indisciplina, agressões, insultos, abusos sexuais. Há alunos a levar navalhas para esta escola. Há professores e funcionários ameaçados e amedrontados. E tudo decorre num ambiente de aparente impunidade, pois ninguém deseja ter maus encontros também fora da escola. Uma direcção que se esconde no gabinete antes que sobre para ela. A GNR, que fiscaliza cá por fora e às vezes vai lá dentro, mas sem grandes resultados. A acção da CPCJ bloqueada pela recusa da intervenção por parte das famílias, o que remete os processos para tribunal, entrando no vagaroso e sigiloso circuito da justiça à portuguesa.

Como se torna evidente para todos os que contactam com estes casos reais, e não apenas com a sua expressão estatística, que é quase residual, estes ambientes podem ser extremamente desgastantes do ponto de vista psicológico e altamente corrosivos do bom ambiente escolar. O que é condição necessária, não só para boas aprendizagens, mas para garantir o elementar direito de todos à Educação. A escola tem de ser um lugar seguro. Não um espaço onde um bando de gandulos se sente à vontade para impor a sua lei.

Claro que, na base de tudo, está a escolaridade obrigatória até aos 18 anos, que obriga a permanecer na escola mesmo os que lá não querem andar. E embora se tenha feito um esforço assinalável para cativar estes jovens com a oferta escolar mais prática dos cursos profissionais, a verdade é que sobra, mesmo assim, uma pequena minoria que não quer aprender. Sem terem interiorizado um mínimo de civismo e regras de convivência, decidem ocupar o tempo que são obrigados a passar na escola a infernizar a vida dos que lhes aparecem à frente.

Sem soluções à vista, todos parecem aguardar que esta rapaziada complete os 18 anos para que, uns e outros, reconquistem a sua liberdade. Perante uma situação que não encontra soluções ao nível disciplinar, nem policial, nem judicial, nota-se uma ausência de peso na reportagem que recolheu o contributo de professores, pais, alunos, direcção e GNR: a posição do ministério da Educação e as soluções que (não) tem para este tipo de problemas que ocorrem de forma recorrente nalgumas escolas sob a sua tutela. Principalmente as que integram os TEIP, os tristemente famosos territórios educativos de intervenção prioritária.

A verdade é que nenhum trabalhador deve ser obrigado a exercer a sua profissão num ambiente que põe permanentemente em risco a sua saúde física e mental e a sua segurança. Nenhuma criança ou adolescente deve ser exposto ao assédio ou à violência dos seus pares. Actos de criminalidade ou delinquência, como os que são descritos na peça que venho comentando, extravasam a irreverência estudantil ou mesmo a mera indisciplina: os seus autores devem ser punidos e as vítimas têm de ser protegidas. Nem que para isso seja necessário assumir, sem hesitações, que o lugar dos criminosos é na cadeia ou, se for caso disso, em instituições tutelares de menores. A escola não pode continuar a ser vista como uma espécie de caixote de lixo da sociedade, para onde se despejam os problemas que o poder político não quer ou não sabe resolver.

Recuperar a Educação

Em primeiro lugar, não me parece lógico repensar a Educação sem envolver o seu maior activo, os professores. Cansados estamos de ver as mudanças serem desenhadas por “especialistas” que muitas vezes desconhecem a realidade diária das escolas e sobretudo ignoram o conhecimento empírico, substituindo-o por estatísticas muito pouco humanizadas. Os professores têm de deixar de ser vistos pelos designers como meros executores de toda e qualquer política educativa, ficando muitas vezes, injustamente, com o ónus de que o desenho foi mal elaborado. Envolver os professores é fundamental.

Mas para que este envolvimento ocorra harmoniosamente, permita-me a autocrítica, é preciso que os professores não se diminuam e se considerem executantes de fim de linha que nada podem fazer para alterar o panorama educativo, a não ser resmungar enquanto deambulam pelos corredores da escola. Somos todos capazes de muito mais. Temos de mudar também a nossa mentalidade, pois muito daquilo de que nos queixamos no sistema, deve-se a nós próprios. Protestar sem percebermos que cada um de nós faz parte do sistema não só é um mau princípio mas também é uma visão muito redutora do próprio sistema!

Em segundo lugar, perceber que não é com remendos de ocasião, escolas de Verão ou lá o que lhes quiserem chamar, que se removem erros de décadas que estão cravados no sistema. Parece-me claro que poderá aqui haver um aproveitamento para “vender” algumas ideias que, de outro modo, não teriam comprador.

Concordo inteiramente com Alberto Veronesi: recuperar aprendizagens é algo que os professores toda a vida fizeram e continuarão a fazer, sempre que verificam que determinados conhecimentos não foram bem assimilados, que certas competências não estão suficientemente desenvolvidas ou que as falhas detectadas podem comprometer aprendizagens futuras.

O que precisamos é de recuperar a Educação, reencontrando um sentido e uma eficácia para o trabalho que se realiza nas escolas e que se começou a perder muito antes da pandemia.

Em vez de soluções mágicas ou planos milagrosos para recuperar num par de meses o que leva anos de lenta degradação, precisamos, isso sim, de investir na Educação. Aumentando e melhorando os recursos materiais e humanos das escolas, apostando nas receitas para o sucesso e o bom ambiente escolar que comprovadamente funcionam, em vez de experimentalismos permanentes, estéreis e irresponsáveis. E dando mais eficácia à organização escolar e ao funcionamento das aulas: crianças e jovens portugueses já passam bastante tempo na escola; o grande desafio é que esse tempo seja melhor aproveitado.