Sai Amador, entra Ramires

ines-ramiresNa mini-remodelação governamental desta semana, quase passou despercebida a saída da apagada secretária de Estado da Educação, Susana Amador, substituída pela antiga chefe de gabinete de Tiago Brandão Rodrigues, Inês Ramires. Mário Nogueira, da Fenprof, interpreta assim esta mudança:

“O que mais se estranha é que para a secretaria de estado da Educação seja nomeada uma jurista. Quererá isso dizer que a prioridade do Ministério será alterar quadros legais? Quais? Em que sentido? Temo que mais uma vez os superiores interesses da Educação sejam relegados para plano secundário”.

Sobre Susana Amador, Mário Nogueira considerou: “provavelmente, por ser alguém proveniente do poder local e da Assembleia da República, espaços onde o diálogo, a negociação e o debate democrático de ideias são praticados, não se terá adaptado à prática vigente no Ministério da Educação: fechada, autocrática e avessa ao diálogo”.

Não acho surpreendente o perfil de jurista da nova secretária de Estado. Afinal de contas, tanto a antecessora como a titular do cargo no anterior governo socialista, Alexandra Leitão, são formadas em Direito. O mais espantoso é a ausência de currículo relevante, seja na relação com o sector da Educação, seja na actividade profissional enquanto jurista. Praticamente desde que terminou os estudos, Inês Ramires entrou no pequeno mundo dos gabinetes ministeriais e, entre cargos de secretariado, assessoria e consultoria, já de lá não saiu. Não tem experiência política como Susana Amador – não foi eleita ou nomeada, que se saiba, para qualquer órgão de soberania – nem tem uma carreira enquanto jurista, como sucedia com Alexandra Leitão.

Esta escolha, tal como outras do mesmo género, parece assim confirmar uma tendência preocupante, que está geralmente associada ao declínio dos projectos governativos: a tentação de nomear gente de dentro, do aparelho, do círculo restrito de fiéis e apoiantes em quem se confia. Permanecer na zona de conforto em vez de correr o risco de inovar, de alargar a base de recrutamento procurando novos rostos e novas ideias.

Ainda assim, nas nomeações para a área educativa as expectativas são sempre baixas. Nesse sentido, a chegada de mais uma ilustre desconhecida à secretaria de Estado que tutela a administração educativa nunca chega a ser uma surpresa.

A máscara é fundamental

Com ou sem máscara, o humor de Antero Valério a começar o ano da melhor maneira…

Confusão e protestos na abertura do ano lectivo

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Um grupo de pais e encarregados de educação bloquearam, na manhã desta quinta-feira, o Jardim-de-Infância e Primeiro Ciclo do Bárrio, em Roriz, Barcelos, com troncos de madeira, num dia em que os alunos recomeçavam as aulas presenciais depois do confinamento, avança o ‘Jornal de notícias’.

Em causa está o encerramento de uma das salas de aula, com o qual os pais não concordam, bem como a adopção de turmas mistas, ideia que também não agrada aos encarregados de educação e que por isso levou ao boicote, segundo a mesma publicação.

«Temos quatro salas para o primeiro ciclo e este ano, pela primeira vez, decidiram fazer turmas mistas. Temos os meninos do primeiro e do segundo anos juntos, num total de 22 crianças. Como se explica que isto aconteça em ano de covid-19 e quando o ano passado os meninos tiveram muito menos aulas e precisam agora de mais acompanhamento?», explicam os pais ao ‘JN’.

Os responsáveis acrescentam ainda: «Para além disto, os alunos, porque são muitos, dividem a carteira, que tem uma fita vermelha no meio, como se os miúdos fossem cumprir e não passar para o lado do colega», continuam. «Queremos apenas ser ouvidos. Temos o mesmo número de alunos do ano passado e pela primeira vez fazem isto nesta escola», concluem.

Na escola que hoje é notícia em todo o lado, o ME seguiu a receita que todos os anos aplica em milhares de escolas por todo o país: face à descida do número de alunos matriculados – uma inevitabilidade, tendo em conta o declínio demográfico – reduz proporcionalmente o número de turmas. E faz ressurgir uma realidade que muitos julgavam já pertencer ao passado: as turmas mistas no 1.º ciclo, integrando alunos de mais de um ano de escolaridade.

Aqui, a revolta é maior porque a decisão de juntar os dois primeiros anos vai impedir o distanciamento físico dos alunos, obrigando a sentá-los dois a dois, sem máscara, partilhando a mesma mesa. Enquanto ao lado está uma sala de aula vazia…

Agrada-me ver que os pais vão finalmente abrindo os olhos para a realidade que andou meses a ser (mal) preparada e para a qual os professores, repetidamente, foram alertando. Claro que quando eram apenas os professores a falar, a reacção quase automática, vinda de diversos quadrantes, era a de que andavam a arranjar pretextos para não ir trabalhar. Ora aí têm a dura realidade.

Aos ajuntamentos na sala de aula some-se a confusão ainda maior, e notória neste primeiro de dia de escola para quase todos, nas entradas e saídas das escolas, com alunos e pais em despreocupado incumprimento da regra de distanciamento.

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E acrescente-se, embora isso não esteja a ser falado na comunicação social, que há escolas com professores e funcionários em isolamento ou de quarentena e que só abrirão, se tudo correr bem, na próxima semana.

Está lindo, e ainda a procissão vai no adro…

Alunos preferem manuais em papel

Quando o Governo se prepara, à boleia da transição digital, para torrar mais uns milhões de euros no duvidoso projecto de desmaterialização dos manuais escolares, é importante que se diga bem alto, e as vezes que forem precisas, que esta não é uma necessidade real.

Os alunos continuam a dar-se bem com os manuais em papel e o seu uso não é incompatível com as novas tecnologias. Bem pelo contrário, e quem o diz é uma fonte insuspeita: a Porto Editora, que apesar de ter disponibilizado os manuais e os recursos multimédia da Escola Virtual a alunos e professores, constatou que, mesmo no ambiente do ensino online, os livros em papel continuaram a ser usados pela grande maioria dos alunos.

Indo de encontro a esta nova realidade, a Porto Editora realizou um inquérito de satisfação da sua plataforma a 11 mil professores e encarregados de educação sobre um estudo de satisfação sobre as plataformas educativas e de comunicação, fornecendo elementos úteis para possíveis cenários futuros, incluindo a transição digital. O inquérito foi feito nas duas primeiras semanas de julho.

Os resultados mostram que 76% dos encarregados de educação salientam a importância do manual escolar em papel, e 50% dos professores têm opinião semelhante. Nesse sentido, o estudo revela que 96% dos alunos utilizaram manuais em papel, e que 52% nunca acedeu à respetiva versão digital. Este dado justifica-se pelo facto de dezenas de milhares de alunos não terem acesso a computador ou internet em casa.

O estudo indica que o digital e o papel podem-se complementar. E que 89% dos professores reconheceram que passaram a usar mais as funcionalidades proporcionadas pelas plataformas educativas (vídeos, interatividades, recursos associados aos manuais digitais, fichas editáveis de avaliação, etc.).

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Uma nota final para distinguir duas realidades que às vezes se confundem. Uma coisa são os vídeos, áudios, animações interactivas, fichas formativas e sumativas para resolver online: estes materiais complementam o ensino tradicional, recorrendo às novas tecnologias para fornecer, a alunos e professores, ferramentas pedagógicas de elevado potencial. São úteis, serão cada vez mais usados e não podem, obviamente, ser fornecidos em papel.

Completamente diferente é o manual disponibilizado em versão electrónica no site da editora, que se limita a reproduzir os textos e as imagens disponíveis no manual em papel. Aqui a vantagem vai claramente para o livro físico, num formato bem mais prático, amigável e manipulável do que a versão digital. Sempre disponível, sem necessidade de computadores ou tablets, baterias carregadas ou acesso à internet…

António Costa fala verdade?

fact_check-errado1x1“(…) e esta organização especial em que a escola vai ter de funcionar, como que criando caixas estanques entre cada turma, para que cada sala seja só para uma turma, cada carteira seja só para um aluno, que os lugares sejam sempre os mesmos (…)”

Entusiasmando-se com as suas próprias palavras – o que é compreensível num optimista nato – ou querendo enganar quem o houve – o que já não é aceitável – o primeiro-ministro garantia, no início da semana, a existência de condições seguras para o regresso às aulas. Mas será que quem o houve pode confiar nas suas palavras?

Tendo em conta o decréscimo de natalidade das últimas décadas, haverá hoje menos escolas sobrelotadas do que há dez ou vinte anos atrás. Nesse sentido, garantir uma sala fixa para cada turma será um objectivo exequível na maioria dos estabelecimentos. Mas também é verdade que, nas escolas onde se sabe existirem mais turmas do que salas – e por isso as turmas terão de ir rodando por salas diferentes – pouco ou nada se fez para alterar essas condições.

Quanto às mesas individuais, julgo que pouquíssimas escolas as poderão garantir para todos os alunos, por uma razão muito simples: as escolas são, regra geral, equipadas com mesas duplas, em número insuficiente para uma utilização individual. Mas também aqui, se houvesse vontade, poderiam ter-se criado condições, como se foi feito em Itália, onde se adquiriram mais de dois milhões de mesas individuais.

O Observador resolveu fazer, como agora está na moda, o fact check das declarações de António Costa, confrontando o seu optimismo com a realidade concreta das escolas, transmitida pelos representantes dos directores. A conclusão é óbvia: a maioria das escolas não garante aos seus alunos mesas de uso individual e em muitas delas nem sequer é possível impedir que não mudem de sala várias vezes ao dia. O PM anda a enganar os Portugueses…

“Claro que não é possível. Na grande maioria das escolas não é possível ter caixas estanques, quando nem sequer há mesas individuais. Percebo a intenção do primeiro-ministro, ela está correta, mas ele também sabe que as escolas são todas diferentes. No meu caso, que tenho mais turmas que salas, não consigo ter aquilo a que chamamos sala-mãe para cada grupo de alunos”, esclarece Manuel Pereira.

Já Filinto Lima, presidente da ANDAEP, associação nacional de diretores de agrupamentos e escolas públicas, acredita que conseguir uma sala por turma não é impossível, mas acha improvável que as escolas consigam ter uma carteira por aluno.

[…] “Quanto às carteiras, penso que será difícil ter uma por aluno, e às vezes é mesmo impossível, porque a maioria das escolas tem mesas duplas e as salas de aula não aumentam de tamanho”.

Sexo, mentiras e vídeo

Os ingredientes sensacionalistas estavam lá todos e o engodo era, para muitos, irresistível. Psicóloga em videoconferência deixa o computador ligado no final da sessão. Alunos assistem às intimidades sexuais entre a psicóloga e o professor que a acompanhava. Segue-se a queixa de uma mãe escandalizada, a gravação a servir de prova e o inevitável processo disciplinar, seguido de demissão.

Julgo que foi o Correio da Manhã que deu a notícia em primeira mão, rapidamente replicada na imprensa “séria”, nas redes sociais e na blogosfera docente.

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Passados dois dias, confirma-se que a notícia era falsa. Os esclarecimentos do advogado não deixam pedra sobre pedra relativamente à falsa acusação:

  • O episódio ocorreu antes da videoconferência, numa altura em que a psicóloga, com problemas técnicos no seu equipamento, pediu ajuda a um amigo professor;
  • Ao iniciarem a videoconferência, para verificarem que tudo funcionava, não se aperceberam que alguns alunos já estavam online, a assistir;
  • As alegadas intimidades resumiram-se à despedida dos dois amigos, com um abraço e um beijo na cara;
  • Houve efectivamente uma mãe que, sem nada melhor para fazer, gravou a cena e fez queixa na escola, originando um processo disciplinar que foi arquivado por falta de provas;
  • A psicóloga já não está a trabalhar no agrupamento, não por ter sido despedida, mas por ter entretanto terminado o contrato.

Quando o público é pouco exigente, publicar notícias falsas e sensacionalistas pode aumentar as vendas nas bancas e os cliques no online. Para um jornalismo cada vez mais dependente da publicidade para sobreviver, isto torna-se determinante. Mas escrever mentiras, sem confirmar os factos nem ouvir as partes envolvidas, não deveria nunca ser opção para jornalistas profissionais.

Vaga de greves escolares em Espanha

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Desde o dia 10 em Madrid e Galiza, ontem no País Basco, depois de amanhã na Andaluzia, na próxima quarta-feira em Múrcia… As greves convocadas na educação reproduzem-se por diferentes territórios do Estado perante o que se considera um regresso à escola em que não se investiram suficientes recursos destinados a fazer frente à situação de emergência motivada pela covid19. Até sete comunidades, a que poderão somar-se Navarra e Catalunha, já confirmaram que haverá greves entre as equipas de profissionais das escolas até que existam garantias sanitárias que requerem maior financiamento. 

O regresso às aulas em pleno agravamento da pandemia está a ser altamente contestado em Espanha. Sobretudo por professores, que sabem melhor que ninguém o quão pouco se investiu na criação de condições para uma reabertura segura das escolas. Mas também os pais, associações de estudantes e funcionários não docentes mostram preocupação e, nalguns casos, se juntam à luta.

Quando se somam os contágios envolvendo comunidades escolares e até a herdeira do trono está em quarentena porque uma colega de turma testou positivo à covid-19, torna-se difícil de aceitar que se continue a dar aulas a turmas numerosas em salas acanhadas, sem planos para substituir professores em falta e mais medidas efectivas para evitar os novos casos.

Entre nós, é verdade que a situação pandémica nunca assumiu a gravidade que tem nalgumas regiões espanholas. Mas também é certo que nunca se equacionou seriamente, por exemplo, o regime semi-presencial para alunos mais velhos, ou o uso de máscara obrigatório também no 1.º ciclo, como sucede em Espanha.

Por cá, e apesar de também vigorar um pré-aviso de greve, emitido pelo STOP, para os primeiros dias de aulas, não parece haver notícia de que esteja a ter adesão. Embora a apreensão e o descontentamento sejam sentimentos presentes entre a classe docente, eles tardam em traduzir-se em acções concretas de contestação da política poupadinha de desconfinamento escolar e de exigência de medidas eficazes para reforçar as condições de segurança sanitária no regresso às aulas.

Amianto nos comboios… e nas escolas!

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Num desavergonhado exercício de demagogia, alguma imprensa e partidos da oposição descobriram, esta semana, uma “novidade” que há meses era conhecida: a maior parte das 51 carruagens que a CP comprou em Espanha para reforçar os seus serviços regionais e intercidades contêm amianto. Essa foi, aliás, uma das razões que justificou o baixo preço de compra, ficando também assente que as peças em causa seriam substituídas durante os trabalhos de renovação a que as carruagens estão a ser sujeitas.

Fonte da ferroviária pública espanhola confirmou hoje à agência Lusa que “algumas das carruagens” têm amianto e que “uma das condições do contrato” de compra e venda prevê que a CP “faça a retirada” desse material, considerado nocivo para a saúde pública, durante o seu processo de requalificação.

A CP também esclareceu hoje que a remoção do amianto em 36 das carruagens compradas à Renfe estava prevista no plano de recuperação daquele material e que todas elas estarão descontaminadas até à primeira semana de dezembro.

Desfeito o drama, compare-se a preocupação hipócrita com o amianto existente em partes ocultas de comboios que nem sequer estão ainda ao serviço, com o que se passa nas nossas escolas. Há vinte anos que sabemos que o amianto é cancerígeno e que existe em placas de fibrocimento e outros revestimentos usados em centenas de edifícios escolares, onde se degrada lentamente. Mas continuamos a condescender com este atentado permanente à saúde pública e à vida de todos os que aí estudam e trabalham.

O amianto dos comboios estará todo retirado dentro de poucos meses. Nas escolas, falham-se todos os prazos para a remoção, permitindo-se que os (ir)responsáveis de sucessivos governos continuem, impunes, a gozar connosco. Até quando?…

Anunciado em junho, o programa nacional para erradicar o amianto de 578 escolas públicas não tem data para estar concluído até porque não tem qualquer calendarização definida. Segundo o Ministério da Educação, tudo depende das autarquias, que têm até 31 de outubro para fazer o lançamento dos concursos, mas que podem esbarrar na falta de empresas especializadas neste tipo de intervenção.

A pesada – e mal arejada – herança

parque-escHá escolas da Parque Escolar – programa de renovação dos edifícios de escolas públicas lançado em 2007, durante o primeiro Governo de José Sócrates – que têm apenas janelas basculantes, que dificultam o arejamento conveniente das salas de aula.

“Em algumas escolas megalómanas, do tempo de José Sócrates, existem janelas que são basculantes. Só abrem um pouco e não na sua totalidade. E isso pode realmente acontecer nessas escolas. Por isso, poderá haver esse constrangimento. Mas também sei que esse constrangimento é fácil de ultrapassar, porque essas janelas poderão também ser janelas normais de total abertura. Mas claro que terá de haver um custo. É preciso promover o rearranjo dessas janelas”, explicou Filinto Lima. E o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, acrescentou que, nestes casos, é necessário existir atenção redobrada.

Já muito se escreveu sobre os luxos faraónicos e o desvario despesista dos tempos áureos da Parque Escolar. Além do rasto de corrupção e dívida que ainda andamos a pagar, ficou também a factura da falta de eficiência energética dos edifícios, dos elevados custos de manutenção e utilização e, em tempos de pandemia, a ameaça à saúde pública que a falta de arejamento das salas de aula representa.

Modificar as caixilharias, de forma a permitir a abertura total e o arejamento adequado é a resposta óbvia, mas a operação exige tempo e tem custos que não cabem nos depauperados orçamentos escolares.

Restando ainda saber se não haverá algum arquitecto mais marreta que se oponha – e podem fazê-lo! – à desvirtuação do seu projecto…

Objecções

facetoons

Daqui.