Ficções democráticas

voto.jpgQuando em 2008 foi imposto às escolas públicas o actual modelo de gestão, dois objectivos se tornaram evidentes: centralizar o poder na figura do director e retirar aos professores o papel preponderante na eleição que até aí detinham. Para cumprir este desiderato, o director passou a ser eleito pelo Conselho Geral, um órgão onde os professores e o pessoal não docente foram deliberadamente colocados em minoria. Assim, mais de metade dos lugares deste órgão são ocupados por representantes das autarquias, dos pais, dos alunos e das “forças vivas” locais.

Esta arquitectura jurídica nunca foi levada muito a sério pelos governos que a criaram e mantêm: nunca criaram um relacionamento institucional com o órgão principal das escolas e agrupamentos, tomando os directores, na prática, como interlocutores exclusivos. Mas tem servido um objectivo político importante: permite alegar que o actual modelo de gestão unipessoal é mais democrático do que os anteriores, pois a escolha do director tem na sua base um universo mais alargado, que abrange toda a comunidade escolar.

Será mesmo assim? O nosso colega Luís Braga decidiu averiguar se as escolas e agrupamentos estão a cumprir a lei onde ela manda que os representantes de alunos e pais sejam eleitos pelos respectivos pares. Não podem ser apenas “indicados” pela respectiva associação de estudantes ou de pais e encarregados de educação. E as respostas que obteve, tanto como o silêncio dos que recusaram responder, são preocupantes.

Ao abrigo da Lei de Acesso aos Documentos Administrativos, Luís Braga solicitou a 291 agrupamentos do Norte do país o envio das actas das eleições dos representantes dos pais nos CG. Por problemas técnicos (emails devolvidos), a informação não chegou a 36. Mais de uma dezena de escolas enviaram pedidos de esclarecimento à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos ou à Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares com o objectivo de saberem se deviam fornecer o acesso às actas. E 154 não responderam.

Mas das cerca de 91 respostas obtidas até ao final de Março, mais de metade (51) estavam então em situação irregular. Nuns casos não existiam actas, como obriga a lei, tendo sido estas substituídas apenas por uma comunicação de quem eram os representantes dos pais designados para o CG. Noutros casos, as actas não estavam devidamente preenchidas, faltando, por exemplo, a menção ao número de eleitores e de votantes.

Noutros ainda, a designação dos representantes foi feita pelas associações de pais — quando a lei estabelece que a eleição dos representantes para o CG deve ser feita em assembleia geral de pais e encarregados de educação, cabendo às associações, quando existem, proporem as listas para o efeito. Há ainda situações em que os presidentes dos CG alegaram desconhecer o teor das actas por estas se encontrarem na posse das associações de pais.

Esta situação não é nova, e reflecte o amadorismo em que sempre tem vivido o movimento associativo dos encarregados de educação, fruto da falta de tempo, vontade e disponibilidade da maioria dos pais para se ocuparem, relativamente à escola, de algo mais do que daquilo que diz directamente respeito aos filhos. Os pais que participam efectivamente nas reuniões da respectiva associação, ou que se disponibilizam para ir à escola eleger os seus representantes no Conselho Geral, são geralmente muito poucos. O que por um lado coloca em causa a representatividade dos eleitos e por outro gera a tentação de aligeirar processos e simplificar procedimentos, nomeando informalmente representantes que deveriam ser eleitos.

Há contudo, um momento importante que se aproxima na vida de muitas escolas e agrupamentos: a eleição do novo director, para a qual se exige um Conselho Geral legalmente constituído. O que, segundo deixa antever o inquérito de Luís Braga, estará, em muitos casos, longe de suceder. Pelo que muitos processos eleitorais poderão ser pura e simplesmente anulados caso alguém resolva contestar a eleição.

Questionado sobre o assunto, o ME não quis comentar, como é habitual nestas situações, e ainda mais quando a iniciativa parte de um simples professor em vez de ter origem em qualquer sonante gabinete de estudos ou observatório universitário ou fundacional. E, no entanto, nesta era de plataformas informáticas e inspecções que tudo escrutinam nas escolas, não tenho dúvidas de que, se o ministério não sabe o que se passa com as irregularidades na constituição dos conselhos gerais é apenas porque prefere não saber.

Admitir que algo vai mal no processo de eleição dos conselhos gerais significaria pôr em causa a ficção democrática que vem dos tempos de José Sócrates e Lurdes Rodrigues, criada para retirar poder e influência aos professores na gestão das escolas. E nisso já o actual governo, zelosamente reformista em tantas outras coisas, deu claros sinais de não querer mexer.

 

Regresso às greves?

Greve_educacao.jpgA paz entre sindicatos de professores e Ministério da Educação tem sido a regra na atual legislatura. Mas essa realidade poderá mudar mais depressa do que se supunha. Depois de já terem admitido há dias o recurso a ações de luta, nomeadamente greves em períodos “sensíveis”, os responsáveis máximos das duas maiores organizações do setor – Federação Nacional dos Professores (Fenprof) e Federação Nacional da Educação (FNE) apontam agora um prazo curto para passarem das palavras à ação, dando ao Ministério da Educação até ao mês de maio para decidir se quer avançar para o diálogo de vários temas em cima da mesa ou enfrentar protestos mais duros.

Os encontros regulares entre as federações sindicais e o ministério, se contrastam positivamente com a falta de diálogo do tempo dos outros senhores, não se têm traduzido em respostas concretas aos problemas e anseios da classe docente. O congelamento da carreira e das progressões, a vinculação a conta-gotas de professores contratados, a sobrecarga de trabalho burocrático nas escolas, as turmas demasiado grandes, os abusos no preenchimento da componente não lectiva, a gestão concentracionária e por vezes autoritária nos mega-agrupamentos: tudo isto, e muito mais, corporiza o descontentamento dos professores a que o ME teima em não dar resposta.

Mas o actual impasse não poderá prolongar-se muito mais tempo. Ou a equipa dirigente do ME assume alguns compromissos concretos em relação às reivindicações dos docentes e à melhoria das condições salariais e de trabalho, ou terão os professores, com os seus sindicatos, de decidir o que fazer para pressionar o governo. E se a insatisfação é suficiente forte para nos induzir à acção, todas as formas de luta terão de ser ponderadas, incluindo a “bomba atómica”, a greve em período de exames e avaliações. Continuar a apontar o dedo às contradições da “geringonça” e dos partidos que a apoiam deixará, a breve prazo, de ser suficiente.

Falares alentejanos V

monte-alentejano.jpgPassar p’las brasas: Adormecer.
Pássaro da rebêra: Pessoa viva e interesseira.
Pata chanca: Pessoa coxa.
Pata de chambaril, à: Rispidamente.
Patagalharda: Jogo infantil.
Pataganhas: Pés ou mãos com tamanho anormal.
Pataleta: Episódio de doença como AVC, enfarte ou epilepsia.
Patamêro: Pântano; terreno alagado.
Patarou: Pessoa esclerosada, devido à idade avançada.
Pêdédo: Adoentado.
Peido mestre: Morte.
Pedrisco: Granizo.
Pedro-maria: Homem bisbilhoteiro.
Peganhar: Gozar; arreliar.
Peganhoso: Implicativo; gozão.
Pelharanca: Pele humana flácida.
Pelhêgo: Corpo humano; tronco.
Pelhêra: Armário escavado na parede, geralmente coberto por uma cortina.
Pelice: Samarra; casaco com gola de pele de raposa.
Penegar: Sofrer.
Peniquéda: Dejectos depositados num penico e laçados à rua.
Perna de aiveca: Pessoa coxa.
Pernicar: Beliscar.
Pesculhoso: Exigente; esquisito.
Peseta: Pessoa ruim.
Pexelim: Peixe seco semelhante ao bacalhau, mas com poucas spinhas.
Pêxinho: Homossexual.
Piel: Poial.
Pífaro: Pénis.
Pincolha: Parte cimeira de uma árvore.
Pinguela: Pequena ponte sobre um barranco ou ribeira.
Pinoco: Marco geodésico.
Pintessilgo: Pedinte.
Pipi da tabela: Habitante da cidade.
Placho: Nu.
Planchão: Barriga.
Póda: Planta que origina os cravos.
Pôia: Pão dado como maquia ao dono do forno onde se cozeu a amassadura.
Ponto-marca: Ponto-de-cruz.
Pôpo: Trança de cabelo enrolada na nuca ou no alto da cabeça.
Pôr a trapêlo: Usar no dia a dia.
Pôr em má campo: Embaraçar; difamar.
Pôr uma espinguérda à cara: Falar ininterruptamente.
Porca sara : Bicho de conta.
Portado: Entrada duma propriedade rural; parede de pedra solta que ruiu.
Préido: Propriedade agrícola.
Presalôra: Borboleta.
Procurér: Perguntar.
Pulmonêra: Tosse, catarro.
Puxar despique: Pedir razões.
Continuar a ler

A escola no cinema: A Onda

A Onda

Título original: Die Welle, 107m, Alemanha, 2008.

die-welle.pngQuando entre nós se discutem as virtualidades do trabalho de projecto e da aprendizagem colaborativa, talvez venha a propósito ver – ou rever, no caso de quem já conhece – uma história que tem como pano de fundo a semana de projecto, comum nos liceus alemães. Partindo de um tema-problema concreto – perceber se o nazismo teria condições para renascer na Alemanha do século XXI – um professor pouco convencional desenvolve com a sua turma uma experiência social que entusiasmou a maioria dos jovens, recriando a dinâmica social e a mentalidade colectiva que estiveram na origem dos fascismos europeus. Mas, aos poucos, as coisas vão ficando fora de controle…

Fica o trailer do filme e, embora não a recomende, pois não sou adepto de dobragens, uma versão integral dobrada em português do Brasil.

Sarampo, sarampelo…

sarampo.jpg…Sete vezes vem ao pêlo, ouvia eu dizer quando era pequeno.

E lá tive o sarampo, como a maior parte dos miúdos, que ao tempo não havia vacina. Sendo doença benigna para a grande maioria, uma pequena parte das crianças morria, ou ficava com sequelas para o resto da vida. Queremos voltar a esse tempo?

Não tomávamos a vacina porque não havia. E quando eu era pequeno havia cólera em Portugal. Tínhamos de ferver a água. Saudades, não é?

Anda por aí uma lógica de contrariar a ciência como se esta gente fosse saudosista dos anos 80, mas AC. Na verdade, vivemos num país que se escandaliza com pais que não vacinam filhos no século XXI, mas que celebra pastorinhos canonizados por curarem doenças com milagres. É profundamente idiota não vacinar filhos, mas esta notícia passa na mesma televisão onde, com ar sério, se celebra dois pastores que vão ser santos por curarem doenças à distância depois de já falecidos.

João Quadros evoca também, na sua crónica humorística, o telediagnóstico, em directo e ao vivo, da bruxa/cartomante da SIC, patrocinado, nos intervalos, pelas pílulas milagrosas para a falta de cálcio e outras maleitas da terceira idade.

Mas a superstição e a ignorância não atingem apenas os mais velhos. O Google difunde informação à mesma velocidade a que se cresce a quantidade de gente mal informada.

E conclui acertadamente: a epidemia de sarampo é também uma epidemia de estupidez, a mais contagiosa de todas as doenças. Para a vencer, todos os meios são legítimos. Até os mais radicais…

Na minha opinião, a vacinação devia ser obrigatória. Mesmo que tivesse de ser dada com uma espingarda da dardos à distância. Estava a criança no baloiço e tau!, com mira telescópica. Se há pessoas que querem viver na idade da pedra, tudo bem, mas não arrastem os outros com elas. E se for necessário para convencer aquelas pessoas que gostam de fazer nascer os filhos em casa e de não dar vacinas aos miúdos, ofereçam um cheque de cem euros em missangas que elas aparecem.

Nuno Crato no Brasil

nuno-crato.JPGO Brasil vai-se tornando local de peregrinação de pedagogos, ideólogos e cientistas da educação portugueses, pelo menos a avaliar pela frequência com que a imprensa brasileira noticia a sua presença e os vai entrevistando. Agora foi a vez de Nuno Crato, que explicou, à Folha de S. Paulo, algumas das suas ideias anti-eduquesas e contrárias ao que insiste em chamar a “pedagogia romântica”. Claro que, da forma como as enuncia, até têm algum sentido lógico. O problema, deste lado do Atlântico, é que tivemos oportunidade de as ver em acção, e os resultados estiveram longe de ser brilhantes.

A verdadeira pedagogia moderna, baseada nas ciências cognitivas do século 21, mostra que não basta saber ler. Os jovens devem ter fluência na leitura e nas operações matemáticas. Isso lhes permite depois libertar a mente para atividades de ordem cognitiva superior. Se o jovem estiver a soletrar enquanto lê, terá dificuldade de entender o conteúdo do texto.

A psicopedagogia do século 21 descobriu que há um conjunto de automatismos que ajuda a compreensão. A ideia é que as tarefas cognitivas de ordem superior – reflexão, crítica, criatividade – são baseadas em processos da ordem inferior. E o grande erro da pedagogia romântica é pensar que se pode chegar aos processos cognitivos superiores esquecendo-se dos inferiores.

Nuno Crato contesta o que considera mitos da educação, como o de que os alunos só devem aprender o que gostam, porque antes de conhecerem alguma coisa sobre determinado assunto não poderão saber se gostam ou não. Afirma que a avaliação não traumatiza, antes pelo contrário, é um incentivo necessário à aprendizagem. E que memorizar ajuda a desenvolver o cérebro e fornece uma base cognitiva para aprendizagens de nível superior. É difícil discordar.

Crato não acha que a exigência prejudique os pobres, mostrando-se defensor de uma escola pública exigente, pois ela é a única oportunidade dos mais pobres poderem obter o conhecimento e as capacidades de que precisam para melhorar a sua vida. Ao contrário dos ricos, que podem frequentar escolas privadas ou ter explicadores para compensar as falhas do ensino público. Isto também é evidente. Mas o problema não está nos pobres que são bons alunos nem nos ricos que usam o seu dinheiro para compensar a falta de esforço ou de inteligência: está nos alunos que não conseguem corresponder nem encontrar sentido nesse ensino exigente e que Crato, enquanto ministro, se limitou a remeter para esse refugo educativo a que chamou ensino vocacional.

Em relação ao ensino por projectos, o antigo ministro adverte que não deve ser usado de uma forma que desvalorize o conhecimento disciplinar. E dá um exemplo pertinente:

A história, por exemplo, tem uma ideia de continuidade que deve ser apresentada de maneira sistemática. Se o jovem faz uma vez um projeto sobre a Grécia Antiga, outro sobre os índios brasileiros, nunca terá um conhecimento conjunto da história. Projetos são auxiliares do ensino, não podem ser sobrevalorizados.

Olhando retrospectivamente para os quatro anos de Nuno Crato à frente da Educação portuguesa, e mesmo dando de barato a desculpa da crise e dos cortes orçamentais, a verdade é que pouco ou nada se viu, em termos de pensamento estratégico para a educação, que fosse para além da introdução de mais e mais exames.

O rigor e a exigência que se exigiam aos professores e às escolas não foram aplicados aos serviços do ministério, nem à própria equipa governativa. Ainda não nos esquecemos, julgo eu, das trapalhadas dos concursos e das colocações, das turmas de 30 alunos, dos cortes nos apoios educativos e na educação especial, do favorecimento de lobbies. Nem do ensino vocacional criado à pressa e para onde eram enviados todos os jovens a partir dos 13 anos que se mostrassem incapazes de cumprir os critérios de exigência impostos pelo ministério.

Entre os excessos do ensino formatado dos exames e das metas defendido por Nuno Crato e do lirismo folclórico do “aprender a brincar” e das auto-aprendizagens que nos garantem ser, à mistura com o uso desregrado dos gadgets tecnológicos, a nova modernidade educativa, penso que haverá algures um meio termo, construído com experiência, sensatez e boa pedagogia: será esse o rumo certo da escola do século XXI.

O Perfil do Aluno segundo o CNE

cne-perfil-parecer.JPGDepois de uma primeira tentativa falhada, ocorrida a 20 de Março, à segunda foi de vez e o Conselho Nacional de Educação lá aprovou o Parecer sobre o Perfil dos Alunos, que pode ser consultado clicando na imagem à direita.

Da leitura do documento, a ideia que me fica é que, na ânsia de produzir um parecer consensual, acolhendo as críticas e os contributos que terão resultado da discussão anterior, os conselheiros acabaram por produzir um documento ainda mais vago e rebuscado do que o Perfil do Aluno em apreciação.

No texto final hoje aprovado pelo órgão consultivo do Ministério da Educação, sobre o perfil que o Governo pretende que seja uma orientação para aquilo que devem ser as competências adquiridas ao longo de 12 anos de escolaridade”, defende-se que a sua operacionalização implica a “adoção de uma abordagem pedagógica interdisciplinar, que não se coaduna com a prevalência de uma lógica disciplinar acentuada”.

“Por isso, entende-se que será necessário realizar um esforço para se encontrarem equilíbrios e condições formativas e organizacionais para que as metodologias de acção se orientem para práticas pedagógicas e didácticas adequadas às finalidades enunciadas”, lê-se no parecer.

Entre as seis recomendações ao Governo que resultam deste parecer está a ponderação das implicações do novo perfil “na organização do sistema educativo, nomeadamente ao nível do currículo, das práticas pedagógicas e da formação inicial e contínua dos professores”.

O CNE entende também que o novo perfil pode “constituir o princípio da reversão” da tendência de aplicar mudanças no sistema educativo que “têm frequentemente surgido como acontecimentos, com avanços e recuos e sem tempo para consolidação”.

“O documento em análise poderá constituir o princípio da reversão dessa tendência, uma vez que desafia todo o conjunto da nossa estrutura educacional, constituindo uma referência orientadora das políticas educativas. A sua operacionalização implica alterações curriculares e de funcionamento das escolas, que se pretendem graduais, sustentadas e duradouras”, escrevem os conselheiros.

Defende-se ainda, neste parecer, que as mudanças curriculares sejam introduzidas de forma gradual, devidamente acompanhadas na sua aplicação e que envolvam não apenas as escolas mas também outras entidades com responsabilidades na formação integral de crianças e jovens.

E assinala-se que “a um novo perfil de aluno deverão corresponder um novo perfil de escola e um novo perfil de professor”. Pela minha parte, iria mais para a urgência de um novo perfil de sociedade, pois continuo a não perceber onde é que o aluno cooperante, solidário e colaborativo encaixa na sociedade cada vez mais egoísta, desigual e competitiva que andamos a construir.