O professor do ano justifica-se

rui-correiaO professor do ano disse no Prós e Contras da RTP que nunca mandou nenhum aluno para a rua, em trinta anos de aulas. Ora, esse professor sou eu. E esse professor, quer se queira, quer não se queira, nunca mandou nenhum aluno para a rua. O alvoroço provocado em algumas pessoas, e a que esta revista deu espaço, por ter tido o topete de confessar publicamente um dado que para mim é “concreto e definido, como outra coisa qualquer” da minha vida profissional, gerou em mim uma atenção que não esperava. 

Rui Correia, citado na prosa de Carmo Machado que ontem comentei, acusa o toque. E responde na mesma revista à censura colectiva que sente erguer-se à sua volta e que é visível, por exemplo, nos grupos de professores que, nas redes sociais, comentaram a sua prestação no programa televisivo sobre violência escolar.

Claro que, se Rui Correia nunca mandou um aluno “para a rua”, não precisa de dizer que já o fez para deixar os colegas satisfeitos. Apesar do tom algo pretensioso e rebuscado da argumentação, percebe-se a ideia principal: não quis alinhar no coro de vitimização e de lamúrias em relação à classe docente, acha que são os sucessos dos professores, bem mais numerosos do que os fracassos, que se devem evidenciar e que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, uma intervenção positiva é sempre possível e desejável.

Contudo, não foi esta a leitura que muitos, diria mesmo a maioria dos espectadores do programa, fizeram. O “professor do ano” mostrou pouca solidariedade, compreensão e empatia com os seus colegas que, trabalhando em contextos sócio-educativos mais desfavoráveis do que o seu, se arriscam diariamente a “levar no focinho”. Preferiu centrar-se nos seus sucessos, no seu “eu” notoriamente insuflado, o que é naturalmente uma opção legítima. Tal como o são as críticas que outros professores fizeram à sua prestação televisiva, algo a que está sempre sujeito quem se expõe publicamente.

Pela minha parte, não desejo entrar numa polémica sem grande substância. Aproveito antes para recordar uma realidade que se esconde por detrás destes prémios que algumas multinacionais com interesses na educação distribuem por professores escolhidos a dedo: quem se encontrava no palco daquele Prós e Prós, não era o professor da Escola de Santo Onofre, mas sim o Embaixador da Fundação Varkey. Cumprindo uma das obrigações do professor do ano, que é a de actuar como agente de propaganda da fundação que atribui o prémio e das suas concepções educativas. Quem duvidar pode confirmá-lo consultando o regulamento do concurso, onde se diz claramente que um dos deveres do vencedor é:

(ii) desempenhar o papel de Embaixador do “Global Teacher Prize Portugal” (o “Prémio”).  

O Embaixador do Prémio deve participar em conferências e outros eventos, programas promovidos pelos meios de comunicação social e promover a realização de ações de formação e outras atividades. Os custos com as deslocações no exercício da tal função serão da inteira responsabilidade da entidade promotora do Prémio. 

Pois é, os 30 mil euros trazem consigo um preço a pagar. Desenganem-se aqueles que acham que um “professor do ano”, nomeado por organizações que têm a sua própria agenda educativa, irá alguma vez defender e representar a classe docente. A ideia é exactamente a oposta: trata-se de promover uma imagem de professor destinada a funcionar como modelo para os outros profissionais da educação. Não se pretende exibir o professor típico dos nossos tempos, mas sim o super-professor em que querem que nos transformemos. Quem participa nestes concursos começa por aceitar a proibição de fazer ou dizer tudo o que possa desagradar às autoridades educativas e aos promotores privados da iniciativa.

De facto, os sucessivos professores do ano que já tivemos projectaram sempre uma imagem idealizada da profissão, na qual elementos perturbadores como alunos violentos, professores agredidos, bullying ou aulas dominadas pela indisciplina simplesmente não podem existir. O professor do ano ama a sua profissão e concretiza a magia ensinar todos os alunos, mesmo os que não querem aprender. Não reclama, não reivindica, nem faz greves – ou pelo menos não pode falar disso publicamente.

A lógica do professor do ano é empobrecedora e limitativa. Reproduz as concepções neoliberais de uma sociedade atomizada, onde cada professor trabalha isoladamente, competindo com todos os outros para ser o melhor. Alimenta o mito do professor que, sozinho, inspira sonhos, transforma realidades, muda a vida e o destino dos alunos que passam por ele. Concretiza a mudança na escola, para que a ordem económica e social que gera a desigualdade e a injustiça não tenha de mudar.

Pela minha parte, prefiro lutar por uma sociedade mais justa e por um modelo escolar democrático e colaborativo, em que todos os professores cooperem na construção de uma escola melhor. E defendo uma profissão docente dignificada e valorizada, na qual todos possam ser bons professores, ano após ano.

Um professor “rasteiro” se confessa

praying-silhouettes-7884141.jpgQuando vi, por mero acaso, a lista dos medalhados num recente congresso “pró-inclusão”, chamou-me a atenção o facto de eu também lá constar, integrado num colectivo designado por “professores portugueses”. À partida nada teria a opor, embora pessoalmente prefira outro tipo de homenagens: aquelas que realmente dignificam e valorizam os profissionais da educação. O que passa por confiar no trabalho que realizam, respeitar a sua autonomia profissional e melhorar as condições em que trabalham quotidianamente.

O que na verdade me incomodou foram as más companhias: nesta altura do campeonato, qual é o professor que se preze que aceita ser homenageado ao lado de pessoas como Ariana Cosme ou João Costa? Poderá haver quem ache que os mentores da flexibilidade e da inclusão ficarão para a história da Educação portuguesa. Lamento, não sou dessa opinião. Espero que não fiquem e creio que, se isso suceder, será essencialmente por más razões. Razões essas que tenho, ao longo de dezenas de posts, explanado por aqui.

Volto ao assunto porque constatei que o post original teve alguma repercussão na rede social favorita dos professores. Parece que o dono das inclusões e das pró-inclusões não gostou que um professor sem pedigree académico ousasse criticar, ainda que indirectamente, as suas nomeações.

A prosa é breve mas elucidativa de algo de que muitos de nós nos fomos apercebendo: o discurso fofinho e inclusivo funciona enquanto dizemos ámen aos sábios da flexibilidade inclusiva. Quando se ousa duvidar, criticar, ensaiar pontos de vista divergentes, o verniz não demora a estalar. A arrogância balofa e o argumento da autoridade prevalecem: quem são esses professores “rasteiros” que ousam criticar as nossas escolhas, a nossa sapiência? Esses reles “práticos”, a laborar no erro e no saber de experiência feito? Não percebem que se não fôssemos nós, os académicos que desenvolvem a teoria, dominam o conceito, determinam a “ética”, ainda estariam a ensinar, não na escola do século XIX, mas mergulhados nas profundezas do ensino medieval?

O discurso é lamentável mas, infelizmente, nada surpreendente. Ressoa os dogmas e a intolerância que a entourage de João Costa e os seus acólitos tentam impor como boa nova educativa, para o século XXI e mais além. Com gente desta, o bate-boca é geralmente pouco profícuo. Ainda assim, importa resumir aqui, de forma clara, o meu pensamento, até porque não irei debater o assunto noutros sítios.

Antes de mais, não me revejo na falsa dicotomia entre o saber teórico, “conceptual”, “ético” dos doutores da faculdade e a “prática rasteira” dos professores no terreno. Se há académicos que, em pleno século XXI, ainda precisam de argumentar desta forma, então algumas academias andarão ainda bem piores do que eu pensava… 

Na verdade, é tão limitativo o saber experiencialista como o é a reflexão teórica desligada do trabalho prático. Sobretudo numa área como a pedagogia, que é, no essencial, uma praxis. O que seria de esperar, e que eu defendo, é uma ligação mais frutuosa entre os autoproclamados cientistas da educação e os professores que trabalham nas escolas. Que aqueles tenham a humildade de observar a realidade, de descer ao terreno e comprovar que nem sempre as elaborações teóricas convivem bem com o que é possível e desejável concretizar na prática. Que sejam capazes de valorizar a nossa experiência nas escolas, com alunos concretos e não as meras abstracções que povoam os diplomas legais, os papers e as comunicações aos congressos.

Quanto aos professores no terreno, assoberbados no trabalho diário com dezenas, às vezes centenas, de alunos diferentes, é importante reconhecer que necessitam de tempos, espaços e oportunidades para estudar, aprender e reflectir, regularmente, sobre a sua profissão. Os professores precisam de mais e melhor formação, diz-se frequentemente. Com a colaboração de universitários de diversas áreas, certamente. Mas essa necessidade não pode ser satisfeita remetendo-os ao papel de receptáculos passivos das formatações ministeriais que têm abundado nos últimos tempos. Como trabalhadores intelectuais, os professores devem ser construtores activos e críticos do seu próprio conhecimento profissional. Essa é a primeira e a mais importante dimensão de uma autonomia pedagógica de que muito se fala mas que pouco se valoriza.

O que se tem feito é praticamente o oposto: afogar a profissão em burocracia, ao mesmo tempo que se aumentam as cargas lectivas e não lectivas nos horários. Extenuar os professores pelo stress e o cansaço, o que é uma estratégia clara no sentido de domesticar a profissão, impedindo o desenvolvimento de uma cultura profissional autónoma e transformando os professores em meros reprodutores, obedientes e acríticos, de todas as modas educativas. Uma política que vem de longe e à qual a trupe da flexibilidade inclusiva deu, e continua a dar, um forte impulso.

É por isso que com eles, e enquanto a política for esta, não quero cá medalhinhas…

O prémio é só para quem se porta bem

medalhinhaO Luís Braga, do ComRegras, também não quis o prémio pró-inclusão que nos andaram a oferecer.

Não faz mal, pois consta que, assim como o deram, também o retiram a quem pedir para se desarriscar. Ao que parece, com uns remoques e uns insultos inclusivos à mistura…

Fica a resposta lapidar do Luís, que eu, para aqui às voltas com as tarefas de uma profissão, não sei se suficientemente inclusiva, mas por certo bastante trabalhosa, ainda não tive tempo para me debruçar sobre o assunto.

Vi-me assim rotulado e incluído no grupo dos que David Rodrigues acomoda nos hereges, que não vêem a luz com que ilumina o nosso caminho de rastejantes. E clandestinamente, mas animado pela distinção, lá comecei mais um dia de labuta na escola, a tentar desenvencilhar-me das rasteiras e loucas burocracias, que David Rodrigues e outros que tais me colocam no quotidiano, em nome da maiúscula IDEIA que sonoramente proclamam, mas visivelmente renegam na primeira curva mais apertada.

O museu que vai incomodar os salazaristas

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Acossada pela polémica, a Câmara Municipal de Santa Comba Dão recusou que tivesse a intenção de fazer um museu Salazar. O presidente da Junta de Freguesia de Óvoa e Vimieiro, Rui Oliveira, explicava ao DN que ali, na antiga escola-cantina Salazar, “nunca” existirá “um oratório de Salazar”. Agora, com o aval científico, sabe-se que quem for ao Centro de Interpretação do Estado Novo, a instalar naquela freguesia de Santa Comba Dão, à espera de uma perspetiva apologista do regime liderado por Salazar vai sentir-se, “mais do que desiludido, incomodado”.

A afirmação é de um dos coordenadores científicos do projeto, João Paulo Avelãs Nunes, que explicou: “Quem for ao Centro de Interpretação do Estado Novo numa perspetiva de apologia do Estado Novo, diria eu que vai sentir-se, mais do que desiludido, incomodado, porque, normalmente, pessoas que têm essa visão não gostam de um discurso historiográfico sobre o Estado Novo.” Ao DN, Avelãs Nunes reiterou: “Não será um mausoléu.”

Como tive oportunidade de escrever na altura, o clamor de críticas contra aquilo que precipitadamente se designou por “museu Salazar” foi completamente despropositado.

Numa época em que tanto se aponta aos jovens portugueses – e, por arrastamento, ao trabalho dos professores que os ensinam – a falta de pensamento crítico, desgostou-me ver a quantidade de intelectuais bem-pensantes que, sem sequer se informarem minimamente sobre o projecto existente, correram a assinar petições, abaixo-assinados e artigos de jornal contra um museu que não existe e nunca irá existir – a não ser nalgumas imaginações delirantes. Afinal de contas, manifestações de preconceito, sobranceria e, nalguns casos, completa ignorância, podem irromper de onde menos se espera…

Nunca foi intenção dos actuais autarcas de Santa Comba Dão nem dos especialistas envolvidos no projecto erigir um qualquer santuário para romagens saudosistas à campa ou aos despojos do ditador. Pelo contrário, a ideia de criar um centro interpretativo do Estado Novo, integrado numa rede de sítios da região centro também associados a este período, segue as modernas tendências museológicas e é uma forma perfeitamente adequada, não só de valorizar o património local e fomentar o turismo cultural mas também de dar a conhecer, com objectividade e rigor histórico, um dos períodos mais polémicos – e tantas vezes ainda mal compreendido – da nossa História.

Se tudo correr como previsto, o futuro centro interpretativo fará parte de uma rede de espaços museológicos inseridos em diversos locais relacionados com a memória da Primeira República e do Estado Novo, como, entre outros, a casa de Aristides de Sousa Mendes em Cabanas de Viriato, a de António José de Almeida em Vale da Vinha ou o Sanatório do Caramulo.

A extensa notícia do DN é bastante completa e esclarecedora. Deveria ser leitura obrigatória para todos aqueles que se têm recusado a, antes de criticar, procurar compreender a natureza do projecto. E a perceber que, por mais tenebrosos que sejam alguns aspectos da nossa História, nada ganhamos com a tentativa de os ignorar ou esquecer. Importante é conhecer e compreender o nosso passado, o que não se consegue com leituras simplistas da História. Quer sejam destinadas, conforme a vontade do freguês, a glorificar ou a diabolizar a ditadura salazarista.

Nalguma coisa teria de concordar…

…com o professor José Pacheco.cinco.gif

Não consigo estar de acordo com o fundamentalismo de muitas das suas ideias pedagógicas, nem me convenço que o experimentalismo permanente seja a forma de melhor garantir o direito universal à educação.

Contudo, se lamento que o guru da Escola da Ponte tenha precisado de 50 anos para chegar a esta brilhante conclusão, não posso deixar de saudar a capacidade de admitir que mudou de ideias – só os burros não o fazem, acrescentou – e de reconhecer como andou enganado – e a enganar-nos – este tempo todo.

José Pacheco já seguiu para outra, já rejeita que o centro seja o aluno, diz antes que centro é a relação entre professor e estudante, aquilo a que chama paradigma da comunicação.

De facto, nem ensino magistral, centrado no professor, nem ensino centrado no aluno, presumindo que este tem capacidade para aprender sozinho e definir por si só o que lhe interessa aprender. Fundamental é a relação pedagógica que se estabelece entre alunos e professores. É através dela que, de variadas formas, se podem desenvolver os métodos e processos mais adequados e eficazes de ensinar e aprender.

E claro que, quanto melhores forem os meios e condições proporcionados, melhores poderão ser tanto o trabalho dos professores como as aprendizagens dos alunos. Pela minha parte, dispenso os novos paradigmas do professor Pacheco. Bastar-me-iam escolas com os recursos materiais e humanos necessários e, em vez da ditadura dos projectos, uma efectiva autonomia pedagógica nas salas de aula e uma renovada confiança no trabalho dos professores.

Liberdade de escolha… do WC?

wc.jpg“Em pleno período de verão e sem sequer aguardar pela decisão do Tribunal Constitucional ao pedido de fiscalização, o Governo apressou-se a emitir um despacho que implementa e regulamenta a “Ideologia de Género” como doutrina oficial do ensino em Portugal”, escreve Francisco Rodrigues dos Santos. O despacho adota várias medidas, que para o líder da JP promove “disparidades identitárias”.

Entre as medidas está o direito de cada criança escolher o acesso às casas de banho e balneários escolares “de acordo com a opção com que se identifiquem”.

O despacho n.º 7247/2019 define um conjunto de medidas administrativas que visam a consagração legal do direito à identidade de género no sistema educativo.

Um pratinho irrecusável para a cruzada da direita contra o que chama a “ideologia de género” e para uma certa esquerda folclórica que, mostrando-se cada vez mais irrelevante na defesa dos direitos económicos e sociais, encontra nestas micro-causas a sua principal forma de afirmação. Em plena silly season, a comunicação social com falta de assunto agradece a polémica de Verão.

Ainda assim, é curioso ver a direita, que sempre defendeu a “liberdade de escolha”, preocupada com os marmanjos que poderão escolher livremente passar a frequentar as casas de banho ou os balneários femininos. Uma possibilidade que, aparentemente, nem está prevista na lei e só encontra respaldo nas mentes poluídas de alguns direitolas…

Pessoalmente, gostaria que a discussão se centrasse no que é realmente importante: sejam para meninos ou para meninas, unissexo ou de sexo indeterminado, as casas de banho escolares deveriam manter-se limpas e ter sempre sabonete e papel higiénico à disposição dos utilizadores. O que nem sempre sucede…

Quanto aos balneários, parece-me que qualquer rapaz ou rapariga que não se sinta à vontade para se despir ou tomar banho à frente de colegas deveria ter a possibilidade de o fazer com a necessária privacidade, sem necessidade de dar justificações acerca de si próprio, muito menos precisar de invocar uma qualquer “transição de género”.

Sentidas como essenciais pelas pessoas em causa, as questões da identidade de género não têm de ser expostas na praça pública nem de servir de pretexto, enquanto causas fracturantes, para disputas políticas entre esquerda e direita. Personalidade, privacidade e intimidade são direitos humanos fundamentais que têm apenas, e acima de tudo, de ser universalmente respeitados.

Museu Salazar?…

casa-salazarO cabeça de lista do PS no distrito de Viseu às legislativas de 6 de Outubro, João Azevedo, disse nesta terça-feira ao PÚBLICO estar contra um Museu Salazar mas a favor do centro interpretativo do Estado Novo. Uma iniciativa que o autarca socialista Leonel Gouveia, presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, pretende edificar na terra onde nasceu e está enterrado o ditador.

Conheci pessoalmente o actual presidente socialista da Câmara de Santa Comba Dão – é professor de profissão e foi meu colega num dos anos em que trabalhei em Santa Comba – e posso afiançar que Leonel Gouveia não é, seguramente, um simpatizante do fascismo…

Mas estará, como qualquer autarca competente do interior desfavorecido, atento a tudo o que possa representar uma oportunidade de dar notoriedade à sua terra, criar emprego, atrair investidores e turistas. Localmente, a ideia de musealizar a casa onde nasceu o ditador já é antiga. E a verdade é que, a nível nacional, Santa Comba Dão – ou mais propriamente a aldeia do Vimieiro, nos arredores da cidade – é conhecida sobretudo por ser a terra natal de António de Oliveira Salazar.

Percebo os riscos de criar, em torno das ruínas da casa familiar e dos parcos despojos do ditador, um museu que possa de alguma forma tornar-se um santuário para os saudosistas do Estado Novo e da figura mítica do “Salvador da Pátria”. Para tanto, já bastam as romarias que ocasionalmente se fazem à campa de Salazar no cemitério local. A tentativa de branquear a ditadura e glorificar a figura do ditador será sempre inaceitável para qualquer verdadeiro democrata, ainda para mais sendo patrocinada, mesmo que involuntariamente, por entidades públicas.

Contudo, a ideia não parece ser, pelo menos para já, intervir na antiga casa de Salazar. O que a Câmara pretende é criar um centro de interpretação do Estado Novo, aproveitando o edifício de uma típica escola primária dessa época. E, esta sim, é uma ideia que pode fazer todo o sentido. Tudo depende dos fins em vista, da qualidade do projecto, da competência e idoneidade dos responsáveis da iniciativa, dos recursos que vierem a ser disponibilizados. À partida, não me choca que se tente recriar no Vimieiro um pouco do ambiente rural beirão da primeira metade do século XX, o que poderá ajudar os visitantes a compreender a formação do Estado Novo e as origens de Salazar – não tão modestas como habitualmente se pensa: o contexto familiar, o percurso académico, a formação religiosa, social e política. É possível fazê-lo, quero crer, de forma séria, isenta e rigorosa.

Fazê-lo sem branquear de forma alguma a natureza repressiva, a inspiração fascista ou o espírito totalitário e obscurantista que esteve na génese do Estado Novo e que desde sempre motivou o seu principal mentor. Mas procurando ao mesmo tempo perceber o homem, a sua mentalidade e a sua actuação política no contexto da sua época e do meio em que foi criado. Na verdade, compreender os erros do passado continua a ser a melhor forma de impedir que voltemos a cometê-los.