A estátua vandalizada

pavA estátua do Padre António Vieira, situada no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, foi, esta quinta-feira, vandalizada. As reações ao sucedido ‘inundaram’ as redes sociais, com algumas vozes do quadrante político a mostrarem o seu desagrado com o ocorrido. 

O marco, que foi parcialmente pintado de vermelho e onde foi escrita a palavra “descolonização“, já foi limpa pela Câmara Municipal de Lisboa.

A onda de vandalização e destruição de monumentos evocativos de personalidades conotadas com o colonialismo, a escravatura e o racismo parece ter chegado a Portugal. Mas de uma forma pífia, a oscilar entre a irracionalidade e o ridículo. A sério que, com tantos reis e ministros, governadores coloniais e comandantes militares, negreiros e fazendeiros, todos eles directa ou indirectamente responsáveis por acções que atentaram contra a liberdade e a vida de muitos milhares de nativos africanos, asiáticos e americanos, tinham mesmo que embirrar com o Padre António Vieira, figura cimeira da cultura portuguesa do século XVII?

A embirração já é antiga e recorrente. Escrevi sobre o assunto em 2017 e num ponto até estou disposto a dar razão aos contestatários da escultura que pretende homenagear o escritor, político, missionário e pregador jesuíta: a estátua é horrenda. Não me parece que esteja à altura do homenageado nem que reflita uma mentalidade ou uma sensibilidade estética adequadas aos tempos que vivemos: o aspecto severo e quase inquisitorial de um homem que foi ele próprio uma vítima da Inquisição; o tom paternalista das crianças índias rodeando o bom pastor, evocação pouco subtil do indígena, idealizado como tendo a idade mental de uma criança, à espera de ser evangelizado e “civilizado” pelo homem branco.

Ainda assim, temos milhares de estátuas espalhadas em espaços públicos por esse país fora. A escultura tem-se vulgarizado enquanto arte urbana e ainda bem que Portugal vai acompanhando uma tendência que se afirma à escala global. Vamos agora começar a vandalizar aquelas de que não gostamos?

Sobretudo: se o que contestamos é o passado esclavagista e colonial do país, será o Padre António Vieira, defensor dos direitos dos índios, neto de uma negra, que sofreu dissabores por enfrentar as pretensões dos fazendeiros esclavagistas do Brasil, que devemos tomar como alvo? Um homem que reconhecemos hoje como um dos maiores prosadores da nossa língua, um dos fundadores do Português moderno, que necessidade temos de o associar a uma realidade que ele viveu tal como qualquer outro homem do seu tempo?

Embora tivesse criticado, em cartas ao próprio rei, os excessos do esclavagismo, não foi um abolicionista, lutando contra o fim da escravatura: correcto. Mas conhece-se alguma personalidade do século XVII português que o tenha feito? Por esta lógica de julgar os nossos antepassados de outras eras à luz das mentalidades e valores contemporâneos, não haverá ninguém digno de ser recordado para a posteridade.

Volto à minha perplexidade inicial: não faz sentido esta sanha persecutória contra o Padre António Vieira. Que talvez tenha, afinal de contas, a mais prosaica das explicações: é o alvo que está ali mais à mão. Pois a escultura que o evoca está num local central, quase ao nível da rua, sem um pedestal gigante que a torne inacessível aos passantes. Uns sprays de tinta, umas esborratadelas, e está feito.

Mas não convence. Pela minha parte, se fosse adepto desta modalidade de revisionismo histórico que manda conspurcar ou destruir reais ou imaginários símbolos do colonialismo e da opressão das “raças inferiores”, teria poucas dúvidas acerca do monumento que, na capital do antigo império, melhor a corporiza.

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Convém é levarem umas escadas…

A “revolução cultural” nas aulas de HGP

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O tweet já tem alguns dias e, não tendo ponta por onde se lhe pegue, abstive-me de o comentar. Mas gerou, no Twitter, uma polémica inesperada. Que em grande medida seria evitada se alguns opinadores se dessem ao trabalho de espreitar o programa, constatando como é absurda a acusação de manipulação ideológica.

Claro que Rui Tavares não é professor da “tele-escola”. Apareceu ocasionalmente porque um trecho de uma série documental da sua autoria, disponível no espólio da RTP, foi seleccionado para ilustrar um ponto concreto da matéria que estava a ser leccionada. O recurso a conteúdos multimédia tem sido regra nas aulas do #EstudoEmCasa, na linha do que é habitual fazer-se, hoje em dia, nas aulas presenciais.

Que dizer então de um eurodeputado que se indigna, provavelmente por não ter inteligência para mais, ao ver um historiador a ensinar… História? As opções políticas de um professor ou de um académico impedem-no de ser um profissional isento e competente na sua área? Talvez a melhor e mais convincente resposta ao cabotinismo do diletante Melo tenha sido dada por David Justino, depois de o próprio Rui Tavares sentir a necessidade de colocar os pontos nos is. Tudo isto no Twitter, uma rede social que tantos internautas continuam a subvalorizar…

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A pequena polémica parece ilustrar bem a imparável caminhada do CDS em direcção à irrelevância política, com um Nuno Melo displicente e trauliteiro a tentar em vão marcar pontos no terreno movediço de André Ventura e do populismo de direita. Mas sem jeito, talento ou sentido de oportunidade para a coisa.

Com a mesma falta de noção, o grupo parlamentar do CDS decidiu cavalgar politicamente o não-assunto, interpelando o governo sobre a alegada doutrinação ideológica e obrigando o ME a dar-lhe a resposta apropriada. É o que se chama ir buscar lã e vir tosquiado…

O Governo já reagiu à polémica em torno de Rui Tavares e do projeto #EstudoEmCasa” (vulgo telescola). Numa nota enviada ao Expresso e ao “Polígrafo SIC”, o Ministério da Educação garante que o dirigente do Livre “não é professor do projeto #EstudoEmCasa” e que o recurso aos conteúdos da RTP é prática corrente neste e nos outros anos letivos.

Na nota enviada às redações, o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues esclarece que o que aconteceu “foi a utilização de um recurso pedagógico por parte das duas professoras de História e Geografia de Portugal do 5.º e 6.º anos” e que, “como em qualquer aula, planificada pelos professores e validada pela Direção-Geral da Educação, os docentes utilizam os recursos pedagógicos que entendem adequar-se às matérias em questão”.

“No caso, trata-se do excerto de 5 minutos de um programa de História, exibido na RTP2 em 2018, e disponível na plataforma RTP Ensina, à qual os docentes recorrem com regularidade para utilizarem nas suas aulas (presenciais ou não presenciais)”, completa a mesma fonte oficial.

Quase a começar…

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A tarefa, destinada a alunos do 7.º ano, está a dividir opiniões no grupo de professores em que foi publicada.

Para alguns, um exemplo de dedicação à causa do ensino, de sentido de responsabilidade, de profissionalismo de um docente que, mesmo com o estado de emergência decretado no país, não hesita em submeter os seus alunos a um teste de avaliação de conhecimentos que terão de realizar em casa, em frente do computador, entre as 11 e as 12 horas de hoje.

Para outros, um claro exagero. As duas últimas semanas do período podem e devem servir para os alunos fazerem algum trabalho em casa, consolidando e enriquecendo aprendizagens, mas não com o peso de um teste de avaliação, feito em condições que o professor não controla minimamente. Pois uns alunos terão o computador de casa à disposição, bem como a internet e os materiais de estudo, já para não falar da ajuda de pais ou irmãos. Enquanto outros terão de se desenrascar sozinhos e alguns não terão sequer acesso a um computador em casa. O que se espera obter de testes realizados nestas condições? Confirmar que os alunos mais interessados e apoiados continuam a ter bons resultados escolares, mesmo no novo ambiente do ensino online? Que os mais desmotivados ou com maiores dificuldades serão os primeiros a falhar no cumprimento das exigências escolares?

Uma coisa pelo menos me parece evidente, numa discussão que continuará na ordem do dia pelos tempos mais próximos: tarefas deste tipo, claramente desajustadas da realidade social e educativa que vivemos actualmente, servem acima de tudo para validar o trabalho do professor, que demonstra desta forma que permanece no seu posto, assumindo por inteiro as suas responsabilidades e obrigações. Poderia o mundo desabar que ele continuaria, impávido e sereno, a exigir a entrega do teste aos seus alunos, impreterivelmente até ao meio dia em ponto. Pouco ou nada nos dizem, em boa verdade, acerca da real progressão dos alunos nas suas aprendizagens.

Ainda o bullying no jardim de infância

teen-lutandoSurpreenderam-me alguns comentários, no Facebook, a um post recente sobre bullying entre crianças de três anos que por lá partilhei.

Até posso aceitar que me digam que não percebo nada de psicologia do desenvolvimento infantil. Não serei ignorante na matéria, mas também não pretendo contrariar o saber dos especialistas. A minha posição, bem menos ambiciosa, é tentar colocar-me no lugar da vítima e perceber, a partir daí, o sofrimento intolerável que um colega, por sinal da mesma idade, lhe consegue causar. E como a escola falha miseravelmente se não consegue pôr cobro a esta situação.

Também há quem entenda que é excessivo falar aqui em bullying, usando aparentemente um critério etário para definir quando é que a agressão continuada, física e/ou psicológica, a uma criança, feita por um ou mais dos seus pares, assim se pode designar. Pela minha parte, chamem-lhe o que quiserem. Mas a partir do momento em que isolam a vítima do grupo, como se fosse ela a culpada do que se passou, estão a lidar da pior forma com o problema. Que é real e é grave, independentemente da designação que lhe queiram dar.

De resto, não presumo que o miúdo agressor seja um potencial “psicopata”. Nem penso que o caso deva ser tratado como o do adolescente que leva uma faca para a escola ou do pai que entra pela escola dentro com vontade de levar tudo à frente. Creio que é uma criança que precisa de ser ajudada a controlar os seus impulsos agressivos e a perceber que não pode maltratar os colegas. Os meus escassos conhecimentos de psicologia infantil permitem-me ainda assim perceber que este tipo de comportamentos agressivos são quase sempre o reflexo de uma educação ou um ambiente familiar desajustados. Muito mais raramente serão indício de perturbação mental da criança – o que no entanto também pode suceder. Mas, se a família falha, outras entidades com responsabilidades na educação infantil, neste caso a escola, não se podem demitir de cumprir o seu papel.

Nem de propósito, uma crónica recente no Observador aborda o problema do bullying entre crianças mais novas. E conclui o mesmo que, por aqui, me esforcei por fazer ver: que desculpar ou desvalorizar as agressões, sob o pretexto de que “são crianças” é a pior coisa que podemos fazer, tanto às vítimas como aos próprios agressores. Luís Guedes tem apenas 19 anos e não é profissional de educação. Mas, é com pesar que o reconheço, está a ver melhor o problema do que alguns dos meus prezados colegas…

“O melhor do mundo são as crianças”, costumam dizer. Não, não são. O melhor do mundo são as pessoas que fazem dele um lugar mais bonito. Independentemente da idade. Nem todos os miúdos são maus, mas mentalizemo-nos que nem todos são bons.

Tenho 19 anos. Não sou pai, nem tão cedo pretendo ser, mas enquanto leigo em matérias de educação, sempre me fez confusão a desculpabilização excessiva que se concede aos mais novos.

Ninguém nasce ensinado, é um facto. Por isso mesmo acho que deve haver uma grande tolerância para com as crianças… mas que se distinga devidamente tolerância de impunidade. Não sei se será de mim, mas por vezes fico com a ideia que ter menos dentes definitivos que o comum dos mortais, se traduz em carta branca para tudo e mais alguma coisa.

Podem bater uns nos outros e escarnecer das debilidades dos colegas, mas calma, são só crianças. Podem ser altamente incorretos com professores, mas calma, são só crianças. Podem induzir num colega de turma a vontade de praticar o suicídio, mas calma, são só crianças.

De facto são “só crianças”. O que muitas vezes nos esquecemos é que estas um dia vão deixar de o ser, e passarão a ser adultas. Começo a achar que o problema está no “só”. Usamos o “só” como se fosse pouco. Crianças podem não ser necessariamente o melhor do mundo, mas, pelo menos, são o futuro.

Quem me dera que todas elas pudessem ser aquilo que são… crianças. Sem medos, sem complexos, sem exceção.

Chega de racismo!

marega.JPGNão acompanho os assuntos da bola, muito menos escrevo habitualmente sobre o que se vai passando no mundo do futebol.

Mas o que ontem se passou no estádio de Guimarães, com parte dos adeptos do clube local a dirigir insultos racistas a um jogador africano do Futebol Clube do Porto, não pode deixar ninguém indiferente.

O racismo é um crime de ódio, previsto e punido pela lei portuguesa. Que este tipo de comportamentos se tenham normalizado no futebol, como noutros sectores da sociedade, não serve de pretexto para desvalorizar ou desculpar quem os pratica.

No meu caso, depois de ter visto as imagens, nem sei o que mais me escandaliza: se os insultos da claque adversária, se o comportamento dos próprios colegas de equipa de Moussa Marega, agarrando-o e pressionando-o para o tentar impedir de concretizar a saída de campo. Quando o que deveriam ter feito era saírem todos juntos, dando assim uma lição de dignidade ao árbitro complacente com as manifestações racistas e aos “macacos” que se agitavam nas bancadas.

Sozinho em campo, isolado na sua atitude corajosa, Marega denunciou a um país inteiro uma realidade que muitos gostam de negar: o racismo estrutural e não assumido que persiste entre nós, que se exprime envergonhadamente na maior parte das vezes, mas que em momentos especiais, como os do arrebatamento desportivo, facilmente vem ao de cima.

E envergonhou-nos perante o mundo, algo que também merecemos, pois como país andamos há demasiados anos a ser complacentes com os abusos, os desmandos e os crimes que se vão praticando à sombra do futebol profissional e das paixões irracionais que este suscita.

Num país que tanto gosta de perder tempo com as questões e os casos do futebol, a atitude corajosa e digna de Marega deu aos adeptos da bola a oportunidade para discutirem finalmente um assunto sério, em vez das habituais tricas em torno das arbitragens e das contratações que animam as tertúlias futebolísticas dos cafés e dos debates televisivos. Oxalá a saibam aproveitar.

Os cargos devem ser para quem está no topo da carreira?

carreiraAcho que os docentes, com menos de 50 anos, estagnados entre 3o e 5o escalão, ou antes, deviam lançar um protesto nacional, demitindo-se de todos os cargos nas escolas e obrigando quem tem redução letiva a exercê-los. E deviam lançar uma greve nacional, sem prazo, à função de diretor de turma, a mais burocratizada de todas. Ocorreu-me isto ao ter ido rever o quadro salarial BRUTO da carreira docente. O líquido para um solteiro sem filhos é uns 33% menos em cada escalão (o liquido é uns 2/3 do bruto). Eu estou no 3o escalão, devia estar no 7o. Ao 10o, que o Mario Nogueira inventou, maquiavelicamente, para aceitar, contra o interesse geral da geração posterior à sua, vagas e outros travões, nunca chegarei. […]

Aos docentes que estejam nos escalões mais altos, e digam que não trabalham “porque já trabalharam muito“ (não digam que nunca ouviram), só digo… o trabalho passado foi pago no passado; hoje, recebem mais, para trabalhar melhor e acrescentar mais valor. Coisa que vejo pouco. E como o dinheiro que eu deixei de receber vem do mesmo orçamento, que lhes paga para dizerem que não trabalham ou para fugirem aos cargos, espero que a desvalorização em 600 euros mensais do meu trabalho (uns 120 mil euros no total futuro, para o resto da minha carreira), signifique mais valor acrescentado por quem os recebe no meu lugar e chegou ao topo dela. 

O Luís Braga optou por um discurso contundente para agitar, à sua maneira, alguma paz podre instalada entre a classe docente. Perante o repto – ou a provocação, dirão alguns – a minha posição é clara: é evidente que os cargos, à excepção do de director de turma, que ainda vai tendo redução de horas lectivas para o seu exercício, devem ser atribuídos aos professores mais antigos. Não tanto pela questão da experiência, que essa só se adquire praticando, e quanto mais cedo melhor, mas por uma razão bem mais prosaica e incontornável: só os docentes com 50 ou mais anos têm, regra geral, horas suficientes na componente não lectiva para acomodar o tempo necessário ao exercício dos diversos cargos de coordenação existentes nas escolas.

Sendo este ponto relativamente pacífico, passemos então à questão de fundo que, a meu ver, motivou o post que, neste fim de semana, agita os grupos de professores no Facebook: o acentuado desnível salarial existente na classe docente, e que o prolongado congelamento da carreira agravou. Na verdade, há dez ou vinte anos atrás, era aceitável pela generalidade dos professores verem os colegas mais velhos ganharem mais e, por via das reduções da componente lectiva, darem menos aulas. Porque todos pensavam: lá chegarei…

Mas hoje vamo-nos apercebendo de uma realidade diferente. Quem, com o congelamento, estacionou no 8.º ou no 9.º escalão, está hoje no topo da carreira ou prestes a alcançá-lo. Já os que ficaram parados cá mais para trás, sobretudo os que ainda têm à sua frente as barreiras à progressão ao 5.º ou ao 7.º escalão, percebem que será difícil, nalguns casos matematicamente impossível, chegarem ao topo da carreira antes da idade de aposentação. O que torna esta situação ainda mais revoltante é que em muitos casos não há diferenças etárias significativas entre os professores no topo e aqueles que ainda marcam passo nos escalões intermédios.

No entanto, se a frustração e a revolta do Luís Braga e de outros colegas é compreensível e aceitável, já não me parece razoável que decida tomar como alvos os colegas posicionados nos escalões superiores da carreira. Como se estes tivessem culpa de serem mais velhos ou terem começado a trabalhar mais cedo. Como se os professores tivessem algo a ganhar com o divisionismo ou a desunião. Como se não tivessem estado sempre lado a lado, em todas as lutas de professores, colegas de diferentes idades, formações e níveis de ensino. Nem sempre a lutar por objectivos que os beneficiassem directamente, mas convictos de que tudo o que se alcançasse a favor da classe acabaria por reverter, de uma forma ou de outra, em benefício colectivo.

Ainda assim, e independentemente de razões altruístas que julgo moverem ainda, nestes tempos de feroz individualismo, muitos professores, há uma razão de fundo pela qual nunca me verão a reivindicar o fim de supostos “privilégios” dos colegas que estão à minha frente na carreira: é que tenho perfeita noção de que o que eventualmente lhes for retirado a eles nunca me será dado a mim.

Sabemos que há uma clara intenção deste governo no sentido de rever a actual carreira docente, motivada sobretudo pela necessidade de restringir ainda mais o acesso aos últimos escalões. Claro que o engodo será a promessa de revalorização dos escalões iniciais e intermédios, numa perspectiva de maior nivelamento e tratamento equitativo dos professores. Na prática, trata-se de nivelar por baixo, restringindo o número e as subidas de escalão, reduzindo globalmente a massa salarial e impedindo os professores “comuns” de chegar ao topo.

Neste contexto, uma campanha dos “novos” contra os “velhos”, que alegadamente ganham muito e trabalham pouco, é o que menos nos interessa. Na verdade, ela serve às mil maravilhas a estratégia governamental destinada a criar condições políticas para uma nova ofensiva contra os professores, visando aplanar a carreira docente e proletarizar a classe.

Também quero uma escola de qualidade… para todos!

privadopublicoJá percebemos que os maiores defensores da Escola Pública, os partidos de esquerda, são aqueles que menos querem investir nela, são os que mais a degradam com legislação desajustada, com ideologias forçadas, com DL 54 utópicos…

Perante estes factos desejo para todos a liberdade escolha das escolas! Se é verdade que há escolas públicas bem equipadas, bem fornecidas com ótimas condições, também é verdade que as há completamente desajustadas à realidade atual, sem as mínimas condições e onde a tecnologia só se encontra no dicionário.

Já percebi que o investimento vai continuar a ser pequenino, já vimos que a exigência tende a baixar, todos passam, todos são incluídos, independentemente das condições ou de terem de ficar em casa por falta de meios e recursos, e que por isso quem puder foge para os privados!

Como não considero justo que só os que podem fujam, considero que qualquer contribuinte com filhos em idade escolar deveria poder escolher a escola para estes. Para isso, o dinheiro que o estado poupa, com a sua não permanência no ensino estatal, seria convertido num cheque ensino atribuído a estas famílias para investirem na educação do filho.

Concordando com Alberto Veronesi em muitas coisas, com esta sua defesa, nas páginas do Observador, da “liberdade de escolha”, estou claramente em desacordo.

Não me custa admitir que algumas escolas com contrato de associação prestavam um bom serviço educativo – e muitas ainda o fazem, porque os contratos foram reduzidos onde eram redundantes, mas não terminaram. Contudo, questões ideológicas à parte, o que a realidade nos mostra é que o princípio neoliberal da liberdade de escolha não nos conduz a uma melhor Educação. Não só não vigora, regra geral, nos países em que os alunos alcançam em média melhores resultados escolares, como a sua adopção tende a degradar globalmente o desempenho dos sistemas educativos.

Vamos a ver: se há escolas públicas com más condições a solução é melhorá-las, investindo em mais e melhores recursos materiais e humanos. E se o poder político se mostra avesso a fazer aquilo que considera uma “despesa” inútil e incomportável, é dever dos professores, dos pais, dos cidadãos em geral, mobilizarem-se em defesa da escola pública. Convidar cada um a pensar apenas nos seus interesses ou nos da sua família mais próxima é apontar para um caminho que nos leva a uma sociedade ainda mais injusta e desigual.

Na verdade, desviar os já escassos recursos públicos para o financiamento de escolas privadas irá degradar ainda mais a escola pública, condenando a um ensino de segunda ou terceira categoria os que não podem escolher. Os que, no modelo competitivo que se defende e apregoa, nunca terão escolha nem serão escolhidos: os alunos dos concelhos do interior desertificado, aqueles cujas famílias não valorizam a escola, os que têm problemas ou necessidades especiais cuja satisfação não é rentável na perspectiva lucrativa da maioria das escolas privadas.

Por outro lado, é ilusório pensar que a poupança decorrente da transferência de um aluno do público para o privado se traduz de imediato num valor quantificável e traduzível num cheque-ensino. Existe uma rede pública que cobre praticamente todo o país e que tem uma capacidade instalada em função do número de alunos existente. Reduzir para metade o número de alunos de uma escola não implica que a despesa baixe na mesma proporção, pois grande parte dela são custos fixos de funcionamento. Colocar o Estado no papel de financiador principal de duas redes de escolas, uma pública e outra privada, em concorrência aberta entre si, iria no imediato duplicar despesa e não apenas transferi-la de um lado para o outro.

Também é errado, na minha opinião, pensar a Educação como um exercício de escolha entre uma escola pública sem regras, entregue à bandalheira da indisciplina, ao experimentalismo irresponsável da flexibilidade curricular e a uma falsa inclusão, e os colégios privados onde pontificariam a ordem, o sentido de responsabilidade e o ensino rigoroso e exigente. O direito universal à Educação é algo demasiado sério e determinante para as nossas crianças e jovens para poder ser reduzido a uma escolha entre escolas boas e más. Pela simples razão de que todos têm direito a uma boa escola, incluindo aqueles que a não podem ou sabem escolher.

O professor do ano justifica-se

rui-correiaO professor do ano disse no Prós e Contras da RTP que nunca mandou nenhum aluno para a rua, em trinta anos de aulas. Ora, esse professor sou eu. E esse professor, quer se queira, quer não se queira, nunca mandou nenhum aluno para a rua. O alvoroço provocado em algumas pessoas, e a que esta revista deu espaço, por ter tido o topete de confessar publicamente um dado que para mim é “concreto e definido, como outra coisa qualquer” da minha vida profissional, gerou em mim uma atenção que não esperava. 

Rui Correia, citado na prosa de Carmo Machado que ontem comentei, acusa o toque. E responde na mesma revista à censura colectiva que sente erguer-se à sua volta e que é visível, por exemplo, nos grupos de professores que, nas redes sociais, comentaram a sua prestação no programa televisivo sobre violência escolar.

Claro que, se Rui Correia nunca mandou um aluno “para a rua”, não precisa de dizer que já o fez para deixar os colegas satisfeitos. Apesar do tom algo pretensioso e rebuscado da argumentação, percebe-se a ideia principal: não quis alinhar no coro de vitimização e de lamúrias em relação à classe docente, acha que são os sucessos dos professores, bem mais numerosos do que os fracassos, que se devem evidenciar e que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, uma intervenção positiva é sempre possível e desejável.

Contudo, não foi esta a leitura que muitos, diria mesmo a maioria dos espectadores do programa, fizeram. O “professor do ano” mostrou pouca solidariedade, compreensão e empatia com os seus colegas que, trabalhando em contextos sócio-educativos mais desfavoráveis do que o seu, se arriscam diariamente a “levar no focinho”. Preferiu centrar-se nos seus sucessos, no seu “eu” notoriamente insuflado, o que é naturalmente uma opção legítima. Tal como o são as críticas que outros professores fizeram à sua prestação televisiva, algo a que está sempre sujeito quem se expõe publicamente.

Pela minha parte, não desejo entrar numa polémica sem grande substância. Aproveito antes para recordar uma realidade que se esconde por detrás destes prémios que algumas multinacionais com interesses na educação distribuem por professores escolhidos a dedo: quem se encontrava no palco daquele Prós e Prós, não era o professor da Escola de Santo Onofre, mas sim o Embaixador da Fundação Varkey. Cumprindo uma das obrigações do professor do ano, que é a de actuar como agente de propaganda da fundação que atribui o prémio e das suas concepções educativas. Quem duvidar pode confirmá-lo consultando o regulamento do concurso, onde se diz claramente que um dos deveres do vencedor é:

(ii) desempenhar o papel de Embaixador do “Global Teacher Prize Portugal” (o “Prémio”).  

O Embaixador do Prémio deve participar em conferências e outros eventos, programas promovidos pelos meios de comunicação social e promover a realização de ações de formação e outras atividades. Os custos com as deslocações no exercício da tal função serão da inteira responsabilidade da entidade promotora do Prémio. 

Pois é, os 30 mil euros trazem consigo um preço a pagar. Desenganem-se aqueles que acham que um “professor do ano”, nomeado por organizações que têm a sua própria agenda educativa, irá alguma vez defender e representar a classe docente. A ideia é exactamente a oposta: trata-se de promover uma imagem de professor destinada a funcionar como modelo para os outros profissionais da educação. Não se pretende exibir o professor típico dos nossos tempos, mas sim o super-professor em que querem que nos transformemos. Quem participa nestes concursos começa por aceitar a proibição de fazer ou dizer tudo o que possa desagradar às autoridades educativas e aos promotores privados da iniciativa.

De facto, os sucessivos professores do ano que já tivemos projectaram sempre uma imagem idealizada da profissão, na qual elementos perturbadores como alunos violentos, professores agredidos, bullying ou aulas dominadas pela indisciplina simplesmente não podem existir. O professor do ano ama a sua profissão e concretiza a magia ensinar todos os alunos, mesmo os que não querem aprender. Não reclama, não reivindica, nem faz greves – ou pelo menos não pode falar disso publicamente.

A lógica do professor do ano é empobrecedora e limitativa. Reproduz as concepções neoliberais de uma sociedade atomizada, onde cada professor trabalha isoladamente, competindo com todos os outros para ser o melhor. Alimenta o mito do professor que, sozinho, inspira sonhos, transforma realidades, muda a vida e o destino dos alunos que passam por ele. Concretiza a mudança na escola, para que a ordem económica e social que gera a desigualdade e a injustiça não tenha de mudar.

Pela minha parte, prefiro lutar por uma sociedade mais justa e por um modelo escolar democrático e colaborativo, em que todos os professores cooperem na construção de uma escola melhor. E defendo uma profissão docente dignificada e valorizada, na qual todos possam ser bons professores, ano após ano.

Um professor “rasteiro” se confessa

praying-silhouettes-7884141.jpgQuando vi, por mero acaso, a lista dos medalhados num recente congresso “pró-inclusão”, chamou-me a atenção o facto de eu também lá constar, integrado num colectivo designado por “professores portugueses”. À partida nada teria a opor, embora pessoalmente prefira outro tipo de homenagens: aquelas que realmente dignificam e valorizam os profissionais da educação. O que passa por confiar no trabalho que realizam, respeitar a sua autonomia profissional e melhorar as condições em que trabalham quotidianamente.

O que na verdade me incomodou foram as más companhias: nesta altura do campeonato, qual é o professor que se preze que aceita ser homenageado ao lado de pessoas como Ariana Cosme ou João Costa? Poderá haver quem ache que os mentores da flexibilidade e da inclusão ficarão para a história da Educação portuguesa. Lamento, não sou dessa opinião. Espero que não fiquem e creio que, se isso suceder, será essencialmente por más razões. Razões essas que tenho, ao longo de dezenas de posts, explanado por aqui.

Volto ao assunto porque constatei que o post original teve alguma repercussão na rede social favorita dos professores. Parece que o dono das inclusões e das pró-inclusões não gostou que um professor sem pedigree académico ousasse criticar, ainda que indirectamente, as suas nomeações.

A prosa é breve mas elucidativa de algo de que muitos de nós nos fomos apercebendo: o discurso fofinho e inclusivo funciona enquanto dizemos ámen aos sábios da flexibilidade inclusiva. Quando se ousa duvidar, criticar, ensaiar pontos de vista divergentes, o verniz não demora a estalar. A arrogância balofa e o argumento da autoridade prevalecem: quem são esses professores “rasteiros” que ousam criticar as nossas escolhas, a nossa sapiência? Esses reles “práticos”, a laborar no erro e no saber de experiência feito? Não percebem que se não fôssemos nós, os académicos que desenvolvem a teoria, dominam o conceito, determinam a “ética”, ainda estariam a ensinar, não na escola do século XIX, mas mergulhados nas profundezas do ensino medieval?

O discurso é lamentável mas, infelizmente, nada surpreendente. Ressoa os dogmas e a intolerância que a entourage de João Costa e os seus acólitos tentam impor como boa nova educativa, para o século XXI e mais além. Com gente desta, o bate-boca é geralmente pouco profícuo. Ainda assim, importa resumir aqui, de forma clara, o meu pensamento, até porque não irei debater o assunto noutros sítios.

Antes de mais, não me revejo na falsa dicotomia entre o saber teórico, “conceptual”, “ético” dos doutores da faculdade e a “prática rasteira” dos professores no terreno. Se há académicos que, em pleno século XXI, ainda precisam de argumentar desta forma, então algumas academias andarão ainda bem piores do que eu pensava… 

Na verdade, é tão limitativo o saber experiencialista como o é a reflexão teórica desligada do trabalho prático. Sobretudo numa área como a pedagogia, que é, no essencial, uma praxis. O que seria de esperar, e que eu defendo, é uma ligação mais frutuosa entre os autoproclamados cientistas da educação e os professores que trabalham nas escolas. Que aqueles tenham a humildade de observar a realidade, de descer ao terreno e comprovar que nem sempre as elaborações teóricas convivem bem com o que é possível e desejável concretizar na prática. Que sejam capazes de valorizar a nossa experiência nas escolas, com alunos concretos e não as meras abstracções que povoam os diplomas legais, os papers e as comunicações aos congressos.

Quanto aos professores no terreno, assoberbados no trabalho diário com dezenas, às vezes centenas, de alunos diferentes, é importante reconhecer que necessitam de tempos, espaços e oportunidades para estudar, aprender e reflectir, regularmente, sobre a sua profissão. Os professores precisam de mais e melhor formação, diz-se frequentemente. Com a colaboração de universitários de diversas áreas, certamente. Mas essa necessidade não pode ser satisfeita remetendo-os ao papel de receptáculos passivos das formatações ministeriais que têm abundado nos últimos tempos. Como trabalhadores intelectuais, os professores devem ser construtores activos e críticos do seu próprio conhecimento profissional. Essa é a primeira e a mais importante dimensão de uma autonomia pedagógica de que muito se fala mas que pouco se valoriza.

O que se tem feito é praticamente o oposto: afogar a profissão em burocracia, ao mesmo tempo que se aumentam as cargas lectivas e não lectivas nos horários. Extenuar os professores pelo stress e o cansaço, o que é uma estratégia clara no sentido de domesticar a profissão, impedindo o desenvolvimento de uma cultura profissional autónoma e transformando os professores em meros reprodutores, obedientes e acríticos, de todas as modas educativas. Uma política que vem de longe e à qual a trupe da flexibilidade inclusiva deu, e continua a dar, um forte impulso.

É por isso que com eles, e enquanto a política for esta, não quero cá medalhinhas…

O prémio é só para quem se porta bem

medalhinhaO Luís Braga, do ComRegras, também não quis o prémio pró-inclusão que nos andaram a oferecer.

Não faz mal, pois consta que, assim como o deram, também o retiram a quem pedir para se desarriscar. Ao que parece, com uns remoques e uns insultos inclusivos à mistura…

Fica a resposta lapidar do Luís, que eu, para aqui às voltas com as tarefas de uma profissão, não sei se suficientemente inclusiva, mas por certo bastante trabalhosa, ainda não tive tempo para me debruçar sobre o assunto.

Vi-me assim rotulado e incluído no grupo dos que David Rodrigues acomoda nos hereges, que não vêem a luz com que ilumina o nosso caminho de rastejantes. E clandestinamente, mas animado pela distinção, lá comecei mais um dia de labuta na escola, a tentar desenvencilhar-me das rasteiras e loucas burocracias, que David Rodrigues e outros que tais me colocam no quotidiano, em nome da maiúscula IDEIA que sonoramente proclamam, mas visivelmente renegam na primeira curva mais apertada.