Da falta de noção

a-rolo-duarteDiscutiu-se, no último Prós e Prós, a herança da Revolução de Abril. Frente a frente, estiveram os revolucionários já idosos e representantes da nova geração. E se a liberdade, que deu o mote à discussão, é hoje um valor consensual, o mesmo não se pode dizer da forma como ela foi sentida pelas gerações que viveram a revolução – uma conquista colectiva – e como é vivida pelos mais novos, que a olham como um dado adquirido e, acima de tudo, como um meio para a concretização do seu sucesso individual.

A determinada altura, o debate focou-se na Educação. E um dos jovens participantes, António Rolo Duarte, puxando dos seus pergaminhos de estudante da Universidade de Cambridge, criticou a fraca qualidade das universidades portuguesas. As afirmações polémicas mereceram discussão nas redes sociais e entretanto, tentando explicar melhor as suas ideias, Rolo Duarte saiu-se com esta:

“Regra geral, a qualidade de ensino e baixa. Passa pela cabeça de alguém ir aprender para a Universidade de Évora? Ou para a da Beira Interior? Ou para a do Algarve? Não brinquem comigo. Em Inglaterra, pelo contrário, encontramos dezenas de universidades fabulosas pelo País inteiro. Eu estudo em Cambridge. Mas qualquer jovem que estude em Southampton, em Exeter, em Cardiff, em Aberdeen terá uma educação espetacular. O mesmo não se passa em Portugal”, defende. 

Claro que não é preciso ir muito longe para rebater estes pseudo-argumentos. Basta recordar que o sistema educativo inglês é dos mais elitistas da Europa e que as excelentes universidades inglesas não se mostram capazes sequer de formar profissionais, na quantidade e qualidade necessárias, para diversas áreas. Por exemplo, milhares de médicos e enfermeiros habilitados pelo ensino superior português trabalham actualmente no Reino Unido, havendo mesmo hospitais que, se tivessem de dispensar os profissionais de saúde estrangeiros que têm ao seu serviço, fechariam as portas no mesmo instante.

Focado em si mesmo e nos seus êxitos pessoais – foi viver sozinho para o estrangeiro aos 16 anos, acabou o secundário como o melhor aluno da sua escola, apesar de trabalhar em part-time, conseguiu uma bolsa para entrar em Cambridge e sonha certamente com uma auspiciosa carreira académica e profissional à medida das suas enormes capacidades e ambições – percebe-se que há, no discurso deste jovem, alguma falta de noção. O que, paradoxalmente, no mundo dos nossos dias, estará longe de ser um defeito.

E até nisto os cientistas da educação andam desfasados. Querem agora convencer-nos da importância de desenvolver o pensamento reflexivo e crítico nas novas gerações. Mas o que o neoliberalismo financeiro, globalizado e competitivo valoriza é esta gente sem noção, rápida a sentenciar sobre o que desconhece, a dar ordens sem reflectir e a conseguir que os outros vão atrás deles. Como explica, nas redes sociais, o sempre sarcástico e acutilante Jovem Conservador de Direita

Muita gente tem acusado este jovem de ser um privilegiado sem noção, por ter tido oportunidades que poucos jovens da mesma idade tiveram ou por falar sobre assuntos que desconhece. Como se isso fosse negativo. O que importa é que ele tem sucesso e não é suposto as pessoas de sucesso terem noção. Ter noção é horrível. Porque força as pessoas a terem vergonha do seu sucesso. E se uma pessoa não se pode ir vangloriar para o prós e contras do seu sucesso, de que lhe serve ter trabalhado tanto para atingir o que atingiu?

Na Goldman Sachs existe um programa de formação de quadros para nos ensinar a perder a noção. Temos de estimular o nosso efeito Dunning-Kruger. Para quem não conhece, o efeito Dunning-Kruger é um fenómeno pelo qual pessoas que, apesar de saberem pouco sobre um assunto, têm muita confiança nas suas capacidades e tomam decisões em função da confiança e não do conhecimento. Esta confiança é imprescindível para que sejamos competentes na área financeira, porque se duvidarmos dos nossos instintos ou perdermos demasiado tempo a analisar informação não somos tão produtivos. É por isso que a falta de noção é incentivada, para que sejamos confiantes e não duvidemos de que somos os melhores, mesmo que não sejamos. Nunca um estudante da Universidade de Évora seria convidado para o Prós e Contras, porque tem a noção típica das pessoas que têm pouco sucesso e sabe que não iria acrescentar nada ao debate. É essa a vantagem de Cambridge: ensinou o jovem a perder a noção e a ir a um programa de debate mesmo não tendo nada para dizer.

O custo real das progressões dos professores

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Um grupo de professores fez as contas: para as progressões só é necessário metade do valor avançado pelo Governo.

A revista Sábado desta semana recupera um tema fulcral para a luta dos professores em defesa da sua carreira: o custo real das progressões decorrentes da recuperação integral do tempo de serviço. Curiosamente, um assunto que nunca motivou grande interesse, nem da comunicação social, nem dos partidos que, à esquerda e à direita, têm criticado a intransigência governamental.

De facto, a estimativa do Governo, em torno dos 600 milhões de euros anuais, nunca foi cabalmente demonstrada e é notoriamente exagerada. Há uns tempos atrás, o Maurício Brito e mais alguns colegas empenhados em demonstrar a falsidade desses números, não precisaram de mais do que pegar em dados oficiais referentes ao número de professores do quadro existentes em cada escalão e, numa folha excel, simular o aumento da massa salarial causado por uma subida de dois escalões. No cenário mais desfavorável às contas públicas, o aumento não chegava a perto de metade do valor apontado pelo Governo.

Estes números, convém dizê-lo, nunca foram desmentidos. Mas será ainda mais importante referir, e a peça da Sábado não se esquece de o fazer, que nenhuma das principais empresas que operam na área da certificação de contas aceitou analisar os resultados obtidos por este grupo de professores. Quem diria que, entre os economistas e consultores do regime, há por aí tanto medo à geringonça? Porque temem vir a público contrapor, aos números atirados ao ar pelo Governo, o rigor das boas contas?…

Voltando aos números reais da progressão: mesmo fazendo as conta por cima e considerando os 320 milhões apontado pela revista, há que ter em conta que uma recuperação faseada não implicaria um aumento de despesa orçamental desse valor. Num modelo a sete anos como o que foi adoptado na Madeira, o crescimento anual da despesa andaria, no máximo, por uns modestos 50 milhões. Ora isto é o quê? São 5% da dívida de Joe Berardo à banca portuguesa intervencionada pelo Estado, uma brutalidade de mil milhões de euros que não consta que ande a tirar o sono aos nossos centenos

O que fazer para não “levar no focinho”

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Volto ao caso do professor agredido a soco e pontapé por um aluno de 12 anos para destacar alguns desenvolvimentos.

O director do agrupamento decidiu, bem, suspender preventivamente o aluno. Nem outra atitude seria de esperar quando se afirma que a escola em causa é “tranquila” e este foi um “caso isolado”. Perante casos de gravidade excepcional tomem-se, então, as medidas excepcionais previstas na lei.

Contudo, afastar temporariamente da escola o aluno agressor não é em si mesmo uma punição disciplinar, nem encerra o caso. Perante a gravidade do que se passou, e independentemente de todas as condicionantes que possam ter levado o aluno a agir como agiu, só há uma coisa a fazer. Não vale a pena estarmos com rodriguinhos burocráticos e judiciais: este aluno deixou de ter condições de frequentar aquela escola e de se cruzar com o professor que agrediu. Pelo que esteve bem o director ao responsabilizar desde já o Ministério da Educação pela transferência de escola deste aluno, que é a medida que se impõe e que só o ME pode decidir.

O diretor do agrupamento Garcia de Orta […] admite que a escola está de “mãos atadas” para expulsar ou transferir o aluno. “A direção vai ter de recorrer ao Ministério da Educação para que se encontre uma solução para este caso”, explicou Ernesto Pereira ao JN.

Entretanto, João André Costa, um colega nosso que trabalha em Inglaterra mas escreve regularmente na imprensa portuguesa, onde se tem vindo a assumir como um digno representante da “pedagogia do coitadinho”, veio já publicar o que, vaticinava eu anteontem, não demoraria a aparecer. Em post publicado no blogue DeAr Lindo, o João André, ele próprio vítima de agressão, aqui há uns tempos, tenta explicar ao colega do Porto o que deveria ter feito para evitar “levar no focinho”.

Percebe-se pelos comentários que alguns colegas tentaram ver ironia no texto publicado. Mas não, João André Costa não está a ser irónico. Ele fala a sério. E acha mesmo que se apanhamos dos alunos é porque alguma coisa fizemos que conduziu à agressão. Daqui a culpar o professor por não ter agido como deveria e a desculpabilizar o aluno, vítima também das suas circunstâncias, vai um passo muito curto que muitos dão sem hesitar…

Nunca, desde que o aluno entrou na sala aos pontapés à bola até ser entregue à Directora de Turma, nunca ninguém perguntou ao aluno o que se estava a passar. Aconteceu alguma coisa? Queres falar? Estou aqui para te ouvir. Não me ouves? Vou pedir ajuda, espera um pouco, já volto, estou aqui para ti. Queres jogar à bola? Vamos lá para fora, eu jogo à bola contigo, estou aqui para ti. Sou teu professor, mas também me preocupo contigo.

Nunca. Em vez disso, o castigo, a admoestação, o confronto, a falta de empatia, a agressão física. Não toquem num aluno, nunca toquem num aluno, quando tocamos num aluno, tudo pode acontecer. E aconteceu. Neste caso, aconteceu.

O trecho que transcrevi não resume por inteiro o texto publicado, que tenta enquadrar o caso na problemática mais vasta da integração escolar de menores em risco, fazendo algumas reflexões pertinentes. No entanto, parece-me que o colega olha mais para a realidade que conhece no país onde trabalha, esquecendo que em Portugal a actuação da maioria das CPCJ é pouco eficaz, há crianças em risco que ficam meses à espera de uma simples consulta psiquiátrica ou de uma intervenção da segurança social. E sobre o funcionamento dos tribunais de menores e a sensibilidade e as decisões de alguns juízes, nem valerá a pena falar…

No meio disto tudo, só as escolas assumem por inteiro a sua responsabilidade perante estes menores, recebendo-os diariamente e tentando dar-lhes tudo o que têm para lhes oferecer. Claro que para os professores este é quase sempre um trabalho sem rede, difícil e arriscado. Quando alguma coisa falha, há pouquíssima margem de manobra para controlar o que possa acontecer a seguir. Como é óbvio, a solução destes problemas não é capacitar super-professores para se transformarem em psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais ou mediadores culturais dos alunos problemáticos. Passa, se queremos uma escola inclusiva à qual estes alunos também pertencem, por integrar todas essas valências no ambiente escolar.

Entre as dezenas de reacções que o post de João André Costa suscitou, também se encontra a resposta do professor agredido. Por ela se percebe uma coisa muito simples de entender quando se é um professor no terreno: por vezes, e embora apliquemos toda a experiência, sensatez e profissionalismo de um professor, há situações que escapam mesmo ao nosso controle. Finalizo, então, com o testemunho de Aurélio Terra:

Como Professor que levou no focinho só espero que o texto de João André Costa seja um exercício de pura ironia, embora me pareça mal conseguido aqui e acolá. Se pelo contrário, de modo sério, quer insinuar inabilidade minha para lidar com aquela situação então gostaria que tivesses estado no meu lugar para que eu pudesse ver como é que devia ter agido. Acredito, prefiro assim, que está do meu lado e que manifestou essa solidariedade através daquele texto. Se é é assim o meu muito obrigado.
Apesar dos meus 63 anos, não sou um “velhinho” que se arrasta pela escola. Tinha capacidade física para resolver a situação de outra forma. Aí ninguém me valia e a minha carreira que conta já com 43 anos de serviço terminaria de forma inglória.
Que este episódio, do qual não avanço pormenores por estar entregue aos tribunais, sirva para todos nós Professores nos indignarmos com a insegurança com que desempenhamos a nossa missão com a melhor de todas as intenções. Obrigado a todos, os colegas que que se solidarizaram comigo.

Música de Natal… politicamente incorrecta?

É uma cantiga de Natal heterodoxa, difícil de cantar, mas belíssima – uma das mais originais e comoventes músicas natalícias de sempre.

Fairytale of New York, uma criação da banda irlandesa The Pogues, assinalou por aqui o Dia de Natal de 2017.

Pois há dias descobri, perplexo, que a brigada do politicamente correcto resolveu implicar com a canção. Pelo meio de acusações de que a letra é ofensiva para a comunidade gay, há já quem queira censurar a cantiga. O DN conta a história…

Passaram 31 anos desde que os Pogues lançaram Fairytale of New York, uma cantiga que conta a história de dois vagabundos que interrompem a lástima dos seus dias para viver um amor de Natal.

Na Irlanda, terra de origem da banda, estalou nesta semana uma polémica, quando um locutor da rádio nacional pôs em causa o uso da expressão “faggot” na canção, alegando que era linguagem imprópria e ofensiva para a comunidade LGBT.

“Perguntei a dois colegas gays o que achavam disto”, escreveu Eoghan McDermott num tweet que entretanto já apagou. “Um achava que se devia censurar, outro disse que se devia simplesmente banir a canção. Nenhum deles gosta da música. A expressão não tem nenhuma utilidade social e deve sair.”

Nas horas seguintes, as redes sociais explodiram, com gente a apoiar a ideia de que a frase era homofóbica, e com outra a chamar ao locutor de rádio e seus seguidores a “brigada do politicamente correto”.

Tanto que o próprio vocalista Shane McGowan veio a público responder à polémica: “A palavra foi usada pela personagem, porque cabia no seu tipo de discurso”, disse num comunicado da sua editora, a Virgin Media.

“Não é suposto que ela seja uma mulher simpática ou sequer salutar. É uma mulher de uma certa geração, num certo momento da sua história em que a sorte se esgotou e ela está desesperada.”

Sem mais comentários sobre uma estupidez e falta de juízo que me deixa sem palavras, resta-me finalizar com uma interpretação da canção de que aqui se fala. Não querendo repetir o post do ano passado, escolhi uma das dezenas de covers que esta música já tem. Fugindo de algumas interpretações nitidamente sem pedalada para a tarefa exigente que é recriar o original – sobretudo a voz da malograda Kristy MacKoll – escolhi a versão de um grupo de jovens músicos irlandeses que consegue duas coisas interessantes: fugir da lamechice, preservando a força e a mensagem da cantiga original.

 

Foi você que pediu… retroactivos?

paulos.JPGNa declaração de voto de Paulo Trigo Pereira sobre a contagem do tempo de serviço dos professores, o deputado do PS tenta confundir a opinião pública, invocando alegados “retroativos” que os sindicatos estariam a reivindicar. Ora isto motivou Paulo Guinote a responder ao deputado através das páginas do Público, jornal onde o Trigo Pereira publicou também a sua réplica. À qual o Paulo já prometeu tréplica… Pela qual aguardarei, muito embora as polémicas jornalísticas não tenham hoje o fulgor de outros tempos, nem a tosca argumentação do deputado reúna substância que justifique o prolongamento das hostilidades.

…os sindicatos reivindicam retroativos relativamente a todos os anos que as carreiras estiveram congeladas. Em nosso entender, o descongelamento já é um progresso, sendo que a verdade é que a questão dos retroativos não constam do programa do PS ou do programa do Governo, sendo algo injusto relativamente a outras carreiras atendendo, designadamente, ao facto de a progressão dos professores ser mais rápida que a existente no plano das carreiras gerais…

O que PTP afirma é uma falsidade, seja qual for a acepção que adoptemos, como nome ou adjectivo, sendo ridículos os contorcionismos linguísticos usados para dar a entender que se pretende mudar o passado, como o actual PM tem tentado fazer acreditar. O passado aconteceu. As perdas aconteceram. Não se pede nada do que foi perdido ou uma indemnização pelos danos causados. […] No caso das reivindicações docentes quer-se o contrário de “agir sobre o passado”. Apenas se quer que seja contado o trabalho que foi feito e, a partir de agora, que seja considerado para efeitos de “reposicionamento” na carreira, como acontece em outras situações. Não se trata de reescrever o passado, apenas de o respeitar.

É obviamente de justiça contar algum tempo (aliás já aceite pelo Governo), equiparando os professores às outras carreiras onde se pratica a avaliação (através do SIADAP). Mas seria não só de uma grande injustiça, mas também de uma grande irresponsabilidade conceder a contagem de mais tempo aos professores, se tal não puder ser garantido a todas as carreiras que se encontram na mesma situação. […] Para perceber porquê temos de sair do umbigo de P.G. – que são os professores do ensino básico e secundário – e alargar o debate da justiça distributiva, primeiro a todos os docentes do ensino superior, depois às restantes carreiras especiais, e finalmente a todos os trabalhadores portugueses do público e do privado.

A maior vantagem destes confrontos de posições divergentes é quando algum dos intervenientes se descai um pouco e diz mais do que desejaria. Ou nos ajuda simplesmente a entender melhor a realidade. É o que acontece quando PTP evoca as sucessivas leis do Orçamento que mantiveram em vigor o congelamento de carreiras, relembrando uma realidade insofismável: o que se pretendia era mesmo a perda integral daquele tempo para efeitos de progressão.

No caso da carreira docente o objectivo inconfessado, mas clarinho como água, era que toda uma geração então nos escalões iniciais e intermédios nunca viesse a alcançar o topo. E é também por colocar em causa este objectivo comum a sucessivos governos, tanto do PS e do PSD, que há tanta resistência às reivindicações dos professores. Não é apenas, como já se deveria ter percebido, pelos custos financeiros de uma medida que, já se propôs, pode ser muito diluída no tempo.

Há pelo menos outro ponto em que o deputado tenta deliberadamente confundir os seus leitores, ao comparar a carreira docente no básico e secundário com a do ensino superior. Diz ele que aqui há várias categorias, às quais os professores têm de ascender para poderem chegar ao topo da carreira, enquanto os professores do ensino não superior progridem dentro de uma categoria única. Mas isto é apenas meia verdade: o facto é que durante o congelamento de carreiras estiveram suspensas as progressões, mas não as promoções. É por isso falso dizer-se que as carreiras baseadas no tempo de serviço seriam indevidamente favorecidas com a sua recuperação. A verdade é que foram duplamente penalizadas durante o congelamento: na inexistência de promoções e na não consideração do tempo para progressão.

A concluir, PTP enuncia mais umas quantas meias-verdades que merecem, ainda assim, alguma atenção. Por exemplo, não são só os professores que perderam tempo de serviço; outras carreiras de estrutura semelhante pretendem também a recuperação. Como satisfazer todos, com os recursos de um Estado excessivamente endividado, num país cujo crescimento económico é ainda insuficiente para alimentar todas as expectativas que se foram criando?

Neste ponto, não tenho dúvidas em reconhecer: mantendo intocado o modelo de (sub)desenvolvimento das últimas décadas e continuando a destinar o grosso da despesa pública ao financiamento da banca, às parcerias ruinosas com os privados e ao serviço da dívida, não haverá Orçamento de Estado equilibrado que consiga acomodar salários e carreiras justas para os funcionários do Estado e um financiamento adequado dos serviços públicos essenciais.

A troika foi-se embora e já não estamos, oficialmente, em austeridade. Mas continuamos reféns de políticas definidas durante o desvario de despesismo e corrupção do socratismo e o neoliberalismo austeritário da coligação de direita. Neste contexto, recuperar o tempo perdido na carreira dos professores seria pôr em causa, de forma eloquente, o legado do socratismo e do passismo, ou seja, a convergência política PS-PSD-CDS no sentido do esmagamento da carreira docente. Algo que nenhum dos partidos do arco governativo deseja fazer.

Ler, escrever, contar, respeitar

Jean-Michel-BlanquerA escola francesa – fábrica de cidadãos, motor da meritocracia e pilar histórico da identidade da França republicana – volta ao básico. Ler, escrever, contar, respeitar. Estes são os fundamentos nos quais deverá se concentrar, de acordo com Jean-Michel Blanquer, ministro da Educação Nacional do Governo do presidente Emmanuel Macron. No ano e meio em que está no comando, Blanquer, que deu impulso à proibição de telefones celulares nas classes, também tem promovido o aprendizado de latim e grego.

“A principal questão da nossa época”, diz ele em um encontro com EL PAÍS e outros meios de comunicação europeus, “é como este mundo cada vez mais tecnológico pode ser um mundo cada vez mais humano”.

A França será provavelmente um dos países a merecer ser acompanhado mais atentamente, nos próximos tempos, por quem se interessa pelas realidades e desafios da Educação dita do século XXI. Com um Presidente e um Governo pouco definidos em termos ideológicos, também na Educação se notam os sinais de um casamento difícil e de resultados incertos entre republicanismo laico e conservadorismo social, liberalismo económico e centralismo estatal, retorno ao básico – ler, escrever e contar – e abertura às mais recentes teorias do conhecimento. A versão portuguesa do El País traça o retrato possível de um sistema educativo atravessado por dilemas e contradições.

Por exemplo: numa sociedade cada vez mais dominada pelas tecnologias de comunicação, deve a escola seguir na onda do conhecimento fácil e instantâneo, promovendo a integração dos gadgets electrónicos no quotidiano escolar, ou deve assumir o desafio de oferecer aos alunos aquilo que a sociedade da informação não lhe pode dar – por exemplo, disciplinas opcionais de latim ou grego? Voltar aos clássicos, ao conhecimento das línguas e das culturas antigas, e encontrar neles exemplos e inspiração para encarar os desafios do nosso tempo, pode não ser uma opção fácil. Mas parece ter sido claramente assumida pelo ministro da Educação Nacional.

Recentemente, também foi muito discutida a decisão polémica de proibir o uso de telemóveis nas escolas públicas. Uma medida já em aplicação, mas que consta estar a encontrar resistências, não só entre os alunos, mas também entre as direcções e corpos docentes de algumas escolas.

Contudo, para além das ideias mais emblemáticas, que reformas estruturantes foram encetadas? Os sinais são contraditórios. Positivos, como a redução do número de alunos por turma nas escolas que servem públicos escolares mais carenciados. Mas também há críticas dos sindicatos de professores devido à diminuição de lugares docentes e ao sistema de avaliação dos alunos e das escolas. E, claro, acusações dos mais impacientes adeptos da mudança: o actual ministro tenta usar a Educação para reproduzir um mundo que já pertence ao passado.

Outras questão controversa é o ensino do Árabe nas escolas públicas, que tem sido defendido e promovido pelo actual ministro, contra as correntes mais conservadoras que o associam ao recrudescer do radicalismo islâmico. Mas a ideia de Blanquer é pertinente: o Árabe é uma das grandes línguas da cultura e da civilização. Oferecer o seu estudo nas escolas públicas, num contexto de neutralidade religiosa, é preferível a que os interessados procurem as aulas das escolas corânicas, essas sim, muitas vezes, focos do fundamentalismo religioso.

Finalmente, a presença policial nas escolas, frequentemente requerida devido ao aumento da violência escolar: um polícia armado dentro de uma escola deve ser visto como um elemento intolerável, uma ameaça perturbadora? Ou, pelo contrário, deverão as crianças habituar-se, desde pequenas, a encarar o polícia não como uma ameaça, mas como um elemento útil e necessário da sociedade, construindo dessa forma uma imagem positiva das forças de segurança?…

As ondas de choque da manifestação

m2Apesar de ter estado bastante composta, a manifestação com que os professores portugueses ontem assinalaram o seu Dia não lhes trouxe – nem disso estariam à espera – a satisfação da sua principal exigência: a recuperação integral do tempo de serviço. Pois o governo já tinha avisado que, na falta de acordo com os sindicatos, daria aos professores a bonificação de 2 anos, 9 meses e 18 dias para aceleração das progressões – mas só depois da próxima mudança de escalão. António Costa diz que é o “possível, justo e razoável”.

Os partidos que viabilizam no Parlamento o Governo PS contestam. PCP e BE têm manifestado apoio às pretensões dos professores – mais em palavras do que em acções concretas e consequentes, verdade seja dita – e ainda ontem marcaram presença na manifestação. Pelo que já há quem anteveja atritos na geringonça…

Paula Santos, deputada do PCP, quer o ministro Tiago Brandão Rodrigues no Parlamento “com caráter de urgência”, acusando o Governo socialista de terminar “unilateralmente as negociações”, o que considera uma intenção “ilegítima e injusta”.

Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda, afirma que “o tempo do Governo já passou” e que “agora é o tempo do Presidente da República decidir se vai promulgar ou não este erro”. Já o partido ecologista Os Verdes acusa o executivo de António Costa de “claramente abrir uma guerra com os professores e outras carreiras”.

Entre os professores, perante o desprezo ou a indiferença do Governo face às suas reivindicações, culpar os sindicatos pela ineficácia da luta tem-se tornado a reacção mais comum nos últimos tempos.

Casada com um militar, Isabel Oliveira pensa que chegou a hora de avançar para formas de protesto mais radicais do que as empregues até aqui pelos principais sindicatos, FNE e Fenprof. “As lutas feitas até aqui têm sido muito cor-de-rosa”, critica, numa referência ao facto de a greve às avaliações não ter sido decretada para os anos de fim de ciclo senão por uma estrutura sindical de menor dimensão, o Stop.

Mas serve de pouco culpar a luta “fofa” ou “cor-de-rosa” pela ineficácia dos protestos. No Verão passado, a luta dura e intransigente do STOP, prosseguida nas escolas por milhares de professores, teve o mesmo fim que a luta “branda” promovida pela plataforma sindical: quando o ME avisou as escolas de que as reuniões de avaliação eram mesmo para se fazer, a generalidade dos professores obedeceu.

Noutro plano, as greves ontem anunciadas abrangem, entre outras coisas, as actividades lectivas ilegalmente marcadas no horário não lectivo dos docentes. Isto permite a alguma imprensa dar como certos os prejuízos para alguns alunos. Pena é que não vão ao cerne da questão: quando os alunos só recebem os apoios a que têm direito se os direitos dos professores forem desrespeitados, são evidentes a ilegalidade e o abuso.

Uma das novas novas greves anunciadas pelos professores esta sexta-feira, no final de uma manifestação que, segundo a PSP, terá reunido cerca de 20 mil pessoas em Lisboa, irá comprometer o apoio que é prestado nas escolas aos alunos com dificuldades de aprendizagem.

Embora não esteja prevista qualquer nova greve às aulas, à excepção daquela que deverá resultar da concentração marcada para o dia em que o ministro da Educação for discutir o orçamento para o sector à Assembleia da República, a recusa dos professores em assegurar os apoios ao estudo e as tutorias poderá vir a afectar milhares de estudantes.

Finalmente, a pergunta incontornável: porque não estiveram mais professores na manifestação? O líder da Pró-Ordem parece ter a resposta…

Também presente no protesto, o presidente da Pró-Ordem dos Professores, Filipe do Paulo, mostrava algum incómodo quando era inquirido sobre o porquê de dez sindicatos não terem conseguido arregimentar mais manifestantes – apesar de terem estado presentes docentes de vários pontos do país. E optava por culpar a blogosfera: “Infelizmente, há blogues com programas anti-sindicais que espalham a confusão e o populismo.”