Música de Natal… politicamente incorrecta?

É uma cantiga de Natal heterodoxa, difícil de cantar, mas belíssima – uma das mais originais e comoventes músicas natalícias de sempre.

Fairytale of New York, uma criação da banda irlandesa The Pogues, assinalou por aqui o Dia de Natal de 2017.

Pois há dias descobri, perplexo, que a brigada do politicamente correcto resolveu implicar com a canção. Pelo meio de acusações de que a letra é ofensiva para a comunidade gay, há já quem queira censurar a cantiga. O DN conta a história…

Passaram 31 anos desde que os Pogues lançaram Fairytale of New York, uma cantiga que conta a história de dois vagabundos que interrompem a lástima dos seus dias para viver um amor de Natal.

Na Irlanda, terra de origem da banda, estalou nesta semana uma polémica, quando um locutor da rádio nacional pôs em causa o uso da expressão “faggot” na canção, alegando que era linguagem imprópria e ofensiva para a comunidade LGBT.

“Perguntei a dois colegas gays o que achavam disto”, escreveu Eoghan McDermott num tweet que entretanto já apagou. “Um achava que se devia censurar, outro disse que se devia simplesmente banir a canção. Nenhum deles gosta da música. A expressão não tem nenhuma utilidade social e deve sair.”

Nas horas seguintes, as redes sociais explodiram, com gente a apoiar a ideia de que a frase era homofóbica, e com outra a chamar ao locutor de rádio e seus seguidores a “brigada do politicamente correto”.

Tanto que o próprio vocalista Shane McGowan veio a público responder à polémica: “A palavra foi usada pela personagem, porque cabia no seu tipo de discurso”, disse num comunicado da sua editora, a Virgin Media.

“Não é suposto que ela seja uma mulher simpática ou sequer salutar. É uma mulher de uma certa geração, num certo momento da sua história em que a sorte se esgotou e ela está desesperada.”

Sem mais comentários sobre uma estupidez e falta de juízo que me deixa sem palavras, resta-me finalizar com uma interpretação da canção de que aqui se fala. Não querendo repetir o post do ano passado, escolhi uma das dezenas de covers que esta música já tem. Fugindo de algumas interpretações nitidamente sem pedalada para a tarefa exigente que é recriar o original – sobretudo a voz da malograda Kristy MacKoll – escolhi a versão de um grupo de jovens músicos irlandeses que consegue duas coisas interessantes: fugir da lamechice, preservando a força e a mensagem da cantiga original.

 

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Foi você que pediu… retroactivos?

paulos.JPGNa declaração de voto de Paulo Trigo Pereira sobre a contagem do tempo de serviço dos professores, o deputado do PS tenta confundir a opinião pública, invocando alegados “retroativos” que os sindicatos estariam a reivindicar. Ora isto motivou Paulo Guinote a responder ao deputado através das páginas do Público, jornal onde o Trigo Pereira publicou também a sua réplica. À qual o Paulo já prometeu tréplica… Pela qual aguardarei, muito embora as polémicas jornalísticas não tenham hoje o fulgor de outros tempos, nem a tosca argumentação do deputado reúna substância que justifique o prolongamento das hostilidades.

…os sindicatos reivindicam retroativos relativamente a todos os anos que as carreiras estiveram congeladas. Em nosso entender, o descongelamento já é um progresso, sendo que a verdade é que a questão dos retroativos não constam do programa do PS ou do programa do Governo, sendo algo injusto relativamente a outras carreiras atendendo, designadamente, ao facto de a progressão dos professores ser mais rápida que a existente no plano das carreiras gerais…

O que PTP afirma é uma falsidade, seja qual for a acepção que adoptemos, como nome ou adjectivo, sendo ridículos os contorcionismos linguísticos usados para dar a entender que se pretende mudar o passado, como o actual PM tem tentado fazer acreditar. O passado aconteceu. As perdas aconteceram. Não se pede nada do que foi perdido ou uma indemnização pelos danos causados. […] No caso das reivindicações docentes quer-se o contrário de “agir sobre o passado”. Apenas se quer que seja contado o trabalho que foi feito e, a partir de agora, que seja considerado para efeitos de “reposicionamento” na carreira, como acontece em outras situações. Não se trata de reescrever o passado, apenas de o respeitar.

É obviamente de justiça contar algum tempo (aliás já aceite pelo Governo), equiparando os professores às outras carreiras onde se pratica a avaliação (através do SIADAP). Mas seria não só de uma grande injustiça, mas também de uma grande irresponsabilidade conceder a contagem de mais tempo aos professores, se tal não puder ser garantido a todas as carreiras que se encontram na mesma situação. […] Para perceber porquê temos de sair do umbigo de P.G. – que são os professores do ensino básico e secundário – e alargar o debate da justiça distributiva, primeiro a todos os docentes do ensino superior, depois às restantes carreiras especiais, e finalmente a todos os trabalhadores portugueses do público e do privado.

A maior vantagem destes confrontos de posições divergentes é quando algum dos intervenientes se descai um pouco e diz mais do que desejaria. Ou nos ajuda simplesmente a entender melhor a realidade. É o que acontece quando PTP evoca as sucessivas leis do Orçamento que mantiveram em vigor o congelamento de carreiras, relembrando uma realidade insofismável: o que se pretendia era mesmo a perda integral daquele tempo para efeitos de progressão.

No caso da carreira docente o objectivo inconfessado, mas clarinho como água, era que toda uma geração então nos escalões iniciais e intermédios nunca viesse a alcançar o topo. E é também por colocar em causa este objectivo comum a sucessivos governos, tanto do PS e do PSD, que há tanta resistência às reivindicações dos professores. Não é apenas, como já se deveria ter percebido, pelos custos financeiros de uma medida que, já se propôs, pode ser muito diluída no tempo.

Há pelo menos outro ponto em que o deputado tenta deliberadamente confundir os seus leitores, ao comparar a carreira docente no básico e secundário com a do ensino superior. Diz ele que aqui há várias categorias, às quais os professores têm de ascender para poderem chegar ao topo da carreira, enquanto os professores do ensino não superior progridem dentro de uma categoria única. Mas isto é apenas meia verdade: o facto é que durante o congelamento de carreiras estiveram suspensas as progressões, mas não as promoções. É por isso falso dizer-se que as carreiras baseadas no tempo de serviço seriam indevidamente favorecidas com a sua recuperação. A verdade é que foram duplamente penalizadas durante o congelamento: na inexistência de promoções e na não consideração do tempo para progressão.

A concluir, PTP enuncia mais umas quantas meias-verdades que merecem, ainda assim, alguma atenção. Por exemplo, não são só os professores que perderam tempo de serviço; outras carreiras de estrutura semelhante pretendem também a recuperação. Como satisfazer todos, com os recursos de um Estado excessivamente endividado, num país cujo crescimento económico é ainda insuficiente para alimentar todas as expectativas que se foram criando?

Neste ponto, não tenho dúvidas em reconhecer: mantendo intocado o modelo de (sub)desenvolvimento das últimas décadas e continuando a destinar o grosso da despesa pública ao financiamento da banca, às parcerias ruinosas com os privados e ao serviço da dívida, não haverá Orçamento de Estado equilibrado que consiga acomodar salários e carreiras justas para os funcionários do Estado e um financiamento adequado dos serviços públicos essenciais.

A troika foi-se embora e já não estamos, oficialmente, em austeridade. Mas continuamos reféns de políticas definidas durante o desvario de despesismo e corrupção do socratismo e o neoliberalismo austeritário da coligação de direita. Neste contexto, recuperar o tempo perdido na carreira dos professores seria pôr em causa, de forma eloquente, o legado do socratismo e do passismo, ou seja, a convergência política PS-PSD-CDS no sentido do esmagamento da carreira docente. Algo que nenhum dos partidos do arco governativo deseja fazer.

Ler, escrever, contar, respeitar

Jean-Michel-BlanquerA escola francesa – fábrica de cidadãos, motor da meritocracia e pilar histórico da identidade da França republicana – volta ao básico. Ler, escrever, contar, respeitar. Estes são os fundamentos nos quais deverá se concentrar, de acordo com Jean-Michel Blanquer, ministro da Educação Nacional do Governo do presidente Emmanuel Macron. No ano e meio em que está no comando, Blanquer, que deu impulso à proibição de telefones celulares nas classes, também tem promovido o aprendizado de latim e grego.

“A principal questão da nossa época”, diz ele em um encontro com EL PAÍS e outros meios de comunicação europeus, “é como este mundo cada vez mais tecnológico pode ser um mundo cada vez mais humano”.

A França será provavelmente um dos países a merecer ser acompanhado mais atentamente, nos próximos tempos, por quem se interessa pelas realidades e desafios da Educação dita do século XXI. Com um Presidente e um Governo pouco definidos em termos ideológicos, também na Educação se notam os sinais de um casamento difícil e de resultados incertos entre republicanismo laico e conservadorismo social, liberalismo económico e centralismo estatal, retorno ao básico – ler, escrever e contar – e abertura às mais recentes teorias do conhecimento. A versão portuguesa do El País traça o retrato possível de um sistema educativo atravessado por dilemas e contradições.

Por exemplo: numa sociedade cada vez mais dominada pelas tecnologias de comunicação, deve a escola seguir na onda do conhecimento fácil e instantâneo, promovendo a integração dos gadgets electrónicos no quotidiano escolar, ou deve assumir o desafio de oferecer aos alunos aquilo que a sociedade da informação não lhe pode dar – por exemplo, disciplinas opcionais de latim ou grego? Voltar aos clássicos, ao conhecimento das línguas e das culturas antigas, e encontrar neles exemplos e inspiração para encarar os desafios do nosso tempo, pode não ser uma opção fácil. Mas parece ter sido claramente assumida pelo ministro da Educação Nacional.

Recentemente, também foi muito discutida a decisão polémica de proibir o uso de telemóveis nas escolas públicas. Uma medida já em aplicação, mas que consta estar a encontrar resistências, não só entre os alunos, mas também entre as direcções e corpos docentes de algumas escolas.

Contudo, para além das ideias mais emblemáticas, que reformas estruturantes foram encetadas? Os sinais são contraditórios. Positivos, como a redução do número de alunos por turma nas escolas que servem públicos escolares mais carenciados. Mas também há críticas dos sindicatos de professores devido à diminuição de lugares docentes e ao sistema de avaliação dos alunos e das escolas. E, claro, acusações dos mais impacientes adeptos da mudança: o actual ministro tenta usar a Educação para reproduzir um mundo que já pertence ao passado.

Outras questão controversa é o ensino do Árabe nas escolas públicas, que tem sido defendido e promovido pelo actual ministro, contra as correntes mais conservadoras que o associam ao recrudescer do radicalismo islâmico. Mas a ideia de Blanquer é pertinente: o Árabe é uma das grandes línguas da cultura e da civilização. Oferecer o seu estudo nas escolas públicas, num contexto de neutralidade religiosa, é preferível a que os interessados procurem as aulas das escolas corânicas, essas sim, muitas vezes, focos do fundamentalismo religioso.

Finalmente, a presença policial nas escolas, frequentemente requerida devido ao aumento da violência escolar: um polícia armado dentro de uma escola deve ser visto como um elemento intolerável, uma ameaça perturbadora? Ou, pelo contrário, deverão as crianças habituar-se, desde pequenas, a encarar o polícia não como uma ameaça, mas como um elemento útil e necessário da sociedade, construindo dessa forma uma imagem positiva das forças de segurança?…

As ondas de choque da manifestação

m2Apesar de ter estado bastante composta, a manifestação com que os professores portugueses ontem assinalaram o seu Dia não lhes trouxe – nem disso estariam à espera – a satisfação da sua principal exigência: a recuperação integral do tempo de serviço. Pois o governo já tinha avisado que, na falta de acordo com os sindicatos, daria aos professores a bonificação de 2 anos, 9 meses e 18 dias para aceleração das progressões – mas só depois da próxima mudança de escalão. António Costa diz que é o “possível, justo e razoável”.

Os partidos que viabilizam no Parlamento o Governo PS contestam. PCP e BE têm manifestado apoio às pretensões dos professores – mais em palavras do que em acções concretas e consequentes, verdade seja dita – e ainda ontem marcaram presença na manifestação. Pelo que já há quem anteveja atritos na geringonça…

Paula Santos, deputada do PCP, quer o ministro Tiago Brandão Rodrigues no Parlamento “com caráter de urgência”, acusando o Governo socialista de terminar “unilateralmente as negociações”, o que considera uma intenção “ilegítima e injusta”.

Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda, afirma que “o tempo do Governo já passou” e que “agora é o tempo do Presidente da República decidir se vai promulgar ou não este erro”. Já o partido ecologista Os Verdes acusa o executivo de António Costa de “claramente abrir uma guerra com os professores e outras carreiras”.

Entre os professores, perante o desprezo ou a indiferença do Governo face às suas reivindicações, culpar os sindicatos pela ineficácia da luta tem-se tornado a reacção mais comum nos últimos tempos.

Casada com um militar, Isabel Oliveira pensa que chegou a hora de avançar para formas de protesto mais radicais do que as empregues até aqui pelos principais sindicatos, FNE e Fenprof. “As lutas feitas até aqui têm sido muito cor-de-rosa”, critica, numa referência ao facto de a greve às avaliações não ter sido decretada para os anos de fim de ciclo senão por uma estrutura sindical de menor dimensão, o Stop.

Mas serve de pouco culpar a luta “fofa” ou “cor-de-rosa” pela ineficácia dos protestos. No Verão passado, a luta dura e intransigente do STOP, prosseguida nas escolas por milhares de professores, teve o mesmo fim que a luta “branda” promovida pela plataforma sindical: quando o ME avisou as escolas de que as reuniões de avaliação eram mesmo para se fazer, a generalidade dos professores obedeceu.

Noutro plano, as greves ontem anunciadas abrangem, entre outras coisas, as actividades lectivas ilegalmente marcadas no horário não lectivo dos docentes. Isto permite a alguma imprensa dar como certos os prejuízos para alguns alunos. Pena é que não vão ao cerne da questão: quando os alunos só recebem os apoios a que têm direito se os direitos dos professores forem desrespeitados, são evidentes a ilegalidade e o abuso.

Uma das novas novas greves anunciadas pelos professores esta sexta-feira, no final de uma manifestação que, segundo a PSP, terá reunido cerca de 20 mil pessoas em Lisboa, irá comprometer o apoio que é prestado nas escolas aos alunos com dificuldades de aprendizagem.

Embora não esteja prevista qualquer nova greve às aulas, à excepção daquela que deverá resultar da concentração marcada para o dia em que o ministro da Educação for discutir o orçamento para o sector à Assembleia da República, a recusa dos professores em assegurar os apoios ao estudo e as tutorias poderá vir a afectar milhares de estudantes.

Finalmente, a pergunta incontornável: porque não estiveram mais professores na manifestação? O líder da Pró-Ordem parece ter a resposta…

Também presente no protesto, o presidente da Pró-Ordem dos Professores, Filipe do Paulo, mostrava algum incómodo quando era inquirido sobre o porquê de dez sindicatos não terem conseguido arregimentar mais manifestantes – apesar de terem estado presentes docentes de vários pontos do país. E optava por culpar a blogosfera: “Infelizmente, há blogues com programas anti-sindicais que espalham a confusão e o populismo.”

Para que universidade vão os filhos dos CEO?

ubi.jpgNuma entrevista recente, o reitor da Universidade de Lisboa discorria sobre o corte de cerca de mil vagas nos cursos superiores de Lisboa e Porto, este ano imposto pelo Governo. A medida foi justificada pela necessidade de incentivar a entrada de mais estudantes nas escolas do interior. Mas o que na realidade sucedeu foi um muito ligeiro aumento na entrada de candidatos noutras cidades universitárias do litoral, como Braga, Aveiro ou Coimbra. Muito longe de compensar as perdas em Lisboa e Porto, o que significa que, na prática, será o ensino superior privado destas duas cidades o grande beneficiário da opção política do Governo.

O professor António Cruz Serra sublinhou as incoerências desta política e, entusiasmado com a conversa, atirou:

Não vou ver um filho de um CEO de empresas do PSI20 a estudar no interior.

Teve de João Canavilhas, vice-reitor da Universidade da Beira Interior, a resposta à altura que estava a pedir.

Olhe, pela UBI já passaram filhos de ministros, de deputados, de CEOs e sei lá que mais. Mas sabe, senhor reitor, o que nos orgulha verdadeiramente é receber filhos de agricultores, de operários têxteis, de carpinteiros e de mais um sem-número de profissões. De receber filhos de quem trabalha arduamente para lhes dar uma vida melhor do que aquela que eles tiveram. São esses pais e esses filhos que fazem de nós uma universidade verdadeiramente nacional e que presta um serviço público de qualidade, apesar do subfinanciamento.

Na verdade, o tom condescendente com que algumas luminárias da “capital” falam do interior do país e de quem lá vive e trabalha disfarça mal o pior dos nossos provincianismos, que é o das elites pretensamente cultas e cosmopolitas.

Como não é difícil de perceber, o filho do CEO do PSI20 que jamais frequentará uma universidade do interior também não se vai inscrever, provavelmente, na Universidade de Lisboa. O mais certo é o pai pagar-lhe a dispendiosa propina numa das universidades estrangeiras que dominam os rankings internacionais…

EF deve contar para a média do Secundário?

desporto-p-totosPelo menos dois terços dos alunos do secundário viram a sua média final ser prejudicada por não terem podido incluir nestas contas a nota de Educação Física. E este é o valor mais baixo encontrado, já que, dos três anos analisados, num deles quase 80% dos estudantes teriam tido melhor média de acesso ao Ensino Superior se a disciplina tivesse contado. Os números fazem parte de um estudo alargado que será apresentado brevemente pelo CNAPEF — Conselho Nacional das Associações de Professores e Profissionais de Educação Física, como contou ao Observador Avelino Azevedo.

Deve a nota de Educação Física, tendo em conta as características da disciplina, contar como todas as outras para a média final do Secundário? Em princípio, diria que sim. Mas ao contrário de tantos que têm esgrimido com vigor as suas convicções, contra ou a favor, não consigo ter uma posição definitiva sobre o assunto. Não pela questão em si mesma – claro que o trabalho e a aprendizagem dos alunos, traduzidos numa classificação, devem sempre ser valorizados. O problema está, obviamente, na formação da média de candidatura ao ensino superior.

Visto na perspectiva dos representantes da disciplina, o caso parece pacífico: como já se suspeitava e os estudos realizados vieram confirmar, cerca de 70 a 80% dos alunos melhoram as suas médias finais se elas incluírem a nota de EF. Isto sucede, naturalmente, porque esta disciplina é das que tem dos melhores resultados médios em todo o Secundário.

Só que esta leitura dos números não espelha por completo a realidade. Em primeiro lugar, porque um benefício tão generalizado tende a anular-se a si próprio: se quase todos os alunos sobem as suas médias, as posições relativas não sofrerão grandes alterações. E se os alunos concorrem ao ensino superior com notas mais altas mas as vagas são as mesmas, o que sucede na prática é que as médias de entrada se tornarão mais elevadas.

Em segundo lugar, há prejudicados: os alunos com médias mais elevadas, que geralmente conseguem notas muito altas nas disciplinas “de estudo” mas nem sempre têm as capacidades físicas ou – há que reconhecê-lo também! – o empenhamento necessário na disciplina de EF, obtendo aqui uma nota mais baixa que lhes pode descer a média.

O ex-ministro Nuno Crato, que em 2012 determinou que a disciplina de EF não contasse para a média do Secundário (excepto para alunos que se candidatassem a cursos de Desporto) reagiu entretanto, no Twitter, com natural desagrado, à reversão da medida:

Diga-se em abono da verdade que, para especialista em estatísticas, o raciocínio simplista de Crato deixa algo a desejar. Não faz sentido querer-nos convencer que a nota mais elevada numa só disciplina levará um aluno a ultrapassar outro que teve melhores notas no conjunto das outras disciplinas. Isso só sucederá se tiverem uma média muito próxima e a diferença das notas em EF for relativamente acentuada.

Note-se ainda que estas questões se colocam essencialmente, por vezes com elevado dramatismo, aos estudantes que se candidatam aos cursos mais pretendidos: a Medicina, as Engenharias da moda e mais uns quantos com elevada procura. Neste campeonato todas as centésimas contam, numa competição entre escolas e alunos nem sempre leal. E é neste contexto que, na falta de medidas verdadeiramente reformistas do actual sistema de acesso ao ensino superior, a não consideração da nota de Educação Física foi vista por muitos, no tempo de Nuno Crato, como indutora de alguma justiça relativa.

Bons professores, bons programas, disciplina

inger.JPGA Suécia tem sido associada a uma certa vanguarda educativa que por cá, com flexibilidades, transversalidades e autonomias, se pretende obrigar escolas, professores e alunos, a acompanhar.

Mas não é nada disto que defende a professora Inger Enkvist, adepta de valores e práticas pedagógicas que o ensino centrado no aluno e o “aprender a aprender” colocaram fora de moda.

Uma política educativa de direita, portanto? Lendo a entrevista ao Público, parece-me que as ideias da professora sueca pendem mais para esse lado do espectro político. Embora registe, e até certo ponto subscreva, a preocupação em superar o confronto esquerda/direita no debate sobre Educação.

Há duas ideologias por detrás da ideia de que todos devem ter uma atenção pessoal, uma de direita e outra de esquerda. A de esquerda diz que todos somos iguais e quem não é precisa de ajuda para se tornar igual. A de direita diz que todos têm direito a atenção, direito à escolha, a ser um agente livre para fazer o que quer.

Ambas estão erradas! Não funcionam e não são do interesse do estudante, do país ou da aprendizagem. Mas são muito comuns e apresentadas como algo moderno. A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade.

Há uma ideia importante que apoio inteiramente e que nunca é de mais sublinhar nestes tempos que que se mitifica o ensino à medida de cada aluno, a aprendizagem instantânea no google ou no youtube e o ensino doméstico: a escola é uma das grandes invenções da humanidade, pois permite ensinar eficazmente muitos estudantes ao mesmo tempo, juntando grupos de alunos com capacidades e interesses semelhantes com professores que possuem os conhecimentos e as competências necessários para os fazer aprender.

Claro que a educação é para os estudantes, mas nada nos diz que é melhor ter um plano personalizado para cada um. Pelo contrário, o ensino funciona nos países onde os professores trabalham com grupos com as mesmas necessidades. É mais fácil que estes aprendam ao mesmo tempo. Essa ideia do aluno no centro leva a que seja precisa muita ajuda na escola e os recursos são mal usados. Se pensarmos em dinheiro, é mais económico aprender num grupo semelhante.

Ao longo da História, as alternativas à escola foram apenas três: o analfabetismo quase generalizado, o sistema corporativo dos mestres e aprendizes que qualificava os artesãos dos principais ofícios e o ensino doméstico, com preceptores ou professores particulares, acessível apenas aos filhos dos fidalgos e da alta burguesia. A escola como hoje a temos, universal, gratuita e obrigatória, é uma conquista civilizacional demasiado importante para a deixarmos destruir em nome de modas irracionais ou, pior do que isso, da agenda oculta das organizações internacionais e das fundações empresariais que promovem a “inovação educacional”.

Inger Enkvist defende o reforço da autoridade dos professores – as crianças, e a própria escola, precisam de regras para poderem funcionar e para que efectivamente se ensine e aprenda. É certo que a educação de base deve ser dada em casa, pelos pais. Mas quando estes não desempenharam bem o seu papel, é a escola que deve reforçar, logo nos primeiros anos de escolaridade, o seu papel educativo.

Alguns não têm ajuda em casa? São esses que precisam mais do que os outros de aprender correctamente a comportarem-se. No 1.º ano, a professora é quem abre o mundo do conhecimento às crianças, ao mesmo tempo que mostra como funciona a escola. Precisa de dizer-lhes: “É assim que se aprende e aprender é entusiasmante e transformador, vai mudar-te, vai tornar-te um adulto, mas há regras às quais tens de obedecer.”

Um ensino laxista, a falta de regras, o desrespeito pela autoridade e pela figura do professor, trazem outro problema: quando assim é, ninguém quer ser professor, tornando-se difícil atrair bons profissionais para a profissão docente…

Isso é importante porque os bons alunos querem ser professores – também é verdade para os educadores de infância e para os professores de 1.º ciclo. Se as crianças aos 4, 5, 6 anos tiverem bons educadores, inteligentes e preparados, arrancam bem, conseguem aprender bem a língua e ganham bons hábitos sobre como comportar-se na sala de aula. É mais divertido para um aluno estar com um professor inteligente que torna a aprendizagem divertida – este é um dos segredos do sucesso da Finlândia.

É um problema também noutros países que, em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, então, ninguém quererá ser professor.

Os pontos mais polémicos deste programa educativo: a aceitação de que se aprende melhor em grupos homogéneos e a defesa, consequentemente, da formação de grupos de nível e, paralelamente, a introdução de vias alternativas de ensino a partir dos doze anos.

Fala-se muito de discriminação, mas se você tivesse sido professora veria nos olhos dos alunos a ansiedade ou o aborrecimento porque não conseguem gerir o conhecimento que o professor está a transmitir. O que acontece a esses alunos é que se limitam a sobreviver na escola, na esperança de que um dia aquilo termine e sejam livres. Outros ficam tão aborrecidos que começam a fazer disparates porque não acham que o conhecimento seja importante. Na adolescência, diria que submeter os alunos a isso é um mau trato psicológico.

…aos 12 anos é preciso dar escolha aos alunos porque é impossível estarem todos interessados nas mesmas coisas e, ao desinteressarem-se, tornam o trabalho dos professores impossível.

Quanto ao problema da precocidade das escolhas, Inger tem uma posição clara: não podem ser os pais, muitas vezes com percepções irrealistas acerca do desempenho escolar dos filhos, nem os próprios alunos, a tomar este tipo de decisões: deve confiar-se nos professores que os acompanham e percebem melhor do que ninguém o que poderá ser mais adequado.

Finalmente, os telemóveis. O que pensa a professora sueca sobre a omnipresença destes aparelhos e a ideia de que podem substituir, não só o ensino dos professores, como a própria actividade intelectual dos alunos?

Isso é errado, errado, errado. Porque a nossa biologia não mudou e aprender é sobre mudar o nosso cérebro e se não o fizermos, então não aprendemos. A tecnologia é limitada, eles podem dizer muita coisa com o smartphone na mão, mas se lho tirarmos não sabem nada. É como se fosse uma prótese.

Quanto aos pais que não resistem a manter os filhos equipados com o gadget da última moda…

…os pais dão tudo e não têm a coragem de dizer “não”. Muitos não estão preparados e não compreendem como é importante dizer “não” a alguém de quem gostam.

Porque queremos ser amados pelos nossos filhos e também porque, no caso dos ecrãs, pensamos que não é muito tempo e, por isso, não faz mal. Mas isso é errado porque através dos ecrãs as crianças não recebem todos os estímulos necessários para aprender e com o nosso dinheiro estamos a empobrecê-los.