O museu que vai incomodar os salazaristas

escola-cantina.JPG

Acossada pela polémica, a Câmara Municipal de Santa Comba Dão recusou que tivesse a intenção de fazer um museu Salazar. O presidente da Junta de Freguesia de Óvoa e Vimieiro, Rui Oliveira, explicava ao DN que ali, na antiga escola-cantina Salazar, “nunca” existirá “um oratório de Salazar”. Agora, com o aval científico, sabe-se que quem for ao Centro de Interpretação do Estado Novo, a instalar naquela freguesia de Santa Comba Dão, à espera de uma perspetiva apologista do regime liderado por Salazar vai sentir-se, “mais do que desiludido, incomodado”.

A afirmação é de um dos coordenadores científicos do projeto, João Paulo Avelãs Nunes, que explicou: “Quem for ao Centro de Interpretação do Estado Novo numa perspetiva de apologia do Estado Novo, diria eu que vai sentir-se, mais do que desiludido, incomodado, porque, normalmente, pessoas que têm essa visão não gostam de um discurso historiográfico sobre o Estado Novo.” Ao DN, Avelãs Nunes reiterou: “Não será um mausoléu.”

Como tive oportunidade de escrever na altura, o clamor de críticas contra aquilo que precipitadamente se designou por “museu Salazar” foi completamente despropositado.

Numa época em que tanto se aponta aos jovens portugueses – e, por arrastamento, ao trabalho dos professores que os ensinam – a falta de pensamento crítico, desgostou-me ver a quantidade de intelectuais bem-pensantes que, sem sequer se informarem minimamente sobre o projecto existente, correram a assinar petições, abaixo-assinados e artigos de jornal contra um museu que não existe e nunca irá existir – a não ser nalgumas imaginações delirantes. Afinal de contas, manifestações de preconceito, sobranceria e, nalguns casos, completa ignorância, podem irromper de onde menos se espera…

Nunca foi intenção dos actuais autarcas de Santa Comba Dão nem dos especialistas envolvidos no projecto erigir um qualquer santuário para romagens saudosistas à campa ou aos despojos do ditador. Pelo contrário, a ideia de criar um centro interpretativo do Estado Novo, integrado numa rede de sítios da região centro também associados a este período, segue as modernas tendências museológicas e é uma forma perfeitamente adequada, não só de valorizar o património local e fomentar o turismo cultural mas também de dar a conhecer, com objectividade e rigor histórico, um dos períodos mais polémicos – e tantas vezes ainda mal compreendido – da nossa História.

Se tudo correr como previsto, o futuro centro interpretativo fará parte de uma rede de espaços museológicos inseridos em diversos locais relacionados com a memória da Primeira República e do Estado Novo, como, entre outros, a casa de Aristides de Sousa Mendes em Cabanas de Viriato, a de António José de Almeida em Vale da Vinha ou o Sanatório do Caramulo.

A extensa notícia do DN é bastante completa e esclarecedora. Deveria ser leitura obrigatória para todos aqueles que se têm recusado a, antes de criticar, procurar compreender a natureza do projecto. E a perceber que, por mais tenebrosos que sejam alguns aspectos da nossa História, nada ganhamos com a tentativa de os ignorar ou esquecer. Importante é conhecer e compreender o nosso passado, o que não se consegue com leituras simplistas da História. Quer sejam destinadas, conforme a vontade do freguês, a glorificar ou a diabolizar a ditadura salazarista.

Nalguma coisa teria de concordar…

…com o professor José Pacheco.cinco.gif

Não consigo estar de acordo com o fundamentalismo de muitas das suas ideias pedagógicas, nem me convenço que o experimentalismo permanente seja a forma de melhor garantir o direito universal à educação.

Contudo, se lamento que o guru da Escola da Ponte tenha precisado de 50 anos para chegar a esta brilhante conclusão, não posso deixar de saudar a capacidade de admitir que mudou de ideias – só os burros não o fazem, acrescentou – e de reconhecer como andou enganado – e a enganar-nos – este tempo todo.

José Pacheco já seguiu para outra, já rejeita que o centro seja o aluno, diz antes que centro é a relação entre professor e estudante, aquilo a que chama paradigma da comunicação.

De facto, nem ensino magistral, centrado no professor, nem ensino centrado no aluno, presumindo que este tem capacidade para aprender sozinho e definir por si só o que lhe interessa aprender. Fundamental é a relação pedagógica que se estabelece entre alunos e professores. É através dela que, de variadas formas, se podem desenvolver os métodos e processos mais adequados e eficazes de ensinar e aprender.

E claro que, quanto melhores forem os meios e condições proporcionados, melhores poderão ser tanto o trabalho dos professores como as aprendizagens dos alunos. Pela minha parte, dispenso os novos paradigmas do professor Pacheco. Bastar-me-iam escolas com os recursos materiais e humanos necessários e, em vez da ditadura dos projectos, uma efectiva autonomia pedagógica nas salas de aula e uma renovada confiança no trabalho dos professores.

Liberdade de escolha… do WC?

wc.jpg“Em pleno período de verão e sem sequer aguardar pela decisão do Tribunal Constitucional ao pedido de fiscalização, o Governo apressou-se a emitir um despacho que implementa e regulamenta a “Ideologia de Género” como doutrina oficial do ensino em Portugal”, escreve Francisco Rodrigues dos Santos. O despacho adota várias medidas, que para o líder da JP promove “disparidades identitárias”.

Entre as medidas está o direito de cada criança escolher o acesso às casas de banho e balneários escolares “de acordo com a opção com que se identifiquem”.

O despacho n.º 7247/2019 define um conjunto de medidas administrativas que visam a consagração legal do direito à identidade de género no sistema educativo.

Um pratinho irrecusável para a cruzada da direita contra o que chama a “ideologia de género” e para uma certa esquerda folclórica que, mostrando-se cada vez mais irrelevante na defesa dos direitos económicos e sociais, encontra nestas micro-causas a sua principal forma de afirmação. Em plena silly season, a comunicação social com falta de assunto agradece a polémica de Verão.

Ainda assim, é curioso ver a direita, que sempre defendeu a “liberdade de escolha”, preocupada com os marmanjos que poderão escolher livremente passar a frequentar as casas de banho ou os balneários femininos. Uma possibilidade que, aparentemente, nem está prevista na lei e só encontra respaldo nas mentes poluídas de alguns direitolas…

Pessoalmente, gostaria que a discussão se centrasse no que é realmente importante: sejam para meninos ou para meninas, unissexo ou de sexo indeterminado, as casas de banho escolares deveriam manter-se limpas e ter sempre sabonete e papel higiénico à disposição dos utilizadores. O que nem sempre sucede…

Quanto aos balneários, parece-me que qualquer rapaz ou rapariga que não se sinta à vontade para se despir ou tomar banho à frente de colegas deveria ter a possibilidade de o fazer com a necessária privacidade, sem necessidade de dar justificações acerca de si próprio, muito menos precisar de invocar uma qualquer “transição de género”.

Sentidas como essenciais pelas pessoas em causa, as questões da identidade de género não têm de ser expostas na praça pública nem de servir de pretexto, enquanto causas fracturantes, para disputas políticas entre esquerda e direita. Personalidade, privacidade e intimidade são direitos humanos fundamentais que têm apenas, e acima de tudo, de ser universalmente respeitados.

Museu Salazar?…

casa-salazarO cabeça de lista do PS no distrito de Viseu às legislativas de 6 de Outubro, João Azevedo, disse nesta terça-feira ao PÚBLICO estar contra um Museu Salazar mas a favor do centro interpretativo do Estado Novo. Uma iniciativa que o autarca socialista Leonel Gouveia, presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, pretende edificar na terra onde nasceu e está enterrado o ditador.

Conheci pessoalmente o actual presidente socialista da Câmara de Santa Comba Dão – é professor de profissão e foi meu colega num dos anos em que trabalhei em Santa Comba – e posso afiançar que Leonel Gouveia não é, seguramente, um simpatizante do fascismo…

Mas estará, como qualquer autarca competente do interior desfavorecido, atento a tudo o que possa representar uma oportunidade de dar notoriedade à sua terra, criar emprego, atrair investidores e turistas. Localmente, a ideia de musealizar a casa onde nasceu o ditador já é antiga. E a verdade é que, a nível nacional, Santa Comba Dão – ou mais propriamente a aldeia do Vimieiro, nos arredores da cidade – é conhecida sobretudo por ser a terra natal de António de Oliveira Salazar.

Percebo os riscos de criar, em torno das ruínas da casa familiar e dos parcos despojos do ditador, um museu que possa de alguma forma tornar-se um santuário para os saudosistas do Estado Novo e da figura mítica do “Salvador da Pátria”. Para tanto, já bastam as romarias que ocasionalmente se fazem à campa de Salazar no cemitério local. A tentativa de branquear a ditadura e glorificar a figura do ditador será sempre inaceitável para qualquer verdadeiro democrata, ainda para mais sendo patrocinada, mesmo que involuntariamente, por entidades públicas.

Contudo, a ideia não parece ser, pelo menos para já, intervir na antiga casa de Salazar. O que a Câmara pretende é criar um centro de interpretação do Estado Novo, aproveitando o edifício de uma típica escola primária dessa época. E, esta sim, é uma ideia que pode fazer todo o sentido. Tudo depende dos fins em vista, da qualidade do projecto, da competência e idoneidade dos responsáveis da iniciativa, dos recursos que vierem a ser disponibilizados. À partida, não me choca que se tente recriar no Vimieiro um pouco do ambiente rural beirão da primeira metade do século XX, o que poderá ajudar os visitantes a compreender a formação do Estado Novo e as origens de Salazar – não tão modestas como habitualmente se pensa: o contexto familiar, o percurso académico, a formação religiosa, social e política. É possível fazê-lo, quero crer, de forma séria, isenta e rigorosa.

Fazê-lo sem branquear de forma alguma a natureza repressiva, a inspiração fascista ou o espírito totalitário e obscurantista que esteve na génese do Estado Novo e que desde sempre motivou o seu principal mentor. Mas procurando ao mesmo tempo perceber o homem, a sua mentalidade e a sua actuação política no contexto da sua época e do meio em que foi criado. Na verdade, compreender os erros do passado continua a ser a melhor forma de impedir que voltemos a cometê-los.

Racismo, disse ele!

Faro foi esta semana noticia na imprensa britânica quando um jovem alegou ter sido agredido por agentes da PSP no momento em que estes tentavam retirá-lo de um avião da companhia aérea low cost Ryanair. O caso aconteceu na quarta-feira quando Rafik Boutiche, de 20 anos, foi expulso do avião que estava prestes a descolar do aeroporto de Faro com destino a Londres. Foi acusado de não respeitar as regras da empresa e de ter empurrado uma assistente de bordo que não o deixou mudar de lugar.

A notícia do DN não o refere, mas nas redes sociais o caso ganhou repercussão sobretudo por terem sido invocadas motivações racistas. Contudo, o preconceito étnico ou religioso, se existe, não me parece visível nas imagens divulgadas. O que se sabe é que o vídeo que mostra a alegada agressão é divulgado por uma conta Twitter intitulada Islam e que nesta se acusa a hospedeira de ter “perfilado racialmente” o jovem interpelado.

Pela minha parte, entendo que o racismo e a discriminação que persistem nas sociedades actuais são um assunto demasiado sério para que possam ser invocados de ânimo leve. Em todas as etnias, nacionalidades e religiões há gente educada, cumpridora das leis, respeitadora do próximo. E há aqueles que o não são. Não é aceitável que se use a cartada do “Racismo!” como estratégia de vitimização, quando a suposta vítima é o verdadeiro prevaricador.

Neste caso, o essencial parece bastante simples: um passageiro sentou-se num lugar que não era o seu, colidindo com os procedimentos de organização e de segurança da companhia aérea. Foi-lhe pedido, como é normal nestas situações, que ocupasse o seu lugar. E terá sido a desobediência e a forma rude como se dirigiu à assistente de bordo que motivou a intervenção das autoridades. Que, nestes casos, segue um padrão também habitual na aviação comercial: a retirada do passageiro desordeiro, para que o voo possa prosseguir sem mais demoras ou incidentes.

Que nada disto tem a ver com racismo, mas apenas com a necessidade de respeitar e cumprir regras que são iguais para todos os viajantes, fica ainda mais claro se nos lembrarmos que há poucas semanas, na mesma companhia aérea, um conhecido treinador de futebol foi igualmente obrigado a sair do avião por não se saber comportar.

Na verdade, o que estes casos nos mostram é que há pessoas com claras dificuldades em viver em sociedade. Em aceitar que as regras que valem para os outros também se aplicam a elas próprias. E se em espaços públicos mais vastos as tensões se diluem, no interior confinado e superpovoado de um avião o egocentrismo e os comportamentos anti-sociais mais facilmente podem vir ao de cima.

Em jeito de conclusão, gostaria de deixar aqui a história vista, não pelo lado dos desordeiros, nem das autoridades, nem sequer dos media ávidos de notícias polémicas e sensacionalistas. De facto, parece-me mais interessante e esclarecedor o olhar de quem diariamente lida com estas e outras situações nos voos comerciais. Adaptado a partir de uma sequência de tweets, fica o testemunho lúcido e esclarecedor de Carina Horta.

Isto aconteceu ontem com uma colega minha de trabalho. Esta situação foi muito mal contada pois quando ela chegou a nós estava super abalada e toda desfraldada! Todas as indicações que a tripulação de cabina vos dá é para vossa própria segurança. Da fila 1 à 5 e 33 à 29 temos de ter um número certo de pessoas lá sentadas devido ao equilíbrio, balanço do avião para descolagem e aterragem. Se não fazem o que vos mandam, pois correm o risco de serem expulsos! Isto é para segurança de todos.

Agora já estarem a falar de racismo e tudo mais. Ninguém foi racista, que mania de desviarem logo as situações para o racismo. Ele simplesmente não fez o que lhe mandaram e aposto que lhe deram a possibilidade de mudar de lugar com o amigo durante o voo. Este tipo de situações deixa-me enojada. Adoram apontar o dedo logo ao pessoal de bordo.

Já com o Sá Pinto foi igual. Sabem porque foi expulso? Ele estava sentado na fila 1. As filas 1 , 2, 16 e 17 são saídas de emergência, ou seja as pessoas que lá estão sentadas têm que estar aptas para ajudar todos os outros passageiros a sair em caso de emergência. Ou seja, nada de grávidas, pessoas com menos de 16 anos, pessoas que tenham algo que as possa impossibilitar de ajudar. E o senhor Sá Pinto tinha uma lesão no joelho, nem a perna podia dobrar. Foi lhe pedido que mudasse de lugar. Recusou. Recusou-se e depois vem com a conversa que foi de estar ao telefone e com a perna esticada. Contam tudo mal!

O avião não é a casa do povo, há regras a ser cumpridas. Faz parte da lei, e não é apenas da Ryanair. É em todas as companhias aéreas.

O racismo bonifácio e a direita observadora

Entre as muitas reacções que a crónica de Fátima Bonifácio continua a suscitar – maioritariamente de condenação e repúdio – há também quem defenda as opiniões da autora. Sem surpresa, a maioria dos apoiantes surgem nas páginas digitais do Observador, como se vê nesta montagem oportuna d’Uma Página Numa Rede Social:

Fugindo à luta ideológica mais óbvia e evitando defender o indefensável, há quem procure alargar a discussão, não se limitando a enquadrar e justificar as opiniões da autora mas procurando novas perspetivas para analisar o tema do momento.

É o que faz, bem, Gabriel Mithá Ribeiro, num texto ponderado e inteligente. Mesmo não concordando com tudo, não hesito em subscrever, no essencial, o seu ponto de vista: não têm ser os homens brancos do ISCTE, como o Rui Pina Pires que suscitou a polémica, a falar em nome dos supostos interesses e necessidades de africanos, ciganos ou outras minorias. É certo que se acham investidos de uma superioridade moral e científica que lhes dá o direito de serem eles, e não o povo em eleições, a definir o que chamam as “políticas públicas”. Mas o que isto representa é uma menorização cívica das minorias que devem ter uma voz própria na sociedade. Tal como, exemplifica Gabriel, os idosos não representam os jovens, nem os homens podem arrogar-se o direito de falar em nome das mulheres.

Acrescente-se que a diversidade étnica e cultural entre os afrodescendentes é muito superior à existente entre os povos europeus. A percepção que os próprios têm dessa realidade não deve ser interpretada, à maneira de Bonifácio, como uma demonstração de racismo entre os próprios africanos, mas sim como a coexistência de diferentes etnias, graus de miscigenação e culturas entre os afrodescendentes. Não podemos incluir todos numa única categoria de “negros”, como faziam os negreiros quando descarregavam os navios carregados de escravos em portos portugueses e brasileiros – e por vezes fazem também, certamente com boas intenções, alguns militantes anti-racismo. E mais: além das diferentes linhagens africanas, ciganas ou mestiças, existem, acima de tudo, pessoas. Talvez seja essa a chave para um dia ultrapassarmos de vez a dicotomia do racismo e do anti-racismo: conseguirmos tratar todos os cidadãos portugueses com a dignidade a que todos têm direito, respeitando os direitos e a individualidade de cada um.

Há outro ponto em que Mithá Ribeiro tem razão: os problemas das minorias estão, em grande medida, associados à pobreza persistente nas respectivas comunidades. Seja pela tradição nómada dos ciganos, pelo trabalho precário e mal remunerado de que sobrevivem muitos afrodescendentes, pela baixa escolarização e o desemprego forçado de uns e de outros, a verdade é que fazem parte do vasto grupo dos portugueses pobres. Alojados precariamente em construções clandestinas ou em bairros sociais, estas pessoas são em grande medida invisíveis aos olhos da gente bem que não convive com negros e ciganos, mas está na primeira linha da condenação do racismo. São os brancos pobres, forçados a conviver de mais perto com grupos étnicos não integrados e por vezes problemáticos, os que acabam por sentir os efeitos das tensões étnicas. E por alimentar os sentimentos racistas que a extrema direita tenta habilmente explorar.

Uma panóplia de brancos discutiu com vivacidade clubística o destino das minorias raciais sem que indivíduos que partilham essas identidades interviessem. Pelo menos, com ou sem a opinião de «pretos» e ciganos, nada se alteraria numa troca de argumentos entre brancos. A omnisciência branca ou, em rigor, o narcisismo branco basta-se a si mesmo.

Este novo paternalismo branco limitou-se a reciclar o do tempo colonial. Agora já não é o dever moral dos brancos «civilizar e cristianizar os pretos» mas proteger os ditos cujos, mais os ciganos, da «discriminação». As raças inferiores, essas, continuam no quintal, no recreio, infantilizadas. […]

É preciso deixar muito claro que a questão racial tem uma dimensão de dor psicológica para a intimidade de negros, mestiços, mulatos, ciganos e outros mais, e pode não ser tanto pelas razões propaladas, antes por uma impossibilidade quase genética de os indivíduos se descartarem de responsabilidades próprias no seu destino, nos seus sucessos e falhanços. Trazer tais matérias para a praça pública pode ser justamente o contrário da solução que a sanidade mental dos indivíduos pode necessitar. Há matérias em que não se deve ser invasivo da intimidade, sensibilidade, identidade de terceiros. Se é para ser estridente, desbocado, deixem que as minorias o façam na primeira pessoa.

Uma polémica eduquesa

jose-pacheco.jpgO autor do artigo critica o uso do eduquês. Reconheço pertinência nessa crítica, porque quem não sabe ensinar desiste do árduo chão da escola, faz um doutoramento qualquer, incorre no facilitismo de dar aula na universidade e publica papers em eduquês. Porém, o articulista também cometeu um facilitismo. Eu nunca me atreveria a dissertar sobre religião – domínio em que o Luís é especialista – mas o Luís atreveu-se a alvitrar no domínio das ciências da educação.

A réplica de José Pacheco, o histórico mentor da Escola da Ponte, a um comentário crítico de Luís Filipe Torgal que também aqui comentei, teve por sua vez resposta em novo texto de Torgal. Tudo isto nas páginas do jornal digital Observador.

Esta pequena polémica tem o seu interesse. Demonstra, antes de mais, a importância da pluralidade de ideias e do seu confronto no mundo da Educação, onde demasiadas vezes se pretendem impor falsos consensos e unanimismos. E onde infelizmente nem todos – a começar pelo guru construtivista da Escola da Ponte – conseguem resistir ao velho e detestável hábito de confundir a discordância de opiniões com o ataque pessoal.

Contudo, discutir ideias com elevação e respeito, assumindo concordâncias e divergências, é fundamental numa área demasiado importante para que se deixem as decisões ao arbítrio de políticos demagogos e oportunistas, em conluio com burocratas, tecnocratas e cientistas. Todos eles, regra geral, desfasados da realidade concreta das escolas e do trabalho directo com alunos.

Voltando ao artigo de José Pacheco, encontro nele uma posição que é de saudar: o autor demarca-se tanto do facilitismo educativo dos que fogem da sala de aula para inventar projectos que fazem dos alunos cobaias, como da verborreia eduquesa novamente em voga – e muito apropriadamente definida como uma “sofisticação do discurso, que não oculta a miséria das práticas”.

Mas já não me revejo no recurso ao argumento de autoridade. O prof. Pacheco, puxando dos galões de especialista em ciências da educação, leva a sua arrogância intelectual ao ponto de criticar um professor que lecciona há mais de vinte anos por se atrever a “alvitrar no domínio das ciências da educação”. E depois espantam-se, Pacheco e os outros, que muitos professores que dão aulas chamem a essa área do conhecimento as “ciências ocultas”…

Com tantos especialistas de gabinete, de bancada, dos media e de mesa de café a alvitrar sobre o trabalho dos professores na sala de aula, penso precisamente o contrário de José Pacheco. Não precisamos de continuar a ouvir prelecções de teóricos da pedagogia, praticando sob os professores a velha aula expositiva que nos querem proibir de dar aos nossos alunos. Do que necessitamos, sim, é de cientistas da educação que tenham a humildade de ouvir os professores, de aprender com eles, de temperar as suas teorias com o conhecimento concreto do que é a realidade das escolas. Das mais espatafúrdias e ambiciosas às mais sensatas e fundamentadas.

A verdade é que a voz dos professores raramente é ouvida no debate público, mesmo em matérias em que são os verdadeiros e naturais especialistas. E isso, não só empobrece o debate de ideias e a compreensão que conseguimos ter da realidade, como degrada o processo de decisão e a qualidade das políticas educativas. Lamentavelmente, há um défice claro de presença pública dos professores, da sua experiência e do seu conhecimento. E demasiados não-professores a falar em nome deles.