O racismo bonifácio e a direita observadora

Entre as muitas reacções que a crónica de Fátima Bonifácio continua a suscitar – maioritariamente de condenação e repúdio – há também quem defenda as opiniões da autora. Sem surpresa, a maioria dos apoiantes surgem nas páginas digitais do Observador, como se vê nesta montagem oportuna d’Uma Página Numa Rede Social:

Fugindo à luta ideológica mais óbvia e evitando defender o indefensável, há quem procure alargar a discussão, não se limitando a enquadrar e justificar as opiniões da autora mas procurando novas perspetivas para analisar o tema do momento.

É o que faz, bem, Gabriel Mithá Ribeiro, num texto ponderado e inteligente. Mesmo não concordando com tudo, não hesito em subscrever, no essencial, o seu ponto de vista: não têm ser os homens brancos do ISCTE, como o Rui Pina Pires que suscitou a polémica, a falar em nome dos supostos interesses e necessidades de africanos, ciganos ou outras minorias. É certo que se acham investidos de uma superioridade moral e científica que lhes dá o direito de serem eles, e não o povo em eleições, a definir o que chamam as “políticas públicas”. Mas o que isto representa é uma menorização cívica das minorias que devem ter uma voz própria na sociedade. Tal como, exemplifica Gabriel, os idosos não representam os jovens, nem os homens podem arrogar-se o direito de falar em nome das mulheres.

Acrescente-se que a diversidade étnica e cultural entre os afrodescendentes é muito superior à existente entre os povos europeus. A percepção que os próprios têm dessa realidade não deve ser interpretada, à maneira de Bonifácio, como uma demonstração de racismo entre os próprios africanos, mas sim como a coexistência de diferentes etnias, graus de miscigenação e culturas entre os afrodescendentes. Não podemos incluir todos numa única categoria de “negros”, como faziam os negreiros quando descarregavam os navios carregados de escravos em portos portugueses e brasileiros – e por vezes fazem também, certamente com boas intenções, alguns militantes anti-racismo. E mais: além das diferentes linhagens africanas, ciganas ou mestiças, existem, acima de tudo, pessoas. Talvez seja essa a chave para um dia ultrapassarmos de vez a dicotomia do racismo e do anti-racismo: conseguirmos tratar todos os cidadãos portugueses com a dignidade a que todos têm direito, respeitando os direitos e a individualidade de cada um.

Há outro ponto em que Mithá Ribeiro tem razão: os problemas das minorias estão, em grande medida, associados à pobreza persistente nas respectivas comunidades. Seja pela tradição nómada dos ciganos, pelo trabalho precário e mal remunerado de que sobrevivem muitos afrodescendentes, pela baixa escolarização e o desemprego forçado de uns e de outros, a verdade é que fazem parte do vasto grupo dos portugueses pobres. Alojados precariamente em construções clandestinas ou em bairros sociais, estas pessoas são em grande medida invisíveis aos olhos da gente bem que não convive com negros e ciganos, mas está na primeira linha da condenação do racismo. São os brancos pobres, forçados a conviver de mais perto com grupos étnicos não integrados e por vezes problemáticos, os que acabam por sentir os efeitos das tensões étnicas. E por alimentar os sentimentos racistas que a extrema direita tenta habilmente explorar.

Uma panóplia de brancos discutiu com vivacidade clubística o destino das minorias raciais sem que indivíduos que partilham essas identidades interviessem. Pelo menos, com ou sem a opinião de «pretos» e ciganos, nada se alteraria numa troca de argumentos entre brancos. A omnisciência branca ou, em rigor, o narcisismo branco basta-se a si mesmo.

Este novo paternalismo branco limitou-se a reciclar o do tempo colonial. Agora já não é o dever moral dos brancos «civilizar e cristianizar os pretos» mas proteger os ditos cujos, mais os ciganos, da «discriminação». As raças inferiores, essas, continuam no quintal, no recreio, infantilizadas. […]

É preciso deixar muito claro que a questão racial tem uma dimensão de dor psicológica para a intimidade de negros, mestiços, mulatos, ciganos e outros mais, e pode não ser tanto pelas razões propaladas, antes por uma impossibilidade quase genética de os indivíduos se descartarem de responsabilidades próprias no seu destino, nos seus sucessos e falhanços. Trazer tais matérias para a praça pública pode ser justamente o contrário da solução que a sanidade mental dos indivíduos pode necessitar. Há matérias em que não se deve ser invasivo da intimidade, sensibilidade, identidade de terceiros. Se é para ser estridente, desbocado, deixem que as minorias o façam na primeira pessoa.

Uma polémica eduquesa

jose-pacheco.jpgO autor do artigo critica o uso do eduquês. Reconheço pertinência nessa crítica, porque quem não sabe ensinar desiste do árduo chão da escola, faz um doutoramento qualquer, incorre no facilitismo de dar aula na universidade e publica papers em eduquês. Porém, o articulista também cometeu um facilitismo. Eu nunca me atreveria a dissertar sobre religião – domínio em que o Luís é especialista – mas o Luís atreveu-se a alvitrar no domínio das ciências da educação.

A réplica de José Pacheco, o histórico mentor da Escola da Ponte, a um comentário crítico de Luís Filipe Torgal que também aqui comentei, teve por sua vez resposta em novo texto de Torgal. Tudo isto nas páginas do jornal digital Observador.

Esta pequena polémica tem o seu interesse. Demonstra, antes de mais, a importância da pluralidade de ideias e do seu confronto no mundo da Educação, onde demasiadas vezes se pretendem impor falsos consensos e unanimismos. E onde infelizmente nem todos – a começar pelo guru construtivista da Escola da Ponte – conseguem resistir ao velho e detestável hábito de confundir a discordância de opiniões com o ataque pessoal.

Contudo, discutir ideias com elevação e respeito, assumindo concordâncias e divergências, é fundamental numa área demasiado importante para que se deixem as decisões ao arbítrio de políticos demagogos e oportunistas, em conluio com burocratas, tecnocratas e cientistas. Todos eles, regra geral, desfasados da realidade concreta das escolas e do trabalho directo com alunos.

Voltando ao artigo de José Pacheco, encontro nele uma posição que é de saudar: o autor demarca-se tanto do facilitismo educativo dos que fogem da sala de aula para inventar projectos que fazem dos alunos cobaias, como da verborreia eduquesa novamente em voga – e muito apropriadamente definida como uma “sofisticação do discurso, que não oculta a miséria das práticas”.

Mas já não me revejo no recurso ao argumento de autoridade. O prof. Pacheco, puxando dos galões de especialista em ciências da educação, leva a sua arrogância intelectual ao ponto de criticar um professor que lecciona há mais de vinte anos por se atrever a “alvitrar no domínio das ciências da educação”. E depois espantam-se, Pacheco e os outros, que muitos professores que dão aulas chamem a essa área do conhecimento as “ciências ocultas”…

Com tantos especialistas de gabinete, de bancada, dos media e de mesa de café a alvitrar sobre o trabalho dos professores na sala de aula, penso precisamente o contrário de José Pacheco. Não precisamos de continuar a ouvir prelecções de teóricos da pedagogia, praticando sob os professores a velha aula expositiva que nos querem proibir de dar aos nossos alunos. Do que necessitamos, sim, é de cientistas da educação que tenham a humildade de ouvir os professores, de aprender com eles, de temperar as suas teorias com o conhecimento concreto do que é a realidade das escolas. Das mais espatafúrdias e ambiciosas às mais sensatas e fundamentadas.

A verdade é que a voz dos professores raramente é ouvida no debate público, mesmo em matérias em que são os verdadeiros e naturais especialistas. E isso, não só empobrece o debate de ideias e a compreensão que conseguimos ter da realidade, como degrada o processo de decisão e a qualidade das políticas educativas. Lamentavelmente, há um défice claro de presença pública dos professores, da sua experiência e do seu conhecimento. E demasiados não-professores a falar em nome deles.

Apagar ou não apagar manuais, eis a questão…

borracha.gifTenho-me abstido de escrever acerca de uma das pequenas polémicas mais acesas nos últimos tempos no mundo da educação: os manuais oferecidos aos alunos que devem agora ser devolvidos às escolas em condições de reutilização, sob pena de terem de ser pagos pelos encarregados de educação. E não tomei posição porque me sinto algo confuso e dividido.

Por um lado porque, como pai e encarregado de educação, participei, de borracha na mão, em várias maratonas caseiras de apagamento de manuais. Como os meus dois filhos têm uma diferença de idades relativamente reduzida, frequentaram as mesmas escolas e, nos seus percursos escolares, não apanharam de permeio nenhuma adopção de novos manuais, sucedeu que quase todos os que foram usados pelo mais velho vieram a ser aproveitados pelo mais novo. E isto pareceu-nos a todos, lá em casa, a coisa mais natural do mundo. Nunca fomos ricos e com ambos os pais a trabalhar a dezenas de quilómetros de distância de casa, com as despesas inerentes, não havia dinheiro a sobrar para despesas supérfluas que se poderiam evitar com uma tarefa que, não sendo propriamente agradável, também não é nenhum bicho de sete cabeças. E que, sendo dividida entre todos os membros da família, não leva demasiado tempo.

Também me faz confusão como nos dias de hoje o discurso dominante acerca da emergência climática e da urgência em adoptar políticas ambientalmente sustentáveis esbarra tão facilmente com a dificuldade que parece representar, para os pós-modernos, a aplicação prática de um princípio que em teoria todos parecem aceitar: reutilizar em vez de deitar fora o que ainda pode ser aproveitado. Alguns mimimis assanham-se nas redes sociais porque não querem ser “criados” de ninguém. Porque é que lhes custa tanto parar um bocadinho de dar ao dedo no telemóvel e agarrar na borracha?…

Há, no entanto, um ponto em que os críticos da reutilização terão razão: relativamente aos manuais do 1.º ciclo. Ao contrário dos restantes, estes não foram concebidos para serem reutilizados: têm espaços para escrever, desenhar, pintar e, nalguns casos até, para recortar. O que me parece pedagogicamente adequado, tendo em conta as especificidades desta faixa etária. Mas faz com que seja impossível, por mais esforços que se façam, restituir um destes manuais ao estado de novo. Aqui seria certamente sensato deixar estes livros às crianças e suas famílias em vez de exigir o esforço inglório de apagar manuais que de qualquer forma não ficarão em condições de ser reaproveitados.

Claro que, em última análise, estas confusões decorrem de políticas mal planeadas. Para começar, o absurdo pacto de regime que se criou em torno da vigência dos manuais. Para quê seis anos, se as legislaturas são de quatro e nenhum governo, até hoje, resistiu à tentação de tomar medidas com implicação directa nos manuais existentes? Se a ideia é reutilizar manuais, como aliás se faz na maioria dos países, é evidente que as actividades e exercícios devem ser feitos, não no próprio livro, mas num caderno à parte. Por outro lado, também não faz sentido decidir que vamos oferecer manuais escolares a toda a gente sem analisar bem as condições da implementação da medida nem fazer muito bem as contas ao que ela irá, efectivamente, custar.

Sobretudo porque, se a demagogia e o eleitoralismo tendem a favorecer quem governa, a factura acaba a ser paga, como sempre, pelos contribuintes…

Da falta de noção

a-rolo-duarteDiscutiu-se, no último Prós e Prós, a herança da Revolução de Abril. Frente a frente, estiveram os revolucionários já idosos e representantes da nova geração. E se a liberdade, que deu o mote à discussão, é hoje um valor consensual, o mesmo não se pode dizer da forma como ela foi sentida pelas gerações que viveram a revolução – uma conquista colectiva – e como é vivida pelos mais novos, que a olham como um dado adquirido e, acima de tudo, como um meio para a concretização do seu sucesso individual.

A determinada altura, o debate focou-se na Educação. E um dos jovens participantes, António Rolo Duarte, puxando dos seus pergaminhos de estudante da Universidade de Cambridge, criticou a fraca qualidade das universidades portuguesas. As afirmações polémicas mereceram discussão nas redes sociais e entretanto, tentando explicar melhor as suas ideias, Rolo Duarte saiu-se com esta:

“Regra geral, a qualidade de ensino e baixa. Passa pela cabeça de alguém ir aprender para a Universidade de Évora? Ou para a da Beira Interior? Ou para a do Algarve? Não brinquem comigo. Em Inglaterra, pelo contrário, encontramos dezenas de universidades fabulosas pelo País inteiro. Eu estudo em Cambridge. Mas qualquer jovem que estude em Southampton, em Exeter, em Cardiff, em Aberdeen terá uma educação espetacular. O mesmo não se passa em Portugal”, defende. 

Claro que não é preciso ir muito longe para rebater estes pseudo-argumentos. Basta recordar que o sistema educativo inglês é dos mais elitistas da Europa e que as excelentes universidades inglesas não se mostram capazes sequer de formar profissionais, na quantidade e qualidade necessárias, para diversas áreas. Por exemplo, milhares de médicos e enfermeiros habilitados pelo ensino superior português trabalham actualmente no Reino Unido, havendo mesmo hospitais que, se tivessem de dispensar os profissionais de saúde estrangeiros que têm ao seu serviço, fechariam as portas no mesmo instante.

Focado em si mesmo e nos seus êxitos pessoais – foi viver sozinho para o estrangeiro aos 16 anos, acabou o secundário como o melhor aluno da sua escola, apesar de trabalhar em part-time, conseguiu uma bolsa para entrar em Cambridge e sonha certamente com uma auspiciosa carreira académica e profissional à medida das suas enormes capacidades e ambições – percebe-se que há, no discurso deste jovem, alguma falta de noção. O que, paradoxalmente, no mundo dos nossos dias, estará longe de ser um defeito.

E até nisto os cientistas da educação andam desfasados. Querem agora convencer-nos da importância de desenvolver o pensamento reflexivo e crítico nas novas gerações. Mas o que o neoliberalismo financeiro, globalizado e competitivo valoriza é esta gente sem noção, rápida a sentenciar sobre o que desconhece, a dar ordens sem reflectir e a conseguir que os outros vão atrás deles. Como explica, nas redes sociais, o sempre sarcástico e acutilante Jovem Conservador de Direita

Muita gente tem acusado este jovem de ser um privilegiado sem noção, por ter tido oportunidades que poucos jovens da mesma idade tiveram ou por falar sobre assuntos que desconhece. Como se isso fosse negativo. O que importa é que ele tem sucesso e não é suposto as pessoas de sucesso terem noção. Ter noção é horrível. Porque força as pessoas a terem vergonha do seu sucesso. E se uma pessoa não se pode ir vangloriar para o prós e contras do seu sucesso, de que lhe serve ter trabalhado tanto para atingir o que atingiu?

Na Goldman Sachs existe um programa de formação de quadros para nos ensinar a perder a noção. Temos de estimular o nosso efeito Dunning-Kruger. Para quem não conhece, o efeito Dunning-Kruger é um fenómeno pelo qual pessoas que, apesar de saberem pouco sobre um assunto, têm muita confiança nas suas capacidades e tomam decisões em função da confiança e não do conhecimento. Esta confiança é imprescindível para que sejamos competentes na área financeira, porque se duvidarmos dos nossos instintos ou perdermos demasiado tempo a analisar informação não somos tão produtivos. É por isso que a falta de noção é incentivada, para que sejamos confiantes e não duvidemos de que somos os melhores, mesmo que não sejamos. Nunca um estudante da Universidade de Évora seria convidado para o Prós e Contras, porque tem a noção típica das pessoas que têm pouco sucesso e sabe que não iria acrescentar nada ao debate. É essa a vantagem de Cambridge: ensinou o jovem a perder a noção e a ir a um programa de debate mesmo não tendo nada para dizer.

O custo real das progressões dos professores

custo-progressoes

Um grupo de professores fez as contas: para as progressões só é necessário metade do valor avançado pelo Governo.

A revista Sábado desta semana recupera um tema fulcral para a luta dos professores em defesa da sua carreira: o custo real das progressões decorrentes da recuperação integral do tempo de serviço. Curiosamente, um assunto que nunca motivou grande interesse, nem da comunicação social, nem dos partidos que, à esquerda e à direita, têm criticado a intransigência governamental.

De facto, a estimativa do Governo, em torno dos 600 milhões de euros anuais, nunca foi cabalmente demonstrada e é notoriamente exagerada. Há uns tempos atrás, o Maurício Brito e mais alguns colegas empenhados em demonstrar a falsidade desses números, não precisaram de mais do que pegar em dados oficiais referentes ao número de professores do quadro existentes em cada escalão e, numa folha excel, simular o aumento da massa salarial causado por uma subida de dois escalões. No cenário mais desfavorável às contas públicas, o aumento não chegava a perto de metade do valor apontado pelo Governo.

Estes números, convém dizê-lo, nunca foram desmentidos. Mas será ainda mais importante referir, e a peça da Sábado não se esquece de o fazer, que nenhuma das principais empresas que operam na área da certificação de contas aceitou analisar os resultados obtidos por este grupo de professores. Quem diria que, entre os economistas e consultores do regime, há por aí tanto medo à geringonça? Porque temem vir a público contrapor, aos números atirados ao ar pelo Governo, o rigor das boas contas?…

Voltando aos números reais da progressão: mesmo fazendo as conta por cima e considerando os 320 milhões apontado pela revista, há que ter em conta que uma recuperação faseada não implicaria um aumento de despesa orçamental desse valor. Num modelo a sete anos como o que foi adoptado na Madeira, o crescimento anual da despesa andaria, no máximo, por uns modestos 50 milhões. Ora isto é o quê? São 5% da dívida de Joe Berardo à banca portuguesa intervencionada pelo Estado, uma brutalidade de mil milhões de euros que não consta que ande a tirar o sono aos nossos centenos

O que fazer para não “levar no focinho”

56764699_1061078360750761_8935629298404950016_n.jpg

Volto ao caso do professor agredido a soco e pontapé por um aluno de 12 anos para destacar alguns desenvolvimentos.

O director do agrupamento decidiu, bem, suspender preventivamente o aluno. Nem outra atitude seria de esperar quando se afirma que a escola em causa é “tranquila” e este foi um “caso isolado”. Perante casos de gravidade excepcional tomem-se, então, as medidas excepcionais previstas na lei.

Contudo, afastar temporariamente da escola o aluno agressor não é em si mesmo uma punição disciplinar, nem encerra o caso. Perante a gravidade do que se passou, e independentemente de todas as condicionantes que possam ter levado o aluno a agir como agiu, só há uma coisa a fazer. Não vale a pena estarmos com rodriguinhos burocráticos e judiciais: este aluno deixou de ter condições de frequentar aquela escola e de se cruzar com o professor que agrediu. Pelo que esteve bem o director ao responsabilizar desde já o Ministério da Educação pela transferência de escola deste aluno, que é a medida que se impõe e que só o ME pode decidir.

O diretor do agrupamento Garcia de Orta […] admite que a escola está de “mãos atadas” para expulsar ou transferir o aluno. “A direção vai ter de recorrer ao Ministério da Educação para que se encontre uma solução para este caso”, explicou Ernesto Pereira ao JN.

Entretanto, João André Costa, um colega nosso que trabalha em Inglaterra mas escreve regularmente na imprensa portuguesa, onde se tem vindo a assumir como um digno representante da “pedagogia do coitadinho”, veio já publicar o que, vaticinava eu anteontem, não demoraria a aparecer. Em post publicado no blogue DeAr Lindo, o João André, ele próprio vítima de agressão, aqui há uns tempos, tenta explicar ao colega do Porto o que deveria ter feito para evitar “levar no focinho”.

Percebe-se pelos comentários que alguns colegas tentaram ver ironia no texto publicado. Mas não, João André Costa não está a ser irónico. Ele fala a sério. E acha mesmo que se apanhamos dos alunos é porque alguma coisa fizemos que conduziu à agressão. Daqui a culpar o professor por não ter agido como deveria e a desculpabilizar o aluno, vítima também das suas circunstâncias, vai um passo muito curto que muitos dão sem hesitar…

Nunca, desde que o aluno entrou na sala aos pontapés à bola até ser entregue à Directora de Turma, nunca ninguém perguntou ao aluno o que se estava a passar. Aconteceu alguma coisa? Queres falar? Estou aqui para te ouvir. Não me ouves? Vou pedir ajuda, espera um pouco, já volto, estou aqui para ti. Queres jogar à bola? Vamos lá para fora, eu jogo à bola contigo, estou aqui para ti. Sou teu professor, mas também me preocupo contigo.

Nunca. Em vez disso, o castigo, a admoestação, o confronto, a falta de empatia, a agressão física. Não toquem num aluno, nunca toquem num aluno, quando tocamos num aluno, tudo pode acontecer. E aconteceu. Neste caso, aconteceu.

O trecho que transcrevi não resume por inteiro o texto publicado, que tenta enquadrar o caso na problemática mais vasta da integração escolar de menores em risco, fazendo algumas reflexões pertinentes. No entanto, parece-me que o colega olha mais para a realidade que conhece no país onde trabalha, esquecendo que em Portugal a actuação da maioria das CPCJ é pouco eficaz, há crianças em risco que ficam meses à espera de uma simples consulta psiquiátrica ou de uma intervenção da segurança social. E sobre o funcionamento dos tribunais de menores e a sensibilidade e as decisões de alguns juízes, nem valerá a pena falar…

No meio disto tudo, só as escolas assumem por inteiro a sua responsabilidade perante estes menores, recebendo-os diariamente e tentando dar-lhes tudo o que têm para lhes oferecer. Claro que para os professores este é quase sempre um trabalho sem rede, difícil e arriscado. Quando alguma coisa falha, há pouquíssima margem de manobra para controlar o que possa acontecer a seguir. Como é óbvio, a solução destes problemas não é capacitar super-professores para se transformarem em psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais ou mediadores culturais dos alunos problemáticos. Passa, se queremos uma escola inclusiva à qual estes alunos também pertencem, por integrar todas essas valências no ambiente escolar.

Entre as dezenas de reacções que o post de João André Costa suscitou, também se encontra a resposta do professor agredido. Por ela se percebe uma coisa muito simples de entender quando se é um professor no terreno: por vezes, e embora apliquemos toda a experiência, sensatez e profissionalismo de um professor, há situações que escapam mesmo ao nosso controle. Finalizo, então, com o testemunho de Aurélio Terra:

Como Professor que levou no focinho só espero que o texto de João André Costa seja um exercício de pura ironia, embora me pareça mal conseguido aqui e acolá. Se pelo contrário, de modo sério, quer insinuar inabilidade minha para lidar com aquela situação então gostaria que tivesses estado no meu lugar para que eu pudesse ver como é que devia ter agido. Acredito, prefiro assim, que está do meu lado e que manifestou essa solidariedade através daquele texto. Se é é assim o meu muito obrigado.
Apesar dos meus 63 anos, não sou um “velhinho” que se arrasta pela escola. Tinha capacidade física para resolver a situação de outra forma. Aí ninguém me valia e a minha carreira que conta já com 43 anos de serviço terminaria de forma inglória.
Que este episódio, do qual não avanço pormenores por estar entregue aos tribunais, sirva para todos nós Professores nos indignarmos com a insegurança com que desempenhamos a nossa missão com a melhor de todas as intenções. Obrigado a todos, os colegas que que se solidarizaram comigo.

Música de Natal… politicamente incorrecta?

É uma cantiga de Natal heterodoxa, difícil de cantar, mas belíssima – uma das mais originais e comoventes músicas natalícias de sempre.

Fairytale of New York, uma criação da banda irlandesa The Pogues, assinalou por aqui o Dia de Natal de 2017.

Pois há dias descobri, perplexo, que a brigada do politicamente correcto resolveu implicar com a canção. Pelo meio de acusações de que a letra é ofensiva para a comunidade gay, há já quem queira censurar a cantiga. O DN conta a história…

Passaram 31 anos desde que os Pogues lançaram Fairytale of New York, uma cantiga que conta a história de dois vagabundos que interrompem a lástima dos seus dias para viver um amor de Natal.

Na Irlanda, terra de origem da banda, estalou nesta semana uma polémica, quando um locutor da rádio nacional pôs em causa o uso da expressão “faggot” na canção, alegando que era linguagem imprópria e ofensiva para a comunidade LGBT.

“Perguntei a dois colegas gays o que achavam disto”, escreveu Eoghan McDermott num tweet que entretanto já apagou. “Um achava que se devia censurar, outro disse que se devia simplesmente banir a canção. Nenhum deles gosta da música. A expressão não tem nenhuma utilidade social e deve sair.”

Nas horas seguintes, as redes sociais explodiram, com gente a apoiar a ideia de que a frase era homofóbica, e com outra a chamar ao locutor de rádio e seus seguidores a “brigada do politicamente correto”.

Tanto que o próprio vocalista Shane McGowan veio a público responder à polémica: “A palavra foi usada pela personagem, porque cabia no seu tipo de discurso”, disse num comunicado da sua editora, a Virgin Media.

“Não é suposto que ela seja uma mulher simpática ou sequer salutar. É uma mulher de uma certa geração, num certo momento da sua história em que a sorte se esgotou e ela está desesperada.”

Sem mais comentários sobre uma estupidez e falta de juízo que me deixa sem palavras, resta-me finalizar com uma interpretação da canção de que aqui se fala. Não querendo repetir o post do ano passado, escolhi uma das dezenas de covers que esta música já tem. Fugindo de algumas interpretações nitidamente sem pedalada para a tarefa exigente que é recriar o original – sobretudo a voz da malograda Kristy MacKoll – escolhi a versão de um grupo de jovens músicos irlandeses que consegue duas coisas interessantes: fugir da lamechice, preservando a força e a mensagem da cantiga original.