António Arnaut (1936-2018)

António_Arnaut.jpgFoi jurista, lutador antifascista, fundador, militante, dirigente e presidente honorário do PS, deputado e ministro dos Assuntos Sociais do II Governo Constitucional. Ficará para a posteridade como o “pai” do Serviço Nacional de Saúde.

A criação do SNS foi, naqueles idos de 1979, uma medida pioneira e de largo alcance a que nem todos se quiseram associar. Pelo que homenagear António Arnaut passa também por relembrar como o seu projecto uniu as forças políticas de esquerda na viabilização da lei que garantia cuidados de saúde gratuitos a todos os portugueses, construindo uma das mais importantes realizações da democracia portuguesa. Contra a direita, que pretendia que a saúde continuasse reservada apenas aos que a pudessem pagar.

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O gangue de Alcochete e o seu presidente

gangue-alcochete.JPGNada escrevi, até hoje, sobre o assalto criminoso ao campo de treino sportinguista nem sobre o inenarrável e aparentemente inamovível presidente do clube. E nem tem a ver com o facto de as polémicas futebolísticas estarem habitualmente afastadas deste blogue, por opção assumida do seu autor. É que por vezes me desagrada escrever sobre aquilo que é gritantemente óbvio. O que todos sabem e percebem, embora o sectarismo ou a clubite patológica os impeça de assumir publicamente.

Ainda assim, de tudo o que li sobre uma novela que parece ainda não ter terminado, destaco a crónica de ontem de João Miguel Tavares. Tal como ele, custa-me entender que pessoas que privaram com Bruno de Carvalho, que o apoiaram na conquista da direcção do clube e tomaram parte na sua equipa dirigente, venham agora afirmar, contritas, que não perceberam logo a bisca que ali estava. Pois eu, que nada percebo de futebóis e que só o conhecia de meia dúzia de fugazes aparições televisivas, não duvidei do carácter pouco recomendável da peça: uma evidência talvez difícil de explicar por palavras sem entrar em generalizações injustas, mas que, é um facto, entra pelos olhos dentro.

E nem a comparação com Sócrates, um tema obsessivo neste cronista, é despicienda: inebriada com a conquista do poder que um líder com óbvias falhas e limitações poderia apesar de tudo proporcionar, demasiada gente, dentro e fora do PS, se deixou seduzir pelo socratismo, colaborando na construção da imagem do político corajoso e determinado e aceitando não fazer perguntas acerca da origem e do destino dos muitos milhões que os projectos e as negociatas do socratismo fizeram circular pelo país.

Por que é que ninguém os via? Toda a gente os via. Só que aqueles que os admiravam fingiam não ver. Aquilo que Sócrates dava aos socialistas, tal como aquilo que Bruno de Carvalho dava aos sportinguistas, era tão valioso, que os impulsos autoritários, a obsessão com o “eu” ou a sede absurda de poder eram desvalorizados como idiossincrasias mansas ou meros traços de “carisma”. […] Nós tapamos voluntariamente os nossos olhos desde que estejamos a escutar música para os nossos ouvidos. Da próxima vez que alguém se espantar como engolimos 40 anos de ditadura, é olhar à volta. A nossa ridícula tolerância para com as várias espécies de animais ferozes continua igualzinha ao que sempre foi. Sócrates e Bruno de Carvalho têm isto em comum: são ambos fruto da nossa complacência, da nossa cegueira e da nossa passividade.

O falso dilema

antonio-costa.jpg“É mais importante contratar mais funcionários públicos do que aumentar os salários”

O dilema do primeiro-ministro foi enunciado na grande entrevista publicada pelo DN no passado fim-de-semana: aumentar os salários dos trabalhadores do Estado que viram os seus rendimentos minguados devido à crise e aos cortes salariais ao mesmo tempo que as progressões eram congeladas? Ou aproveitar a folga financeira para contratar mais profissionais, reforçando os serviços notoriamente desfalcados e aliviando a carga de trabalho sentida pelos funcionários no activo?

Mas este é, em grande medida, um falso dilema. Por exemplo, há uma semana atrás não houve dificuldade, no despacho governamental de nomeação de alguns responsáveis do Banco de Portugal, em passar por cima do constrangimento apontado por António Costa: não só fizeram novas contratações como aumentaram para quase o dobro o salário correspondente ao exercício dos cargos. Aos novos que chegaram e a quem já lá estava.

Os três membros do recém-nomeado conselho de auditoria do Banco de Portugal terão direito a uma remuneração que é quase o dobro da que era atribuída a estes lugares no tempo de Maria Luís Albuquerque, como ministra das Finanças. Segundo o que resulta do despacho de nomeação publicado esta sexta-feira, a remuneração do novo presidente será de 2.821,14 euros por mês, quando no mandato anterior se ficava pelos 1.602,37 euros.

Sionismo, o nazismo do século XXI?

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Há uma diferença de escala, de intensidade do conflito. Não há execuções em massa, matam-nos à vez. Nem campos de extermínio; toda a Palestina ocupada é um imenso gueto onde os palestinianos que não desistiram da sua pátria sobrevivem à mercê da violência, das anexações de território e do terrorismo de estado promovido por Israel.

Mas a política racista do governo israelita, o holocausto em lume brando que vitima o povo palestiniano desde 1948, a afirmação da raça superior pela expulsão ou a segregação dos que não partilham a pureza étnica e religiosa do “povo eleito”, as condições sub-humanas em que os palestinianos são condenados a viver, pela privação da terra, da água e do trabalho; as humilhações quotidianas a que são submetidos; tudo isto encontra um claro paralelo com a forma como os próprios judeus foram maltratados  e exterminados pelo nazismo.

Por muito que seja politicamente incorrecto dizê-lo, o sionismo de Netanyahu é o que mais se assemelha, no século XXI, à política racista do estado nazi. O estatuto dos territórios palestinianos só encontra paralelo nos bantustões da África do Sul no tempo do apartheid. E Israel é o único estado do mundo a quem a comunidade internacional permite, impunemente, a conquista e colonização de novos territórios. A Grande Alemanha de Hitler tem no Grande Israel dos sionistas um herdeiro à altura. E os descendentes das vítimas sobreviventes tornaram-se novos e ainda mais sofisticados opressores e assassinos.

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Há, contudo, uma diferença importante. Enquanto os nazis tentavam esconder ao mundo os aspectos mais macabros e tenebrosos da sua solução final para os judeus e outros indesejáveis ao Reich, os Israelitas, imbuídos da superioridade moral de todos os eleitos, fazem o que fazem à vista de toda a gente. Se durante a II Guerra Mundial, e depois dela, muitos puderam alegar que desconheciam o que se passava nos campos da morte nazis, hoje ninguém poderá dizer que ignora a violência gratuita e desproporcionada que é quotidianamente exercida por israelitas contra os palestinianos.

Como diz o poema, vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar.

Karl Marx (1818-1883)

0euro-trier.jpgKarl Marx nasceu, faz hoje 200 anos, na cidade alemã de Tréveris, que comemora a data com a emissão simbólica da nota de zero euros que ao lado se reproduz.

Um autor fora de moda, num mundo onde aparentemente triunfou o capitalismo sem pátria cuja derrota, às mãos do proletariado, Marx tantas vezes anteviu.

Contudo, se os projectos políticos directamente derivados do marxismo acabaram irremediavelmente por soçobrar ao embate da idílica utopia com a dura realidade, o pensamento político, económico e filosófico de Marx nem por isso se tornou definitivamente desactualizado e amarrado ao passado.

Leituras não dogmáticas das ideias de Marx – que ao que consta não gostava, ele próprio, de ser considerado marxista – continuam a ser úteis à compreensão do mundo em que vivemos. E da forma como chegámos até aqui.

A história de toda a sociedade até agora existente é a história de lutas de classes.

O homem livre e o escravo, o patrício e o plebeu, o barão feudal e o servo, o mestre de uma corporação e o oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travaram uma luta inin­terrupta, umas vezes oculta, aberta outras, que acabou sempre com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com o declínio comum das classes em conflito.

 

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O arco da corrupção

No dia em que Sócrates se desfilia do PS, pondo fim a uma situação que, segundo o próprio, era de “embaraço mútuo”, convém recordar que a teia da corrupção e das ligações ilícitas entre poder económico e político não envolve apenas Sócrates e os seus amigos e, do lado dos banqueiros, o Salgado ex-dono-disto-tudo.

A promiscuidade e o tráfico de influências não nasceram com a chegada de Sócrates ao poder, embora se possa suspeitar – os tribunais se encarregarão de o confirmar, ou não – que o socratismo lhes deu uma amplitude nunca antes alcançada.

Uma lista, certamente não exaustiva, que corre pelas redes sociais, recorda-nos tantos outros casos que envolveram dirigentes ou gente influente entre os partidos do chamado arco da governação Que acabaram, quase todos, no arquivamento ou na absolvição por falta de provas.

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Quarenta e quatro anos depois da Revolução dos Cravos, e quando a Terceira República já conta quase a mesma idade que tinha a ditadura quando foi derrubada, torna-se cada vez mais evidente que a refundação do regime, ou melhor, que a Revolução de Abril necessária para o século XXI não se faz com tanques nas ruas nem cravos nas espingardas: passa por um combate sem tréguas à corrupção e aos corruptos que se enquistaram no sistema político, económico e financeiro.

A dimensão do saque organizado ao Orçamento do Estado e ao património público dos últimos vinte anos é tal que torna inviável o desenvolvimento económico e a justiça social que queremos no nosso país. Quando a riqueza que é produzida, o rendimento do trabalho dos Portugueses e o dinheiro dos seus impostos vai quase todo para pagar as dívidas, os desfalques, as negociatas ruinosas dos empresários do regime e os buracos do sistema financeiro, é evidente que apenas restarão migalhas para manter a funcionar escolas, hospitais e restantes serviços públicos.

No momento em que todos os partidos condenam ou se dizem, no mínimo, envergonhados com o socratismo, talvez seja altura de dar um passo em frente contra a oligarquia de trafulhas e de corruptos que tem desgraçado o nosso país, a nossa economia, o nosso futuro colectivo: forçar a revelação dos nomes de todos os grandes devedores dos bancos intervencionados pelo Estado e de quem, no interior dessas instituições, autorizou os empréstimos sem garantias.

Haverá coragem para o fazer, ou ficaremos apenas pelo Sócrates e os seus comparsas?…

Primeiro de Maio

A assinalar o Dia do Trabalhador, algumas imagens do Primeiro de Maio de 1974 em Lisboa, quando, pela primeira vez após a longa ditadura, foi comemorado em liberdade.

Foi a maior manifestação de sempre em Portugal, num dia em que se calcula que terão saído à rua, em diversas cidades do país, mais de um milhão de portugueses, para festejar a liberdade e a democracia recém-conquistadas.

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© Gérald Bloncourt