António Costa e a guerra na Ucrânia

A guerra é sempre dramática, mas quando é entre militares é a regra do jogo. Quando é sobre civis, as suas habitações e viaturas quando estavam a fugir, já não estamos a falar de uma guerra normal, estamos a falar de algo de algo absolutamente criminoso que visa a pura destruição da vida das pessoas e do futuro de um país.

A guerra também tem regras e tem de obedecer à lei. Há valores de humanidade que têm de ser preservados e isto é inadmissível. Os responsáveis por estes crimes de guerra têm de ser levados à responsabilidade e punidos exemplarmente.

As palavras de António Costa, a um tempo duras e emotivas, fazem todo o sentido na denúncia da irracional barbárie da guerra, da violência gratuita e desproporcionada, do terrorismo de estado sobre populações indefesas. Reflectem o amplo consenso entre chefes de Estado e de Governo do mundo ocidental neste conflito: há um exército invasor, o russo, e um povo a ser chacinado, o ucraniano.

Mas ganhariam outro alcance se António Costa e outros líderes do autoproclamado mundo livre tivessem a coragem de as proferir também em defesa, por exemplo, da população civil martirizada nos territórios palestinianos em cada incursão punitiva do exército israelita.

A indignação selectiva perante os crimes de guerra não é o caminho para a paz mundial. A esta não basta que se calem as armas, ela exige também que se faça justiça.

Ouvir que pessoas?

“Temos de ouvir as pessoas” é um discurso político perfeito. Passa por cima de recomendações técnicas, de formas estruturadas de participação cívica e de obrigações de transparência. Só ficamos sem saber afinal quais pessoas. Moedas está a ouvir sempre as mesmas quatro ou cinco.

O autor do tweet tem em mente a recente recusa do presidente da Câmara de Lisboa a cumprir uma decisão democrática do executivo camarário com a qual não concorda. Para a justificar, Carlos Moedas recorre a uma mania que parece ter pegado de estaca, entre a actual geração de políticos medíocres e cobardes, a de invocar a necessidade de ouvir “pessoas” indeterminadas em vez de escudar as decisões em pareceres técnicos, estudos credíveis e evidências demonstráveis e respeitar as deliberações de órgãos com legitimidade democrática para o efeito.

Também na Educação, algumas das decisões mais absurdas e antipedagógicas têm sido impostas ou sugeridas com base no imperativo de “ouvir a voz dos alunos”. Os alunos não falam em uníssono nem querem todos o mesmo. Se soubessem exactamente o que querem ou o que lhes fará falta para a vida nem precisariam, em boa verdade, de andar na escola. Mas não é difícil arranjar um punhado deles que digam o que o ministro ou a OCDE querem ouvir. Que a sua opinião seja mais respeitada e tida em conta do que o conhecimento e a experiência profissional dos seus professores, isso diz muito da qualidade das actuais políticas educativas e da concepção facilitista e mistificadora que se tem da Educação. Quase sem se dar conta, o serviço educativo vai-se transformando num bem de consumo e o aluno num cliente da escola. E o cliente, já se sabe, é suposto ter sempre razão…

A culpa não é dos professores

Se o primeiro-ministro não cumpre as promessas que fez aos utentes (e sobreviventes!) do IP3, a culpa não é dos professores: esta mensagem saiu da sessão de encerramento do Congresso da Fenprof e a ideia é passá-la para a opinião pública. Pois o que foi dito, há quatro anos atrás, é que estas e outras obras necessárias seriam feitas com o dinheiro que se iria poupar não recuperando todo o tempo de serviço roubado às carreiras dos professores.

Afinal, nem dinheiro para salários e carreiras, nem para as obras prometidas. Mas não terá faltado para outras coisas, e são essas opções que, estando em causa a despesa pública, o Governo deve ser instado a explicar. Uma coisa é certa: não fomos nós, os professores, que ficámos com o dinheiro.

Ao intervir durante a sessão de encerramento do 14.º Congresso Nacional dos Professores, que se realizou sexta-feira e hoje, em Viseu, Mário Nogueira destacou esta ação de luta de entre as que foram aprovadas.

Segundo o dirigente, a Fenprof já contactou a comissão de utentes do IP3 e pediu-lhe apoio para distribuir panfletos aos automobilistas, no dia 02 de julho, quando se completam “quatro anos sobre a declaração do senhor primeiro-ministro de que não há dinheiro para tudo e, por isso, ou se fazem as obras do IP3 ou se conta o tempo de serviço aos professores”.

“Senhor automobilista, somos professores, isto está a desgraça que o senhor vê e com certeza sofre por passar aqui todos os dias no caminho para Coimbra ou para Viseu. Mas queremos dizer que a culpa não é nossa, porque a nossa carreira também está estilhaçada” é a mensagem que pretendem passar, avançou.

Será feito o apelo para que todos se juntem à luta, para exigirem quer as obras necessárias no IP3, quer “o que é justo para a carreira docente”, acrescentou.

A guerra segundo Edgar Morin

Vivemos uma paz guerreira, os nossos corpos instalados na paz, os nossos espíritos entre bombas e escombros. Atacamos um inimigo com palavras e ele ataca-nos com ameaças, mas nós dormimos numa cama e não num abrigo.

Edgar Morin, filósofo francês de origem judaica, completou já 100 anos de vida, mas a idade não lhe retirou lucidez na análise que faz da guerra na Ucrânia. Um texto ponderado, sensato e equilibrado, que evita o exagerado emotivismo e começa por recordar o óbvio: há na Europa uma onda de solidariedade sem reservas com o povo ucraniano, vítima insofismável da invasão russa. Mas enquanto uns, protegidos pelo guarda-chuva norte-americano, recebem da Rússia apenas ameaças e bravatas inconsequentes, os outros vão vendo as suas cidades e as suas vidas paulatinamente destruídas pelos bombardeamentos.

Recorda-nos também alguns padrões das guerras soviéticas, que persistem no novo império em formação: os ataques massivos de artilharia, as violações em massa, a linguagem do terror. E nota que a guerra, à qual o envio de armamento ocidental para a Ucrânia atenuou o desequilíbrio de forças inicial, está agora para durar. Embora uma guerra nuclear global seja um cenário improvável, pela garantia de destruição mútua que implicaria, Morin não põe de parte nem o recurso a armas nucleares tácticas, de alcance mais limitado, nem o alastramento do conflito a países vizinhos. E considera inevitável uma maior restrição de liberdades e o aumento da vigilância dos estados sobre as populações.

Para escapar à lógica infernal da guerra, o filósofo francês vê numa paz de compromisso que inclua a neutralidade da Ucrânia e cedências territoriais legitimadas por referendo a única solução viável. Mas recorda que as imensas riquezas do solo ucraniano aguçam o apetite das superpotências. E integra a busca de uma paz estável no quadro mais vasto das complexas relações entre as grandes potências e os problemas geopolíticos da Europa de Leste, que a desagregação abrupta da URSS e do Pacto de Varsóvia deixou mal resolvidos.

A Ucrânia é mártir não só da Rússia mas também do agravamento das relações conflituosas entre os Estados Unidos e a Rússia das quais fazem parte evidentemente o alargamento da NATO, ele próprio inseparável das inquietudes suscitadas pela guerra russa na Chechénia e a sua intervenção militar na Geórgia.

A salvação da Ucrânia não está apenas na sua libertação da invasão russa, mas também em se libertar do antagonismo entre a Rússia e os Estados Unidos.

Esta dupla libertação permitiria aos países da União Europeia libertarem-se igualmente deste conflito e procurarem unir a segurança e a autonomia.

As sanções contra a Rússia, ao atingirem duramente não apenas o regime de Putin, mas também o povo russo, não sabemos até que ponto, atingem também os sancionadores voltando-se parcialmente contra eles: não é só o seu aprovisionamento em energias e em alimentação que está ameaçado, é sem dúvida, com a inflação a crescer e as restrições que virão, a sua economia e toda a sua vida social. Uma crise económica é sempre, ela própria, geradora de regressões autoritárias e da instalação duradoura de sociedades de submissão.

A Rússia de Putin é um abominável regime autoritário. Mas ela não é comparável à Alemanha hitleriana; o seu hegemonismo pan-eslavo não é, como foi o hitleriano, a vontade de colonizar a Europa e de escravizar os povos racialmente inferiores. Qualquer hitlerização de Putin é excessiva.

Nós estamos num mundo dominado pelos antagonismos entre superpotências e entregue aos delírios religiosos, étnicos, nacionalistas, racistas.

Por muito repugnantes que sejam as superpotências a diversos títulos, o apaziguamento dos seus conflitos é uma condição sine qua non para evitar os desastres generalizados. Assim, devemos aspirar a um compromisso. A humanidade não ficaria a salvo; ganharia uma prorrogação e, talvez, uma esperança.

“Uma elite cultural fechada em si mesma”

João Reis é um jovem escritor português que despertou, nesta entrevista ao JN, a minha atenção. No seu livro mais recente, Cadernos da Água, explora uma realidade que parece incontornável num futuro cada vez mais próximo e, se calhar, já presente: a escassez global de água potável e as secas e alterações climáticas que a potenciam.

Vai para a minha lista dos autores a ler proximamente enquanto por aqui ficam, para já, alguns dos excertos mais lúcidos e pertinentes de uma longa entrevista que se espraia sobre temas vastos e interessantes: política, civilização, cultura, sociedade, elitismos, natureza humana ou literatura. Em suma, uma reflexão estimulante e que dá que pensar…

Basta pensarmos no que sucedeu previamente à Segunda Guerra Mundial, só para referir um dos exemplos mais óbvios, para percebermos que os políticos não são, em geral, sujeitos dotados de uma grande visão de futuro ou sequer de uma inteligência mediana. Penso que a maioria dos políticos tem como principal objetivo a garantia do seu bem-estar pessoal, não o da sociedade, pelo que lhe falta a necessária capacidade de reflexão a longo prazo. O mesmo se aplica à generalidade da população, que vive de modas e concentrada, de modo por vezes quase doentio, na exaltação do seu ego e daquilo que vê como grandes feitos individuais. Pensar em outrem, noutros povos, noutras espécies, no mundo não é algo inato a muita gente.

O progresso deve-se quase sempre a uma minoria que tenta inculcar um certo tipo de pensamento e de mudanças à sociedade. É curioso refletir sobre quem pertence a esta minoria; ao contrário do que se possa pensar, não é o assim designado «povo» que leva a alterações sociais. Esse esteve sempre sob o jugo das contenções físicas e económicas impostas por uma minoria que sobre ele exerce violência (física e económica, precisamente), e demasiado preso à luta pela sobrevivência e, por conseguinte, atolado em problemas que o impedem de pensar nestas eventuais conquistas civilizacionais. E, como é evidente, os mais poderosos, vulgo, os mais ricos, nunca tiveram nenhum interesse em mudar o que quer que fosse, daí estarem sempre aliados ao pensamento político conservador, às religiões, etc. Quem sempre propagou as ideias mais progressivas foi uma minoria que viveu ou vive acima do limiar da luta pela sobrevivência, mas que também não pertence ao clube restrito dos mais ricos. Não é por acaso que a classe média tem sido destruída: a classe média lia mais, inquiria mais, exigia mais. Se se tiver uma população pobre, que não lê nem estuda, e vive entre o polo da mera subsistência e o da luta pela riqueza material, sem que a esta riqueza material esteja sequer associado qualquer interesse por cultura ou política, temos caminho aberto para políticas retrógradas, para a expansão da extrema direita, e para a violência e o tradicional pensamento mesquinho dos políticos.

Não creio que o homem seja naturalmente bom, isso foi uma patetice de Rousseau. Naturalmente, o homem nem é bom nem é mau, porque para se saber se é bom ou mau, precisamos de lhe aplicar conceitos éticos, artificiais, que ao longo da História foram transmitidos sobretudo sob a forma de religiões ou outras mitologias. A sociedade, no sentido de civilização, é na verdade a tentativa de conter os – digamos assim – maus instintos do indivíduo, que no fundo não são bons nem maus instintos, mas apenas o que são. O facto de termos de viver em comunidades de centenas, milhares, milhões de pessoas obriga-nos a sujeitar estas pessoas a um determinado código de valores, e nada mais. Não creio que a maioria das pessoas seja «má» no sentido ético que por norma atribuímos à palavra. No entanto, também não creio na extrema bondade do indivíduo, que acho capaz de cometer as maiores atrocidades se os seus atos permanecerem ocultos, e muito menos na da sociedade, que mastiga e cospe os indivíduos que a constituem sem qualquer problema. Todavia, a sociedade é necessária para que os indivíduos receiem um qualquer tipo de castigo e se coíbam de agir sem pensar nas consequências. Se a sociedade não aplicar leis, normas e proibições, não creio que seja possível fazer progredir a humanidade.

Temos uma elite cultural fechada em si mesma, retrógrada, quase toda proveniente de um meio privilegiado, que ignora e até enxovalha tudo o que é novo e diferente, em especial os grandes temas que preocupam as novas gerações por todo o mundo, como as alterações climáticas, a globalização, a transição para um mundo de trabalho mais precário, a incapacidade de um jovem trabalhador se sustentar a si mesmo, etc. Continuam a publicar obras e mais obras sobre factos ocorridos há décadas, revisitando temas batidos a que nada acrescentam, e quando tentam abordar a atualidade, fazem-no com pinças e uma sobranceria que lhes é característica em tudo o que escrevem.

Há uma tendência geral para se encurtar a narrativa, por forma a tentar atrair o leitor contemporâneo. No meu caso, não é algo que me incomode, porque o estilo que uso se coaduna com livros mais curtos, exigindo que a obra não se alongue demasiado, e de resto prefiro romances curtos a calhamaços que poderiam ser reduzidos a metade em muitos dos casos. No entanto, é com inquietação que assisto a uma cada vez maior incapacidade para se ler, e sobretudo para se entender o que se leu. As pessoas passam demasiado tempo nas redes sociais, em partilhas de conteúdo desprovido de conteúdo, em beijos e abraços virtuais, e decerto sobrará pouco tempo para ler.

Primeiro de Maio sangrento

Há 40 anos atrás, o Dia do Trabalhador foi assim: o governo de direita liderado por Francisco Pinto Balsemão enviou a polícia de intervenção para o Porto, com ordem de agredir os trabalhadores que comemoravam, como habitualmente se faz em Portugal desde a Revolução de Abril, o Primeiro de Maio.

A violência foi completamente desproporcionada e gratuita: a manifestação tinha terminado, as esperadas provocações entre os adeptos da CGTP e da UGT foram minimizadas, mas os polícias traziam ordem para fazer sangue: pela noite dentro, correrias e cacetada à discrição pelas ruas do centro do Porto. Jornalistas, transeuntes, novos e velhos “apanharam como os outros”. Durante umas horas, reviveram-se no Porto os horrores da repressão policial dos tempos de Salazar e Caetano. No final uma centena de feridos e dois mortos: um homem alvejado pelas costas e um rapaz de 17 anos que estava a ver de longe e nem participou na manifestação.

Os criminosos ficaram impunes, como geralmente sucede com os “crimes de sangue” cometidos ou ordenados por gente de direita. Mas houve responsáveis morais e materiais: o execrável ministro da Administração Interna, Ângelo Correia, que mais tarde ser tornaria patrão e padrinho político de Passos Coelho, o comandante da força policial que ordenou a actuação selvática das forças às suas ordens e os agentes e graduados que, desvairados, agrediram e mataram na noite portuense.

Quando partidos e intelectuais de direita vaticinam o fim do PCP e de outras forças de esquerda e se arvoram em campeões da liberdade e da democracia, convém não esquecer que alguns dos que hoje condenam a severa repressão de Putin às manifestações contra a guerra nas cidades russas pertencem a partidos políticos que, nesta matéria, têm também sangue nas mãos.

Para quem não recorda ou desconhece, esta peça da Visão faz um relato objectivo e pormenorizado de um Primeiro de Maio que a direita gostaria que caísse no esquecimento.

Os negócios da guerra

A Rússia praticamente duplicou as receitas provenientes da venda de combustíveis fósseis a países da União Europeia desde 24 de fevereiro, quando iniciou a ofensiva militar contra a Ucrânia. Se, por um lado, o número de vendas destes combustíveis caiu nos últimos dois meses, por outro os preços aumentaram a nível global – e Moscovo, que originou essa subida ao invadir o país vizinho, está a sair beneficiada.

Sessenta e dois mil milhões de euros é o valor recebido pela Rússia durante os dois meses de guerra na Ucrânia pelas exportações de petróleo, gás e carvão, segundo uma análise ao transporte de cargas aéreas pelo Centro de Investigação de Energia e Ar Limpo (CREA, na sigla original).

Só a União Europeia importou combustíveis no valor de 44 mil milhões de euros neste período, contrastando com os 140 mil milhões na totalidade do ano passado, ou seja, 12 mil milhões por mês. Significa isto que o valor mensal das exportações russas quase duplicou, fixando-se neste momento em 22 mil milhões de euros.

Não são precisas contas muito complicadas para perceber que este jogo das sanções económicas contra um país do qual se depende economicamente rapidamente se volta contra o sancionador.

Tudo isto é o resultado de opções políticas e geoestratégicas tomadas há trinta anos atrás, quando o bloco socialista se desmoronou e a bipolaridade da guerra fria deu lugar a um mundo multipolar. Teceram-se loas à globalização económica e financeira, aprofundou-se a divisão internacional do trabalho, intensificaram-se as interdependências entre distintas economias e sistemas políticos. Recuperou-se a velha fábula liberal de que o mercado livre resolve tudo e acreditou-se, como se viu com a rápida integração da China e da Rússia na economia global, ser possível separar o desenvolvimento económico dos avanços na democracia política, no progresso social e no respeito pelos direitos humanos.

Subitamente, o enfrentamento da Rússia revela as fragilidades de um pequeno continente que concentra algumas das maiores economias mundiais: carece das matérias-primas, dos combustíveis e da produção industrial em que assentou a sua prosperidade económica e o bem-estar das suas populações.

Depois dos povos ucraniano e russo, que pagam em mortos e destruição o preço da guerra, também os restantes europeus serão chamados a prestar o seu tributo a este choque mortífero dos imperialismos e nacionalismos que se enfrentam na guerra da Ucrânia. A leste a a ocidente, as cleptocracias e oligarquias, os vendedores de armas e os de combustíveis, esses continuarão a enriquecer.

O camarada janta?

Imagem de Henricartoon

Incompreensível, a posição do PCP sobre a guerra na Ucrânia. Quando a realidade nos entra literalmente pelos olhos dentro, como é possível ter medo de palavras como invasão e guerra, perante o avanço de tropas russas em território ucraniano e as dezenas de milhares de mortos do confronto entre ambas as partes?

Há uma velha máxima, atribuída a Napoleão e ainda hoje válida tanto na guerra como na política, que aconselha a não interromper o inimigo quando este está a cometer um erro. Ora o PCP não é meu inimigo, e é isso que me leva a não optar pelo silêncio. Nunca militei no PCP ou em qualquer outro partido, mas sempre considerei este partido essencial à nossa democracia. Custa-me vê-lo a definhar até ao completo desaparecimento, não porque as causas sociais e políticas que defende estejam resolvidas ou ultrapassadas, mas pela forma desastrosa, irracional e insensível como está a lidar com a guerra na Ucrânia. O declínio do PCP é também o declínio dos ideais e valores de esquerda, num mundo onde velhos e novos fascismos e fundamentalismos ganham força a um ritmo preocupante, uma tendência que, a manter-se, só pode dar maus resultados.

Como é possível que um partido que sempre defendeu os povos oprimidos do mundo não consiga perceber que os ucranianos estão também a ser vítimas inocentes de um conflito? Como se pode ignorar que a Rússia de Putin é uma ditadura oligárquica, conservadora, militarista e capitalista, já nada tendo a ver com os ideais socialistas e comunistas que inspiraram o PCP ao longo da sua história? Que os seus aliados objectivos, no Ocidente, são hoje os partidos e movimentos de direita e extrema-direita?

Claro que o PCP está cheio de razão em muito do que refere a propósito do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Lembrando que o conflito não começou agora, e que os dirigentes ucranianos têm responsabilidades na repressão da minoria russa ou na aproximação imprudente à NATO. Denunciando a hipocrisia ocidental, sobretudo dos EUA, e os interesses económicos e geoestratégicos que se jogam em torno de uma guerra na qual russos e ucranianos continuarão a ser carne para canhão. Apelando a um entendimento político que possa conduzir a uma paz estável e duradora na região.

Tudo isto é verdade, e o PCP pode e deve reafirmá-lo sempre. Mas deveria começar pelo óbvio: o reconhecimento e a condenação clara e inequívoca da invasão russa da Ucrânia. Independentemente de tudo o mais que se possa dizer, há claramente, neste conflito, um país que agride e outro a ser agredido. Quem é incapaz de o reconhecer está, objectivamente, a fazer o jogo do agressor.

Fascismo ou neoliberalismo?

Vamos tirar-vos o emprego estável, a educação gratuita, a saúde pública, a possibilidade de comprar casa, um nível de vida melhor do que os vossos pais tiveram e, por fim, ameaçar-vos que a democracia acabará se não votarem em nós. Parece uma excelente estratégia.

Na falta de alternativas verdadeiramente à esquerda, e com os fascismos a ganharem terreno, como se vê na impunidade com que Putin e o seu bando de oligarcas estraçalham a Ucrânia, estaremos condenados a viabilizar e a reforçar projectos políticos neoliberais para travar o passo ao fascismo? O dilema que os franceses irão amanhã resolver pode bem vir a generalizar-se, no futuro, aos outros europeus.

Ainda a guerra na Ucrânia

Pelo meio da indignação e do sofrimento, da propaganda e da desinformação, as posições face à guerra na Ucrânia têm vindo a alinhar em pelo menos uma de três atitudes distintas:

  • A daqueles que condenam de forma veemente e sem reservas a invasão russa da Ucrânia ­– e fazem questão de assinalar que é de guerra que se trata, e não uma “operação militar especial” como pretendem Putin e os seus sequazes – mas de quem raramente ou nunca se ouviu uma condenação ou um lamento em relação a qualquer outro dos conflitos armados que ocorrem no mundo, tão ou ainda mais sangrentos do que o da Ucrânia, mas convenientemente afastados da Europa;
  • No pólo oposto, há os que sempre defenderam os oprimidos e o direito de todos os povos à autodeterminação e à resistência, por todos os meios ao seu alcance, contra as agressões imperialistas – mas que agora sentem um estranho embaraço em condenar o imperialismo russo e assumir o direito dos ucranianos a decidirem livremente o seu destino;
  • Finalmente, há os defensores da paz, os que se opõem à guerra como forma de resolução de conflitos, que não defendem a submissão aos poderosos nem a lei do mais forte, mas percebem que, em todas as guerras, os perdedores são sempre os mais fracos e desprotegidos, as populações civis indefesas e os soldados de um e de outro lado que alimentam a guerra como carne para canhão.

Assumir esta última posição num clima de posições extremadas é que não é nada fácil. É impossível negar ao agredido o direito de se defender, mas deve ser denunciada a hipocrisia dos que atiçam uma guerra onde nunca se irão envolver. O direito e a vontade de resistir de uns não dá a quem os apoia o direito de lhes exigir sacrifícios supremos, como se tivessem os ucranianos de assumir o papel de guarda avançada da civilização ocidental enquanto todos nós, cá de longe, vamos fazendo a nossa vida despreocupada.

Pelo meio, e perante a intensidade que o conflito vai assumindo, fica a tarefa quase impossível de alcançar a paz. Que não será obtida por uma rendição em toda a linha da Ucrânia, que já se percebeu que não irá acontecer. Mas a ideia de uma derrota militar da Rússia também não é credível. Negociações sérias para a obtenção da paz serão, mais tarde ou mais cedo, inevitáveis. O poderio militar russo demonstrou já o seu poder destruidor e a crueldade bárbara colocada nalgumas das suas acções. Mas revelou também as fragilidades tácticas e estratégicas das suas forças convencionais.

Apesar da desproporção de forças, tem havido uma muito maior coesão do lado ucraniano e uma utilização bem mais eficaz da informação e da propaganda, que de certa forma, e em conjunto com o apoio militar e logístico de alguns países ocidentais, tem equilibrado a contenda. Do lado russo, ressaltam para já duas evidências: uma derrota e uma incógnita.

A derrota é a da unidade dos povos eslavos que a Rússia, desde os tempos imperiais, tenta fomentar e liderar. Se o sentimento nacionalista ucraniano era difuso ou quase inexistente no início da guerra, como reclamava Putin, ele ganhou força com a agressão do país até aqui tido por irmão. E não é só na Ucrânia que isto se passa: a Rússia tornou-se o inimigo e a ameaça comum de todos os povos europeus que bordejam as suas fronteiras. A estratégia da intimidação funcionou ao contrário do pretendido e a NATO, uma organização que muitos davam como quase moribunda na nova ordem internacional ganhou, sem disparar um único tiro, um novo protagonismo.

Quanto à incógnita, ela reside nos efeitos a curto e médio prazo que a guerra na Ucrânia terá na estrutura social e política da Rússia: as sanções económicas e as pressões internacionais, o cerco que se aperta sobre os oligarcas do regime, as tensões e contradições que se adivinham não só entre a população russa mas também nas forças militares. Continuará a mão de ferro de Putin a manter a coesão em todas as frentes, ou os bloqueios e contradições do putinismo começarão a abrir as brechas por onde poderá nascer uma alternativa política?