Paris já está a arder

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O movimento dos “coletes amarelos” voltou às ruas, este sábado, em França. Em Paris, o cenário é de guerra civil, com cenas de “violência raramente vistas”.

Segundo o último balanço das autoridades, registam-se mais de 80 feridos nos confrontos deste sábado em Paris, 14 dos quais são agentes das forças de segurança. Há pelo menos 255 detidos.

Devido às cenas de “violência raramente vistas”, como classificou o primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, foram encerrados vários espaços comerciais da capital francesa e pelo menos 19 estações de metro.

O presidente francês, Emmanuel Macron, garantiu hoje que nunca aceitará a violência. “Nada justifica que as forças da ordem sejam atacadas, que as lojas sejam saqueadas, que os transeuntes ou os jornalistas sejam ameaçados, que o Arco do Triunfo esteja contaminado”, afirmou o chefe de Estado, em Buenos Aires, no final da cimeira dos G20.

Há muitos factores que podem ajudar a tentar compreender as manifestações violentas dos “coletes amarelos” em Paris. A tradição contestatária dos Franceses, a tensão acumulada que subitamente explodiu, o gradual esmagamento das classes médias sob o peso dos impostos e do aumento do custo de vida, os quase inevitáveis aproveitamentos de grupos violentos e da extrema-direita que se apropriam do protesto nas ruas para os seus próprios fins…

Mas há um aspecto que gostaria de destacar: quando as manifestações pacíficas de cidadãos, mesmo reunindo centenas de milhares de pessoas, esbarram na indiferença do poder político e dos media; quando os decisores são incapazes de perceber os sinais do descontentamento e da necessidade de compreender e respeitar a vontade e o sentir do povo que os elegeu, estão no fundo a incentivar o recurso à desordem e à violência. Como se está a perceber, só desta forma os protestos são ouvidos e considerados.

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IVA a 6% nas touradas, mas…

…a tourada parlamentar continua isenta. De pagar IVA e de assumir quaisquer outras responsabilidades.

O uso fraudulento do sistema informático continua a fazer-se impunemente. O crime compensa duplamente, pois além de ganharem indevidamente ajudas de custo, como já se sabia, também contabilizam votos de deputados ausentes. Como agora se ficou a saber.

Dizem-nos que necessitamos de muitas aulas de Cidadania no ensino básico. Já o exemplo cívico que alguns deputados dão, ao povo que os elegeu, parece ser assunto completamente irrelevante.

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A fina flor do entulho

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© Henricartoon

Lição de cidadania

Lição de cidadania seria o deputado José Silvano, apanhado a falsificar presenças no Parlamento, renunciar de imediato ao seu mandato. Ou, mostrando-se incapaz, como parece ser, de reconhecer a gravidade e de assumir a responsabilidade dos seus actos, o próprio Parlamento dispor de mecanismos expeditos para limpar a nódoa.

Pois não basta aos deputados arrogarem-se a superioridade moral que lhes permite estabelecer, nesta e noutras matérias, que a palavra do próprio “faz fé”. Se querem ser fiscais de si próprios, então têm de aceitar a responsabilidade acrescida que daí decorre.

E não podem, quando um deles é apanhado com a boca na botija, refugiar-se num silêncio envergonhado que só serve para alimentar as piores suspeitas: quantos mais deputados haverá a fazer o mesmo?…

Alguém explique, à classe política que nos desgoverna, que enquanto os representantes eleitos do povo derem exemplos vergonhosos e ficarem impunes, rindo na cara do povo que os elegeu, escusam bem de vir impingir aos alunos do básico aulas de Cidadania.

Não é por acaso que há cada vez menos vontade, nas escolas, de levar os alunos em visita de estudo à Casa da Democracia. Não é de agora, mas a imagem que muitos deputados dão de si mesmos e do seu trabalho é profundamente desmoralizadora para os jovens e para quem os quer instruir nas virtudes da democracia.

Entretanto, enquanto o deputado Silvano continua agarrado ao tacho, o seu feito atravessa fronteiras. E era ontem merecidamente gozado pelo El País…

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Uma greve “agressiva”…

enfermeira[1]A greve cirúrgica dos enfermeiros, como já é conhecida, por direccionar o esforço da classe para os serviços onde irá ter maior impacto, adapta aos novos tempos o conceito tradicional de greve. Que tem vindo, como se sabe, a perder eficácia. A capacidade de organização e mobilização dos enfermeiros já está a deixar nervoso o Governo…

O movimento de enfermeiros que tem em preparação uma greve prolongada a partir de dia 22 deste mês em vários blocos operatórios recorreu a uma angariação de fundos para ajudar os profissionais que adiram à paralisação, que ficarão sem vencimento.
A meta era atingir os 300 mil euros para conseguir uma greve nos três maiores blocos operatórios dos hospitais públicos: Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, São João, no Porto, e Santa Maria, em Lisboa.
Este objetivo foi atingido no final da semana passada, levando o movimento de enfermeiros a prolongar a recolha de fundos e a alargar a paralisação a mais dois blocos operatórios: Setúbal e Centro Hospitalar do Porto.
Ao início da noite o movimento de enfermeiros já tinha conseguido recolher mais de 350 mil euros.

O que pode um governo fazer perante uma greve como esta, tendo em conta que poderá paralisar, durante um mês, os blocos operatórios dos maiores hospitais do país?

Não é fácil responder. Mas é fácil constatar a ausência de diálogo efectivo e de respostas satisfatórias aos anseios de uma classe há muito injustiçada. Ora isto potencia o descontentamento e leva os enfermeiros, que não desistem do que é justo, a endurecer a sua luta.

Para já, seja qual for a resposta do Governo – e esperemos que seja a mais sensata, a de encontrar soluções à mesa de negociações – há uma coisa que nunca deveria estar em causa: o respeito escrupuloso pelo direito constitucional à greve.

Entre os professores tivemos o exemplo recente de se invocarem falsos argumentos jurídicos para tentar inviabilizar a greve actualmente em curso. A ameaça velada de tentar prosseguir pelo mesmo caminho com os enfermeiros revela uma tentação perigosa deste Governo.

O Ministério da Saúde está a fazer uma análise jurídica à greve decretada pelos enfermeiros, que ameaça encerrar blocos operatórios de 5 hospitais do país. Na Assembleia da República, Marta Temido admitiu que a paralisação é “extraordinariamente agressiva”.

Há algumas coisas que os governantes, ou quem os aconselha juridicamente, parecem estar a esquecer. As greves são decididas pelos sindicatos e não dependem de qualquer autorização prévia ou parecer jurídico do Governo. As greves fizeram-se para causar prejuízos sérios ao patrão, e só assim é que fazem sentido. A forma indicada de ultrapassar conflitos laborais é a negociação com os sindicatos – e dessa negociação têm de resultar alguns ganhos objectivos para os trabalhadores.

E há outro ponto que talvez ainda não tenham percebido: um Governo que passa cheques em branco a uma banca atulhada de buracos, dívidas e gestores perdulários e gananciosos, carece de legitimidade para invocar a falta de dinheiro quando se trata de reconhecer direitos dos trabalhadores.

Cavaco no psicanalista

Poderia, repetindo-me um pouco, escrever algo sobre o novo livro das quintas-feiras de Cavaco Silva, a azia e o evidente mal-estar do homem consigo próprio e e a peculiar forma que encontrou de ajustar contas com os adversários políticos, revelando a sua versão das conversas privadas que com eles terá tido.

Contudo, creio que as palavras e a atitude do homem o definem melhor do que qualquer coisa que se possa escrever acerca dele. Igual a si mesmo, e ao que sempre foi, não nos surpreende.

Fica o boneco do cartoonista do DN sobre o político que, como alguém notava hoje no Twitter, terá falhado uma brilhante carreira na área da estenografia…

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© José Bandeira

“A maior greve dos últimos anos”

A Frente Comum já se refere à greve de toda a administração pública que hoje está a decorrer como a maior dos últimos anos. Hospitais, centros de saúde, repartições estatais e serviços municipais, por todo o lado houve portas fechadas ou funcionamento reduzido, em muitos casos apenas em cumprimento de serviços mínimos. No sector da Educação, embora a adesão dos professores a lutas “convergentes” com os restantes funcionários seja historicamente baixa, houve centenas de escolas fechadas, essencialmente devido à ausência dos funcionários.

Em conferência de imprensa ao final da manhã para fazer um balanço sobre a greve nacional da Função Pública, Ana Avoila afirmou que os dados preliminares indicam que “em termos globais, a adesão à paralisação ande na ordem dos 85%”.

A dirigente sindical sublinhou os “fortíssimos níveis de adesão à greve”, sobretudo nos setores da educação, saúde, administração central e autarquias, acrescentando que é “seguramente uma das maiores greves dos últimos anos na Administração Pública”.

Segundo Ana Avoila, os dados da greve mostram que “há uma perceção muito maior dos trabalhadores” sobre “a degradação continuada dos salários”, uma vez que os funcionários públicos não têm aumentos há dez anos, com uma perda de poder de compra acima de 20%.

A estagnação dos salários e das carreiras, o apagamento de tempo de serviço, a elevada carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, tudo são razões de descontentamento para os funcionários do Estado. Que apesar do discurso aparentemente de esquerda do Governo, percebem que não houve, com o fim do passismo e o advento da geringonça, uma verdadeira mudança de paradigma nas grandes opções orçamentais – para os bancos vão milhões, para os trabalhadores, tostões…

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