2020, Bilionários no Espaço

elon-muskEnquanto quase toda a comunicação social embandeira em arco com os pretensos sucessos de Elon Musk na exploração espacial, socorro-me da lucidez de Pedro Prola que, em meia dúzia de tweets, desvenda o que está por detrás do empreendedorismo espacial da SpaceX.

Que se resume, no essencial, a muito pouco: proporcionar viagens ao espaço a uma clientela de bilionários e capturar recursos públicos destinados à investigação espacial para o financiamento de investimentos privados.

Explicada com uma clareza e poder de síntese exemplares, aqui fica exposta uma verdade que é tão inconveniente quanto difícil de rebater.

Muitos foguetões tripulados e até vaivéns espaciais foram lançados ao longo das últimas décadas no espaço, fruto de investigação científica e de tecnologia de ponta. Foi preciso investimento público massivo na exploração espacial, as empresas privadas foram suprindo as necessidades das agências públicas, visando o avanço progressivo.

Agora a situação foi invertida: as agências públicas passaram a servir os fins das empresas privadas. a ciência decaiu para fabricar um mercado espacial. O retrocesso científico de reorientar os investimentos espaciais para financiar projetos comerciais e gerar “bilionários do espaço” com dinheiro público retirou a prioridade de alcançar avanços científicos e conquistas inéditas de tecnologia. Houve um retrocesso de décadas.

O objetivo é político: submeter toda a vida ao mercado e à hierarquia social. Isso inclui retirar dos estados o mérito por aquilo que alcançaram na exploração do espaço. Os “empreendedores espaciais” ganham crédito por fazerem agora o que as agências espaciais já tinham feito.

Na reescrita da História, boa parte da imprensa e TV apresentam como conquista de Elon Musk uma cópia do que as agências públicas já haviam feito, duplicando custos no processo e obtendo financiamento público, e ainda com prejuízo. É uma mentira histórica contada nos jornais.

Nesta mentira histórica com fins políticos, a imagem do senhor Musk, que vampiriza as conquistas espaciais, substitui os físicos, engenheiros e astronautas que tornaram possíveis as viagens espaciais. O retrocesso científico é acompanhado da perda de reconhecimento.

Adaptado daqui.

 

 

Trump e a censura nas redes sociais

trump_targets_twitter__derkaoui_abdellahUsuário assíduo do Twitter, onde conta com mais de 80 milhões de seguidores, o presidente dos EUA teve algumas de suas postagens recentes moderadas pelo microblog.

Na última terça-feira (26), duas de suas publicações sobre o voto por correspondência foram sinalizadas pela plataforma como “potencialmente enganosas”, ganhando links que levam a artigos contestando as informações divulgadas por ele.

Foi por causa desta sinalização que Trump assinou um decreto permitindo punições às redes sociais. No documento, ele afirma ter tomado a medida em defesa à liberdade de expressão e acusa as plataformas de censura.

Nesta sexta-feira (29), o Twitter voltou a sinalizar uma publicação do político, desta vez por “apologia à violência”, ocultando a publicação. Na mensagem, ele fazia referência aos protestos em Minneapolis pela morte de um homem negro.

São curiosos os protestos em relação à censura nas redes sociais quando o Twitter começa a sinalizar – não a eliminar – publicações de Donald Trump que violam as regras da plataforma relativamente à divulgação de notícias falsas e incitamento à violência. Como se a capacidade de controlar e limitar aquilo que se publica e partilha e até de suspender ou eliminar contas que violem as “condições do serviço” não fizessem parte do ADN original de todas as redes sociais. Que são um negócio como outro qualquer e, como tal, regem-se pelas leis do mercado, não pelas regras da democracia.

Mais curioso ainda é que, depois de Trump ter ameaçado fechar a rede social onde escreve diariamente, Zuckerberg, o CEO do Facebook, tenha vindo a público demarcar-se das opções editoriais do Twitter:

Acredito firmemente que o Facebook não deve ser o árbitro da verdade de tudo o que as pessoas dizem online. As empresas privadas não se deviam colocar nessa posição.

Vamos a ver. Pessoalmente, abomino todo o tipo de filtros e censuras existentes tanto nos media tradicionais como nas redes sociais. Por isso optei, desde que decidi ter uma intervenção pública regular na internet, criar um blogue onde, até ver, me exprimo livremente e dou a palavra a todos os que, livremente também, a queiram usar. Mas se tivesse de escolher, dar-me-ia certamente melhor com o ecossistema muito mais liberal do Twitter, onde a regra habitual é as pessoas bloquearem ou deixarem de seguir quem não lhes interessa, do que o sistema das queixinhas e dos castigos vigente no Facebook.

Prefiro a moderação, claramente assumida e devidamente explicada, às intervenções reprováveis de um presidente – que nas redes sociais é um utilizador como outro qualquer – ao sistema hipócrita do Facebook, em que qualquer grupo organizado de utilizadores pode recorrer à denúncia de publicações para activar os filtros automáticos que eliminam posts e suspendem utilizadores. Como alguns dos professores mais interventivos nesta rede tiveram oportunidade de constatar nos últimos tempos. E lá cumpriram o castigo, sem direito a recurso nem defesa, nem oportunidade sequer de conhecer a acusação ou os acusadores…

Do Estado-papão ao Estado-papá

januario-torgal-ferr.JPGEm entrevista à Visão, Januário Torgal Ferreira discorre com clareza e lucidez sobre o conturbado tempo em que vivemos. E fala, com a frontalidade cordata que lhe é habitual, de algumas carecas que a pandemia destapou: é o caso de muitos neoliberais da nossa praça que, perante as dificuldades trazidas pela crise, rapidamente mudaram a agulha no seu discurso. E se antes queriam menos Estado, agora são os primeiros a exigir a salvação estatal dos seus negócios. E quanto aos bancos, salvos da ruína à custa do contribuinte, que contributo estarão dispostos a dar agora para a salvação colectiva?…

Para quem, como eu, sempre defendeu um Estado reformista, de índole social-democrata, e passou a vida a ouvir receitas liberais e neoliberais, ver tanta gente a reclamar o apoio do Estado até dá vontade de rir! Eram tantos a berrar “chega de Estado, basta de Estado” e agora é vê-los, nus e desgraçados, de roupinha nas mãos, a virarem-se para o Estado e a dizer: “Ó papá, salve-nos!” Na hora da penúria, aqueles que gritaram “nada com o Estado, tudo contra o Estado” são os primeiros a lembrar-se dele. Espero que o Estado seja, sobretudo, corretor de injustiças e desigualdades, e não sirva apenas para dar dinheiro. Um Estado justo e com sentido de equidade tem de ser pedagogo. O equilíbrio entre o papel do Estado e a nossa livre decisão é saudável, mas é preciso que aqueles que mais têm façam a justa distribuição antes de virem chorar o apoio do Estado.

Nas crises, todas elas, nunca faltou dinheiro para os bancos. E todos pagamos as crises financeiras. Noutros momentos, não tem havido idêntica atitude por parte dos bancos em relação à sociedade. Há até remunerações e reformas no setor bancário, vindas de outras eras, que hoje são completamente injustificadas para bem da nossa sanidade social. Para haver justiça e equilíbrios sociais, alguém tem de perder alguma coisa ou deixar, pelo menos, de ter a tentação de acumular ou ganhar tudo. Tenho assistido a muitas atitudes de ganância, fruto de uma relação absurda com o dinheiro. O capitalismo tem sido fonte de grandes tragédias sociais. Mas as crises têm de ser pagas por todos.

Na entrevista, que merece ser lida na íntegra, há uma nota de optimismo que perpassa o presente sombrio e as nuvens negras que se perfilam no horizonte. As dificuldades e o isolamento impostos pela pandemia convidam à reflexão e à mudança de hábitos, modos de vida, mentalidades. O bispo emérito das Forças Armadas tenta pensar positivo…

Na minha linguagem, ainda acredito que as pessoas querem ser mais santas do que pecadoras. Mas receio que, passado o efeito dos murros no estômago, voltem as tentações. O dinheiro é insidioso, totalitário e omnipresente. Como já disse, fizeram-se grandes fortunas no meio dos escombros. E depois, nestas alturas, há também o grande cortejo dos hipócritas. Mas isto não é o fim da História. E os seus ventos sopram mais no sentido da humanização das nossas sociedades.

O vira-casacas

homem.cristo

Sabendo-se que os professores hoje no activo são praticamente os mesmos que ensinavam em 2014, é caso para perguntar: o que levou o escriba do Observador, o jovem “investigador” de temas de educação levado ao colo, pelo CDS, para o Conselho Nacional de Educação, a mudar radicalmente a sua opinião?

O vira-casaquismo esteve muito em voga a seguir à Revolução que hoje se comemora. Pessoas que nunca se interessaram por política inventaram para si próprias um passado antifascista. Homens de confiança do anterior regime transformaram-se de um dia para o outro em activos e radicais revolucionários.  Com a mesma falta de princípios, gente sem vontade nem préstimo para leccionar, que faz carreira a admoestar os professores e a denegrir o profissionalismo da classe – e há tantos por aí – não se inibe de dirigir elogios interesseiros aos professores, quando sente que isso lhe dá jeito.

A coerência não é propriamente um valor em alta entre uma certa direita de boas famílias que sempre se habituou a abrir caminho usando o seu dinheiro, poder e influência para atacar, ofender, desmoralizar quem se atravessa à frente. Ou não se desvia para o lado com suficiente rapidez. Recorrendo à arrogância e à displicência como forma de disfarçar incompreensão e ignorância.

Será que, como uma certa opinião pública pouco informada, o investigador e jornalista especializado em assuntos educativos se surpreendeu com o à vontade dos professores da “telescola” no uso dinâmico das novas tecnologias? De tanto ajudar a difundir a patranha dos “professores do século XX”, terá acreditado nela? Ignoraria que os vídeos, os powerpoints, os sons e as animações gráficas há muito que fazem parte da rotina escolar das salas de aula portuguesas?

A verdade é esta: só não fazemos mais e ainda melhor porque a falta de meios e a sobrecarga de turmas e alunos não nos deixa tempo para investirmos tanto como gostaríamos naquilo que gostamos mesmo de fazer: proporcionar aos nossos alunos mais e melhores aprendizagens.

Outra realidade não menos evidente são as ruas da amargura em que vegeta o jornalismo tendencioso do Observador, um projecto político neoliberal que usou o jornal online como barriga de aluguer. Percebe-se que de 2014 para cá os tempos mudaram e as proclamações da seita neoliberal já não encontram hoje a mesma aceitação. E se ontem os “maus professores” eram o inimigo a abater, serão hoje uma potencial clientela que interessa seduzir…

Fiquem em casa…

Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.

As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.

Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária.

Há 46 anos atrás, por motivos muito diferentes, também a população, em Lisboa, recebia ordens para permanecer em casa.

Estavam em curso as operações militares que haveriam de pôr fim a 48 anos de ditadura. E a preocupação de não colocar em risco as vidas de civis ditou a proibição, divulgada logo no primeiro comunicado do MFA, difundido por volta das quatro da madrugada.

Proibição alegremente desrespeitada, como sabemos, pois o povo saiu mesmo à rua. A curiosidade de ver o que se passava falou mais alto, bem como a vontade de apoiar a determinação e a coragem dos militares e de assistir, ao vivo, ao estertor final da ditadura.

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O 25 de Abril em 90 segundos

 

Uma bazuca de 1,5 biliões de euros

big-bazooka.jpg“Se tudo se concretizar será seguramente uma bazuca”, afirmou o primeiro-ministro, António Costa, no final do Conselho Europeu desta quinta-feira que aprovou um conjunto de medidas para atacar a crise financeira causada pela pandemia de Covid-19.

“As medidas de emergência aprovadas pelo Eurogrupo já constituíam em si, no conjunto das três medidas, 500 mil milhões de euros. A verba que estamos agora a falar para o Fundo de Resolução, não há ainda um número final, mas o vice-presidente da Comissão referiu-se a 1,5 biliões de euros, o BCE falou em 1,6 biliões. É qualquer coisa que é três vezes as linhas de emergência aprovadas pelo Eurogrupo”, declarou António Costa, em conferência de imprensa.

Parecem bem encaminhadas as negociações para a criação de um fundo europeu destinado a evitar que a crise sanitária se transforme em recessão económica. Para isso é preciso injectar dinheiro na economia, necessário para que as empresas enfrentem as dificuldades de tesouraria e retomem a produção, mas também para que os consumidores possam adquirir os produtos e serviços que vão sendo disponibilizados.

No entanto, a forma clássica de fornecer dinheiro a troco de dívida pode ser uma receita para o desastre, tendo em conta que o endividamento de alguns dos países mais afectados pela pandemia é já excessivo e que não se prevê que a recuperação económica seja rápida.

Atolar as economias em dívida significa, mais uma vez, impor uma prolongada recessão económica que, na actual conjuntura, é perfeitamente evitável. Implica sacrificar as políticas de emprego e de rendimentos, o bem-estar colectivo e o progresso económico e social aos interesses da elite financeira, aos bancos e dos especuladores internacionais.

Assim, para a bazuca europeia ser verdadeiramente eficaz, é necessário que o fundo que se pretende disponibilizar para a recuperação económica seja, na totalidade ou em grande parte, atribuído na forma de subvenções a fundo perdido. A recuperação do dinheiro não pode ser feita através da cobrança de juros que reduzem ainda mais o rendimento disponível e retraem o investimento e o consumo, mas através do crescimento sustentado da economia.

Contudo, esta é uma ideia ainda longe de consensual entre os governos europeus: aparentemente, ainda há governantes – e opiniões públicas nacionais – que se mostram incapazes de olhar para a profunda integração económica que existe hoje no espaço europeu, iludindo-se com a ideia de que conseguem salvar a sua economia enquanto os outros se afundam.

A bazuca europeia teve hoje luz verde para a sua criação. Mas para proteger a economia europeia no seu todo, e não apenas os interesses de uma pequena elite, tem de ser apetrechada com munições suficientemente poderosas e eficazes.