Música para as mulheres iranianas: Samin e Behin Bluri – Bella Ciao

Como homenagem à determinação e coragem das mulheres iranianas na sua luta pela liberdade frente a um regime misógino, machista e opressor, eis a versão persa do velho hino da resistência italiana, interpretado aqui por duas jovens iranianas…

Mercados energéticos: uma solução sem futuro

O aumento dos preços do gás natural expôs as falhas endémicas que ocorrem quando um mercado simulado é enxertado num monopólio natural. Já vimos de tudo: a facilidade com que os produtores podem unir-se na fixação do preço grossista. Como os seus lucros obscenos, especialmente das energias renováveis, viraram os cidadãos contra a transição verde. Como o regime de mercado simulado impediu a aquisição comum que teria aliviado os custos energéticos dos países mais pobres. Como o mercado retalhista de electricidade se tornou um casino com empresas a especular sobre os preços futuros da electricidade, a lucrar durante os bons tempos e a exigir resgates estatais quando as suas apostas se revelam más.

Está na altura de eliminar gradualmente os mercados simulados de electricidade. O que precisamos, em vez disso, são redes públicas de energia, nas quais os preços da electricidade representam custos médios mais uma pequena margem de lucro. Precisamos de uma taxa de carbono, cujas receitas devem compensar os cidadãos mais pobres. Precisamos de um investimento em larga escala, semelhante ao projecto Manhattan, nas tecnologias verdes do futuro (tais como hidrogénio verde e parques eólicos flutuantes offshore em larga escala). E, por último, precisamos de redes locais com gestão municipal das energias renováveis existentes (solar, eólica e baterias) que transformem as comunidades em proprietários, gestores, e beneficiários da energia de que necessitam.

Com a crise energética na ordem do dia, Yanis Varoufakis tenta contrariar o imenso esforço vai sendo feito, pelos poderes estabelecidos, para evitar que se discuta o essencial: a política energética neoliberal que criou, a nível europeu, um mercado artificial num sector que nunca deixou de ser um monopólio natural. E onde, por esse motivo, as regras clássicas da economia de mercado nunca irão funcionar eficazmente.

Este mercado simulado, como lhe chama Varoufakis, criou condições para a introdução, no sector, de uma miríade de empresas que pouco ou nenhum valor acrescentam à cadeia de produção, transporte e comercialização da energia. Em vez disso, cartelizam preços com a conivência das autoridades supostamente reguladoras, especulam com o preço futuro das fontes de energia, cobrando hoje aos seus clientes preços abusivos que lhes garantem a elas lucros absurdos. O exemplo que aqui deixei há dias, uma simples comparação do preço do gás de uma família média no mercado regulado com os preços praticados no mercado liberalizado, é bem elucidativo. No fim, como cereja no topo do bolo, ainda é capaz de vir alguém dizer que a energia está cara porque o Estado cobra demasiados impostos…

Se hoje volto ao tema é apenas para convidar a reflectir um pouco sobre a forma como um tema desta actualidade e importância deverá ser tratado, pedagogicamente, no âmbito da agora muito falada Educação Financeira. Papagueando a cartilha que nos tem sido impingida nos últimos anos, da liberalização do mercado energético, com melhores ofertas, concorrência, liberdade de escolha e, em resultado, energia mais verde, mais abundante e mais barata para todos?

A verdade é que não há boas escolhas num mercado viciado, artificial e especulativo, no qual os consumidores, façam a escolha que fizerem, saem sempre a perder. E tão ou mais importante do que ensinar os pobres a gerir bem o seu dinheiro – uma forma não muito sofisticada de os culpar pela sua pobreza, no caso de “gerirem mal” o pouco que têm – é compreender os mecanismos básicos da produção, circulação e acumulação da riqueza. Ou seja, adquirir conhecimento estruturado e fundamentado, crítico e reflexivo, sobre o funcionamento da economia real no mundo em que vivemos; o que vai muito além de saber contar e multiplicar os tostões que, bem poupadinhos, nos sobram ao fim do mês.

Liberalismos

Adaptado de um boneco de origem indeterminada, em circulação nas redes sociais.

Não gostam do termo neoliberalismo, mas faz todo o sentido para definir a apropriação, por muitos dos que hoje se definem politicamente como liberais, de uma ideologia que, no seu tempo, foi revolucionária. Em defesa egoísta de privilégios, conservadorismo, desumanidade…

Elizabeth II (1926-2022)

Denis Fildes, Her Majesty The Queen Elizabeth II (1962)

Não estando predestinada para reinar, assumindo quase sempre um perfil discreto e reservado, tornou-se uma das monarcas mais carismáticas do Reino Unido, ombreando com a sua homónima Isabel I e com a rainha Vitória.

Viveu tempos difíceis e conturbados: a II Guerra Mundial, a subida ao trono com 25 anos, o desmoronar do Império Britânico e o nascimento da Commonwealth, a adesão europeia e o Brexit, escândalos e dissidências no interior da família real.

Foi, durante o seu longo reinado, o esteio mais sólido e seguro da monarquia britânica. O seu desaparecimento, embora já aguardado tendo em conta a idade e a debilidade física, poderá simbolizar o fim de uma época numa nação em que ressurgem as tendências separatistas e que, entre a nostalgia do Império e a eterna desconfiança da Europa, parece tardar em reencontrar-se consigo própria.

Já se pode questionar o “mercado liberalizado”?

Ou a cegueira ideológica neoliberal continua a impor a privatização de monopólios naturais, ruinosa para a economia e os consumidores, como um tema-tabu?

Simulação do custo anual de gás natural para uma família de quatro pessoas com aquecimento central na zona de Lisboa: coluna à esquerda, fornecedor no mercado regulado; restantes colunas, fornecedores no mercado liberalizado. Fonte: ERSE

A gota de água

Costa admite que morte de grávida foi “gota de água” para a demissão de Marta Temido

Sendo insustentável a continuidade de Marta Temido à frente do ministério da Saúde, tal como foi incompreensível, há seis meses atrás, a sua nomeação, ninguém culpará a ministra desta morte, potenciada pelo caos das transferências hospitalares. Mas é responsável, isso sim, pelas más políticas que potenciam estas desgraças.

As explicações médicas dadas até ao momento sugerem que não houve negligência nos procedimentos e que nada faria antever este desfecho. Mas algo não bate certo nas políticas de saúde, nomeadamente no campo da obstetrícia. Percebe-se que o objectivo é poupar dinheiro e tentar que os serviços funcionem com o mínimo de pessoal, em vez de se tomarem medidas para dotar os hospitais, maternidades e centros de saúde com os meios materiais e humanos necessários para dar uma resposta eficaz, mesmo quando surgem os inevitáveis “picos” de afluência.

Agora que se fala tanto em “funcionamento em rede” para justificar o abre e fecha de serviços de urgência e o rodopio de doentes de uns hospitais para outros, convém lembrar que essa “rede” funcionava bem melhor há 20 ou 30 anos atrás: havia uma retaguarda formada por serviços de atendimento permanente e hospitais concelhios que asseguravam cuidados básicos e enviavam doentes, quando necessário, para os hospitais distritais. Daqui, apenas os casos mais graves eram encaminhados para os hospitais centrais, o que, pelo menos em teoria, permitiria manter alguma folga para os picos de procura. Haveria falhas e ineficiências, certamente. Mas as reformas de inspiração neoliberal que se fizeram no sector, e nas quais se vem persistindo, agravaram, em vez de resolverem, os maiores problemas.

As maiores mudanças deram-se durante o primeiro governo de Sócrates: depauperaram-se os cuidados primários, fecharam-se serviços de urgência, encerraram-se maternidades e outras valências em hospitais mais pequenos. A lógica agora era outra: era preciso concentrar meios para assegurar escala e garantir bons níveis de qualidade na prestação de serviços. A partir daqui, claro, a pressão foi aumentando sobre os grandes hospitais, mas não a concentração de meios, nomeadamente os recursos humanos: a degradação das condições de trabalho, dos salários e das carreiras médicas provocou uma lenta sangria de profissionais rumo ao sector privado, que ainda não terminou e cujas consequências estamos, e continuaremos, a sofrer.

Em 2006, ano em se encerraram maternidades públicas por todo o país, nasciam cerca de 105 mil crianças por ano. Nos dias de hoje, não se alcançam sequer as 80 mil. Faz algum sentido, com os mínimos históricos em que se encontra a natalidade, a falta de capacidade de resposta dos meios hospitalares nesta área?

Há uma política de Saúde mais do que esgotada em que este governo persiste, surdo aos apelos dos doentes, da opinião pública, dos profissionais e especialistas do sector. Enquanto assim for, serve de pouco mudar o ministro, se tudo o resto permanecer na mesma.

O regresso da austeridade

O ministro das Finanças alemão, Christian Lindner, deu conta esta sexta-feira dos planos do país para o regresso à austeridade em 2023, com a redução da dívida, afirmando ainda que isto é “um sinal para o Banco Central Europeu” (BCE).

Segundo o governante, citado pela agência noticiosa espanhola Efe, na apresentação de uma primeira versão do orçamento da Alemanha para 2023, este é “um sinal para o BCE”, referiu.

“Queremos que este orçamento envie uma mensagem e que seja esse o nosso contributo para a luta contra a inflação, com a redução da dívida”, destacou, sublinhando que “o BCE deve fazer o que considerar apropriado”.

Depois da contracção económica provocada pela pandemia, esperar-se-ia que o pós-pandemia pudesse abrir caminho a um período de recuperação económica. Havia até algumas perspectivas optimistas a este respeito: os investimentos para o futuro iriam privilegiar a transição energética, a economia verde e digital, gerando empregos mais qualificados e motivadores, aumentando a produtividade e os salários.

Tudo isto estaria muito bem, não fosse um pequeno-grande problema: os novos paradigmas de sustentabilidade ambiental e económica e uma mais justa repartição da riqueza entre capital e trabalho esbarram com os interesses dominantes no capitalismo global. Apesar do imenso poder e riqueza acumulados pelas várias oligarquias, estas continuam a querer sempre mais. E nenhuma aceita perder, sem luta, a favor dos seus rivais.

Na Europa, a guerra na Ucrânia é o sinal mais evidente da crise que chega e veio para ficar. É muito bonito apoiar a resistência das forças de Zelensky à invasão russa; menos agradável será percebermos o quanto esse apoio se irá traduzir em energia e alimentos mais caros, aumento de impostos para financiar o esforço de guerra, inflação persistente, reactivação de centrais a carvão e nucleares e no abandono das ambiciosas metas da descarbonização e da economia verde. Em crescente subalternização económica, militar e política, a UE torna-se um satélite do poderio decadente dos EUA, em vez de se afirmar como um modelo alternativo tanto ao poder americano como às autocracias corruptas e oligárquicas da Rússia e da China.

Motor incontestado da economia e das finanças europeias, a Alemanha acaba de dar o mote para os tempos que aí vêm: acabou-se o dinheiro barato, a taxas de juro quase simbólicas; os salários serão contidos abaixo da inflação, o que se traduzirá em perda de rendimentos das classes trabalhadoras, sobretudo das que têm menor poder reivindicativo: é preciso reduzir défices e dívidas públicas, o que significa cortes na despesa e no investimento público e os sempre impopulares aumentos de impostos. A verdade é que há uma crise económica, que não foi provocada pelos cidadãos, mas que sobrará para eles. Ainda não será desta que os ricos pagarão a crise.

Contra-inauguração do IP3

Continua na mesma a estrada cuja requalificação urgente, há quatro anos atrás, implicava o sacrifício de seis anos e meio da carreira dos professores.

Professores dos distritos de Coimbra e Viseu e outros sobreviventes diários desta estrada da morte assinalam hoje o quarto aniversário de um roubo declarado, feito em nome de uma promessa não cumprida.

A hipocrisia ocidental

Marrocos vendeu a solidariedade com a Palestina em troca do reconhecimento pelos EUA da ocupação do Sara Ocidental; Espanha vendeu os seus deveres para com o Sara Ocidental em troca da barragem sem pruridos humanitários de migrantes; Suécia e Finlândia venderão os curdos à Turquia para entrarem na NATO. E há quem se indigne com o cinismo de Kissinger. Se existem “valores europeus”, são para consumo da casa.

Daniel Oliveira coloca o dedo na ferida na denúncia da hipocrisia europeia: o direito que a Europa reivindica para os ucranianos a viverem livres e independentes no seu país e a decidirem o seu próprio futuro é o mesmo que nega aos palestinianos, aos sarauis ou aos curdos, que devem conformar-se com o colonialismo e a repressão, vivendo como apátridas no seu próprio território.

Os valores absolutos e universais que proclamamos no espaço europeu, ao qual fazemos questão que a Ucrânia continue e pertencer, tornam-se afinal bastante relativos assim que atravessamos o Mediterrâneo, o Bósforo ou os Montes Urais. Aí, sacrificamos povos inteiros aos nossos interesses. Obrigamos os palestinianos a pagar aos israelitas uma dívida que não lhes pertence, mas sim aos europeus responsáveis pelo Holocausto. Entregamos os povos do Curdistão e do Sara Ocidental à tirania da Turquia e de Marrocos, em nome de interesses económicos e estratégicos europeus.

Enredados nas suas contradições e num eterno complexo de superioridade moral, os europeus têm dificuldade em perceber que já não comovem nem convencem o resto do mundo. Perante os olhares exteriores ao velho continente, são cada vez mais evidentes a hipocrisia e a duplicidade de critérios das suas opções geoestratégicas, militares e políticas.

E não é que tem razão?

Marcelo diz que só quando uma mulher incompetente chegar ao topo haverá verdadeira igualdade nas Forças Armadas

“Só haverá verdadeiramente igualdade entre homens e mulheres, quando chegar aos mais altos postos uma mulher tão incompetente como chega em vários casos, em inúmeros casos, aos mais altos postos, um homem”, crê o Presidente da República.

Não temos ainda exemplos na hierarquia militar. Mas de uma mulher que se mostre menos competente no exercício de um cargo público é fácil ouvir dizer, sem dó nem piedade, que foi nomeada por ser mulher.

Já dos homens incompetentes em cargos de decisão, muito mais numerosos até em sectores e profissões predominantemente femininos, ninguém dirá que os escolheram por serem homens. O que se calhar, em muitos casos, até é verdade.

Claro que o ideal é que, independentemente do género, todos sejam escolhidos pela competência. Mas o longo caminho da conquista da igualdade no interior das instituições públicas ainda passará, eventualmente, pela concretização da ideia de Marcelo.