Só de visita…

A visita de Putin à Finlândia desenterra fantasmas adormecidos num país que sempre temeu o abraço de urso do poderoso vizinho.

Neste caso, através de um bem humorado meme

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Museu Salazar?…

casa-salazarO cabeça de lista do PS no distrito de Viseu às legislativas de 6 de Outubro, João Azevedo, disse nesta terça-feira ao PÚBLICO estar contra um Museu Salazar mas a favor do centro interpretativo do Estado Novo. Uma iniciativa que o autarca socialista Leonel Gouveia, presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, pretende edificar na terra onde nasceu e está enterrado o ditador.

Conheci pessoalmente o actual presidente socialista da Câmara de Santa Comba Dão – é professor de profissão e foi meu colega num dos anos em que trabalhei em Santa Comba – e posso afiançar que Leonel Gouveia não é, seguramente, um simpatizante do fascismo…

Mas estará, como qualquer autarca competente do interior desfavorecido, atento a tudo o que possa representar uma oportunidade de dar notoriedade à sua terra, criar emprego, atrair investidores e turistas. Localmente, a ideia de musealizar a casa onde nasceu o ditador já é antiga. E a verdade é que, a nível nacional, Santa Comba Dão – ou mais propriamente a aldeia do Vimieiro, nos arredores da cidade – é conhecida sobretudo por ser a terra natal de António de Oliveira Salazar.

Percebo os riscos de criar, em torno das ruínas da casa familiar e dos parcos despojos do ditador, um museu que possa de alguma forma tornar-se um santuário para os saudosistas do Estado Novo e da figura mítica do “Salvador da Pátria”. Para tanto, já bastam as romarias que ocasionalmente se fazem à campa de Salazar no cemitério local. A tentativa de branquear a ditadura e glorificar a figura do ditador será sempre inaceitável para qualquer verdadeiro democrata, ainda para mais sendo patrocinada, mesmo que involuntariamente, por entidades públicas.

Contudo, a ideia não parece ser, pelo menos para já, intervir na antiga casa de Salazar. O que a Câmara pretende é criar um centro de interpretação do Estado Novo, aproveitando o edifício de uma típica escola primária dessa época. E, esta sim, é uma ideia que pode fazer todo o sentido. Tudo depende dos fins em vista, da qualidade do projecto, da competência e idoneidade dos responsáveis da iniciativa, dos recursos que vierem a ser disponibilizados. À partida, não me choca que se tente recriar no Vimieiro um pouco do ambiente rural beirão da primeira metade do século XX, o que poderá ajudar os visitantes a compreender a formação do Estado Novo e as origens de Salazar – não tão modestas como habitualmente se pensa: o contexto familiar, o percurso académico, a formação religiosa, social e política. É possível fazê-lo, quero crer, de forma séria, isenta e rigorosa.

Fazê-lo sem branquear de forma alguma a natureza repressiva, a inspiração fascista ou o espírito totalitário e obscurantista que esteve na génese do Estado Novo e que desde sempre motivou o seu principal mentor. Mas procurando ao mesmo tempo perceber o homem, a sua mentalidade e a sua actuação política no contexto da sua época e do meio em que foi criado. Na verdade, compreender os erros do passado continua a ser a melhor forma de impedir que voltemos a cometê-los.

O socialismo funciona?

Discussão_Socialismo.jpgO fracasso inevitável do socialismo é uma daquelas falsas evidências que o pensamento neoliberal tenta tornar consensual.

É inegável a derrocada do “socialismo real” da URSS e do Leste Europeu. É verdade que a China está hoje plenamente convertida ao capitalismo, embora mantenha quase intacto o regime ditatorial herdado do maoísmo. E relíquias do passado como a Coreia do Norte tornaram-se caricaturas dos ideais da Revolução Socialista.

Ainda assim, há um socialismo que parece funcionar: mais conhecido como social-democracia, é aquele que, respeitando as regras democráticas, fortaleceu o Estado social e usou a fiscalidade para promover políticas eficazes de redistribuição de riqueza, reduzindo as desigualdades sociais.

O socialismo nórdico – ou como lhe queiram chamar – parece ser dos que mais confundem e embaraçam a fluência do discurso neoliberal…

Imagem daqui.

Um razoável acordo – e duas objecções

fectrans-antram.JPGO processo de negociação de revisão do Contrato Colectivo de Trabalho Vertical (CCTV) do sector de transportes de mercadorias foi acelerado a fundo na quarta-feira, com a intermediação do Governo, como forma de pressionar os sindicatos grevistas a desconvocarem a paralisação em curso. No memorando de entendimento saudado pelo primeiro-ministro António Costa e apadrinhado pelo ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, estão previstas diversas alterações laborais, entre todas um aumento salarial global de 120 euros, bem como a definição mais clara do pagamento das horas extraordinárias.

Os sindicatos em greve – Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) e Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM) – já desvalorizaram os termos do acordo, depois de terem rompido as negociações que decorriam desde Maio precisamente por exigirem aumentos salariais mais pronunciados e um pagamento mais abrangente das horas extraordinárias.

Esta manhã, a Fectrans divulgou os termos genéricos do acordo assinado com os patrões, que resolve, sublinha, algumas das “questões nucleares” dos trabalhadores e que será agora discutido com os dirigentes sindicais e trabalhadores de forma a retomar as negociações em Setembro, para que possa entrar em vigor já em Janeiro do próximo ano.

Apesar de não serem ainda inteiramente claros os moldes do acordo ontem anunciado com pompa e circunstância, desejo sinceramente que a acção da Fectrans traga ganhos efectivos a todos os camionistas.

Contudo, há aqui duas coisas que me desagradam.

Uma é a continuada prática dos memorandos de entendimento – acordos genéricos e pouco explícitos nas matérias mais polémicas em discussão – que suspendem greves, aliviam a pressão e remetem a negociação final para um timing que favorece objectivamente o Governo e o patronato. Que é aqui o caso: o previsível engonhanço negocial marcado para Setembro pode facilmente arrastar-se até às eleições de Outubro, evitando desta forma qualquer perturbação no calendário eleitoral.

Mas há outra coisa que me desgosta ainda mais, que é ver a CGTP a apressar acordos com os patrões quando há trabalhadores do sector envolvidos numa dura greve. Claro que a Fectrans tem o direito de se demarcar de uma luta que não aprova ou não considera adequada aos fins em vista. Mas ao sabotar desta forma a acção dos outros sindicatos está a copiar as piores práticas da UGT e do chamado sindicalismo amarelo que tantas vezes criticou.

Crónica britânica – III

Fleumáticos, snobs, reservados? Nem por isso. Acredito que em determinados meios o conservadorismo social e os preconceitos classistas continuem a impor-se, mas nos espaços públicos e no contacto casual com as pessoas, até mesmo com os estrangeiros, os britânicos mostram-se geralmente simpáticos e acessíveis. Embora ciosos do seu espaço e das suas idiossincrasias, não demonstram aquela frieza e arrogância que uma certa tradição lhes atribui. Uma ideia que já tinha desde que visitei Londres, e que associava à amálgama étnica, social e cultural que produz o carácter especial e único dos londoners, mas que afinal se confirma noutras cidades inglesas.

English breakfast. O pequeno-almoço é talvez a refeição inglesa mais conhecida internacionalmente, sendo especialmente apreciada por quem defende que a primeira refeição do dia deve ser a mais substancial. No entanto, não consigo achar piada àquelas fritalgadas de ovos, salsichas, bacon e outras comidas gordurosas com que, por aqui, se costuma iniciar a manhã. E o breakfast escocês não é muito diferente… Como é que conseguem comer aquilo tudo sem ficarem mal dispostos? Por mim, embora haja outros alimentos mais interessantes nos pequenos-almoços britânicos, ao fim de uns dias já vou sentindo saudades do pãozinho português e das nossas comidas matinais…

Pronúncia escocesa. O acento pronunciado com que muitos escoceses falam o Inglês é um traço marcante e distintivo da cultura de um povo que, ao fim de séculos de união política com o vizinho mais a sul, continua a manter orgulhosamente uma identidade própria. É algo que identificamos e apreciamos nos filmes e séries televisivas, confortavelmente apoiados pelas legendas que aparecem no ecrã. Mas quando temos mesmo de os entender, sem tradução nem legendagem, aí a coisa muda de figura, e algumas pronúncias mais cerradas tornam-se mesmo incompreensíveis para os ouvidos desabituados. Quando se viaja do norte da Inglaterra para a Escócia não se notam descontinuidades geográficas relevantes que assinalem a passagem de uma fronteira. Em contrapartida, basta começar a ouvir as vozes dos nativos para perceber que já não estamos em solo inglês…

Obras por todo o lado. É uma realidade que geralmente se associa ao boom imobiliário de Londres, mas que encontrei em todas as cidades que visitei. Enormes prédios em construção, nalguns casos quarteirões inteiros devorados pela voragem urbanística que parece varrer todo o Reino Unido. É praticamente impossível tirar uma fotografia panorâmica do centro de uma grande cidade sem que o skyline registe a presença de alguns guindastes. Para quem já viveu algo de semelhante no seu país, esta euforia tem algo de dejá vu. É verdade que a economia inglesa tem uma pujança que não é comparável à dos países ibéricos e tem até agora sustentado os grandes investimentos no sector da construção. brexit-island.jpgContudo, a maior incógnita parece estar nas consequências do Brexit e na inevitável retracção económica que provocará. Irá o imobiliário continuar a apoiar a economia real, absorvendo investimento, criando empregos e gerando mais-valias, ou as suas dificuldades acabarão, como sucedeu noutros países, por arrastar toda a economia para uma profunda crise? As dúvidas e apreensões de um Brexit agora cada vez mais provável transformam o futuro, tanto no imediato como a médio e longo prazo, numa imensa e irresolúvel incógnita…

Crónica britânica – II

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Chuva. Muita chuva. É o quinto dia que por cá ando e ainda não presenciei mais do que uma ou duas horas de sol. Claro que ter escolhido visitar o norte da Inglaterra e a Escócia, em vez das paragens mais quentes e amenas a sul, também não ajuda. Lado positivo: campos sempre verdejantes, sem a ameaça permanente dos incêndios a que a Europa meridional há muito se habituou. Mas o mais surpreendente é que a chuva não mete medo aos britânicos, que continuam a sair de casa em traje de Verão, nem os afasta daquele convívio de rua que mais frequentemente associamos aos povos latinos.

Comboios. A pátria do caminho-de-ferro – foi na Inglaterra e na Escócia que se inventou o transporte sobre carris e se desenvolveram praticamente todas as tecnologias que lhe estão associadas – continua a ter uma densa rede ferroviária, sendo o comboio um meio de transporte bastante popular. Há linhas férreas por todo o lado. Contudo, o pioneirismo só por si não garante eternas vantagens: a verdade é que, ao contrário de países como a França, a Alemanha ou a Espanha, o Reino Unido ainda hoje não dispõe de uma rede de alta velocidade. Em contrapartida, foram pioneiros a liberalizar o sector, abrindo-o à iniciativa privada. Uma opção que teve inicialmente resultados negativos – aumentaram os preços, degradaram-se as condições de conforto e segurança – mas que nos últimos anos parece estar a favorecer algum investimento privado no sector. Uma coisa que me surpreendeu foi reparar que boa parte das linhas ainda não estão electrificadas. Mas isso não representa, como em Portugal, uma situação dramática, pois existem comboios modernos e eficientes, movidos a gasóleo, para fazer esses serviços.

Fish and chips. Podem não ser uma especialidade gastronómica, e é verdade que a culinária das ilhas britânicas ainda tem, de um modo geral, muito caminho a percorrer para se poder comparar à de outros países europeus. Mas a verdade é que o fish and chips rivaliza já com os hambúrgueres e as pizzas enquanto alternativa para uma refeição rápida e barata. As lojas vêem-se por todo o lado, umas mais simples, outras ensaiando algum requinte. E, se não for para comer todos os dias, até acaba por saber bem…

We don’t serve alcohol. E eu também não tenho o hábito de agarrar no frasco do álcool e beber. Mas sabe-me bem, com a maior parte das comidas, um copito de vinho ou uma half pint a acompanhar. Faz-me por isso alguma confusão quando ocasionalmente me deparo com estabelecimentos de comida rápida onde dizem que lamentam, mas “não servem álcool”. Mas não servem porquê? Pode ser impressão minha, mas sinto nestas proclamações uma espécie de revivescência do velho espírito calvinista e puritano, aquele moralismo conservador que acabaram por levar também para o continente americano e que esteve mais tarde na origem da lei seca e do gangsterismo associado ao consumo clandestino de bebidas alcoólicas.

Crónica britânica – I

liverpool-pride2019De uma incursão estival por terras britânicas, onde já não vinha há mais de uma década – e que eventualmente visito pela última vez sem necessidade de apresentar passaporte à entrada – ficam algumas breves e telegráficas impressões de viagem.

Multiculturalismo. É uma realidade, pelo menos nas grandes cidades, onde se vê gente de todos os credos e origens étnicas. Véus islâmicos e mini-saias, corpos tatuados e homens de turbante. Negros e morenos de diversas origens contrastam com ingleses de pele rosada. E, claro, nas últimas décadas, um forte afluxo de outros europeus, atraídos pelo crescimento económico e as oportunidades de emprego e de carreira daquela que continua a ser uma das mais dinâmicas e competitivas economias europeias. A convivência é, aparentemente, pacífica. Ninguém chateia ninguém. As verdadeiras desigualdades não radicam na cor da pele ou na religião mas, como sucede em todas as economias capitalistas desenvolvidas, na capacidade económica. Por isso, é tão fácil encontrar uma muçulmana de hiyab às compras nas lojas mais caras e exclusivas como deparar com um genuíno súbdito de Sua Majestade a dormir na rua.

LGBT. Expressão tanto da moderna diversidade como da tradicional excentricidade britânica, as paradas que começaram por ser uma afirmação do orgulho gay têm hoje um âmbito muito mais vasto. Alargadas aos múltiplos géneros e identidades sexuais em afirmação, estas concentrações celebram sobretudo os valores universais do respeito e da tolerância, sempre necessários à vida em sociedade. E enquanto em Portugal estes eventos são ainda uma expressão de minorias, por cá enchem enormes praças públicas e tornaram-se, em larga medida, festas de família. Com a participação de muitos casais heterossexuais e dos seus filhos, alguns levados ainda no carrinho de bebé.

A ameaça do Brexit. É sentida com inquietação pelos britânicos. Os jornais não têm sido brandos com o novo líder conservador e, aparentemente, poucos confiam nele. Mas não haverá muitas dúvidas de que, se o deixarem, fará tudo o que estiver ao seu alcance para empurrar o Reino Unido para fora da União Europeia, mesmo sem acordo. Ainda que comprometendo, no imediato, a precária paz irlandesa e, a prazo, a própria unidade britânica, tendo em conta a larga maioria de escoceses hostis ao Brexit.

Museus gratuitos e abertos todos os dias. Uma originalidade britânica que não me canso de apreciar. Os maiores museus públicos, onde se concentram os maiores tesouros patrimoniais e artísticos britânicos, continuam a ser, com poucas excepções, de acesso gratuito. E não fecham à segunda-feira. Em alternativa à cobrança de um bilhete, apela-se aos visitantes que façam uma doação voluntária ou comprem uma recordação na loja do museu. Algo que muitos fazem voluntariamente, num país onde há também muitas empresas a comprometer-se com a preservação da arte e do património e as fundações privadas não servem apenas para fugir aos impostos. Resultado prático: museus cheios de gente; um hábito de os frequentar que vai sendo criado desde a infância e uma curiosidade e gosto por aprender que, espera-se, se prolonguem pela vida fora.