Dicionário de Novilíngua Alienante para Português Escorreito – II

A segunda parte do guia breve, mas útil, que nos ajuda a transpor para língua de gente as palavras novas que se inventam globalmente para designar coisas mais velhas do que a Sé de Braga. São incensadas por muitos mas, chamadas pelos seus verdadeiros nomes, poucos as querem para si ou para aqueles que prezam.

Traduzido e adaptado duma sequência de tweets de Pascual Gil Gutiérrez.

Gerir as desigualdades:aceitar as desigualdades.
Desregulamentar:desproteger.
Parceria público-privada:desmantelamento do sector público e capitalismo de amigalhaços.
Mercado:novo Deus (e ainda para mais o chunga, o do Antigo Testamento).
Transição eco-sustentável:jorro de milhões de dinheiro público sobre empresas privadas para que não reduzam os seus lucros.
Mercado de trabalho dinâmico:ir saltando entre empregos precários e desemprego ao longo da vida.
Minijob:trabalhas e és pobre.
Pós-verdade:mentira.
Relativismo:sucessão de mentiras.
Gestão/inteligência emocional:alienação e adaptabilidade a um sistema insano.
Sindicato:gri, gri, gri, gri…
“Esquerda”:Fina camada de verniz legitimador de um sistema antropófago.
Influencer:novo apóstolo.
Democracia:idiocracia e timocracia (poder dos idiotas e dos influentes).
Capital humano:antes dizíamos pessoas.
Externalizar:privatizar.
Mobilidade externa:emigração por razões económicas.
Adaptar o sistema educativo ao sistema produtivo:há demasiados universitários num país de empregados de mesa.

Dicionário de Novilíngua Alienante para Português Escorreito – I

Um guia breve, mas útil, para evitar as armadilhas mais óbvias no discurso dos apóstolos da globalização neoliberal, da sociedade do conhecimento, do admirável mundo novo ali ao virar da esquina.

A verdade é que, se não alterarmos radicalmente os processos de acumulação e distribuição de riqueza, caminhamos para um mundo onde nunca se produziu tanto e tão eficazmente, mas onde as desigualdades nunca foram tão gritantes.

E aqui a linguagem não é, nunca foi, neutra. Convém por isso que, sempre que nos dizem alguma coisa, sejamos capazes de compreender do que nos estão, de facto, a querer convencer.

Traduzido e adaptado, com a devida vénia, desta sequência de inspirados tweets.

Coaching:sacerdócio laico.
Empreendedorismo:auto-exploração.
Aceita-te como és:não tentes mudar nada.
Autoconhecimento:fechar-se em si próprio.
Flexibilização:precariedade.
Ajustamento da despesa:cortes orçamentais.
Ajustamento de pessoal:despedimentos.
Liberdade:liberdade de consumo, num mercado abundante, mas limitada pela tua carteira.
Resiliência:resignação acrítica.
Coliving:és pobre.
Jobhoping:és pobre.
Freeganismo:és pobre.
Nesting:és pobre.
Mindfulness:exame de consciência mas em mais giro.
Autoajuda:auto-sugestão charlatona.
Desaceleração:(outra) crise.
Envelhecimento activo:não te vais aposentar.
“segundo a OCDE”:segundo uma entidade supranacional e não democrática criada para o crescimento económico e a competitividade de mercado.

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

Figura polémica mas incontornável da história política do século XX português, Otelo Saraiva de Carvalho foi o principal estratega da Revolução dos Cravos. Planeou integralmente e coordenou, a partir do Posto de Comando instalado pelos militares revoltosos no Quartel da Pontinha, todas as operações militares que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, convergiram na conquista dos principais centros de poder e no derrube da ditadura.

Militar com experiência de guerra em Angola e na Guiné, Otelo era, como a generalidade dos Capitães de Abril, um homem pouco politizado. A ele e aos outros, unia-os a rejeição da guerra colonial, a vontade de devolver ao povo a liberdade e a democracia e de, num novo contexto político, negociar a independência das colónias. Tudo o resto, como então se dizia, estava em aberto.

Ao contrário dos seus camaradas da Coordenadora do MFA, que escolheram a via da moderação, Otelo radicalizou-se à esquerda, tornando-se, ao comando do contestado COPCON, uma das figuras de proa do chamado PREC – Processo Revolucionário Em Curso – no Verão Quente de 1975. Mas os tempos revolucionários estavam a chegar ao fim: a legitimidade democrática, obtida nas eleições, sobrepunha-se à legitimidade revolucionária. E Otelo foi arrastado pela derrota dos sectores radicais das Forças Armadas no golpe de 25 de Novembro, preso e afastado de todos os cargos políticos e militares. Mais tarde, o envolvimento com as FP-25, uma anacrónica organização terrorista de extrema-esquerda, haveria de o conduzir novamente à prisão, tendo sido condenado e, posteriormente, amnistiado.

Para a História de Portugal e a Memória dos portugueses, Otelo fica acima de tudo como o revolucionário generoso, o estratega brilhante de um golpe militar sem derramamento de sangue – um feito inédito na conturbada história política contemporânea da Península Ibérica e da América Latina. Um homem afável, um espírito inquieto e cheio de contradições, uma alma de artista que, noutras circunstâncias da vida, poderia ter sido, quem sabe, um actor de teatro ou um realizador de cinema.

E escritor, também. O seu livro Alvorada em Abril continua a ser a melhor narrativa da Revolução de Abril, contada na primeira pessoa pelo seu principal mentor.

Velocidade a mais, segurança no trabalho a menos

Todos os testemunhos coincidem: o carro em que seguia o ministro da Administração Interna seguia a mais de 200 km/h no momento em que colheu mortalmente um trabalhador que efetuava limpeza na berma da A6 e que se preparava para atravessar a faixa de rodagem.

No rescaldo da lamentável tragédia, e depois de algumas derivas em torno do acessório – a exigência de demissão do ministro, o não ter-se feito representar no funeral, a situação eventualmente irregular do automóvel – parece que aos poucos a opinião pública e a comunicação social se começam a concentrar no essencial: a velocidade excessiva e injustificada a que se deslocam as viaturas ministeriais e a falta de condições de segurança em que se trabalha na manutenção de auto-estradas e noutros locais de risco.

Sobre a demissão do ministro não há muito a dizer: ele é talvez a nódoa mais visível deste governo e há muito o deveria ter percebido. Faria um bem a si próprio, ao país e aos seus correligionários políticos se fosse capaz desse acto, não de fraqueza, mas de lucidez, desprendimento e grandeza que é, por iniciativa própria, renunciar a um cargo que, politicamente fragilizado, já não terá condições para exercer como é devido. No entanto, se não se demitiu devido a outras trapalhadas em que teve intervenção directa, não será agora que o fará, quando pode sacudir para terceiros as responsabilidades, continuando agarrado ao cargo que nem uma lapa. Lamentável, por certo, mas nada surpreendente.

Sobre a velocidade excessiva dos carros que transportam os ministros e outros dignitários já aqui escrevi e mantenho: não é inaceitável que se furtem ao cumprimento da lei que impõem aos restantes cidadãos. Não andam na estrada a salvar vidas, nem correm para apagar incêndios ou capturar criminosos, pelo que não se justifica a condução selvagem que põe em perigo a segurança e a vida de todos os utentes das estradas. Não é só o carro do Cabrita: são os carros de todos os ministros.

A outra face do problema é o lado da vítima, ou melhor, das muitas vítimas que todos os anos morrem ou ficam incapacitadas em consequência de acidentes laborais perfeitamente evitáveis. Neste caso, haveria trabalhos a decorrer nas bermas e na rede de drenagem da auto-estrada, com uma parte das operações a ser feita no separador central. Um bom planeamento do trabalho deveria evitar o atravessamento das vias pelos trabalhadores e garantir a sua segurança quando fosse absolutamente necessário fazê-lo. Mas a empresa que faz os trabalhos quer despachar o serviço e a concessionária não tem interesse em condicionar o uso da via aos seus clientes. Sobra assim para o trabalhador, que continua a ser o elo mais fraco da cadeia e aquele que sofre as consequências, trágicas, quando alguma coisa corre mal. Naquele dia fatídico, foi apanhar pela frente uma comitiva ministerial desvairada, disposta a tudo para que o senhor ministro pudesse chegar uns minutos mais cedo ao seu destino.

Liberdade de escolha

De uma forma ou de outra, escolhemos sempre, e acabamos, no final, a arcar com as consequências das nossas escolhas.

O importante é, em cada momento em que podemos escolher, sermos capaz de fazer a escolha que verdadeiramente interessa.

Marcelo e Ferro de castigo, Tiago a titular…

Política, pandemia e pontapé na bola: três fenómenos que, à mistura, podem levar mesmo os políticos mais tarimbados a dar autênticos tiros nos pés, sucumbindo à demagogia e à irresponsabilidade. Como sucedeu desta vez com os presidentes da República e do Parlamento. Perante a necessidade de salvar da crítica pública as duas primeiras figuras do Estado, ambas comprometidas por declarações precipitadas e insensatas que poderiam bem ter evitado, decidiu-se ao mais alto nível a retirada estratégica: nenhum dos meninos linguarudos e fanfarrões irá ver a bola. Ao encontro da selecção e da equipa adversária, marcha Tiago Brandão Rodrigues.

Não foi mal pensado. Assistir, da tribuna de honra, aos grandes jogos da selecção nacional é de entre as múltiplas obrigações de um ministro da Educação, das poucas que Tiago cumpre com gosto. Lá estará daqui a pouco, sem que se interponham as indisponibilidades, as indisposições ou as partes gagas habituais sempre que o ministro dito da Educação é chamado a tratar de assuntos… educativos!

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, assegurará no domingo, em nome do Governo, a representação portuguesa no jogo do europeu de futebol Portugal-Bélgica, em Sevilha, cidade espanhola com elevado risco de covid-19. Marcelo Rebelo de Sousa e Ferro Rodrigues iam marcar presença, mas acabaram por desmarcar.

A decisão foi tomada este sábado na sequência de uma conversa entre as três mais altas figuras do Estado, Presidente da República, presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro, a fim de definirem as regras da representação portuguesa nos jogos do europeu de futebol, disse à Lusa fonte governamental.

De acordo com o esquema definido, e se Portugal se qualificar até à fim da prova, nos quartos-de-final estará presente Ferro Rodrigues, nas meias-finais será a vez de Marcelo Rebelo de Sousa e, na final, prevista para Londres, estarão os três: Ferro, Marcelo e António Costa. A decisão foi tomada a fim de garantir a representação de Portugal em qualquer caso, independentemente das condições da pandemia.

Ministro em viagem, perigo na estrada

Carro em que seguia ministro Cabrita envolvido em atropelamento que fez uma vítima mortal

Acidente aconteceu na autoestrada A6 e será investigado pela GNR. Vítima mortal era um trabalhador que fazia manutenção da via e tinha 43 anos.

Acidentes trágicos acontecem, infelizmente, e fazer trabalhos de manutenção numa auto-estrada com os carros a passar ao lado a altas velocidades será sempre uma actividade de risco. Mas este pode ser minimizado e controlado se as regras forem cumpridas, tanto da parte dos trabalhadores como dos condutores. O que neste caso, infelizmente, não aconteceu.

Dizem que vão investigar as causas do atropelamento mortal. Conviria que soubéssemos a que velocidade seguia o carro que transportava o ministro, nomeadamente se cumpria o limite de velocidade imposto pelo código da estrada. E isto não é embirração contra o ministro mais impopular deste governo nem um exercício de demagogia: acho que está na altura de uma discussão séria sobre uma realidade que já quase todos os cidadãos, uma vez ou outra, constataram: a velocidade excessiva, a condução perigosa e as infracções sistemáticas ao código da estrada com que os governantes se fazem conduzir nas viaturas oficiais. O que é inteiramente ilegítimo: não só pelos riscos em que fazem incorrer os outros utentes da via pública como pela colocarem acima da lei que deveriam ser os primeiros a respeitar. Com a agravante de, muitas vezes, não irem sozinhos, mas fazerem questão de levar “comitiva”, ou seja, uma série de carros velozes a assapar

As regras e sinais de trânsito, os limites de velocidade, o dever de praticar uma condução prudente e segura são obrigações de todos os utentes das estradas. Por muito importante que seja uma deslocação ministerial, a verdade é que o ministro não vai apagar nenhum fogo nem socorrer um doente em perigo de vida. Para aquilo que fazem nas suas surtidas ao país real, não se justificam de forma alguma estas marchas de urgência.

Se não querem chegar atrasados, façam-se ao caminho mais cedo.

Pensamento do dia

Sem redistribuição de riqueza não há igualdade nem liberdade, por muito mindfulness que se faça. Ninguém é livre se depende da vontade ou do interesse de outros para comer, ter tecto, formar uma família ou pagar as facturas. Ser livre é um estado, não um sentimento.

Tweet de Pascual Gil Gutiérrez

Bur(r)ocracias

A Câmara Municipal de Lisboa admite ter partilhado os dados dos organizadores de uma manifestação de apoio ao activista Alexei Navalny – e anti-Putin – com a embaixada russa, mas nega qualquer acusação de cumplicidade com o Governo russo.

Em comunicado, a autarquia diz que os dados dos responsáveis pela manifestação foram partilhados para a Polícia de Segurança Pública (PSP), Ministério da Administração Interna e à entidade onde se realizou este evento: a embaixada russa em Lisboa. É ainda dito que a Câmara de Lisboa tem cumprido a lei “de forma homogénea”, adoptando a mesma prática para todas as manifestações. 

Apesar de admitir que os dados foram partilhados com a embaixada russa, a Câmara de Lisboa nega qualquer acusação de cumplicidade com o regime russo – acusando a maioria das críticas de servirem apenas como forma de “aproveitamento político” –, adiantando que mudou internamente os procedimentos para estas manifestações, de modo a acautelar a partilha destes dados sensíveis. 

Ao fim de quase meio século de vivência democrática, ainda prevalece uma cultura de opacidade nos serviços públicos que leva a esconder do escrutínio dos cidadãos actos e procedimentos que deveriam ser públicos ou a invocar conveniências de serviço e deveres de sigilo para sonegar, aos cidadãos que a requerem, informação referente a assuntos do seu interesse. É curioso verificar como os princípios de uma administração aberta e transparente estão há décadas plasmados na lei e continuam a ser largamente desentendidos e ignorados; no entanto, o novíssimo regulamento europeu de protecção de dados foi rapidamente adoptado por administrações públicas e privadas – pelo menos na parte em que pode servir de fácil pretexto para restringir o acesso à informação e ao escrutínio da coisa pública, mantendo os cidadãos desinformados de muitas coisas que deveriam saber.

Contudo, a burocracia, que nunca se evidenciou por ser uma actividade que estimule a inteligência, o discernimento ou o espírito crítico, tem destas coisas: com a mesma facilidade com que indefere liminarmente o requerimento do cidadão, o burocrata zeloso envia automaticamente a fotocópia ou o pdf de um documento contendo dados pessoais de cidadãos para uma embaixada estrangeira. A questão é saber se, à frente dos serviços e orientando os seus subordinados, estão pessoas à altura das suas responsabilidades.

Assim, não basta concentrar as culpas no manga-de-alpaca anónimo e imbecil que cumpriu estritamente as ordens recebidas, nem diluir as culpas pelo “sistema” que permite estas coisas. Os responsáveis dos serviços e o responsável máximo, que é o presidente da autarquia, devem assumir o que andam a fazer, tendo em conta que as consequências das suas acções e omissões não se apagam, num caso como este, com o simples pedido de desculpas. Ou o que permitem que os subalternos façam, quando andam eles próprios entretidos com outras coisas que não o exercício competente e eficaz das suas funções.

Desconfinamento

Daqui.