Desacatos em manifestações de professores???

A permanente fuga às responsabilidades é uma atitude e um modo de estar na política que mancha, de forma indelével, demasiados membros do actual governo. No caso em apreço, até não custa muito admitir que ao secretário de Estado do Desporto dificilmente se poderão assacar responsabilidades directas nos lamentáveis festejos da vitória sportinguista. Mas escusava de se exprimir de uma forma tão deselegante e até insultuosa para os professores, uma classe profissional que ainda por cima é tutelada pelo ministério a que pertence. Haverá memória, em 47 anos de democracia, de uma manifestação de professores em que tivesse havido qualquer tipo de desacatos?…

“Não é querer estar, como diz o povo, a sacudir a água do capote. Mas a verdade é que não é o secretário de Estado do Desporto, tal como não é por haver uma manifestação de professores onde haja desacatos que é chamado à colação o ministro da Educação“, considera João Paulo Rebelo.

Sendo aparentemente, como a grande maioria dos “ajudantes de ministro” deste governo, um adepto do low profile no exercício do cargo, não necessitaria de se expor desta forma, invocando despropositada e ofensivamente, os professores. Mas já que o fez, e me obriga a lembrar a sua existência política, aproveito para recordar as circunstâncias em que chegou ao poder. Foi uma segunda escolha no lugar que ocupa, depois do primeiro titular se ter demitido. João Wengorovius não se entendeu com o ministro com quem iria trabalhar e bastaram-lhe poucos meses para avaliar, em definitivo, as qualidades políticas e o carácter pessoal de Tiago Brandão Rodrigues. Ao contrário do seu sucessor, que se mantém no cargo até hoje, transitando do primeiro para o segundo governo de António Costa.

“Deixo hoje o XXI Governo Constitucional, convicto de que tinha um bom projeto e uma excelente equipa – e de que estávamos no caminho certo – contudo, em profundo desacordo com o Sr. Ministro da Educação no que diz respeito à política para a juventude e o desporto, e ao modo de estar no exercício de cargos públicos“, escreve João Wengorovius Meneses.

Foi em 2016, ainda mantinha Brandão Rodrigues o estado de graça e a aura de jovem cientista talentoso e comprometido com os desafios da Educação portuguesa. E é premonitório do que viria a seguir…

Tribunal manda repetir eleição do director

O Tribunal Administrativo e Fiscal (TAF) de Leiria mandou repetir a eleição do director do agrupamento de escolas de S. Martinho do Porto, no concelho de Alcobaça, reconhecendo irregularidades que tinham sido denunciadas por um dos professores candidatos. Os problemas eram do conhecimento da Direcção-Geral da Administração Escolar (DGAE), mas não impediram o organismo tutelado pelo Ministério da Educação de homologar o processo dois meses antes.

Incompetência, irregularidades grosseiras e falta de isenção no processo eleitoral que deveria conduzir à escolha do novo director: na notícia do Público quase ninguém sai bem na fotografia e mesmo o candidato derrotado, que venceu a acção judicial, deverá estar agora a ponderar seriamente se está mesmo interessado em voltar a concorrer, perante o tratamento de que foi alvo pelo Conselho Geral.

Sendo este o órgão que tem a responsabilidade de escolher o novo director, falhou redondamente ao não conduzir o processo nos termos da lei, publicando o regulamento do concurso já depois do prazo de submissão das candidaturas. E foi este evidente vício de forma que levou o tribunal a declarar nulo o processo eleitoral, ordenando a sua repetição.

Mas também a tutela agiu duplamente mal neste processo. Primeiro, ao homologar uma eleição decorrente de um processo ferido de irregularidades, tendo tido conhecimento da queixa apresentada pelo candidato prededor. Depois, ao recusar assumir responsabilidades, alegando que homologou com base na informação prestada pelo Conselho Geral. Ora esta é uma lição que os mais experientes na gestão escolar aprenderam há muito: o ME está sempre disposto a pactuar com pequenas e médias irregularidades e abusos das “lideranças fortes” ao nível das escolas; mas nada disposto a assumir os custos, a nível político ou judicial, que essas decisões possam ter: quando algo corre mal, rapidamente sacode a água do capote, empurrando a responsabilidade para as escolas.

Desamparada pelo ME e com a directora alegadamente favorecida a remeter-se a um prudente silêncio, também a presidente do Conselho Geral prefere ficar calada, recusando esclarecer o imbróglio criado com a sua actuação. E que terá, agora, de resolver.

45 mil docentes e não docentes por vacinar

O número de trabalhadores docentes e não docentes por vacinar não é, como se tentou dar a entender inicialmente, residual. O coordenador da task force admitiu na semana passada a existência de 45 mil pessoas nesta situação. Garantiu que não foi por culpa do grupo de trabalho que dirige que esta situação aconteceu – o que não custa a acreditar – mas não apontou uma data concreta para que estas vacinações em falta se realizem – o que não é aceitável.

Entre os professores sem vacina e sem resposta às suas reclamações há quem pertença a grupos de risco. E mesmo os que se consideram saudáveis estão diariamente expostos a um risco acrescido, à medida que o avanço nas medidas de desconfinamento vai induzindo comportamentos menos seguros da parte dos alunos. Por isso ponderam o recurso a atestado médico para proteger a sua saúde e a sua vida, algo que não deveriam ser forçados a fazer quando existe vacina disponível e têm direito a ela.

Quando à falta de respostas e de soluções, parece que, uma vez mais, a necessidade de encobrir as falhas e a incompetência de quem não fez o seu trabalho como devia se está a sobrepor à necessidade de corrigir rapidamente a situação vexatória e discriminatória a que o Estado sujeitou estes professores e funcionários das escolas. O que, além de lamentável, é perfeitamente escusado: não se pretende crucificar ninguém, apenas que se corrijam os erros que cometeram, integrando na lista de vacinação quem sempre lá deveria ter estado.

No Agrupamento de Escolas do Castêlo da Maia há 179 professores e dois não docentes ainda sem qualquer dose da vacina contra a covid-19. Uma situação que está a provocar grande ansiedade e se estende a várias escolas do País, com professores a ameaçarem com baixa médica.

“Não sabemos o motivo e a falta de resposta é a grande questão”, conta ao DN Marco Marques, diretor do agrupamento. O responsável garante ter falado “com quem de direito” e ter levado a cabo “todos os procedimentos necessários para resolver o problema”. “A lista que foi enviada para a testagem tem os mesmos dados daquela que foi enviada para a vacinação. Serviu para a testagem e não se entende o que falhou para o processo de vacinação”.

A situação, conta, está a criar “muita ansiedade aos docentes”. “Não se compreende esta situação e com uma justificação seria mais fácil de entender e de gerir. Era importante que nos dessem alguma explicação”, afirma.

Eva Matias, professora de Matemática numa escola da Amadora também não compreende “o silêncio” das entidades. “Ainda não fui contactada e o silêncio é inacreditável. Já fiz queixa ao Provedor de Justiça, enviei email para o Conselho de Ministros e Presidência da República e não tive resposta de ninguém”, explica. A docente, que sofre de hipotiroidismo – uma doença autoimune – diz sentir-se “psicologicamente afetada com a situação”. “Dou aulas ao 9º ano. São alunos que não foram incluídos na testagem e que têm comportamentos de risco próprios da idade. São idades críticas, estão enfiados nas casas uns dos outros a conviver, andam sempre todos juntos e sem máscara no exterior da escola”, sublinha.

A professora diz estar a “colocar a vida em risco diariamente” e pondera recorrer à baixa médica se a situação não se resolver. “Dou aulas há 23 anos e nunca meti baixa na minha vida, mas tenho muito medo de ir trabalhar. Não me sinto segura na escola e a verdade é que os alunos já não cumprem tanto as regras de segurança. Para eles, isto já passou”, conclui.

A opinião é partilhada por Fernando Couto, professor do Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, para quem a escola “não é, nem nunca foi um lugar seguro”. “A imagem que passam de segurança não é real e não é o ideal para evitar a contaminação. Não por culpa das direções das escolas, mas pela falta de cumprimento de regras por parte dos alunos. E é preciso não esquecer que por trás de cada criança há um agregado familiar. A escola não é um lugar seguro, nem o conseguirá ser porque não há capacidade para isso”, diz.

Inquéritos inconclusivos

Os professores dos ensinos básico e secundário em Portugal, que responderam a um estudo da Universidade do Minho (UMinho), dividem-se na avaliação das medidas tomadas pela tutela no último ano para responder aos efeitos da pandemia nas escolas. O estudo do Centro de Investigação em Educação (CIEd) da Universidade do Minho foi agora apresentado, com a presença do secretário de Estado da Educação, João Costa.

A investigação “Perceções dos professores sobre o ensino à distância” consistiu num inquérito online em janeiro, com a colaboração das duas associações de diretores de escolas públicas, ao qual responderam 280 professores. Aqueles docentes avaliaram as políticas públicas aplicadas no primeiro confinamento (recursos no ensino à distância, acesso a computador e Internet, iniciativa #EstudoEmCasa, entre outras) e avaliaram também o arranque do presente ano letivo (recuperação das aprendizagens e condições sanitárias, por exemplo). No global, as medidas do Ministério da Educação foram consideradas inadequadas para 44% dos inquiridos, enquanto 35% concordaram e os restantes 21% não emitiram opinião.

Apresentado com pompa e circunstância numa sessão com a presença do SE Costa e com ampla divulgação na comunicação social, o estudo da Universidade do Minho é mais um daqueles trabalhos genéricos, inconclusivos e, com toda a franqueza, sem o mínimo de qualidade científica. Algo que entre nós se tornou regra, infelizmente, naquilo a que pomposamente gostam de chamar as “ciências da educação”, mas que em termos de rigor e método científico deixa muito a desejar. Gostaria, ao escrever sobre o assunto, de não fazer generalizações abusivas, mas quando o único elemento que é disponibilizado para consulta dos interessados é um documento-síntese que pouco ou nada acrescenta ao que a comunicação social veiculou, percebe-se que a encomenda cumpre objectivos mais políticos do que propriamente científicos. O que deveria envergonhar a universidade e os investigadores que o produziu.

Os estudos deste tipo, que pretendem avaliar sentimentos, percepções, opiniões ou estados de alma de uma classe profissional vasta e heterogénea, falham desde logo num ponto crucial, que é a representatividade da amostra. Se num universo de mais de 100 mil profissionais optam por interrogar menos de 300, haveria que assegurar que o grupo de respondentes é uma amostra fiel dos professores de todo o país, incluindo, de forma proporcional, idades, distribuição geográfica, níveis de ensino, grupos disciplinares, categorias profissionais. Não há indícios de que tal tenha sido feito. Aliás, a “colaboração” pedida às duas associações de directores sugere que os investigadores nem terão controlado directamente a constituição da amostra: bastou-lhes pedir aos senhores directores que passassem o link no GoogleForms ou similar a um determinado número de docentes, escolhendo quem bem entendessem.

Depois, a forma como estes formulários são geralmente construídos deixa também muito a desejar. Perguntas vagas, que podem ter sentidos contraditórios, ou construídas de forma a induzir determinadas respostas. Quanto a estas, muitas vezes as opções dadas para responder não se adequam ao que é perguntado ou ao que realmente se gostaria de responder. Neste caso em concreto, vemos uma maioria de professores a acusar o excesso de trabalho burocrático e depois a defender uma das coisas mais trabalhosas que se fazem actualmente nas escolas, as adaptações curriculares, com ganhos pedagógicos reais ainda por demonstrar. A única lógica que permite compreender isto é que se encomendam estudos, não para compreender a realidade e tomar melhores decisões, mas para caucionar políticas erradas previamente decididas.

Este panorama desolador nos estudos académicos sobre as escolas e a Educação vai alastrando, infelizmente, a outras áreas das ciências sociais. Quem é que não é regularmente convidado a responder a mais um inquérito, uma sondagem, um estudo nesta ou naquela área, partindo o convite, quase sempre, do correio institucional ou de amigos e conhecidos que têm um filho, um sobrinho, um amigo a fazer um trabalho de mestrado ou doutoramento e precisam de reunir rapidamente um número determinado de respostas, sejam elas de quem for? É preciso que se diga claramente que esta constituição de amostras ditas “aleatórias” não é ciência séria em parte nenhuma do mundo. Entre nós, também não deveria ser.

Ainda há professores por vacinar

E não se sabe quantos nem quando o serão. Nalguns casos a falha pode ter sido das direcções escolares, que não lançaram os dados na plataforma criada para o efeito, ou o fizeram incorrectamente. Mas esses erros já terão sido corrigidos e os professores em causa continuam sem ser chamados.

Quando, como fez a Fenprof, se tenta apurar o que se passa e perceber quando será o problema resolvido, surge o habitual jogo do empurra entre os serviços do ME e do ministério da Saúde. Parece que todos têm medo de assumir as eventuais responsabilidades, quando o que aqui interessa é a resolução rápida da situação, com a integração dos docentes em falta nas listas de vacinação. Errar é humano, e seria impossível não ocorrerem algumas falhas num processo desta dimensão. A persistência no erro, sem que ninguém se chegue à frente para corrigir a situação, isso sim, é que começa a ser preocupante.

No primeiro fim de semana de vacinação (27 e 28 de março) foi tornado público que todos os docentes (Pré-Escolar e 1.º Ciclo) que não tivessem sido chamados deveriam contactar as escolas para ainda serem integrados nas listas; contudo, a esmagadora maioria destes continuou sem ser chamada, tendo, então, os docentes sido informados de que seriam integrados no grupo seguinte, entretanto notificado para comparecer em 17 e 18 de abril. Só que, nesse fim de semana, para além de não ter sido resolvido o problema anterior, ainda se acumularam outros docentes, agora dos 2.º e 3.º Ciclos e do Ensino Secundário. 

Contactados serviços regionais da DGEstE, Ministério da Educação (a quem a FENPROF colocou a questão diretamente em 16 de abril, relativamente aos “esquecidos” ou “excluídos” da “primeira chamada”) e autoridades de saúde, a informação passou a ser que todos esses docentes seriam chamados na semana seguinte. Uma vez mais, isso não aconteceu e os professores começaram a contactar os serviços de vacinação e, por indicação destes, as escolas; estas, por sua vez, pediam para contactar a DGEstE e esta remetia, novamente, para a saúde. Ninguém parece saber o que se passa e houve casos em que, comprovadamente, nunca houve qualquer erro na lista elaborada pela escola, os serviços regionais de vacinação, sem resposta para o problema, recomendaram o contacto com a linha SNS24, que, naturalmente, também não sabia responder ao que lhe perguntavam. 

A vacinação dos professores é fundamental para manter as escolas abertas, conferindo segurança e confiança aos profissionais da Educação, que assim vêm muito reduzidos os riscos de infectarem ou serem infectados pelos seus alunos. Os professores serão os primeiros a reconhecer o esforço feito, numa altura em que as vacinas ainda são escassas, para os incluir entre as prioridades de vacinação. Mas é importante que este processo, no geral bem sucedido, não fique comprometido pelo número significativo de profissionais que, tendo sido inicialmente esquecidos, se espera que não fiquem excluídos.

À espera do SMS

E quem muito espera, já se sabe, desespera.

Embora aqui o caso não seja para tanto. É apenas mais um reflexo de falta de organização e de recursos.

Fatalidade bem portuguesa, contra a qual nem o homem do camuflado consegue fazer milagres…

É muito isto…

Boneco em circulação nas redes sociais

Interesses inconfessáveis ou chocante amadorismo – ou um misto de ambos – parecem estar a condicionar as políticas europeias, ou de alguns estados europeus, no combate ao coronavírus. Mais concretamente, na vacinação em massa, a única arma verdadeiramente decisiva para vencer a pandemia. Será que é assim tão importante deitar abaixo a vacina da AZ, por causa da sua filiação britânica ou dos contratos mal negociados e pior cumpridos? E se é assim mesmo, onde estão as alternativas?

Esta missão, em defesa da saúde pública e pela recuperação da vida normal por que todos ansiamos, só estará cumprida quando o ritmo de vacinação for superior à capacidade de contágio e de mutação de um vírus particularmente resiliente. E isto até um leigo na matéria, como eu, consegue perceber…

O governo da propaganda

O secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) acusou este sábado o Governo de fazer propaganda com a vacinação contra a covid-19, afirmando que há muitas pessoas que estão na primeira linha de combate à pandemia que não foram vacinadas.

“Não adianta e é totalmente inqualificável esta atitude de dizer que se vai vacinar os senhores professores — que aliás [somos] totalmente de acordo quanto a essa matéria – quando se sabe que muitas das pessoas que estão na primeira linha ainda nem sequer foram vacinadas”, disse o secretário-geral do SIM, Jorge Roque da Cunha.

Jorge Roque da Cunha, que falava em declarações à Lusa após o encerramento do XIII Congresso do SIM, disse que, neste momento, só cerca de 75 a 80 % dos médicos, 20% dos elementos da PSP e GNR e cerca de 25% dos bombeiros estão vacinados.

Oportuno e corajoso, o líder do Sindicato Independente dos Médicos denuncia um governo que promete vacinas aos professores, mas ainda não conseguiu vacinar todos os profissionais de saúde que estão na primeira linha do combate à pandemia. Que é incapaz, primeiro, de reconhecer que não há ainda vacinas suficientes para todos os prioritários, segundo, de estabelecer – e fazer cumprir! – prioridades claras no processo de vacinação.

Um governo que continua a negar o reforço dos recursos, materiais e humanos, necessários para a retoma da actividade programada dos hospitais e centros de saúde, permitindo que o caos da pandemia alastre às outras especialidades médicas e aos cuidados primários, que deveriam estar sempre salvaguardados.

Um governo que anda há meses a falar de testagens e rastreios massivos, mas vai reabrir amanhã todas as creches, infantários e escolas do 1.º ciclo sem que os profissionais tenham sido testados. Entretanto, andaram equipas da Cruz Vermelha, durante o confinamento, a testar pessoal administrativo das secretarias escolares, que habitualmente não tem contacto directo com professores ou alunos.

Um governo que, incapaz de implementar as políticas que vai anunciando, recorre compulsivamente à propaganda para tentar convencer-nos de que está a fazer o que deve ser feito – e que é o oposto do que na realidade faz.

O problema é que a lógica da propaganda – na tradição das picaretas falantes do PS – pode ser boa a convencer uma opinião pública pouco informada, seduzir uma comunicação social amorfa ou até permitir ganhar eleições na falta de melhores alternativas. Mas não comove o coronavírus: é uma arma completamente ineficaz para derrotar a pandemia.

Provas do ensino básico canceladas

O Ministério da Educação decidiu cancelar as provas de aferição, no 2.º, 5.º e 8.º anos, e as provas nacionais do 9.º ano, que estavam marcadas para Junho. Esta decisão é semelhante à que foi tomada no ano passado, depois do primeiro confinamento. Só vão ser realizados os exames nacionais do ensino secundário pelos alunos que pretendem ingressar no ensino superior e apenas às disciplinas específicas.

O Conselho de Ministros desta quinta-feira aprovou o cancelamento das provas de aferição e das provas finais de ciclo do 9.º ano, anunciou o ministério em comunicado. No caso do ensino secundário, os alunos terminam “com a classificação interna, isto é, não fazem exames para conclusão e certificação”. Apenas farão as provas os que pretendem prosseguir estudos, tal como no ano lectivo anterior.

A decisão de cancelar todas as provas nacionais do ensino básico, embora sendo esperada, merece ser questionada. Desde logo, pelo que revela da incapacidade de ME em aprender com a experiência e encontrar novas soluções para problemas que já não são novos. Se em 2020 a pandemia era uma absoluta novidade e quase tudo se foi improvisando de acordo com as contingências, este ano sabia-se bem o que aí vinha. Houve tempo para planear devidamente o ano lectivo, e se as provas de aferição ou mesmo as provas finais são consideradas dispensáveis, então haveria que assumir isso logo à partida.

A questão é que talvez não sejam. Em contracorrente ao que parece ser a opinião dominante entre os professores, não acho as provas de aferição uma inutilidade. Pelo contrário, entendo que são hoje mais úteis e importantes até do que há meia dúzia de anos atrás. Quando o ME incentiva fortemente as escolas a desconstruir matrizes curriculares e a flexibilizar programas e planificações, alimentando falsas dicotomias entre conhecimentos e competências e dando a primazia a estas últimas., aferir as aprendizagens dos alunos tornou-se essencial. O caminho do experimentalismo permanente torna-se perigoso sem uma aferição rigorosa das reais aprendizagens que, sob essas não-tão-novas pedagogias, os alunos estão a realizar. Nesse sentido, a aplicação regular de provas de aferição e a divulgação pública dos resultados, que tem sido feita através do site Infoescolas.mec.pt é esclarecedora e tem revelado os pés de barro em que assentam os projectos de muitas escolas “inovadoras”.

Quanto às provas finais do 9.º ano, embora circunscritas a duas disciplinas, elas representam o modelo do que deveriam ser, a meu ver, os exames do secundário: provas centradas nas aprendizagens essenciais das disciplinas, obrigatórias para a sua conclusão. Também aqui a sua existência cria um referencial para as aprendizagens a desenvolver ao longo do ciclo de ensino, certificando-as e assegurando o acesso de todos os alunos a um currículo comum capaz de garantir, mais do que miríficas autonomias de escola, uma efectiva igualdade de oportunidades à saída da escolaridade obrigatória.

Em relação aos exames do secundário, persiste-se no erro que já no ano passado se cometeu, o retirar o peso dos exames na nota de conclusão das disciplinas. Aparentemente, está-se a simplificar e a facilitar a vida aos alunos, dispensando-os da maioria dos exames. Na prática, favorecem-se os estudantes que frequentam as escolas, maioritariamente colégios privados, onde existe uma política deliberada, e bem conhecida, de inflacionar as classificações internas, de forma a conceder-lhes uma vantagem injusta no acesso ao ensino superior.

Finalmente, nada disto bate certo com o discurso oficial da segurança das escolas. Então os alunos podem estar o ano inteiro em salas de aula repletas, sem distanciamento nem arejamento, partilhando mesas e outros espaços e equipamentos comuns e isso é considerado seguro, e não podem responder às provas e exames num contexto onde, por outras razões que não as sanitárias, sempre se garantiu o distanciamento?

Quase a completar um ano desde o início do primeiro confinamento, diria que se evoluiu bastante, nas escolas, na procura das melhores respostas ao desafio de ensinar e aprender em tempo de pandemia. Reconhecemos e corrigimos erros, procuramos formação, partilhamos experiências. Houve um caminho que se percorreu e, sem falsas modéstias, podemos afirmar que, não sendo o ensino à distância a solução ideal, ele funciona hoje melhor do que no passado recente, graças à experiência adquirida. Só o ME persiste nos velhos erros, incapaz de os reconhecer, de ouvir as pessoas, de procurar soluções alternativas. Insistindo no que comprovadamente não funciona, como é possível esperar resultados diferentes?…

Duas semanas de E@D

Num balanço muito provisório, diria que as duas primeiras semanas de ensino a distância estão, de um modo geral, a correr melhor do que na experiência do primeiro confinamento. É o que sinto como professor a dar aulas a partir de casa e é também o sentimento que encontro, largamente dominante, entre os colegas que ouço e leio,

Faz sentido que assim seja. Desde logo, porque a experiência e o bom senso têm-nos ajudado a evitar os erros e as armadilhas que não soubemos evitar quando mergulhámos de cabeça, há quase um ano atrás, no desafio do apropriadamente chamado ensino remoto de emergência. Percebeu-se que as teorias que recomendam o reforço do trabalho autónomo em contexto de ensino não presencial têm evidentes limitações. Muitos alunos, sobretudo os mais novos, os menos motivados, os mais desacompanhados ou com maiores dificuldades de aprendizagem, pura e simplesmente desligam da escola a distância quando são deixados por sua conta. E se também não é recomendável replicar integralmente as aulas presenciais na modalidade online, há um equilíbrio entre momentos síncronos e assíncronos que este ano, regra geral, tem funcionado muito melhor.

Depois, os próprios alunos. Quase todos mais à-vontade no domínio das tecnologias, mais atentos e participativos nas sessões, mais aplicados e cumpridores nas tarefas realizadas. Quase todos sentem a falta da escola e do convívio com os amigos e da presença física dos professores, têm o regresso no horizonte e mostram-se dispostos a contribuir para que este período de confinamento não resulte, em termos académicos, como tempo perdido. Até a polémica das câmaras desligadas, que marcou o final da temporada anterior de confinamento escolar, parece agora ter-se desvanecido.

O grande falhanço que há a registar é o do Ministério da Educação. Insensível, como tem sido sempre, às reais necessidades das escolas, alunos e professores, resolveu insistir no que ninguém lhe pediu – uma dose de reforçada de aulas televisivas que ninguém vê – em vez de fazer o mais necessário e urgente: fornecer os equipamentos capazes de permitir o acesso às aulas a partir de casa aos alunos sem meios tecnológicos. Insistindo no óbvio – nada substitui o ensino presencial – os responsáveis mostraram-se incapazes de perceber que a opção pelo ensino a distância não surge por razões pedagógicas, mas como uma necessidade absoluta imposta pelo alastrar da pandemia. Sabendo-se que o E@D promove desigualdades e exclusão, o desafio é contrariar esta tendência, ultrapassando dificuldades e constrangimentos e fornecendo a alunos e professores os meios para que o período de confinamento escolar seja, ainda assim, aproveitado da melhor forma possível. Na prática, só lhes era pedido que fornecessem computadores e ligações à internet a alunos e eventualmente a professores que os não têm. Desde que, em Março do ano passado, foram notadas estas carências, tiveram quase um ano para resolver o problema. Falharam miseravelmente.