Faltaram computadores no E@D, diz o Tribunal de Contas

Uma auditoria do Tribunal de Contas divulgada esta quinta-feira, 22 de julho, diz que a autorização para a aquisição de 386 milhões de euros em meios digitais para as escolas “foi tardia”. Aconteceu “já só no final do ano letivo 2019/20, e condicionada à aprovação de fundos comunitários”. Consequência? “ Esses meios só começaram a chegar aos alunos no ano letivo 2020/21 e a mais de 60% só chegará no ano letivo seguinte”.

O Tribunal concluiu ainda que as despesas orçamentais da Educação com a pandemia respeitaram, essencialmente, a equipamentos de proteção individual. Em 2019/20 foram gastos 3,5 milhões de euros e no ano letivo 2020/21, a verba ascendeu a 11,5 milhões.

“O Tribunal observou também que, para evitar o desinvestimento a médio prazo, não existia um plano estratégico para a substituição dos meios digitais (vida útil limitada) adquiridos para as escolas”. De igual modo, assinala que “não foram implementados procedimentos centralizados de controlo preventivo da duplicação de apoios em meios digitais, o que retira eficácia à sua distribuição prioritária aos alunos mais carenciados e aumenta o risco de desperdício de dinheiros públicos”.

A resposta do Ministério da Educação à pandemia da Covid-19 que fez deslocar 1,2 milhões de alunos dos ensinos básico e secundário da escola para casa em vários momentos ao longo dos anos letivos 2019/20 e 2020/21 foi, segundo a instituição, “rápida e adaptada à pandemia, mas limitada pela insuficiência de competências e meios digitais a requerer investimentos”.

O TdC assinala o “esforço significativo” de todos os envolvidos no Ensino a Distância (E@D), em especial dos alunos e professores, numa situação que pôs a nu a falta de competências digitais e de computadores (4 em 5 alunos não tinham), revelou dificuldades no acesso à Internet e a existência de escolas com  meios digitais obsoletos. Em muitos casos, as dificuldades foram mitigadas pelo apoio (doação/empréstimo) de autarquias locais, associações e entidades privadas, mas não foram totalmente supridas.

O Tribunal de Contas confirma algo que quem acompanha de perto os assuntos da Educação está cansado de saber: o Ministério da Educação é bem mais despachado a decidir o que devem fazer os que dele dependem, do que a assumir as suas responsabilidades e a cumprir, em tempo oportuno, as suas obrigações.

Outra coisa que fica evidente nesta auditoria é o subfinanciamento crónico do sector educativo e o recurso aos financiamentos comunitários para assegurar o grosso dos investimentos. A compra de computadores não foi excepção e o resultado não surpreende: compra-se quando o dinheiro de Bruxelas fica disponível e não quando é realmente necessário. E apesar de serem bens com uma expectativa de vida limitada, tendo em conta o desgaste do material e a rápida evolução da tecnologia, não se acautelou, nem se está a acautelar, a necessidade futura de substituição dos equipamentos.

Claro que o planeamento em cima do joelho leva a que nem sempre sejam feitas as melhores aquisições nem rentabilizado da melhor forma o dinheiro do contribuinte. No final, perante a falta de capacidade de resposta do ME, acabaram por ser as escolas a conseguir, com a colaboração de autarquias, empresas e instituições locais, a conseguir emprestar alguns computadores aos alunos mais carenciados.

Contudo, se os primeiros computadores só começaram a chegar às escolas no fim do segundo confinamento – ou seja, quando deixavam de ser necessários para o ensino à distância, onde gastou o ME a verba orçamentada para manter o sector a funcionar em tempo de pandemia? Feitas as contas, o Tribunal de Contas dá a resposta: quase todo o dinheiro foi gasto em gel desinfectante e máscaras sociais…

Advérbio no grau superlativo

Quem Fez A Prova De Aferição (Amostral) De Português Leu As Canónicas “Aprendizagens Essenciais” Da Disciplina?

Parece que não a avaliar pela questão 14, que “mobiliza” conhecimentos que não estão previstos, nem para o 5º, nem para o 6º ano da disciplina de Português. Nem sequer nas “metas” de 2015 ou no programa da disciplina se prevê a abordagem do grau dos advérbios, mas apenas a identificação de algumas das suas subclasses. por acaso, foi a matéria da semana passada com as minhas turmas de 5º ano.

Atento e observador, Paulo Guinote destapa a careca a uma prova de Português que afere matéria que não faz parte do programa.

Pode ser incompetência, que também existe lá para as bandas do IAVE, apesar de se julgarem, muitos dos que por lá passam, as maiores sumidades em matéria de avaliação. Ou mera displicência, de gente que nem se deu ao trabalho de ir ver as matérias que constam dessa criação de génio da burocracia eduquesa que são as aprendizagens essenciais.

Poderá tratar-se também, aventa o Paulo, de uma subtil homenagem aos advérbios, a classe de palavras que o senhor secretário linguista tanto admira.

Penso que poderá ser um pouco disto tudo, mas também outra coisa. A necessidade evidente de demonstrar os resultados trágicos da pandemia na Educação. De “provar” que houve aprendizagens perdidas, para justificar assim as novas medidas de “recuperação”, que no essencial serão apenas mais do mesmo. É a insistência numa receita falhada, mas ao mesmo tempo a forma de salvar uma pseudo-reforma educativa à beira do desastre. Afinal não foi a facilitismo flexível e inclusivo que falhou nos seus objectivos. Foi a malvada pandemia que lhe trocou as voltas…

A estratégia já não é nova. Também Nuno Crato, para justificar a introdução de exames no 4.º e no 6.º ano, teve de dramatizar um pouco com os fracos resultados dos alunos portugueses. Depois, convenientemente, foi dispensando os alunos mais fracos da realização das provas e reduzindo o seu nível de exigência, para demonstrar que a receita do “rigor e exigência” funcionava bem.

Estes acabaram com os exames, mas o uso que fazem das provas de aferição parece seguir a mesma lógica das conveniências políticas e eleitorais. Lá para o final do mandato, logo veremos como os nossos alunos estarão todos muito mais espertos

Ansiosos, impacientes e cansados – serão só os alunos?

Os alunos estão a iniciar o último mês de aulas mais “ansiosos”, “impacientes”, “cansados” e “intranquilos”. Os adjetivos são usados pelos diretores das escolas que sentem que nunca viram nada assim, num fenómeno provocado pelo desgaste da pandemia e por um segundo ano de confinamentos.

Manuel Pereira é presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares e dá aulas há décadas. Explica que também os colegas de outras escolas com quem fala notam demasiados alunos “talvez exaustos, distraídos, ansiosos, cansados, com a sensação de que perderam alguma coisa que não deviam ter perdido, numa certa ansiedade e talvez saudosismo – não sei se será a expressão correta -“, algo diferente do que se sentia “nos anos anteriores ditos normais”.

Os alunos andam diferentes e isso nota-se em todo o lado: “Em comportamentos diversos tanto nas salas, como nos espaços comuns das escolas, nos recreios, nos relacionamentos, nos contactos, sentimos algum nervosismo, ansiedade, e genericamente todos os professores sentem isso, apesar de dever dizer, em abono da verdade, que isto também acontece em alguns profissionais de educação”, refere Manuel Pereira.

Num ano lectivo normal, os alunos dos anos com exames estariam prestes a terminar as aulas e as dos restantes também já não durariam muito mais tempo. Mas a absurda decisão de suspender as aulas durante duas semanas em Janeiro, encurtando férias e prolongando o ano lectivo veio alterar o calendário previsto.

Os numerosos casos de turmas em isolamento profiláctico que ocorreram em praticamente todas as escolas impuseram uma rotina de transição entre regime presencial e à distância a que, melhor ou pior, as comunidades escolares se vinham acostumando. Quando o país atingiu números recorde de contágios, internamentos e mortes por covid-19 e o Governo mandou toda a gente para casa, tanto alunos como professores sabiam bem ao que iam. Quem se mostrou completamente desorientado foi o ME, que nunca acreditou na possibilidade de um confinamento geral das escolas e não se preparou para essa eventualidade. E decretou férias forçadas para ganhar tempo, com consequências que agora estamos a pagar: um final tardio do ano lectivo, a segunda fase de exames empurrada uma vez mais para Setembro, complicando o arranque de novo ano que, espera-se, assinale o regresso à possível normalidade.

A saturação, o cansaço, o alheamento que notamos em muitos alunos não são fáceis de explicar – e isso nota-se no discurso impreciso e hesitante dos representantes dos directores ouvidos para a peça da TSF. O que todos percebemos e que, nas escolas, se anseia por férias. Que as aulas e outras actividades vão tendo um rendimento progressivamente menor à medida que o tempo passa. E é de notar que este ano o final da Primavera tem estado especialmente fresco e húmido. Se o mês de Junho nos trouxer os habituais calores de Verão, o ambiente nas escolas, em regra mal preparadas para enfrentar o calor, tornar-se-á ainda mais saturante e irrespirável.

A culpa é do Ministério da Educação

Cerca de 45 mil profissionais da Educação não terão sido incluídos nas listas de vacinação contra a covid-19 e continuam por vacinar. Os erros e as omissões cometidos pelas direcções das escolas na elaboração das listas iniciais foram entretanto corrigidos, mas o ME ainda não enviou os dados actualizados para a task force que coordena o plano de vacinação.

A acusação parte da Fenprof, que apresenta dados credíveis para tirar esta conclusão. E merece ser amplificada, pelo que revela da insensibilidade e da incompetência de um ministério que se especializou em inventar trabalho inútil e desgastante para os outros, mas é incapaz de fazer em tempo útil o serviço que lhe compete. Mas também, e acima de tudo, porque está a penalizar injustamente dezenas de milhares de profissionais docentes e não docentes que, mesmo sem terem sido vacinados, continuam a enfrentar os mesmos riscos de contágio que os colegas que já receberam a vacina.

A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) denunciou nesta terça-feira, 18 de maio, a existência de falhas na vacinação de pessoal docente e não docente que, diz, dever-se-ão ao facto de não terem sido enviadas à ‘task force’ as listas corrigidas ou atualizadas. Fenprof diz que aguarda “os indispensáveis esclarecimentos” do Ministério da Educação, “na certeza de ser essa a instância responsável pelo facto de muitos profissionais ainda aguardarem a chamada para a primeira dose da vacina”. Cerca de 165 mil receberam a segunda dose este fim-de-semana mas cerca de 45 mil profissionais do ensino e das respostas sociais que foram excluídos da vacinação contra a Covid-19 continuam à espera de ser chamados para a primeira dose.

“Na sequência dos ofícios ontem [17 de maio] enviados pela Fenprof a diversas entidades envolvidas no processo de vacinação de docentes e não docentes das escolas (Ministério da Educação, Ministério da Saúde e ‘task force’ para a vacinação), ainda durante o dia de ontem, responsáveis da ‘task force’ responderam, informando ter reencaminhado o ofício para o Ministério da Educação por ser essa a «entidade responsável pela centralização da vacinação dos docentes e não docentes dos diversos níveis de ensino na sua dependência»”, revela a Fenprof.

Segundo a estrutura liderada por Mário Nogueira, a Fenprof teve a indicação que informaram ainda que a ’task force’ coordenou a execução da vacinação de todos os docentes constantes nas listas que o Ministério da Educação lhes fez chegar, desde que os mesmos fossem elegíveis para o processo de vacinação, esclarecendo, diz, que “não seriam elegíveis, apenas, quem tivesse contraído Covid-19 e as grávidas, para além daqueles cujos dados fornecidos, estando errados, não tenham sido reconhecidos no registo nacional do utente”.

A Fenprof acrescenta que fica, assim, a aguardar “os indispensáveis esclarecimentos” do Ministério da Educação, “na certeza de ser essa a instância responsável pelo facto de muitos profissionais ainda aguardarem a chamada para a primeira dose da vacina”.

A organização sindical afirma ainda não compreender que o Ministério da Educação não tenha enviado as listas, como deveria, para a ‘task force’, na medida em que, logo que as escolas verificaram as falhas (algumas por incorreção de dados, mas, a maioria, sem justificação conhecida), enviaram para as delegações regionais da DGEstE (Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares), como lhes foi solicitado, novas listas com os dados de quem tinha sido “esquecido” ou “excluído”.

Desacatos em manifestações de professores???

A permanente fuga às responsabilidades é uma atitude e um modo de estar na política que mancha, de forma indelével, demasiados membros do actual governo. No caso em apreço, até não custa muito admitir que ao secretário de Estado do Desporto dificilmente se poderão assacar responsabilidades directas nos lamentáveis festejos da vitória sportinguista. Mas escusava de se exprimir de uma forma tão deselegante e até insultuosa para os professores, uma classe profissional que ainda por cima é tutelada pelo ministério a que pertence. Haverá memória, em 47 anos de democracia, de uma manifestação de professores em que tivesse havido qualquer tipo de desacatos?…

“Não é querer estar, como diz o povo, a sacudir a água do capote. Mas a verdade é que não é o secretário de Estado do Desporto, tal como não é por haver uma manifestação de professores onde haja desacatos que é chamado à colação o ministro da Educação“, considera João Paulo Rebelo.

Sendo aparentemente, como a grande maioria dos “ajudantes de ministro” deste governo, um adepto do low profile no exercício do cargo, não necessitaria de se expor desta forma, invocando despropositada e ofensivamente, os professores. Mas já que o fez, e me obriga a lembrar a sua existência política, aproveito para recordar as circunstâncias em que chegou ao poder. Foi uma segunda escolha no lugar que ocupa, depois do primeiro titular se ter demitido. João Wengorovius não se entendeu com o ministro com quem iria trabalhar e bastaram-lhe poucos meses para avaliar, em definitivo, as qualidades políticas e o carácter pessoal de Tiago Brandão Rodrigues. Ao contrário do seu sucessor, que se mantém no cargo até hoje, transitando do primeiro para o segundo governo de António Costa.

“Deixo hoje o XXI Governo Constitucional, convicto de que tinha um bom projeto e uma excelente equipa – e de que estávamos no caminho certo – contudo, em profundo desacordo com o Sr. Ministro da Educação no que diz respeito à política para a juventude e o desporto, e ao modo de estar no exercício de cargos públicos“, escreve João Wengorovius Meneses.

Foi em 2016, ainda mantinha Brandão Rodrigues o estado de graça e a aura de jovem cientista talentoso e comprometido com os desafios da Educação portuguesa. E é premonitório do que viria a seguir…

Tribunal manda repetir eleição do director

O Tribunal Administrativo e Fiscal (TAF) de Leiria mandou repetir a eleição do director do agrupamento de escolas de S. Martinho do Porto, no concelho de Alcobaça, reconhecendo irregularidades que tinham sido denunciadas por um dos professores candidatos. Os problemas eram do conhecimento da Direcção-Geral da Administração Escolar (DGAE), mas não impediram o organismo tutelado pelo Ministério da Educação de homologar o processo dois meses antes.

Incompetência, irregularidades grosseiras e falta de isenção no processo eleitoral que deveria conduzir à escolha do novo director: na notícia do Público quase ninguém sai bem na fotografia e mesmo o candidato derrotado, que venceu a acção judicial, deverá estar agora a ponderar seriamente se está mesmo interessado em voltar a concorrer, perante o tratamento de que foi alvo pelo Conselho Geral.

Sendo este o órgão que tem a responsabilidade de escolher o novo director, falhou redondamente ao não conduzir o processo nos termos da lei, publicando o regulamento do concurso já depois do prazo de submissão das candidaturas. E foi este evidente vício de forma que levou o tribunal a declarar nulo o processo eleitoral, ordenando a sua repetição.

Mas também a tutela agiu duplamente mal neste processo. Primeiro, ao homologar uma eleição decorrente de um processo ferido de irregularidades, tendo tido conhecimento da queixa apresentada pelo candidato prededor. Depois, ao recusar assumir responsabilidades, alegando que homologou com base na informação prestada pelo Conselho Geral. Ora esta é uma lição que os mais experientes na gestão escolar aprenderam há muito: o ME está sempre disposto a pactuar com pequenas e médias irregularidades e abusos das “lideranças fortes” ao nível das escolas; mas nada disposto a assumir os custos, a nível político ou judicial, que essas decisões possam ter: quando algo corre mal, rapidamente sacode a água do capote, empurrando a responsabilidade para as escolas.

Desamparada pelo ME e com a directora alegadamente favorecida a remeter-se a um prudente silêncio, também a presidente do Conselho Geral prefere ficar calada, recusando esclarecer o imbróglio criado com a sua actuação. E que terá, agora, de resolver.

45 mil docentes e não docentes por vacinar

O número de trabalhadores docentes e não docentes por vacinar não é, como se tentou dar a entender inicialmente, residual. O coordenador da task force admitiu na semana passada a existência de 45 mil pessoas nesta situação. Garantiu que não foi por culpa do grupo de trabalho que dirige que esta situação aconteceu – o que não custa a acreditar – mas não apontou uma data concreta para que estas vacinações em falta se realizem – o que não é aceitável.

Entre os professores sem vacina e sem resposta às suas reclamações há quem pertença a grupos de risco. E mesmo os que se consideram saudáveis estão diariamente expostos a um risco acrescido, à medida que o avanço nas medidas de desconfinamento vai induzindo comportamentos menos seguros da parte dos alunos. Por isso ponderam o recurso a atestado médico para proteger a sua saúde e a sua vida, algo que não deveriam ser forçados a fazer quando existe vacina disponível e têm direito a ela.

Quando à falta de respostas e de soluções, parece que, uma vez mais, a necessidade de encobrir as falhas e a incompetência de quem não fez o seu trabalho como devia se está a sobrepor à necessidade de corrigir rapidamente a situação vexatória e discriminatória a que o Estado sujeitou estes professores e funcionários das escolas. O que, além de lamentável, é perfeitamente escusado: não se pretende crucificar ninguém, apenas que se corrijam os erros que cometeram, integrando na lista de vacinação quem sempre lá deveria ter estado.

No Agrupamento de Escolas do Castêlo da Maia há 179 professores e dois não docentes ainda sem qualquer dose da vacina contra a covid-19. Uma situação que está a provocar grande ansiedade e se estende a várias escolas do País, com professores a ameaçarem com baixa médica.

“Não sabemos o motivo e a falta de resposta é a grande questão”, conta ao DN Marco Marques, diretor do agrupamento. O responsável garante ter falado “com quem de direito” e ter levado a cabo “todos os procedimentos necessários para resolver o problema”. “A lista que foi enviada para a testagem tem os mesmos dados daquela que foi enviada para a vacinação. Serviu para a testagem e não se entende o que falhou para o processo de vacinação”.

A situação, conta, está a criar “muita ansiedade aos docentes”. “Não se compreende esta situação e com uma justificação seria mais fácil de entender e de gerir. Era importante que nos dessem alguma explicação”, afirma.

Eva Matias, professora de Matemática numa escola da Amadora também não compreende “o silêncio” das entidades. “Ainda não fui contactada e o silêncio é inacreditável. Já fiz queixa ao Provedor de Justiça, enviei email para o Conselho de Ministros e Presidência da República e não tive resposta de ninguém”, explica. A docente, que sofre de hipotiroidismo – uma doença autoimune – diz sentir-se “psicologicamente afetada com a situação”. “Dou aulas ao 9º ano. São alunos que não foram incluídos na testagem e que têm comportamentos de risco próprios da idade. São idades críticas, estão enfiados nas casas uns dos outros a conviver, andam sempre todos juntos e sem máscara no exterior da escola”, sublinha.

A professora diz estar a “colocar a vida em risco diariamente” e pondera recorrer à baixa médica se a situação não se resolver. “Dou aulas há 23 anos e nunca meti baixa na minha vida, mas tenho muito medo de ir trabalhar. Não me sinto segura na escola e a verdade é que os alunos já não cumprem tanto as regras de segurança. Para eles, isto já passou”, conclui.

A opinião é partilhada por Fernando Couto, professor do Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, para quem a escola “não é, nem nunca foi um lugar seguro”. “A imagem que passam de segurança não é real e não é o ideal para evitar a contaminação. Não por culpa das direções das escolas, mas pela falta de cumprimento de regras por parte dos alunos. E é preciso não esquecer que por trás de cada criança há um agregado familiar. A escola não é um lugar seguro, nem o conseguirá ser porque não há capacidade para isso”, diz.

Inquéritos inconclusivos

Os professores dos ensinos básico e secundário em Portugal, que responderam a um estudo da Universidade do Minho (UMinho), dividem-se na avaliação das medidas tomadas pela tutela no último ano para responder aos efeitos da pandemia nas escolas. O estudo do Centro de Investigação em Educação (CIEd) da Universidade do Minho foi agora apresentado, com a presença do secretário de Estado da Educação, João Costa.

A investigação “Perceções dos professores sobre o ensino à distância” consistiu num inquérito online em janeiro, com a colaboração das duas associações de diretores de escolas públicas, ao qual responderam 280 professores. Aqueles docentes avaliaram as políticas públicas aplicadas no primeiro confinamento (recursos no ensino à distância, acesso a computador e Internet, iniciativa #EstudoEmCasa, entre outras) e avaliaram também o arranque do presente ano letivo (recuperação das aprendizagens e condições sanitárias, por exemplo). No global, as medidas do Ministério da Educação foram consideradas inadequadas para 44% dos inquiridos, enquanto 35% concordaram e os restantes 21% não emitiram opinião.

Apresentado com pompa e circunstância numa sessão com a presença do SE Costa e com ampla divulgação na comunicação social, o estudo da Universidade do Minho é mais um daqueles trabalhos genéricos, inconclusivos e, com toda a franqueza, sem o mínimo de qualidade científica. Algo que entre nós se tornou regra, infelizmente, naquilo a que pomposamente gostam de chamar as “ciências da educação”, mas que em termos de rigor e método científico deixa muito a desejar. Gostaria, ao escrever sobre o assunto, de não fazer generalizações abusivas, mas quando o único elemento que é disponibilizado para consulta dos interessados é um documento-síntese que pouco ou nada acrescenta ao que a comunicação social veiculou, percebe-se que a encomenda cumpre objectivos mais políticos do que propriamente científicos. O que deveria envergonhar a universidade e os investigadores que o produziu.

Os estudos deste tipo, que pretendem avaliar sentimentos, percepções, opiniões ou estados de alma de uma classe profissional vasta e heterogénea, falham desde logo num ponto crucial, que é a representatividade da amostra. Se num universo de mais de 100 mil profissionais optam por interrogar menos de 300, haveria que assegurar que o grupo de respondentes é uma amostra fiel dos professores de todo o país, incluindo, de forma proporcional, idades, distribuição geográfica, níveis de ensino, grupos disciplinares, categorias profissionais. Não há indícios de que tal tenha sido feito. Aliás, a “colaboração” pedida às duas associações de directores sugere que os investigadores nem terão controlado directamente a constituição da amostra: bastou-lhes pedir aos senhores directores que passassem o link no GoogleForms ou similar a um determinado número de docentes, escolhendo quem bem entendessem.

Depois, a forma como estes formulários são geralmente construídos deixa também muito a desejar. Perguntas vagas, que podem ter sentidos contraditórios, ou construídas de forma a induzir determinadas respostas. Quanto a estas, muitas vezes as opções dadas para responder não se adequam ao que é perguntado ou ao que realmente se gostaria de responder. Neste caso em concreto, vemos uma maioria de professores a acusar o excesso de trabalho burocrático e depois a defender uma das coisas mais trabalhosas que se fazem actualmente nas escolas, as adaptações curriculares, com ganhos pedagógicos reais ainda por demonstrar. A única lógica que permite compreender isto é que se encomendam estudos, não para compreender a realidade e tomar melhores decisões, mas para caucionar políticas erradas previamente decididas.

Este panorama desolador nos estudos académicos sobre as escolas e a Educação vai alastrando, infelizmente, a outras áreas das ciências sociais. Quem é que não é regularmente convidado a responder a mais um inquérito, uma sondagem, um estudo nesta ou naquela área, partindo o convite, quase sempre, do correio institucional ou de amigos e conhecidos que têm um filho, um sobrinho, um amigo a fazer um trabalho de mestrado ou doutoramento e precisam de reunir rapidamente um número determinado de respostas, sejam elas de quem for? É preciso que se diga claramente que esta constituição de amostras ditas “aleatórias” não é ciência séria em parte nenhuma do mundo. Entre nós, também não deveria ser.

Ainda há professores por vacinar

E não se sabe quantos nem quando o serão. Nalguns casos a falha pode ter sido das direcções escolares, que não lançaram os dados na plataforma criada para o efeito, ou o fizeram incorrectamente. Mas esses erros já terão sido corrigidos e os professores em causa continuam sem ser chamados.

Quando, como fez a Fenprof, se tenta apurar o que se passa e perceber quando será o problema resolvido, surge o habitual jogo do empurra entre os serviços do ME e do ministério da Saúde. Parece que todos têm medo de assumir as eventuais responsabilidades, quando o que aqui interessa é a resolução rápida da situação, com a integração dos docentes em falta nas listas de vacinação. Errar é humano, e seria impossível não ocorrerem algumas falhas num processo desta dimensão. A persistência no erro, sem que ninguém se chegue à frente para corrigir a situação, isso sim, é que começa a ser preocupante.

No primeiro fim de semana de vacinação (27 e 28 de março) foi tornado público que todos os docentes (Pré-Escolar e 1.º Ciclo) que não tivessem sido chamados deveriam contactar as escolas para ainda serem integrados nas listas; contudo, a esmagadora maioria destes continuou sem ser chamada, tendo, então, os docentes sido informados de que seriam integrados no grupo seguinte, entretanto notificado para comparecer em 17 e 18 de abril. Só que, nesse fim de semana, para além de não ter sido resolvido o problema anterior, ainda se acumularam outros docentes, agora dos 2.º e 3.º Ciclos e do Ensino Secundário. 

Contactados serviços regionais da DGEstE, Ministério da Educação (a quem a FENPROF colocou a questão diretamente em 16 de abril, relativamente aos “esquecidos” ou “excluídos” da “primeira chamada”) e autoridades de saúde, a informação passou a ser que todos esses docentes seriam chamados na semana seguinte. Uma vez mais, isso não aconteceu e os professores começaram a contactar os serviços de vacinação e, por indicação destes, as escolas; estas, por sua vez, pediam para contactar a DGEstE e esta remetia, novamente, para a saúde. Ninguém parece saber o que se passa e houve casos em que, comprovadamente, nunca houve qualquer erro na lista elaborada pela escola, os serviços regionais de vacinação, sem resposta para o problema, recomendaram o contacto com a linha SNS24, que, naturalmente, também não sabia responder ao que lhe perguntavam. 

A vacinação dos professores é fundamental para manter as escolas abertas, conferindo segurança e confiança aos profissionais da Educação, que assim vêm muito reduzidos os riscos de infectarem ou serem infectados pelos seus alunos. Os professores serão os primeiros a reconhecer o esforço feito, numa altura em que as vacinas ainda são escassas, para os incluir entre as prioridades de vacinação. Mas é importante que este processo, no geral bem sucedido, não fique comprometido pelo número significativo de profissionais que, tendo sido inicialmente esquecidos, se espera que não fiquem excluídos.

À espera do SMS

E quem muito espera, já se sabe, desespera.

Embora aqui o caso não seja para tanto. É apenas mais um reflexo de falta de organização e de recursos.

Fatalidade bem portuguesa, contra a qual nem o homem do camuflado consegue fazer milagres…