O que correu mal no concurso de professores

concursos.JPGOs concursos de professores deste ano tinham quase tudo para correr bem, proporcionando a milhares de contratados com longos anos de serviço a merecida vinculação, a muitos professores dos QZP o almejado lugar num quadro de escola e, a estes, a oportunidade de mudarem para uma escola mais próxima da sua residência ou mais sintonizada com as suas expectativas e ambições profissionais.

De facto, já há muito tempo que não abriam tantas vagas em quadros de escola e agrupamento. E a vinculação extraordinária, em conjunto com a norma-travão, embora estivessem longe de poder resolver a situação de instabilidade profissional da imensa maioria dos professores contratados, prometiam fazer entrar nos quadros cerca de 3500 professores.

No entanto, e apesar de haver a registar um grande número de colocações e efectivas melhorias na situação profissional de milhares de professores, os concursos ficaram aquém, em termos de organização e sobretudo de resultados, daquilo que poderiam ter sido. Entre o que correu mal, neste concurso, há quatro pontos que se devem destacar:

Vagas indevidamente apuradas. Em diversos agrupamentos foram abertas vagas em grupos onde não há falta de professores, deixando em branco grupos carenciados de docentes dos quadros. Alertados para estas situações pelas próprias escolas, os serviços do ME preferiram fazer de conta que nada se passava, para não terem de assumir as suas responsabilidades. Quem vai pagar são os professores agora colocados nessas vagas inexistentes, que nem chegam a aquecer o lugar, e nalguns casos os que já lá estavam. Os professores em excesso ficarão com horário-zero e serão obrigados a concorrer novamente.

Exclusões indevidas de candidatos. Face à incapacidade dos serviços de verificarem uma a uma todas as candidaturas, é aceitável que se permita aos candidatos que denunciem outras candidaturas onde suspeitem que exista alguma irregularidade. O que já não se pode consentir é que essa suspeição não seja devidamente comprovada e se exclua liminarmente um candidato que tem a candidatura validada sem lhe dar oportunidade, em tempo útil, de se defender ou de rectificar a sua situação. Claro que os recursos hierárquicos irão repescar, espera-se, todos os candidatos injustamente excluídos. Mas é preciso que se reconheça que esta situação envolve prejuízos morais para os professores visados e custos económicos que serão suportados por todos nós. Pois a reposição da justiça obrigará à integração dos candidatos em lugares que entretanto foram preenchidos, com a consequente duplicação de despesa.

“Roubo” de vagas para vinculação. Algo que a secretária de Estado Alexandra Leitão tinha dito que não faria, acabou por acontecer: as vagas dos candidatos à vinculação extraordinária que efectivaram através da norma-travão foram fechadas, impedindo-se assim que pudessem beneficiar outros professores. Em vez dos 3019 lugares abertos, foram preenchidos apenas 2820.

Amadorismo e desonestidade na divulgação das listas. Poderia passar por mera incompetência, a colocação desprotegida dos ficheiros com os resultados dos concursos no servidor, onde começaram a ser acedidos ainda antes dos links oficiais serem divulgados. Mas foi mais do que isso. Primeiro, os ficheiros foram colocados com data de hoje, o que significa que o ME, que andou a sugerir que sairiam ontem os resultados, afinal quereria fazer com eles “caixinha” durante mais um dia. Mas quando as listas de resultados começaram a ser divulgadas e partilhadas das mais diversas formas, a DGAE decidiu bloquear o seu próprio site para substituir a data dos ficheiros para o dia 18, antes de anunciar, oficialmente, a sua publicação. Uma vez mais, custa demasiado reconhecer um erro – é sempre mais fácil apontá-los aos outros! – e em vez disso prefere-se a mentira de perna curta e à vista de toda a gente.

É sensato reconhecer que o minguado orçamento da Educação impede o governo de abrir os quadros a todos os docentes que mereceriam vincular, bem como de dotar as escolas e agrupamentos de todos os professores necessários, tornando residuais as necessidades de contratação. Mas agora já nem é disso que estamos a falar. O que se nota é que há demasiadas falhas que ocorreram, não por falta de dinheiro, mas por notória incompetência e desorganização dos serviços ministeriais.

Trapalhada nos concursos

concurPrimeiro deram a entender que os resultados sairiam hoje.

Depois decidiram que só divulgariam as listas amanhã. Mas para adiantar serviço colocaram-nas, sem protecção, no site da DGAE. Foi apenas uma questão de tempo até que o pessoal mais habilidoso desse com elas e as começasse a divulgar.

Por volta das 19 horas todo o site da DGAE estava em baixo, e esta parece ser a forma sofisticada, à século XXI, que o pessoal dos concursos encontrou para proteger a informação que já circulava através de mails, clouds, blogues e redes sociais. Apercebendo-se do ridículo, lá acabaram por colocar online as listas…

Entretanto, confirma-se aquilo de que já se suspeitava, mas o ME nunca admitira claramente: as colocações ao abrigo da norma-travão extinguiram os correspondentes lugares na vinculação extraordinária, pelo que irão entrar nos quadros menos do que os 3500 inicialmente previstos pelos mais optimistas…

O ano letivo de 2017/2018 iniciará com mais 3.263 docentes vinculados em relação ao ano anterior. De um total de 11.820 docentes que apresentaram candidatura a ambos os concursos externos, 443 ocuparam a vaga referente à norma-travão e 2.820 a vaga da vinculação extraordinária, sendo que 199 docentes eram opositores simultaneamente aos dois concursos”, salienta o comunicado.

Post actualizado às 22.00h.

Matemática A: programas difíceis de cumprir

boy_math_hg_clrA Associação de Professores de Matemática (APM) sempre apontou o dedo ao programa e às metas curriculares de Matemática A do 10.º e 11.º anos do Ensino Secundário, aprovado em 2014 e aplicado no ano letivo de 2015/2106. Comparou-os com outras realidades, nomeadamente em relação ao que é feito nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Singapura, e afirmou que esse programa “é extenso, incompatível com a carga letiva atribuída, e com um nível de abstração e formalização acima de qualquer outro programa internacional”.

Para não correr o risco de ficar a falar sozinha, a APM realizou um inquérito junto dos professores de Matemática e os resultados, que a notícia do Educare analisa detalhadamente, não deixam margem para dúvidas: mais de 80% dos 562 docentes que responderam reconhecem que houve atrasos significativos na leccionação das matérias, programas não cumpridos na totalidade e recurso a aulas suplementares para tentar recuperar os atrasos.

Parecem acertadas as críticas que desde o início se fizeram a um programa inexequível e de uma exigência despropositada em relação ao nível de ensino em causa, imposto em 2014 pelo ministro Crato e a sua equipa. E claro que qualquer professor experiente sabe como é que, com um exame no final, estas coisas acabam: com a matéria dada a mata-cavalos, sendo sacrificada, porque o tempo não dará para tudo, a componente prática da disciplina: a resolução de exercícios, o esclarecimento de dúvidas, o uso regular da calculadora.

Quanto aos alunos, safam-se os mais bem preparados, os que se entendem melhor com a disciplina e sobretudo os que tiverem acesso a explicações particulares. Aos restantes, resta-lhes tentar chegar aos mínimos indispensáveis para concluírem, no próximo ano, a disciplina e esperar que a Matemática não lhes baixe demasiado a média do secundário.

Relativamente ao ME, penso que perdeu já demasiado tempo a imaginar flexibilidades curriculares que ninguém lhe encomendou, em vez de dar respostas concretas às inquietações de alunos e professores perante problemas reais dos actuais currículos. Como é o caso do evidente desajustamento dos programas e metas curriculares da Matemática A.

 

Um quase suicídio… político

ppc-joao-marques.JPGDe Pedro Passos Coelho, nas suas lamentáveis declarações sobre suicídios na sequência do incêndio de Pedrógão. Ressalve-se que já admitiu o erro e pediu desculpa pelas palavras incendiárias e irreflectidas, mas note-se que, se o líder é o que sabemos, o partido que dirige não é melhor do que ele…

João Marques, o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande que deu a Passos Coelho a informação errada sobre suicídios no concelho, é o candidato do PSD àquela autarquia. E foi presidente da câmara durante 16 anos

O país dos incêndios

incendio-pedrogao1Ainda lavram, incontrolados, os incêndios em Pedrógão Grande e concelhos vizinhos. Pouco haverá a acrescentar ao muito que já se disse sobre a imensa tragédia do fim de semana. Falta o mais importante, que é agir de acordo com o que há muito se sabe que está por fazer em matéria de ordenamento do território, de responsabilização dos proprietários, de coordenação de estruturas de protecção civil, de rentabilização do muito dinheiro que se esbanja, anualmente, em cada “época de incêndios”, para continuarmos, ano após ano, no lugar nada invejável de país europeu com mais área florestal ardida.

De facto, basta percorrer o IC8 para perceber a dimensão e a densidade da mancha florestal a que se convencionou chamar Pinhal Interior: perante o envelhecimento e a desertificação humana e a fraca aptidão agrícola da maioria dos solos, apostou-se na exploração florestal, sem tomar em devida conta as necessidades do ordenamento do território e de uma gestão adequada das florestas. Esquecem-se medidas básicas e fundamentais de segurança como a desflorestação e a limpeza das zonas adjacentes às estradas ou em torno das povoações que preservariam zonas seguras e caminhos de fuga às populações ameaçadas pelas chamas.

No meio da tragédia, que foi pasto não apenas para as chamas mas também para intermináveis serviços noticiosos que, a certo ponto, mais não faziam do que repetir até à náusea as mesmas imagens e informações, o destaque, pela negativa, coube desta vez à TVI e à sua jornalista-vedeta Judite de Sousa. Achando por bem deixar, por uma vez, o conforto dos estúdios e ir pavonear-se para o centro dos acontecimentos, não encontrou melhor sítio para fazer a sua reportagem do que ao lado do cadáver de uma senhora vitimada pelo fogo.

judite-pedrogao.jpgDuplamente lamentável, não só pelo triste exemplo ético e deontológico de uma jornalista que é também professora de jornalismo, mas também porque todos soubemos da sua imensa dor e sofrimento aquando do falecimento recente do seu filho. E nos recordamos de como foi alvo de inúmeras manifestações de apoio, compreensão e de solidariedade. O que teria sentido Judite de Sousa na altura, se um seu colega de profissão fosse fazer uma reportagem ao lado do corpo do seu filho?

Defender o património no século XXI

Muito se fala, nos tempos que correm, da necessidade urgente de construir uma escola para o século XXI.

Pois a mim preocupa-me muito mais que outras coisas, como a defesa do património natural, histórico e cultural, permaneçam, nalgumas partes país, ao nível de um século XIX ainda nos seus primórdios.

É que nas escolas em qualquer altura podemos trocar a disposição da mobília, colocar rodinhas nas cadeiras ou tirar as rodinhas, substituir os computadores por tablets ou projectores por ecrãs de LCD, desmembrar as turmas, refazê-las, baralhar e dar de novo e no fim, se nos apetecer, fazer voltar tudo ao princípio.

Agora quando enfiamos um bulldozer por uma jazida arqueológica e arrasamos tudo o que lá está, os danos são irremediáveis. E se eu julgava que isso, no Portugal do século XXI, já não sucedia, fiquei a saber que, nalgumas zonas do Algarve, a ganância de promotores e empreiteiros, aliada à negligência dos (ir)responsáveis, continua com a rédea solta e a cometer, na maior da impunidades, os mais bárbaros atentados ao património.

Vem isto a propósito de uma das mais importantes cidades romanas no território hoje português. Onde hoje se situam Tavira e alguns empreendimentos turísticos junto à ria Formosa, existiu a cidade de Balsa, que no século II tinha o dobro do tamanho de Lisboa e cujos vestígios arqueológicos estão documentados, desde o século XIX, numa vasta área.

Balsa.jpg

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Ainda o concurso de delegados da DGEstE

chega-pra-la.gifA escolha dos três novos delegados regionais da Educação para o Centro, Algarve e Alentejo arrasta-se há mais de um ano e meio e parece não ter fim. O ministério prepara-se, agora, para anular o segundo concurso, que está a decorrer desde 2 de fevereiro deste ano. A razão é a falta de consenso na escolha dos novos dirigentes.

A saga interminável em que se converteu o processo de selecção dos delegados regionais da DGEstE começa a tornar-se, mais do que enjoativa, verdadeiramente ridícula. E a dar uma triste imagem de incompetência da administração educativa.

Que mais se pode dizer, quando se admite que os actuais delegados estão ilegalmente em funções, por já terem expirado todos os prazos legais para a sua substituição, e apesar disso, quem vai saindo, ou é demitido, por falta de entendimento com a secretária de Estado, são os próprios directores e subdirectores da DGEstE que os deveriam tutelar?

Tudo isto, claro, é culpa de uma contradição insanável: se querem no lugar comissários políticos, não deveriam abrir concursos onde prevalecem critérios de experiência e competência, que tendem a privilegiar quem já exerceu o cargo anteriormente.

Pelo contrário, se a ideia é promover à função os funcionários mais competentes dos serviços, então não deveriam abrir os concursos a qualquer paraquedista à procura de tacho, mas sim restringir as candidaturas ao pessoal dos quadros do ministério com as devidas qualificações e experiência profissional.