Numa situação excepcional…

raquel-varela…medidas excepcionais!

Raquel Varela critica a actuação tardia, hesitante e insuficiente do Governo perante aquela que poderá vir a tornar-se a maior crise de saúde pública dos últimos cem anos. E não foi por falta de aviso: a OMS nunca poupou nas palavras para alertar sobre os riscos desta pandemia global. Mesmo entre nós, não faltaram biólogos, matemáticos e epidemiologistas a avisar sobre o que aí vinha. Mas o poder político preferiu dar ouvidos ao discurso irresponsável e por vezes imbecil dos pataratas que o regime promoveu a especialistas e autoridades de saúde pública.

A historiadora e investigadora de temas sociais não hesita em qualificar como uma guerra esta luta que colectivamente devemos travar e vencer contra a propagação do coronavírus. E assim, como em qualquer guerra, há que centrar esforços no que é fundamental para travar o combate, proteger os combatentes e mobilizar todos os recursos essenciais para o esforço de guerra. Requisitando ou mesmo nacionalizando, quando os privados são incapazes de cumprir com a sua parte. Num país onde se respondeu com a requisição civil a uma greve de enfermeiros e mobilizou o exército para substituir camionistas em luta, é admissível hesitar perante a necessidade de requisitar os recursos dos hospitais privados perante uma emergência de saúde pública?…

Nos aeroportos, portos, Metro, Carris não havia até agora nenhuma protecção real para quem trabalhava, sem máscaras, luvas – o plano de contingência era “avise se tem febre”…; são milhões de trabalhadores a circular. Apontar o dedo à praia – que nem sabemos se faz mal ou bem, de facto – é não querer ver o problema. Querem a todo o custo manter produção que não é prioritária a funcionar, com risco para quem trabalha. Temos que parar toda a produção que não é essencial, porque estão nas OGMA a construir aviões? Na Auto Europa, na Visteon? Temos que manter a trabalhar só os sectores essenciais de abastecimento, e esses protegê-los ao máximo de contágios. Isto é uma guerra – em guerra deslocam-se sectores produtivos do que é menos importante para o que é essencial – essencial é logística, energia, saneamento, abastecimento. Temos que tentar produzir material médico em falta, ventiladores, ou exigir à União Europeia – que nada fez até agora a não ser pedir fronteiras abertas!! – que produza.

Mandar as pessoas para casa com 66% do salário é uma medida de um Governo que não tem a mínima noção da realidade laboral do país. Isso para os precários, mais de 30% da força de trabalho do país, significa 450 euros ou menos, não paga sequer a renda. Para quem ganha o salário mínimo, 25% de toda a força de trabalho, significa o mesmo. E os outros fixos só ganham 1000 ou 1500 euros porque a maioria trabalha por turnos e faz horas extra – mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas por semana – se param não pagam as contas. Ou seja, esta medida tem que ser acompanhada pela suspensão do pagamento de hipoteca e rendas, no mínimo; congelamento e redução do preço de bens essenciais. Sob pena de as pessoas não terem como comer.

Os hospitais privados vão reunir-se com a Ministra dia 17…Nunca subestime a vergonha e a cobardia. Nos outros países, como Espanha, já avisaram que vai haver requisição civil. Se for necessária, e é, deve nacionalizar-se os hospitais privados e laboratórios ao serviço do combate à epidemia. Vejam o exemplo dos investigadores do mundo inteiro que estão a tentar produzir vacinas e medicamentos sem direitos de autor, partilhando o que descobrem! Gente decente.

 

Suspeitas de Covid-19 numa escola portuguesa

covide-19.jpgManter a calma, agir com ponderação e sensatez, confiar nas autoridades: tudo bons conselhos sobre a forma correcta de lidar com a crise do novo coronavírus. O problema é quando as autoridades responsáveis não demonstram estar à altura das suas responsabilidades.

Numa escola aqui para os meus lados apareceu um aluno com sintomas que poderiam indiciar uma infecção respiratória. Prudentemente, foi enviado para a sala de isolamento e contactada a Saúde 24. Depois de muitas tentativas, lá conseguiram que alguém atendesse do outro lado e pacientemente responderam a todas as questões. No final, a única indicação dada foi que mantivessem o isolamento e aguardassem novas instruções. Que nunca chegaram.

Ao final do dia, era preciso encerrar a escola e encaminhar o aluno para algum lado. Perante a falta de respostas da entidade competente, haveriam de ser os bombeiros a transportar o aluno ao hospital onde, depois de feitos os testes, se verificou não estar infectado.

Mas se fosse portador do vírus, seria o irmão, vindo recentemente de um país onde há casos reportados, o provável transmissor. E esse esteve o dia todo na escola sem qualquer restrição de movimentos, tal como os colegas de turma de ambos os irmãos.

A história é real, é do meu conhecimento pessoal e só não identifico a escola porque não requeri o consentimento dos envolvidos. Mas casos semelhantes estarão a ocorrer um pouco por todo o país e demonstram falta de capacidade de decisão e de resposta em tempo útil às situações que vão surgindo.

Com o agravamento da crise, o repto aos responsáveis torna-se cada vez mais premente: organizem-se!…

Lavar as mãos

…literalmente, que é o que os responsáveis do ME sabem fazer melhor.

Muito oportuno e sempre bem apanhado, o cartoon do dia no Facetoons!

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O recenseamento, finalmente!…

A partir de hoje e até à próxima terça-feira podem os professores e educadores conferir os dados que constam, a seu respeito, na plataforma do ME. É assim dada, finalmente, resposta aos muitos docentes que por esse país fora aguardavam, ansiosos, não se sabe bem o quê…

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Note-se que o prazo inicialmente dado aos professores para verificarem os seus dados coincidia parcialmente com a interrupção lectiva do Carnaval, uma forma pouco subtil de lhes lembrar que não estariam, nessa altura, em gozo de férias.

Só que quem se desleixou foram alguns directores e secretarias, que não introduziram as informações na plataforma no prazo previsto, obrigando assim a alterações no calendário.

“Não há ministro para a Educação”

Otiagobrodrigues secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira, subiu ao palco do congresso da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), no Seixal, para acusar o ministro Tiago Brandão Rodrigues de ser intransigente e de não querer negociar com os sindicatos dos professores. E, disparando contra o que diz ser a falta de investimento do Governo na “defesa da escola pública”, sentenciou: “Verdadeiramente, não há ministro para a educação.”

Não pediu a demissão do governante, mas carregou nas críticas. Falando como membro do conselho nacional da Intersindical, Mário Nogueira acusou o executivo de anular as “muitas” propostas que surgem “à esquerda do PS” para a área da educação. Tem sido assim “salvo poucas excepções”, como o fim “das injecções ilegais de dinheiros públicos em colégios privados ou a distribuição gratuita de manuais escolares”. Um Governo que diz estar manietado pelas “imposições de Bruxelas”, com um ministro que impõe decisões sem negociar.

“Quando excepcionalmente Tiago Brandão Rodrigues [se] reúne com os sindicatos é para lhes dizer que é o Governo que decide o que se negoceia, como se negoceia e qual o produto final da negociação. Tudo o que sair fora dessa lógica, segundo o governante, não é caminho, mas beco sem saída”, afirmou.

Esteve bem Mário Nogueira, na denúncia da falta investimento na Educação, da ausência de respostas aos problemas e reivindicações dos professores e da farsa que é a perpetuação no cargo de um ministro que não governa o seu ministério, assumindo ora o papel de serventuário do colega das Finanças ora o de testa de ferro das decisões tomadas pelo gabinete do SE João Costa – o ministro de facto, no que à Educação diz respeito.

De resto, quando a coisa se complica, é certo e sabido que Tiago Brandão Rodrigues desaparece de circulação, escondendo-se dos professores, dos jornalistas e de todos os que o possam confrontar com as perguntas sem resposta e os problemas por resolver no sector sob a sua tutela. Lá surge, de quando em vez, a assistir a algum evento desportivo, numa reunião partidária ao fim de semana ou, eventualmente, no ambiente controlado de uma “escola amiga” onde vai inaugurar mais um projecto ou equipamento.

A farsa que é a política educativa deste governo estende-se às reuniões negociais com os sindicatos. Onde o ministro raramente aparece, e quando o faz é para, na sua linguagem patusta, se referir aos “caminhos” que pretende trilhar em conjunto com os representantes sindicais. Ora esse caminho é afinal uma via de sentido único cujo percurso está longe de responder, não só aos interesses dos professores, mas da própria educação portuguesa.

Notícias do IP3

Lembram-se das obras do IP3, destinadas a descongestionar o trânsito e a melhorar a segurança de uma das mais perigosas estradas portuguesas? Obras indispensáveis e tão urgentes que justificavam, pois o dinheiro não chega para tudo, que os professores não recuperassem a totalidade do seu tempo de serviço…

Não esqueci as palavras do primeiro-ministro e também não poderia ignorar o avanço das obras numa estrada onde transito diariamente. E o que posso dizer é que raramente vi dinheiro mais mal empregue do que aquele que supostamente nos foi retirado para pagar estas e outras obras: elas não passam de remendos naquilo que já nasceu torto e não se ousa endireitar.

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Basicamente, o que estão a fazer é a consolidar alguns taludes e barreiras, a melhorar a drenagem da via e a colocar um novo piso. As curvas perigosas continuam, os estrangulamentos do tráfego provocados pela supressão de faixas irão manter-se e, a não ser acelerado o ritmo a que decorrem os trabalhos, duvido que estejam concluídos nos próximos dez anos.

Reformados e mal pagos ficarão, antes disso, boa parte dos professores actualmente no activo…

Ainda há – e haverá! – alunos sem professores

sala-vazia.jpgCinco meses passados desde o arranque do ano letivo, ainda há turmas sem professores. As queixas vão chegando, semana após semana, ao Portal da Queixa, relatando meses sem soluções para esta falha, quer por parte da escola quer por parte do Ministério da Educação (ME). Sem aulas, as escolas debatem-se com respostas para avaliar os seus alunos, principalmente aqueles que se encontram em anos de exames nacionais. A solução passa por pedir horas extraordinárias a docentes que se mostrem disponíveis para lecionarem turmas com disciplinas em falta e esticar o horário diário dos alunos, dizem diretores. Em casos extremos, por passagens administrativas.

A lei prevê que haja, no mínimo, dois momentos de avaliação por ano, distribuídos por qualquer período (no caso das escolas que apliquem o sistema por períodos e não semestres). “Admito que, no caso dos alunos que não tiveram aulas no 1.º período, não foram ainda avaliados e, por isso, terão de ter avaliação nos dois restantes”, explica o dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

Professores a leccionar disciplinas para as quais não estão adequadamente habilitados, recurso a horas extraordinárias, prolongamento dos horários dos alunos, em último caso passagens administrativas com nível 3 no básico e 10 no secundário: a imprevidência do ME a lidar com um problema previsível, que mais tarde ou mais cedo haveria de ocorrer, leva a que se procurem agora soluções de recurso que raramente serão as mais benéficas para alunos e professores.

A verdade é que o actual modelo de concursos e quadros docentes está há muito desajustado, não promove a estabilidade profissional nem a fixação de professores onde eles são necessários e mostra-se cada vez mais permeável aos abusos – caso da mobilidade por doença – e às injustiças – sobretudo em relação aos professores contratados. Tendo existido a oportunidade, na anterior legislatura, de fazer as reformas que se impunham, optaram por mudanças cosméticas que deixaram tudo na mesma.

Nas substituições temporárias a falta de professores torna-se crítica, não só porque o envelhecimento da classe faz aumentar o número de baixas, muitas delas prolongadas, por motivo de doença, mas também porque as condições que são dadas aos professores substitutos estão longe de ser compensadoras. Sobretudo quando os horários são reduzidos e as colocações implicam a deslocação para longe de casa. E sendo para uma zona do país com preços inflacionados no mercado habitacional, ainda pior…

A falta de atractividade da profissão docente é outro factor que contribui para deixar desertas muitas vagas postas a concurso. Não se pode andar a destratar e a humilhar publicamente os professores, ignorando os seus problemas e anseios e impondo-lhes condições de trabalho que tornam cada vez mais penoso o exercício da profissão e esperar depois que os mais novos continuem a fazer fila para preencher os lugares disponíveis nas sucessivas reservas de recrutamento.

O tempo do exército de reserva que aguardava pacientemente, no desemprego, qualquer colocação que surgisse, parece ter chegado ao fim. Agora, se o país e os seus governantes querem professores, terão cada vez mais de lutar por eles. E de os tratar melhor, pois duvido muito que as novas gerações de docentes aceitem receber o tratamento que tem sido dado aos professores mais velhos…