007, ordem para encerrar

ESE-piaget.pngA década de 90 foi o período áureo do ensino superior privado. Face à oferta ainda escassa do sector público, demasiado concentrada nos principais pólos universitários do país, um pouco por todo o lado floresceram universidades e escolas superiores privadas.

A qualidade é que deixava a desejar. Criadas à pressa e quase sempre a funcionar sem um corpo docente próprio e devidamente habilitado, os chamados turbo-professores tiveram a sua oportunidade: docentes das universidades e politécnicos do Estado que acumulavam dando umas aulas no ensino privado.

Sem capacidade para investir a longo prazo em instalações, carreiras académicas e projectos de investigação nem para angariar alunos suficientes para dar sustentabilidade financeira ao negócio, a maior parte destas instituições privadas foram definhando e desaparecendo. Algumas de forma estrepitosa, ficando associadas a casos de desfalques e outras falcatruas envolvendo figuras sonantes dos partidos e das maçonarias do regime.

Mas houve também escolas superiores privadas que, mais discretas, conseguiram manter-se em actividade. E só as avaliações mais rigorosas às condições de funcionamento destas instituições, a decorrer desde 2017, vieram ditar o que nalgumas delas já era tido como inevitável: terão de encerrar, por falta de condições para manter a sua actividade.

De acordo com uma nota do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), ao Instituto Superior de Comunicação Empresarial (ISCEM), cujo encerramento foi divulgado e confirmado na segunda-feira, juntam-se a Escola Superior de Tecnologias E Artes de Lisboa, a Escola Superior Artística de Guimarães, o Instituto Superior de Novas Profissões, a Escola Superior de Educação Almeida Garrett, a Escola Superior de Educação Jean Piaget de Arcozelo e o Conservatório Superior de Música de Gaia.

A Escola Superior Artística de Guimarães, o Instituto Superior de Novas Profissões, a Escola Superior de Educação Almeida Garrett, a Escola Superior de Educação Jean Piaget de Arcozelo, apesar da ordem de encerramento compulsivo, vão funcionar, em alguns casos, mais dois anos letivos, para garantir que os alunos matriculados e com cursos iniciados possam concluir essas formações.

Contratos de associação: uns colégios morrem, outros sobrevivem…

colegioNos últimos anos, foram vários os colégios privados a fechar portas como consequência da perda do financiamento estatal, em troca do qual aceitavam todos os alunos sem cobrar mensalidades. Além do Colégio da Imaculada Conceição, em Coimbra, que vai encerrar no próximo ano letivo, a Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca, em Arrifana, no concelho da Guarda, perdeu meio milhão de euros em três anos e está em risco.

“Basta que cortem o financiamento de uma das atuais cinco turmas para que não consigamos resistir. O dinheiro que recebemos dá para viver à tangente“, disse ao Expresso Sandra Fernandes, diretora pedagógica.

O atual Executivo decidiu fazer uma reestruturação profunda na rede de colégios com contrato de associação com o Estado, passando a financiar só os que se encontram em zonas onde não há capacidade nas escolas públicas mais próximas para receber todos os estudantes.

Reduzidos os contratos de associação à sua função supletiva da rede pública – ou seja, o Estado só os celebra quando não existem escolas públicas nas proximidades – as escolas privadas que até aí viviam do financiamento estatal passaram a depender das leis do mercado. Quer isto dizer que, onde foi possível criar ou manter uma oferta educativa diferenciada e famílias dispostas a pagar por ela, os colégios aguentaram-se. Mas, onde não existia mercado para o negócio da educação privada, o encerramento de portas tornou-se inevitável.

Claro que, em defesa do ensino privado, costuma erigir-se como argumento central a defesa da liberdade de escolha. Se temos de gastar dinheiro com a Educação, porque não permitir que os alunos e as suas famílias escolham a escola que pretendem em função da sua localização, projecto educativo ou outros interesses legítimos?

Aparentemente lógico e sedutor, o argumento não colhe. Se em teoria a concorrência gera melhores produtos e serviços, na prática o que geralmente se obtêm é uma maior segmentação dos públicos educativos e um agravamento das desigualdades no acesso à educação. Isto sucede porque os melhores alunos tendem a concentrar-se nas escolas tidas por “boas”, enquanto nas “más” se juntam aqueles que os colégios privados, sobretudo quando esgotaram a sua lotação, rejeitam: alunos com historial de insucesso ou mau comportamento ou com necessidades especiais que impliquem um aumento de custos.

A liberdade de escolha é uma resposta fácil a um desafio difícil, o de construir e defender intransigentemente uma escola pública de qualidade para todos. Bem mais fácil é decidir que a escola pública do meu bairro não é suficientemente boa para os meus filhos e exigir que o Estado lhes pague a educação num colégio privado escolhido por mim. Ora isto é no fundo a negação do princípio da escola inclusiva que tanto se tem defendido ao longo da actual legislatura. Até mesmo por responsáveis do sector que, vai-se a ver, têm os filhos em escolas privadas…

Ainda assim, nem tudo são más notícias para os colégios. Em Fátima, por exemplo, continua a não existir ensino público a partir do 5.º ano de escolaridade. Pelo que o negócio dos colégios e o monopólio do ensino católico continuam garantidos. E, em ano de eleições, o Governo lá lhes fez a vontade, aceitando aumentar o financiamento de acordo com o que vinham reivindicando…

O Ministério de Educação decidiu atribuir mais três turmas que as inicialmente estipuladas aos colégios privados de Fátima. Vão ser duas turmas de 7º ano e uma de 10º ano. Segundo o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque (PSD), o Ministério da Educação reconheceu a excepcionalidade de Fátima em relação às escolas com contratos de associação com o Estado. O autarca lembrou, em sessão camarária privada, que em Junho de 2018, com o aviso de abertura de procedimento para celebração de contratos de associação, o município foi confrontado com o facto de existirem alunos residentes na freguesia de Fátima sem lugar nessas escolas, tendo sido mais gravoso no 7º ano. Em Fátima não há ensino público a partir do 1º ciclo do ensino básico.

Neoliberalismo educativo

ciac.JPGLiberais em 1834:

Extinguiram as ordens religiosas em Portugal e nacionalizaram todos os seus bens.

Neoliberais em 2019:

Lamentam o fecho de um colégio jesuíta, vítima das leis do mercado: deixou de ter alunos suficientes desde que perdeu o contrato de associação. Defendem que as escolas privadas subsistam com financiamento público.

Estudar para aprender – II

examinandaO secretário de Estado da Educação defendeu esta quinta-feira que as escolas devem preocupar-se em ensinar em vez de se inquietarem com a preparação dos alunos para os exames nacionais, argumentando que desta forma os estudantes terão melhores resultados académicos.

Claro que sim. As escolas públicas estão lá para “ensinar”, entendendo-se por “ensino” o seguir à risca dos devaneios flexibilizadores de João Costa e dos seus apoiantes.

Preparar os alunos para os exames é outra conversa. Essa é a tarefa – e o negócio – dos colégios privados e dos explicadores particulares.

Há que respeitar a iniciativa privada.

Colégios só para gente rica

colegio-eliteEstudo da OCDE comparou o nível de “segregação” no ensino em 50 países baseado no estatuto socioeconómico dos alunos do ensino público e privado, concluindo que o país se encontra entre os dez, onde a diferença é mais “impressionante”, segundo o jornal Público.

O Estado não paga aos pobrezinhos a mensalidade do colégio e assim estes são frequentados apenas por gente rica: eis o Público no seu melhor, saindo em defesa da “liberdade de escolha” paga pelo contribuinte e cumprindo a agenda da associação do ensino privado.

Há no entanto um pormenor que complica a narrativa: é que os colégios frequentados pelos mais ricos nunca, ou muito raramente, estiveram abrangidos pelos contratos de associação. As escolas mais elitistas sempre se reservaram o direito de admissão, cobrando mensalidades elevadas e propondo projectos educativos diferenciados e exclusivistas.

Perante os factos, o lobby do ensino privado que andou a repescar o estudo da OCDE tira a conclusão que lhe interessa: precisamos de apoiar as famílias pobres e remediadas para que possam também ser nossos clientes, acedendo à excelência da educação privada.

A minha análise é diferente. Em primeiro lugar, os factos revelam a debilidade das nossas classes médias: poucas famílias terão possibilidades de pagar a escola privada. Mas isso também significa que confiam na escola pública: ao contrário do que sucede noutros países, em que famílias de classe média fazem grandes sacrifícios ou chegam mesmo a endividar-se para pagar o colégio dos filhos, pois sentem que essa é a única forma de lhes proporcionarem uma boa educação, em Portugal isso, em regra, não acontece. Mas há, certamente, quem esteja a trabalhar nesse sentido…

Finalmente, a ideia de que o privado é bom e o público é mau não corresponde a uma inevitabilidade. Basta ver como, no ensino superior, a situação se inverte e os cursos mais procurados são, quase sem excepção, leccionados em universidades públicas. Ora se, no ensino não superior, as classes mais endinheiradas preferem recorrentemente os colégios privados, isso quer dizer que estes lhes fornecem algo que as escolas públicas não lhes podem dar. E de que, consequentemente, estarão a privar os seus alunos.

Assim, a existência de famílias que “fogem” da escola pública não deve ser um incentivo para que o Estado promova a fuga de ainda mais alunos, desviando recursos para os privados e fomentando a desigualdade no acesso à Educação. Pelo contrário, demonstra a necessidade de investir mais nas escolas públicas, de forma a que estas possam dar mais e melhor resposta às necessidades de todos os alunos.

18 a Educação Física

rapaz.pngO rapaz estuda num externato bem conhecido da cidade do Porto…

– Mãe, tenho boas e más notícias.

– Qual é a boa?

– Tive 18 a Educação Física.

– Parabéns filho. Estou muito orgulhosa de ti… Qual é a má?

– Fui o pior aluno da turma…

Caso Ribadouro: a reacção da CNAPEF

A reacção da CNAFEP ao caso das notas inflacionadas no Externato Miradouro, em nome dos professores de Educação Física que representa, surgiu rápida.

No essencial, reforça a ideia que já aqui defendi e que só posso, por isso mesmo, subscrever: o inflacionar de notas internas não é um problema específico da Educação Física, uma vez que afecta todas as outras disciplinas do secundário onde não há exames nacionais.

Também não é um problema específico de um determinado colégio, uma vez que surge em diversas escolas, públicas e privadas (embora com maior incidência nestas últimas). E já se acontece há muitos anos – coloca-se agora à EF porque a disciplina passou a contar para a média do secundário.

Fica o documento.

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