Neoliberalismo educativo

ciac.JPGLiberais em 1834:

Extinguiram as ordens religiosas em Portugal e nacionalizaram todos os seus bens.

Neoliberais em 2019:

Lamentam o fecho de um colégio jesuíta, vítima das leis do mercado: deixou de ter alunos suficientes desde que perdeu o contrato de associação. Defendem que as escolas privadas subsistam com financiamento público.

Estudar para aprender – II

examinandaO secretário de Estado da Educação defendeu esta quinta-feira que as escolas devem preocupar-se em ensinar em vez de se inquietarem com a preparação dos alunos para os exames nacionais, argumentando que desta forma os estudantes terão melhores resultados académicos.

Claro que sim. As escolas públicas estão lá para “ensinar”, entendendo-se por “ensino” o seguir à risca dos devaneios flexibilizadores de João Costa e dos seus apoiantes.

Preparar os alunos para os exames é outra conversa. Essa é a tarefa – e o negócio – dos colégios privados e dos explicadores particulares.

Há que respeitar a iniciativa privada.

Colégios só para gente rica

colegio-eliteEstudo da OCDE comparou o nível de “segregação” no ensino em 50 países baseado no estatuto socioeconómico dos alunos do ensino público e privado, concluindo que o país se encontra entre os dez, onde a diferença é mais “impressionante”, segundo o jornal Público.

O Estado não paga aos pobrezinhos a mensalidade do colégio e assim estes são frequentados apenas por gente rica: eis o Público no seu melhor, saindo em defesa da “liberdade de escolha” paga pelo contribuinte e cumprindo a agenda da associação do ensino privado.

Há no entanto um pormenor que complica a narrativa: é que os colégios frequentados pelos mais ricos nunca, ou muito raramente, estiveram abrangidos pelos contratos de associação. As escolas mais elitistas sempre se reservaram o direito de admissão, cobrando mensalidades elevadas e propondo projectos educativos diferenciados e exclusivistas.

Perante os factos, o lobby do ensino privado que andou a repescar o estudo da OCDE tira a conclusão que lhe interessa: precisamos de apoiar as famílias pobres e remediadas para que possam também ser nossos clientes, acedendo à excelência da educação privada.

A minha análise é diferente. Em primeiro lugar, os factos revelam a debilidade das nossas classes médias: poucas famílias terão possibilidades de pagar a escola privada. Mas isso também significa que confiam na escola pública: ao contrário do que sucede noutros países, em que famílias de classe média fazem grandes sacrifícios ou chegam mesmo a endividar-se para pagar o colégio dos filhos, pois sentem que essa é a única forma de lhes proporcionarem uma boa educação, em Portugal isso, em regra, não acontece. Mas há, certamente, quem esteja a trabalhar nesse sentido…

Finalmente, a ideia de que o privado é bom e o público é mau não corresponde a uma inevitabilidade. Basta ver como, no ensino superior, a situação se inverte e os cursos mais procurados são, quase sem excepção, leccionados em universidades públicas. Ora se, no ensino não superior, as classes mais endinheiradas preferem recorrentemente os colégios privados, isso quer dizer que estes lhes fornecem algo que as escolas públicas não lhes podem dar. E de que, consequentemente, estarão a privar os seus alunos.

Assim, a existência de famílias que “fogem” da escola pública não deve ser um incentivo para que o Estado promova a fuga de ainda mais alunos, desviando recursos para os privados e fomentando a desigualdade no acesso à Educação. Pelo contrário, demonstra a necessidade de investir mais nas escolas públicas, de forma a que estas possam dar mais e melhor resposta às necessidades de todos os alunos.

18 a Educação Física

rapaz.pngO rapaz estuda num externato bem conhecido da cidade do Porto…

– Mãe, tenho boas e más notícias.

– Qual é a boa?

– Tive 18 a Educação Física.

– Parabéns filho. Estou muito orgulhosa de ti… Qual é a má?

– Fui o pior aluno da turma…

Caso Ribadouro: a reacção da CNAPEF

A reacção da CNAFEP ao caso das notas inflacionadas no Externato Miradouro, em nome dos professores de Educação Física que representa, surgiu rápida.

No essencial, reforça a ideia que já aqui defendi e que só posso, por isso mesmo, subscrever: o inflacionar de notas internas não é um problema específico da Educação Física, uma vez que afecta todas as outras disciplinas do secundário onde não há exames nacionais.

Também não é um problema específico de um determinado colégio, uma vez que surge em diversas escolas, públicas e privadas (embora com maior incidência nestas últimas). E já se acontece há muitos anos – coloca-se agora à EF porque a disciplina passou a contar para a média do secundário.

Fica o documento.

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Excelentes a Educação Física

exercices009[1]A Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) vai verificar a regularidade da atribuição de notas no Externato Ribadouro, no Porto, depois de ter sido divulgada esta sexta-feira uma invulgar concentração de classificações de 19 e de 20 valores no final do segundo período na disciplina de Educação Física.

A situação, que se repete em nove turmas do 10º ano daquele colégio, foi divulgada no blogue dedicado a temas de Educação Com Regras, de Alexandre Henriques, professor desta disciplina.

Alertado para o caso, o Ministério da Educação fez saber que a IGEC irá, através de um processo de inquérito, “investigar a situação, bem como identificar os responsáveis por eventuais ilícitos praticados”. A tutela acrescenta que, caso venham a verificar-se atos ilícitos, “agirá intransigentemente”.

A sério que se está a ensaiar um escândalo nacional por causa dos dezanoves e vintes a Educação Física no Ribadouro?

Não faz muito sentido, pois a prática inscreve-se no modus operandi habitual neste e noutros colégios que funcionam como verdadeiras máquinas de meter alunos na universidade. O que eles estão a fazer com a EF é o mesmo que fazem com todas as outras disciplinas não sujeitas a exame final: como a nota que atribuem não irá ser confrontada com uma avaliação externa, eles dão a nota máxima, porque esta beneficia os seus alunos no acesso ao ensino superior.

Com tanto 19 e 20, haverá por ali um nicho de atletas de alta competição em formação? – perguntarão alguns. Claro que não, assim como notas idênticas na Física, na Química ou na Biologia do 12º ano também não significam que a maioria dos alunos sejam potenciais cientistas dessas áreas. Estamos a falar, obviamente, de disciplinas não sujeitas a exame final, onde a nota atribuída pelo conselho de turma tem a primeira e a última palavra.

Se o cliente paga – e paga bem! – é, naturalmente, para ser bem servido. E como o objectivo da maioria dos alunos que procuram o externato é conseguir uma média alta no final do secundário, de forma a entrarem nos cursos superiores pretendidos, tudo se organiza da forma a conseguir o que o cliente quer. Claro que, com este favorecimento, os privilegiados que estudam no Ribadouro ultrapassam milhares de alunos das escolas públicas a quem não são dados os mesmos benefícios.

Por outro lado, não havendo uma nota de exame com a qual a classificação interna possa ser confrontada, como se poderá demonstrar que determinada nota é exagerada ou imerecida?

Não é nada fácil, pois todo o actual sistema avaliativo se tem vindo a erigir em torno do  direito ao sucesso. Há décadas que os professores estão habituados a ter de justificar as “negativas” que dão, sobretudo quando elas ultrapassam certa percentagem ou quando as suas turmas não atingem determinadas médias ou objectivos previamente definidos. Quando um professor se mostra um mãos largas na avaliação, ninguém lhe pergunta porque dá notas tão altas. Questiona-se, isso sim, porque não conseguem os seus colegas de grupo disciplinar obter idênticos resultados.

Dessa forma, parece-me que a “intransigência” agora anunciada pelo ME dificilmente pode ser levada a sério. É fácil encontrar evidência estatística de que os alunos do Ribadouro estão a ser indevidamente beneficiados. Mas é impossível determinar em concreto, quais e em que medida os alunos que estão a ser favorecidos. E, mais ainda, qual seria então a nota justa a atribuir. A verdade é que a avaliação é uma competência dos professores e dos conselhos de turma – que, como tantas vezes ouvimos dizer, são soberanos. Depois das notas atribuídas não existe qualquer base legal que permita alterá-las administrativamente.

Após a agitação mediática destes dias, o caso Ribadouro, rapidamente passará, decerto, às habituais águas de bacalhau em que estes assuntos tendem a marinar. Todos sabemos que só uma reforma do acesso ao ensino superior poderia corrigir as injustiças e vulnerabilidades de um sistema demasiado permeável ao poder do dinheiro. Mas há pouca vontade de contrariar interesses instalados…

Torna-se assim evidente que um sistema de acesso à universidade baseado nas notas do secundário criará sempre uma pressão no sentido de que estas sejam o mais elevadas que for possível. E esta será uma tendência transversal a todas as escolas. Neste campeonato, os colégios com uma gestão menos escrupulosa e mais orientada para o lucro poderão actuar de forma mais eficaz. E os seus clientes estarão sempre em vantagem.

Por outro lado, temos também aqui uma antevisão do que seria um modelo de acesso à universidade sem exames, confiando em pleno nas virtualidades da “avaliação contínua”. Obviamente, e enquanto não for possível separar os processos de conclusão do secundário e de candidatura ao superior, os exames nacionais terão de continuar a existir, sob pena de se desvirtuar por completo tanto a avaliação do secundário como a salvaguarda de um mínimo de equidade e justiça no acesso às universidades.

Do colégio dos betinhos à escola dos coitadinhos

colegio.JPGO Público é um jornal geralmente atento aos temas educativos, que têm aqui uma cobertura mais extensa e regular do que na generalidade da imprensa escrita. No entanto, nota-se demasiadas vezes a intromissão de uma agenda ideológica que perturba a objectividade, o rigor e a isenção que deve, em todas as circunstâncias, caracterizar o bom jornalismo.

Vem isto a propósito da divulgação dos rankings das escolas, que foi durante anos uma causa defendida por este jornal. É ainda hoje uma matéria que os seus jornalistas têm dificuldade em gerir com sobriedade, acabando algumas peças por deslizar para um moralismo hipócrita de inspiração neoliberal que se torna difícil de suportar.

“Estes alunos suaram de facto, mas isso dá-lhes estofo para o que vem a seguir”

Este colégio de elite da linha de Cascais recebe meninos de boas famílias, que têm acesso a tudo o que o dinheiro pode comprar. E, claro, as mensalidades caras também pagam as turmas reduzidas, os reforços curriculares, os apoios ao estudo e os gabinetes de psicologia. Têm as melhores condições materiais e humanas para brilhar nos estudos, e muitos brilham, efectivamente, catapultando a escola para o topo dos rankings. Agora era escusado dizer que suam muito – quem sua serão certamente as empregadas de limpeza das famílias destes meninos, que nunca terão oportunidade de ter os seus filhos a “suar” no colégio dos meninos ricos. E, para sermos honestos, deveremos acrescentar: as famílias que investem na educação dos filhos nestes colégios fazem-no para tentar assegurar-lhes um futuro em que não tenham, precisamente, de suar para ganhar a vida.

…um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor. 

E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças, tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que somos. 

No extremo oposto, temos o fado triste da escola dos meninos pobres, que aí vão em busca da comida e do afecto que muitos não têm em casa, e dos professores-missionários dedicados a uma causa que, embora podendo somar todos os dias pequenas vitórias está, no seu todo, invariavelmente perdida. Porque a luta contra a pobreza, a fome, o desemprego, a marginalidade, a violência doméstica e outras realidades que enchem o quotidiano destes alunos não se combate na escola. As refeições escolares, os apoios sociais e psicológicos, os programas de tutoria, os mediadores culturais, tudo isto são paliativos que tentam remediar, mas não resolvem os problemas de fundo.

Claro que este fadinho do professor-missionário encaixa bem na lógica economicista e neoliberal do “menos Estado”: para quê ambiciosas políticas sociais, se podemos resolver os problemas todos através da escola, com professores faz-tudo, que tanto dão a sopa como tentam ensinar a tabuada e, com sorte, ainda vão a casa saber do menino quando ele não aparece na escola? Afinal de contas, estes miúdos pobres não têm os “sonhos”, as “ambições” dos outros, os dos colégios da Linha, pelo que alimentá-los e entretê-los na escola já parece um programa satisfatório – pelo menos será melhor do que o ambiente que têm em casa…

Em boa verdade, os professores não têm de ser missionários, muito menos de fazer de pais ou mães dos alunos carenciados. Tal como todas as crianças têm direito a uma família que as ame e que cuide delas, e se demasiados miúdos a não têm, crescendo negligenciados e desamparados, então são o Estado e a sociedade que estão a falhar. E o desemprego, a doença, as dificuldades das famílias monoparentais com baixos rendimentos, as carências habitacionais nas grandes cidades, tudo isto são problemas sociais que requerem respostas prontas e adequadas – mas não é a escola que as pode dar.

Os professores destas escolas – cujo trabalho é incomparavelmente mais difícil do que o das que lutam pelos primeiros lugares dos rankings – fazem o que podem pelos seus alunos. E fazem bastante. Mas o muito que fazem fica muito aquém daquilo que são as exigências de um currículo nacional a que estes alunos não conseguem aceder. Como as médias negativas dos resultados dos exames claramente demonstram.

A escola convertida em centro de assistência social não cumpre a sua verdadeira missão com estes alunos – limita-se a tentar fazer, de forma insuficiente e limitada, a intervenção que caberia a outras entidades. E não, ao contrário do que afirma João André Costa, esta não é a melhor escola do país. Mas poderá sê-lo – no dia em que se puder dedicar realmente a educar e instruir os seus alunos, em vez de se preocupar em saber se passaram bem a noite ou tomaram o pequeno-almoço.