Externato Ribadouro contesta em tribunal as sanções impostas pelo ME

O Externato Ribadouro, no Porto, vai contestar em tribunal as decisões do Ministério da Educação de suspender de funções a diretora pedagógica e ordenar o encerramento do colégio, suspenso por dois anos, devido a inflação de notas internas.

“Uma vez analisadas as decisões, verifica-se que carecem de fundamento, quer de facto quer de direito, pelo que se irá recorrer para tribunal”, assinala em resposta à Lusa, Alfredo Caseiro de Almeida, membro da Direção Pedagógica do colégio e coordenador geral Assessoria Jurídica do grupo Ribadouro.

Esta reação, avançada na segunda-feira pelo jornal Público, surge depois de na sexta-feira terem sido conhecidas as conclusões do processo de inquérito aberto em 2019 pela Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) que evidenciou comportamentos reiterados durante os anos letivos 2017/2018 e 2018/2019 com relevância disciplinar.

Inconformados com a decisão ministerial, os responsáveis do colégio recorrem à via judicial para tentar reverter as sanções aplicadas. Adivinha-se um processo judicial longo e com pano para mangas, pois se já coisa que tanto juristas como burocratas da Educação gostam é de esmiuçar papelada, concentrando-se não na realidade que todos podemos constatar se olharmos à nossa volta, mas no mundo fictício do que está escrito nos papéis.

O Ribadouro despertou as atenções da IGEC e do ministério pelos persistentes desalinhamentos das notas internas relativamente aos exames nacionais. Mas essa situação, sendo anómala, não viola especificamente nenhuma norma legal. Ao contrário do que sucede com a avaliação dos professores, na qual existem quotas para as classificações de mérito, na avaliação dos alunos nada impede que numa turma os alunos sejam corridos a dezanoves e vintes, partindo do pressuposto de que os mereceram.

Assim, não podendo pegar na essência da questão, que seria a justeza da nota atribuída individualmente a cada aluno, os inspectores comprovaram que os alunos foram mal avaliados ao analisar a documentação do colégio e constatar as irregularidades que já sabemos: notas dos CT alteradas administrativamente, irregularidades na definição de critérios de avaliação, alunos a serem avaliados a disciplinas que não frequentavam. O objectivo, naturalmente, era conferir aos alunos do externato uma vantagem indevida no competitivo processo de candidatura aos cursos mais procurados do ensino superior.

Aqui é que a situação se começa a tornar ligeiramente paradoxal: o Ribadouro é condenado pelo ME por inflacionar as notas dos alunos; mas estes, e as suas famílias, procuram o colégio, e dispõem-se a pagar elevadas propinas, justamente para beneficiarem dessa vantagem injusta. Para os responsáveis do externato, defender o seu modelo de negócio passa por continuar a dar excelentes notas aos seus alunos, que pagam para obterem resultados. Mas para reverterem, no plano judicial, as punições do ME, terão de demonstrar justamente o oposto, que cumprem com todos os critérios de uma avaliação justa e objectiva. Conseguirão convencer os juízes?…

Externato Ribadouro castigado pelo ME

Pautas afixadas com classificações finais diferentes das que tinham sido aprovadas pelos conselhos de turma, dispensa de frequência das aulas de Educação Física sem qualquer justificação, aulas contabilizadas mas que não foram nem sumariadas nem assinadas, incumprimento sistemático de procedimentos obrigatórios na avaliação que põem em causa a fiabilidade das notas atribuídas aos alunos. Estas são algumas das irregularidades encontradas pela Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) no Externato Ribadouro, um dos maiores do Porto, e que tem sido assinalado como um dos que se repete na lista dos maio­res desalinhamentos entre as classificações atribuídas pelos professores da escola e as obtidas pelos alunos nos exames nacionais.

As averiguações da IGEC foram desencadeadas em 2019 na sequência de notícias que davam conta de classificações anormalmente altas a Educação Física, com turmas inteiras a receber notas de 19 e 20 valores, e noutras disciplinas do secundário não sujeitas a exame nacional. As inspeções realizadas originaram três processos: um sobre a administração do colégio, os outros dois sobre a sua diretora pedagógica. O Expresso tem vindo a perguntar qual o resultado destas averiguações e confirmou agora o desfecho: suspensão da responsável de funções por um período de um ano e encerramento do colégio durante um ano, mas neste caso a sanção fica suspensa por dois anos.

As mesmas estatísticas que alimentam a festa anual dos rankings escolares, esmagadoramente dominados pelos colégios de elite, podem servir igualmente para outros fins. Detectar, nomeadamente, desvios significativos entre as classificações atribuídas internamente e os resultados obtidos nos exames nacionais. Ora é neste campeonato que o Externato Ribadouro tem alcançado também os primeiros lugares, ao evidenciar, ano após ano, dos maiores desalinhamentos entre notas internas e externas.

As averiguações da IGEC vieram assim confirmar práticas já conhecidas informalmente, não só entre a população estudantil da cidade do Porto, mas também entre pais, professores e outros intervenientes e interessados pelos assuntos educativos. O Ribadouro construiu a sua reputação de conseguir colocar os alunos nas principais universidades, nos cursos de primeira escolha e a verdade é que, ao longo de décadas, tem sido bastante eficaz nesse objectivo. O que agora se confirma é que pelo menos alguns dos métodos utilizados são batoteiros. E permitiram que alunos desta instituição passassem imerecidamente à frente de colegas de outras escolas, públicas e privadas, com maiores méritos académicos.

O actual ME pode ser acusado de muita coisa, e motivos de crítica não têm faltado ultimamente, mas aqui há que reconhecer: sucessivos governantes passaram pela pasta, mas a actual equipa é a primeira a enfrentar o problema das notas inflacionadas, que inquina por completo o actual sistema de acesso ao ensino superior. Enquanto outros preferiram assobiar para o lado, terá havido instruções claras para a actuação das equipas inspectivas, nesta e noutras escolas onde o desalinhamento de notas era evidente.

Espera-se que as punições agora aplicadas não se fiquem apenas pelo Ribadouro – que sendo o mais emblemático, está longe de ser um caso único – e se estendam a outras escolas, públicas e privadas, onde a existência de práticas desleais e batoteiras na avaliação possa ser comprovada. Mas será que uma acção inspectiva mais atenta, presente e actuante será a solução para corrigir a crescente desigualdade no acesso ao ensino superior?

Tenho fortes dúvidas. A verdade é que o sistema nacional de acesso ao ensino superior, baseado nas classificações do secundário, tenderá sempre a criar um mercado onde actuam dois interesses fortes e convergentes: o dos alunos e famílias dispostos a pagar avultadas mensalidades para obterem idealmente um melhor ensino mas, mais importante do que isso, notas mais altas; e o dos colégios dispostos a recorrer a todos os truques e estratégias para dar aos seus estudantes as médias de que eles necessitam. O que a IGEC examinou, basicamente, foram papéis – actas, sumários, registos de assiduidade, critérios de avaliação – onde encontrou provas de diversas trafulhices. Algo que é feito rotineiramente nas escolas públicas, mas com que se tem evitado incomodar as privadas. Não foi assistir a aulas nem esteve nas salas de exame. O que quer dizer que o Ribadouro poderia ter feito tudo o que ali é prática habitual e não seria apanhado – se tivesse a papelada em ordem!

A acção inspectiva é importante, deve ser feita com regularidade e ir a todas as escolas, mas não chega para corrigir as desigualdades. A aposta crescente na autonomia das escolas, tanto ao nível da flexibilização dos currículos como da definição dos critérios de avaliação é incompatível com uma avaliação nacional em que todos os candidatos ao ensino superior são colocados em pé de igualdade. Um sistema de acesso definido em função do perfil desejável dos estudantes de cada curso superior, e não das notas do secundário, garantiria maior equidade e justiça no acesso aos cursos com maior procura. E iria permitir que o ensino secundário se assumisse como um nível de ensino com objectivos e finalidades próprias – e não como mera antecâmara para preparar e seriar alunos para o ensino superior.

Madrid, campeã da segregação escolar

O periódico espanhol elDiario, que publica com regularidade excelentes peças sobre a Educação, analisa, à luz de dados internacionais, a política educativa na comunidade de Madrid, onde decorrerão amanhã eleições antecipadas. A actual presidente, Isabel Ayuso, é a mais do que provável vencedora, devendo manter-se no cargo através de um acordo pós-eleitoral do Partido Popular com o Vox, formação de extrema-direita que lhe poderá proporcionar os mandatos que faltam para a maioria absoluta. Mas estas não são boas notícias para a Educação…

Se Madrid fosse um país, só a Turquia segregaria mais os seus alunos de acordo com a sua origem socioeconómica. Por outras palavras: a região presidida por Isabel Díaz Ayuso separa (ou agrupa) os seus alunos de acordo com a sua classe social mais do que qualquer outra em Espanha e está entre as mais segregadas de todo o mundo desenvolvido, de acordo com o estudo realizado por Save the Children e Esade. […]

A Espanha como um todo não se sai muito melhor, em parte devido aos dados de Madrid, que puxa a média para cima. O país é o terceiro mais segregado da OCDE, ultrapassado apenas pela Lituânia e Turquia, acrescenta o texto. No outro extremo de Madrid destacam-se pela sua menor segregação, La Rioja e Cantabria, com números que são metade dos de Madrid. Também destaca o trabalho de regiões como estas duas mencionadas ou a Catalunha e as Astúrias, que conseguiram reduzir a sua segregação desde 2015. Em Madrid, a terra da liberdade de escolha, ela cresceu tanto no ensino primário como no secundário. Os pobres estão cada vez mais com outras pessoas pobres e os ricos estão cada vez mais com outras pessoas ricas.

A segregação escolar é um problema grave em Espanha, que radica numa política de financiamento público em larga escala de escolas e colégios privados, activamente promovida por sucessivos governos. É uma herança do franquismo, que encontrou aqui uma forma de financiar com dinheiro público as instituições religiosas, em troca da prestação de serviços educativos, que a democracia não enjeitou.

Este ensino concertado tem um claro paralelo com os contratos de associação que, a determinada altura, também proliferaram entre nós. Só que enquanto em Portugal esta política foi revertida a partir de 2015, restringindo-se a celebração de contratos aos casos de carência ou insuficiência da escola pública, em Espanha a maioria das regiões apostam na liberdade de escolha e na concorrência aberta entre público e privado. O resultado, claro, é que os alunos mais favorecidos, de famílias com maiores aspirações, acabam ir para escolas privadas, enquanto os filhos dos pobres e dos imigrantes se integram na escola pública.

Apesar de beneficiarem de uma lei particularmente generosa, os colégios conseguem ir ainda mais longe: muitos deles, com a complacência das autoridades educativas, cobram diversos pagamentos às famílias por um ensino que, sendo financiado pelo Estado, deveria ser gratuito. Uma prática ilegal com duas vantagens óbvias: aumenta os proventos das instituições e forma uma barreira suplementar de exclusão de alunos sem recursos económicos. Na região de Madrid, onde o favorecimento dos privados parece render votos, chegou-se mesmo ao ponto de ceder gratuitamente terreno público para a construção de colégios em vez de se construírem as escolas públicas necessárias.

Com a previsível vitória da direita em Madrid, tudo indica que as contestadas políticas da senhora Ayuso, na Educação e noutras áreas, serão para continuar.

Professor auxiliar???

Um professor auxiliar do Colégio Maristas de Carcavelos, de 18 anos, foi detido pela Polícia Judiciária e, segundo o “Correio da Manhã”, em causa estão suspeitas de abusos sexuais a dez alunos da instituição onde trabalhou recentemente, os Maristas de Carcavelos, e de um colégio em Cascais.

A notícia surpreende, e não apenas por referir um dos colégios elitistas da Linha de Cascais, daqueles que costumam aparecer na comunicação social quando se fala em rankings e outros sucessos educativos. É que o Expresso e o Correio da Manhã, dois esteios da imprensa do regime, um na pose institucional de semanário de referência, outro do jornalismo ao gosto popular, unem-se para inventar a figura insólita, no ensino não superior português, de “professor auxiliar”. E só o leitor mais atento, antes de passar aos pormenores do caso de assédio sexual aos menores, poderá eventualmente questionar: mas isso existe?

A profissão de professor continua a ser regulamentada pelo Estatuto da Carreira Docente, que é claro ao exigir habilitações científicas e profissionais de nível superior a todos os professores. Em Portugal, ninguém é professor aos 18 anos, mas também ninguém parece importar-se muito com este enxovalhar da profissão, ecos de um tempo em que, na falta de candidatos habilitados, se recrutava qualquer um. No mesmo país em que seria impensável, por exemplo, chamar juiz auxiliar a um funcionário judicial. Ou confundir uma auxiliar de acção médica com uma médica auxiliar.

E, no entanto, não era difícil, fazendo o trabalho de jornalista, apurar e relatar com rigor a verdade dos factos. Como fizeram outros órgãos de informação…

O abusador exercia funções de auxiliar de ação educativa, técnico de informática e audiovisuais, para além de formador de atividades de enriquecimento curricular naqueles estabelecimentos, tendo aproveitado a proximidade e a confiança que mantinha com as crianças para assim consumar os atos ilícitos, os quais decorreram entre os meses de setembro e novembro passados”, refere o comunicado das autoridades.

Deste caso extrai-se, ainda, outra lição. A de que nem os colégios de topo estão imunes ao risco de contratarem gente pouco recomendável para trabalhar com crianças. Interessado em poupar nas contratações para garantir a rentabilidade do seu projecto educativo, o colégio não se mostrou demasiado selectivo nas admissões. E foi assim que o jovem pedófilo, que sentava crianças do sexo masculino ao colo e as tentava seduzir, teve a sua oportunidade de trabalho. Depois de já ter passado por um outro colégio, pelos escuteiros e pela catequese.

Onde é que já vimos disto?

Imagem da conta Twitter do colégio La Asuncion Granada, entretanto removida…

Não será uma medida tão radical como o ataque que se fez, entre nós, aos abusos nos contratos de associação.

Mas aquela que já é conhecida como a Lei Celaá – apelido da ministra espanhola da Educação – mexe com interesses solidamente instalados no país vizinho: prevê algumas restrições nos financiamentos aos colégios privados que prestam serviço público de educação.

A intenção está a levantar fortes protestos, e os patrões do ensino privado não se coíbem sequer de instrumentalizar crianças de cinco anos na defesa dos seus interesses. Como também se viu em Portugal nas manifestações amarelas de há quatro anos atrás.

Em Espanha, a política de financiamento público do ensino privado tem robustecido o que por lá chamam o “ensino concertado”, privando de recursos a escola pública, último reduto de todos os que não têm lugar nos colégios mais procurados.

Ainda assim, o projecto do governo de esquerdas não pretende acabar com os subsídios às escolas privadas. Apenas o pretende restringir a limites aceitáveis. Por exemplo que os colégios que recebem dinheiro público não andem a cobrar, através de estratagemas diversos, pagamentos às famílias – uma forma pouco subtil, não só de nutrir os cofres das instituições, mas também de segregar alunos em função do nível sócio-económico. Que não pratiquem a separação de sexos. Ou que não possam ser cedidos terrenos públicos para a construção de escolas que ficarão, para todos os efeitos, na posse de privados. Ou ainda que, nos critérios de admissão aos colégios, a proximidade da residência familiar ou do local de trabalho dos pais passe a ser um peso maior do que actualmente.

Critérios aparentemente sensatos, mas que esbarram no poderoso lobby dos empresários da educação e sobretudo das instituições religiosas, que através dos colégios projectam a sua influência na sociedade e obtêm uma parte importante do seu financiamento. À medida que se tenta mobilizar a sociedade civil com cenários apocalípticos sobre o futuro do ensino privado, da imposição da educação estatal e do fim da “liberdade de escolha”, vai-se tornando incerto o futuro da “Lei Celaá”…

No melhor colégio… cai o vírus!

Duas professoras do Colégio Rainha Santa Isabel (CRSI), em Coimbra, estão infetadas com o novo coronavírus e 150 alunos do primeiro ciclo cumprem isolamento profilático em casa, informou esta terça-feira a instituição privada de ensino.

Nada contra o colégio religioso de Coimbra que é presença habitual no topo dos rankings de resultados nos exames nacionais.

Faço até questão de destacar a frontalidade e o profissionalismo da directora da instituição, assumindo a situação que se vive e informando a comunidade com toda a clareza e rigor. É assim que se ganha credibilidade, se gera confiança e se combate eficazmente o boato e o alarmismo. Um exemplo para tantas escolas públicas onde parece imperar, nem se percebe bem porquê, a política do sigilo.

Comento o que se está a passar neste colégio da mesma forma que há dias referi o caso de uma pequena escola profissional da região onde já se registam mais de 30 infectados: para demonstrar que não há escolas imunes à covid-19. As escolas não são por natureza, como diz Graça Freitas, espaços “relativamente seguros”. A segurança escolar é um valor precário em tempo de pandemia. Mas pode ser aumentada com medidas mais assertivas e eficazes dos decisores e comportamentos mais prudentes e responsáveis de todos os elementos da comunidade escolar.

ME 55 – Colégios 0

A última decisão judicial conhecida na guerra jurídica devido às restrições no financiamento do Estado data do princípio deste mês. Todos os processos concluídos foram decididos a favor do Ministério da Educação. Ensino particular dá o caso como encerrado: “O mal está feito e não é reversível.”

Quatro anos depois, chega finalmente ao fim a longa guerra jurídica que os colégios que perderam os seus contratos de associação moveram ao Estado. Recorde-se que o anterior ministro, Nuno Crato – o tal que se lamentava de não ter dinheiro para nada – tinha ampliado o conceito de contrato de associação, tornando-o, nalgumas zonas do país, quase equivalente a um cheque-ensino: a família escolhia a escola privada aderente e o Estado pagava essa escolha – ainda que isso implicasse degradar as condições de funcionamento das escolas públicas e duplicar despesa pública.

Com as alterações introduzidas pela então secretária de Estado Alexandra Leitão, apenas em situações de comprovada carência de oferta educativa na rede pública se mantiveram os contratos, mas mesmo assim apenas para os alunos residentes nessas zonas carenciadas. O que, a prazo, ditou o encerramento das escolas que não se conseguiram adaptar à nova realidade. E uma catadupa de 55 processos em tribunal, dos quais nenhum, sabe-se agora, teve provimento.

Nas decisões judiciais, há um princípio importante que os juízes invocaram, perante as pretensões dos donos dos colégios: o de que o Estado contratualiza com privados unicamente para garantir fins de interesse público e apenas enquanto essa necessidade persistir. Não existe para satisfazer ou garantir, com o dinheiro dos contribuintes, os interesses privados.

Na peça do Público a jornalista Clara Viana, noutros tempos uma notória simpatizante da causa dos colégios, fez um esforço de isenção e contenção, analisando o tema de forma objectiva e imparcial e dando voz aos diferentes intervenientes. Não resiste, no entanto, a terminar com uma alfinetada final, dando a última palavra ao representante das escolas privadas…

Como a procura do ensino particular está em alta, o director executivo da Aeep, Queirós e Melo, conclui que o que resultou de tudo isto “é que os pobres não podem frequentar as escolas que cada vez mais estão a ser escolhidas pelos ricos”.

Sobre isto, apenas recordarei que os colégios da moda – elitistas, com lista de espera, reserva do direito de admissão e propinas a condizer – nunca estiveram, nem quereriam estar, abrangidos pelos contratos de associação. Pelo que nem com o mais benevolente dos regimes de acesso à escola privada os “pobres” lhes conseguiriam aceder.

Mais uma campanha contra a escola pública

manif-amarelaA comparação com as escolas privadas deixa as escolas públicas numa posição desconfortável. Nos privados, em geral, houve aulas à distância, o mérito académico não foi dispensado, a reabertura do ensino presencial foi serena e a aposta na aprendizagem dos alunos assume-se prioridade absoluta.

A primeira narrativa dos media sobre a educação em tempos de pandemia garantia-nos – quem se recorda? – que o ensino à distância iria obrigar alunos e professores a trabalhar e a aprender como nunca, operando uma verdadeira revolução educativa e fazendo de todos uns craques em tecnologias de informação.

Poucos meses passados, dá-se uma aparatosa cambalhota no discurso: afinal, ensinar e aprender a sério só se consegue na escola, na interacção directa dos alunos entre si e com os seus professores, sendo o E@D um parco remedeio, que empobrece as aprendizagens e aprofunda as desigualdades no acesso à educação.

Com a reabertura das escolas, o discurso mudou outra vez: os habituais comentadores oficiosos destas coisas, que raramente são professores dos que dão aulas, asseguram-nos agora que o ensino à distância funcionou afinal às mil maravilhas, mas apenas nos colégios. Os alunos das escolas públicas ficaram a ver navios. E por isso teríamos agora os pais preocupados, numa sangria desatada, a querer mudar os filhos para o ensino privado.

Há aqui alguns pontos a clarificar. Antes de mais, os colégios da moda que asseguram ter cada vez mais alunos em lista de espera já se encontravam nessa situação muito antes da pandemia. É uma realidade radica numa política educativa que tem conduzido ao aprofundamento das desigualdades: a exagerada mediatização de rankings, o desinvestimento na escola pública, a inclusão feita por decreto, são apenas algumas das facetas mais notórias. A pandemia apenas terá acentuado uma tendência que vem muito de trás e é consequência das políticas de sucessivos governos.

Depois há que ter em conta as assimetrias sócio-económicas. É evidente que quem gasta anualmente milhares de euros nas propinas de um colégio não terá problemas em proporcionar aos filhos o computador, o tablet, o smartphone e tudo o que mais precisar para se manter conectado com os professores. Nas escolas públicas, boa parte do esforço despendido nas primeiras semanas foi apenas para garantir, numa inédita mobilização de esforços entre escola, famílias, autarquias e instituições locais, que nenhum aluno ficava para trás.

Na minha experiência de professor à distância, a preocupação de não perder alunos, de não deixar nenhum deles para trás, condicionou fortemente o trabalho desenvolvido, que considero bom, sem falsas modéstias. O agrupamento de escolas públicas onde ensino avaliou o E@D num processo amplamente participado por alunos e pais e a grande maioria valorizou muito positivamente a experiência. Muitos pais fizeram questão de agradecer aos professores o esforço, a competência e tudo o que, em condições difíceis, conseguiram fazer pelos seus filhos. Admito que nalguns lados possa não ter corrido tão bem. Mas espanta-me a facilidade com que alguns comentadores e especialistas encartados decretaram já, e em definitivo, a incapacidade das escolas públicas em acompanhar os alunos em ambiente de ensino remoto.

Sublinhe-se, finalmente, a contradição do discurso: porque a experiência do ensino remoto não foi boa, agora que as escolas retomam o presencial é que os pais procuram os colégios, supostamente melhores a ensinar à distância? Há algo aqui em que falha a lógica. Em boa verdade, este discurso só faz sentido enquanto parte da velha campanha contra a escola pública e em favor do ensino privado. Pretende-se insinuar que as escolas privadas preparam melhor os seus alunos, apesar de haver estudos sérios, aprofundados e independentes a demonstrar claramente que os estudantes oriundos do ensino público têm em média melhor desempenho académico no ensino superior do que os provenientes do privado.

Há, no entanto, um ponto em que devo dar razão aos críticos da escola pública: com a sua política de desinvestimento na Educação, atolando as escolas em burocracia e pseudo-reformismo, promovendo uma falsa inclusão e o facilitismo avaliativo para conseguir sucesso estatístico, o governo socialista está a atentar gravemente contra a qualidade da escola pública. Urge reconhecer os erros e arrepiar caminho…

Colégios privados com mais procura

colegio-elite

A procura por colégios privados disparou no arranque deste ano letivo depois de um 2.º e um 3.º períodos atípicos. Desiludidos com a experiência de ensino à distância nas escolas públicas e com receio de um novo confinamento, os pais procuraram o ensino privado. Há colégios com mil alunos em lista de espera sem conseguir dar resposta a tantas inscrições.

Do Norte ao Sul do país, as escolas privadas relatam listas de espera e o aumento da procura, sobretudo no 1.º ciclo e no Secundário. Nalguns casos, por parte de alunos que habitualmente frequentavam o público. A resposta dada pelo ensino privado nas aulas online parece ser a grande motivação.

Parece-me haver algum exagero neste “disparar da procura”. Os colégios de elite referidos no corpo da notícia do JN (apenas disponível a assinantes) sempre tiveram procura superior à oferta, o que lhes permite não só cobrar elevadas propinas como garantir condições de funcionamento que dificilmente estarão ao alcance das escolas públicas.

O que aqui me preocupa mais é outra coisa: a forma como a escola pública se adaptou à situação de pandemia e de ensino à distância e a resposta educativa que deu aos seus alunos. E as enormes diferenças e assimetrias que se verificaram de escola para escola e, por vezes, de professor para professor. Houve professores que deram o litro e escolas que se reinventaram para responder às necessidades dos seus alunos. Mas não adianta tapar o sol com a peneira: também houve quem, demasiado cedo, desistisse de fazer mais do que o mínimo dos mínimos.

Em abono da escola pública e dos seus inconseguimentos não posso, no entanto, deixar de assinalar uma evidência nem sempre lembrada: em muitos lados não se fez mais e melhor em prol dos alunos que queriam continuar a aprender e a melhorar os seus resultados porque a prioridade, e principal preocupação, era com os alunos que se estavam a perder. Porque mais importante do que brilhar nos rankings é não deixar ninguém para trás. Mas esta é uma realidade que os colégios privados, em regra, não têm de enfrentar.

Pensamento do dia

Quanto a casos concretos, não são um nem dois…

Turma de colégio em Braga de quarentena após caso positivo de covid-19

Alunos do 7.º ao 12.º do colégio Saint Julian’s em quarentena