A ILC e os partidos

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Confesso que não pensava voltar tão depressa a escrever sobre a ILC. Largamente ultrapassadas as vinte mil assinaturas necessárias, seria o tempo de formalizar a sua admissão aos trabalhos parlamentares, de promover contactos exploratórios entre os seus promotores e os deputados e, naturalmente, de ser agendada a discussão e votação da iniciativa legislativa tendo em vista a recuperação de todo o tempo de serviço dos professores.

Contudo, verifiquei que alguns partidos políticos, visivelmente pouco à vontade com uma iniciativa de cidadãos que se intromete na rotina parlamentar, não quiseram deixar a poeira assentar. E sentiram a necessidade de vir desde já marcar algum terreno, posicionando-se relativamente ao futuro debate parlamentar.

Foi o caso do PCP, que se demarcou da ILC com uma posição idêntica à da Fenprof: já existem os instrumentos legislativos para condicionar o governo a contar todo o tempo de serviço aos professores, pelo que novas leis se poderiam revelar contraproducentes. Falta apenas cumprir-se a lei que já existe e avançar para as negociações com os sindicatos. Este falso optimismo conduziu, como sabemos, a um bloqueio negocial. E o governo acabou por clarificar, preto no branco, a sua posição:

Em comunicado, o Ministério da Educação (ME) garante que “o compromisso do governo é exatamente o que consta do documento assinado entre as partes a 18 de novembro de 2017”.

Acordo esse onde “ambas as parte aceitam ‘mitigar o impacto do congelamento’ através da definição de uma base negocial, que comporta três variáveis: o tempo, o modo concreto de recuperação e o calendário”, sublinha o ME.

O ministério escreve ainda que foi na base desse compromisso que “negociou de boa-fé com as organizações sindicais e apresentou uma proposta para a primeira variável: o tempo”.

Mas ainda mais surpreendido fiquei com o Alexandre Henriques, o incansável promotor desta iniciativa, a chamar “traidor” ao PCP por causa da posição crítica que este partido assumiu em relação à ILC. Que me pareceu uma reacção exagerada, até porque há uma ideia que devemos ter sempre presente: nenhum dos partidos parlamentares está em condições de defender a recuperação imediata, a 1 de Janeiro de 2019, de todo o tempo de serviço congelado. Se achamos que são “traidores” os que, honestamente, nos dizem isso mesmo, então é meio caminho andado para nos iludirmos com quem nos vai embalando, não com a verdade, mas com o que acham que queremos ouvir.

Todos os professores já se depararam inúmeras vezes com a conversa ensaiada daqueles meninos ou meninas que, em risco de não passarem de ano, nos dizem: se me der negativa, chumbo!… Claro que sabemos, e muitas vezes acabamos a explicar isso mesmo ao aluno em causa, que ninguém fica retido só por causa de uma “negativa”. Da mesma forma, qualquer que seja o destino da ILC, ou de qualquer proposta de lei alternativa que venha a ser apresentada, ele não será decidido por uma só bancada parlamentar.

Deixemos então o PCP, que já explicou as suas reservas, o BE, que mostrou apoio aos professores mas sozinho nada decide e o PS, que nunca poderá aprovar uma lei que contraria por completo a política do governo em matéria de carreiras e remunerações dos professores. E foquemo-nos nas piruetas do partido que, muito provavelmente, terá a palavra decisiva na resolução deste imbróglio. Senhoras e senhores, caso ainda não tenham reparado nele, apresento-vos o PSD:

O PSD, que tem estado ao lado dos sindicatos nas exigências de contagem total do tempo congelado nas progressões de carreira, já começa a admitir que podem haver razões para o Governo não alinhar nessa exigência.

Os parlamentos decidem com base nas maiorias, pelo que a eventual recuperação do tempo de serviço dos professores estará dependente de o PSD se unir aos partidos à esquerda do PS para aprovar algo que favoreça a classe docente. Ou de, pelo contrário, se deixar convencer pelos argumentos do governo.

Olhando para a História recente em busca de analogias, verificamos que a conjuntura política mais semelhante à actual correspondeu ao segundo, e minoritário, governo de Sócrates. Já nessa altura ouvimos muitas juras de amor do PSD aos professores. Mas, na hora da verdade das votações parlamentares, encontraram sempre subterfúgios para frustrar as expectativas da classe docente.

Se alguém anda, já nem digo à procura de traidores, mas de ratos especialistas em roer a corda, o melhor é manter-se atento ao partido das setinhas…

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Do Parlamento – por enquanto – nada de novo

tiago-b-rodrigues.JPGDo debate de urgência sobre Educação hoje realizado no Parlamento, nada de novo. Apenas a confirmação de um extremar de posições, com o Governo e o PS de um lado, a garantir que nunca prometeram aos professores, ou aos seus representantes sindicais, a recuperação integral do tempo de serviço. Do lado oposto, os restantes partidos, por convicção ou oportunismo, a colocarem-se ao lado das exigências dos professores.

Tiago Brandão Rodrigues voltou à ideia de que, após a proposta de recuperação parcial de tempo de serviço que o governo apresentou, teria de haver, da parte dos sindicatos, uma contra-proposta que implicasse a aceitação da perda de parte dos nove anos, quatro meses e dois dias. Um caminho que os sindicatos não podem seguir, pois nunca aceitaram tal coisa, nem os professores lhes perdoariam se o fizessem.

Perante o aparente bloqueio negocial – que já era visível ontem, com a ausência dos responsáveis ministeriais na reunião negocial sobre a organização do próximo ano lectivo – há agora três aspectos relacionados com a luta dos professores que merecem especial atenção:

  • A greve às avaliações, que a partir de segunda-feira reúne o apoio de todos os sindicatos e vai ser uma prova de resistência, nas escolas que já estão em greve há mais de uma semana, e de determinação, em todas as restantes, que estariam à espera da greve “oficial”;
  • As posições dos partidos sobre a ILC, que na próxima semana já deverá ter reunido as assinaturas necessárias para ser agendada para discussão parlamentar;
  • O oportunismo político do PSD, que já no passado se colou às reivindicações dos professores, sem que isso o tenha impedido de, nos momentos decisivos, acabar por colaborar, por omissão, com a política do PS lesiva dos interesses da classe.

Fica uma súmula das posições dos diferentes partidos, a partir da notícia do Público.

“Da minha parte existe o que negociar mas, como acontece no tango, são precisos dois”, afirmou, em resposta a acusações dos deputados dos partidos à esquerda do PS que o acusaram de fazer “chantagem” com os professores.

“Em nenhum momento fiz chantagem. Não faz parte do meu léxico”, repetiu por várias vezes Tiago Brandão Rodrigues.

Com reacções acaloradas das várias bancadas parlamentares e dos sindicalistas que se encontram nas galerias, o ministro frisou que a tutela não é “inflexível, nem autoritária”, que respeita o direito à greve dos professores, mas também “o direito à educação das nossas crianças, que é agora o que está em causa”, disse, numa referência às greves às reuniões de avaliação dos alunos, que estão em curso desde 4 de Junho.

O PS, pela voz do deputado Porfírio Silva, fez um apelo aos sindicatos para “que as negociações sejam retomadas”. “Para isso é necessário que os sindicatos dêem um sinal para que se possa continuar a construir um acordo justo e sustentável”, disse. E qual o tom para estas negociações? “Seriamente, ninguém poderá desvalorizar a relevância” da proposta apresentada pelo Governo quanto ao tempo de serviço a recuperar. “O Governo propôs a recuperação de quase três anos de serviço. Algém pode dizer que isto é nada?”, questionou.  Os sindicatos têm exigido a contabilização dos mais de nove anos prestados durante o congelamento das carreiras.

A deputada do BE, Joana Mortágua, alertou que “de cada vez que o PS ataca os professores a direita tem as portas abertas para a destruição da escola pública, que é a sua agenda”. “O caminho está a estreitar-se”, avisou, insistindo que o PS e o Governo têm de esclarecer se o seu projecto é o do PSD, apresentado pelo seu vice-presidente David Justino em entrevista ao PÚBLICO e RR, de acabar com a actual estrutura da carreira docente.

O deputado do PCP, João Oliveira, exortou o ministro da Educação a “resolver os problemas existentes até ao princípio do próximo ano lectivo”, frisando que a única coisa que o Governo tem a fazer é “negociar com os sindicatos o prazo e o modo” como será feita a reposição remuneratória das progressões resultantes da contagem do tempo de serviço.

“O Orçamento do Estado determina que todo o tempo de serviço é contado”, disse, em resposta ao PS que levantou dúvidas de que seja mesmo isso que está lá expresso, uma vez que na lei do Orçamento do Estado não se encontra referido que o tempo a contabilizar sejam os mais de nove anos exigidos pelos professores.

Heloísa Apolónio, deputada dos Verdes, também lembrou a lei do Orçamento do Estado e a resolução aprovada depois apenas com a abstenção do PSD e CDS, onde se recomendava ao Governo que todo esse tempo fosse contado. “O problema do Governo, do ministro, já não é a sua relação com os sindicatos, mas sim com a Assembleia da República”, disse.

Das bancadas da direita, Margarida Mano do PSD e Ana Rita Bessa do CDS acusaram os partidos que apoiam o Governo no Parlamento (BE, PCP e Verdes) de aceitarem “serem enganados” e com isso “terem enganado os professores”. 

Ana Rita Bessa disse que a solução terá de passar pelo Parlamento porque acarretará “um plano que implica compromissos para o futuro”. A este respeito, exigiu que o  Governo apresente “um plano transparente para o descongelamento de todas as careiras da administração pública, incluindo a carreira docente” e que clarifique “tudo o que terá de ser negociado: tempo, carreira, salários, avaliação e aposentações”.

Luta dos professores regressa ao Parlamento

tiagobrodriguesAdivinhava-se que a recuperação negociada do tempo de serviço congelado aos professores não iria ser de resolução fácil. Pagar o que é devido aos professores significa acomodar, em futuros orçamentos de Estado, mais despesa pública no sector da Educação, o que obviamente não faz parte das prioridades deste governo.

Assim, o adiamento sistemático de uma negociação difícil e, quando a luta de professores fez com que deixasse de ser possível adiar mais, a intransigência negocial revelada pelo governo, criaram um bloqueio difícil de ultrapassar. Que a actual greve às avaliações vem, apenas, sublinhar.

Neste contexto, a chave para a resolução do problema das progressões dos professores poderá estar no Parlamento, onde foram já aprovados diplomas que remetem para o Governo a responsabilidade de encontrar uma solução justa para a recomposição da carreira dos professores. Entre essas iniciativas, destaca-se a Resolução nº 1/2018 que, sem votos contra, o voto a favor de todos os partidos à esquerda e a abstenção do PSD e do CDS, recomenda ao governo que negocie com os sindicatos uma solução que permita, ainda que diferida no tempo, a recuperação integral do tempo de serviço.

Perante a incapacidade – ou falta de vontade política, o que vai dar ao mesmo – do Governo, fará todo o sentido o regresso da discussão ao Parlamento, para que este legisle no sentido da concretização do que a maioria dos deputados aprovou há seis meses atrás.

Um primeiro passo nesse sentido foi a iniciativa legislativa de cidadãos que propõe a recuperação do tempo de serviço dos professores. Quando faltam pouco mais de mil assinaturas para que a ILC que atinja os vinte mil subscritores que tornam a sua apreciação parlamentar obrigatória, percebe-se que esta iniciativa não foi um esforço em vão: dentro de alguns dias tornar-se-á uma proposta de lei, perante a qual os deputados de todos os partidos terão de tomar uma posição.

Não vale a pena alimentar expectativas irrealistas em relação à ILC – nenhum partido, nem mesmo o PCP ou o Bloco, defende a recuperação total do tempo de serviço já em 2019 nos moldes ali propostos. Ainda assim, a discussão abrirá espaço para a apresentação de outras propostas, num processo que, não estando isento de riscos para os professores, se espera que possa conduzir a melhores resultados do que os cerca de 34 meses de serviço que o governo aceita devolver.

E até a Fenprof, que criticou publicamente a ILC quando esta surgiu, apostando tudo nas negociações com o Governo, parece agora dar razão aos que defendem que a resolução do conflito, que se arrasta há demasiado tempo, poderá mesmo estar no Parlamento,

Ainda sem sinais por parte do Governo no que respeita a novas negociações sobre a recuperação do tempo de serviço, o  líder da Federação Nacional de Professores (Fenprof), Mário Nogueira, adiantou nesta sexta-feira que existe “um compromisso da maioria dos deputados de acompanharem as reivindicações dos professores” e que, por isso, “institucionalmente os professores poderão tentar resolver alguns dos seus problemas por via do Parlamento”.

Segundo Mário Nogueira, o compromisso da maioria dos deputados para com a causa dos docentes esteve patente na audição da Fenprof pela comissão parlamentar da Educação, nesta quarta-feira, e abrange os grupos parlamentares do BE, PCP, PSD e CDS. Embora estes últimos, segundo lembrou, tenham até agora optado por abster-se por considerarem que o Governo ainda não disponibilizou os dados que permitam saber, verdadeiramente, qual o impacto orçamental da recuperação do tempo de serviço.

No imediato e em concreto, o que se sabe para já é que Tiago Brandão Rodrigues estará amanhã no Parlamento. A sua presença foi solicitada pelo BE, para participar num debate sobre a carreira dos professores agendado pelo PCP. Tomará o ministro a iniciativa, levará algum trunfo na manga que determine o rumo da sessão parlamentar, ou irá uma vez mais mostrar-se, como o vemos quase sempre, a leste do paraíso e a reboque dos acontecimentos?…

Para que serve a avaliação de professores?

super-prof.gifNão é uma ideia muito popular entre os professores, sobretudo entre os que se acham melhores profissionais do que os restantes.

Também não faz parte da cultura organizacional de muitas escolas, onde aos mais graduados se permite que escolham as turmas e os níveis a leccionar.

Mas é uma verdade evidente em si mesma: assumindo-se que a avaliação de professores é feita para escolher os “melhores”, então é a estes que deveriam ser confiadas, a partir daí, as turmas e os alunos mais difíceis e desafiantes.

O relatório recente da OCDE identifica o problema, que naturalmente não deixará de ser explorado nos media, como sempre que sucede quando, entre nós, a carreira e as progressões dos professores surgem na ordem do dia.

“Qualquer política de professores que vise lidar com a desvantagem do estudante deve-se esforçar para alocar professores de qualidade, e não apenas mais professores, para alunos carentes”, defende a OCDE.

Os próprios diretores reconhecem que a falta de docentes qualificados é “uma barreira importante para superar as desvantagens e melhorar a aprendizagem”.

Portugal é apontado como um dos países onde as escolas favorecidas empregam “significativamente mais professores seniores do que as escolas mais carenciadas”, surgindo assim ao lado de países como a Espanha, Austrália, Itália, República Dominicana e Estados Unidos da América.

Para conseguir ter os mais talentosos a trabalhar nas escolas e salas de aulas mais difíceis é preciso dar condições especiais que atraiam estes profissionais, sublinham os investigadores.

“As condições de trabalho e o salário têm de ser refletidos nos casos em que as tarefas são mais difíceis, porque assim (os diretores) terão mais capacidade para atrair os professores mais talentosos para as classes mais desafiantes”, defende a OCDE.

Pessoalmente, sempre me desagradou este discurso maniqueísta que divide professores, escolas, turmas e alunos em bons e maus. Um discurso que não nos ajuda a entender a realidade, muito menos a agir sobre ela.

Seria cómodo se assim fosse, mas a verdade é que não é a qualidade dos professores o factor determinante do insucesso escolar, mas sim a pobreza cultural e material em que vivem certas comunidades. É o agravamento das desigualdades, na escola e na sociedade, que deve ser contestado e combatido. E isto faz-se, não com mais pedagogia, mas sim assumindo opções de política económica e social diferentes das que têm sido seguidas.

Mais importante do que encaminhar professores talentosos para escolas recheadas de alunos problemáticos é combater a exclusão e os guetos educativos, promovendo a heterogeneidade e uma escola pública verdadeiramente inclusiva.

E em vez de tentar criar uma elite de super-professores, capacitados para resolver todos os problemas escolares, mais valeria apostar na formação, motivação e valorização profissional de todos os professores. Porque, e aqui está outra verdade evidente, todos os alunos têm direito a ter bons professores.

Rever a carreira docente, ou pagar o que devem?

escaloes-carreira.pngA convicção de que não vai ser possível sair do impasse sobre a contagem do tempo de carreiras dos professores sem lançar uma discussão sobre a necessidade de alterar as regras das progressões na carreira docente está a ganhar cada vez mais força no Governo socialista. Na ala mais moderada, mas também entre a chamada ala mais à esquerda do PS, é já amplamente reconhecido o argumento de que uma progressão em apenas quatro anos é “insustentável” do ponto de vista orçamental, na expressão ouvida esta semana pelo PÚBLICO de uma fonte do núcleo mais político dos socialistas.

Com um problema premente em mãos para resolver (o de como ultrapassar o bloqueio negocial desta semana, a tempo do Orçamento), há quem admita que a sensibilidade do tema faça com que este se arraste até às legislativas, mas entenda que, nesse contexto, o PS não deve fugir a apresentar uma proposta concreta de revisão do estatuto da carreira docente no programa eleitoral para 2019. “Chegará o tempo em que os professores têm de decidir se querem uma progressão na carreira real ou uma progressão ideal que é irrealista”.

Não é nada que se compare à opereta mediática do “Spórtem”, mas a verdade é que as reivindicações e os protestos dos professores voltaram à ordem do dia. E, quando assim sucede, entram também ao serviço os costumeiros fazedores de opinião: aos nossos especialistas instantâneos em Educação interessa condicionar a discussão e colocá-la no terreno armadilhado onde o centrão político gosta de a debater, subordinando-a a duas ideias-chave.

Primeira, os professores são muitos, ganham demasiado e as suas inúmeras e “automáticas” progressões representam um custo incomportável que tem, de alguma forma, de ser travado.

Segunda, os professores não são, não querem ser, avaliados. E é na ausência de avaliação que todos, “bons e maus”, progridem indistintamente na carreira, os que merecem e os que não merecem. O que nos leva ao ponto inicial, o do “não há dinheiro”.

A questão da avaliação do desempenho docente é antiga, sobre ela já escrevi inúmeras vezes e merece ser tratada em separado. Centremo-nos, por isso, nas progressões dos escalões e nos salários, por muitos considerados excessivos, dos professores.

Ao contrário do que se tenta fazer crer, na generalidade dos países desenvolvidos a carreira dos professores está concebida de forma a que todos possam chegar ao topo. Não tem, em geral, uma duração tão longa – 34 anos, no mínimo – e tantos entraves à progressão. Também não há uma diferença salarial tão acentuada entre a base e o topo, o que não faz sentido se pensarmos que o conteúdo funcional da profissão é sensivelmente o mesmo ao longo de toda a carreira.

Nesta perspectiva, a revisão do estatuto e da carreira dos professores terá de ser, mais tarde ou mais cedo, equacionada. O que não me parece aceitável é que sejam questões economicistas – neste caso a necessidade pura e simples de conter a massa salarial do grupo profissional mais numeroso da função pública – a comandar esta discussão.

E há aqui uma distinção que me parece essencial. Uma coisa é a carreira que, bem ou mal, os actuais professores percorreram, enfrentando congelamentos, afunilamentos e outros constrangimentos à progressão, em nome da falta de dinheiro. Outra coisa poderá ser a futura carreira dos profissionais recém-chegados ou dos que venham a aceder, nos próximos anos, à profissão.

Quem esteve quase dez anos congelado na carreira para que o país pagasse dívidas e desfalques que outros fizeram, quem enfrentou décadas de precariedade até conseguir ingressar nos quadros, quem viu ser sucessivamente adiada a idade da aposentação e aumentadas as tarefas e exigências profissionais, quem passou por isto tudo tem agora direito a uma recomposição da carreira que, não lhe restituindo tudo o que perdeu na última década, pelo menos lhe devolva o que, de direito, lhe pertence: o tempo de serviço efectivamente prestado e não considerado para efeitos de valorização profissional.

Já em relação aos jovens professores, actualmente muito poucos, mas cujo número irá aumentar substancialmente a médio prazo, creio ser possível e até desejável equacionar uma estrutura diferente de carreira: mais curta e com menos escalões. E em que uma eventual, e devidamente negociada, redução salarial dos escalões de topo fosse devidamente compensada com melhores salários e outros benefícios na entrada e nos escalões iniciais. Não para poupar com os professores, como pretendem todos os governos, mas para tornar a sua carreira mais justa, equitativa e, sobretudo, atractiva.

Pensar a profissão de professor, a médio e longo prazo, é pensar na necessidade de atrair e manter bons profissionais numa profissão que será sempre exigente e desafiante. O que, obviamente, não se consegue com precariedade extrema, salários de miséria e carreiras congeladas. Haverá discernimento suficiente para o compreender?

Para relembrar a quem anda esquecido

A Resolução nº 1/2018 recomenda mesmo ao governo a contagem de todo o tempo de serviço nas carreiras que dependem fundamentalmente desse tempo para a progressão. Como é o caso da carreira docente.

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Ainda estive para sublinhar a frase, mas o texto é curto e a mensagem é clara: o que foi aprovado pela maioria dos deputados, incluindo os do PS, não permite segundas interpretações.

E se ainda houver dúvidas, é clicar na imagem e confirmar no site oficial do Diário da República.

“O Governo está a ser uma desilusão para os professores”

antonio-costa.JPGDepois de Tiago Brandão Rodrigues ter ontem assumido a indisponibilidade do governo salvador de bancos para aumentar a despesa pública com a recuperação do tempo de serviço dos professores, coube hoje ao primeiro-ministro expor-se às críticas das bancadas parlamentares nesta e noutras matérias polémicas.

Afinal, ficamos a saber que negociar “o tempo e o modo” da recuperação tem, para o governo, uma leitura duvidosa: querem basear a discussão na quantidade de tempo a recuperar, e enquanto o valor sugerido pelo governo não for aceite pelos sindicatos – nem pode sê-lo, nos moldes em que foi feita a proposta – recusam-se a avançar na negociação.

Como é evidente, só com uma luta dura e decidida podem os professores conseguir mais do que os menos de três anos que o governo se propõe recuperar. E essa luta não pode mais ser adiada: é já amanhã que começam, na maioria das escolas, as reuniões de avaliação que os professores, através da greve, devem inviabilizar.

A polémica do Governo com os professores dominou, como se esperava, o debate parlamentar desta tarde com o primeiro-ministro.

600 milhões. Isto seria quanto custaria ao Orçamento do Estado consignar as propostas sindicais para contagem do tempo “total” de serviço aos professores, agora que as carreiras começam a ser descongeladas.

O número foi avançado pelo primeiro-ministro, muito apertado à esquerda por causa desta controvérsia – mas a que o PSD e o CDS também se associaram. “O Governo está a ser uma desilusão para os professores”, sintetizou a deputada do PEV Heloísa Apolónia, uma das várias vozes a dizer no debate que o Governo está a fazer “chantagem” sobre os docentes.

Já para António Costa o que está em causa é a “intransigência” dos sindicatos em ceder nos números que pôs em cima da mesa. Segundo disse, os sindicatos queriam que fossem contados nove anos, 4 meses e dois dias na atualização das carreiras; já o Governo propôs 2 anos, nove meses e 18 dias. E é esse tempo que mantém na mesa das negociações, conforme garantiu o chefe do Governo à deputada do CDS Assunção Cristas.