Como será a escola em Setembro

covid-escola.JPGA porta está bem aberta para que o #EstudoEmCasa possa regressar em Setembro: a RTP diz que está “absolutamente disponível” e à espera de indicações e no Ministério da Educação estão a preparar-se os três cenários para o próximo ano lectivo, em que dois terão que passar pela transmissão de conteúdos educativos através da nova telescola. Tendo em conta que o ministro Tiago Brandão Rodrigues já admitiu que o objectivo do ministério é “poder continuar a ter soluções através da televisão que sejam universais, disponíveis logo a partir do início do ano”, é praticamente certo que a estação pública vai ser chamada de novo para ceder o seu ecrã.

Diversos cenários que têm sido projectados para o novo ano lectivo: aulas presenciais para todos ou só para os mais novos; regime de turnos e horários alargados para reduzir a concentração dos alunos; b-learning, com algumas aulas na escola e as restantes em modo não presencial; regresso da telescola. Contudo, as indicações do SE Costa aos directores têm sido bem mais simples e taxativas.

Assumindo-se cada vez mais como o verdadeiro ministro, em vez do outro que só o é nominalmente, tem exortado os directores a porem de parte as ideias mirabolantes que alguns têm andado a projectar. O que lhes diz é que esqueçam os desdobramentos de turmas, os regimes mistos, os reforços substanciais em meios materiais e humanos. A escola é para abrir em Setembro como sempre se fez, com as turmas repletas de alunos e  horários lectivos para cumprir integralmente, usando as mesmas salas, mesas e cadeiras que sempre se usaram. E recorrendo, naturalmente, aos mesmos professores.

Se correr mal – e será apenas uma questão de tempo até que apareçam os primeiros casos positivos à covid-19 – as escolas fecharão com a mesma facilidade com que abriram. Para reabrirem quando os riscos de contaminação tiverem desaparecido.

Neste modelo de escola intermitente, as maiores incógnitas residem na dimensão que assumirá a pandemia dentro de dois meses. Pois quanto a medidas efectivas para impedir os contágios, elas serão praticamente nulas: a máscara é a única protecção obrigatória, mas a sua eficácia é reduzida quando o distanciamento deixa de ser respeitado. E como será possível impedir que um aluno infectado contagie o colega de carteira? Ou que se contaminem uns aos outros, por exemplo, nos refeitórios?…

À cautela, o ME vai mantendo em prontidão a equipa do EstudoEmCasa, e promete mais computadores para as escolas, de forma a poderem ser emprestados aos alunos se houver novo confinamento.

Da muita parra que embeleza os arrazoados ministeriais, extrai-se assim pouca e fraca uva. Em vez de planos ambiciosos para corresponder ao desafio de ensinar e aprender, com eficácia, mesmo em tempo de pandemia, o ME restringe-se ao básico, admitindo apenas dois cenários:

  • Um plano A, com todos os alunos e professores nas escolas, a tempo inteiro, com se nada se passasse;
  • O plano B, com toda a gente metida em casa, a replicar um modelo de ensino a distância que já demonstrou as suas fragilidades e limitações.

Em bom português, os planos do Governo para o regresso às aulas, cingem-se afinal de contas a uma ideia muito simples: tudo ao molho e fé em Deus!…

Exame online feito pelo explicador

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A partir de maio, na mesma altura em que as instituições começaram a regressar lentamente ao ritmo do ensino presencial, com aval para reabrir portas às aulas práticas, “não sendo todos os dias, praticamente todos os dias me contactaram para isto”. Sempre por telemóvel, através de uma chamada ou de uma mensagem, inicialmente apenas para estudar o terreno. “Perguntavam se dava explicações, mas quando começava a explicar melhor em que consistia, eles caíam em si e diziam mesmo: ‘Não era bem explicações que queria, mas ter um professor a ajudar-me a resolver o teste na hora’.” Quem o conta é Maxime Ventura, 34 anos, dono de um centro de explicações no centro da cidade do Porto.

[…] “Muitas faculdades estão a fazer os exames online e não custa nada ter alguém ao lado que diga para fazer de uma determinada maneira. Temos um professor que tem recebido uma quantidade de propostas inacreditável”, conta. Trata-se de Hélder Souza, professor universitário, que não tem dúvidas de que o fenómeno esteja a alastrar: “Se aquilo de que tenho conhecimento for uma amostra estatística representativa, então estamos perante um fenómeno de grande escala.”

Como responsável pelo centro, foram já várias as histórias que Leonor teve a oportunidade de ouvir. Uma mãe “muito aflita, porque o filho tinha reprovado, foi muito honesto e fez o que sabia, mas os colegas que tiveram ajuda de explicadores conseguiram passar”. Outra, uma aluna de Direito, que “disse pagar o que fosse preciso” para que fizessem o exame por si.

Há um moderado cepticismo que não consigo evitar quando ouço colegas a afirmar, convencidos, que conseguem avaliar os conhecimentos dos alunos, em regime não presencial, com o mesmo rigor e isenção com que o fariam na sala de aula.

A verdade é que, mesmo no básico e no secundário, abundam os trabalhos copiados ou feitos por terceiros. Na faculdade, onde as exigências são maiores, fazer batota no teste online parece ter-se tornado, para alguns alunos, uma tentação irresistível. Como a notícia do DN irrefutavelmente documenta.

Contudo, embora a dimensão e a gravidade da fraude sejam maiores no caso do ensino universitário, não haverá nenhum nível de ensino que esteja imune ao fenómeno. Haverá algum professor que tenha trabalhado remotamente durante o confinamento e não se tenha surpreendido, uma e outra vez, com as competências e o nível de conhecimentos subitamente revelados por um ou outro aluno?…

Esta fome de boas notas, por parte de alunos que, em circunstâncias normais, não passariam da mediania, e que com o confinamento terão sentido ainda mais dificuldades em estudar e acompanhar as matérias, junta-se à vontade de comer de explicadores que,  em consequência do encerramento dos centros de estudos, perderam a sua principal, e nalguns casos exclusiva, fonte de rendimentos.

Como pano de fundo deste fenómeno, temos a realidade de uma geração inteira de profissionais da Educação que poderiam estar a leccionar nas escolas do país, mas a quem essa oportunidade, para a qual se prepararam, nunca lhes foi proporcionada. Os cortes orçamentais e o desinvestimento no sector, obra de sucessivos governos, tiveram o efeito prático de lhes fechar o acesso à profissão. E se muitos jovens profissionalizados para a docência acabaram por enveredar por outras profissões, houve sempre aqueles que não desistiram de manter a ligação ao ensino, optando pelo trabalho, quase sempre precário e mal pago, das explicações.

Um mundo que é fruto também das insuficiências da escola pública – que rejeita os jovens professores, ao mesmo tempo que alimenta o mercado das explicações de que muitos sobrevivem. Sem com isto querer desculpar as infracções éticas e legais de quem prevarica, noto que estão criadas as condições para que o cliente, que paga, mande muito mais do que deveria…

Já eles estão preparados para falar sobre tudo

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Seja pela idade avançada, seja pela falta de preparação técnica, os professores não estão preparados para ensinar à distância. Esta é uma das conclusões de um estudo realizado pela Universidade Nova de Lisboa. O digital pode trazer muitas oportunidades ao ensino, mas apenas como complemento, e escolas precisam de preparação para que a igualdade entre alunos seja uma realidade.

Estou curioso para saber como correu a experiência do ensino online nas universidades – também haverá “estudos” a respeito?… – onde, como sabemos, a generalidade dos professores são jovens e estão preparados para tudo. E quanto a pedagogia, métodos de ensino e de avaliação inovadores, ui, ui!…

O resto é mais do mesmo, um friso de comentadores a falar do que não sabe, gente que nunca deu aulas, ou fugiu cedo do desconforto da sala de aula, a opinar sobre o trabalho dos professores e dos alunos. Claro que o resultado se resume a um debitar de lugares-comuns, entremeado com a desconfiança e o preconceito contra os professores do ensino “inferior”.

Assinale-se ainda como o espesso semanário do regime, que resguarda quase todos os seus conteúdos por detrás da paywall, vai deixando estas iniciativas, com evidente cunho doutrinário e ideológico, em acesso livre.

E dizer mais do que isto é fazer publicidade a iniciativas que a desmerecem.

A moda do pisca-pisca

pisca-pisca.gifAntecipando cenários que estarão a ser criados para gerir o regresso às aulas em tempos ainda de pandemia, Rui Cardoso evoca a luz intermitente dos pirilampos para explicar o modelo de uma escola a funcionar em modo intermitente: presencial enquanto alunos e professores permanecem sãos, remota sempre que surgem casos positivos e turmas inteiras são mandadas para casa cumprir a quarentena.

Em vez de escola-pirilampo, eu diria antes que a moda do pisca-pisca, esse clássico da música pimba nacional, define melhor a política sem rumo que anda a ser seguida no combate ao covid-19, depois de já termos sido vistos como um caso modelar, em termos europeus, na contenção da pandemia. Uma desorientação que se reflecte, também, na Educação.

Este modelo é bastante simples. As escolas abrem o ano letivo de 14 a 17 de setembro normalmente, com todos os alunos, professores,  assistentes operacionais e técnicos. A DGS emitirá as medidas a respeitar dentro das escolas, circulação de pessoas, entradas e saídas, ajuntamentos no espaço exterior, uso obrigatório de máscara, higienização de mãos, turnos de almoço e por aí a fora… Mas nas salas de aula tudo funcionará como estamos habituados há tantos anos. O uso de máscaras e mais algumas medidas de pormenor terão de ser respeitadas, fora isso lá estaremos a dar o corpo às balas.

Até agora ainda não expliquei o nome “Pirilampo”, é o que vou fazer agora. Os “pirilampos têm uma luz intermitente e é assim que a escola vai funcionar, intermitentemente. Vamos à explicação prática. Numa escola, numa turma surge um caso positivo por COVID-19, essa turma é enviada para casa para cumprir o período de quarentena passando a Ensino Remoto de Emergência durante esse período. A restante comunidade escolar continua a frequentar, normalmente, a escola depois da mesma ser devidamente higienizada. No caso de surgirem vários casos de COVID-19, em várias turmas, a escola encerra para a devida higienização, os alunos e professores entram em “modo” de Ensino Remoto de Emergência pelo período de quarentena estipulado. neste segundo caso, os assistentes operacionais e técnicos entram em trabalho por turnos reduzidos podendo, nos casos possíveis, passar a teletrabalho. Quando o período de quarentena acabar, os elementos sãos da comunidade escolar regressam à escola, enquanto os que terão de permanecer confinados continuam em ERE.

O desnorte é bem visível quando políticos que não sabem estar à altura dos cargos que ocupam sacodem a água do capote, procurando bodes expiatórios que possam eximir os verdadeiros responsáveis a assumir as suas responsabilidades. Mesmo para quem é assumidamente leigo na matéria, há coisas óbvias que já deveriam estar feitas – reforçar transportes, fiscalizar condições de trabalho, testar grupos de risco, isolar eficazmente os infectados – mas que se continuam inexplicavelmente a adiar.

Se nada de substancial alterar nas actuais políticas e no laxismo que se está a instalar no combate à pandemia, a reabertura das escolas, já em Setembro, terá tudo para correr mal.

“Fiz muitos trabalhos, mas não aprendi nada!”

MadeupSaltyGarpike-small.gifDepois de ter ouvido, um por um, os mais de 150 alunos a quem dei aulas, primeiro presenciais, depois remotamente, foi esta confissão sincera e espontânea, de um dos menos dotados para os estudos, que mais me impressionou.

Qualquer reflexão sobre a aprendizagem não presencial deve ter presente esta realidade insofismável: somos seres sociais e, de um modo geral, aprendemos mais e melhor quando estamos com outras pessoas: os pais, os professores, os colegas de escola ou profissão, os amigos. Um sistema educativo confinado à casa de cada um e às limitadas interacções que as tecnologias nos possibilitam pode admitir-se como alternativa de recurso. Mas será sempre uma solução empobrecedora, até para os alunos mais motivados, autónomos e organizados. Para os restantes, os que executam sem aprender e os que simplesmente desligam, resulta ainda pior. Fomentando, como já muitas vezes se disse, a desigualdade no acesso à Educação.

Há outra ideia, subjacente à afirmação que titula este post, que convém salientar: na impossibilidade de ensinar, ou de mobilizar ferramentas eficazes de aprendizagem adequadas aos seus alunos, muitos professores optaram por mandar fazer “trabalhos”. E em vez das pomposas designações que se foram inventando, como o Plano de Trabalho, o E@D ou o #EstudoEmCasa, quantos alunos nossos não chamaram à realização das tarefas solicitadas, simplesmente, fazer o trabalho de casa? Quantos milhares de emails não terão recebido os professores, nas últimas semanas, dizendo algo do género: “Stor, envio o TPC”?…

Contrariando o mito construtivista, atrever-me-ia a dizer que, em boa verdade, não é a “fazer trabalhos” que se aprende. Eles podem servir para consolidar e aplicar conhecimentos previamente adquiridos e desenvolver diversas competências. Mas se as aprendizagens de base não forem feitas, o “trabalho” torna-se uma tarefa puramente mecânica. Que com a orientação do professor ou a ajuda de outros adultos, até pode sair bem feita. Mas será que de facto se aprendeu alguma coisa? Com o brutal investimento de tempo e energias despendido no ensino remoto, e o seu incorrigível optimismo, muitos professores gostam de acreditar que sim. Mas são os próprios alunos que, tantas vezes, nos fazem cair na dura realidade…

Equívocos da E@D

EADO ensino remoto de emergência não poderia correr bem, nem em Portugal nem em parte nenhuma do mundo, por razões biológicas básicas: a atenção, a memória e a disciplina intelectual de uma criança têm limites que ninguém pode contornar. Só por distração se poderia acreditar que o ensino remoto de emergência iria “cumprir os programas”, sobretudo com as crianças mais novas.  Acresce que a autonomia para a aprendizagem da maioria das crianças portuguesas, que não é incentivada nem pelas escolas nem pelas famílias, as colocava em desvantagem para uma modalidade de aprendizagem que assenta, acima de tudo, na autonomia.

António Dias Figueiredo reflecte, no sinal Aberto, um interessante site que se auto-define como jornalismo de interesse público, sobre o que chama equívocos da educação à distância. A prosa, algo extensa, faz uma análise aprofundada das vicissitudes deste ensino de emergência aplicado remotamente. E toca em diversos pontos que outras leituras, mais superficiais, tendem a ignorar.

Por exemplo, que o online tem limitações próprias e nunca substituirá, nem na aprendizagem nem na vida, o contacto presencial. Mas foi o online que, no auge da pandemia, nos manteve ligados uns aos outros e ao mundo, a começar pelos seus mais assanhados críticos.

Na altura certa não se ouviu, a esses mesmos críticos da escola online, qualquer ideia ou sugestão de como deveria a escola reinventar-se durante o confinamento. E que, mais do que as tibiezas e hesitações do ME, foi a iniciativa dos professores, que não baixaram os braços, a dar corpo a um ensino de emergência que, se não deu para “cumprir os programas”, manteve um importante elo de ligação entre os alunos e a escola e permitiu prosseguir, com as inevitáveis limitações, algumas aprendizagens.

O autor revela-se consciente das limitações do ensino remoto: é adequado essencialmente para jovens e adultos com elevados níveis de disciplina e autonomia, não se adapta a aprendizagens práticas e experimentais, exige uma sofisticação tecnológica que requer tempo de preparação e recursos humanos e financeiros que não estão ao alcance de todas as instituições. Mostra-se no entanto adepto do chamado b-learning: um ensino presencial complementado por uma componente online.

A argumentação é pertinente: queiramos ou não, estamos imersos no mundo digital. É recorrendo aos smartphones e aos computadores que tratamos de uma quantidade crescente de assuntos do nosso dia a dia, que contactamos com outras pessoas, que sabemos o que se passa no país e no mundo. Tanto os destinatários como os emissores da informação que circula através dos nossos aparelhos estão necessariamente distantes de nós. Ora se a distância já integra as nossas vidas, a escola, tal como a universidade, devam desenvolver formas de se prolongar, também, nessa distância.

Tendendo a concordar com o autor e com a perspectiva de um online com conta, peso e medida, deixo ainda assim uma ressalva: é que esta é uma porta, que pode abrir passagem a interesses poderosos e tentações perigosas. E não são apenas os vendedores de hardware e software que se perfilam para os prometedores negócios da educação do século XXI, oferecendo as suas soluções chave-na-mão para aprendizagens automáticas à distância de um clique. Para políticos que vêem a educação como despesa, há enormes poupanças que podem ser feitas mantendo os alunos mais tempo em casa, em vez de virem para a escola consumir os seus parcos recursos. E recorrendo aos computadores para substituir professores…

Os computadores resolvem tudo?

many  laptop on white background. 3d rendering.…quem ler o Orçamento verá que o quadro plurianual de programação orçamental 2020-2023, acrescentado noutras rubricas, mantém inalterado o valor para o ensino básico e secundário e administração escolar em 5708 milhões, e nem mais um euro.

Segundo o Orçamento Suplementar, o próximo ano letivo será igual a todos os anteriores ou, pior, igual aos últimos meses. Ambas as ideias são trágicas. A primeira, porque não é concretizável face à pandemia e não fazer nada só agravará alguns problemas estruturais da escola pública. A segunda, porque se baseia na perigosa ilusão de que o sucesso do ensino à distância depende de equipar os alunos, os docentes e as escolas.

Sem equívocos, o programa de modernização digital é uma boa notícia que só peca por tardia, mas não resolve o problema essencial da educação em 2020/2021. As limitações do contacto educativo à distância não decorrem do acesso a computadores, mas do afastamento das crianças e jovens em relação à escola. Esse afastamento tem consequências pedagógicas e sociais e prejudica até direitos fundamentais das crianças e dos jovens.

É dado adquirido que o ensino à distância agrava as desigualdades. A Fenprof realizou um inquérito a 3500 docentes e 93,5% consideraram que o ensino à distância veio agravar as desigualdades entre os alunos. Particularmente preocupante é a ideia de que, em meados de maio, mais de metade (54,8%) dos professores continuava sem conseguir contactar os seus alunos, mas 70,5% estavam a lecionar novos conteúdos. Há dimensões da escola e da educação pré-escolar que não são substituíveis pelo ensino à distância, mesmo que ele se realizasse em condições pedagógicas perfeitas, o que está muito longe de se verificar. A socialização com os pares e com os docentes, dentro e fora das salas de aula, é um contributo insubstituível no percurso de desenvolvimento das crianças e dos jovens. O confinamento em casa impede essa socialização e prejudica de forma particular as crianças e os alunos com necessidades educativas especiais.

Os danos do afastamento serão tão mais permanentes quanto o tempo que ele durar. O que devia estar no centro do debate não são apenas os instrumentos do ensino à distância, mas as condições para o regresso às escolas em tempos de pandemia. Há muitos fatores que têm de ser tidos em conta, mas há um ao qual não é possível escapar: a diminuição do número de alunos por turma e o acompanhamento dos alunos que ficaram para trás durante este período. Vai ser preciso contratar mais professores, mais assistentes operacionais, mais técnicos especializados.

Sobre isto, nem uma palavra no Orçamento Suplementar…

O artigo de opinião de Joana Mortágua coloca o dedo na ferida. A análise pertinente merece ser lida na totalidade, mas a ideia essencial fica bem expressa neste excerto: para combater os efeitos nefastos da pandemia é necessário investir na Educação, e não apenas na compra de computadores. Respondendo à pergunta que intitula o post, não tenho dúvidas em responder pela negativa: se não forem acompanhados por outro tipo de medidas, os computadores não resolverão coisa alguma.

As dúvidas que pudesse ter a este respeito esclareci-as no decurso deste longo terceiro período de ensino remoto. Um esforço conjunto do meu agrupamento, da autarquia e de outras entidades locais permitiu fornecer computadores, tablets e ligações à internet a quase todos os alunos que não dispunham destes meios. No entanto, se para alguns isto resolveu o seu principal problema, para outros pouco ou nada mudou: a verdadeira dificuldade está em não serem capazes ou não terem motivação para estudar autonomamente, sem a presença física de um professor ou de um adulto responsável.

Ao fim de três meses de confinamento, ficou claro que crianças e jovens precisam de ir à escola, de conviver e aprender uns com os outros e com os seus professores. Mas enquanto a pandemia não estiver neutralizada, não podem fazê-lo em turmas de 28 alunos, nem usar os espaços escolares como o faziam até aqui. Há necessidade de mobilizar mais recursos – sobretudo recursos humanos, que serão sempre o factor decisivo na organização escolar -, que custam dinheiro. E, a esse respeito, no Orçamento Suplementar, nem uma palavra.

A deputada bloquista conclui, e é difícil não estar de acordo, que as poupanças que se tentem fazer agora na Educação nos custarão bem caro no futuro. Em abandono escolar, em agravamento das desigualdades, em empobrecimento das aprendizagens, em desinvestimento nas novas gerações.

Se as escolas portuguesas fossem agências do Novo Banco, talvez o problema do financiamento fosse mais fácil de resolver…

Post actualizado às 11:45, com a rectificação do nome da deputada do BE, Joana Mortágua.

Pais não podem avaliar professores

pais-profUma faceta pouco falada do “novo normal” que algumas direcções escolares, à socapa e à boleia do covid, querem introduzir: inquéritos aos encarregados de educação que funcionam como uma forma encapotada de avaliação dos professores pelos pais. Uma grosseira violação da legalidade e dos direitos dos professores.

A tentativa de impor a participação dos pais na avaliação do desempenho docente remonta ao tempo de Maria de Lurdes Rodrigues. Não é aceitável que agora se tente, pela porta do cavalo, impor aquilo que na altura mereceu completa rejeição e repúdio da parte dos professores.

A FENPROF enviou ao Secretário de Estado Adjunto e da Educação uma comunicação sobre os questionários elaborados pelos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas com o intuito de monitorizar o designado ensino a distância e que enviaram aos pais e encarregados de educação para que dessem a sua opinião sobre o mesmo.

Acontece, porém, que, em alguns casos, os questionários contêm perguntas que constituem verdadeiros processos de avaliação dos professores e do seu desempenho e que são colocadas aos pais e encarregados de educação, o que não é legal, mas também não é legítimo.

A palavra avaliação chega a ser usada ou substituída por “apreciação”, mas com o mesmo sentido avaliativo. Acresce que são colocadas aos pais questões relacionadas com as metodologias adotadas pelas escolas e outras que, para serem respondidas, necessitariam de conhecimentos de natureza pedagógica que a esmagadora maioria não tem, mas, ainda que tivesse, tal não legitimaria a sua participação no processo de avaliação do desempenho de professores e educadores.

Liguem as câmaras, sff!

zoom-videoNas sessões síncronas uma maioria bastante significativa dos meus alunos não têm disponibilizado a sua imagem com base no direito à sua imagem. O professor tem à sua frente um ecrã com mosaicos escuros. Esta situação tem de ser resolvida para se poder utilizar o ensino à distância, pois como as coisas estão não sabemos se os alunos estão presentes nas aulas à distância. Para contornar este problema comecei por solicitar a sua participação com voz, o que só resultava marginalmente, depois em vez de fazer a chamada no início, comecei a fazê-la no meio ou mais perto do términos da sessão. Mas tudo isto é contornar o problema principal que a seguir se explana.

Os alunos têm de frequentar a escola obrigatoriamente até aos 18 anos, no ensino presencial há a recolha de faltas e também o controlo da postura do aluno na sala de aula. Não se percebe porque não haja também um controlo visual do aluno durante o E&D. Portanto, o normal seria o aluno disponibilizar a sua imagem e estar apresentável para participar na mesma, tal como se viesse para a escola, pois a aula à distância substitui a aula presencial, estão porque permitimos que o aluno ainda esteja na cama, como alguns me confessaram, para não mostrarem a imagem? Além de que não sabemos se o aluno está a prestar atenção ou se está ao telemóvel. Assim, para o ensino à distância continuar e eu espero que seja somente como supletivo do ensino presencial, tem que se legislar para que o aluno que esteja presente nas aulas síncronas, mostre a sua imagem e tenha postura adequada. Entre o direito à imagem e a obrigatoriedade de frequentar a escola, mesmo no E&D, com controlo dos alunos pelo professor, acho que deve prevalecer a segunda, já que a educação é um bem coletivo e o direito à imagem é individual.

Concordo com Rui Ferreira. O direito à imagem – ou à privacidade, como também já ouvi invocar – não podem continuar a ser usados como desculpa para obrigar os professores a fazerem sessões síncronas perante uma plateia de rectângulos pretos, que surgem no seu ecrã em vez dos rostos dos alunos.

Na situação de ensino remoto de emergência que todos assumimos como uma necessidade ditada pelas circunstâncias, e perante o objectivo maior de não perder os alunos, a maioria dos professores foi transigindo com a atitude de um número crescente de discentes que desligam a câmara – ou nem a chegam a ligar – durante as aulas à distância. Mas quando se vai impondo a ideia de que o ensino remoto veio, pelo menos nos tempos mais próximos, para ficar, então há um conjunto de regras que, para bem de todos, deveriam ficar claras para alunos e professores. É que não se pode exigir a estes últimos que dêem a cara e se exponham, num meio em que nem todos estão completamente à-vontade, enquanto do outro lado o estar à vontade se confunde com o estar à vontadinha…

Vamos ser claros. Nenhum professor está interessado em esquadrinhar o ambiente doméstico dos seus alunos. Nem em apanhá-los em posturas impróprias para assistir a uma aula, ainda que dada em ambiente virtual. Pelo contrário: as câmaras ligadas servem precisamente, antes de mais, para induzir atitudes e comportamentos correctos: ninguém vai para a escola de pijama, não se assiste a uma aula deitado, não nos levantamos a meio para ir dar uma volta enquanto o professor expõe a matéria, faz uma apresentação ou dialoga com a turma.

Se cada aluno der de si próprio a imagem que dele se espera, idêntica à que assumiria se estivesse numa aula presencial, então creio que não há nenhum “direito à imagem” que esteja a ser posto em causa. E mesmo o risco de “devassa” da residência familiar é um falso problema. Basta posicionar o local de estudo e o computador de forma a que o aluno tenha atrás de si uma parede lisa, sem que sejam visíveis móveis, decorações ou outros elementos da família.

O ME esteve bem quando legislou no sentido de alargar os deveres previstos no Estatuto do Aluno ao contexto do ensino não presencial. A obrigação de estar presente nas sessões e de realizar as tarefas propostas pelos professores mantém-se, tal como as consequências do incumprimento reiterado. Mas, pelos vistos, não foi suficiente.

Seja na escola, em casa ou noutro lugar qualquer, o acto de ensinar e aprender tem, como muito bem nota Rui Ferreira, de ser revestido de dignidade. À generalidade dos professores faltam vocação e competências para fazer de palhaços, e para entreter meninos há certamente coisas melhores do que aulas a fingir. Quando não se percebe de outra forma, torna-se necessário ir um pouco mais longe e especificar, preto no branco, as coisas óbvias que, para muitos alunos e alguns pais, parecem levantar ainda demasiadas dúvidas…

Um computador para cada aluno

Já se sabia que o Orçamento Suplementar haveria de trazer mais uns milhões de euros para a “transição digital” na Educação. Falava-se num pacote de 400 milhões, mas entre a extensa lista de medidas ontem anunciadas pelo Expresso, apenas encontrei isto:

computadores

À partida, é simples e faz sentido: a escola dispõe de computadores para os alunos trabalharem e empresta-os aos que os solicitarem. Mas em relação aos professores, se continuarmos como até aqui, a lógica inverte-se: são eles que emprestam o seu material, colocando-o ao serviço da escola para poderem exercer a sua profissão. Eis um aspecto que precisa de ser revisto, contemplando o direito dos professores, como o de qualquer outro profissional em teletrabalho, a dispor de equipamento fornecido pelo empregador. Em alternativa, no caso dos docentes que se dispõem a usar o seu próprio material, deveria equacionar-se uma justa compensação na aquisição, reparação ou substituição dos aparelhos, nem que fosse em sede de IRS.

De resto, depois da saga dos Magalhães do tempo de Sócrates, parece ter-se percebido que o empréstimo de computadores em função das necessidades é uma política mais sensata do que a distribuição a esmo e a custos simbólicos para o utilizador, mas com pesados encargos para as finanças públicas. Assim, o mesmo aparelho pode servir sucessivamente vários alunos e, quando deixa de ser necessário, vem reforçar o parque informático da escola a que continua a pertencer.

Na verdade, e por muito que a emergência pandémica continue a condicionar a organização escolar, há uma realidade que o confinamento e a experiência forçada do ensino a distância tornaram evidente: aprender é um acto social que se faz em presença dos outros, não entrincheirado por detrás de um computador ou de uma qualquer máquina de ensinar.

Se o futuro da escola tem de continuar a ser pensado no modo presencial, é no espaço físico da escola que devemos concentrar os recursos educativos.