As aulas dois-em-um

São vários os estabelecimentos de ensino com alunos em quarentena, isolamento profilático ou pertencentes a grupo de risco em que se pretende, através do computador ou com a instalação de câmaras de vídeo, que as aulas presenciais sejam filmadas para serem visionadas em casa. Esta é uma questão que se coloca quando apenas parte da turma está ausente da sala de aula.

A transmissão direta da aula está a merecer sérias reservas dos professores, que a FENPROF acompanha. Por um lado, questionam-se a validade pedagógica e os benefícios para os alunos desta “dupla aula”, não só pelas limitações técnicas, mas porque um formato de aula presencial, quando sujeito a este duplo desenvolvimento, acaba por prejudicar a relação pedagógica entre o docente e os alunos, qualquer que seja o modo como participam na aula; por outro lado, há o risco de os professores verem gravado, adulterado e/ou divulgado o seu trabalho, por exemplo, através das redes sociais, como já aconteceu no passado, agora agravado pelo facto de estes estarem a desenvolver uma atividade presencial, cuja preparação e concretização em muito se distingue das atividades orientadas para o ensino a distância.

Está a normalizar-se, num número crescente de escolas, este dois-em-um que é um ensino semi-presencial não assumido: o professor dá a aula presencial aos alunos que estão na escola, enquanto os que estão em quarentena assistem em casa por videoconferência. A avaliar pelo que tenho lido nos últimos dias pelas redes sociais, o tema tende a dividir profundamente a classe docente. Há quem alinhe pelo clássico discurso do “o que é que nos custa?”, presumindo que em tempo de pandemia vale tudo para não prejudicar os alunos e que, ao aceitarem a filmagem das suas aulas, estão efectivamente a prestar um bom serviço educativo.

Em contrapartida, há também quem aponte os vários problemas e constrangimentos que esta opção levanta. Pessoalmente, congratulo-me que os sindicatos da Fenprof assumam sem tibiezas a defesa dos direitos e da dignidade dos professores que representam. Independentemente de haver quem voluntariamente aceite o “desafio” que algumas escolas estão a propor, essa opção não pode ser imposta aos restantes professores.

No início do confinamento, quando todos mergulhámos de cabeça no novo mundo do ensino à distância, pareceu-me, na minha ingenuidade, que as sessões online substituiriam, até onde fosse possível, as aulas presenciais. E que aos alunos seria exigida, além da presença na sessão, uma postura adequada e uma participação activa e responsável, que passaria por ver e ser visto por todos e poder comunicar, em tempo real, com os colegas e o professor. Afinal, estava enganado. Os defensores dos direitos das crianças, da inviolabilidade do domicílio e do direito à imagem logo protestaram, alto e bom som, contra a intrusão: meninos e meninas teriam o direito a estar nas sessões com a câmara desligada. Nalgumas turmas, dar a aula para um mosaico de rectângulos pretos tornou-se, ao fim de pouco tempo, o novo normal. Ficando apenas o professor, feito lorpa, com a imagem ligada. E presumindo, optimista, que do outro lado alguém estaria a prestar atenção ao que ele ia dizendo ou mostrando.

Ora bem, estas coisas têm consequências. Se o direito à imagem ou as questões da privacidade se sobrepõem à eficácia das tecnologias educativas, então esses direitos existem para todos os intervenientes, incluindo os professores. Nem o contrato que assinámos com o ME nem o estatuto da carreira prevêem a cedência dos nossos direitos de imagem ao empregador. Não somos entertainers ou artistas de TV, para podermos ser obrigados a expormo-nos perante uma câmara se não estivermos dispostos a fazê-lo.

Pela parte que me toca, não me importo de me expor numa sessão online, para alunos meus que estão em casa e trabalhando exclusivamente para eles, numa aula pensada em moldes de ensino à distância. Mas está fora de questão filmar-me, ou deixar que me filmem, no contexto de uma aula presencial normal, para exibição doméstica ao resto da turma.

Outra questão é a viabilidade prática de uma aula dada em simultâneo para alunos numa sala e colegas que assistem remotamente. Talvez o modelo possa ser viável se pensarmos nas antigas aulas magistrais, que ainda subsistirão nalguns cursos superiores, com um professor sentado à secretária ou estático à frente da sala a explicar a matéria. Só que as aulas dos nossos dias, regra geral, não funcionam assim. O professor desloca-se pela sala, interage com os alunos e estes participam na aula segundo dinâmicas próprias. Não há webcam que consiga captar toda esta dinâmica, nem é possível o professor dar atenção a quem assiste remotamente ao mesmo tempo que gere o trabalho com a turma física que tem à sua frente. E já nem falo nas evidentes limitações do decrépito material informático que equipa a generalidade das salas de aula portuguesas. Uma aula dada nestas condições será insatisfatória para todos os alunos, tanto os que estão na sala como os que vêem – ou tentam ver – em casa.

E isto não teria de ser assim. Há professores de risco que estão presentemente afastados das suas escolas, obrigados a recorrer ao atestado médico porque o ME determinou que todo o ensino seria presencial. Ora estes professores poderiam estar a ser aproveitados para constituir uma bolsa de docentes destinada a apoiar os alunos em confinamento. A política educativa é feita de escolhas, e em vez de enquadrar, na nova realidade, os professores mais vulneráveis, o ME preferiu continuar a apostar numa telescola de mais do que duvidosa utilidade.

Mas o facto de não se terem pensado as coisas a tempo, deixando a tentação economicista falar mais alto não pode, uma vez mais, servir de pretexto para se exigir aos professores mais sacrifícios. Quando se a hipótese foi colocada, o ME rejeitou liminarmente os desdobramentos de turmas ou um planeamento sério do ensino semi-presencial, que seria a solução mais adequada à actual fase da pandemia. Mas vem agora caucionar, com um silêncio cúmplice, a iniciativa das escolas que exigem que o mesmo professor se desdobre a atender as duas partes da mesma turma: a que ficou na escola e a que está de quarentena.

Contudo, a mais rematada hipocrisia a este respeito não a vi escrita por nenhum director ou porta-voz ministerial: eram colegas nossos que defendiam, algures numa rede social, que ensinar ao mesmo tempo uns alunos na escola e outros em casa era uma excelente medida, pois permite finalmente resolver o problema – que nos garantiam ser inexistente – da falta de distanciamento nas salas de aula…

Divulgação: Petição pela proteção de cuidadores de risco COVID-19

…e inclusão de docentes de risco COVID-19 no sistema de ensino à distância durante a pandemia

Perante uma situação de saúde pública que demonstra ser de gestão muito complexa, particularmente antes do desenvolvimento de uma vacina ou processo terapêutico eficaz, consideramos que as medidas de contingência — COVID-19 — preparadas para a reabertura das escolas são desajustadas, inflexíveis e pouco inclusivas face às diversas realidades no nosso país.

Entendemos o raciocínio por trás da necessidade de um sistema de ensino universal, particularmente na defesa de crianças em risco social / sinalizadas pela CPCJ, e como equilibrador sócio-económico. Mas sabemos também que nem todas as situações são iguais, e que enquanto há famílias homogeneamente saudáveis (sem quadro clínico de risco face à COVID-19) e / ou que poderão/estarão disponíveis a assumir o risco da letalidade e sequelas, que neste momento se conhecem da doença, outras há que terão um ou mais membros familiares, com comorbilidades, que ficarão expostos a uma situação de risco acrescido, face à COVID-19, situação que poderá tornar-se legitimamente insustentável do ponto de vista psicológico caso sejam desconsiderados a ter lugar / direito de decisão sobre a sua ação no espaço público, num contexto em que a sua condição de saúde é cientificamente reconhecida como sendo uma condição que oferece maior vulnerabilidade face à atual ameaça de saúde. Por outro lado, haverá famílias para quem ter crianças em casa é incomportável perante obrigações que implicam a sobrevivência económica, mas outras terão membros disponíveis para acompanhar as crianças / jovens nos seus estudos escolares, em regime de ensino remoto ou através de Ensino à Distância (doravante designado por E@D) .

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Para assinar a petição, clicar aqui.

Faltam meios para o ensino online

Muitos alunos de escolas públicas obrigados a ficar em isolamento por motivos de Covid-19 estão privados de acompanhar as atividades letivas por falta de equipamentos e acesso à Internet. A denúncia veio da ATEP – Associação Todos pela Escola Pública – e da FENPROF – Federação Nacional dos Professores, que têm recebido várias queixas de encarregados de educação, alunos e professores.

“No Agrupamento de Escolas António Sérgio em Vila Nova de Gaia, por exemplo, temos alunos em casa com dificuldade em acompanhar as aulas, a internet nem sempre funciona e a carência de câmaras para todos os alunos que necessitam é gritante. As sessões por videoconferência são descontinuadas e os professores perdem cerca de 20 minutos de aula a tentar retomar as ligações. No Agrupamento de Escolas Gonçalves Zarco, em Matosinhos, a inexistência de equipamentos necessários para dar resposta às videoconferências, origina o recurso aos telemóveis pessoais de professores e alunos”, denuncia Mariana Pereira, vice-presidente da ATEP.

O avanço da pandemia e o número crescente de alunos em confinamento e a receber aulas pela internet trazem à tona a verdade inconveniente: apesar das promessas de que em Setembro as escolas reabririam com novos equipamentos informáticos, capazes de assegurar o ensino à distância de todos os alunos, a verdade é que, se pouco se fez para garantir a segurança da escola presencial, no capítulo da pomposamente chamada transição digital o que temos até agora reduz-se a um rotundo zero.

Com o actual estado de coisas, pelo menos uma modalidade de ensino semi-presencial deveria estar a ser seriamente equacionada para os alunos a partir do 3.º ciclo; no entanto, a falta de computadores é neste momento o principal óbice a essa solução, pois iria fazer ressurgir o problema da desigualdade de oportunidades no acesso à educação.

Mesmo quem tem o dever de ofício de se mostrar optimista, como é o caso do director da AstraZeneca, reconhece que as mais promissoras vacinas anti-covid não deverão entrar em distribuição antes de Março do próximo ano. A doença vai continuar entre nós durante os duros meses de Inverno e precisamos de fazer mais e melhor para a conter em valores controláveis.

Quando já se fala num novo confinamento, abrangendo tudo o que foi englobado no anterior, menos as escolas, estamos a criar as condições para que as actividades escolares venham a ser, se nada for alterado, os novos e principais focos de propagação da pandemia.

O regresso da escola à distância

É uma medida de último recurso, insistiu ontem o ministro, depois de se saber que em dois concelhos alentejanos todos os alunos foram mandados para casa, passando nos próximos tempos a ter aulas não presenciais.

Mas a verdade é que, ao ritmo galopante a que aumentam os contágios, e quando se torna evidente que não se preparou devidamente o desconfinamento e que a resposta dos serviços de saúde se encontra já, em muitas zonas do país, à beira do limite, um novo confinamento poderá estar mais próximo do que os responsáveis querem admitir.

E, nem de propósito, parece que os primeiros computadores novos para as escolas distribuírem aos alunos estão quase a chegar

Questionado sobre a decisão de encerrar todas as escolas dos concelhos de Borba e Vila Viçosa, o ministro referiu que essa é uma decisão das autoridades de saúde, com base na situação e evolução epidemiológica das regiões. “A prioridade do Governo é manter o ensino presencial”, sublinhou, observando, no entanto, que nesta balança é preciso pesar os perigos da pandemia.

Questionado sobre os motivos de encerrar escolas alentejanas e manter abertos os estabelecimentos de ensino em Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira, para onde foi definido dever de confinamento, o ministro voltou a sublinhar que são decisões tomadas pelas autoridades de saúde com base na evolução epidemiológica da Covid-19. “Em Borba e Vila Viçosa, a situação do surto requeria ação”, sublinhou, acrescentando que nas duas regiões alentejanas, “o surto não era em ambiente escolar, mas ainda assim foi decidido passar a um regime não presencial”.

O ministro afirmou que o risco de contágio nas escolas não é zero, mas os números de casos identificados até ao momento são “relativamente pequenos”.

Pais e professores, a mesma luta

Pode ter sido um dos poucos aspectos positivos resultantes do confinamento, mas esperemos que tenha vindo para ficar: maior acompanhamento, por parte dos pais, da vida escolar dos seus filhos e mais consideração e respeito pelo trabalho dos professores.

Apesar dos diferentes papéis que devem desempenhar, pais e professores são aliados naturais em torno de uma causa comum, a educação das novas gerações. Pena é que haja demasiada gente interessada em fomentar a divisão e a discórdia, instrumentalizando as legítimas expectativas e preocupações dos pais e tentando virá-los contra os professores…

A pandemia de covid-19, e em especial ao confinamento a que nos obrigou, aproximaram pais e professores, esbatendo “claramente as clivagens que por vezes se sentem entre eles”. O que “terá tornado a escola mais humana, mais dependente do esforço conjunto de pais e professores e mais cooperante”. Esta é uma das principais conclusões do estudo O papel da escola na pandemia, do ponto de vista dos pais, promovido pelo projecto Escola Amiga da Criança em parceria com a Católica Porto Business School e a Faculdade de Psicologia da Universidade Católica do Porto.

[…] pelas conclusões a que o PÚBLICO já teve acesso fica-se a saber, por exemplo, que os pais consideram que os professores têm um “papel determinante na aprendizagem dos seus filhos (4,54 numa escala de 5) e que valorizam o esforço que estes fizeram “na adaptação aos desafios que a quarentena trouxe à educação” (4,05). Indicam também que durante o confinamento “a comunicação com os professores foi regular e contínua” (4,07 numa escala de 5).

Mais uma campanha contra a escola pública

manif-amarelaA comparação com as escolas privadas deixa as escolas públicas numa posição desconfortável. Nos privados, em geral, houve aulas à distância, o mérito académico não foi dispensado, a reabertura do ensino presencial foi serena e a aposta na aprendizagem dos alunos assume-se prioridade absoluta.

A primeira narrativa dos media sobre a educação em tempos de pandemia garantia-nos – quem se recorda? – que o ensino à distância iria obrigar alunos e professores a trabalhar e a aprender como nunca, operando uma verdadeira revolução educativa e fazendo de todos uns craques em tecnologias de informação.

Poucos meses passados, dá-se uma aparatosa cambalhota no discurso: afinal, ensinar e aprender a sério só se consegue na escola, na interacção directa dos alunos entre si e com os seus professores, sendo o E@D um parco remedeio, que empobrece as aprendizagens e aprofunda as desigualdades no acesso à educação.

Com a reabertura das escolas, o discurso mudou outra vez: os habituais comentadores oficiosos destas coisas, que raramente são professores dos que dão aulas, asseguram-nos agora que o ensino à distância funcionou afinal às mil maravilhas, mas apenas nos colégios. Os alunos das escolas públicas ficaram a ver navios. E por isso teríamos agora os pais preocupados, numa sangria desatada, a querer mudar os filhos para o ensino privado.

Há aqui alguns pontos a clarificar. Antes de mais, os colégios da moda que asseguram ter cada vez mais alunos em lista de espera já se encontravam nessa situação muito antes da pandemia. É uma realidade radica numa política educativa que tem conduzido ao aprofundamento das desigualdades: a exagerada mediatização de rankings, o desinvestimento na escola pública, a inclusão feita por decreto, são apenas algumas das facetas mais notórias. A pandemia apenas terá acentuado uma tendência que vem muito de trás e é consequência das políticas de sucessivos governos.

Depois há que ter em conta as assimetrias sócio-económicas. É evidente que quem gasta anualmente milhares de euros nas propinas de um colégio não terá problemas em proporcionar aos filhos o computador, o tablet, o smartphone e tudo o que mais precisar para se manter conectado com os professores. Nas escolas públicas, boa parte do esforço despendido nas primeiras semanas foi apenas para garantir, numa inédita mobilização de esforços entre escola, famílias, autarquias e instituições locais, que nenhum aluno ficava para trás.

Na minha experiência de professor à distância, a preocupação de não perder alunos, de não deixar nenhum deles para trás, condicionou fortemente o trabalho desenvolvido, que considero bom, sem falsas modéstias. O agrupamento de escolas públicas onde ensino avaliou o E@D num processo amplamente participado por alunos e pais e a grande maioria valorizou muito positivamente a experiência. Muitos pais fizeram questão de agradecer aos professores o esforço, a competência e tudo o que, em condições difíceis, conseguiram fazer pelos seus filhos. Admito que nalguns lados possa não ter corrido tão bem. Mas espanta-me a facilidade com que alguns comentadores e especialistas encartados decretaram já, e em definitivo, a incapacidade das escolas públicas em acompanhar os alunos em ambiente de ensino remoto.

Sublinhe-se, finalmente, a contradição do discurso: porque a experiência do ensino remoto não foi boa, agora que as escolas retomam o presencial é que os pais procuram os colégios, supostamente melhores a ensinar à distância? Há algo aqui em que falha a lógica. Em boa verdade, este discurso só faz sentido enquanto parte da velha campanha contra a escola pública e em favor do ensino privado. Pretende-se insinuar que as escolas privadas preparam melhor os seus alunos, apesar de haver estudos sérios, aprofundados e independentes a demonstrar claramente que os estudantes oriundos do ensino público têm em média melhor desempenho académico no ensino superior do que os provenientes do privado.

Há, no entanto, um ponto em que devo dar razão aos críticos da escola pública: com a sua política de desinvestimento na Educação, atolando as escolas em burocracia e pseudo-reformismo, promovendo uma falsa inclusão e o facilitismo avaliativo para conseguir sucesso estatístico, o governo socialista está a atentar gravemente contra a qualidade da escola pública. Urge reconhecer os erros e arrepiar caminho…

Colégios privados com mais procura

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A procura por colégios privados disparou no arranque deste ano letivo depois de um 2.º e um 3.º períodos atípicos. Desiludidos com a experiência de ensino à distância nas escolas públicas e com receio de um novo confinamento, os pais procuraram o ensino privado. Há colégios com mil alunos em lista de espera sem conseguir dar resposta a tantas inscrições.

Do Norte ao Sul do país, as escolas privadas relatam listas de espera e o aumento da procura, sobretudo no 1.º ciclo e no Secundário. Nalguns casos, por parte de alunos que habitualmente frequentavam o público. A resposta dada pelo ensino privado nas aulas online parece ser a grande motivação.

Parece-me haver algum exagero neste “disparar da procura”. Os colégios de elite referidos no corpo da notícia do JN (apenas disponível a assinantes) sempre tiveram procura superior à oferta, o que lhes permite não só cobrar elevadas propinas como garantir condições de funcionamento que dificilmente estarão ao alcance das escolas públicas.

O que aqui me preocupa mais é outra coisa: a forma como a escola pública se adaptou à situação de pandemia e de ensino à distância e a resposta educativa que deu aos seus alunos. E as enormes diferenças e assimetrias que se verificaram de escola para escola e, por vezes, de professor para professor. Houve professores que deram o litro e escolas que se reinventaram para responder às necessidades dos seus alunos. Mas não adianta tapar o sol com a peneira: também houve quem, demasiado cedo, desistisse de fazer mais do que o mínimo dos mínimos.

Em abono da escola pública e dos seus inconseguimentos não posso, no entanto, deixar de assinalar uma evidência nem sempre lembrada: em muitos lados não se fez mais e melhor em prol dos alunos que queriam continuar a aprender e a melhorar os seus resultados porque a prioridade, e principal preocupação, era com os alunos que se estavam a perder. Porque mais importante do que brilhar nos rankings é não deixar ninguém para trás. Mas esta é uma realidade que os colégios privados, em regra, não têm de enfrentar.

Ensino misto é a alternativa em Espanha

espanha-aula-covidO b-learning, sistema de ensino que conjuga a modalidade presencial com o ensino a distância, foi uma hipótese que chegou a ser aventada para o arranque do novo ano lectivo. Mas acabou por ser rapidamente descartada em favor de um modelo maximalista que suscita fortes apreensões. Sem adaptações significativas nos espaços escolares nem redução na carga lectiva nem no número de alunos por turma, percebe-se que reabrir as escolas portuguesa em pleno recrudescimento da pandemia é uma aposta de elevado risco.

E, no entanto, não teria de ser assim. Basta olhar para o exemplo da vizinha Espanha. É certo que por lá situação sanitária é mais preocupante, falando-se abertamente de uma segunda vaga pandémica. Tal como em Portugal, os seis primeiros anos de escolaridade foram definidos como prioritários em termos de frequência escolar, não estando previsto o recurso ao ensino online. No entanto, em Espanha é obrigatório, mesmo pelos alunos do 1.º ciclo, o uso de máscara.

Outra diferença importante é que o sistema educativo espanhol está descentralizado, competindo às regiões autónomas a maioria das responsabilidades na organização do ano lectivo. Para poder dedicar mais recursos e apoios nos alunos mais novos, a maior parte das regiões estabeleceu, para os restantes, modalidades de ensino misto que reduzem o tempo de permanência na escola e complementam as aulas com trabalho autónomo a realizar em casa. Apenas cinco regiões, representando cerca de 13% da população escolar, têm o ensino secundário inteiramente presencial.

A notícia do El País faz uma boa síntese da situação, analisando as dificuldades e desafios que os professores espanhóis são chamados a enfrentar…

Perante as dificuldades expressas pela maioria das comunidades, o acordo alcançado no final de Agosto pelo Ministério da Educação e as comunidades autónomas, apesar de continuar a apelar ao ensino inteiramente presencial, apeloua a que, caso não fosse possível alcançá-lo, os esforços se concentrassem em garanti-lo aos alunos na educação pré-escolar e primária, para os quais é muito complicado ou impossível seguir o ensino online, e cuja participação em dias alternados tornaria muito difícil aos pais conciliar a sua vida profissional e familiar. Mas o semi-presencial implica os seus próprios riscos durante a adolescência, diz o sociólogo da Fundação Bofill Miquel Àngel Alegre: “Existe o risco, especialmente na escola secundária, de que a tensão caia quando se trata de seguir o processo de aprendizagem e continuar a estudar, e haverá uma maior tentação para os alunos se envolverem em actividades de lazer, na medida em que não estão sob a tutela nem sob a custódia da escola. O problema será maior nos jovens com menor motivação para os estudos.

“Sabendo como se gera abandono escolar, é expectável que, após estes meses de encerramento escolar, possa aumentar exponencialmente. Provavelmente já aconteceu, mas ainda não registámos os dados”, adverte Aina Tarabini, professora na Universidade Autónoma de Barcelona. E o semi-presencial, receia Tarabini, especialista em abandono escolar precoce, agravará o problema e evidenciará uma vez mais a falta de equidade no sistema educativo. “Sempre que há uma transferência de trabalho escolar para a esfera familiar, a desigualdade social aumenta, porque uns têm um acompanhamento, ambiente e recursos tecnológicos que outros não têm. Isto foi comprovado, por exemplo, com trabalhos de casa. No grupo mais vulnerável, esta nova variabilidade de espaços, de hoje venho e de amanhã não, exigirá um nível de trabalho muito forte por parte das escolas e implica um risco muito elevado de desconexão”.

“Muitas medidas foram tomadas para garantir a segurança das escolas. Mas não garantimos que os professores sejam capazes de trabalhar bem na aprendizagem essencial para recuperar o que se desvaneceu durante o último período e o que for interrompido quando uma turma for confinada”, adverte Enrique Roca, presidente do Conselho Escolar do Estado, o órgão consultivo do governo no qual os actores educativos estão representados. “Não foi acordado um bom plano pedagógico para os estudantes que têm parte do ensino telemático ou para aqueles que o têm apenas presencial. E se não fizermos nada diferente dos anos anteriores, teremos maus resultados e será difícil não perder alunos”. Roca acredita que se deveria chegar a um amplo acordo na Conferência Sectorial da Educação, que reúne o Ministério da Educação e as comunidades. Mas se isso não for possível, deve ser feito pelo menos dentro de cada autonomia. O ideal, acrescenta, seria mudar o currículo, mas isso requer a alteração da lei da educação, uma mudança que está em curso mas que levará tempo.

“Com o semi-presencial vamos ter de trabalhar muito sobre a autonomia dos estudantes, especialmente os do 3.º ciclo. E para os professores vai ser um esforço metodológico muito complicado”, diz Eva Bajén, presidente dos directores escolares aragoneses. “Um grupo virá na segunda, quarta e sexta-feira numa semana, e terça e quinta-feira na seguinte. O outro grupo fá-lo-á ao contrário. E no final será como ter dois grupos em vez de um. Vai ser um grande desafio”.

Como será a escola em Setembro

covid-escola.JPGA porta está bem aberta para que o #EstudoEmCasa possa regressar em Setembro: a RTP diz que está “absolutamente disponível” e à espera de indicações e no Ministério da Educação estão a preparar-se os três cenários para o próximo ano lectivo, em que dois terão que passar pela transmissão de conteúdos educativos através da nova telescola. Tendo em conta que o ministro Tiago Brandão Rodrigues já admitiu que o objectivo do ministério é “poder continuar a ter soluções através da televisão que sejam universais, disponíveis logo a partir do início do ano”, é praticamente certo que a estação pública vai ser chamada de novo para ceder o seu ecrã.

Diversos cenários que têm sido projectados para o novo ano lectivo: aulas presenciais para todos ou só para os mais novos; regime de turnos e horários alargados para reduzir a concentração dos alunos; b-learning, com algumas aulas na escola e as restantes em modo não presencial; regresso da telescola. Contudo, as indicações do SE Costa aos directores têm sido bem mais simples e taxativas.

Assumindo-se cada vez mais como o verdadeiro ministro, em vez do outro que só o é nominalmente, tem exortado os directores a porem de parte as ideias mirabolantes que alguns têm andado a projectar. O que lhes diz é que esqueçam os desdobramentos de turmas, os regimes mistos, os reforços substanciais em meios materiais e humanos. A escola é para abrir em Setembro como sempre se fez, com as turmas repletas de alunos e  horários lectivos para cumprir integralmente, usando as mesmas salas, mesas e cadeiras que sempre se usaram. E recorrendo, naturalmente, aos mesmos professores.

Se correr mal – e será apenas uma questão de tempo até que apareçam os primeiros casos positivos à covid-19 – as escolas fecharão com a mesma facilidade com que abriram. Para reabrirem quando os riscos de contaminação tiverem desaparecido.

Neste modelo de escola intermitente, as maiores incógnitas residem na dimensão que assumirá a pandemia dentro de dois meses. Pois quanto a medidas efectivas para impedir os contágios, elas serão praticamente nulas: a máscara é a única protecção obrigatória, mas a sua eficácia é reduzida quando o distanciamento deixa de ser respeitado. E como será possível impedir que um aluno infectado contagie o colega de carteira? Ou que se contaminem uns aos outros, por exemplo, nos refeitórios?…

À cautela, o ME vai mantendo em prontidão a equipa do EstudoEmCasa, e promete mais computadores para as escolas, de forma a poderem ser emprestados aos alunos se houver novo confinamento.

Da muita parra que embeleza os arrazoados ministeriais, extrai-se assim pouca e fraca uva. Em vez de planos ambiciosos para corresponder ao desafio de ensinar e aprender, com eficácia, mesmo em tempo de pandemia, o ME restringe-se ao básico, admitindo apenas dois cenários:

  • Um plano A, com todos os alunos e professores nas escolas, a tempo inteiro, com se nada se passasse;
  • O plano B, com toda a gente metida em casa, a replicar um modelo de ensino a distância que já demonstrou as suas fragilidades e limitações.

Em bom português, os planos do Governo para o regresso às aulas, cingem-se afinal de contas a uma ideia muito simples: tudo ao molho e fé em Deus!…

Exame online feito pelo explicador

explic

A partir de maio, na mesma altura em que as instituições começaram a regressar lentamente ao ritmo do ensino presencial, com aval para reabrir portas às aulas práticas, “não sendo todos os dias, praticamente todos os dias me contactaram para isto”. Sempre por telemóvel, através de uma chamada ou de uma mensagem, inicialmente apenas para estudar o terreno. “Perguntavam se dava explicações, mas quando começava a explicar melhor em que consistia, eles caíam em si e diziam mesmo: ‘Não era bem explicações que queria, mas ter um professor a ajudar-me a resolver o teste na hora’.” Quem o conta é Maxime Ventura, 34 anos, dono de um centro de explicações no centro da cidade do Porto.

[…] “Muitas faculdades estão a fazer os exames online e não custa nada ter alguém ao lado que diga para fazer de uma determinada maneira. Temos um professor que tem recebido uma quantidade de propostas inacreditável”, conta. Trata-se de Hélder Souza, professor universitário, que não tem dúvidas de que o fenómeno esteja a alastrar: “Se aquilo de que tenho conhecimento for uma amostra estatística representativa, então estamos perante um fenómeno de grande escala.”

Como responsável pelo centro, foram já várias as histórias que Leonor teve a oportunidade de ouvir. Uma mãe “muito aflita, porque o filho tinha reprovado, foi muito honesto e fez o que sabia, mas os colegas que tiveram ajuda de explicadores conseguiram passar”. Outra, uma aluna de Direito, que “disse pagar o que fosse preciso” para que fizessem o exame por si.

Há um moderado cepticismo que não consigo evitar quando ouço colegas a afirmar, convencidos, que conseguem avaliar os conhecimentos dos alunos, em regime não presencial, com o mesmo rigor e isenção com que o fariam na sala de aula.

A verdade é que, mesmo no básico e no secundário, abundam os trabalhos copiados ou feitos por terceiros. Na faculdade, onde as exigências são maiores, fazer batota no teste online parece ter-se tornado, para alguns alunos, uma tentação irresistível. Como a notícia do DN irrefutavelmente documenta.

Contudo, embora a dimensão e a gravidade da fraude sejam maiores no caso do ensino universitário, não haverá nenhum nível de ensino que esteja imune ao fenómeno. Haverá algum professor que tenha trabalhado remotamente durante o confinamento e não se tenha surpreendido, uma e outra vez, com as competências e o nível de conhecimentos subitamente revelados por um ou outro aluno?…

Esta fome de boas notas, por parte de alunos que, em circunstâncias normais, não passariam da mediania, e que com o confinamento terão sentido ainda mais dificuldades em estudar e acompanhar as matérias, junta-se à vontade de comer de explicadores que,  em consequência do encerramento dos centros de estudos, perderam a sua principal, e nalguns casos exclusiva, fonte de rendimentos.

Como pano de fundo deste fenómeno, temos a realidade de uma geração inteira de profissionais da Educação que poderiam estar a leccionar nas escolas do país, mas a quem essa oportunidade, para a qual se prepararam, nunca lhes foi proporcionada. Os cortes orçamentais e o desinvestimento no sector, obra de sucessivos governos, tiveram o efeito prático de lhes fechar o acesso à profissão. E se muitos jovens profissionalizados para a docência acabaram por enveredar por outras profissões, houve sempre aqueles que não desistiram de manter a ligação ao ensino, optando pelo trabalho, quase sempre precário e mal pago, das explicações.

Um mundo que é fruto também das insuficiências da escola pública – que rejeita os jovens professores, ao mesmo tempo que alimenta o mercado das explicações de que muitos sobrevivem. Sem com isto querer desculpar as infracções éticas e legais de quem prevarica, noto que estão criadas as condições para que o cliente, que paga, mande muito mais do que deveria…