Médico agredido no centro de saúde

csaude-chamusca.JPGUm médico de família do centro de saúde da Chamusca foi agredido por recusar passar uma baixa a uma utente, situação que está a indignar a Ordem dos Médicos, que vai avançar para tribunal.

O médico, recém-especialista, contou à agência Lusa que foi agredido fisicamente pelo companheiro de uma utente que lhe tinha solicitado uma renovação de baixa médica, após ter recusado passá-la.

Afinal, dir-se-á, não são apenas os professores que ocasionalmente são vítimas de agressões no seu local de trabalho. Os centros de saúde e os hospitais têm sido identificados como locais de crescente conflitualidade, com os profissionais de saúde a serem sujeitos a uma pressão excessiva da parte dos utentes e das condições de funcionamento do próprio sistema.

Há, contudo, uma diferença importante. Além de ter recebido o apoio da Ordem dos Médicos e do sindicato, também o responsável político pela Saúde percebeu que lhe competia dirigir um gesto de preocupação e solidariedade para com o médico agredido:

Segundo o profissional, o ministro da Saúde soube da situação e já lhe telefonou.

Na Educação, quando teremos um ministro capaz de condenar publicamente os actos de violência contra os professores? Ou, simplesmente, de se interessar por estas situações, de sentir a necessidade de se mostrar atento e solidário, de perceber que os problemas que enfrentam os seus profissionais, no exercício de funções, são também problemas da Educação?

Alguém imagina um certo Tiago a telefonar pessoalmente, por sua iniciativa, a um docente vítima de agressão?…

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A culpa é dos professores

nando-lopez.JPGFalta-lhes formação.

Falta-lhes motivação.

Faltam-lhes ganas.

Poderíamos falar das reformas supostamente educativas que se foram sucedendo, sem ordem nem consenso, nos últimos anos. Do investimento insuficiente – e pior ainda, decrescente – em educação. De aulas massificadas e do aumento de horas lectivas. Da redução salarial e da deterioração das condições laborais dos docentes.

Mas para quê? A culpa é dos professores!

Poderíamos falar dos quilómetros que faz diariamente a maioria dos docentes da escola pública. Dos que têm de mudar de casa e fazer malabarismos com o salário para poderem trabalhar onde foram colocados. Da instabilidade dos quadros, de onde resulta quase impossível formar equipas. Da situação precária de tantos professores. De matérias afins sem afinidade alguma. De baixas de docentes a aguardar substituição. De professores obrigados a dar aulas em mais de uma escola. De como a maioria das actividades em escolas básicas e secundárias funciona, sem recompensa alguma, graças à boa vontade de uns quantos.

Nada disso importa. A culpa é dos professores.

Poderíamos falar de segregação nas nossas aulas. De escolas que se estão a converter em guetos. De falta de investimentos e de apoios. De provas externas e currículos desfasados. Do pouco valorizados que se sentem muitos docentes. Da indisciplina nas aulas.

Não digas tolices. A culpa é dos professores.

Poderíamos falar, sentarmo-nos de uma vez por todas a falar sobre a vida real nas salas de aula. E abordar o problema juntos: docentes, fartos de não ser escutados; famílias, cansadas de se sentirem invisíveis; alunos, a quem se nega o protagonismo da sua própria educação. Mas resulta muito mais cómodo procurar um inimigo único – se possível, sempre o mesmo – e lançar contra ele as farpas habituais – o que felizmente já não nos surpreende: os docentes que não estão preparados, que – por muitos cursos que façam ou métodos que experimentem – não se reciclam, que não vão para as aulas motivados (porque, como é óbvio, nas outras profissões toda a gente vai trabalhar feliz, sem um dia mau e por amor à arte).

Poderíamos procurar – e mais, deveríamos fazê-lo – o caminho para um verdadeiro pacto educativo. Mas é impossível conseguir pacto algum sem descer à realidade da sala de aula. E afinal, para quê fazer esse esforço quando o diagnóstico é tão óbvio:

A culpa é dos professores!

Tradução livre e adaptação, com algumas supressões, de um texto de Fernando López, escritor e professor universitário espanhol. Uma leitura que recomendo, não só pela acutilância das ideias e a qualidade da escrita mas também porque nos ajuda a compreender que o desinvestimento na educação e a agenda anti-professores ultrapassam fronteiras e inclinações políticas.

Camionistas fake

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Lições da luta dos enfermeiros

enfermeiros.jpgOs enfermeiros iniciaram esta segunda-feira uma greve de cinco dias contra a recusa do Ministério da Saúde em aceitar a integração da categoria de especialidade na carreira.

Não sei que desfecho terá a luta dos enfermeiros pelo reconhecimento das suas especializações e a uma carreira equiparável à de outros técnicos superiores do Estado com idêntico nível de habilitações. Mas registo, para já, três coisas: primeiro, analisando as razões invocadas, afigura-se como uma luta justa; segundo, nota-se coragem e determinação nos enfermeiros que resistem às pressões e às sucessivas ameaças de processos disciplinares e de faltas injustificadas por parte da tutela e das administrações hospitalares; terceiro, este protesto, que aparenta partir do genuíno descontentamento dos profissionais de saúde, levando a reboque os sindicatos e a Ordem dos Enfermeiros, estará a fazer estalar o verniz da geringonça, obrigando o governo a deixar cair a máscara da conciliação e do diálogo e a recorrer à artilharia pesada: intimidação, substituição de trabalhadores em greve, invocação de formalismos legais para pôr em causa o exercício do direito à greve. E o que mais estará para vir.

Nota-se bem a diferença, aliás, entre o tom compreensivo e condescendente com que o governo gere, por exemplo, o descontentamento e as reivindicações dos professores, certo de que deste lado não haverá grandes surpresas, e a hostilidade crescente em relação aos enfermeiros que ousadamente enfrentam o Ministério da Saúde.

Nada é garantido neste momento para o lado dos profissionais de enfermagem, e até pode suceder que terminem a sua luta sem conseguirem nada de substancial. Mas a verdade é que se quem luta pode ganhar ou perder, os que desistem de lutar saem sempre derrotados.

A educação no Canadá

canada.jpgQuando se fala em sistemas educativos que podem servir de modelo e inspiração para outros países, é comum referirem-se cidades-estado asiáticas como Singapura ou Hong-Kong ou países nórdicos como a Finlândia e a Noruega. Contudo, há outro país com presença habitual nos rankings internacionais que tende a ser ignorado: o Canadá.

Na mais recente rodada de exames do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade que reúne países desenvolvidos), o Canadá ficou entre os dez melhores países em matemática, ciências e interpretação de texto.

As provas são o maior estudo internacional de desempenho escolar e mostram que os jovens do Canadá estão entre os mais bem educados do mundo.

Eles estão muito à frente de vizinhos como os Estados Unidos e de países europeus com quem têm laços culturais, como o Reino Unido e a França.

O Canadá também tem a maior proporção de adultos em idade produtiva com educação superior – 55%, em comparação com uma média de 35% de países da OCDE.

O sucesso educativo do Canadá é ainda mais surpreendente se tivermos em conta que o país tem quase tudo o que, noutras partes do mundo, potencia o insucesso:

  • Uma dimensão quase continental, quando os competidores mais directos são países mais pequenos e coesos;
  • Uma sociedade multicultural, com elevada percentagem de imigrantes no sistema educativo, em vez da homogeneidade social e cultural dos países mais bem sucedidos;
  • A diversidade de sistemas educativos que coexistem num país onde não há uma Educação Nacional e as províncias têm ampla autonomia ao nível educacional.

A que se deve então o sucesso do Canadá? A um conjunto de políticas que propiciam a igualdade de oportunidades e a integração escolar de todos os alunos, corrigindo as desigualdades de base e melhorando ao mesmo tempo as condições das escolas e o trabalho dos professores. E aqui sim, encontramos semelhanças com o que fazem outros países igualmente bem sucedidos na escolarização de crianças e jovens:

  • Apoio especial aos filhos de imigrantes, que ao fim de três anos estão perfeitamente integrados e têm um desempenho escolar idêntico ao dos naturais do país;
  • Avaliação focada na detecção de dificuldades dos alunos e das escolas, com vista à sua superação;
  • Regime de recrutamento e formação inicial de professores altamente selectivo, de forma a garantir que só os melhores acedem à profissão;
  • Valorização salarial dos professores, comparativamente com os padrões internacionais.

Com um sistema educativo mais justo e equitativo, o Canadá sobressai nas comparações directas com os vizinhos EUA, onde a pobreza ou a pertença a uma minoria étnica ou social continuam a ser poderosos condicionantes do percurso escolar de cada estudante. Talvez por isso, e também pela fuga ao “efeito Donald Trump”, as universidades canadianas têm estado a receber um número crescente de alunos oriundos dos Estados Unidos.

Froilán e o direito ao sucesso

froilan.JPGO jovem Froilán de Marichalar é entre nós um ilustre desconhecido, mas o mesmo não sucede no país vizinho: é neto do antigo rei de Espanha e sobrinho do actual, Filipe VI. Quarto na linha de sucessão ao trono, rapaz bem parecido e namoradeiro, amante de farras e de touradas, aquele que tem sido apontado como neto favorito de Juan Carlos de Bourbon revela contudo um ponto problemático a seu desfavor: é pouco dotado para os estudos.

Os problemas escolares de Froilán começaram aos 12 anos, quando os fracos resultados levaram os pais a mudá-lo de escola. Contudo, parece que nenhuma escola se mostrou suficientemente boa para motivar o régio rebento, que passou por um internato inglês e dois colégios religiosos, sempre com notas fracas. Até que chegou ao equivalente ao nosso 8º ano de escolaridade, de onde já não conseguiu passar. Repetiu duas vezes, sem sucesso, o 8º ano e repetiria uma terceira vez se os pais, com o beneplácito dos avós, que têm pago as contas elevadas a este aluno problemático, não decidissem enviar o filho para um colégio de tipo militar nos EUA.

O sistema educativo norte-americano, ou a troca do colégio religioso pelo regime militar, aparentemente fizeram milagres: o aluno cábula e incapaz de se concentrar nos estudos fez aqui, em dois anos, o equivalente a cinco anos de escolaridade. E depois da cerimónia de formatura, regressou já a Espanha, em condições de frequentar a Universidade no próximo ano lectivo.

Em Madrid, Froilán irá estudar Administração e Gestão de Empresas numa selecta universidade internacional, The College for International Studies, onde a família pagará cerca de 20 mil euros anuais para usufruir de um ensino que lhe dá todas as condições para continuar no rumo do sucesso. Haja dinheiro, é caso para dizer, e quase todos os problemas encontram solução.

Trata-se de um centro muito exclusivo que tem apenas 200 alunos com um rácio de 15 alunos por professor. Uma formação semelhante à que recebia no “Pilar” e nos outros colégios privados de Madrid em que fez o seu agitado percurso escolar. Segundo se expõe na sua página web, “CIS é uma universidade, mas também uma Grande Família, na qual os alunos se sentem cómodos, cuidados e orientados na hora de tomar decisões académicas importantes”.

Ou, como já dizia no século XVII o grande poeta Francisco de Quevedo, poderoso caballero es don dinero…

Demasiada municipalização

A chamada descentralização de competências na Educação é, em boa verdade, uma municipalização do sector. O quadro elaborado pelo Público é elucidativo: tudo o que vá além da gestão mais básica do quotidiano escolar poderá passar a depender da autarquia. Em teoria, para além da gestão do pessoal docente e da definição do currículo, pouco mais continuará sob tutela ministerial.

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Se isto até pode funcionar razoavelmente com pessoas sensatas à frente das instituições e uma relação de confiança mútua entre elas, outros casos haverá em que até substituir uma lâmpada ou reparar uma fechadura poderão ser tarefas morosas e complicadas.

Julgo que não havia necessidade de ir tão longe neste processo, embora perceba que o bolo das comparticipações comunitárias para investimentos na Educação é apetecível e que só com a ajuda dos municípios e das comunidades intermunicipais é que o Estado lhe consegue deitar a mão. Mas para isso bastaria transferir as obras e construções escolares para a competência autárquica, resistindo à tentação de entregar à gestão municipal tudo aquilo que tem funcionado bem no âmbito da autonomia das escolas.