Salários portugueses ao nível do Terceiro Mundo

eugenio-santos.jpgSabemos que a competitividade da economia portuguesa tem sido construída, pelo menos desde o Estado Novo, com base nos baixos salários. Algo que o recente boom económico, assente sobretudo na hotelaria e na restauração, apenas veio acentuar. Criou-se emprego em sectores onde os ordenados tendem a alinhar com o salário mínimo, ao mesmo tempo que se continua a destruir emprego qualificado noutras áreas. Ou a aproveitar os níveis ainda elevados de desemprego para pagar a um engenheiro em Portugal menos do que ganha uma empregada de limpeza na Alemanha.

O baixo custo da mão-de-obra acaba por contribuir para a fraca qualidade de gestão da maioria das empresas portuguesas. Continuamos a ser um país mais de patrões do que de gestores e empresários. Se tivessem de pagar os salários que vigoram nos países com que nos gostamos de comparar, os administradores e gestores das empresas não teriam outro remédio senão melhorar drasticamente a organização e a produtividade para não se verem obrigadas a fechar as portas. Mas como os salários são baixos, estes acabam por servir de almofada aos custos da desorganização e da incompetência instalada no topo de muitas empresas portuguesas.

Tudo isto se sabe há muito tempo. Mas quando estas coisas são ditas por um empresário respeitado e que sabe do que está a falar, fica difícil disfarçar a incómoda realidade. As verdadeiras reformas de que a nossa economia necessita estão ainda por fazer. E não passam por dar ainda mais poder aos patrões, privatizar mais ou aumentar a precariedade laboral…

O dono da fabricante de colchões Colunex afirma que as empresas internacionais só veem Portugal como atrativo graças a uma mão-de-obra qualificada, mas barata.

“Andamos embebedados com esta coisa de sermos um país atrativo. Portugal é atrativo porque paga salários de terceiro mundo”, afirmou Eugénio Santos, citado pelo Jornal de Negócios.

“Portugal só é competitivo neste momento porque tem gente de primeiro mundo a ser paga como gente de terceiro mundo”, continuou o empresário no seu discurso numa conferência sobre competitividade das empresas em Matosinhos, esta quinta-feira.

Eugénio Santos afirmou que percebeu, numa visita recente a Xangai, que na China as costureiras dos seus clientes “ganham mais 30% a 40% do que as costureiras em Portugal”.

Para o dono da Colunex, “esta moda de Portugal ser um país competitivo não tem sustentabilidade”, e se se aplicasse a média salarial europeia às empresas portuguesas “iria fazer desaparecer 70% delas”.

Questionado pelo Jornal de Negócios, o empresário garantiu que pagava aos seus 120 trabalhadores salários “20% acima da média”.

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Um país preso por arames

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Não tem o impacto mediático de uma calamidade ocorrida na Grande Lisboa mas, três dias depois da passagem da tempestade Leslie, os seus efeitos continuam a fazer-se sentir nas regiões afectadas. E dão a imagem de um país que, embora se apresente de cara lavada nas zonas turísticas, continua preso por arames no que respeita a infraestruturas e equipamentos fora dos grandes centros.

No concelho onde trabalho não houve danos significativos resultantes da passagem do Leslie. Ainda assim, quase todos os alunos a quem ontem dei aulas não tinham electricidade em casa. À excepção da escola-sede do agrupamento, situada na sede do concelho, todas as outras escolas estiveram encerradas por falta de energia.

Os lucros dos chineses donos da EDP e os salários milionários de catrogas e mexias são sagrados, pelo que nada de pensar em enterrar cabos, se fica mais barato passar linhas eléctricas pelo meio de florestas. E já nos devemos dar por satisfeitos se, no fim das reparações, a EDP não decidir apresentar a conta das despesas aos cliente e aos contribuintes

Fica um breve panorama, necessariamente incompleto, do difícil regresso à normalidade nas escolas das zonas afectadas…

Mau tempo: Algumas escolas de Cantanhede encerradas na terça-feira, outras reabrem

A maioria das 53 escolas e jardins de infância do concelho da Figueira da Foz vai manter-se encerrada na terça-feira devido aos danos causados pela tempestade Leslie, anunciou hoje o presidente da autarquia.

[Em Soure] alguns estabelecimentos escolares vão já reabrir na terça-feira, mas deverão manter-se encerradas várias escolas básicas e a Escola Secundária Martinho Árias, situada na vila, devido a danos provocados nas coberturas, acrescentou Mário Jorge Nunes.

Dezenas de escolas afetadas pela tempestade Leslie. Saiba quais reabrem

O detector de mentiras

Porque haverá tantos pobres e remediados a defenderem ideologias de ricos?

Provavelmente, pela mesma razão que os leva a apostar no euromilhões…

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Diálogos fictícios

novo-buraco.jpgNo Novo Banco:

– Isto é um assalto!

– Desculpe, mas nós não temos dinheiro. Não vê as notícias?

– Dinheiro? Mas não vos estou a assaltar. Estava só a descrever o vosso modelo de negócio.

Daqui.

É fartar, accionistas!

CTT confirmam dividendo e entregam aos accionistas o dobro dos lucros obtidos

Tal como tinha sido anunciado em Outubro, o dividendo foi cortado para 38 cêntimos, mas esta remuneração corresponde a um “payout” acima de 200%. A empresa assume que os dividendos no futuro vão ser ajustados ao Plano de Transformação Operacional.

Quando, daqui por uns anos, a empresa hoje a saque pelos administradores e accionistas estiver destruída e mais um buraco financeiro de muitos milhões for revelado aos contribuintes, cá estaremos para resgatar os CTT. Será isso que se pretende com a inacção do governo, perante a gestão ruinosa da empresa e o reiterado incumprimento das obrigações do serviço público contratualizado?

Os Correios sempre foram públicos e são-no ainda hoje em quase todos os países. Foi preciso privatizarem-nos para que uma das melhores e mais sólidas empresas públicas portuguesas, que todos os anos entregava milhões em dividendos ao Estado, se tornasse naquilo que hoje vemos, prestando péssimos serviços à população ao mesmo tempo que os donos delapidam activos e dispensam trabalhadores.lucros-ctt

Rankings… da desigualdade

mexia.JPGAntónio Mexia ganha cerca de 52 vezes mais do que a média salarial dos trabalhadores da EDP. O presidente da elétrica nacional teve direito a 2,2 milhões de euros em 2017, entre remuneração fixa, variável e prémios.

Os custos com remunerações dos colaboradores do grupo EDP ascenderam a 491,7 milhões de euros, ligeiramente abaixo dos 493,7 milhões de 2016. Já os custos remuneratórios com os órgãos sociais aumentaram de 16 para 16,4 milhões de euros, sendo a maior fatia atribuída ao conselho de administração. Dividindo a massa salarial pelo número global de trabalhadores (11 657), conclui-se que o presidente executivo da EDP ganha cerca de 52 vezes mais do que a média do grupo. Ou seja, um trabalhador ganha, em média, pouco mais de 42 mil euros num ano.

A EDP, aumentando a sua despesa com a administração e reduzindo os encargos com os trabalhadores não alcança, ainda assim, o topo da disparidade salarial em Portugal. No primeiro lugar continua, destacado, o grupo Jerónimo Martins. Não é o ter criado uma fundação muito preocupada em estudar, em abstracto, “as desigualdades” que iliba o grupo da família Soares dos Santos da responsabilidade social concreta de pagar mal aos trabalhadores para aumentar os lucros dos patrões.

Recorrendo às contas de 2016, a Jerónimo Martins é claramente o grupo que contém a maior distância entre o topo e o fundo. Pedro Soares dos Santos, presidente executivo da dona dos supermercados Pingo Doce, arrecadou no total 1,269 milhões de euros em 2016, mais 46% em relação a 2015. Já a média salarial do grupo foi de 12 500 euros anuais por trabalhador. Na prática, Soares dos Santos ganhou mais 101 vezes que um colaborador da Jerónimo Martins.

Os dados do Eurostat revelam que Portugal é o quarto país da União Europeia com maior desigualdade salarial, apenas atrás de Chipre, Roménia e Polónia.

Voluntariado ou trabalho ilegal?

voluntariado.JPG[…] existem centenas de pessoas inscritas em plataformas como o Workaway para receberem “voluntários” em Portugal. E milhares de viajantes chegam todos os anos ao país dispostos a trocar umas horas de trabalho por cama, roupa lavada e, por vezes, comida. Tudo depende do acordo preestabelecido pelas duas partes. Trabalham em hostels, em retiros de ioga ou unidades de alojamento rural, em quintas agrícolas privadas ou comerciais, em escolas de surf, em empresas de passeios equestres ou restaurantes. Ajudam a cuidar dos filhos, dos idosos ou a reconstruir a casa herdada pela família.[…]

Subjacente ao conceito por trás de todas estas plataformas está uma troca em que as duas partes devem sair igualmente beneficiadas: o anfitrião recebe uma ajuda nas tarefas, enquanto o “voluntário” viaja de forma mais económica e aprende novas competências. Ambos ganhariam ainda com a partilha de experiências e o intercâmbio cultural entre pessoas de diferentes partes do mundo. Todos os sites que consultámos definem os viajantes como voluntários ou ajudantes, embora alguns falem de troca de trabalho, utilizando a expressão inglesa “work exchange”. Mas a definição é controversa. E sobram perguntas: estas situações entram, de facto, no âmbito do voluntariado? É uma entreajuda informal? Uma troca de experiências? Ou trabalho ilegal dissimulado?

Lendo a extensa reportagem do Público, confirma-se que a troca de trabalho por alojamento se tornou uma forma popular e económica, para adultos jovens, de viajar e conhecer outros países. Como é evidente, e apesar de haver também alguns abusos e experiências menos bem sucedidas, na maior parte dos casos as coisas funcionam a contento de ambas as partes. O hóspede consegue alojamento gratuito no local pretendido, em troca da prestação de serviços num regime de part-time, e o anfitrião complementa as suas necessidades de mão-de-obra num sistema informal que não lhe acarreta encargos nem responsabilidades. Então porque é que o sistema merece reservas?

A verdade é que todos estes novos esquemas do que vulgarmente se chama economia de partilha colocam em causa tanto os empregos a longo prazo de quem precisa mesmo de trabalhar como os sistemas de impostos sobre o rendimento e de segurança social em que assenta o Estado social em que todos queremos viver. Se posso arranjar informalmente um “voluntário”, para todo o serviço, para que hei-de contratar um trabalhador? Além de desvirtuar o conceito de voluntariado, estas trocas “em espécie” sobrecarregam as empresas e trabalhadores que pagam mantêm o velho hábito de pagar contribuições e impostos sobre os rendimentos do trabalho. E praticam, em relação a estas, uma concorrência desleal, forçando-as, para se manterem competitivas, a reduzir pessoal e a “esmagar” os salários.

Para além disso, há uma profunda irracionalidade em incentivar os mais jovens a prolongar a adolescência até aos trinta anos, coleccionando “experiências de vida”, enquanto uma geração mais idosa, hoje nos cinquentas e sessentas, vê o seu direito a uma reforma condigna sucessivamente adiado. Aos quais só se permite a reforma antecipada com fortes penalizações, porque se acha que os trinta e muitos ou os quarenta anos de descontos ainda não são suficientes. Mas incentiva-se a nova modernidade do trabalho informal sem descontos, sem direitos e, aparentemente, também sem grandes obrigações de parte a parte. Se correr mal, regressam a casa dos pais que, ainda que velhos e alquebrados, lá estarão para os sustentar enquanto for preciso.

Pela minha parte, não creio que na base disto esteja um qualquer conflito geracional. Trata-se,como sempre, da eterna reinvenção, pelo sistema capitalista, de novas e mais sofisticadas formas de exploração do trabalho. Mas atrevo-me a pensar que, num futuro em que haverá cada vez menos trabalho, será mais justo começar a trabalhar mais cedo, quando se tem saúde e energia, antecipando-se a idade da reforma de modo a que todos possam ter a possibilidade de gozar o merecido descanso ou experimentar o muito que ainda lhes falta viver. Até porque o descanso costuma ser mais merecido e proveitoso depois de se ter efectivamente trabalhado…