A escola do século XIX em imagens – IV

Jan Steen, Escola rural (c.1665)

De volta ao século XVII para ilustrar uma presença comum em muitas escolas ao longo dos tempos, até mesmo nos progressistas Países Baixos: o castigo corporal, neste caso aplicado com recurso à palmatória, um instrumento de punição, alguns dirão mesmo de tortura, que muitos portugueses hoje idosos ainda tiveram o desprazer de conhecer nos seus tempos de escola. Aqui quem, sob o olhar atento dos colegas, dá a mão à palmatória, é um desafortunado rapaz que terá, ao que podemos supor, rasgado e atirado ao chão a folha onde fazia os exercícios.

É muito antiga, e até certo ponto faz sentido, a associação do estudo ao esforço: para aprender é preciso vontade, determinação, persistência, espírito de sacrifício. Mais difícil de aceitar, e nos dias de hoje ideia definitivamente posta de parte, é que esse esforço deva assumir a forma de punição física. O velho ditado espanhol, la letra con sangue entra, não é definitivamente, para tomar à letra…

Voltando ao quadro, repare-se na simplicidade do mobiliário, numa sala de aula ainda pouco estruturada enquanto tal. Mesas e bancos – apenas o professor se sentará numa cadeira – compõem o mobiliário e contrastam com as lousas e os objectos de uso doméstico e quotidiano pendurados nas paredes. Escreve-se em folhas e cadernos com penas que se molhavam em tinteiros. O lápis não era ainda de uso comum e a caneta com aparo só surgirá no século XIX. No topo da imagem, passando quase despercebida num primeiro olhar, uma prateleira fixa à parede aloja os livros e papéis necessários ao ofício do mestre-escola.

Músicas de Verão: Caleb Klauder Country Band – C’est Le Moment

Prémio de carreira

Agora que professor volta a poder ser qualquer um, que tal um prémio de carreira para os docentes qualificados, competentes e esforçados que durante décadas aguentaram o barco? Aqueles que, nem sempre reconhecidos e apoiados pela tutela ministerial, conduziram os alunos portugueses a uma melhoria consistente dos seus resultados, comprovada pelas avaliações internacionais?

Bom, talvez seja melhor não dar ideias…

Imagem daqui.

Pensamento do dia

O estudo, o esforço, a disciplina e o trabalho são mitos, fantasmas da odiosa escola tradicional e oitocentista.

Excepto para os professores, que sempre serão os culpados de tudo o que está mal na sociedade porque lhes falta formação, esforço, trabalho e disciplina.

Daqui.

A escola do século XIX em imagens – III

Jean-Baptiste Trayer, Escola primária na Bretanha (1882)

Neste quadro, uma representação bastante realista de uma sala de aula na região da Bretanha, França. Trata-se de uma escola em ambiente rural, o que é sublinhado pela presença de uma galinha com os seus pintos na sala de aula, ante a indiferença geral da turma. Do lado oposto, o crucifixo pendurado na parede assinala que esta é, na França laica e republicana de então, uma escola católica.

Outra característica interessante é tratar-se de uma turma de raparigas. Com a extensão progressiva da escolaridade ao género feminino, os ainda rígidos padrões morais da época impunham, quase sempre, a separação de sexos, uma ideia que a moderna pedagogia desacreditou completamente, mas ainda subsiste em alguns colégios religiosos, assente no mito de que rapazes e raparigas aprendem de forma diferente, pelo que só em turmas separadas é possível levar uns e outros a alcançar o máximo das suas potencialidades.

Um olhar mais atento dirigido às pequenas alunas permite-nos captar algumas singularidades: enquanto a professora explica algo a uma das meninas, outras fazem os exercícios ou lêem a lição. Em primeiro plano, duas meninas puseram de parte o caderno escolar para brincarem com a pequena boneca que uma delas tem nas mãos. Na primeira fila, uma miúda cansada não resiste e adormece em plena aula: ir à escola implicava frequentemente um longo percurso a pé, pelo que muitas destas crianças já chegavam exaustas à sala de aula. Além disso, e ao contrário dos rapazes, a quem não era exigida a participação nas tarefas domésticas, muitas raparigas tinham de ordenhar animais, acender a lareira ou ajudar a mãe a tratar dos irmãos mais novos antes de saírem para a escola.

A solução para o desemprego jovem

Oportuna e mordaz, a resposta pronta de Antero Valério à intenção ministerial de conferir habilitação para a docência a todas as licenciaturas bolonhesas. Imagem daqui.

Como avaliar o trabalho docente?

Alexandre Mano faz interessantes reflexões acerca da avaliação do trabalho docente, uma profissão em que os resultados dificilmente se conseguem medir objectivamente. Desde logo, porque boa parte do trabalho do professor é solitário e invisível: preparar aulas, materiais pedagógicos e instrumentos de avaliação, orientar e avaliar trabalhos de alunos, cumprir as exigências da burocracia escolar…

Na escola trabalha, em regra, longe dos olhares de colegas e direcção. E mesmo com os alunos a relação é ambivalente: a empatia é um ponto importante na relação pedagógica, mas no dia-a-dia de um bom professor impõe-se a necessidade de incentivar e motivar os alunos a querer saber e fazer mais, a ir mais longe na busca de conhecimento e na compreensão e aplicação do que se aprende nas aulas.

Em suma, ser bom professor não é assumir-se como o bonzinho que evita aos alunos esforços e canseiras e faz vista grossa às suas falhas e disparates; é cultivar na sala de aula aquele ambiente de ambição e exigência moderadas que leve cada um a progredir dando o seu melhor, sabendo-se à partida que nem todos aprenderão ao mesmo ritmo ou alcançarão os mesmos resultados.

Muitos alunos são capazes de reconhecer, à posteriori, os bons professores que tiveram no seu percurso escolar e o que estes fizeram por si. Mas como identificar, de uma forma mais simples e imediata, as boas práticas de cada docente?

A resposta mais comum a esta necessidade passa pela apresentação de “evidências”, mas esta solução mais facilmente identifica os habilidosos na produção de registos escritos e de folclore escolar do que a qualidade e a relevância científica e pedagógica das actividades desenvolvidas. Ou o efectivo contributo para a melhoria das aprendizagens dos alunos. E rapidamente desemboca num aumento exponencial da burocracia escolar.

Sem a preocupação de encontrar uma resposta definitiva, o nosso colega deixa o convite à reflexão…

Um pedreiro faz um muro e o muro lá fica; um marceneiro constrói uma mesa e passa-se o mesmo. O trabalho das artes manuais é duradouro.

Há quem seja avaliado pela performance. Um atleta, um advogado ou até mesmo um médico podem apresentar o resultado do seu trabalho em quantidades.

E há quem venda produtos. Para estes também se pode medir a capacidade de trabalho em horas e receitas.

E um professor? Como se mede o trabalho de um professor?

Vem esta reflexão atrelada ao facto de ter concluído a formação de uma turma do ensino profissional que acompanhei do 10º ao 12º ano. Consultados os meus apontamentos, foram mais de 500 horas com cada um dos alunos só em sala de aula, sem contar com outros contextos, como estágio, trabalho de projeto final, recuperações, etc.

Chegando ao fim deste ciclo, pergunto-me: o que fiz eu que fosse mensurável, que se possa quantificar, que objetivamente tenha feito a diferença?

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Músicas de Verão: Jessica Rhaye & The Ramshackle Parade – Blowin’ In The Wind

Habilitações ou “percursos formativos” para a docência?

As habilitações necessárias para dar aulas estão a ser alteradas para permitir alargar o leque de potenciais candidatos aptos a ensinar, anunciou esta sexta-feira o ministro da Educação. “Estamos a ultimar uma alteração ao despacho para habilitações para a docência que vai permitir alterar e alargar o leque de candidatos para a docência”, anunciou João Costa, durante uma conferência de imprensa destinada a fazer um balanço das listas de colocação dos professores, entretanto divulgadas.

As alterações ao diploma estão a ser preparadas e serão “publicadas brevemente”, faltando apenas realizar “algumas consultas”, disse. De acordo com o ministro, em vez de se associar a habilitação própria para a docência às listas de licenciaturas “olha-se para o percurso formativo dos candidatos”, tendo em conta as disciplinas realizadas no ensino superior em determinadas áreas.

Mais um coelho que se tenta tirar da cartola para resolver um problema que não se soube antecipar: a falta de candidatos para a docência num grupo de recrutamento específico, o de Informática, onde facilmente se encontram empregos mais bem pagos e com menos chatices do que ir para uma escola, a contrato temporário, dar aulas a 15 ou 20 turmas.

Já nem quero antever a trapalhada que aí virá com a análise do “percurso formativo”; percebe-se que é um eufemismo para escamotear o essencial da questão: como não arranjam professores habilitados, querem desenrascar com licenciados de outras áreas que tenham tido uma ou outra cadeira de Informática no seu curso superior.

Acrescento apenas que esta é uma matéria que, envolvendo condições de trabalho e de acesso à profissão, é de negociação obrigatória com os sindicatos. Mas o ministro, na linha do seu antecessor, apenas se acha obrigado a fazer “umas consultas”, como aliás já tinha sucedido na revisão do regime de mobilidade por doença. Não se esqueçam de vir depois falar em consenso, diálogo, compromisso…

Saíram as colocações

Estão disponíveis no site da DGAE as listas definitivas da mobilidade interna e da contratação inicial para o ano escolar 2022/2023.

Seguir os links para consulta e ler a nota informativa oficial para mais informações.

Listas definitivas de mobilidade interna 2022/2023

Listas definitivas de contratação inicial 2022/2023