Finalmente perceberam!

burroApenas os alunos que entrem, no próximo ano lectivo, no 5.º, 7.º e 10.º anos vão ter que fazer a respectiva inscrição através do Portal das Matrículas. O Governo decidiu mudar as regras face aos constrangimentos que o site tem tido nas últimas semanas devido ao elevado tráfego registado. Além dos alunos que iniciam um novo ciclo de ensino, mantêm-se obrigatoriamente online os processos de transferência de escola.

Frustração colectiva e milhares de horas perdidas a tentar aceder a uma plataforma quase sempre sobrecarregada. Sucessivos alargamentos de prazos impossíveis de cumprir. Alegados “ataques informáticos” que colocaram o sistema fora de serviço.

Foi preciso isto tudo para que o ME percebesse finalmente o que era óbvio desde o início: no âmbito da escolaridade obrigatória os alunos não têm a opção de desistir de estudar, pelo que até aos 18 anos as matrículas se renovam automaticamente. Apenas é necessária a intervenção do encarregado de educação quando o aluno muda de escola ou, nalgumas transições entre ciclos, para a escolha do curso ou de disciplinas opcionais.Como já se fazia, há muitos anos, na generalidade das escolas.

As atribulações em torno do Portal das Matrículas demonstram que por detrás da imagem de modernidade tecnológica e de “autonomia das escolas” que se tenta projectar, subsiste a velha alma burocrática e centralista que sempre caracterizou o ME.

Em vez de se reduzir ao mínimo a burocracia escolar, o que se faz é apenas no sentido de a desmaterializar. Podemos, ao não ver os papéis, ter a ilusão de que eles desapareceram. Pelo contrário: o controle administrativo do ME sobre as escolas, os alunos e os profissionais da Educação nunca foi tão forte.

Como os pais, que perderam o seu tempo a tentar fazer uma matrícula que agora se assume ser desnecessária acabam de perceber. Da pior forma…

Tecnologia vintage

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Cartoon de origem indeterminada, em circulação nas redes sociais.

Aprender menos e ter melhores notas

exame-ginasio.JPGOs professores do ensino superior alertaram esta segunda-feira para o risco de os alunos que este ano fazem os exames nacionais terem melhores resultados, mas estarem pior preparados para frequentar as universidades e institutos politécnicos.

No arranque da primeira fase dos exames nacionais, que este ano são facultativos e apenas relevam enquanto provas específicas para o acesso ao ensino superior, é expectável um panorama avaliativo diferente do habitual.

Como as notas dos exames – que tendem a ser inferiores às classificações internas dos alunos – não contam para a média final das disciplinas, o efeito imediato será um inflacionamento das notas finais.

Mas também as notas dos exames poderão ter tendência a aumentar, relativamente a anos anteriores. Isto mesmo assumindo que as condições atípicas em que decorreu o terceiro período condicionaram negativamente a consolidação de aprendizagens. É que, por um lado, a maioria das perguntas são opcionais, sendo consideradas apenas aquelas que os estudantes escolherem ou em que tiverem melhores resultados. A percepção geral, que o exame de Português hoje realizado parece confirmar, é a de que teremos este ano provas mais acessíveis.

Por outro lado, ao funcionarem exclusivamente como provas específicas, será menor o universo de alunos a avaliar. Os alunos que se inscreveram nos exames são, à partida, os que têm a ambição de se candidatar ao ensino superior e apenas se inscrevem em disciplinas que são essenciais para a área ou o curso que pretendem seguir, o que traz só por si uma motivação acrescida.

E eis as razões pelas quais 2019/2020 poderá muito bem vir a ser o ano lectivo em que menos se aprendeu, mas também aquele em que melhores notas se obtiveram…

Pensar fora da caixa

thinking-outside-the-box.jpgIndo além das numerosas contingências e sacrifícios que nos vai impondo, o combate à pandemia poderia ser uma oportunidade de mudança na Educação. Recentrando a escola, não nos preconceitos, nos dogmas e nas ambições pessoais dos governantes e dos seus medíocres conselheiros, mas no que é realmente importante e estruturante para a formação escolar, social e pessoal dos alunos.

Precisaríamos, claro, de decisores que não fossem tão quadrados no pensamento e na acção, capazes de pensar fora da caixa, sacudindo de vez as teias mentais que tolhem o passo em direcção às mudanças realmente necessárias.

E não é muito difícil encontrar soluções simples, eficazes e não necessariamente muito mais dispendiosas para continuar a aprender na escola presencial. Se são ignorantes nestas matérias – como o ministro, cada vez que abre a boca, faz questão de demonstrar – ou não encontram ajuda e inspiração entre a sua corte, deveriam ter a sensatez a a humildade de ouvir quem sabe – nomeadamente os professores que estão no terreno, que trabalham diariamente na sala de aula e que nunca abandonaram os seus alunos em busca de outros desafios.

Leiam por exemplo a proposta do nosso colega Duilio Coelho, que explica com clareza o que poderia ser alterado no primeiro ciclo, em alternativa à salgalhada curricular em que sucessivas e insensatas reformas o transformaram.

Os alunos do 1.º ciclo deveriam ter apenas aulas no periodo da manhã, deixando as tardes para:
– Atividades Extra-Curriculares;
– Estudo;
– Atividades Desportivas;
– Atividades Culturais;
– Atividades Musicais;

Não tenho qualquer dúvida em afirmar que a aprendizagem dos alunos seria bem superior, os níveis de motivação e concentração de manhã são muito superiores ao periodo da tarde.
O segundo aspeto era reduzir a gordura curricular, pois o atual currículo é reconhecidamente desadequado para a maioria dos alunos, não dando tempo para trabalhar consistentemente os aspetos mais importantes do desenvolvimento do aluno.

A continuação do trabalho do professor poderia ser de forma remota, de tarde, para os alunos com dificuldades de aprendizagem, que recebiam lições extra em casa ou na escola acompanhados de adultos.

Este horário permitia acionar mais facilmente um plano de emergência “COVID” sem os sobressaltos da última interrupção lectiva presencial. Reduzia os tempo de presença de alunos e professores nas escolas e diminuía o risco de contágios, quer da gripe quer do Covid e outros problemas relacionados com permanência excessiva em ambiente escolar.

Como é que quatro elefantes cabem num Mini?

mini.jpgClaro que terão de ser dois à frente e dois atrás, o problema é enfiá-los lá dentro…

A piada já tem barbas, mas o modo de pensar é o mesmo que segue o ministro da Educação. Dê por onde der, as turmas têm de caber nas salas que lhes estão destinadas.

Claro que com turmas mais pequenas seria possível, além de os enfiar nas salas, respeitar igualmente o distanciamento físico entre alunos recomendado pelas autoridades de saúde pública.

E nunca as teorias de certos pedagogos acarinhados pelo ME, que defendem o derrube das paredes físicas das salas de aula, estiveram tão actuais.

Mas tudo isto é liminarmente descartado pelo ministro:

Os alunos vão caber todos na mesma sala. Não haverá desdobramento de turmas.

Entre a contenção orçamental no sector da Educação e a tomada de medidas que possam reduzir os riscos de propagação do novo coronavírus no contexto escolar, a opção está feita, e é óbvio que a escolha feita não é a que melhor defende a preservação da saúde de alunos e professores.

Colaborações: ComRegras – Avaliação da Semana

 Reuniões online

Apesar de alguns directores teimosos, aparentemente com saudades dos professores que superiormente dirigem, terem insistido nas reuniões presenciais, a maioria das escolas realizou os conselhos de turma através de videoconferência. E, de um modo geral, correu bem…

 Amadorismo na administração escolar

Dois casos muito falados esta semana evidenciam a desorientação e incompetência, à mistura com alguma arrogância e teimosia, dos responsáveis pela burocracia ministerial.

Um deles, a insistência com que se quis obrigar a entregar os manuais escolares emprestados pelas escolas, sabendo-se, como anunciado pelo próprio ministro, que o início de 2020/21 será de recuperação de aprendizagens…

 Más notícias para 2020/21

Longamente adiada, a divulgação das normas decididas pelo Governo para o próximo ano lectivo confirmou as piores expectativas. Sem perspectivas de que a pandemia esteja dominada em Setembro, as aulas presenciais poderão em qualquer altura ser substituídas por um regime não presencial ou misto. Mas são dadas muito poucas condições e orientações concretas às escolas para que fazerem essa gestão…

Calendário escolar 2020/21

O calendário escolar para o próximo ano é estabelecido pelo Despacho n.º 6906-B/2020, ontem publicado em Diário da República.

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Fazendo figas para que este seja já um ano “normal”, o ME inclui, nos nove anexos do documento, os calendários das provas de aferição e dos exames dos diversos níveis de ensino. Vamos a ver se a evolução da situação epidemiológica não lhe prega alguma partida…

Confundindo qualidade com quantidade, ou seja, mais dias de aulas com melhores aprendizagens, o ME tenta compensar as perdas do ano lectivo que passou aumentando a duração do próximo. Assim, as férias da Páscoa são reduzidas e o 3.º período é alongado, principalmente no 1.º e 2.º ciclos, que terminarão as aulas no último dia de Junho.

Para quem ainda não percebeu como estas coisas se fazem, aqui têm uma demonstração de como a pandemia pode ser usada para impor, sem contestação significativa nem discussão alargada, um “novo normal”. Neste caso, um calendário lectivo esticado ao máximo, a entrar pelo Verão dentro. Mas que continua a ignorar a necessidade de mais pausas lectivas de permeio, como geralmente sucede nos países que têm férias de Verão mais curtas.

Mais (des)orientações

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Em complemento do documento orientador para a organização do próximo ano lectivo, que comentei no post anterior, também foram ontem divulgadas orientações mais específicas, elaboradas em conjunto com a DGS, acerca dos condicionamentos impostos pela pandemia ao funcionamento das escolas e infantários.

Passando adiante o que todos já sabem – arejar e higienizar os espaços, evitar ajuntamentos de alunos e entrada de pessoas exteriores à comunidade escolar, manter um espaço de isolamento de casos suspeitos, lavar e desinfectar as mãos com frequência – na organização das aulas há duas expressões que se destacam: “sempre que possível” e “preferencialmente”.

Ou seja, não se mexe no número de alunos por turma, mas espera-se que os alunos caibam todos nas salas existentes, cumprindo as regras de distanciamento. Ou então pensam que existem dúzias de salões, ginásios, auditórios, salas de convívio nas escolas portuguesas, e basta levar as turmas para esses espaços.

Encurta-se a distância mínima para um metro – pode ser que assim caibam, pensarão os doutores orientadores – mas esquece-se que a generalidade das escolas está equipada com mesas duplas. E não se equaciona sequer a compra de mais mesas ou a colocação de divisórias acrílicas que possam criar algum isolamento entre alunos.

Lendo este documento, a ideia que fica é a de uma visão ficcionada da escola portuguesa, idealizando-se uma realidade, decorrente do desconfinamento, que é impossível de concretizar.

Uma vez mais, discorre-se sobre uma imensidade de coisas que directores, professores e funcionários deverão fazer, para tornar as escolas espaços seguros mesmo durante a pandemia. Mas não há uma palavra que expresse qualquer tipo de compromisso dos responsáveis, no sentido de que essas condições de segurança possam ser criadas.

Orientações para o novo ano lectivo

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Chamam-lhe Orientações para a organização do ano letivo 2020/2021, mas o documento é um verdadeiro plano de trabalhos para que as escolas acrescentem, a tudo o que já faziam antes, autênticos milagres de distanciamento físico em salas e com turmas que continuam com as mesmas dimensões que tinham antes da pandemia, de gestão de horários, enfiando numa manhã ou numa tarde as aulas que antes ocupavam o dia, de atender a uns alunos presencialmente e a outros por contacto remoto, sem esquecer aqueles que poderão estar em regime misto.

O mais degradante disto tudo é que o aumento de recursos que se disponibilizam, nomeadamente em crédito horário, é pouco mais do que simbólico. Em contrapartida, e como sucede sempre que o ME decide “orientar” as escolas, aumenta a carga burocrática que recai sobre os professores. Quase tudo tem de ser reportado e, nalguns casos, autorizado. E em vez de dar orientações mais precisas e comprometedoras, o ME prefere resguardar-se, dando às escolas autonomia para irem fazendo… Um presente envenenado, pois responsabiliza-as directamente por tudo o que venha a correr mal. Quanto ao ME, fará aquilo que, com a pandemia, se tornou regra obrigatória: lavar bem as mãos. Irá, obedecendo às instruções da DGS, lavá-las muitas vezes…

Do documento, que se pode descarregar a partir do link no topo do post, deixo os principais destaques:

  • Escolas e agrupamentos devem estar preparados para alternar entre regime presencial, não presencial e misto, consoante a evolução da pandemia e as indicações das autoridades de saúde pública;
  • O regime presencial é a situação desejável e deve ser mantida sempre que possível;
  • No caso de não ser possível manter todos os alunos na escola, é dada prioridade aos alunos do 1.º e do 2.º ciclo, aos que não têm em casa os meios e os apoios para estudar e aos que necessitam de apoios educativos que tenham de ser dados presencialmente;
  • Se for implementado o ensino não presencial, seguir-se-á uma rotina semelhante à que conhecemos este ano, com a elaboração de um plano de ensino a distância e a recolha semanal de evidências do trabalho e da participação dos alunos.
  • Haverá um reforço do crédito horário, traduzido na fórmula CH = 8 × n.º de turmas – 50 % do total de horas do artigo 79.º do ECD, que nos TEIP será um pouco mais generoso – o multiplicador 8 aumenta para 11;
  • O Apoio Tutorial Específico, uma invenção da equipa de João Costa cuja real utilidade continua por demonstrar, será no próximo ano alargado a todos os alunos que ficaram retidos;
  • Além do programa de tutorias, haverá também um programa de “mentorias”, com o qual se tentará que alunos com melhor aproveitamento ajudem outros em dificuldades – também aqui, o voluntariado inter pares fica mais barato do que contratar professores e técnicos de apoio…

Músicas Portuguesas: António Zambujo e Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento – Trago Alentejo na Voz