Menina não entra?

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Se no plano dos princípios é fácil encontrar consensos, consagrá-la, na prática quotidiana, pode não ser tarefa fácil. Estou a referir-me à igualdade de género e a pensar sobretudo nas escolas onde, além do cumprimento formal dos preceitos legais e constitucionais, se colocam também as questões pedagógicas. Fazem sentido aulas de Cidadania se depois, perante situações concretas, nos limitamos a reproduzir os velhos estereótipos dos rapazes que jogam à bola e das meninas que brincam com bonecas?

Nuno Mário Antão estava esta terça-feira numa reunião de pais no Centro Escolar de Marinhais, em Salvaterra de Magos e, de repente, viu na parede o horário do campo de jogos: segunda-feira, 1.º ano; terça-feira, 2.º ano; quarta-feira, 3.º ano; quinta-feira, 4.º ano; sexta-feira, meninas. Este último a cor-de-rosa.

Ficou indignado. O que queria dizer aquilo? Segregação por género num campo de jogos de uma escola de primeiro ciclo do Portugal do século XXI? “Explicaram-me que o que lá jogam é futebol e que os meninos não deixam as meninas jogar com eles. Se não deixam, têm de ser ensinados a deixar!” A igualdade de género já é tema obrigatório no ensino básico e secundário.

Antes de se condenar os responsáveis escolares, reconheça-se que esta decisão, podendo não ser perfeita, terá nascido para dar resposta a uma situação concreta: a maioria dos rapazes gostam de jogar futebol no tempo do recreio; a maior parte das raparigas nem por isso. Então, a preocupação foi gerir a utilização do espaço de forma a garantir o acesso a todos os alunos. E, já que os meninos não querem jogar com as meninas, reservando um dia só para as estas. Discriminação positiva, considera a adjunta da Direcção.

Como é evidente, a igualdade de género não determina que as raparigas devam passar a gostar de jogar à bola da mesma forma que os rapazes. Nem pressupõe que se faça uma divisão igualitária entre os dois sexos na utilização do campo de jogos, pois o objectivo não deve ser segregar, mas integrar.

O problema está, parece-me, em assumir-se como natural que os meninos não queiram envolver as meninas nos seus jogos e a escola ache isso normal. Há estereótipos de género a que as crianças vão sendo expostas, desde a mais tenra infância, e em que participam a família, o círculo de amigos e a sociedade no seu conjunto. E a escola, em vez de, pela acção pedagógica, os contrariar, está a reforçá-los.

Da leitura integral da peça do Público sobressai a perspectiva dos responsáveis escolares – e posteriormente também da associação de pais – de que tudo isto não passará de um falso problema. Uma tempestade num copo de água. Os representantes dos pais não deixam de ter razão quando notam que mais graves e prementes são os problemas da falta de assistentes operacionais e de manutenção dos espaços escolares.

Talvez seja mesmo a falta de meios que leva a direcção do agrupamento a defender uma medida que, garante, deixa os miúdos tranquilos. Só que, como refere o pai que apresentou a queixa, tranquilidade não é a questão essencial. E nota: “O modelo da mulher a trabalhar na cozinha e o homem a ver a bola na sala também era muito tranquilo.”

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A despedida do Harrison

harrison.jpgForam mais de 2700 os jovens que fizeram o último Harrison de sempre: o temido e polémico exame que dá acesso à especialidade que deverão seguir. Há 40 anos que a prova tem vindo a gerar controvérsia na área da saúde. Na generalidade, a comunidade médica e os estudantes concordam com a sua substituição por um novo modelo fortemente baseado em casos clínicos, como está previsto que seja o exame do próximo ano – a Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada.

Em contraste com o Harrison — muito baseado na memorização de cerca de três mil páginas —, o novo exame vai basear-se mais no raciocínio e avaliar o conhecimento clínico dos candidatos, abarcando novas áreas que o Harrison não incluía, como a psiquiatria, a ginecologia ou a pediatria.

Não sendo um fundamentalista nesta matéria, reconheço que há situações em que a realização de um exame é a forma mais célere, justa e eficaz de comprovar a aptidão dos candidatos – por exemplo, na atribuição da carta de condução – ou de seleccionar e seriar os candidatos a um curso superior ou formação especializada – é o caso do ingresso na especialidade por parte dos médicos recém-formados.

O problema é o tipo de exame que se faz. Podemos, ficando parados no tempo, continuar a insistir no apelo à memorização. Ou apostar numa avaliação mais abrangente, mais focada nas capacidades e competências que os futuros especialistas terão de desenvolver na prática clínica. O Harrison assenta numa concepção completamente ultrapassada e a sua substituição era inevitável. Já tem sucessor anunciado e, se tudo correr bem, desaparecerá no próximo ano sem deixar saudades.

Ainda assim, o mediatismo deste exame chama a atenção para outras realidades que lhe estão associadas. Desde logo, a verdadeira indústria que se formou em torno da “preparação” dos candidatos. E os “efeitos secundários” de uma prova demasiado competitiva e assente exclusivamente na capacidade de memorização…

Inscreveu-se na Academia porque sentiu que precisava de orientação no estudo. “Fiz os cinco cursos e o intensivo. Paguei cerca de mil euros, mas sinto que foi bom investimento. Estou bem preparada”, diz. A este valor somam-se 120 euros de fotocópias do livro no qual se baseia a prova (que custa 250 nas livrarias), cem de material e um valor de fotocópias que não sabe precisar. Contas rápidas, chegamos à conclusão de que há colegas que gastam mais de 1500 euros para preparar o exame. Sabe-se que também há quem recorra a Ritalina ou a antidepressivos para aguentar o ritmo. “Só bebo café”, assegura a jovem médica.

Pedro Martins, de 24 anos, também tirou 77% na prova de simulação, mas concorda que os resultados destes exames devem ser “relativizados”. Considera-se calmo e bem preparado. “No verão não ultrapassava as 12 horas de estudo por dia, mas a partir de setembro comecei a chegar às 15.” Dormia sete horas por noite, mas começou “a ter sintomas de cansaço, depressivos”. Foi então que decidiu “cometer a loucura de passar a dormir oito horas”. Para descansar bem, precisa de não pensar no exame pelo menos meia hora antes de ir para a cama. “É como uma maratona. Precisamos de ser regrados”, diz o médico recém-graduado, que espera uma vaga em Medicina Desportiva. Há muita pressão: no ano passado abriu apenas uma, e entra quem tiver a melhor nota. “Para o nível de estudo que tive, espero acima de 80%.”

Subjacente a todo este stress, está uma realidade incontornável: de há alguns anos a esta parte, estão a abrir nas faculdades de Medicina muito mais vagas do que as que são disponibilizadas para a especialidade. O que significa que, de ano para ano, há um número crescente de jovens médicos sem acesso ao internato e à formação especializada. Dentro de dois anos, prevê-se que sejam já mais de quatro mil. Sabendo-se que os médicos indiferenciados não poderão trabalhar de forma independente, faz sentido perguntar a quem interessa o aparecimento deste proletariado médico. Ou ainda: o que ganhamos em forçar estes profissionais, em cuja formação o país tanto investiu, a emigrar para conseguirem obter a especialidade?

O problema não é de resolução fácil. Aumentar as vagas para as especialidades, que já estarão no limite, iria comprometer a qualidade da formação. Reduzir as vagas dos cursos de Medicina aumentaria ainda mais a pressão sobre cursos que continuam a ser dos mais procurados. E apesar de formarmos mais médicos, continua a haver falta recorrente de clínicos especializados em muitos lados, sobretudo no interior do país. Talvez uma solução equilibrada necessite de conjugar estas três vertentes: a formação académica, a especialização e a colocação dos médicos onde eles são necessários.

Uma geração superficial?

estudo-e-telemovelBom dia ou boa noite, professora. Nas próximas duzentas a trezentas palavras lerá aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou escrever. Por isso mesmo, sente-se, coma qualquer coisa e tenha misericórdia de mim.

A professora Carmo Machado usa esta advertência do seu aluno como ponto de partida para uma interessante reflexão sobre os efeitos que a falta de hábitos de leitura e a omnipresença dos jovens na internet e nas redes sociais está a ter na capacidade de concentração, na compreensão do pouco que lêem e, também, nas competências de escrita dos actuais estudantes. Estaremos, com a ajuda do dr. Google, do Youtube e das redes sociais, a formar uma geração superficial?

Sim, a maior parte dos alunos tem aversão à escrita porque não lê, sentindo uma enorme dificuldade em escrever, problema que aumenta de ano para ano. Ler estimula o raciocínio, desenvolve o vocabulário, aumenta a capacidade de interpretação, diminui os erros ortográficos, ajuda a produzir textos coesos, desenvolve a capacidade argumentativa, só para referir algumas vantagens. De facto, se vocês não lerem, como irão conseguir escrever? A esta pergunta, alguns alunos respondem-me de imediato: Ó stora, mas a gente lê. Todos os dias lemos imensas coisas na Internet… Bingo!

[…] A geração com que trabalho é uma geração alienada e cada vez mais superficial. A internet, sabemo-lo, veio mudar o mundo. Está a mudar as nossas vidas e começou já a transformar os nossos cérebros.

A dependência do computador e da ligação à rede começa a interferir na forma como percecionamos o mundo, provocando danos irreparáveis na maneira como utilizamos a linguagem. Penso que reside aqui, neste uso e abuso que fazemos das tecnologias, uma das principais causas das dificuldades crescentes dos alunos no uso da escrita. O que pode então a Ciência dizer-nos sobre as consequências do uso da internet nos nossos cérebros e nos cérebros dos nossos alunos? Muito mesmo. Vários estudos realizados por educadores, investigadores de diferentes áreas como psicólogos e neurobiólogos mostram que quando os alunos estão em rede (o que acontece a maior parte do tempos nos dias que correm), o ambiente em que se encontram promove uma leitura negligente e rápida. Ora, neste contexto, o pensamento torna-se também ele apressado sendo a aprendizagem que fazemos das coisas cada vez mais superficial.

O que fazemos quando estamos em rede acarreta consequências neurológicas impercetíveis no imediato mas cujo efeito é preocupante. Não é preciso ser-se professor para se constatar que a capacidade de concentração dos jovens e adolescentes é cada vez menor. Na verdade, tal como o tempo gasto a explorar páginas web (na maior parte das vezes sem qualquer conteúdo de interesse) suplanta o tempo que passamos a ler noutros registos e formatos (já nem me atrevo a referir-me aos livros), também o tempo que se consome a redigir mensagens curtas de texto (vulgo sms) suplanta o tempo que se utiliza a escrever um parágrafo, vários parágrafos, um texto… Deste modo, enquanto saltitamos entre hiperligações que nos levam a nenhures perdemos a oportunidade de refletir silenciosamente. Eis o ponto seguinte desta rede de vazios. O silêncio é praticamente inexistente na vida dos nossos alunos. Dentro ou fora da aula, os alunos não o conhecem. Logo, os antigos processos e funções intelectuais que permitiam o raciocínio aprofundado e a reflexão começaram a destruir-se e a desaparecer. O cérebro recicla os neurónios e as sinapses não utilizadas, dando-lhe outras tarefas mais urgentes. É certo que os alunos possuem e/ou ganharam outras competências que nós não possuímos mas perderam capacidade de foco e de concentração. Segundo Nicholas Carr, o nosso cérebro está a regredir ao cérebro primitivo ou reptiliano, em alerta e distração permanente.

Há muito que se notava que as novas tecnologias de informação estão a mudar o modo como aprendemos e como nos relacionamos com as outras pessoas – sobretudo os mais novos, cujas mentes são mais influenciáveis e moldáveis. Mas hoje, os professores e os pais mais atentos vão-se apercebendo de que, apesar de podermos ter “o conhecimento na palma da mão”, nem todas as mudanças não positivas.

As evidências que se vão somando parecem demonstrar que a exigência de uma escola livre de telemóveis, por exemplo, não é apenas um capricho de professores que querem dar as suas aulas sem distracções. Ela pode vir a ser condição essencial para satisfazer a necessidade de criar, na vida das nossas crianças e adolescentes, espaços e tempos em que permanecem desligados da rede. Para que os jovens cérebros possam processar o excesso de informação que vão recebendo e dar uso às funções que vão atrofiando. Ganhando tempo para falarem e se ouvirem uns aos outros e aos seus professores, e a oportunidade de fazerem coisas como ler um livro ou, simplesmente, ouvir o som do silêncio…

A complexidade do problema e dos efeitos a longo prazo que a alienação digital poderá ter nas gerações ditas do milénio recomenda ainda duas precauções básicas. A primeira, que se continue a investigar e a discutir o tema, pois não se pode agir acertadamente sem conhecimento suficiente. A outra é afastar o mais possível, dos processos de decisão, a influência dos maus conselheiros:  os vendedores de tecnologia, os demagogos da sociedade de informação e todos os influenciadores e empreendedores em busca de dinheiro fácil ou fama imediata.

Mobilidade por doença 2018/19

Usando de uma transparência que é de louvar – no tempo de Nuno Crato, um conhecido apreciador de estatísticas, nunca vi estas contas serem apresentadas publicamente – a DGAE divulgou os números referentes às colocações através da mobilidade por doença.

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Como era esperado, o número de docentes colocados continua a crescer de ano para ano: passou-se de 5210 em 2017 para 6478 em 2018, o que se traduz num aumento de 24%. Mas esta situação só em parte se justifica pelo envelhecimento da classe docente, com o que isso implica de aumento dos problemas de saúde que vão afectando sobretudo os próprios professores (64%) e os seus familiares idosos (19,9%).

De facto, a idade e a doença não explicam tudo: um docente fragilizado por uma doença grave ou pelo apoio quotidiano que tem de prestar a um familiar dependente não teria necessidade de recorrer a este tipo de mobilidade se estivesse colocado, de forma permanente, perto de casa.

O gráfico apresentado na nota informativa é revelador: as colocações ao abrigo da MPD verificam-se sobretudo no norte do país, decrescendo à medida que nos deslocamos para os QZP situados mais a sul. Isto significa que o problema de fundo não está na doença, mas num sistema de concursos que gera graves injustiças e disfuncionalidades.

Quando um professor do quadro com mais de vinte anos de serviço necessita de recorrer à MPD para não ir parar a uma escola situada a mais de cem quilómetros de casa, é evidente a necessidade de uma reestruturação profunda em todo o sistema de quadros e mobilidades, promovendo uma efectiva estabilidade e impondo a graduação profissional como critério principal para a ocupação das vagas.

Independentemente de tudo o que se possa dizer sobre a justeza destas colocações ou dos abusos que todos sabemos que também ocorrem, a verdade é que colocar quase 6500 professores independentemente de vaga será sempre uma péssima forma de gerir recursos humanos e dinheiros públicos.

Preso por ter cão…

greve…e preso por o não ter.

Os sindicatos são frequentemente acusados de estabelecer exigências e prioridades reivindicativas e de negociar em nome dos professores sem os ouvir como deveriam. Mas quando decidem consultar a classe, surgem de imediato as críticas em sentido oposto: afinal não o deveriam fazer, pois estão fartos de saber o que os professores querem, e a consulta será apenas uma cortina de fumo para uma qualquer manobra tenebrosa congeminada pelos malvados sindicalistas. Ou então, mais prosaicamente, querem apenas suspender a luta, para que tanto eles como os seus representados possam gozar as merecidas férias…

Experimentadíssimo nestas lides, ao Paulo Guinote bastou pouco mais do que um título inspirado, dado a um post aparentemente inocente, para aglutinar algumas dezenas de comentários de outros tantos professores que se divertem amargamente a malhar nos sindicatos.

E eu, apesar de já ter perdido a conta ao número de vezes que, em dez anos, assisti a este número, continuo a sentir-me tão perplexo como quando o vi pela primeira vez. Pois me parece que há uma realidade evidente que as pessoas fazem por desentender.

Basicamente, é isto:

Já que não podemos bater no patrão, batemos no sindicato.

O patrão achou que já chegava de greves e mandou parar a brincadeira, e segunda-feira lá iremos obedientemente, se for caso disso, cumprir os serviços mínimos. Mas, entretanto, mostramos a nossa intransigência e o nosso radicalismo aos colegas do sindicato: não pensem eles que brincam connosco e que não os topamos!…

É, como no futebol profissional, quando os adeptos criticam as arbitragens: a nossa equipa não foi capaz de vencer o adversário, mas a frustração da derrota fica mais fácil de suportar se, em vez de reconhecermos que jogámos mal, pudermos culpar o árbitro que alegadamente nos prejudicou.

E, contudo, a verdade é muito simples: não é o sindicato que nos corta os salários, que nos impede as progressões, que nos desconta tempo de serviço, nos sobrecarrega de trabalho ou degrada as nossas condições laborais. E quando o patrão-Estado – cada vez mais o patrão-Governo – nos faz essas maldades e vê de seguida os professores lesados a virarem-se uns contra os outros ou contra os sindicatos que os defendem, em vez de se manterem unidos e protestarem contra quem os lesou, não poderá deixar de, no mínimo, sorrir de satisfação.

Também não é menos verdade, se bem que este ponto seja ainda mais difícil de aceitar, que os sindicatos dos professores emanam do grupo profissional que representam, e os seus erros e insuficiências reflectem também as nossas próprias limitações enquanto classe profissional. Espelham-nos, e nem toda a gente gosta da imagem que vê reflectida… Da mesma forma que os posicionamentos políticos de diferentes sindicatos e sindicalistas traduzem a pluralidade do espectro político que existe, e ainda bem, entre os professores.

E mais: se os professores são diversos em tanta coisa, sê-lo-ão também na forma como abraçam as lutas em defesa dos seus direitos. Na actual greve às avaliações, por exemplo, temos um punhado de escolas onde ainda não se fez uma única reunião. Mas também há outras, certamente uma minoria, mas existem, onde a greve não teve qualquer expressão. Alguns professores entraram na luta logo no início de Junho, aderindo à greve do STOP. Outros estrearam-se apenas no dia 18, mas mantêm-se na luta com toda a pedalada. Há aqueles que já fraquejam. E escolas onde meia dúzia de resistentes tentam manter a luta perante a indiferença, quando não a hostilidade, de colegas e de directores.

Cada um destes professores tem o seu próprio posicionamento perante a luta colectiva, sendo que a maioria acaba por ser influenciada, bem ou mal, pela dinâmica do corpo docente da sua escola. Mas a perspectiva sindical é necessariamente diferente da posição individual de cada um: trata-se de encontrar pontos comuns para uma agenda reivindicativa que possa originar uma luta em prol dos interesses de todos.

Tantas pessoas que considero superiormente inteligentes andam há anos a tropeçar nesta evidência e não reparam nela: atacar os sindicatos é enfraquecer a defesa dos interesses dos trabalhadores, neste caso os professores, que eles representam. Pois, acima de tudo, os sindicatos têm a força que os professores lhes derem. O que significa que é importante apoiar e participar nas iniciativas dos sindicatos em que os professores se revêem, mas não se reduz a isso: devemos ser exigentes e críticos em relação às acções sindicais, reclamando, sempre que necessário, uma intervenção mais próxima, atenta e oportuna. Ter melhores sindicatos de professores é uma ambição legítima que depende, acima de tudo, dos próprios professores.

Para acabar de vez com a greve às avaliações?

Já se sabia que uma das especialidades deste ME – vimos isso com as sucessivas trapalhadas dos concursos de professores – era subverter a ordem jurídica, fazendo despachos que contrariam decretos, avisos que avisam ao contrário do que consta nos despachos e, até, notas informativas que dão a volta completa ao que consta da lei.

O que não se estaria à espera era de uma nota da DGEstE que, em três penadas, pretende acabar, administrativamente, com a greve às avaliações. Assinada pela directora-geral – nestas coisas, ministros e secretários de Estado não gostam de dar o nome nem o rosto – a nota informativa há pouco divulgada determina o seguinte:

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A desfaçatez com que se passa por cima da natureza pedagógica da avaliação e dos procedimentos legalmente previstos não deve levar-nos a afirmações, muito menos a decisões precipitadas. É bom que os juristas dos sindicatos estudem em profundidade todas as implicações jurídicas do que aqui se dispõe, bem como na legislação invocada, e que na verdade não parece dar sustentação legal ao que é agora determinado.

Numa primeira impressão, parece-me que bastaria os professores colocarem nos programas que recolhem as notas um nível ou classificação “negativo” a todos os alunos. Na impossibilidade de, na ausência do professor grevista, desfazer o “imbróglio”, a reunião teria sempre de ser adiada. Mas posso estar enganado, e não ser esta a abordagem mais sensata do problema.

Resta assim, para já, aguardar calmamente…

Telemóveis banidos das escolas francesas

estudo-e-telemovelÉ oficial: aprovado pela Assembleia Nacional francesa, o projecto governamental de abolir o uso dos telemóveis pelos alunos das escolas francesas, públicas e privadas, adquire força de lei.

A medida é descrita pelo governo como “um sinal para a sociedade”, escreve o francês “Le Monde”. Segundo o jornal, a proposta de lei foi aprovada com os votos a favor dos partidos La République en Marche (LRM), do presidente Emmanuel Macron, Movimento Democrático e União dos Democratas e Independentes. Os restantes partidos consideraram que a proposta do Governo é “inútil”, um “embuste” e “uma simples operação de comunicação”.

O ministro da Educação francês, Jean-Michel Blanquer, fala numa “medida de desintoxicação” para combater a distração na sala de aula e o “bullying”. Segundo o governante, a nova lei envia “um sinal à sociedade francesa” e alegou que “estar aberto às tecnologias do futuro não significa aceitá-las para todos os efeitos”, enumerando uma série de “maus usos”, como o cyberbullying, a consulta de sites pornográficos e o vício dos ecrãs. À “lista negra”, o ministro da Justiça, François Bayrou, acrescenta o aumento de roubos de telemóveis, extorsão e obsessão com marcas da moda.

Claro que este tipo de leis, radicais e por vezes demagógicas, tendem a dividir opiniões. Pessoalmente, noto que muitos adolescentes e até crianças que denotam sinais de excessiva dependência dos telemóveis teriam muito a ganhar com uma escola livre destes aparelhos. No mínimo, acho que vale a pena experimentar e tenho curiosidade de conhecer os resultados da medida.

Mas as reticências dos partidos da oposição também fazem sentido: a nova legislação não vai muito mais além do que o regime actualmente existente. E se mesmo assim os telemóveis continuam a ter uma presença excessiva nas escolas, talvez não seja apenas um problema legislativo o que está em causa.

Por último, deve ainda notar-se que a relevância e eficácia de uma lei como a agora aprovada fica muito dependente das condições em que será efectivamente aplicada. Lá como cá, desconfio que, às primeiras dificuldades no terreno, logo remeterão à “autonomia das escolas” a responsabilidade de as resolver…