Etnia não é fantasia de Carnaval

cristiana-xia-wu.pngFoi há dias noticiada e comentada a celebração carnavalesca da “raça africana” promovida por uma escola de Matosinhos. Mas não foi caso único. No Marco de Canavezes, acha-se natural fantasiar as crianças como chineses “de olhos em bico”.

Estas iniciativas, encaradas com a ligeireza do “é Carnaval, ninguém leva a mal”, são mesmo assim reveladoras de um certo tipo de racismo há muito naturalizado entre nós e tão interiorizado que a maioria das pessoas nem dá conta da sua existência. Mas existe, e as pessoas que são alvo destes estereótipos discriminatórios e preconceituosos sentem-no facilmente. A palavra a Cristiana Xia Wu, uma jovem inteligente e sensível que nos explica claramente o que tantos têm dificuldade em entender:

Era uma noite banal, estava no meu telemóvel e apareceram no Twitter umas fotos de um desfile de Carnaval, cujas pessoas estavam aparentemente vestidas de “chineses”. À primeira vista, nem sequer tinha reparado nesse aspecto, mas foi depois de ler as mensagens dos cartazes nas mãos das pessoas que me apercebi do que é que se tratava. “Socorro! Quero sair desta invasão!”, “Os chineses são espertos, apesar de terem olhos em bico”, diziam. A minha primeira reacção foi de choque. Sei que estes preconceitos existem, mas a manifestação dos mesmos foi tão directa que tive de pensar por uns momentos para processar o que li. As pessoas bem dizem que “é Carnaval, ninguém leva a mal”, mas essa frase nem passou pela minha cabeça. Como é que não poderia levar a mal quando essas mensagens têm um impacto nas pessoas com origem chinesa?

Senti-me desconfortável. As tais fotografias levaram-me ao passado, aos tempos em que não sabia como reagir quando as pessoas gozavam com a minha aparência ou quando elas faziam comentários negativos em relação a nós. Desde pequena, formei uma barreira de defesa em relação a essas atitudes preconceituosas e passei simplesmente a ignorar cada vez que ouvia palavras ignorantes. Não valia a pena ficar triste e perder tempo a pensar nessas coisas — era assim que pensava quando era apenas uma criança.

Porém, naquela noite não consegui ficar indiferente. Simplesmente não podia. Desde que comecei a estudar no Reino Unido, e tendo conhecimento das experiências da minha irmã que estuda nos Estados Unidos, apercebi-me que Portugal tem um problema muito sério em relação ao racismo. O racismo está tão interiorizado que actos que deviam ser considerados como sendo tal, não são. Tudo é considerado uma pura brincadeira. Só porque não expressamos o nosso descontentamento, não significa que aceitamos tais atitudes. Aliás, a maior parte das pessoas não aceita que está a ser racista porque não estão conscientes. Há uma falta de espaço na sociedade para aceitar acusações de racismo quando as mesmas acontecem. Além disso, onde é que está o nosso direito de nos sentirmos ofendidos?

Quando se analisa o racismo, mesmo na versão branda e dissimulada que é a mais habitual entre nós, tende a ver-se apenas os danos que ele causa àqueles que toma como alvo. Mas talvez ganhássemos em perceber que a atitude discriminatória, ainda que condescendente, em relação ao Outro, também diminui quem a pratica. E empobrece-nos a todos enquanto sociedade. Uma vez mais, são sábias as palavras da jovem luso-chinesa que venho citando…

…simplesmente, quero chamar a atenção das consequências desse tipo de desfile. Pensem no tipo de cidadãos que querem formar. Pensem na possibilidade de formar pessoas com uma mente aberta, livre de preconceitos. Pensem na possibilidade de uma sociedade portuguesa diversa e rica culturalmente. Ninguém gosta de pessoas intolerantes, certo?

E eu pensarei nas crianças chinesas que nasceram cá em Portugal e que viram esse espectáculo, tentando encontrar a melhor solução para que elas não se sintam desconfortáveis nas suas peles, porque não há nada de errado em ter origem chinesa. Não devemos sentir que temos de negar uma parte da nossa identidade para nos sentirmos mais aceites pela maioria. Podemos ser perfeitamente ambos — portugueses e chineses, tendo orgulho em ambas as culturas.

No Carnaval também se leva a mal

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O tema é polémico. Uma escola básica de Matosinhos decidiu aproveitar a quadra carnavalesca para celebrar “as raças”.  A diversidade cultural, quereriam eles dizer. Mas saiu aquela expressão infeliz. E a partir daí, não se encontrou melhor forma de concretizar o objectivo do que pedir a miúdos e graúdos que fossem mascarados de “africanos”. Incluindo, na fantasia, pintar a cara de preto.

Acredito que a intenção fosse boa. Mas o chamado blackface, que ocorre quando um branco se fantasia de negro, recorrendo a estereótipos associados a culturas e etnias africanas – a pele pintada de preto, a carapinha, os trajes garridos – é historicamente considerado uma manifestação de racismo. E a iniciativa gerou polémica nas redes sociais…

Fora do desfile, alunos e alguns adultos posaram para a fotografia. O momento foi partilhado na mesma rede social onde tinha feito o anúncio. Cara pintada de negro, perucas fartas e encaracoladas, trajes coloridos e tribais, saias de palha, colares de missangas e argolas no nariz, há um grupo de adultos que posa para a posteridade com sorriso largo. O mesmo acontece numa foto de grupo com os alunos. O objectivo, diziam, era promover a diversidade.

Mas há quem ache precisamente o contrário e o acontecimento não passou em claro na página de Facebook de um movimento que denuncia casos de Blackface em Portugal. A celeuma subiu de tom a associação de pais acabou mesmo por remover a publicação original.

Face a este imbróglio, a Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica do Godinho lançou um comunicado. Diz a nota publicada no Facebook que no desfile estavam presentes outras escolas do Agrupamento de Escolas de Matosinhos (AEM), que, “juntamente com os professores das escolas”, escolheram para este desfile o tema Culturas do Mundo. Na sequência desta decisão ficou decidido que a EB do Godinho representaria o continente africano. Entre outras, “foram representadas várias culturas”, como a brasileira e a chinesa. O propósito, lê-se, seria “celebrar a diversidade cultural”.

Para isso, “nas semanas anteriores” ao desfile, o tema foi levado para a sala de aula para que os alunos pudessem conhecer a “riqueza cultural de cada povo”.

Lê-se no comunicado que “as vestes usadas tentaram representar a riqueza da sua cultura, com os tecidos tradicionais africanos”. A AP lamenta que esta abordagem “tenha sido interpretada como Blackface”, sublinhando que não foi essa a intenção, “nem nunca esteve subjacente qualquer comentário racista”.

Enquanto a ideia de escola de sucesso continuar conotada com a necessidade de promover sempre novas actividades, cada vez mais originais e criativas, há sempre o risco de se embarcar em iniciativas insensatas, de que posteriormente nos vimos a arrepender. Tentarem celebrar o multiculturalismo e acabarem acusados de racistas não estaria certamente nas expectativas dos organizadores. O que sugere que talvez uma escola mais crítica e reflexiva e menos folclórica possa constituir uma mais-valia para todos. Como se vê, os conhecimentos que permitem compreender e enquadrar as realidades históricas e culturais não são substituíveis por competências na área da caracterização e da maquilhagem…

Quanto à dita diversidade cultural, penso que passará mais por uma verdadeira integração dos descendentes de caboverdianos, angolanos, guineenses, brasileiros, chineses e europeus de diversas origens que temos entre nós, de forma a que possam estar presentes em todas as escolas, e não apenas nas que servem os guetos em que se tendem a tornar algumas comunidades. Esse é o verdadeiro multiculturalismo, que não exclui ninguém e deixa espaço à afirmação e à convivência das diferentes culturas. Em que ninguém precisa de se disfarçar de caricatura do outro, tentando ser aquilo que não é…

Viciados no jogo

fortnite.gifNuno Cantoneiro é professor primário na Escola Básica Ary dos Santos, no Montijo. À sua frente tem todos os dias uma turma de quarto ano “com muito bons alunos”; dez raparigas e dezasseis rapazes. Mas em novembro do ano passado começou a notar alterações no comportamento dos rapazes: ficaram “mais agressivos, nervosos, entre eles havia conflitos, picardias frequentes, até chantagem”. E chegadas as avaliações intercalares, as notas “desceram, mesmo no caso dos muito bons alunos”, confirmando o já suspeitado. Na sala reservada aos docentes, a outra professora de quarto ano da escola queixava-se do mesmo.

Em comum, estes alunos tinham uma “fixação” pelo Fortnite . Um videojogo em que cem jogadores/personagens têm como objetivo eliminar os outros avatares e sobreviverem aos ataques dos inimigos, enquanto o cenário vai sendo reduzido para incentivar o confronto. Existem dois modos de jogo: o Battle Royale (gratuito) e o Save The World (pago).

Para os professores não foi difícil fazer a associação entre a atitude dos alunos e o jogo: os estudantes traziam o mundo virtual para o real sempre que lhes era dada uma hipótese. Quando lhes era pedido um desenho, na folha surgia “uma relação com o Fortnite, cada vez que tinham um bocadinho começavam logo a falar do jogo” ou faziam o “floss” – o popular movimento das personagens em que os braços balançam de um lado ao outro junto à cintura. Além disto, “entre eles [alunos] notava-se ainda um clima de chantagem. Ouvi várias vezes conversas como: ‘Se não fores às tantas horas jogar, eu conto não sei o quê.’ Eles criavam represálias. Mas isto só acontecia com o grupo dos rapazes”, conta Nuno Cantoneiro ao DN.

“Nunca tinha notado isto por causa de um videojogo. No passado, todos jogaram ao berlinde, depois ao pião, mas agora todos jogam Fortnite. Tornou-se uma fixação“, acrescenta.

Cresce descontrolado o mundo dos videojogos. Acessíveis online a qualquer hora, correndo em qualquer aparelho ou plataforma, disponóveis sem qualquer controlo etário ou quaisquer tipo de restrições ao uso, estes jogos tornam-se cativantes para os miúdos, que mesmo metidos em casa os podem jogar com os amigos e companheiros de escola.

Com dezenas ou centenas de milhões de utilizadores, no caso dos jogos mais populares, percebe-se que são um excelente activo para as empresas que os concebem e exploram. E que, para manter os utilizadores “agarrados”, as equipas que desenvolvem estes jogos não recorrem apenas a programadores e designers de multimédia – o trabalho de psicólogos, explorando as diversas e subtis formas de alimentar o vício e a dependência entre os jogadores, torna-se fundamental.

Os jogos online, assim como muitas outras facetas da realidade virtual, parecem ter vindo para ficar, pelo que não fará muito sentido lutar contra a sua disseminação. O que é urgente é criar e reforçar mecanismos que protejam os utilizadores mais vulneráveis – desde logo, as crianças e os adolescentes – desta nova e preocupante dependência.

Aqui, o papel fundamental parece competir aos pais. Percebendo, em primeiro lugar, os perigos do uso irrestrito e descontrolado da internet. Definindo horários para os jogos e outras actividades online e restringindo o acesso a jogos e a sites não apropriados. Para os mais renitentes, ou os que passam mais tempo sozinhos ou sem o controle directo dos pais, as ferramentas de controle parental podem ajudar – desde que os pais saibam usá-las.

Menina não entra?

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Se no plano dos princípios é fácil encontrar consensos, consagrá-la, na prática quotidiana, pode não ser tarefa fácil. Estou a referir-me à igualdade de género e a pensar sobretudo nas escolas onde, além do cumprimento formal dos preceitos legais e constitucionais, se colocam também as questões pedagógicas. Fazem sentido aulas de Cidadania se depois, perante situações concretas, nos limitamos a reproduzir os velhos estereótipos dos rapazes que jogam à bola e das meninas que brincam com bonecas?

Nuno Mário Antão estava esta terça-feira numa reunião de pais no Centro Escolar de Marinhais, em Salvaterra de Magos e, de repente, viu na parede o horário do campo de jogos: segunda-feira, 1.º ano; terça-feira, 2.º ano; quarta-feira, 3.º ano; quinta-feira, 4.º ano; sexta-feira, meninas. Este último a cor-de-rosa.

Ficou indignado. O que queria dizer aquilo? Segregação por género num campo de jogos de uma escola de primeiro ciclo do Portugal do século XXI? “Explicaram-me que o que lá jogam é futebol e que os meninos não deixam as meninas jogar com eles. Se não deixam, têm de ser ensinados a deixar!” A igualdade de género já é tema obrigatório no ensino básico e secundário.

Antes de se condenar os responsáveis escolares, reconheça-se que esta decisão, podendo não ser perfeita, terá nascido para dar resposta a uma situação concreta: a maioria dos rapazes gostam de jogar futebol no tempo do recreio; a maior parte das raparigas nem por isso. Então, a preocupação foi gerir a utilização do espaço de forma a garantir o acesso a todos os alunos. E, já que os meninos não querem jogar com as meninas, reservando um dia só para as estas. Discriminação positiva, considera a adjunta da Direcção.

Como é evidente, a igualdade de género não determina que as raparigas devam passar a gostar de jogar à bola da mesma forma que os rapazes. Nem pressupõe que se faça uma divisão igualitária entre os dois sexos na utilização do campo de jogos, pois o objectivo não deve ser segregar, mas integrar.

O problema está, parece-me, em assumir-se como natural que os meninos não queiram envolver as meninas nos seus jogos e a escola ache isso normal. Há estereótipos de género a que as crianças vão sendo expostas, desde a mais tenra infância, e em que participam a família, o círculo de amigos e a sociedade no seu conjunto. E a escola, em vez de, pela acção pedagógica, os contrariar, está a reforçá-los.

Da leitura integral da peça do Público sobressai a perspectiva dos responsáveis escolares – e posteriormente também da associação de pais – de que tudo isto não passará de um falso problema. Uma tempestade num copo de água. Os representantes dos pais não deixam de ter razão quando notam que mais graves e prementes são os problemas da falta de assistentes operacionais e de manutenção dos espaços escolares.

Talvez seja mesmo a falta de meios que leva a direcção do agrupamento a defender uma medida que, garante, deixa os miúdos tranquilos. Só que, como refere o pai que apresentou a queixa, tranquilidade não é a questão essencial. E nota: “O modelo da mulher a trabalhar na cozinha e o homem a ver a bola na sala também era muito tranquilo.”

A despedida do Harrison

harrison.jpgForam mais de 2700 os jovens que fizeram o último Harrison de sempre: o temido e polémico exame que dá acesso à especialidade que deverão seguir. Há 40 anos que a prova tem vindo a gerar controvérsia na área da saúde. Na generalidade, a comunidade médica e os estudantes concordam com a sua substituição por um novo modelo fortemente baseado em casos clínicos, como está previsto que seja o exame do próximo ano – a Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada.

Em contraste com o Harrison — muito baseado na memorização de cerca de três mil páginas —, o novo exame vai basear-se mais no raciocínio e avaliar o conhecimento clínico dos candidatos, abarcando novas áreas que o Harrison não incluía, como a psiquiatria, a ginecologia ou a pediatria.

Não sendo um fundamentalista nesta matéria, reconheço que há situações em que a realização de um exame é a forma mais célere, justa e eficaz de comprovar a aptidão dos candidatos – por exemplo, na atribuição da carta de condução – ou de seleccionar e seriar os candidatos a um curso superior ou formação especializada – é o caso do ingresso na especialidade por parte dos médicos recém-formados.

O problema é o tipo de exame que se faz. Podemos, ficando parados no tempo, continuar a insistir no apelo à memorização. Ou apostar numa avaliação mais abrangente, mais focada nas capacidades e competências que os futuros especialistas terão de desenvolver na prática clínica. O Harrison assenta numa concepção completamente ultrapassada e a sua substituição era inevitável. Já tem sucessor anunciado e, se tudo correr bem, desaparecerá no próximo ano sem deixar saudades.

Ainda assim, o mediatismo deste exame chama a atenção para outras realidades que lhe estão associadas. Desde logo, a verdadeira indústria que se formou em torno da “preparação” dos candidatos. E os “efeitos secundários” de uma prova demasiado competitiva e assente exclusivamente na capacidade de memorização…

Inscreveu-se na Academia porque sentiu que precisava de orientação no estudo. “Fiz os cinco cursos e o intensivo. Paguei cerca de mil euros, mas sinto que foi bom investimento. Estou bem preparada”, diz. A este valor somam-se 120 euros de fotocópias do livro no qual se baseia a prova (que custa 250 nas livrarias), cem de material e um valor de fotocópias que não sabe precisar. Contas rápidas, chegamos à conclusão de que há colegas que gastam mais de 1500 euros para preparar o exame. Sabe-se que também há quem recorra a Ritalina ou a antidepressivos para aguentar o ritmo. “Só bebo café”, assegura a jovem médica.

Pedro Martins, de 24 anos, também tirou 77% na prova de simulação, mas concorda que os resultados destes exames devem ser “relativizados”. Considera-se calmo e bem preparado. “No verão não ultrapassava as 12 horas de estudo por dia, mas a partir de setembro comecei a chegar às 15.” Dormia sete horas por noite, mas começou “a ter sintomas de cansaço, depressivos”. Foi então que decidiu “cometer a loucura de passar a dormir oito horas”. Para descansar bem, precisa de não pensar no exame pelo menos meia hora antes de ir para a cama. “É como uma maratona. Precisamos de ser regrados”, diz o médico recém-graduado, que espera uma vaga em Medicina Desportiva. Há muita pressão: no ano passado abriu apenas uma, e entra quem tiver a melhor nota. “Para o nível de estudo que tive, espero acima de 80%.”

Subjacente a todo este stress, está uma realidade incontornável: de há alguns anos a esta parte, estão a abrir nas faculdades de Medicina muito mais vagas do que as que são disponibilizadas para a especialidade. O que significa que, de ano para ano, há um número crescente de jovens médicos sem acesso ao internato e à formação especializada. Dentro de dois anos, prevê-se que sejam já mais de quatro mil. Sabendo-se que os médicos indiferenciados não poderão trabalhar de forma independente, faz sentido perguntar a quem interessa o aparecimento deste proletariado médico. Ou ainda: o que ganhamos em forçar estes profissionais, em cuja formação o país tanto investiu, a emigrar para conseguirem obter a especialidade?

O problema não é de resolução fácil. Aumentar as vagas para as especialidades, que já estarão no limite, iria comprometer a qualidade da formação. Reduzir as vagas dos cursos de Medicina aumentaria ainda mais a pressão sobre cursos que continuam a ser dos mais procurados. E apesar de formarmos mais médicos, continua a haver falta recorrente de clínicos especializados em muitos lados, sobretudo no interior do país. Talvez uma solução equilibrada necessite de conjugar estas três vertentes: a formação académica, a especialização e a colocação dos médicos onde eles são necessários.

Uma geração superficial?

estudo-e-telemovelBom dia ou boa noite, professora. Nas próximas duzentas a trezentas palavras lerá aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou escrever. Por isso mesmo, sente-se, coma qualquer coisa e tenha misericórdia de mim.

A professora Carmo Machado usa esta advertência do seu aluno como ponto de partida para uma interessante reflexão sobre os efeitos que a falta de hábitos de leitura e a omnipresença dos jovens na internet e nas redes sociais está a ter na capacidade de concentração, na compreensão do pouco que lêem e, também, nas competências de escrita dos actuais estudantes. Estaremos, com a ajuda do dr. Google, do Youtube e das redes sociais, a formar uma geração superficial?

Sim, a maior parte dos alunos tem aversão à escrita porque não lê, sentindo uma enorme dificuldade em escrever, problema que aumenta de ano para ano. Ler estimula o raciocínio, desenvolve o vocabulário, aumenta a capacidade de interpretação, diminui os erros ortográficos, ajuda a produzir textos coesos, desenvolve a capacidade argumentativa, só para referir algumas vantagens. De facto, se vocês não lerem, como irão conseguir escrever? A esta pergunta, alguns alunos respondem-me de imediato: Ó stora, mas a gente lê. Todos os dias lemos imensas coisas na Internet… Bingo!

[…] A geração com que trabalho é uma geração alienada e cada vez mais superficial. A internet, sabemo-lo, veio mudar o mundo. Está a mudar as nossas vidas e começou já a transformar os nossos cérebros.

A dependência do computador e da ligação à rede começa a interferir na forma como percecionamos o mundo, provocando danos irreparáveis na maneira como utilizamos a linguagem. Penso que reside aqui, neste uso e abuso que fazemos das tecnologias, uma das principais causas das dificuldades crescentes dos alunos no uso da escrita. O que pode então a Ciência dizer-nos sobre as consequências do uso da internet nos nossos cérebros e nos cérebros dos nossos alunos? Muito mesmo. Vários estudos realizados por educadores, investigadores de diferentes áreas como psicólogos e neurobiólogos mostram que quando os alunos estão em rede (o que acontece a maior parte do tempos nos dias que correm), o ambiente em que se encontram promove uma leitura negligente e rápida. Ora, neste contexto, o pensamento torna-se também ele apressado sendo a aprendizagem que fazemos das coisas cada vez mais superficial.

O que fazemos quando estamos em rede acarreta consequências neurológicas impercetíveis no imediato mas cujo efeito é preocupante. Não é preciso ser-se professor para se constatar que a capacidade de concentração dos jovens e adolescentes é cada vez menor. Na verdade, tal como o tempo gasto a explorar páginas web (na maior parte das vezes sem qualquer conteúdo de interesse) suplanta o tempo que passamos a ler noutros registos e formatos (já nem me atrevo a referir-me aos livros), também o tempo que se consome a redigir mensagens curtas de texto (vulgo sms) suplanta o tempo que se utiliza a escrever um parágrafo, vários parágrafos, um texto… Deste modo, enquanto saltitamos entre hiperligações que nos levam a nenhures perdemos a oportunidade de refletir silenciosamente. Eis o ponto seguinte desta rede de vazios. O silêncio é praticamente inexistente na vida dos nossos alunos. Dentro ou fora da aula, os alunos não o conhecem. Logo, os antigos processos e funções intelectuais que permitiam o raciocínio aprofundado e a reflexão começaram a destruir-se e a desaparecer. O cérebro recicla os neurónios e as sinapses não utilizadas, dando-lhe outras tarefas mais urgentes. É certo que os alunos possuem e/ou ganharam outras competências que nós não possuímos mas perderam capacidade de foco e de concentração. Segundo Nicholas Carr, o nosso cérebro está a regredir ao cérebro primitivo ou reptiliano, em alerta e distração permanente.

Há muito que se notava que as novas tecnologias de informação estão a mudar o modo como aprendemos e como nos relacionamos com as outras pessoas – sobretudo os mais novos, cujas mentes são mais influenciáveis e moldáveis. Mas hoje, os professores e os pais mais atentos vão-se apercebendo de que, apesar de podermos ter “o conhecimento na palma da mão”, nem todas as mudanças não positivas.

As evidências que se vão somando parecem demonstrar que a exigência de uma escola livre de telemóveis, por exemplo, não é apenas um capricho de professores que querem dar as suas aulas sem distracções. Ela pode vir a ser condição essencial para satisfazer a necessidade de criar, na vida das nossas crianças e adolescentes, espaços e tempos em que permanecem desligados da rede. Para que os jovens cérebros possam processar o excesso de informação que vão recebendo e dar uso às funções que vão atrofiando. Ganhando tempo para falarem e se ouvirem uns aos outros e aos seus professores, e a oportunidade de fazerem coisas como ler um livro ou, simplesmente, ouvir o som do silêncio…

A complexidade do problema e dos efeitos a longo prazo que a alienação digital poderá ter nas gerações ditas do milénio recomenda ainda duas precauções básicas. A primeira, que se continue a investigar e a discutir o tema, pois não se pode agir acertadamente sem conhecimento suficiente. A outra é afastar o mais possível, dos processos de decisão, a influência dos maus conselheiros:  os vendedores de tecnologia, os demagogos da sociedade de informação e todos os influenciadores e empreendedores em busca de dinheiro fácil ou fama imediata.

Mobilidade por doença 2018/19

Usando de uma transparência que é de louvar – no tempo de Nuno Crato, um conhecido apreciador de estatísticas, nunca vi estas contas serem apresentadas publicamente – a DGAE divulgou os números referentes às colocações através da mobilidade por doença.

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Como era esperado, o número de docentes colocados continua a crescer de ano para ano: passou-se de 5210 em 2017 para 6478 em 2018, o que se traduz num aumento de 24%. Mas esta situação só em parte se justifica pelo envelhecimento da classe docente, com o que isso implica de aumento dos problemas de saúde que vão afectando sobretudo os próprios professores (64%) e os seus familiares idosos (19,9%).

De facto, a idade e a doença não explicam tudo: um docente fragilizado por uma doença grave ou pelo apoio quotidiano que tem de prestar a um familiar dependente não teria necessidade de recorrer a este tipo de mobilidade se estivesse colocado, de forma permanente, perto de casa.

O gráfico apresentado na nota informativa é revelador: as colocações ao abrigo da MPD verificam-se sobretudo no norte do país, decrescendo à medida que nos deslocamos para os QZP situados mais a sul. Isto significa que o problema de fundo não está na doença, mas num sistema de concursos que gera graves injustiças e disfuncionalidades.

Quando um professor do quadro com mais de vinte anos de serviço necessita de recorrer à MPD para não ir parar a uma escola situada a mais de cem quilómetros de casa, é evidente a necessidade de uma reestruturação profunda em todo o sistema de quadros e mobilidades, promovendo uma efectiva estabilidade e impondo a graduação profissional como critério principal para a ocupação das vagas.

Independentemente de tudo o que se possa dizer sobre a justeza destas colocações ou dos abusos que todos sabemos que também ocorrem, a verdade é que colocar quase 6500 professores independentemente de vaga será sempre uma péssima forma de gerir recursos humanos e dinheiros públicos.