A dismorfia do snapchat

Os resultados do estudo internacional, a que responderam 510 raparigas portuguesas entre os 10 e os 17 anos, são inquietantes. Mas estão em linha com a tendência internacional e não surpreendem quem vai lidando diariamente com adolescentes e tentando estar atento ao que se passa nesta faixa etária. Vejam-se as principais conclusões da psicóloga que apresentou os resultados:

Cerca de metade das jovens portuguesas inquiridas dizem que desejavam sentir-se mais autoconfiantes e sete em cada 10 afirma que gostavam de ter mais orgulho no seu corpo, realçou.

Em média, passam mais de duas horas por dia nas redes sociais, sendo que devido ao contexto pandémico, 70% passou a estar ainda mais tempo.

Apenas 50% das inquiridas consideram que as redes sociais são um fator positivo nas suas vidas, enquanto 41% afirmam que não conseguem ser elas mesmas e 25% lamentam que na vida real não possam assemelhar-se à pessoa que mostram ‘online’.

Segundo o inquérito que decorreu em março, 76% das raparigas com 13 anos usam filtros ou recorrem a aplicações para mudar a sua aparência nas fotografias. Em média, têm 12 anos quando utilizam pela primeira vez este tipo de funcionalidades.

Quase dois terços dizem que tentam editar ou esconder pelo menos uma característica do seu corpo antes de publicarem uma fotografia e 86% afirmam que publicam “selfies” para receberem comentários e “likes”.

“Elas não referem que publicam “selfies” porque lhes dá prazer, porque é uma forma de se expressarem, de terem uma presença “online” de encararem uma personagem. Não, elas assumem que é com vista a serem aceites, a serem apreciadas e se sentirem integradas e populares“, sublinhou.

A busca obsessiva da imagem corporal perfeita configura um transtorno psicológico que baixa a auto-estima destas raparigas e as leva mesmo, nalguns casos, a querer fazer cirurgias plásticas para alterar as partes do corpo que acham imperfeitas. Os especialistas chamam-lhe a dismorfia do snapchat, por ter sido esta a primeira rede social a incorporar filtros de edição rápida que permitem aos utilizadores alterar o seu aspecto nas selfies que publicam.

Como a maioria das perturbações de natureza psicológica, este problema não é de resolução fácil, e é evidente que a exposição prolongada e cada vez mais precoce às modas e influências das redes sociais tende a agravá-lo. Muitas das youtubers, instagrammers, vloggers e influencers que servem de modelo e inspiração às adolescentes apresentam corpos irreais, modificados por dietas, sessões de ginásio, poses estudadas e, claro, filtros de imagem. Como no mundo real estes resultados são impossíveis de obter o resultado é a inevitável frustração e perda de auto-estima.

Esta realidade é igualmente perturbadora no que revela de regressão ao nível das mentalidades e do enorme progresso, feito nas últimas décadas, em prol da emancipação feminina e dos direitos das mulheres. Nunca se falou tanto, como nos dias de hoje, em igualdade de género. E no entanto as redes sociais parecem estar a atrair as raparigas, cada vez mais cedo, para a perpetuação de estereótipos associados ao “sexo fraco”, que fazem depender a aceitação social da sua beleza física e da capacidade de agradar aos outros.

Ensino a distância não contou para a nota?

Escolas deram notas sem contar com o trabalho feito ao longo do 2.º período

É “frustrante”, dizem alunos. “Desmerece a evolução” dos estudantes, comentam pais. E é “errado”, reconhecem directores. No entanto, em muitas escolas, sobretudo do ensino secundário, o trabalho feito à distância durante o 2.º período quase não contou para as notas dadas aos alunos. Entre as razões para esta prática está o papel central que os testes escritos continuam a ter na avaliação e os receios quanto à sua fiabilidade no modelo de ensino remoto.

Como era previsível, a avaliação de um 2.º período maioritariamente leccionado online trouxe algum descontentamento a alunos e famílias. Neste contexto, é complicado avaliar com rigor, equidade e justiça. Sobretudo no ensino secundário, onde continua a ser usada a anacrónica escala de 0 a 20 valores e o ingresso no ensino superior é determinado, maioritariamente, pela média das notas obtidas nas diversas disciplinas.

Antevendo as dificuldades, houve até quem propusesse transformar o segundo momento de avaliação numa avaliação qualitativa, sem atribuição de classificações ou níveis, como sucedeu aliás nas escolas onde vigora a avaliação por semestres. Mas o ministério fez ouvidos de mercador, adoptando a atitude hipócrita e cobarde que já se vai tornando a sua imagem de marca: primeiro reiterou inteira confiança na autonomia das escolas, dando-lhes inteira liberdade para definirem os critérios de avaliação que entendessem. Mas vendo surgir as críticas, veio de imediato demarcar-se, sentenciando à posteriori o que deveria ter sido feito.

À partida, não é difícil concordar com a tese aparentemente consensual: embora à distância, alunos e professores continuaram a trabalhar, e esse trabalho deve ser avaliado, sob pena de estarmos a desmotivar quem se esforça, em benefício de quem pouco ou nada fez. Não com testes presenciais, por razões óbvias, mas buscando alternativas, seguindo a tendência no sentido da diversificação dos instrumentos de avaliação. O problema é que isto é fácil de enunciar, mas difícil, nalguns casos praticamente impossível, de concretizar.

Não foi em vão que se insistiu, antes e durante o confinamento, na ideia de que nada substitui o ensino presencial. Isso é também verdade em relação à avaliação: a fiabilidade e o rigor necessários para obter uma classificação, como é exigido no secundário, não se conseguem obter plenamente com os alunos fisicamente distantes do professor. Sendo inútil exigir milagres, também não adianta mandar substituir os testes por outra coisa qualquer, porque as alternativas, sejam fichas, questões-aula, trabalhos escritos ou produção oral, necessitariam que o professor controlasse as condições em que são realizadas pelos alunos. Esta observação directa é fácil de fazer na sala de aula, mas de um modo geral impraticável no ensino online.

Perante estes constrangimentos, e na ausência de orientações claras, cada escola procurou a solução avaliativa mais adequada às circunstâncias. Mais ousada e confiante, nas escolas do ensino básico, onde assume um carácter predominantemente formativo; mais prudente no secundário, onde as notas têm consequências determinantes no futuro académico dos alunos. E sempre com a consciência de se estar a jogar com um pau de dois bicos: valorizar em demasia o trabalho feito durante o período do confinamento escolar iria penalizar não apenas os alunos que não trabalharam porque não quiseram, mas também aqueles que ficaram privados das condições e apoios de que necessitariam para trabalhar autonomamente.

Virada esta página, para a frente é que é o caminho. Mais do que apontar o dedo às discrepâncias entre escolas e professores, é importante que o 3.º período possa servir para repor alguma normalidade avaliativa, recuperando, consolidando e valorizando as aprendizagens feitas a distância.

Lógica complicada

Se tens Cristo no palco podes dar espetáculos. Mas se tens palco mas não tens corpo de cristo não podes.

Se tens corpo de cristo e queres ir encher não podes mas podes ir encher saco para o super.

Podes comprar um mil-folhas no super mas não um livro com folhas.

Ao contrário do primeiro confinamento, logo assumido pela generalidade da população como uma inevitabilidade face ao aumento dos contágios e à necessidade de conter a pandemia antes de um previsível colapso dos sistemas de saúde, a versão 2.0 do mesmo, revista e aligeirada, não parece estar a suscitar o mesmo empenhamento cívico.

Desde logo, pela inconsistência e arbitrariedade das medidas. É certo que se acabam os horários ridículos de funcionamento das lojas e serviços e as confusas regras por concelho, em favor de regras mais gerais e perceptíveis. Mas é difícil compreender que se possa ir à missa mas não ao teatro. À raspadinha mas não ao cabeleireiro. À drogaria mas não à livraria. Que os restaurantes fechem mas as cantinas escolares permaneçam abertas. Que os ATL no interior das escolas – incluindo as escolas privadas – possam funcionar, mas não os que ficam fora das escolas..

Acima de tudo, parece-me muito difícil que o cidadão comum interiorize a necessidade de um confinamento rigoroso – ficar em casa sempre, saindo apenas por razões permitidas e de força maior – quando os seus filhos passam o dia inteiro, desconfinados, na escola.

A verdade é que na grande maioria das escolas não se cumprem distanciamentos, não há mesas individuais nem separadores em acrílico, as salas têm a lotação completa e não são arejadas como deve ser porque está muito frio. Ora se sucede tudo isto e os políticos de diversos quadrantes, secundados pelas autoridades de saúde, nos dizem que é seguro, então o que é inseguro?

Depois do desconfinamento irresponsável que faz já de Portugal um dos países europeus com mais casos e maior mortalidade devido à covid-19 – e a outras doenças que, por causa da pandemia, não são devidamente prevenidas e tratadas – o pior que nos poderia acontecer agora seria um confinamento a fazer de conta. Esperemos que não seja isso mesmo o que temos aí.

João Costa, ordem para reprovar…

Artur Mesquita Guimarães, colocou dois processos em Tribunal contra o Ministério de Educação porque os seus filhos, alunos de média de 5 e do Quadro de Honra, foram retidos dois anos devido a um Despacho assinado pelo Secretário de Estado da Educação, João Costa. O despacho, considerado pelos advogados como “ilegal e inconstitucional”, obriga os filhos de Artur a voltarem dois anos lectivos atrás, do 9º para o 7º ano, e do 7º para o 5º ano, argumentado-se no facto dos alunos não terem participado na nova disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, da qual os pais, por objecção de Consciência, não autorizaram os filhos a participar. 

O caso foi divulgado pela página Notícias Viriato, um site pretensamente informativo, mas na realidade dedicado à difusão de informação falsa e tendenciosa, ao serviço da agenda política da extrema-direita. Perante os factos truncados, a óbvia parcialidade do escriba e a ausência de contraditório, resisti até agora a escrever sobre o assunto. Mas como parece não estar a despertar o interesse da imprensa, exploro a informação disponível e deixo também a minha posição.

Aparentemente, tudo começou há dois anos atrás, com a introdução da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento no ensino básico. O pai dos dois alunos em causa, invocando “objecção de consciência”, proibiu os filhos de frequentar as aulas de CD. Seguiu-se, aparentemente, uma troca de missivas e argumentos com a escola e as autoridades educativas, até que, passados dois anos, o SE João Costa entendeu que os alunos em causa, embora com boas notas a todas as disciplinas, não poderiam transitar de ano por não terem nem frequentado a disciplina nem cumprido o plano de recuperação das aprendizagens elaborado pela escola.

O Notícias Viriato publica o despacho de que foi dado conhecimento ao encarregado de educação, que também aqui republico, para que o leitor interessado consiga eventualmente ir mais longe do que eu na sua interpretação…

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Com a informação parcial e tendenciosa neste momento disponível, há ainda assim alguns pontos que interessa salientar:

  1. A legislação é clara relativamente aos procedimentos em caso de falta de assiduidade por motivos não justificados – no caso de uma disciplina com um tempo semanal, bastará uma falta injustificada para desencadear o processo – pelo que se estranho, tal como o Luís Braga, que um caso destes não tenha chegado à CPCJ e daí, face à reiterada recusa de colaboração da família, ao Tribunal de Família e Menores;
  2. A objecção de consciência invocada pelo pai não é, à luz da Constituição, um direito universal, mas sim uma prerrogativa que pode ser invocada apenas em casos e nos termos claramente explicados na Constituição e na lei, o que não se aplica, obviamente, à recusa desta ou daquela disciplina do currículo obrigatório – levado à letra, seria como um terraplanista recusar as aulas de Geografia ou um criacionista rejeitar a disciplina de Ciências;
  3. Se é ilegítima a posição do pai, também não me parece defensável a decisão ministerial, tomada ao arrepio de todas as filosofias da inclusão e da escola centrada no superior interesse do aluno que têm sido propagandeadas – todos os anos passam de ano dezenas, talvez centenas de milhares de alunos com classificações negativas e/ou excesso de faltas numa ou mais disciplinas, pelo que não faz sentido que estes alunos em concreto, com bom aproveitamento, estejam a ser “mandados para trás”.
  4. Acima de tudo, não é aceitável um caso destes estar a ser (mal) resolvido passados dois anos, com óbvios prejuízos para o interesse dos alunos em causa e que aparentemente nem a escola, nem o ME, nem o próprio encarregado de educação souberam salvaguardar.

No âmago da questão, que agora continuará a ser dirimida em tribunal, temos um pai de seis filhos católico e conservador, que defende a educação tradicionalista e o papel da família na transmissão de valores, contestando “modernices” como a sexualidade, interculturalidade ou as questões de género. E um secretário de Estado que, para dar o exemplo e assinalar uma questão de princípio, cai na armadilha e toma a decisão absurda de mandar alunos com bom aproveitamento repetir dois anos de escolaridade.

Evito fazer um juízo definitivo enquanto não obtiver informação mais completa ou novos desenvolvimentos do caso. Ainda assim, não posso deixar de notar, a concluir, que uma disciplina de “Cidadania” se prestará sempre a ser uma porta por onde os governos e outras organizações tentarão introduzir, nas escolas, a sua agenda política, enquanto alguns pais mais aguerridos contestarão a “doutrinação”.

As matérias propostas para as aulas de CD integram-se e articulam-se perfeitamente com os programas e aprendizagens de diversas disciplinas. E é aí que devem ser adequadamente tratadas, com o devido enquadramento nos conteúdos curriculares, abordadas de forma integrada e estruturada. Uma questão fundamental que, com a imposição da actual reforma curricular, nunca foi devidamente ponderada.

Pensamento do dia

pensandoSe nas aulas presenciais temos apenas – além de dar a aula – de escrever um sumário com a matéria que leccionámos ou a actividade que desenvolvemos, porque é que na educação a distância há quem pretenda que se apresente o planeamento das atividades a realizar, discriminando conteúdos, objectivos, recursos, feedback ao aluno, avaliação?…

Sem esquecer, a posteriori, o registo do trabalho realizado…

Se eu, que nem trabalho numa dessas escolas complicadas e hiperburocráticas que há por aí, noto à minha volta demasiado frenesim e exagero, como será naqueles lados onde, por tudo e por nada, se liga o complicómetro?

Atenção que a pastilha E@D é de toma prolongada e vai ser administrada até 26 de Junho, a todos os níveis de ensino!

Ou o pessoal acalma, ou muitos não irão aguentar a pedalada…

Aulas no terceiro período? Esqueçam…

covid19O primeiro-ministro, António Costa, admitiu esta terça-feira, no debate quinzenal, no Parlamento, que o encerramento das escolas poderá “ir muito além” das férias da Páscoa devido à pandemia de covid-19.

No debate, primeiro em resposta a Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, e depois a Jerónimo de Sousa, do PCP, Costa admitiu que “provavelmente” o Governo decidirá “prolongar” o fecho das escolas “muito além das férias da Páscoa”.

[…]

E na resposta a Jerónimo de Sousa repetiu a explicação, admitindo no final: “O terceiro período, provavelmente, não vai ser muito diferente do que tem sido estas semanas.”

Se o Governo tem esta percepção, que se adivinha realista, de que dificilmente teremos aulas presenciais no terceiro período, então conviria que o ME abandonasse de vez o estado de negação em que se tem refugiado. E, em vez de andar a passear o ministro pelos programas de entretenimento televisivo, a encomendar vídeos aos youtubers da moda e a enviar recados pela comunicação social, trabalhasse com as escolas e os professores na criação de condições mínimas para enfrentar este desafio colectivo.

Há antes de mais, duas realidades distintas que esta semana e meia de ensino não presencial claramente evidenciou:

  • Um elevado número de professores, provavelmente a maioria, que conseguiu manter o contacto com os alunos recorrendo às tecnologias de comunicação à distância. Nalguns casos usando plataformas e recursos que já antes estavam presentes na prática pedagógica, noutros casos explorando-as e descobrindo-as em tempo recorde.
  • Do lado dos alunos, a par de uma maioria que, em tempo de isolamento social, faz da internet a sua praia, e que não teve dificuldade em manter a conexão com a escola e os professores, regista-se igualmente um número significativo de alunos que, pura e simplesmente, desligaram da escola. A maioria destes, quero crer, porque não têm acesso a computador e/ou internet em casa. Mas há também os que pura e simplesmente quiseram entrar em férias antes do tempo. E se já na escola presencial se sentiam obrigados a fazer apenas o mínimo dos mínimos, em casa acham que devem fazer ainda menos.

“Segurar” estes alunos irá ser, julgo, o maior desafio de uma escola que, não sendo agora presencial, não pode por isso passar a ser menos inclusiva. E esta é uma responsabilidade que nos envolve a todos, a começar por um ME demasiado avesso a responsabilizar-se seja pelo que for.

Dificuldades da aprendizagem online – o alerta de uma mãe

computador.JPGQuando, como por um passe de magia, o ensino online e o teletrabalho são apresentados como soluções instantâneas para os problemas que o surto de coronavírus está a provocar às escolas e às empresas, convém olhar a realidade tal como ela se apresenta a muitas famílias portuguesas.

Pois uma coisa é conceber planos ambiciosos no conforto dos gabinetes, acolitado por um batalhão de secretários, assessores e consultores tão desconhecedores da realidade como os próprios decisores. Outra, bem diferente, são as condições reais em que vivem as famílias portuguesas.

A verdade é que um grande número de famílias não tem forma de corresponder à avalanche de solicitações que algumas escolas estão a fazer. É bom abrirem-se os olhos de uma vez por todas, pois quanto mais se insistir no erro, mais cavaremos o fosso educativo entre os que estão prontos para aceitar todos os “desafios” e os condenados à exclusão pela falta de recursos e oportunidades.

Não se trata de dar voz a um coro de lamúrias ou de alimentar pessimismos e derrotismos à moda do velho do Restelo. Como se vê pela mensagem que uma encarregada de educação devidamente identificada enviou, por estes dias, à directora de turma da sua filha. Descrevendo, com particular clareza e lucidez, as dificuldades que os pais, mesmo os mais comprometidos com a educação dos seus filhos, não conseguem ultrapassar.

Queria só fazer um alerta. Aqui em casa só existe um computador: eu a mãe estou em casa em teletrabalho, o pai também precisa de utilizar o computador em trabalho, a filha a fazer os trabalhos que nos são enviados.

Isto tem sido muito difícil. Trabalhar em teletrabalho e conciliar com os trabalhos da filha e do pai, juntamente com tudo o resto (incluindo apoio a avô). 

O computador de casa neste momento é essencial para os adultos como instrumento de trabalho. A minha filha não tem tido oportunidade de utilizar o computador e dificilmente terá nos próximos tempos.

Mais informo que eu tenho horário fixo semanal para estar obrigatoriamente online, coincide com o horário escolar da minha filha. 

O computador neste momento é essencial para que os progenitores consigam cumprir com as suas obrigações profissionais.

A maioria dos trabalhos dela estão a ser realizados em papel folhas de linhas ou lisas A4, salvo raras excepções. Irei tirar fotografias/PDF do seu trabalho e enviar para os professores. Desculpem-nos, mas neste momento é o melhor que conseguimos fazer.

Neste momento estamos todos a aprender a lidar com a esta situação.

Alerto também que nem todos os agregados familiares estão em pé de igualdade em equipamentos tecnológicos e no domínio dos mesmos, nem em questões laborais (nem todos podem estar em casa de “babysitting”), financeiras e materiais.

Avizinham-se tempos difíceis peço a vossa compreensão.

Licenciado aos 10 anos?

laurent-simons.jpgDe tempos a tempos surgem estes casos de precocidade extrema: miúdos que começam a ler e a escrever quando os outros ainda se limitam a explorar o mundo físico que os rodeia. Que fazem leituras extensas e desenvolvem raciocínios matemáticos enquanto os colegas soletram e contam pelos dedos. Quando este enorme potencial de aprendizagem é explorado e incentivado ao máximo, há miúdos que conseguem chegar à universidade enquanto os colegas da mesma idade ainda não concluíram o ensino básico. Mas julgo que nunca me tinha deparado com um caso como o que há dias era noticiado pelo JN.

Laurent Simons tem nove anos e aos oito conseguiu terminar o secundário. Os pais queriam que a criança se formasse antes de completar 10 anos. Mas, um conflito com a Universidade de Eindhoven de Tecnologia, na Holanda, colocou um ponto final nesse desejo.

O menino-prodígio nascido na Bélgica faz 10 anos no dia 26 de dezembro e os progenitores pretendiam que ele se formasse em Engenharia, na Universidade de Eindhoven de Tecnologia (UET) antes dessa data.

No entanto, e segundo escreve a BBC, os responsáveis da universidade explicaram aos pais que tal desejo seria impossível de concretizar, já que Laurent ainda tem uma série de exames para completar até terminar a licenciatura, que, por norma, tem a duração de três anos.

Pais e universidade andam agora de candeias às avessas. Enquanto aqueles parecem apostados em manter o filho numa corrida de velocidade, tendo em vista a obtenção do canudo, e fazem já planos para o doutoramento numa universidade norte-americana, os responsáveis académicos parecem preocupados em assegurar o ritmo mais adequado ao “desenvolvimento académico” do jovem estudante.

Céptico por natureza em relação a estes casos, julgo que a chave da questão está em algo que se discute muito nos dias de hoje e que entre nós se corporiza naquilo a que oficialmente se chamou o “perfil do aluno”: estudar é apenas adquirir conhecimentos académicos? Dizem-nos que o pequeno Laurent absorve todo o tipo de conhecimentos “como uma esponja”. Mas é apenas isso que se pretende da educação? Não é necessário tempo para assimilar, interagir, aplicar os conhecimentos adquiridos? Basta apenas definir um calendário de exames para validar as aprendizagens realizadas, ou deverão a  escola e a universidade do século XXI exigir outro tipo de provas e trabalhos aos seus estudantes?

Outra faceta da questão tem a ver com a infância que de certa forma poderá estar a ser roubada a esta criança. É certo que parece feliz e gostar da vida que tem, mas não lhe estará a ser retirado algo, em termos de experiência de vida, que nunca irá recuperar?

Demasiadas dúvidas, e poucas certezas, continuam a pairar sobre a realidade dos sobredotados…

O sofá alugado

sofa.GIFConseguir arrendar uma casa ou um quarto tornou-se um problema nos centros urbanos devido aos preços e atingiu em cheio milhares de professores colocados longe da área de residência. A Grande Lisboa e o Algarve são as zonas do país que mais precisam de professores mas onde se tornou mais difícil encontrar casa acessível. Basta somar as despesas com renda, deslocações e alimentação, retiradas de um salário de cerca de 1100 euros limpos, para que muitos professores nem aceitem a vaga. E por isso há horários por preencher desde o início do ano letivo.

Questionado pelo Expresso, o Ministério da Educação avança que estão “em análise e em articulação com outros ministérios soluções que visem incentivar a colocação de professores em certos territórios”, sem concretizar hipóteses ou prazos.

Enquanto isso, conta o semanário, é no sofá da sala numa casa em Odivelas que Natércia dorme três noites por semana. A professora de Matemática de 44 anos, a dar aulas há 20, teve de se sujeitar para conseguir uma renda mais baixa. Ficou a pagar 10 euros por noite e uma parte das despesas da casa. Feitas as contas, ao fim de um mês, é bem menos do que os €350 que lhe pediram por um quarto nos arredores de Lisboa. E foi a única solução para conseguir manter-se, pelo sexto ano consecutivo, a dar aulas na capital, a 300 km de Santa Maria da Feira, onde tem a família que tenta visitar todas as semanas.

Deixemo-nos de ilusões: nem o ME está verdadeiramente preocupado com a falta de professores – no reino das aprendizagens flexíveis, o que não se aprender este ano, aprende-se para o próximo, ou não se aprende sequer, que se calhar nem é “aprendizagem significativa” – nem as autarquias pretenderão assumir a sua quota-parte de responsabilidade naquilo que é, efectivamente, um problema local, bem delimitado a determinadas regiões do país.

Não será certamente neste ano, nem no próximo, que teremos as vagamente prometidas casas de renda acessível para professores. Pelo que não adianta estar a contar com soluções só viáveis, na melhor das hipóteses, a médio prazo, para resolver um problema premente e que só se tenderá a agravar no futuro próximo.

No imediato, a única forma de resolver a falta de professores habilitados para assegurar substituições temporárias seria pagar mais a estes docentes nas regiões onde os custos de deslocação e/ou alojamento são mais elevados. Recorrer a trabalhadores temporários tem um custo suplementar, como se reconhece na generalidade dos sectores da economia e o próprio Estado aceita, sem problemas, quando tem de contratar médicos tarefeiros para assegurar escalas de serviço nos hospitais. Contudo, como a falta de um professor não coloca em risco a vida ou a saúde de ninguém, a solução tem sido a mais favorável aos cofres do Estado, que é a de deixar andar.

Claro que o problema de fundo continua a ser o redimensionamento dos quadros das escolas e agrupamentos, abrindo as vagas efectivamente necessárias e estabilizando os professores necessários. Por outro lado, o envelhecimento da classe docente traduz-se num número cada vez maior de professores doentes, muitos deles em baixa prolongada. Desconhecem-se números rigorosos sobre uma realidade que é naturalmente dinâmica, mas há quem fale em perto de 10% dos professores em situação de baixa por doença, o que aumenta a pressão sobre o sistema de recrutamento da DGAE, que cada vez mais cedo deixa de assegurar às escolas os professores pretendidos.

Problema sério, que não se resolve com soluções mágicas nem com conversa da treta…

Foi você que pediu… um DAC?

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Retirado daqui.