Fraude no acesso à universidade

stanfordA notícia já tem alguns dias, mas as ondas de choque continuam a propagar-se por terras do Tio Sam. Num país que gosta de acreditar na meritocracia, na igualdade de oportunidades e noutras fábulas neoliberais, descobrir que os ricos, além de serem naturalmente beneficiados no acesso à Educação, ainda fazem batota quando nem tudo corre de feição, é naturalmente perturbador…

Meia centena de pessoas foram acusadas, nesta terça-feira, de envolvimento num gigantesco esquema fraudulento que garantiu a entrada a inúmeros alunos em universidades conceituadas dos Estados Unidos — como Yale, Stanford, Georgetown, a Universidade do Sul da Califórnia (USC) e a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) — através do pagamento de milhões de dólares.

Entre figuras de Hollywood e directores executivos de grandes empresas, pelo menos 33 pais são acusados de terem pago elevadas quantias para garantir que os seus filhos eram aceites em determinadas universidades dos EUA, segundo a acusação judicial agora conhecida. Mas no esquema estariam também envolvidos treinadores desportivos de universidades de topo, que são acusados de aceitar subornos de milhões de dólares para garantir que determinados alunos fossem aceites nas instituições de ensino, ao abrigo de programas teoricamente reservados para jovens atletas promissores, acabando por acolher estudantes que não preenchiam os requisitos académicos e atléticos necessários.

Segundo o diário New York Times, este é o maior processo relacionado com candidaturas universitárias alguma vez movido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. A investigação mobilizou 200 agentes a nível nacional e resultou em acusações contra 50 pessoas em seis estados norte-americanos.

O ensino superior dos EUA, embora de qualidade mundialmente reconhecida, sobretudo nas suas instituições de topo, é um sistema duplamente elitista: no acesso às universidades mais prestigiadas, onde os candidatos excedem largamente as vagas disponíveis e nos valores proibitivos das propinas cobradas, dificultando o acesso, não apenas aos pobres, mas também a quase todos os que não fazem parte daquele 1% da população norte-americana para quem o dinheiro nunca constitui problema.

A mega-fraude no acesso às universidades está a ter ampla discussão e diversas leituras. Do que li, partilho convosco um excerto da que me pareceu mais pertinente, incisiva e esclarecedora.

Os filhos da classe trabalhadora aprenderam uma lição brutal esta semana, quando os procuradores federais acusaram criminalmente pessoas ricas de comprar o ingresso em universidades de elite para os seus filhos não-tão-brilhantes.

A lição é que não importa o quanto trabalhes duro, não importa o quão inteligente ou talentoso fores, porque no fim um garoto burro, preguiçoso e rico vai-te vencer.

É crucial que todos os que não são estrelas de cinema, gestores de fundos de risco ou executivos – ou seja, 99% de todos os americanos – vejam o escândalo das admissões na faculdade pelo que ele é realmente: um microcosmo do mais vasto e corrupto sistema que funciona contra os trabalhadores, esmagando as suas oportunidades de progredir.

Esse sistema é o motivo pelo qual as pessoas ricas e as corporações receberam cortes fiscais massivos no ano passado, enquanto para os 99% eles foram insignificantes. É a razão pela qual o salário mínimo federal e o limite de horas extraordinárias estão fixos em níveis de pobreza. É a razão pela qual os sindicatos diminuíram nas últimas quatro décadas.

Este sistema é a razão pela qual não podemos ter coisas boas. Apesar de toda essa treta da terra da igualdade de oportunidades, os ricos garantem que só eles podem ter coisas boas, começando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente para seus filhos e continuando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente aos políticos que fazem as regras que tiram dinheiro dos bolsos de trabalhadores e o depositam nas contas bancárias dos fabulosamente ricos.

Quando o mentor do esquema de admissão em universidades de elite, William Singer, se declarou culpado esta semana, ele expôs a plataforma de lançamento disponível para os bem sucedidos garantirem que seus filhos serão bem sucedidos. Mesmo depois que os ricos pagarem para os seus herdeiros frequentar academias preparatórias proibitivamente caras, as suas notas, os resultados de testes e as actividades extra-curriculares podem não ser suficientes para entrar nas universidades da Ivy League, nas quais um diploma praticamente garante uma posição bem paga em Wall Street e, com isso, uma nova geração de acumulação de riqueza.

Músicas de Natal: US Navy Band – Dueling Jingle Bells

Um jingobel diferente do habitual…

Músicas do Mundo: Mell & Piet Veerman – Lovin’ Arms

Músicas do Mundo: Perpetuum Jazzile – Stand By Your Man

A escola no cinema: O Substituto

O-substituto.jpgO Substituto

Título original: Detachment, 98m, EUA, 2011.

Retomando uma série de posts dedicada aos olhares cinematográficos sobre a escola e a profissão docente, o destaque vai hoje para um filme relativamente recente cujo protagonista é um professor substituto. Henry Barthes é um docente do secundário com um dom especial para compreender e comunicar com os alunos, sobretudo os que têm maiores problemas escolares e familiares. E que, como estratégia de fuga a um envolvimento excessivo com os seus alunos, tem optado por fazer substituições temporárias de colegas, em vez de assumir um lugar permanente numa escola.

Contudo, quando chega a uma escola pública especialmente problemática, onde encontra colegas desmotivados e extenuados tentando educar adolescentes a quem a escola pouco ou nada diz e cuja atitude oscila entre a apatia e a indisciplina, Henry tenta adaptar-se à nova realidade, procurando conhecer e compreender os seus alunos, para conseguir chegar até eles. Mas não conseguirá deixar de se envolver nos problemas e no quotidiano difícil que alguns deles enfrentam.

O filme é bastante intenso  e reflexivo, mostrando-nos, com um rigor quase documental, não só a agitação e o conflito quase permanente que marca o dia-a-dia da escola, mas também os dramas humanos, as perplexidades e as contradições que perpassam pelo espírito das principais personagens. E faz-nos pensar, o que diz muito da qualidade daquele que podemos considerar um melhores filmes dos últimos anos sobre escola, juventude e educação.

Aretha Franklin (1942-2018)

O pulsar de uma metrópole

A animação representa graficamente a densidade da presença humana em Manhattan, Nova Iorque, ao longo dos dias da semana.

O comprimento das barras verticais indica a concentração de pessoas no espaço correspondente.

Manhattan-hora-a-hora.gif

O afluxo matinal de trabalhadores, turistas, clientes ou simples transeuntes e o regresso destas pessoas, à tarde, aos seus locais de residência, fazem com que o movimento do gráfico se assemelhe, de forma impressionante, ao pulsar de um coração.

Será que as grandes cidades têm vida?…