Músicas do Mundo: Foghorn String Band –Le Sud De La Louisiane

Pensamento do dia

…de um apoiante assumido da solução política a que se convencionou chamar geringonça. Que não deseja o regresso da direita ao poder, mas não abdica de um olhar crítico sobre o que se passa à sua volta nem está disposto a branquear os erros clamorosos na gestão da pandemia que, nos últimos tempos, se têm vindo a acumular.

Quando a pandemia escalou nos EUA, tornando-se o país com maior número e infectados e mortos pela covid-19, a culpa foi da política irresponsável e negacionista de Donald Trump.

No Brasil, com a gestão incompetente de Bolsonaro e idêntico negacionismo da gravidade de mais uma “gripezinha”, idem aspas.

E em Portugal, quando estamos já com taxas de infecção e de mortalidade por covid-19 proporcionalmente superiores àqueles dois países, a culpa é… dos portugueses?…

A Educação dirigida por um professor

O Presidente eleito Joe Biden apresentou na quarta-feira Miguel Cardona como seu nomeado para Secretário da Educação, chamando “brilhante” ao Comissário da Educação do Connecticut e dizendo que desempenhará um papel fundamental nos esforços da sua administração para reabrir escolas forçadas a funcionar online devido à pandemia do coronavírus.

Cardona, cujos pais se mudaram de Porto Rico para Connecticut, será outro latino de alto perfil no Gabinete, se confirmado pelo Senado dos EUA. Biden disse que Cardona “compreende que as raízes profundas da desigualdade que existem como uma fonte das nossas persistentes diferenças de oportunidades. Ele compreende o poder transformador que advém do investimento na educação”.

Cardona disse que, como comissário da educação, pai com filhos na escola pública e antigo professor da escola pública, ele compreende como este ano tem sido um desafio para estudantes, educadores e pais.

O percurso académico, profissional e político de Miguel Cardona espelha bem os profundos contrastes e contradições, mas também as oportunidades, que caracterizam o american way of live: para ser um estudante bem sucedido teve de se esforçar, desde criança, para dominar o inglês, que não era a sua língua materna; fez os seus estudos em escolas públicas, iniciou uma carreira de professor e foi um dos mais jovens directores escolares do seu estado antes de assumir funções dirigentes na administração educativa estadual.

Em suma, um professor e gestor escolar que assume o seu percurso profissional no ensino não superior público e um cidadão consciente da importância da escola pública na promoção da igualdade de oportunidades e na construção de uma sociedade mais justa. E também um defensor assumido da escola presencial, mas posta a funcionar, em tempos de pandemia, em plena segurança.

É muito cedo para tecer maiores considerações sobre o novo secretário, que ainda nem posse tomou. E sabemos como é frequente expectativas elevadas e irrealistas em relação a novos governantes converterem-se em amargas desilusões. Mas não deixo de notar o que teríamos a ganhar se, em vez dos usuais carreiristas e paraquedistas que têm dominado a cúpula do ME, tivéssemos pessoas com perfil semelhante na liderança da Educação em Portugal.

Por cá, a fasquia para a selecção do ministro que tutela a pasta é sempre, como sabemos, colocada muito baixa: em quarenta e tal anos de democracia, já passaram pelo cargo professores universitários, economistas, engenheiros, advogados e investigadores, a grande maioria com pouco ou nenhum conhecimento das realidades do sector. Mas nunca a escolha recaiu sobre um professor do básico ou do secundário. Diria até que essa condição tem sido, em governos de todas as cores políticas, impedimento absoluto para o exercício da função…

Músicas do Mundo: Hubert Maitre & Bayou Chicot – Lena Mae / Allons à Lafayette

Há quem se escandalize…

…com algum gozo e brincadeira em torno de Trump, cujo comportamento irresponsável levou a que ficasse infectado com o novo coronavírus.

Mas melhor fariam os trumpistas se guardassem as críticas para a figura que fez o anormal quando, há quatro anos atrás, gozava com a doença da sua adversária na corrida à Casa Branca.

Rodeado de privacidade e conforto e a receber os melhores tratamentos médicos disponíveis no hospital militar que o acolheu, certamente não terá de recorrer às desinfecções com lixívia ou às injecções de hidroxicloroquina que ainda há pouco tempo prescrevia aos outros infectados.

Independentemente das nossas preces ou simples desejos de boas melhoras, não lhe faltará nada do que precise para se pôr bom. Ao contrário do que sucede a milhões dos seus concidadãos quando esgotam os plafonds dos seguros de saúde.

Infectado!

Para quem assumiu ostensivamente tantos comportamentos de risco durante a pandemia, escapar à doença é que seria de estranhar.

Ainda assim, pode dizer-se que a infecção viral chegou em momento oportuno: a patinar nas sondagens e nos debates, Trump pode agora fechar-se em casa e gerir daí, mais criteriosamente, as suas intervenções públicas.

Para registo do acontecimento, elejo a notícia da Imprensa Falsa como a mais adequada à personagem de opereta que dirige – ainda – os destinos dos EUA…

trump-lixivia

Depois do teste positivo, Donald Trump deu logo entrada no serviço de limpeza da Casa Branca, tendo sido observado de imediato.

Agora, segundo fonte próxima, mas não tão próxima como é costume, o presidente norte-americano vai fazer lixívia de 8 em 8 horas, devendo intercalar com Ajax se não estiver a ver bem.

“Mais sobra”, terá entretanto afirmado Trump, depois da recusa da primeira dama, bem como de outros membros da sua equipa, em seguir o tratamento com produtos de limpeza.

O fim da macacada

Nunca lutes com um porco; primeiro porque ficas todo sujo; segundo, porque ele gosta. O sábio conselho de Bernard Shaw poderia dirigir-se a Joe Biden e ao exasperante debate contra o ainda presidente dos EUA.

Um duelo mediático que o Henricartoon interpretou muito apropriadamente…

macacos

Músicas do Mundo: Los Tigres Del Norte –La Jaula de Oro

Música para uma tarde de chuva: Credence Clearwater Revival – Have You Ever Seen The Rain

Ignorar o Holocausto

auschwitzQuase dois terços dos jovens adultos norte-americanos não sabem que seis milhões de judeus foram exterminados durante o Holocausto, e um em cada dez acredita que os judeus foram responsáveis pelo Holocausto. Além disso, cerca de metade não consegue nomear um campo de concentração ou um gueto criado durante a II Guerra Mundial.

Estes são alguns dos resultados de um inquérito apresentado nesta quarta-feira, solicitado pela Conferência para Reivindicações Materiais Judaicas contra a Alemanha (mais conhecida como a Conferência para Reivindicações), uma organização judaica que negoceia indemnizações para as vítimas do Holocausto e defende a preservação da memória histórica das vítimas.

O inquérito incidiu sobre os jovens adultos entre os 18 e os 39 anos, pertencentes à geração “millenial” (nascidos entre 1981 e 1994) ou à Geração Z (nascidos depois de 1995).

De acordo com os resultados, 63% dos inquiridos não sabiam que seis milhões de judeus foram assassinados durante o Holocausto e mais de um em cada três (36%) acreditavam que o número de mortos seria dois milhões ou menos.

Sendo os EUA o principal aliado de Israel e a minoria judaica uma das mais influentes politicamente, é paradoxal que os cidadãos norte-americanos sejam tão notoriamente ignorantes acerca da história judaica em geral e do Holocausto em particular.

Nem se trata aqui maioritariamente, parece-me, da expressão de qualquer sentimento anti-semita, como sucede nalgumas partes da Europa. É mesmo desinteresse e ignorância, uma atitude muito comum no cidadão médio dos EUA em relação a tudo o que ultrapasse as fronteiras nacionais. E que nem o sistema educativo nem os media fazem muito por contrariar.

Para males deste género, é costume recomendar-se mais e melhor educação: no caso, ensinar e aprender mais sobre o Holocausto, esse genocídio em larga escala aplicado aos judeus e a outras “raças inferiores”. O que tem um local próprio para ser feito: as aulas de História.

Ora o que sucede actualmente é que está em curso uma desvalorização curricular da disciplina. Os alunos conhecem pouco do Holocausto e dos temas históricos em geral porque o reduzido tempo lectivo que é concedido à disciplina é cada vez mais insuficiente para tudo o que lhe é exigido.

A tendência não é de agora, mas no caso português foi especialmente agravada com a chamada flexibilidade curricular. No 9.º ano, a disciplina de História está reduzida na generalidade das escolas a 90 ou 100 minutos semanais, o que é claramente insuficiente para tratar adequadamente os temas que integram o programa da disciplina.

Reconhecendo a importância, para as novas gerações, de conhecer e compreender os Direitos Humanos, a democracia, a Constituição, a igualdade de direitos ou o Holocausto, há um acto de coerência que se torna imperativo: a valorização curricular da disciplina de História.