Educação e desigualdades

Desde os anos oitenta do século XX que os EUA criaram uma hierarquia económica através de uma armadilha meritocrática sustentada em competições na escola e no trabalho que se alastrou às democracias ocidentais. Ou seja, o investimento financeiro acrescentou experiências curriculares mais prestigiadas que, num registo de bola de neve, tornaram a educação no factor determinante do aumento brutal das desigualdades.

Dá ideia que, no mundo global e com o peso das instituições norte-americanas, é muito difícil evitar que outras nações não caiam na desigualdade meritocrática. Mas nada se perde em discutir o assunto. Aliás, o que história nos ensina é que para onde caminharem os sistemas dos EUA irão mais lentamente os europeus. O Reino Unido já navega há muito nos mesmos mares das desigualdades educativas e da falta de professores e a França e a Alemanha vão-se aproximando. Por cá, a contaminação por estas políticas iniciou-se no início do milénio com mudanças bem identificadas na trágica quebra da solidariedade no ambiente escolar: avaliação, e precarização, dos professores numa degradante farsa meritocrática; modelo autocrático de gestão das escolas; rankings de escolas que serviram os interesses comerciais do ensino privado de elites; aumento do número de alunos por turma.

Chegados aqui, impõe-se a interrogação. E nada há a fazer?

Obviamente que há. Há mudanças sustentáveis que se devem dirigir a eixos nucleares com efeito aglutinador: alunos por turma, falta estrutural de professores e requalificação de escolas. Desde logo, eliminar a armadilha meritocrática na organização da avaliação e da gestão das escolas e perseguir a redução de alunos por turma como critério decisivo da avaliação da municipalização.

Continua…

As reflexões sempre estimulantes de Paulo Prudêncio levam-me a revisitar a tese da escola púbica como poderoso elevador social: proporcionando educação de qualidade aos filhos das classes trabalhadoras, a escola gratuita e, até certo ponto, obrigatória, dá-lhes a oportunidade de aceder a profissões mais qualificadas, até então praticamente reservadas às elites. O problema é que este elevador, que funcionou incansavelmente durante a segunda metade do século XX, fomentando a mobilidade social, o crescimento das classes médias, o aumento da produtividade, o desenvolvimento económico e o progresso social, este elevador, dizia, começou a emperrar com o advento das políticas neoliberais que levaram à mercantilização da Educação e reconduziram progressivamente os sistemas educativos à sua missão tradicional de reprodução da desigualdade.

O Paulo centra a sua análise na realidade dos Estados Unidos, um país que, nestas e noutras coisas, tem marcado as tendências e linhas de rumo que, deste lado do Atlântico, se acabam também por seguir: os colégios e universidades super-elitistas, com mensalidades de valor astronómico e escolas públicas cronicamente subfinanciadas e muito condicionadas às condições do meio social e cultural envolvente. Um sistema educativo capaz de elevar as universidades de referência ao topo dos rankings mundiais, mas incapaz de, no seu todo, ultrapassar a mediania, quando comparado com os congéneres dos outros países desenvolvidos.

Em Portugal, nem é preciso enveredarmos pela discussão extemporânea do cheque-ensino, trazida à liça eleitoral por alguns partidos de direita, para constatarmos o avanço das tendências elitistas e privatizadoras no ensino. A grande maioria dos empresários, académicos ou dirigentes políticos que andam hoje pelos 50-60 anos estudaram em escolas públicas. Mas a maior parte dos seus filhos, e seguramente a quase totalidade dos seus netos foram inscritos em escolas privadas. Quando apenas os filhos da burguesia estudavam, o liceu parecia bastante digno para o efeito. Mas quando a prol das classes inferiores invadiu as escolas básicas e secundárias, estas deixaram de ser suficientemente boas para a gente com pretensões. A ideia de base é sempre a mesma, dar aos filhos uma educação diferenciadora. Antes, uma escolarização que poucos poderiam ter. Agora, uma escola diferente e, supostamente, melhor.

Mas o que faz realmente a diferença nestas escolas? Para além da origem de classe privilegiada dos seus alunos, garantida pelas propinas cobradas à entrada, conta, como nota Paulo Prudêncio, a atenção individualizada dada aos alunos, o que só se consegue com turmas pequenas. Uma vantagem muito bem paga nos colégios de elite, mas que tem sido impossível de reproduzir nas escolas públicas, face aos orçamentos minguados e às regras restritivas que lhe são impostas.

Sendo um combate difícil, defender a escola pública de qualidade e combater a desigualdade no acesso à Educação é fundamental. Além da necessidade de valorizar o mais importante activo de qualquer escola – o seu corpo docente – o nosso colega Paulo Prudêncio aponta uma medida essencial: acabar com as turmas numerosas, impondo limites sensatos, em torno dos 20 alunos por turma, na sua constituição.

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Agressora do ano

Não é só por cá que se tornou moda eleger, geralmente por critérios pouco claros e compreensíveis, “professores do ano”. O hábito existe há muitos anos noutros países, replicando a prática de algumas empresas que incentivam desta forma os seus subalternos. E encontra terreno favorável entre uma classe profissional que parece carente de aceitação social e que julga encontrar desta forma a valorização e o reconhecimento que, por outras vias, lhe continua a ser sistematicamente recusado.

Só que às vezes surgem situações deprimentes e até caricatas. Como foi o caso desta professora nos EUA. Na quarta-feira, recebeu o prémio de professora do ano. Sexta-feira, foi detida pela polícia, acusada de agressão a uma aluna na escola onde trabalha…

Uma professora da Flórida, nos EUA, foi acusada por agressão contra um menor, dois dias depois de ter sido eleita ‘Professora do Ano’.

Carolina Melanie Lee, de 60 anos, recebeu o prémio na passada quarta-feira, pela Duval County Public Schools. Na sexta-feira, foi detida por ter agredido uma jovem, deixando-a com o nariz a sangrar.

Segundo reporta o NY Post, a mulher terá chamado a jovem ao seu gabinete depois de esta ter escrito um comentário no Instagram onde criticava a escolha desta docente para o prémio em causa, alegando que a mulher dizia asneiras nas aulas.

Imagens de videovigilância mostram a professora com uma atitude chateada a entrar com a aluna no seu gabinete e mais tarde a jovem agarrada ao rosto dirigindo-se ao gabinete do diretor da escola.

A administração da escola decidiu suspender a professora, alegando que o bem-estar dos seus alunos é a sua prioridade.

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O ensino doméstico é a solução?

Perante a falta de resposta às necessidades educativas de crianças oriundas de comunidades discriminadas e desfavorecidas, que a pandemia apenas acentuou, será que ficar em casa é a melhor solução?

Se as escolas desistem de uma parte dos seus alunos, devem os pais caucionar esse erro, retirando-as voluntariamente em vez de exigirem aquilo a que têm direito?

Atenção que o que está em causa não é o direito, reconhecido na maioria dos países, de pais com formação superior, estabilidade financeira, vontade e tempo disponível educarem os filhos em casa. A notícia do Expresso fala-nos de pais pobres e pouco escolarizados que se sentem vítimas, tal como os seus filhos, de um sistema educativo incapaz de garantir o acesso universal à Educação.

Claro que em teoria tudo isto pode e deve ser discutido; na prática, quando estão em causa o direito à educação e a angústia de pais que vêem os filhos a ficar para trás, outro tipo de dilemas se colocam: devo lutar pelo que é justo e correcto, ainda que eficaz apenas a médio ou longo prazo, ou priorizar o que os meus filhos precisam agora?

Seja como for, a notícia evidencia bem a força das barreiras, para muitos intransponíveis, que perpetuam as desigualdades e a falta de oportunidades no país mais rico e poderoso do mundo.

Com as escolas a reabrirem para o novo ano letivo, Angela Valentine diz que o seu filho, Dorian, de 12 anos, não vai regressar à escola que frequentava em Chicago. Em vez disso, vai fazer o ano escolar em casa. “Comecei a reparar em alguns sinais e percebi que já não havia vantagens nenhumas,” conta Valentine, em entrevista à NBC News.

Lembra também que as notas do seu filho começaram a descer no ano passado. Quando a pandemia de covid-19 levou ao fecho do ensino, a sua escola não conseguiu fornecer qualquer tipo de apoio às necessidade de Dorian, segundo alega.

Bernita Bradley, advogada na área da educação ouviu histórias semelhantes na cidade de Detroit. Bradley começou a notar que os alunos afro-americanos foram deixados para trás e os seus pais ignorados pelas administrações das respetivas escolas – acontecimento comum nas escolas públicas de Detroit quando a pandemia estava ainda numa fase inicial.

Recorda também que muitos alunos não tinham os recursos adequados, tais como computadores portáteis ou ligação à internet. Assim, houve uma elevada percentagem de faltas, cerca de 30% não conseguia participar nas aulas online.

Um pouco por todo o país, existem relatos de pais frustrados com o comportamento de escolas públicas e privadas, levando muitos a considerar uma mudança na educação dos filhos. Dados revelam que racismo na escola, parcialidade por parte de alguns professores e currículos que os pais acham inadequados são algumas das razões que levam muitos a mudar para a educação em casa.

Professora infectada contagiou metade da turma

Ultimam-se as normas para a reabertura do novo ano lectivo ainda em clima de pandemia, sabendo-se que não deverão diferir substancialmente das adoptadas em 2020/21: não se mexe no tamanho das turmas nem nas condições físicas das salas de aula, que isso custa dinheiro; em contrapartida, voltaremos em breve à rotina dos distanciamentos, dos circuitos e horários desencontrados, das máscaras e do gel desinfectante. E dos testes em massa, também, já anunciados para todo o pessoal docente e não docente e alunos a partir do 3.º ciclo.

Para quem pensa que tudo isto será excessivo perante a elevada percentagem de portugueses vacinados, há que lembrar que as vacinas não garantem eficácia completa contra as diversas variantes da covid-19. Que algumas destas são especialmente contagiosas mesmo entre os mais novos. Que continua a haver, embora em menor número do que noutros países, resistentes à vacinação. E que os alunos mais novos, além de não serem vacinados, nem sequer são obrigados a usar máscara.

Se mais dúvidas houver, atente-se neste exemplo que nos chega dos EUA, de um estado – a Califórnia – onde até tem havido boa aceitação das medidas anti-covid. Bastou no entanto que uma professora infectada e não vacinada teimasse em dar aula sem máscara para contagiar metade dos seus alunos…

Uma professora não vacinada numa escola primária da California infetou metade dos seus alunos – e 26 pessoas no total – quando contraiu a variante delta, de acordo com investigadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

O CDC investigou o surto naquela escola do condado de Marin que começou com a professora infetada, uma dos dois únicos funcionários da escola que não estavam vacinados. A professora teve sintomas de covid-19 em meados de maio, mas continuou a trabalhar até receber um teste positivo.

Segundo os cientistas, a professora esteve na escola durante dois dias, apesar de apresentar sintomas, e lia em voz alta para a turma sem máscara, embora a escola exigisse o seu uso em ambientes fechados.

Metade dos alunos contraiu a doença, sendo que os alunos sentados mais perto da professora tinham maior probabilidade de estarem infetados. Além disso, seis alunos de outra turma e oito familiares de estudantes também apanharam o vírus. No total, uma professora infetou 26 pessoas.

Estudantes do Oregon dispensados dos exames

A Governadora do Oregon, Kate Brown, dispensa os estudantes do ensino secundário de provar proficiência em matemática, leitura e escrita para obter o diploma, a fim de ajudar os estudantes minoritários que “não testam bem”.

A decisão de Kate Brown não é inédita: inscreve-se numa tendência global de facilitismo nas avaliações escolares, até certo ponto inevitável face às contingências da pandemia. Mas está a dividir a opinião pública naquele estado norte-americano.

Os defensores da medida notam que ela irá beneficiar os estudantes de minorias étnicas e sociais que tradicionalmente registam resultados escolares médios mais fracos, eliminando uma barreira para muitos intransponível na conclusão do secundário.

Para os críticos, a eliminação dos exames tem uma leitura muito simples: representa um abaixamento dos padrões de exigência até aqui impostos aos estudantes.

Como pano de fundo, subsiste um sistema educativo fortemente dependente de testes estandardizados e avaliações externas que deveria, em teoria, conduzir os EUA a uma excelência educativa que está longe de se confirmar. E por isso se vão ensaiando reformas no sentido de diminuir o peso das provas e exames, confiando mais no trabalho das escolas, na avaliação contínua e na resposta eficaz às necessidades concretas de cada comunidade educativa.

Claro que a questão fundamental, numa sociedade de desigualdades profundas e grande heterogeneidade cultural como a dos EUA, passa pelo investimento em Educação. Melhorar de forma consistente os resultados escolares dos mais desfavorecidos implica a tomada de medidas corajosas para dar a estes alunos, e às suas famílias, as condições necessárias ao sucesso escolar. Acabar com os exames finais, permitindo que todos passem, mesmo sem terem aprendido, acaba por ser um presente envenenado, que rouba aos jovens mais carenciados as reais oportunidades que uma educação de qualidade lhes poderia proporcionar.

Músicas do Mundo: The Buzztones – Stand By Me