Músicas de Verão: Caleb Klauder Country Band – C’est Le Moment

Músicas de Verão: Jessica Rhaye & The Ramshackle Parade – Blowin’ In The Wind

Músicas de Verão: Karolina Protsenko & Avelina Kushnir – Can’t Help Falling In Love

Músicas de Verão: Chuck Berry, Bruce Springsteen & The E Street Band – Johnny B. Goode

EUA, regresso ao passado

O procurador-geral do Missouri anunciou que este estado conservador dos Estados Unidos se tornou o “primeiro” a proibir interrupções voluntárias da gravidez, na sequência da decisão desta sexta-feira do Supremo Tribunal, que revogou o direito ao aborto.

“Este é um dia monumental para a santidade da vida”, disse Eric Schmitt numa mensagem na rede social Twitter acompanhada de uma imagem que o mostra a ratificar o texto que “verdadeiramente” acaba com o aborto no Missouri – um estado que na realidade só tinha uma clínica que permitia tal procedimento. […]

O Supremo Tribunal dos EUA anulou hoje a proteção do direito ao aborto em vigor no país desde 1973, numa decisão que permitirá a cada Estado decidir se mantém ou proíbe tal direito, sendo que dos 50 Estados norte-americanos metade deve aproveitar a oportunidade para impedir a interrupção voluntária da gravidez a curto ou longo prazo.

Vivemos acostumados à ideia de progresso, a todos os níveis, da Humanidade: acreditamos que a vida é melhor hoje do que no passado e, pelo menos os mais optimistas, que o futuro será ainda melhor do que o presente. Mas a verdade é que, se existem mudanças que, em termos históricos, são irreversíveis, há também conquistas que, parecendo definitivas, na verdade não o são. Se não permanecermos vigilantes e decididos na sua defesa, a qualquer momento se podem reverter.

Até há pouco tempo atrás, a despenalização, primeiro, e a legalização, depois, da interrupção voluntária da gravidez por decisão da mulher, aparentava ser um caminho sem regresso, na senda da emancipação feminina, da autodeterminação das mulheres em relação ao seu próprio corpo e do pleno direito à saúde sexual e reprodutiva. Afinal, bastou a chegada ao poder de Trump para que este, fazendo uso da prerrogativa presidencial de nomeação de juízes para o Supremo Tribunal, impusesse ali a maioria conservadora que agora revogou a protecção federal do direito ao aborto.

O caso é lamentável, desde logo pela desprotecção a que ficam sujeitas as mulheres desfavorecidas, nos estados mais pobres e conservadores, que queiram abortar, e que poderão ver-se forçadas a fazê-lo na clandestinidade e a ter de enfrentar a perseguição legal. As mais afortunadas, essas terão sempre a hipótese de viajar para outro estado para aí pôr termo à gravidez.

Preocupante é também o exemplo que os EUA estão a dar ao mundo: uma país tradicionalmente coeso na sua diversidade mostra-se cada vez mais dividido e fracturado entre liberais e conservadores, dois mundos paralelos cada vez mais distantes e com óbvias dificuldades em se entenderem. A última vez que tal sucedeu, há mais de 150 anos, o resultado foi uma guerra civil que deixou marcas profundas na sociedade e no modo de vida americano. Desta vez não creio que se chegue a tanto; mas que há aprendizes de feiticeiro a libertar demónios e a embriagar-se com o seu próprio poder, isso é bem evidente…

Pensamento do dia

A Inglaterra vitoriana, tão excêntrica quanto conservadora, com os seus colégios internos e apuradas raças de cães e de cavalos, ganhou a duvidosa reputação de gostar mais de animais do que de crianças.

Nos dias de hoje, quando o animalismo adquire projecção social e política, a ideia já não impressiona. A breve trecho existirão mais cães e gatos do que crianças nos países desenvolvidos.

Nos EUA, pioneiros em tanta coisa, o desamor pelas crianças atinge uma outra dimensão. Horrorizados com o mais recente massacre escolar, mas paralisados perante a necessidade evidente de acabar de vez com estas chacinas, será que os cidadãos deste país amam as armas ainda mais do que os seus próprios filhos?

Imagens daqui.

Professora americana

Um cartoon bastante elucidativo, que corre nas redes sociais dos docentes dos EUA.

Ali, como em quase toda a parte nos dias de hoje, multiplicam-se as exigências e os desafios que os pais, o poder político e a sociedade fazem recair sobre os professores. Sem que lhes sejam assegurados meios e condições adequados para que possam cumprir o que deles se espera.

Numa leitura rápida, o caderno de encargos não difere muito do que incide sobre os professores portugueses: baixos salários e cortes orçamentais, avaliação dos professores, testes e exames dos alunos, aprendizagem presencial e à distância e, claro, as eternas contingências da pandemia.

A maior diferença é que, por cá, ainda ninguém se lembrou de exigir que os professores façam de heróis, abatendo serial killers que ameacem os seus alunos; nem de mártires, dando o peito às balas para servir de escudo humano às crianças indefesas.

Defensores das armas reúnem… desarmados!

Olha para o que digo, mas não para o que faço: o velho provérbio nunca assentou tão bem como à hipocrisia do poderoso lobby armamentista dos EUA, a National Rifle Association, que interpreta de forma enviesada a Segunda Emenda à Constituição, feita numa época em que não existiam sequer armas automáticas, para exigir liberdade plena, de todos os cidadãos, ao uso e porte de arma.

A lógica da NRA é simples e bem conhecida: não são as armas que matam, mas aqueles que as usam indevidamente. Pelo que se todos os cidadãos estiverem armados, todos se poderão defender de um agressor. Na sequência do último massacre numa escola do Texas ouviu-se de novo, e certamente não pela última vez, o apelo a que os professores vão dar aulas armados.

Evidentemente que isto é um disparate, e a hipocrisia cínica da NRA revela-se em toda a sua amplitude quando olhamos para as regras de segurança em vigor no seu encontro anual a decorrer este fim-de-semana. Será que vão armados até aos dentes, pondo em prática, nos seus próprios eventos, as mesmas regras que impõem ao resto da sociedade?

A resposta é um claro não. Tal como nos encontros anteriores, nenhum dos defensores das armas poderá entrar com armas, munições ou qualquer objecto potencialmente agressor, incluindo mochilas, garrafas ou guarda-chuvas. E não digam que é por causa da presença de Trump, pois regras semelhantes têm sido sempre seguidas nestes eventos. Quando é a sua própria segurança que está em causa, sabem bem como se podem e devem proteger…

Ucrânia, palco de um conflito maior

Todas as guerras são condenáveis, a paz é um bem inestimável, todos os povos têm direito a escolher os seus destinos, todos os combates causam sofrimento, mortes, destruições e deslocações. A guerra é sempre uma amálgama de corpos, de sangue e de ruínas. Todos os seres humanos dotados de um mínimo de humanidade são contra a guerra. Contudo, a guerra é a mais antiga e continuada ação humana. A condenação moral da guerra nunca evitou a guerra, nem construiu a paz.

O primeiro dado de partida para a análise de qualquer guerra é não haver moral, mas apenas interesses. Os direitos dos povos e a moral não são elementos do jogo. Nunca são. Na Ucrânia não se defende a liberdade, nem o direito, como não se defenderam esses valores noutras invasões próximas de nós no tempo, a do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, da Síria. Como não foram para os defender que se desencadearam as guerras no Vietname ou, mais atrás, as invasões da Hungria e da Checoslováquia. Como, ainda mais atrás, não foi pela defesa de valores morais que ocorreu a divisão da península da Coreia.

Significativamente, são de militares ou ex-militares as análises mais serenas, objectivas e esclarecedoras que vamos lendo e ouvindo sobre a guerra na Ucrânia, deixando a anos luz a mediocridade evidente dos habituais tudólogos do comentariado do regime.

Na análise pertinente de Carlos de Matos Gomes, um coronel reformado que viveu a guerra e escreve sobre ela, e que vale a pena ler na íntegra, o primeiro ponto, que transcrevi, alerta-nos para a inutilidade de tentar interpretar um conflito bélico à luz de qualquer tipo de moralismo – um erro infantil que muitos não conseguem evitar. Na verdade, se houvesse moral na guerra, a primeira regra seria obviamente a proibição da guerra. Quando esta deflagra, é evidente que esse ponto já foi ultrapassado e que, daí para a frente, são outras as considerações que estão em jogo.

Basicamente, a guerra é uma forma de, por meios violentos, defender interesses ou obter vantagens, passando para o campo militar um jogo que habitualmente se faz nos tabuleiros da política, da economia ou da diplomacia. E não envolve apenas os contendores directos: é frequente os grandes beneficiadores dos conflitos manterem-se na sombra. Como acontece de forma evidente, no caso da guerra da Ucrânia, com os Estados Unidos.

Deste conflito entre os imperialismos russo e americano, é cedo para avaliar quem sairá vencedor, mas há para já dois vencidos óbvios: os povos ucraniano e russo. Fragilizado sairá também o projecto europeu, incapaz de se emancipar da esfera de interesses e da asa protectora dos EUA. Uma Europa unida, não apenas no plano da retórica mas também da estratégia e da acção política e económica poderia ter assumido uma mediação activa do conflito que evitasse a escalada que conduziu à guerra. O papel de mediador que acabará por ser assumido, provavelmente, pela China, outro dos prováveis vencedores de uma guerra que fragiliza a Europa e reforça a tensão militar entre a Rússia e os EUA, enquanto os chineses se continuam a afirmar como potência global nos campos diplomático e económico.

Música para uma tarde chuvosa: Roger Hodgson – It’s Raining Again