Pensamento do dia

A Inglaterra vitoriana, tão excêntrica quanto conservadora, com os seus colégios internos e apuradas raças de cães e de cavalos, ganhou a duvidosa reputação de gostar mais de animais do que de crianças.

Nos dias de hoje, quando o animalismo adquire projecção social e política, a ideia já não impressiona. A breve trecho existirão mais cães e gatos do que crianças nos países desenvolvidos.

Nos EUA, pioneiros em tanta coisa, o desamor pelas crianças atinge uma outra dimensão. Horrorizados com o mais recente massacre escolar, mas paralisados perante a necessidade evidente de acabar de vez com estas chacinas, será que os cidadãos deste país amam as armas ainda mais do que os seus próprios filhos?

Imagens daqui.

Professora americana

Um cartoon bastante elucidativo, que corre nas redes sociais dos docentes dos EUA.

Ali, como em quase toda a parte nos dias de hoje, multiplicam-se as exigências e os desafios que os pais, o poder político e a sociedade fazem recair sobre os professores. Sem que lhes sejam assegurados meios e condições adequados para que possam cumprir o que deles se espera.

Numa leitura rápida, o caderno de encargos não difere muito do que incide sobre os professores portugueses: baixos salários e cortes orçamentais, avaliação dos professores, testes e exames dos alunos, aprendizagem presencial e à distância e, claro, as eternas contingências da pandemia.

A maior diferença é que, por cá, ainda ninguém se lembrou de exigir que os professores façam de heróis, abatendo serial killers que ameacem os seus alunos; nem de mártires, dando o peito às balas para servir de escudo humano às crianças indefesas.

Defensores das armas reúnem… desarmados!

Olha para o que digo, mas não para o que faço: o velho provérbio nunca assentou tão bem como à hipocrisia do poderoso lobby armamentista dos EUA, a National Rifle Association, que interpreta de forma enviesada a Segunda Emenda à Constituição, feita numa época em que não existiam sequer armas automáticas, para exigir liberdade plena, de todos os cidadãos, ao uso e porte de arma.

A lógica da NRA é simples e bem conhecida: não são as armas que matam, mas aqueles que as usam indevidamente. Pelo que se todos os cidadãos estiverem armados, todos se poderão defender de um agressor. Na sequência do último massacre numa escola do Texas ouviu-se de novo, e certamente não pela última vez, o apelo a que os professores vão dar aulas armados.

Evidentemente que isto é um disparate, e a hipocrisia cínica da NRA revela-se em toda a sua amplitude quando olhamos para as regras de segurança em vigor no seu encontro anual a decorrer este fim-de-semana. Será que vão armados até aos dentes, pondo em prática, nos seus próprios eventos, as mesmas regras que impõem ao resto da sociedade?

A resposta é um claro não. Tal como nos encontros anteriores, nenhum dos defensores das armas poderá entrar com armas, munições ou qualquer objecto potencialmente agressor, incluindo mochilas, garrafas ou guarda-chuvas. E não digam que é por causa da presença de Trump, pois regras semelhantes têm sido sempre seguidas nestes eventos. Quando é a sua própria segurança que está em causa, sabem bem como se podem e devem proteger…

Ucrânia, palco de um conflito maior

Todas as guerras são condenáveis, a paz é um bem inestimável, todos os povos têm direito a escolher os seus destinos, todos os combates causam sofrimento, mortes, destruições e deslocações. A guerra é sempre uma amálgama de corpos, de sangue e de ruínas. Todos os seres humanos dotados de um mínimo de humanidade são contra a guerra. Contudo, a guerra é a mais antiga e continuada ação humana. A condenação moral da guerra nunca evitou a guerra, nem construiu a paz.

O primeiro dado de partida para a análise de qualquer guerra é não haver moral, mas apenas interesses. Os direitos dos povos e a moral não são elementos do jogo. Nunca são. Na Ucrânia não se defende a liberdade, nem o direito, como não se defenderam esses valores noutras invasões próximas de nós no tempo, a do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, da Síria. Como não foram para os defender que se desencadearam as guerras no Vietname ou, mais atrás, as invasões da Hungria e da Checoslováquia. Como, ainda mais atrás, não foi pela defesa de valores morais que ocorreu a divisão da península da Coreia.

Significativamente, são de militares ou ex-militares as análises mais serenas, objectivas e esclarecedoras que vamos lendo e ouvindo sobre a guerra na Ucrânia, deixando a anos luz a mediocridade evidente dos habituais tudólogos do comentariado do regime.

Na análise pertinente de Carlos de Matos Gomes, um coronel reformado que viveu a guerra e escreve sobre ela, e que vale a pena ler na íntegra, o primeiro ponto, que transcrevi, alerta-nos para a inutilidade de tentar interpretar um conflito bélico à luz de qualquer tipo de moralismo – um erro infantil que muitos não conseguem evitar. Na verdade, se houvesse moral na guerra, a primeira regra seria obviamente a proibição da guerra. Quando esta deflagra, é evidente que esse ponto já foi ultrapassado e que, daí para a frente, são outras as considerações que estão em jogo.

Basicamente, a guerra é uma forma de, por meios violentos, defender interesses ou obter vantagens, passando para o campo militar um jogo que habitualmente se faz nos tabuleiros da política, da economia ou da diplomacia. E não envolve apenas os contendores directos: é frequente os grandes beneficiadores dos conflitos manterem-se na sombra. Como acontece de forma evidente, no caso da guerra da Ucrânia, com os Estados Unidos.

Deste conflito entre os imperialismos russo e americano, é cedo para avaliar quem sairá vencedor, mas há para já dois vencidos óbvios: os povos ucraniano e russo. Fragilizado sairá também o projecto europeu, incapaz de se emancipar da esfera de interesses e da asa protectora dos EUA. Uma Europa unida, não apenas no plano da retórica mas também da estratégia e da acção política e económica poderia ter assumido uma mediação activa do conflito que evitasse a escalada que conduziu à guerra. O papel de mediador que acabará por ser assumido, provavelmente, pela China, outro dos prováveis vencedores de uma guerra que fragiliza a Europa e reforça a tensão militar entre a Rússia e os EUA, enquanto os chineses se continuam a afirmar como potência global nos campos diplomático e económico.

Música para uma tarde chuvosa: Roger Hodgson – It’s Raining Again

Educação e desigualdades

Desde os anos oitenta do século XX que os EUA criaram uma hierarquia económica através de uma armadilha meritocrática sustentada em competições na escola e no trabalho que se alastrou às democracias ocidentais. Ou seja, o investimento financeiro acrescentou experiências curriculares mais prestigiadas que, num registo de bola de neve, tornaram a educação no factor determinante do aumento brutal das desigualdades.

Dá ideia que, no mundo global e com o peso das instituições norte-americanas, é muito difícil evitar que outras nações não caiam na desigualdade meritocrática. Mas nada se perde em discutir o assunto. Aliás, o que história nos ensina é que para onde caminharem os sistemas dos EUA irão mais lentamente os europeus. O Reino Unido já navega há muito nos mesmos mares das desigualdades educativas e da falta de professores e a França e a Alemanha vão-se aproximando. Por cá, a contaminação por estas políticas iniciou-se no início do milénio com mudanças bem identificadas na trágica quebra da solidariedade no ambiente escolar: avaliação, e precarização, dos professores numa degradante farsa meritocrática; modelo autocrático de gestão das escolas; rankings de escolas que serviram os interesses comerciais do ensino privado de elites; aumento do número de alunos por turma.

Chegados aqui, impõe-se a interrogação. E nada há a fazer?

Obviamente que há. Há mudanças sustentáveis que se devem dirigir a eixos nucleares com efeito aglutinador: alunos por turma, falta estrutural de professores e requalificação de escolas. Desde logo, eliminar a armadilha meritocrática na organização da avaliação e da gestão das escolas e perseguir a redução de alunos por turma como critério decisivo da avaliação da municipalização.

Continua…

As reflexões sempre estimulantes de Paulo Prudêncio levam-me a revisitar a tese da escola púbica como poderoso elevador social: proporcionando educação de qualidade aos filhos das classes trabalhadoras, a escola gratuita e, até certo ponto, obrigatória, dá-lhes a oportunidade de aceder a profissões mais qualificadas, até então praticamente reservadas às elites. O problema é que este elevador, que funcionou incansavelmente durante a segunda metade do século XX, fomentando a mobilidade social, o crescimento das classes médias, o aumento da produtividade, o desenvolvimento económico e o progresso social, este elevador, dizia, começou a emperrar com o advento das políticas neoliberais que levaram à mercantilização da Educação e reconduziram progressivamente os sistemas educativos à sua missão tradicional de reprodução da desigualdade.

O Paulo centra a sua análise na realidade dos Estados Unidos, um país que, nestas e noutras coisas, tem marcado as tendências e linhas de rumo que, deste lado do Atlântico, se acabam também por seguir: os colégios e universidades super-elitistas, com mensalidades de valor astronómico e escolas públicas cronicamente subfinanciadas e muito condicionadas às condições do meio social e cultural envolvente. Um sistema educativo capaz de elevar as universidades de referência ao topo dos rankings mundiais, mas incapaz de, no seu todo, ultrapassar a mediania, quando comparado com os congéneres dos outros países desenvolvidos.

Em Portugal, nem é preciso enveredarmos pela discussão extemporânea do cheque-ensino, trazida à liça eleitoral por alguns partidos de direita, para constatarmos o avanço das tendências elitistas e privatizadoras no ensino. A grande maioria dos empresários, académicos ou dirigentes políticos que andam hoje pelos 50-60 anos estudaram em escolas públicas. Mas a maior parte dos seus filhos, e seguramente a quase totalidade dos seus netos foram inscritos em escolas privadas. Quando apenas os filhos da burguesia estudavam, o liceu parecia bastante digno para o efeito. Mas quando a prol das classes inferiores invadiu as escolas básicas e secundárias, estas deixaram de ser suficientemente boas para a gente com pretensões. A ideia de base é sempre a mesma, dar aos filhos uma educação diferenciadora. Antes, uma escolarização que poucos poderiam ter. Agora, uma escola diferente e, supostamente, melhor.

Mas o que faz realmente a diferença nestas escolas? Para além da origem de classe privilegiada dos seus alunos, garantida pelas propinas cobradas à entrada, conta, como nota Paulo Prudêncio, a atenção individualizada dada aos alunos, o que só se consegue com turmas pequenas. Uma vantagem muito bem paga nos colégios de elite, mas que tem sido impossível de reproduzir nas escolas públicas, face aos orçamentos minguados e às regras restritivas que lhe são impostas.

Sendo um combate difícil, defender a escola pública de qualidade e combater a desigualdade no acesso à Educação é fundamental. Além da necessidade de valorizar o mais importante activo de qualquer escola – o seu corpo docente – o nosso colega Paulo Prudêncio aponta uma medida essencial: acabar com as turmas numerosas, impondo limites sensatos, em torno dos 20 alunos por turma, na sua constituição.

Músicas do Mundo: Tuba Skinny – Jubilee Stomp

Músicas de Natal: Gaby Moreno – Mi Burrito Sabanero

Músicas do Mundo: Zé Ramalho – Entre a Serpente e a Estrela

Agressora do ano

Não é só por cá que se tornou moda eleger, geralmente por critérios pouco claros e compreensíveis, “professores do ano”. O hábito existe há muitos anos noutros países, replicando a prática de algumas empresas que incentivam desta forma os seus subalternos. E encontra terreno favorável entre uma classe profissional que parece carente de aceitação social e que julga encontrar desta forma a valorização e o reconhecimento que, por outras vias, lhe continua a ser sistematicamente recusado.

Só que às vezes surgem situações deprimentes e até caricatas. Como foi o caso desta professora nos EUA. Na quarta-feira, recebeu o prémio de professora do ano. Sexta-feira, foi detida pela polícia, acusada de agressão a uma aluna na escola onde trabalha…

Uma professora da Flórida, nos EUA, foi acusada por agressão contra um menor, dois dias depois de ter sido eleita ‘Professora do Ano’.

Carolina Melanie Lee, de 60 anos, recebeu o prémio na passada quarta-feira, pela Duval County Public Schools. Na sexta-feira, foi detida por ter agredido uma jovem, deixando-a com o nariz a sangrar.

Segundo reporta o NY Post, a mulher terá chamado a jovem ao seu gabinete depois de esta ter escrito um comentário no Instagram onde criticava a escolha desta docente para o prémio em causa, alegando que a mulher dizia asneiras nas aulas.

Imagens de videovigilância mostram a professora com uma atitude chateada a entrar com a aluna no seu gabinete e mais tarde a jovem agarrada ao rosto dirigindo-se ao gabinete do diretor da escola.

A administração da escola decidiu suspender a professora, alegando que o bem-estar dos seus alunos é a sua prioridade.