Músicas do Mundo: Chingon – Malagueña Salerosa

O ensino doméstico é a solução?

Perante a falta de resposta às necessidades educativas de crianças oriundas de comunidades discriminadas e desfavorecidas, que a pandemia apenas acentuou, será que ficar em casa é a melhor solução?

Se as escolas desistem de uma parte dos seus alunos, devem os pais caucionar esse erro, retirando-as voluntariamente em vez de exigirem aquilo a que têm direito?

Atenção que o que está em causa não é o direito, reconhecido na maioria dos países, de pais com formação superior, estabilidade financeira, vontade e tempo disponível educarem os filhos em casa. A notícia do Expresso fala-nos de pais pobres e pouco escolarizados que se sentem vítimas, tal como os seus filhos, de um sistema educativo incapaz de garantir o acesso universal à Educação.

Claro que em teoria tudo isto pode e deve ser discutido; na prática, quando estão em causa o direito à educação e a angústia de pais que vêem os filhos a ficar para trás, outro tipo de dilemas se colocam: devo lutar pelo que é justo e correcto, ainda que eficaz apenas a médio ou longo prazo, ou priorizar o que os meus filhos precisam agora?

Seja como for, a notícia evidencia bem a força das barreiras, para muitos intransponíveis, que perpetuam as desigualdades e a falta de oportunidades no país mais rico e poderoso do mundo.

Com as escolas a reabrirem para o novo ano letivo, Angela Valentine diz que o seu filho, Dorian, de 12 anos, não vai regressar à escola que frequentava em Chicago. Em vez disso, vai fazer o ano escolar em casa. “Comecei a reparar em alguns sinais e percebi que já não havia vantagens nenhumas,” conta Valentine, em entrevista à NBC News.

Lembra também que as notas do seu filho começaram a descer no ano passado. Quando a pandemia de covid-19 levou ao fecho do ensino, a sua escola não conseguiu fornecer qualquer tipo de apoio às necessidade de Dorian, segundo alega.

Bernita Bradley, advogada na área da educação ouviu histórias semelhantes na cidade de Detroit. Bradley começou a notar que os alunos afro-americanos foram deixados para trás e os seus pais ignorados pelas administrações das respetivas escolas – acontecimento comum nas escolas públicas de Detroit quando a pandemia estava ainda numa fase inicial.

Recorda também que muitos alunos não tinham os recursos adequados, tais como computadores portáteis ou ligação à internet. Assim, houve uma elevada percentagem de faltas, cerca de 30% não conseguia participar nas aulas online.

Um pouco por todo o país, existem relatos de pais frustrados com o comportamento de escolas públicas e privadas, levando muitos a considerar uma mudança na educação dos filhos. Dados revelam que racismo na escola, parcialidade por parte de alguns professores e currículos que os pais acham inadequados são algumas das razões que levam muitos a mudar para a educação em casa.

Professora infectada contagiou metade da turma

Ultimam-se as normas para a reabertura do novo ano lectivo ainda em clima de pandemia, sabendo-se que não deverão diferir substancialmente das adoptadas em 2020/21: não se mexe no tamanho das turmas nem nas condições físicas das salas de aula, que isso custa dinheiro; em contrapartida, voltaremos em breve à rotina dos distanciamentos, dos circuitos e horários desencontrados, das máscaras e do gel desinfectante. E dos testes em massa, também, já anunciados para todo o pessoal docente e não docente e alunos a partir do 3.º ciclo.

Para quem pensa que tudo isto será excessivo perante a elevada percentagem de portugueses vacinados, há que lembrar que as vacinas não garantem eficácia completa contra as diversas variantes da covid-19. Que algumas destas são especialmente contagiosas mesmo entre os mais novos. Que continua a haver, embora em menor número do que noutros países, resistentes à vacinação. E que os alunos mais novos, além de não serem vacinados, nem sequer são obrigados a usar máscara.

Se mais dúvidas houver, atente-se neste exemplo que nos chega dos EUA, de um estado – a Califórnia – onde até tem havido boa aceitação das medidas anti-covid. Bastou no entanto que uma professora infectada e não vacinada teimasse em dar aula sem máscara para contagiar metade dos seus alunos…

Uma professora não vacinada numa escola primária da California infetou metade dos seus alunos – e 26 pessoas no total – quando contraiu a variante delta, de acordo com investigadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

O CDC investigou o surto naquela escola do condado de Marin que começou com a professora infetada, uma dos dois únicos funcionários da escola que não estavam vacinados. A professora teve sintomas de covid-19 em meados de maio, mas continuou a trabalhar até receber um teste positivo.

Segundo os cientistas, a professora esteve na escola durante dois dias, apesar de apresentar sintomas, e lia em voz alta para a turma sem máscara, embora a escola exigisse o seu uso em ambientes fechados.

Metade dos alunos contraiu a doença, sendo que os alunos sentados mais perto da professora tinham maior probabilidade de estarem infetados. Além disso, seis alunos de outra turma e oito familiares de estudantes também apanharam o vírus. No total, uma professora infetou 26 pessoas.

Estudantes do Oregon dispensados dos exames

A Governadora do Oregon, Kate Brown, dispensa os estudantes do ensino secundário de provar proficiência em matemática, leitura e escrita para obter o diploma, a fim de ajudar os estudantes minoritários que “não testam bem”.

A decisão de Kate Brown não é inédita: inscreve-se numa tendência global de facilitismo nas avaliações escolares, até certo ponto inevitável face às contingências da pandemia. Mas está a dividir a opinião pública naquele estado norte-americano.

Os defensores da medida notam que ela irá beneficiar os estudantes de minorias étnicas e sociais que tradicionalmente registam resultados escolares médios mais fracos, eliminando uma barreira para muitos intransponível na conclusão do secundário.

Para os críticos, a eliminação dos exames tem uma leitura muito simples: representa um abaixamento dos padrões de exigência até aqui impostos aos estudantes.

Como pano de fundo, subsiste um sistema educativo fortemente dependente de testes estandardizados e avaliações externas que deveria, em teoria, conduzir os EUA a uma excelência educativa que está longe de se confirmar. E por isso se vão ensaiando reformas no sentido de diminuir o peso das provas e exames, confiando mais no trabalho das escolas, na avaliação contínua e na resposta eficaz às necessidades concretas de cada comunidade educativa.

Claro que a questão fundamental, numa sociedade de desigualdades profundas e grande heterogeneidade cultural como a dos EUA, passa pelo investimento em Educação. Melhorar de forma consistente os resultados escolares dos mais desfavorecidos implica a tomada de medidas corajosas para dar a estes alunos, e às suas famílias, as condições necessárias ao sucesso escolar. Acabar com os exames finais, permitindo que todos passem, mesmo sem terem aprendido, acaba por ser um presente envenenado, que rouba aos jovens mais carenciados as reais oportunidades que uma educação de qualidade lhes poderia proporcionar.

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Seis erros da política educativa de Obama que Biden deve evitar

O artigo surgiu na semana passada na Forbes, e é bastante curioso e esclarecedor: é conhecida a obsessão dos decisores educativos, nos States, com os testes estandardizados como forma de avaliar os resultados das escolas e a qualidade do serviço educativo. Ou com o cheque-ensino, que mesmo implantado com boas intenções – aumentar as oportunidades e a liberdade de acesso à educação entre os mais pobres – acaba na prática a reforçar o classismo e as desigualdades numa sociedade que já é, ela própria, das mais desiguais do mundo. O que aqui constatamos é que políticas que na Europa são consideradas claramente de direita – por exemplo, inspiraram fortemente a acção de Nuno Crato, durante o último governo PSD/CDS – foram mantidas e reforçadas durante a era Obama.

Ficam os conselhos de Peter Green para que a administração Biden não cometa os mesmos erros, num texto que num ponto ou noutro até nos pode surpreender pela similitude com a realidade que melhor conhecemos – onde é que eu já vi/ouvi isto?…

Já chega de grandes testes padronizados

Há duas décadas que temos uma avaliação escolar centrada no teste. Poderíamos aprofundar os argumentos sobre a qualidade dos testes, a sabedoria dos testes, a distorção da educação, a inutilidade dos “dados” a nível da sala de aula e a validade de uma medida de teste único na educação. Mas contentemo-nos com isto – uma geração inteira de avaliação centrada em testes não moveu quaisquer agulhas. Não levou a nenhuma das “melhorias” que foram prometidas como justificação.

A avaliação escolar centrada no teste não funciona. E vem com enormes custos financeiros e de oportunidade. Já é tempo de encontrar outra forma.

Sem competição por subvenções

Fazer com que os estados e distritos concorram por recursos é retroceder. É como dizer: “Muitos destes corredores não têm sapatos decentes para correr, por isso vamos fazer uma corrida e dar bons sapatos novos apenas aos três primeiros classificados”. A capacidade de competir eficazmente por uma subvenção não está necessariamente, ou mesmo provavelmente, ligada à efectiva necessidade dessa subvenção.

Não dite a partir do topo

Há muitas lições a tirar do desastre das metas comuns de aprendizagem sob Obama/Duncan, mas uma grande lição é que os decretos políticos vindos de cima para baixo, que têm de ser implementados em milhares de salas de aula diferentes em comunidades diferentes com estudantes diferentes, estão condenados. Quando uma regra política desce por camadas e camadas de organização, torna-se como uma cópia de uma cópia de uma cópia de uma cópia de uma cópia. Quando a política governamental chega à sala de aula propriamente dita, caberá ao professor da sala de aula resolver o inevitável conflito entre as regras oficiais e as suas próprias competências e conhecimentos profissionais.

A adopção de uma abordagem de núcleo comum à educação não superior ou cívica acabará sempre mal.

Fale primeiro com os professores

A política educativa Obama/Duncan baseava-se na noção de que os professores eram o problema, não os trabalhadores no terreno com os conhecimentos profissionais necessários para alcançar o sucesso. Consequentemente, essa administração não ouvia os professores (a menos que fossem cuidadosamente examinados e seleccionados para estarem em sintonia com a administração).

Nos últimos vinte anos não houve uma falha na política de educação da qual os professores não tenham comentado: “Eu podia ter-vos dito que isso não ia funcionar”. Fale primeiro com os professores.

Ser perito em política não é o mesmo que ser perito em educação

Lidar com agências, dirigentes eleitos, desenvolvimento de políticas, reuniões governamentais, todas as manobras de alto nível de retaguarda e de primeira linha que mantêm o governo a funcionar – essas são as competências. O facto de alguém ter desenvolvido essas competências ao ponto de ser bom a “fazer política de educação” não significa que distinga uma boa política de uma má política.

A Teach for America lançou centenas de especialistas políticos que utilizam os seus dois anos de passagem por uma sala de aula como um sinal de que são especialistas em educação. Não se deixem enganar.

As escolas e as empresas são diferentes

Há um velho ditado – quando se mistura religião e política, obtém-se política. Bem, quando se mistura educação e negócios, obtém-se negócios. Não há nada de intrinsecamente mau ou errado nos interesses empresariais, mas não são os mesmos que os interesses educacionais. As escolas não existem única e exclusivamente para satisfazer as necessidades das empresas. É de esperar que as empresas às quais se pede que respondam às necessidades e preocupações educativas as coloquem abaixo, na sua lista de prioridades, das necessidades e prioridades das empresas. Se esta administração quer apoiar parcerias público-privadas para a educação, tem de assumir um papel de vigilância em relação aos interesses das escolas e das comunidades que servem. As forças do mercado não substituem uma regulamentação e supervisão razoáveis do governo, e a administração precisa de se lembrar que a as escolas charter e privadas são, na sua maioria, empresas.

A escola ao contrário

Lê-se, e a primeira reacção é de incredulidade: como é possível!…

Relendo com mais atenção, percebe-se melhor: é nos Estados Unidos, ainda a desconfinar da era Trump, seguindo uma tradição de obscurantismo, radicalismo e negacionismo que já vem de trás.

Afinal de contas, no país do relativismo e das verdades alternativas – ou do mundo ao contrário – é bem possível haver uma escola onde os professores são ameaçados de despedimento se se vacinarem contra a covid-19 e impedidos de se aproximar das crianças se mesmo assim tomaram a vacina. Mais espantoso ainda, sabendo-se do que se passa, os pais negacionistas fazem fila para inscrever os filhos aqui. Contudo, o mais surreal e inacreditável é, a meu ver, haver quem defenda estas patranhas e não tenha vergonha de continuar a intitular-se professor.

Um professor de Matemática e Ciências tentou incutir nos alunos do 5.º ano da Centner Academy, uma escola privada em Miami, uma teoria da conspiração, segundo a qual não deveriam abraçar os seus pais já vacinados contra o coronavírus por mais do que cinco segundos, ou correriam um risco elevado de exposição a substâncias libertadas devido à vacinação.

De acordo com o jornal The New York Times, um aluno ter-se-á queixado aos pais, por e-mail, denunciando que o docente orientou a turma para que se “afastasse” dos familiares. E uma semana antes, conta também o norte-americano The New York Times, o estabelecimento de ensino tinha ameaçado os professores com despedimento, caso fossem vacinados contra a Covid-19 antes do final do ano letivo. Os acontecimentos deixaram os encarregados de educação assustados, e, em conversas pelo WhatsApp, começaram a questionar-se sobre o melhor plano para tirar as crianças da Centner Academy o mais rapidamente possível.

Houve, no entanto, também o movimento oposto, registando a escola privada um aumento flagrante da procura, apesar de a prestação anual rondar os 25 mil euros (30 mil dólares). O jornal The New York Times veicula mesmo que a escola se terá tornado num “farol nacional para ativistas antivacinação, praticamente da noite para o dia”, numa altura em que as autoridades de saúde pública nos Estados Unidos lutam para derrotar o ceticismo em relação à vacina contra a Covid-19.

Músicas do Mundo: Foghorn String Band –Le Sud De La Louisiane

Pensamento do dia

…de um apoiante assumido da solução política a que se convencionou chamar geringonça. Que não deseja o regresso da direita ao poder, mas não abdica de um olhar crítico sobre o que se passa à sua volta nem está disposto a branquear os erros clamorosos na gestão da pandemia que, nos últimos tempos, se têm vindo a acumular.

Quando a pandemia escalou nos EUA, tornando-se o país com maior número e infectados e mortos pela covid-19, a culpa foi da política irresponsável e negacionista de Donald Trump.

No Brasil, com a gestão incompetente de Bolsonaro e idêntico negacionismo da gravidade de mais uma “gripezinha”, idem aspas.

E em Portugal, quando estamos já com taxas de infecção e de mortalidade por covid-19 proporcionalmente superiores àqueles dois países, a culpa é… dos portugueses?…