Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: A manifestação pelo clima

As manifestações de jovens, predominantemente estudantes do ensino secundário, em defesa do clima e do futuro do planeta, já não são novidade. A adesão expressiva da passada sexta-feira a uma manifestação que deu a volta ao mundo parece ser sinal de que a mobilização dos jovens em luta pelo seu futuro é um fenómeno que veio para ficar. E ainda bem: já que os poderosos deste mundo parecem ainda não ter percebido a verdadeira emergência climática dos tempos em que vivemos, que seja a mobilização dos cidadãos, jovens e menos jovens, a colocar o tema na agenda dos problemas inadiáveis que urge resolver…

No Fundo: A falta de professores

É uma realidade incontornável: se nos concursos para vagas anuais ainda não vão faltando candidatos, para fazer substituições temporárias, ou seja, para tapar os buracos que surgem ao longo do ano, cada vez que um professor entra de baixa ou de licença, as dificuldades são cada vez maiores. O que significa que o exército de reserva de professores desempregados e dispostos a tudo para conseguir mais um ou dois meses de tempo de serviço está a ficar cada vez mais desfalcado…

Horas extraordinárias

horas-extra.jpgCom centenas de professores em falta nas escolas, devido sobretudo a situações de baixa médica, e sem candidatos suficientes para os substituir, o Ministério da Educação (ME) está a reforçar o número de horas extraordinárias dos docentes que se encontram em funções, de modo a reduzir o número de alunos que estão sem aulas a uma ou mais disciplinas.

Na recta final do ano lectivo, é desta forma que o ME tenta resolver o problema da falta recorrente de professores nalgumas escolas do país: dando luz verde às direcções para o pagamento de horas extraordinárias aos docentes da casa que aceitem ficar com as turmas que estão sem professor.

É bom que se habituem a abrir os cordões à bolsa e a assumir como definitiva a solução que encontraram para remediar, pois na falta de soluções de fundo para os problemas, estes só se tenderão a agravar.

A verdade é que um corpo docente envelhecido adoece mais. Que vagas temporárias e horários incompletos são mais difíceis de preencher do que colocações anuais. E que para uma profissão desgastante, mal paga e publicamente desconsiderada, como é hoje a docência, será sempre difícil recrutar os profissionais competentes e motivados que se desejam.

Mesmo do ponto de vista puramente economicista, que foi a perspectiva dominante no actual governo, as opções tomadas em relação aos professores serão, a prazo, contraproducentes. E se destes governantes já nada há a esperar, resta a esperança de que o próximo governo, seja ele qual for, traga gente com um pouco mais de visão e ambição no que se refere à Educação portuguesa.

Professores temporários em vias de extinção

aula-vaziaOs problemas começaram no ano passado, agravaram-se no presente ano letivo e todos temem que se acentuem no próximo. Os diretores de escolas garantem que o número de professores de baixa está a aumentar e que é cada vez mais difícil encontrar quem aceite dar as aulas no seu lugar.

O que acontece, explicam, é que a oferta não é suficientemente aliciante, principalmente para professores que moram longe da escola que está à procura do substituto. Para muitos, aceitar o horário implica mudar de casa e pagar uma renda incompatível com o salário que é oferecido, sobretudo se for um horário incompleto. Outros não querem deixar ocupações que entretanto conseguiram. Até porque o lugar pode acabar ao fim de um mês com o regresso do docente que foram substituir. E para algumas disciplinas simplesmente não há candidatos disponíveis. Os alunos acabam por ser os mais afetados, ficando sem aulas semanas, nalguns casos até meses.

Além da carência de pessoal não docente, que ontem comentei por aqui, também há cada vez mais escolas, nos tempos que correm, com falta de professores. Quando os horários são pouco atraentes, as escolas ficam distantes ou o mercado de arrendamento local é pouco convidativo, é meio caminho andado para que as substituições temporárias de professores se arrastem ao longo de semanas sucessivas. Ou meses…

Esta situação é reflexo de uma realidade que, embora prejudicial para os alunos sem aulas, é reveladora de sinais positivos: significa que há um modelo de proletarização docente em que se apostou, a dada altura, no nosso país, que está definitivamente posto em causa. Vai desaparecendo o “exército de reserva” formado por professores desempregados, sempre disponíveis para fazer a mala e ir ensinar temporariamente para qualquer ponto do país. O professor temporário já não se sujeita a ficar com a vida eternamente suspensa, à espera de uma colocação que tarda em chegar. Quem não consegue colocação anual procura outras actividades profissionais ou, mesmo que continue disponível para aceitar um lugar que apareça ao longo do ano, não aceita qualquer proposta. O resultado passa, inevitavelmente, pelas sucessivas recusas de colocações e pelas ofertas de escola que não encontram candidatos.

O problema só tenderá a agravar-se nos próximos anos. Com a recusa em facilitar as aposentações dos professores mais velhos, o absentismo por doença continuará, infelizmente, a aumentar. E sem mexidas na carreira, no acesso à profissão e na melhoria das condições de trabalho dos professores, dificilmente a docência ganhará atractividade entre as novas gerações. Resta saber se acabaremos a importar professores doutros países, copiando o exemplo de países europeus que cometeram os mesmos erros, ou se voltaremos a ter nas escolas professores sem habilitações adequadas, como era vulgar nas décadas de 70 e 80 do século passado.

Faltam professores no Parque das Nações

ebvg_1_1024_2500.pngHá uma escola no Parque das Nações em Lisboa que não tem professores quase dois meses depois do início do ano lectivo. Os pais cansados de esperar decidiram eles próprios resolver o problema. Assim, a partir de agora vão ser os próprios pais a dar as aulas de inglês ou físico-química aos filhos e a todos os outros alunos.

A falta de professores para substituições temporárias é um problema cada vez mais frequente em escolas de todo o país. E cada vez mais difícil de disfarçar.

Claro que quando são os filhos da classe média-alta residente no Parque das Nações a ficar sem professores e sem aulas, a situação adquire um mediatismo que nunca tem quando acontece com as crianças de uma qualquer vila ou aldeia do interior.

A verdade é que o “exército de reserva” formado por milhares de professores qualificados e desempregados, a aguardar pacientemente por uma colocação, tende a desaparecer. Há cada vez menos candidatos à docência, e muitos dos que ainda não desistiram de ser professores também já não o querem ser a qualquer preço.

O voluntariado que alguns pais preocupados se propõem fazer na escola, leccionando disciplinas em que se sentem mais à vontade, lembra-nos dos tempos, ainda não tão distantes assim, em que muitos professores provisórios, como então se dizia, pouco mais habilitações tinham do que os alunos que ensinavam. Professores com o 12.º ano a leccionar o 3º ciclo, ou estudantes universitários a fazer uma perninha nas aulas do secundário, eram uma realidade comum, sobretudo fora dos grandes centros.

Nos nossos dias, mesmo as escolas de zonas centrais da capital não escapam à falta pontual de alguns professores. Uma consequência de vários factores, como é referido na notícia. Mas há uma realidade que é incontornável: o preço proibitivo dos alojamentos em Lisboa está a condicionar a mobilidade de docentes de outras zonas do país.

Evidentemente, a dificuldade de colocação de professores a meio do ano lectivo é apenas um sintoma de um problema de fundo para o qual não há soluções fáceis: o aumento das baixas por doença, grande parte delas prolongadas, que infelizmente afectam um número crescente de professores. Para resolver uma crise que, com a passagem do tempo, só tenderá a agravar, há pelo menos três campos em que se deveria pensar e actuar seriamente:

  • Alargar os quadros das escolas, aproximando-os das necessidades reais, promovendo a fixação e a estabilidade dos professores:
  • Rejuvenescer o corpo docente, permitindo a saída digna, sem penalizações, dos professores mais desgastados e com mais tempo de serviço;
  • Tornar a carreira e a profissão docente mais atractiva para os jovens professores, o que passa não só por atrair bons estudantes e vocações docentes para a profissão, também por dignificar a forma como são tratados os professores há mais tempo no sistema.

Lamentavelmente, já se percebeu tudo isto terá de esperar. Mais preocupado com a  implantação de uma pseudo-reforma educativa para OCDE ver, do que com as verdadeiras necessidades do nosso sistema educativo, o actual ME não parece minimamente sensibilizado para os problemas da profissão docente.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Quem quer ser professor?

Apesar de praticamente não terem entrado novos profissionais para o sistema nos últimos dez anos e de o ensino superior não ter deixado de formar novos professores, a verdade é que, pelo menos em algumas disciplinas, em certos tipos de horários e em determinadas zonas do país, já há vagas para substituições temporárias que ficam, ao longo de semanas sucessivas, por preencher…

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No Fundo: Discriminação e racismo na escola pública

Apesar de o caso que esta semana foi publicamente divulgado se referir a uma escola do concelho de Portimão, a acusação será extensiva a outras escolas do país que alegadamente discriminam alunos de minorias étnicas, colocando-os em turmas “especiais”…

Escolas com falta de professores

classroom without student

Enquanto decisores e conselheiros da Educação encomendam estudos a assegurar que o declínio demográfico continuará a assegurar a sobrevivência do nosso sistema educativo sem necessidade de um número significativo de contratações de novos professores, a realidade começa a entrar-nos pelos olhos dentro: um pouco por todo o país, há escolas com dificuldades ou mesmo incapacidade de recrutar os professores que lhes faltam. E a manter turmas inteiras, semanas ou meses a fio, sem aulas em algumas disciplinas.

Que dentro dos próximos dez a quinze anos metade dos actuais professores dos quadros estarão aposentados é uma evidência indesmentível. E por mais escolas que se fechem, turmas que se mantenham grandes ou malabarismos curriculares que flexibilizem, não só os currículos, mas também a necessidade de novos professores – uma agenda oculta do programa flexibilizador de que se fala muito pouco – a verdade é que precisaremos, a médio prazo, de algumas dezenas de milhares de novos docentes. Algo que não está a ser pensado a sério, pois prefere-se gerir a conjuntura, numa perspectiva economicista e eleitoralista, com medidas avulsas e sem qualquer visão coerente para o futuro a médio e longo prazo.

Ora bem, o presente ano lectivo está a dar-nos uma interessante novidade: as carências de pessoal docente deixaram de ser uma recordação do passado ou uma miragem longínqua do futuro, passando a fazer parte do nosso presente: alunos sem aulas de Inglês desde Setembro, falta de professores na Madeira : as notícias isoladas que vão surgindo são apenas a ponta de um icebergue de que quem trabalha nas escolas se vai apercebendo. Aqui para os meus lados, soube um dia destes que das três substituições temporárias requeridas por um agrupamento nem uma foi preenchida na última reserva de recrutamento.

Com um sistema de recrutamento assente na proletarização docente, o ME habituou-se a contar com um imenso “exército de reserva” disponível para assegurar qualquer colocação temporária, seja qual for o número de horas, o local ou as condições de trabalho. Mas se os anos negros da crise económica e do desemprego em massa obrigaram muitos professores sem trabalho a aceitar o que havia, a melhoria da conjuntura económica aí está a demonstrar que a situação é insustentável. Mesmo quando a vocação maior é ensinar, a maioria das pessoas prefere outras alternativas a uma colocação precária numa escola distante ou num horário que não é do seu agrado.

E mais: com o acentuado envelhecimento da classe docente, um problema que se continua a empurrar com a barriga, as substituições temporárias e inesperadas, os destacamentos por doença e outras situações decorrentes da saúde precária de muitos professores ou dos seus familiares serão cada vez mais habituais.

Mais cedo do que a maioria dos observadores previa, parece estar a chegar um tempo em que, para ter professores qualificados a trabalhar nas escolas cobrindo todas as necessidades existentes, já não bastará colocar os lugares a concurso e esperar pela chuva de candidatos.

Atrair e manter na profissão bons profissionais da docência implicará proporcionar-lhes condições de trabalho e de carreira condignas e, acima de tudo, um respeito pela sua dignidade, autonomia e estatuto profissional e remuneratório dos professores que não tem existido da parte de sucessivos governos.

Não o farão pelos nossos lindos olhos, como é por demais evidente, mas porque chegará um momento em que a alternativa será importar professores ou abrir a profissão a candidatos sem as devidas qualificações.

Para quem tenta ler os sinais dos tempos, parece estar a esgotar-se, na contratação docente, o tempo da galinha gorda por pouco dinheiro.

A falta que um professor faz

classroom without student

A dispensa ao serviço para participação  em acções de campanha eleitoral é um direito legal de todos os trabalhadores que são candidatos nas eleições autárquicas. E, pelo menos entre os que são funcionários públicos, a maioria opta por usufruir dessa possibilidade. Haverá profissionais de saúde, funcionários das finanças ou dos serviços municipais, assistentes técnicos e técnicos superiores dispensados das suas obrigações laborais por estes dias. Contudo, entre milhares de ausências ao serviço, parece que só a falta dos professores é que se torna notada.

Campanha das autárquicas tira professores das salas de aula

Percebo todas as razões pelas quais se dá pela falta e se lastima a ausência destes professores nas escolas. Mas lamento que a sua importância e o valor do trabalho que desempenham não sejam igualmente reconhecidos noutras circunstâncias.

Quanto ao problema em si, é daqueles que só existem porque não o querem resolver: bastaria antecipar em duas semanas o calendário eleitoral e já a campanha cairia em cima, não das aulas, mas das actividades de preparação do ano lectivo, que não envolvem a presença de alunos. E que, de qualquer forma, com os atrasos nos concursos, já estamos habituados a que se façam com alguns professores ausentes.