Ministério sem rumo

indeciso.gifHá um problema de fundo no ensino português que a implementação da flexibilidade curricular ainda mais evidenciou: há muita teoria, muita vontade de mandar, muito desejo de mostrar serviço. Desligados da realidade das escolas, académicos, burocratas e decisores políticos mandam fazer – mas não sabem como se faz.

É aqui que entra a outra faceta da envergonhada reforma curricular em curso. A pretensa autonomia das escolas é a desculpa perfeita para o ME se desresponsabilizar pelos deslizes, pelos inconseguimentos, pelos becos sem saída em que as escolas se venham a meter. Afinal de contas, deram-lhes autonomia para trabalharem como entendessem e tomarem as melhores decisões…

Lançados para o meio da confusão, os professores tentam resistir aos maiores desvarios e continuar a focar o mais possível o seu trabalho, como sempre fizeram, em prol dos seus alunos. Uns e outros acabam como involuntárias cobaias de sucessivas reformas e contra-reformas insensatas e planeadas em cima do joelho.

Esta é uma realidade que não escapa à reflexão de Luís Filipe Torgal, nartigo de opinião que já ontem aqui comentei…

…O Governo, os seus fiéis funcionários e os «pedagogos de gabinete» comprometidos com o Ministério da Educação ordenam o cumprimento das políticas educativas que engendraram, mas não sabem como as executar. Os inspetores escolares pressionam as escolas para cumprir o «eduquês» da tutela, mas ignoram como o concretizar. Os formadores encartados do Ministério da Educação foram formatados e são ressarcidos para doutrinar os professores no novo «evangelho» que aqueles também desconhecem como operacionalizar. Os diferentes professores não enxergam processos de realizar as diretrizes vertidas no novo aparato educativo legal. Os diretores escolares — há muito arredados da sala de aula –, comprimidos pela tutela, pelos inspetores e os professores, batem-se pelo cumprimento das normas legais vertidas na manhosa Autonomia e Flexibilidade Escolar, também eles sem saberem que caminhos ou vielas seguir para satisfazer os seus enigmáticos desígnios.

Assim vai a escola pública, transformada num patético laboratório de políticas educativas negligentes e incongruentes, onde os alunos e os professores assumem o papel de cobaias. Quais as consequências de toda esta fantasia? Descrédito do conhecimento, sucesso educativo fraudulento, reprodução de assimetrias sociais — circunstâncias que se vão tornando mais explícitas entre professores, alunos e encarregados de educação, embora sejam menos percecionadas ou então olimpicamente ignoradas pela opinião pública e a opinião publicada.

O pedagogo egocêntrico

jose-pachecoLuís Filipe Torgal escreve sobre a vaga neo-eduquesa que, sob o pomposo nome de autonomia e flexibilidade curricular dos ensinos básico e secundário, está novamente a tomar conta do ensino em Portugal.

O texto é especialmente interessante, pois antes de demonstrar as contradições e as imensas confusões do novo eduquês – um tema a que voltarei – começa por contextualizar o aparecimento, entre nós, das não-tão-novas pedagogias, com especial destaque para o Movimento da Escola Moderna e a Escola da Ponte.

O Governo e os seus leais funcionários do Ministério da Educação, pressionados pelas organizações internacionais e por uma nebulosa ideologia igualitarista escorada em pretextos economicistas, decidiram declarar guerra ao insucesso escolar. Para isso, criaram um novo «eduquês» que apelidaram de autonomia e flexibilidade escolar dos ensinos básico e secundário — designação desvendada num pacote prolixo de diplomas mais ou menos herméticos plagiados de documentos curriculares provenientes de meia dúzia de países mais ilustrados e prósperos do que Portugal e inspirados nas filosofias da Escola Moderna.

A Escola Moderna não é invenção nova, pois remonta ao início do século XX. Foi uma notável filosofia educativa teorizada por diversos pedagogos e bafejada por ideologias anarquistas e socialistas. Ajudou a combater o ensino elitista, magistral, teórico, confessional, misógino, empedernido e repressivo de outros tempos. Abraçou extraordinários desígnios humanistas já incorporados nos sistemas educativos contemporâneos. Mas também conceções controversas, românticas e lunáticas. Por exemplo, José Pacheco, missionário nacional da Escola Moderna e criador da Escola da Ponte, a qual, entretanto, deixou para pregar a sua boa nova no Brasil, defende, nutrido de certezas, uma escola sem divisão de ciclos de ensino, sem turmas, nem aulas, sem horários, nem testes, sem exames, nem reprovações, onde os alunos brincam a aprender e são felizes. Os políticos que nos governam ainda não arriscaram promulgar este modo final da história da educação.

Ora aqui é que a porca torceu o rabo. À espreita lá do outro lado do Atlântico, o prof. Pacheco não gostou que se metessem com ele e com a menina dos seus olhos. E abandonando a pose sedutora de tele-evangelista que, com a idade, tem apurado, usou a caixa de comentários do jornal para destilar a sua profunda intolerância à crítica – uma faceta que já lhe conhecia, mas que habitualmente anda dissimulada nas suas aparições públicas…

É confrangedora e atrevida a ignorância do escriba. É insultuosa e mentirosa a referência à minha pessoa. Mas que Deus lhe perdoe, porque ele não sabe o que diz. Estarei em Portugal, entre Junho e Julho. Aceitarei conversar com o autor do artigo, em público. Está convidado para o debate construtivo e fundamentado, num dos eventos em que irei participar. Acaso recuse este convite, concluirei que para além de ignorante e caluniador, é cobarde.

Tentar desqualificar os críticos chamando-lhes ignorantes, aceitar que falem de nós e dos nossos projectos apenas para os elogiar, recorrer ao insulto ou ao patético desafio para um duelo mediático ao cair da tarde – eis, no seu esplendor, a escola de cidadania e de valores de mestre Pacheco. E Torgal, será que se deixou intimidar? A resposta à altura deixa bem claro que não…

JP dogmatizou as suas teorias sobre educação. Revela uma humildade enganadora, pois julga-se bafejado por Deus e detentor da verdade suprema, o que é uma atitude bizarra para um prosélito da tolerante Escola Moderna! Quem pensa de forma diferente é, segundo JP, ignorante, insultuoso, mentiroso e outras coisas mais. Reagiu de forma trauliteira à minha visão sobre a educação, a qual, afinal, reproduz, a opinião de milhares de professores que trabalham há anos nas escolas deste país, em condições bem difíceis. Depois de me insultar, desafiou-me para um duelo mediático. Ora eu já não tenho idade, nem feitio, nem paciência para participar em espetáculos sobre teologia educativa, que, neste caso, apenas visam idolatrar o descomunal ego de JP.

Precisamos de mais professores a defender publicamente o nosso trabalho e a dignidade da nossa profissão. Sem medos nem hesitações perante a pretensa superioridade moral dos autoproclamados gurus educativos, do século XXI ou de mais além.

Escola do século XXI, ou a banha da cobra educativa

banha-da-cobra.pngO futuro das crianças que se iniciam agora na escola é uma incógnita mas, mesmo assim, continuam a ser ensinadas através de “um programa curricular pensado há muitos anos”, criticou Rod Allen, mentor e co-autor de uma profunda reforma curricular no Canada, no Encontro Nacional de Autonomia e Flexibilidade Curricular, que decorreu esta semana na Figueira da Foz.

A mudança no Canadá surgiu quando se aperceberam que estavam “a preparar os alunos para um mundo que já não existia”, recordou o ex-vice-ministro adjunto da província canadiana da Colúmbia Britânica.

Rod Allen reproduz o mantra ideológico que organizações internacionais como a OCDE e multinacionais e fundações com interesses na Educação não se cansam de promover.

Como é habitual entre os propagandistas da banha da cobra, o discurso, falacioso, surge envolto em evidências incontestáveis e em meias-verdades que ajudam os mais incautos a baixar as defesas. E a engolir, sem suficiente reflexão, a pastilha da flexibilidade, do conhecimento na palma da mão, do aprender a aprender, do mundo que já não existe, das profissões que ainda não existem e por aí fora.

Evidentemente, não se contesta que a escola deva evoluir, como sempre o fez, acompanhando as transformações sociais e culturais. Mas o que se vê, nos tempos que correm, é uma súbita e impaciente vontade de mudança, que nasce, não das necessidades e aspirações de quem estuda e trabalha nas escolas, mas de imposições a partir do exterior. O que está em curso é uma ofensiva concertada de políticos demagogos, empresários com um olho no mercado educativo, filantropos em busca de  influência  e cientistas da educação desejosos de notoriedade. O alvo é, naturalmente, a escola pública. Que a privada persegue os seus próprios interesses e não vai nestas conversas. A não ser que tenha algo a ganhar com isso…

Quanto à retórica de Rod Allen, reproduzida na notícia do Educare, ficam, em forma de notas telegráficas, as principais objecções que encontro a um discurso que não é por ser mil vezes repetido que se torna mais verdadeiro ou convincente.

A escola sempre preparou para o futuro e cada geração tem os seus próprios desafios e realidades novas a enfrentar. Mas a melhor forma de enfrentar o futuro incerto não é desvalorizar o conhecimento tradicional em favor de modas educativas – a experiência demonstra que são precisamente as tendências e modas do momento aquilo que mais depressa passa de validade. Já o conhecimento clássico – as línguas, a matemática, as ciências naturais e sociais – esse fornece as bases, não só do conhecimento, mas também das competências – ler, interpretar, raciocinar – que sempre serão úteis e necessárias.

Os telemóveis dão-nos informação, não conhecimento. O conhecimento depende da capacidade de usar a informação que podemos obter de múltiplas formas. Ninguém vai negar as potencialidades das máquinas que nos mantêm permanentemente ligados ao mundo. Mas é um erro pensar que, por termos telemóveis que nos dizem tudo, já não precisamos de desenvolver a memorização, o sentido de orientação, o raciocínio. Se, como nos querem convencer, o conhecimento está no telemóvel, então isso equivale a dizer que, sem o telemóvel, nunca passaremos de ignorantes.

Estuda-se para aprender. Os exames existem apenas nalgumas disciplinas e anos de escolaridade. Há muitas motivações para aprender e ter boa nota no exame não é, em geral, a mais importante. Por exemplo, a generalidade dos alunos portugueses nunca faz um exame de Inglês ao longo dos 12 anos de escolaridade. E, no entanto, aprendem a língua e reconhecem interesse e utilidade nessa aprendizagem. Mesmo sem exame…

A escola nunca foi uma fábrica. Nem foi concebida, como alguns insistem em dizer-nos, para preparar operários para as linhas de montagem. Pelo contrário, a vocação da escola sempre foi a de instruir, valorizar e qualificar as crianças e jovens para que estes pudessem alcançar um melhor futuro, longe do ambiente penoso e deprimente das fábricas do século XIX. Já a escola divertida e facilitista, do telemóvel e do trabalho de grupo, essa corre a largos passos para cortar as pernas aos jovens que ambicionem aceder às tais profissões do século XXI – as que ainda não existem mas que, quando forem inventadas, não serão por certo menos exigentes do que as actuais.

Não há receitas pedagógicas universais. Não faz sentido contrapor a uma escola alegadamente monolítica, assente, dizem eles, no “modelo do autocarro”, uma outra assente num paradigma diametralmente oposto. Rejeitando fundamentalismos, todos os bons professores sabem que a estratégia que resulta com um grupo de alunos pode não funcionar com outros. E que a diversificação e a diferenciação, de acordo com as características dos alunos e dos grupos, acaba por ser sempre o procedimento mais eficaz. Funcionando tanto melhor quanto mais reduzidas forem as turmas. Curiosamente – porque será?… – quando ousamos falar do tamanho das turmas, entramos num tema-tabu para a grande maioria dos novos gurus educativos…

João Costa – um demagogo desmascarado

joao-costa.jpgO secretário de Estado João Costa, principal responsável pelas reformas educativas em curso, tenta defender-se das críticas: diz ele, e espera que acreditemos, que as suas reformas inclusivas e flexibilizadoras não promovem o facilitismo.

A prosa hoje publicada no Observador escora nalgumas verdades evidentes em si mesmas os frágeis e demagógicos argumentos já inúmeras vezes utilizados. Debita uma cassete pouco imaginativa, um discurso que, incapaz de rebater as críticas, se limita a devolver a acusação: facilitistas são vocês…

Sem paciência para explicar o óbvio e já mil vezes demonstrado, limitar-me-ei a pegar nas palavras de João Costa, modificando-as – alterações e acrescentos da minha responsabilidade assinalados a vermelho – de maneira a que o texto passe, na minha maneira de ver, a fazer algum sentido. Afinal de contas, não é preciso dar demasiada conversa aos demagogos eduqueses. Eles enterram-se sozinhos…

É natural, quando se fala em promover o sucesso escolar ou em trabalhar para a construção de uma escola mais inclusiva, sem que se criem primeiro as condições necessárias a esse sucesso e a essa inclusão, levantarem-se muitas vozes de professores conhecedoras da realidade das escolas que imediatamente acusam qualquer iniciativa dessa natureza de ser, na realidade, promoção de um ensino facilitista.

[…]

O medo dos arautos do facilitismo é simples de entender. Baseia-se na ideia de que a alternativa a reprovar é passar sem saber. Isto transforma o ato educativo numa mistificação. Transforma o sucesso escolar num mero exercício estatístico, em que se confunde o resultado com o que deve gerar esse resultado. Parte do princípio de que promover o sucesso é espoletar passagens administrativas independentemente do que os alunos aprendem. A ser assim, estamos efectivamente perante uma fraude em que todos nos enganamos uns aos outros. […]

Então qual é a alternativa a reprovar? Aprender. E se os alunos aprenderem, no final do ano não reprovam. Isto implica um trabalho da parte de todos que é tudo menos fácil e, portanto, é tudo menos facilitista. O problema está quando os resultados não aparecem e o poder político incentiva a que se mascare o insucesso fabricando sucesso administrativo para fins estatísticos. Sabemos que o insucesso escolar em Portugal – tal como em muitos outros países – está fortemente associado à condição socioeconómica dos alunos. Os ricos passam, os pobres enfrentam muito mais dificuldades. Isto significa que o problema do insucesso é, em primeiro lugar, um problema de justiça social. Não é justo que a escola, que é a única esperança de mobilidade social para muitos, em vez de eliminar as assimetrias sociais à entrada, as reproduza ou, por vezes, as acentue. Mas é ainda mais injusto que a escola baixe a fasquia aos pobres apenas por serem pobres, impedindo-os de alcançar ou até suplantar os mais favorecidos. É conhecida a minha aversão a rankings simplistas que mais do que mostrarem o trabalho de uma escola mostram o contexto socioeconómico dos alunos ou até a capacidade de procurar centros de explicações nos arredores. Esta também é uma escola facilitista: a que seleciona alunos à entrada e que vive muito do que se passa fora dos seus muros.

Para alguns, a pobreza é uma fatalidade na educação. Não há nada a fazer. Felizmente, sabemos que isto não é verdade. Num estudo de 2016 […], é possível concluir que a pobreza não é um destino, constatando-se assimetrias regionais que revelam que a pobreza é um preditor mais forte de insucesso nuns distritos do que noutros. Assim, os socialistas do século XXI, que desistiram de lutar contra as desigualdades sociais, querem que seja a escola a fazer a diferença, contrariando o determinismo da condição social. Incapazes de lutar contra a corrupção, o compadrio e o nepotismo nas suas próprias fileiras, promovendo medíocres apenas porque têm cartão partidário ou padrinhos influentes, querem que acreditemos que é pela distribuição a esmo de diplomas escolares que os pobres terão a sua oportunidade.

[…]

A escola que só garante o sucesso dos que têm condições privilegiadas à partida não cumpre a sua missão. A inclusão de todos os alunos, prevista no decreto-lei 54/2018, ignora que promover melhores aprendizagens implica mais trabalho directo com os alunos, tendo em conta as suas reais necessidades, e não atos administrativos. Como instrumentos de trabalho para a inclusão, em vez de as reforçar em recursos financeiros, materiais e humanos, o Governo limitou-se a despejar papelada e burocracia nas escolas, como o Perfil dos Alunos, a flexibilidade curricular, a revisão das Orientações Curriculares para e Educação Pré-escolar, as Aprendizagens Essenciais, o Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, um investimento na formação científica e pedagógica desajustado das verdadeiras necessidades dos docentes, o Plano Nacional das Artes, o Plano Nacional de Leitura 2027, a promoção de mais ciência experimental nas escolas com a rede de clubes Ciência Viva, a valorização do Ensino Profissional, a diversificação de instrumentos de avaliação mais adequados e formativos, com produção de relatórios qualitativos, avaliação performativa, aferição com dimensão interdisciplinar, avaliação de produção e compreensão oral nas línguas e apoio tutorial específico para o desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Este trabalho integrado é tudo menos fácil e sobretudo não cabe nos sobrecarregados horários dos docentes portugueses. Requer turmas e grupos mais pequenos, apoios individualizados, técnicos e professores especializados.

Afinal, a escola verdadeiramente facilitista é a que promove sucesso a todo o custo e a qualquer preço. É aquela que se limita a esperar pelo fim do percurso, a examinar e a verificar quem passou e subir as notas àquele que não conseguiu. Isso é fácil. Difícil é garantir que também aprendem os que chegam à escola sem motivação, sem relação com o conhecimento, por vezes com fome e a experimentar situações familiares terríveis. Felizmente, temos uma história recheada de escolas, comunidades e muitos professores que fazem a diferença na vida destes alunos e não os transformam num problema administrativo. E isto sabemos que não é fácil. Sabemos, ainda melhor, o quão desmerecido, desvalorizado e desapoiado pelo ME é o trabalho sério das escolas e professores. Sobretudo dos que continuam a preocupar-se mais aos seus alunos do que a ficar bem vistos por quem os tutela.

A nova amiga dos professores

benavente.JPGPara a ex-secretária de Estado da Educação de Guterres, o braço-de-ferro com os professores foi uma ‘birra’ do Governo e tão cedo os docentes não votarão no PS. Sobre o atual ministro da Educação, Ana Benavente diz não ter dúvidas de que está no cargo apenas para «fazer o que o mandam fazer», não lhe reconhecendo «nenhuma competência».

Quem diria? Em dia de manifestação nacional de professores, Ana Benavente sai em defesa dos professores. Em entrevista ao Sol, a antiga secretária de Estado de Marçal Grilo assume um posicionamento crítico em relação ao actual governo socialista. Desde logo, no reconhecimento de que o ministro da Educação anda a apanhar bonés: sem experiência nem conhecimento do sector, sem iniciativa nem liderança, limita-se a fazer o que lhe mandam. Ainda bem que, na área do PS, alguém admite o que os professores dizem há muito.

Quanto ao resto da entrevista, e mesmo concordando, é impossível não esboçar pelo menos um sorriso quando se vê uma das principais promotoras do eduquês a verberar o excesso de burocracia nas escolas portuguesas…

É uma classe que tem uma brutal carga burocrática em cima. É inacreditável, ninguém imagina a parafernália de documentos que é preciso articular, desde o perfil, os objetivos, as competências essenciais, as reuniões que têm que fazer. A vida dos professores é uma vida de exaustão, é uma classe muito envelhecida.

Já quando critica os mega-agrupamentos, Ana Benavente toma uma posição muito comum em socialistas da velha guarda e até mesmo em antigos serventuários políticos do PS, hoje navegando por outras águas: as nossas políticas eram boas e necessárias, tínhamos motivações exclusivamente pedagógicas e nada economicistas. Quem veio depois de nós é que estragou tudo…

Os agrupamentos surgiram por razões pedagógicas, para articular os ciclos da escolaridade obrigatória. Isso funcionou em alguns territórios e foi uma experiência muito positiva. Mas os mega-agrupamentos são uma coisa tremenda. As escolas perderam a sua identidade, perderam o seu ritmo e não foram acompanhados pelo aumento do número de funcionários. Se está aberta a cantina está fechada a reprografia, a biblioteca fecha para abrir o bar. E isto são situações de um país subdesenvolvido.

Mitos educativos do século XXI

Contrariando os mitos educativos do século XXI e as formatações que andam por aí a ser impostas, à força toda, por um bando de iluminados demasiado cioso da sua verdade, recorro uma vez mais às palavras sábias e incisivas de Javier, o nosso colega espanhol que se mostra especialmente hábil a desmontar, no Twitter, a retórica dos demagogos da “nova” pedagogia. E é interessante notar a universalidade dos chavões e dos argumentos. Porque a ofensiva neoliberal e eduquesa contra os professores e a escola pública de qualidade é uma cruzada global…

javier.jpg

MITOS:

  • Ensina o que não sabes.
  • Menos conteúdos e mais competências.
  • PISA melhora a qualidade do ensino.

REALIDADE:

  • O docente deve dominar os conteúdos.
  • A competência não se constrói sem conteúdos.
  • O que ensinamos e o que aprendem os alunos determina a qualidade.
  • PISA empobrece-a.

Adaptado daqui.

Deixem-nos ser professores, pá!

carmo-machado.JPGO desabafo é de Carmo Machado, uma professora de Português que, tal como a generalidade dos seus colegas, desespera com a quantidade absurda de burocracia escolar que nesta altura do ano se acumula nos emails, nos computadores e nas mesas de trabalho dos professores. E quem, além de dar aulas, tem também a desdita de ser director de turma, é certo e sabido que apanha com dose reforçada…

Dirigindo-se tanto às elites ministeriais que decretam a produção de papelada como aos que, nas escolas, transformam os decretos e os despachos em grelhas e relatórios para todos os gostos e de todos os feitios, a nossa colega faz uma pergunta sensata: em vez do “entulho” inútil que se produz nas escolas, não poderia simplesmente registar-se, na acta da reunião, tudo aquilo que se fez e decidiu?

E deixa, a terminar a habitual crónica na Visão, um repto pertinente: perdendo-se tanto tempo a preencher montes de papelada que ninguém irá ler, porque não libertar os professores deste trabalho inútil, dando-lhes mais tempo para se dedicarem aos seus alunos e aos verdadeiros problemas e desafios que o quotidiano docente já lhes coloca?

Estarão, vossas excelências, na posse da absoluta certeza de que é mesmo necessário também o anexo à ata? O relatório de turma e o anexo ao mesmo? O relatório das visitas de estudo? O plano de turma? E a ficha de alunos indicados para apoio? E a ficha de referenciação com a sua ficha anexa? E a ficha individual de transição? A ficha de identificação de necessidade e medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão? E o relatório técnico-pedagógico?

Não tenho a certeza. Sei, porém, que se acrescentarmos a estes documentos os outros que são obrigatórios das nossas disciplinas de lecionação, estamos perante um menu recheado de papel que no final de cada ano transformará em entulho. Sim, os resíduos resultantes da construção e demolição de mais um ano letivo serão enfiados – durante horas – em envelopes que mais ninguém abrirá e cujo destino será um qualquer arquivo morto com o qual os muitos ratos que habitam algumas escolas se irão certamente deliciar.

Por isso, peço-vos: (i) controlem, por favor, a propagação desta doença – grelhice crónica, como alguém já lhe chamou – e deixem ficar apenas as atas que ainda elaboro com tanto afinco, possuída pela esperança dos otimistas de que alguém as lerá; (ii) partam das reflexões, desabafos e preocupações que os professores nelas registam para os ajudarem a encontrar soluções para os muitos problemas que lá surgem; iii) usem-nas para, nas intermináveis horas de reuniões de conselho pedagógico (gastas a aprovar grelhas e fichas e afins que em nada acrescentam à qualidade do ensino) decidirem – com medidas efetivas – sobre os graves problemas que afetam diariamente a nossa prática letiva: a indisciplina, a desmotivação e a preocupante falta de inovação.

Porque é na aula que tudo acontece, não no papel, reconheço cada vez mais um cariz patético neste excesso de burocratização em que vivemos dentro da escola pública. Deixem-nos ser professores, pá!