Pensamento do dia

Se querem debate, ou um simulacro dele, sobre as pedagogias do século XXI, mas nem a experiência nem as opiniões dos professores no terreno lhes interessam, uma sugestão:

Coloquem os especialistas do PASEO e do currículo sem fronteiras, holístico, transversal e transdisciplinar, a discutir com os especialistas maiatos em avaliação, adeptos da normatividade, dos compartimentos estanques, das datadas dicotomias formativo/sumativo, avaliar/classificar.

Contradição insuperável? Talvez não. Havendo dinheiro fresco para desenvolver os projectos de uns e de outros, é certo que acabam por se entender.

Que se lixe a coerência e, pelo caminho, o mexilhão que, pelas escolas, acaba a levar com tudo em cima.

A abelha MAIA ataca de novo

Nos dias 4 e 5 de junho, foi publicado no Observador, no Blog deAr Lindo e no site da Rádio Boa Nova (Oliveira do Hospital) um texto meu com apreciações críticas e interrogações sobre o projeto educativo MAIA. Pelas reações que recebi, nos dias seguintes à edição do texto, confirmei que muitíssimos colegas e outros cidadãos não docentes subscrevem as mesmas preocupações e dúvidas. A este propósito, leiam o artigo sério e clarividente de Paulo Guinote intitulado «Uma educação distópica», publicado no último número do Jornal de Letras (15-06-2022). Percebi também que o meu texto foi rececionado de forma virulenta pelos mentores do MAIA e por alguns dos seus discípulos, os quais preferiram injuriar aqueles que pensam como o autor, em vez de responderem às suas questões e contraditarem os seus argumentos. Nos sacrossantos grupúsculos do poder, os que questionam os enredos labirínticos destas pedagogias são acoimados de mentirosos, ignorantes e retrógrados. (Se vivêssemos no Estado Novo de Salazar ou Caetano, acusá-los-iam de «subversivos», «comunistas», perigosos «antissituacionistas» e haveriam de os sanear, prender ou degredar).

Os «cientistas» da educação instigadores do MAIA inculcaram nas suas mentes eruditas o dogma de que somente as suas teses educativas habilitam os alunos a pensarem e a desenvolverem o espírito crítico e que essas teorias têm a mesmíssima unanimidade e fiabilidade das leis produzidas pelas ciências exatas.

(Por exemplo, rejeitam que as suas práticas pedagógicas ampliem a burocratização da escola para níveis insuportáveis, corram sérios riscos de desvalorizarem o conhecimento científico estruturado e ousem transformar alunos e professores em «vendedores de banha da cobra», capazes de obrarem discursos persuasivos mas vazios e espúrios. E, num outro registo, não se pronunciam sobre as provas de aferição ou os exames nacionais dos últimos anos, cujas questões se tornaram demasiado básicas e, afinal, estão longe de apelar ao conhecimento e espírito crítico dos alunos, bem como à sua capacidade para produzirem textos bem escritos, fundamentados e estruturados).

Partindo desta premissa, concluíram que as teorias de avaliação / classificação que estão a impor, de modo estandardizado, aos professores de todos os cursos e níveis de ensino básico e secundário da escola de massas são tão absolutas e credíveis como as teses sobre a esfericidade da Terra.

É um estranho paradoxo, mas lá bem no fundo faz sentido: os pedagogos que se mostram mais “amigos” dos alunos e zelosos do seu superior interesse são também os maiores carrascos de quem, afinal de contas, trabalha para que os alunos aprendam – os seus professores. Quanto mais críticos da escola que temos, da escola tradicional, mais dogmáticos na defesa do seu modelo, da sua ideia, da sua tese.

O conhecimento de qualquer ciência, mesmo das mais solidamente ancoradas nas matemáticas e no raciocínio lógico, é por natureza provisório e relativo: todas as teorias são constantemente postas à prova; a descoberta de novos factos ou a realização de novas experiências podem obrigar a reescrever ou a relativizar o que antes se pensava inquestionável. É assim em todas as ciências, tanto as naturais e experimentais como as sociais e humanas.

Em todas? Bem, também aqui há uma irredutível aldeia gaulesa: no clube das ciências da Educação faz-se carreira a repetir as mesmas ideias do princípio ao fim… da carreira. E a atacar, muitas vezes de forma acintosa e arrogante, aqueles que, porque conhecem a realidade e sabem que a teoria do mestre é uma treta que não funciona e só complica, ousam questionar ou objectar. Vejo por aí bonzos que hão-de levar para a cova umas teorias que aprenderam em Boston e de que, quarenta anos depois, ainda se não conseguiram libertar. Não me incomodariam, se a doutrina fosse para consumo próprio. Mas não: é para obrigar os outros a fazer. Que, na sacrossanta universidade, o MAIA não entra.

Ficam ofendidos quando alguém chama “ciências ocultas” ou algo ainda pior à salganhada de mitos e preconceitos que tentam fazer passar por ciência. Mas a verdade é que nenhum cientista laboratorial é levado a sério se não testar experimentalmente as suas teorias. Nenhum historiador investiga sem aceder aos documentos históricos que fundamentam o seu saber. O arqueólogo, o biólogo, o geólogo, fazem o seu trabalho de campo. E o pedagogo do regime, além de ser habilidoso com as palavras, que mais sabe fazer? Que mais faz para nos convencer pela razão, em vez de, escorado no aparelho ministerial, nos forçar pela obrigação?

O que sobra a estes teóricos em auto-suficiência e arrogância falta-lhes em conhecimento da realidade. Apesar de ser arvorarem em maiores defensores e amigos das crianças, evitaram sempre o ambiente das escolas básicas e secundárias, ou fugiram de lá assim que puderam. Não vão às escolas, mas também não confiam em quem lá está. Resta-lhes a aceitação que sempre tiveram nos gabinetes ministeriais, o eterno argumento da autoridade e também, há que dizê-lo, a subserviência de demasiados professores e directores escolares.

Pela minha parte, quero aqui deixar bem expressa a minha repulsa por estas mediocridades eduquesas, tão incapazes de convencer como de conviver com a crítica, bem como e o meu apoio solidário ao colega Luís Filipe Torgal, cuja análise, tão sensata quanto lapidar, subscrevo inteiramente.

Pensamento do dia

Dizem que a escola do século XXI é a do ser, não a do saber.

Na realidade, uma batata poderia ser a protagonista da escola do século XXI. Uma batata é, não sabe. Cumpre os requisitos.

Apaixonante esta escola do século XXI, tão gasosa, tão vazia, tão dispensável…

Tweet de Pascual Gil Gutiérrez, um jovem professor espanhol que vem desmontando um a um, com desarmante lucidez, os mitos educativos ditos do século XXI.

A visita da Inspecção

Os Senhores Inspetores vendem uma cartilha conotada com as “eduquices” que têm causado enorme erosão na apetência pela profissão docente. Ser professor é uma profissão excecional, os professores, mais agora do que antes, são resilientes perante as frequentes adversidades relacionadas com a indisciplina e as faltas de respeito, e a larga maioria resiste. Todavia, os professores não são deuses, não têm o dom da ubiquidade. Precisamos de professores com qualidade, atentos e disponíveis, não podemos escravizá-los, deixá-los exangues pelo afogamento em excesso de dados intratáveis.

Carlos Grosso escreve sobre as inspecções pedagógicas às escolas, cada vez mais formatadas pelo guião neo-eduquês que o ME adoptou como pedagogia do regime. E a verdade é que a pedagogia de João Costa e dos seus sequazes é muito fraquinha: resume-se a redução e simplificação dos conteúdos. Incapaz de conceber seja o que for que possa contribuir para mais e melhores aprendizagens – e essa deveria ser a verdadeira bitola do sucesso e o objectivo comum de todos os intervenientes no processo educativo – o ME desenvolveu uma obsessão kafkiana com a avaliação. E é nisso que os inspectores que vão às escolas são instruídos.

Mas a própria teoria avaliativa, além de nada trazer de novo ou original, contradiz ela própria os princípios da aprendizagem “holística”, “transversal” e “transdisciplinar” que vêm sendo proclamados. Pois enquanto no currículo e nas aprendizagens somos exortados a quebrar barreiras entre as disciplinas e a articular conhecimentos e competências, na avaliação o que se tenta impor são as velhas e bizantinas distinções entre formativo e sumativo, a obsessão com os registos, o desdobramento artificial do que é avaliado em domínios e, como se tudo isto já não bastasse, o feedback constante e picuinhas aos mais de 100 alunos que a grande maioria dos professores, a partir do 5.º ano, têm de avaliar.

O pesadelo burocrático da avaliação à moda do MAIA não é pura e simplesmente exequível para qualquer professor que, além de estar permanentemente a avaliar os seus alunos, ainda tente, como é sua obrigação primordial, que eles aprendam alguma coisa. A não ser que, como alvitra Carlos Grosso, adoptemos o ano do planeta Júpiter: nos seus 4332 dias terrestres, não haveria feedback que deixasse de ser transmitido nem grelha que ficasse por preencher…

Há no texto do nosso colega uma imagem especialmente feliz, que surge quando compara a profissão docente com a aviação. Alguém levaria a sério um praticante de simuladores de voo a tentar ensinar a um piloto experiente, com milhares de horas de voo, como se deve pilotar o avião? Pois bem, na profissão docente, estamos constantemente a levar com teóricos que nunca deram uma aula a achar que saberiam fazê-lo melhor do que qualquer professor. E se isto ainda se entende da parte de encarregados de educação genuína e legitimamente interessados na educação dos seus filhos, já não é aceitável vindo de um ministério que insiste em desrespeitar e menorizar a competência e a cultura profissional dos professores, o activo mais valioso que tem de gerir e valorizar.

MAIA, a abelha assassina

Decerto que podemos já tirar uma ilação da alegada aplicação das «novas» pedagogias no domínio da avaliação: o sucesso educativo inflacionou e as percentagens de retenções diminuíram drasticamente. E tais cifras fazem a felicidade das direções das escolas, do ME, do seu ministro e inspetores, bem como de muitos alunos, pais e professores. Paradoxalmente, a maioria dos alunos chega hoje ao ensino secundário e ao final do liceu pior preparados nos planos científico, literário e cívico. Trabalham menos, leem, interpretam e escrevem pior, revelam menos conhecimentos e – problema que não é de somenos importância – exibem comportamentos mais indisciplinados nas salas de aula. Isto é uma evidência que só escapa aos educadores românticos e aos tecnocratas da educação, que não pisam diariamente o chão das salas de aula, porquanto se escapuliram delas por falta de vocação e abnegação.

Luís Filipe Torgal escreve sobre o execrável projecto MAIA, uma metodologia avaliativa de contornos kafkianos que o agora ministro da Educação foi insinuando nas escolas, sugerindo uma “adesão voluntária” que rapidamente se tornou, em muitos lados, imposição de uma pseudo-pedagogia normativa e totalitária. Passando em revista a retórica eduquesa com que o projecto tem sido vendido, LFT faz um diagnóstico certeiro desta calamidade e da forma branda e resignada como está a ser acolhida nas escolas. E desenrola uma cantilena auto-justificativa que conhecemos de cor e salteado: avaliar em vez de classificar, reforçar a avaliação formativa, promover pedagogias activas, focar no aluno, no “holístico”, nas competências em detrimento dos “conhecimentos inúteis”. E, acima de tudo, preencher grelhas. Muitas grelhas.

No confronto com a realidade, toda esta pedagogia de gabinete é de uma pobreza confrangedora. Transforma o professor num fazedor de registos, um recolector de “evidências”, um manga de alpaca ao serviço de uma burocracia insana que é a negação do profissionalismo docente e do papel transformador da escola. Por mais teorias que se inventem, há uma realidade que os teóricos nunca deveriam esquecer: a escola é um lugar onde se ensina e aprende, e nem os professores devem ser desencorajados de ensinar, nem é suposto os alunos aprenderem sozinhos. A avaliação – e o projecto MAIA é sobre avaliação – é uma necessidade decorrente do ensinar e do aprender. Mas a avaliação maiata subverte a relação pedagógica, subordinando a aprendizagem à sua avaliação. No limite, só se ensinaria o que é passível de ser avaliado – o que redunda num perfeito disparate.

Lançado o caos nas escolas, a etapa seguinte será vermos os responsáveis a porem-se ao fresco. Domingos Fernandes, o patriarca maiato, já arranjou pouso seguro como presidente do CNE, um cargo institucional que o PS vem transformando em prémio de carreira para os seus bonzos eduqueses, e de donde se poderá progressivamente distanciar dos disparates dos seus discípulos. No final, quando tudo der para o torto, não é difícil para LFT vaticinar que ninguém assumirá responsabilidades. E se dúvidas houver acerca desta cultura de irresponsabilidade e facilitismo solidamente implantada entre a trupe de políticos, cientistas e tecnocratas que desgoverna a Educação, basta recordar as palavras recentes de Maria de Lurdes Rodrigues quando, num debate recente, a tentaram encostar à parede: “Não interessa como chegámos aqui…”

Portugal, um Rolls Royce na Educação?

Perante um título e uma manchete aparentemente tão elogiosos, tive natural curiosidade de ir ver o resto: o que teremos feito assim de tão bom, na Educação, para merecermos os elogios da representante da UNESCO?

A verdade é que, avançando na leitura, o entusiasmo esmorece: o automóvel de luxo só nos garante, afinal, a presença entre os primeiros 40 classificados no ranking dos sistemas educativos. E os elogios não vão propriamente para alunos e professores que, nas escolas, vão dando o seu melhor para que uns aprendam e outros ensinem. Quem parece estar de parabéns são os especialistas curriculares do ministério, que basicamente se têm dedicado a desconjuntar o currículo, transformando-o numa manta de retalhos incoerente, erigida em torno de vagas competências.

Tudo isto tem, afinal, o toque da nova ordem educativa que se tenta promover mundialmente e onde nada é o que parece: o pensamento crítico que se enuncia traduz-se, no encontro da Autonomia e Flexibilidade Curricular, em pensamento único, sem espaço para a crítica, a inquietação, o contraditório.

A avaliar pelo teor do discurso, a senhora Amapola Alama parece ter uma visão algo totalitária do currículo, que aparentemente não liga com a tão propalada, entre nós, autonomia das escolas. Seria estranho, se não conhecêssemos já a concepção centralista que o actual ME tem da dita autonomia: trata-se apenas de, em cada lado, se encontrar a melhor forma de cumprir as ordens, dadas na forma de desejos, dos responsáveis ministeriais.

Neste jogo de dissimulações e enganos, onde nada é o que parece, há ainda assim um momento revelador: quando a especialista da UNESCO exorta as direcções escolares a domesticarem os seus professores “desalinhados”… Eis, no seu esplendor, a escola das competências, sempre desconfiada dos professores incompetentes…

“Vocês são o ‘Rolls-Royce’ dos sistemas de educação. Estão entre os 40 países de topo no mundo da educação”, disse a especialista à plateia, constituída sobretudo por diretores de agrupamentos escolares e centros de formação, representantes dos organismos da tutela e outros profissionais e agentes do setor.

Amapola Alama defendeu que “o currículo é a força motriz de um sistema educativo e dá forma à visão que um país tem para a sua educação”, na medida em que, tanto ao nível técnico como político, estabelece “o quê, o como e o para quem” de todos os patamares do processo, abrangendo desde manuais escolares, a infraestruturas físicas e modelos de gestão.

Referindo que o Bureau Internacional da Educação está atualmente “a ajudar 48 países nas suas reformas políticas relativas à educação”, a especialista alerta, contudo, que um problema comum é “a incoerência entre o currículo implementado e aquele a que efetivamente se acede” – como acontece, por exemplo, “quando a instituição de ensino não alinha os seus professores com o que o currículo determina e, apesar de ter mudado para um modelo baseado em competências, os docentes continuam a só avaliar os alunos pelo que aprendem de cor”.

A Leya Maia

A Leya aposta em ser propagandista da avaliação maiata do doutor Domingos Fernandes. E aumenta o peso dos “projectos pedagógicos” que anda a distribuir aos professores que irão adoptar novos manuais acrescentando-lhes a cartilha do novo pensamento único em matéria de avaliação. É, naturalmente, um direito que lhes assiste.

Já eu, que não subscrevo a mesma opção pedagógica, aposto em não adoptar, este ano, manuais da Leya. É, também, um direito que me assiste.

Ou não?

Ministro da Deseducação

Uma intervenção no mínimo lamentável de João Costa na sessão nacional do Parlamento Jovem:

Não queremos que quem passa 12 anos na escola seja apenas uma enciclopédia com pernas, que sabe umas coisas, mas que é incapaz de olhar à sua volta, interpretar o mundo e agir em liberdade e consciência.

Em todo o trabalho que fazemos na área da cidadania, nunca quisemos criar mais uma disciplina de papel e lápis. A cidadania não é um conjunto de conteúdos que memorizamos e esquecemos cinco dias depois do teste, mas sim um compromisso com uma vivência em que tomamos conta uns dos outros.

Não vale a pena falar de cidadania na escola se a escola for um espaço de silêncio. Queremos a voz dos alunos na construção da política educativa.

Consta que o homem é teimoso, casmurro mesmo, na imposição da sua verdade. Não será um humilde professor, daqueles que dão aulas na escola e ao final do dia encontram tempo para alinhavar umas linhas num blogue asssumidamente anti-eduquês, que irá ser lido pelo poderoso e arrogante ministro, muito menos convencê-lo do que quer que seja.

Mas alguém lhe faça ver, entre os que terão o duvidoso privilégio de com ele chegar à fala, que isto está tudo errado. Como é possível imaginar a escola dos nossos dias como uma sucessão de aulas em “silêncio”? Como pode um académico prestigiado abraçar o anti-intelectualismo, caldo de cultura da manipulação mediática e do pensamento único? Acreditar que o pensamento crítico germina na ignorância? Advogar a absurda teoria dos “conhecimentos inúteis” e até entrar em contradição com o seu próprio discurso, verberando as “enciclopédias com pernas” para a seguir evocar o cliché do decora-despeja-e-esquece, cada vez mais sem sentido quando em todo o lado prevalece a avaliação contínua e as avaliações escritas incidem, cada vez mais, na aplicação dos conhecimentos adquiridos e não na reprodução do que se decorou?

Mais: não tem vergonha de ir com esta converseta para um encontro com estudantes do ensino básico, reproduzindo um discurso profundamente antipedagógico e deseducativo, concebido para desmoralizar os professores, não para desincentivar os alunos do estudo e do esforço?

A verdade é que há zero de originalidade e pensamento crítico no discurso do escuteiro arvorado em ministro. Limita-se a reproduzir os preconceitos e os mantras do neo-eduquês produzido pela OCDE, feito a pensar num mundo novo em que, sendo projectado para consumidores passivos e trabalhadores “resilientes” e descartáveis, o conhecimento será um luxo. Evocar, a este pretexto, a “cidadania”, não passa de um repugnante exercício de cinismo e hipocrisia.

Mais um génio da banalidade

Deve pensar-se na escola como sendo um processo de metamorfose em que deve ser aplicado uma estratégia de dinamização que seja diferente “de um professor para o outro, de uma disciplina para a outra, de uma escola para a outra”. 

A escola nova já existe há 101 anos e tem como características a autonomia, a criatividade, a dinâmica e não só, mas o exemplar das escolas continua a ser o das escola do século XIX, um tipo de ensino baseado na ciência do século, mas que já não se adequa às ciências do século XXI. “O mínimo que podemos esperar agora da escola é copiar a ciência do século XXI, não se trata de trabalhar no interior de uma sala de aula, mas de pensar de forma mais ampla e conjunta.”, acrescenta António.

Na pedagogia já não se trata apenas de dar uma aula, deve existir um trabalho de preparação para os alunos e estudar temas da atualidade para lhes apresentar, acredita que “o trabalho de um professor não é apenas dar uma aula” e também que “uma boa aula é insubstituível”. 

Deve-se confiar e é dessa forma que “temos melhores resultados”, normalmente “a maioria das pessoas responde a essa confiança” e que quando não se confia acaba por se entrar num jogo “do faz de conta”. 

António Nóvoa tornou-se uma figura consensual e respeitada no mundo da Educação com o seu Tempo dos Professores, uma tese de doutoramento que permanece obra de referência e que, no panorama de mediocridade e falta de originalidade que domina o estudo e a investigação, em Portugal, nas chamadas ciências da Educação, continua a destacar-se.

Hoje em dia, no entanto, Nóvoa parece ser uma personagem claramente sobrevalorizada. Candidato presidencial sem garra nem chama, embaixador por favor político, o eterno estudioso e pensador de temas educativos parece estar de regresso às origens. Nem sempre com as melhores companhias, revisita velhas ideias pedagógicas às quais, como tantos outros, tenta insuflar vida nova recorrendo à prosa poética da escola do século XXI. Mas o que diz são banalidades.

Como especialista da “metamorfose” da escola, Nóvoa não convence. Falta-lhe a verve polémica, combativa e por vezes trauliteira de José Pacheco, o eterno mestre da escola da Ponte. Como filósofo e profeta de um mundo novo, carece do talento e da mundividência de um Agostinho da Silva. A falta de assertividade do discurso redondo, confuso e vazio de conteúdo assenta mal como corolário de uma carreira académica brilhante e também não o habilita para um cargo político, ainda se estando para saber por que carga de água se falou neste homem para possível ministro da Educação.

Pensamento do dia

Deveríamos ser capazes de distinguir entre especialistas em educação e especialistas em falar sobre educação.

Javier