O dia do perfil ou a mudança imposta aos professores

perfil-2No “Dia do Perfil”, evento algo ridículo que pretende substituir as aulas do dia pela discussão de um tema sem substância, percebe-se a vontade de, insidiosamente, tentar mobilizar os alunos contra os professores “retrógrados” e avessos à mudança.

Atrever-me-ia a dizer que talvez lhes saia o tiro pela culatra, pois os alunos que se interessam o suficiente por estas questões não se costumam contentar com as ideias simplistas e a retórica balofa com que o ME tenta formatar este tipo de discussões.

Mas prefiro fugir à agenda desinteressante do ME e colocar outras questões.

Porquê discutir uma coisa tão redonda, inóqua e sensaborona como o perfil do aluno?

Parte da resposta é evidente: porque enquanto se fala de perfis não se fala das turmas grandes, da indisciplina, da falta de apoios sociais e educativos, dos professores “congelados” e mal pagos, dos mega-agrupamentos, das más condições existentes em muitas escolas.

Também é muito bonito defender que se desenvolva o pensamento crítico nas escolas, mas a verdade é que a desconfiança dos políticos nos professores se estabelece, desde logo, porque estes ensinam os alunos a pensar pela sua cabeça mais do que aqueles desejariam.

E que dizer do discurso maniqueísta dos professores maus e dos bons? No discurso politicamente correcto dos tempos que correm, os bons professores já não são os que norteiam por princípios éticos e científicos o exercício da sua profissão, mas os que seguem acriticamente as modas educativas. Os que cumprem escrupulosamente a agenda do poder e obedecem sem questionar a todas as solicitações dos governantes de turno.

Claro que uma escola divertida, onde os alunos fazem o que querem, é bastante mais barata e inofensiva do que aquela que os confronta com exigências, regras, responsabilidades e desafios. Mas enquanto a escola assente no conhecimento estruturado exige professores motivados para ensinar e com sólida formação científica de base na sua área de especialidade, a guarda de crianças e adolescentes pode fazer-se com mão-de-obra pouco qualificada e a custos muito mais reduzidos. E a escola que nos dizem ser a do século XXI passa, em larga medida, por aqui.

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A pedagogia da roda dentada

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O modelo da flexibilidade curricular não funciona.

Sempre suspeitei, mas quando vi este boneco, retirado de um documento de trabalho preparado para o Dia do Perfil, dissipei as dúvidas que ainda tinha.

Não sou engenheiro, a minha formação é em humanidades, mas basta-me olhar para o esquema para concluir que se engrenarmos as rodas daquela maneira elas nunca conseguirão rodar.

Mas admito que quem fez ou mandou fazer o boneco precise de o montar daquela forma para o perceber. Nesse caso, façam-no.

Não se fiquem apenas pela teoria e pelo mandar fazer aos outros. Apliquem a vós próprios as teorias do conhecimento em acção que ensinam a quem ainda vos quer ouvir.

Façam-no, se é a única forma de perceberem que há teorias contrafeitas que, por muito belas que pareçam, na prática nunca irão funcionar.

O Dia do Perfil

dia-do-perfil.JPGO ME tem andado a convidar publicamente  as escolas a pararem as aulas amanhã, dia 15 de Janeiro, com o objectivo de participarem num debate nacional sobre o “Perfil do Aluno“. A iniciativa envolve uma conferência nacional, para a qual foram convidadas diversas figuras públicas, e assembleias de alunos que irão discutir localmente as mudanças que o novo documento deverá suscitar.

Para a iniciativa nacional do “Dia do Perfil do Aluno”, organizada pelo Ministério de Educação em colaboração com a Federação Nacional de Associações de Estudantes dos Ensinos Básico e Secundário, foram convidadas as escolas de todos os níveis e ciclos de ensino.

A ideia, segundo o ministério, foi colocar às escolas o desafio de por um dia suspenderem a rotina diária e organizarem um momento para reflexão e trabalho em torno do “Perfil dos Alunos”.

Além da reflexão de cada escola, está prevista a realização, em Lisboa, de uma conferência nacional, sobre o mesmo tema à qual os estabelecimentos de ensino que se inscreveram na iniciativa poderão participar.

Para apoiar a iniciativa, foi criada uma página própria no site da DGE. E é por aí que se pode tentar perceber os propósitos desta inusitada iniciativa. Será para colocar os estudantes a discutir o “perfil” que eles próprios deverão ter quando terminarem os 12 anos de escolaridade obrigatória? Não senhor, para isso, diz o ME, “reuniu um conjunto de especialistas de diferentes áreas”. O guião do evento esclarece, para que não restem dúvidas: “O conjunto de atividades que aqui se propõe não tem como objetivo discutir o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória.”

O que se pretende então? De acordo com este documento, trata-se de usar “a voz dos alunos como elemento de mudança”. Parte-se do princípio de que o sucesso dos alunos não se reduz apenas à “obtenção de bons resultados na provas de aferição e exames”, mas deve ser entendido “à luz de uma visão de escola e de futuro que seja relevante para os jovens do nosso tempo”. Uma formulação eduquesa para abrir caminho a afirmações mais ousadas: “a escola e os professores deixaram de ser os únicos ou principais veículos de aprendizagem e passaram a ‘competir’ com a internet e as redes sociais, em processos de aprendizagem informal, selecionados a la carte, pelos próprios alunos”.

Neste ponto, começa a tornar-se evidente a estratégia de cerco aos professores: perante as óbvias limitações dos bonzos das ciências da educação e dos comissários políticos arregimentados pelo ME para convencer a maioria dos docentes, que já os conhecem de outros carnavais, da bondade das iniciativas do secretário de Estado João Costa, tenta-se seduzir os alunos para os projectos de mudança, acenando-lhes com uma escola moderna e divertida, onde cada um estuda o que quer e ao ritmo que lhe apetecer. Para começar, uma dia sem aulas para discutir o assunto. Fixe, meu!…

Subrepticiamente, pretende-se instalar a ideia de que a reforma educativa de um governo que não tem sequer a coragem de enunciar como tal é afinal de contas uma exigência dos alunos, dos pais e, enfim, da sociedade em geral. Procura-se que os professores que não acreditam nesta mudança, que não vislumbram nem recursos, nem tempo, nem condições para fazer, em cima do joelho, os malabarismos curriculares pretendidos pelos decisores ministeriais, venham a ser convencidos pelos seus próprios alunos.

Claro que, nestas coisas, é sempre mais fácil seguir a corrente do que remar contra a maré, pelo que antevejo que um número significativo de escolas irá amanhã responder à chamada ministerial.

A última loucura das bibliotecas escolares

navegar-net.gifO livro tradicional tem sofrido a concorrência avassaladora dos omnipresentes tablets, telemóveis e redes sem fios. Não consigo saber, com rigor, se hoje se lê mais ou menos do que antes do advento da era digital. Mas não é difícil antever que, quando algumas crianças começam, ainda bebés, a ser viciadas no uso e abuso de todo o tipo de ecrãs, a disponibilidade e o interesse que possam vir a ter pelo papel impresso serão reduzidos.

Ora se não podes vencê-los junta-te a eles, é o que parecem pensar os responsáveis da Rede de Bibliotecas Escolares, que há anos vêm direccionando parte das suas iniciativas para as chamadas literacias digitais. Esta semana, foi anunciado um novo e ambicioso projecto.

A partir do próximo ano vai estar disponível nas escolas um novo portal para dotar os jovens de maior compreensão da Internet, para que a usem de forma mais esclarecida e crítica, foi hoje anunciado.

Esta nova plataforma digital, intitulada “Manual de Instruções para a Literacia Digital” (MILD), dirigida aos jovens entre os 15 e os 18 anos, com o objetivo principal de desenvolver as suas competências nos domínios da leitura, dos media e da cidadania digitais, foi hoje apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

“A ideia nasceu para se fazer como produto, como plataforma, um conjunto de ferramentas que possa contribuir para dar poder aos jovens, para que utilizem a informação de um modo que é conhecimento”, disse a coordenadora do projeto MILD, Teresa Calçada.

Sempre me suscitou moderada irritação este tom, entre o presunçoso e o condescendente, das comissárias dos livros, das leituras, das bibliotecas e das múltiplas literacias. A forma definitiva como decretam a incompetência digital dos professores nas escolas, que carecem de ser instruídos pelas sapiências da RBE. E mesmo os jovens “nativos digitais”, que noutros contextos nos garantem virem já preparados de fábrica para o uso natural e intuitivo das novas tecnologias, parece que também não pescam muito do assunto. Pois precisam, afinal, de um “manual de instruções” para se orientarem nos meandros da internet sem serem “esmagados por tecnologias poderosas”.

A notícia do DN sobre a conferência de apresentação do novo projecto reproduz bem o tipo de discurso, de uma banalidade grandiloquente, dos neófitos que descobriram o caminho da salvação através do novo mundo digital. Perdidos entre a internet, definida como “argamassa onde as relações se alteram e intensificam”, e as escolas, que “hoje ainda não se adaptaram” às novas tecnologias, os jovens carecem da nova “ferramenta” como de pão para a boca. Este “grande chapéu para a era das tecnologias novas” é que os vai “orientar para a crítica”, pois só um “ensino letrado nos permite entrar na sociedade de consumo de massas e mostrar que se pode acrescentar mais-valia sem ser esmagado”. Enfim, e especialmente para quem estava com saudades, bem-vindos ao Eduquês 2.0, versão digital…

Fico a aguardar a disponibilização da nova ferramenta para confirmar as suas potencialidades, esperando que não se venha a juntar aos muitos portais, páginas e plataformas de iniciativa pública que foram sendo criadas nas duas últimas décadas e que foram sucumbindo pela sua irrelevância e falta de público. E remato com o discurso redondo de Guilherme Oliveira Martins, presente no evento não na qualidade de perfilador-mor do aluno do século XXI, a que nos habituou nos últimos tempos, mas nas funções, bem mais prosaicas e compensadoras, de administrador da Gulbenkian…

Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da FCG, defendeu que as telecomunicações são um dos “paradigmas que se inserem nas grandes revoluções humanas, e suscitam ao mundo da educação desafios muito exigentes”, um dos quais é o combate à “dependência anómala”, porque a tecnologia tem que ser um meio e não um fim”.

A gente vai na digressão

guitarrista.gifEstá em discussão pública, até ao final desta semana, o novo diploma legal do regime de inclusão escolar, que irá substituir o decreto-lei 3/2008 e que pretende consagrar uma nova filosofia na implementação de medidas de apoio educativo a alunos com necessidades especiais, tendo em vista, não apenas a sua integração, mas acima de tudo a sua efectiva inclusão nas turmas e no acesso ao currículo.

Dito assim soa muito bonito, e é difícil discordar. O problema é como concretizar as bonitas palavras. A verdade é que o projecto apresentado pelo governo tem merecido algumas críticas e objecções, não tanto da comunidade académica ou dos especialistas destas coisas, mas sobretudo de professores no terreno: desvaloriza o papel dos docentes da educação especial no apoio directo aos alunos que dele precisam, não prevê a criação estruturas e recursos necessários, presumindo que se faz tudo “com o que houver” e empurra os alunos para uma inclusão fictícia, em que se presume que o aluno está integrado se estiver na mesma sala de aula que os colegas, ainda que não perceba nada do que ali se está a fazer.

Ora bem, perante as dúvidas e as críticas, o que faz a equipa interministerial responsável pelo projecto? Ouve mais pessoas, alarga e amplia o debate, integra novos contributos?

Não me parece. Na recta final do processo de auscultação pública, agarram no núcleo duro de governantes e especialistas de gabinete que estiveram na origem do projecto de diploma em discussão e vão em rápida digressão pelo país para convencer das suas razões. Percebe-se, pela curta duração das sessões, que não vão para ouvir ninguém, mas antes para tentar convencer a todos da justeza e da bondade das suas intenções. E também se adivinha que, entre a proposta inicial em discussão e o documento final em forma de lei, pouco mais mudará do que a posição de algumas vírgulas.

Quem ainda desejar ouvir ao vivo a dupla de secretários de Estado e os seus mentores académicos já perdeu as actuações de ontem, em Gaia, de manhã, e Coimbra, da parte da tarde. Mas ainda irá a tempo de assistir, em Lisboa, dia 29, ao encerramento da tournée: ficam o programa da sessão e as coordenadas do local, que o site da DGE faz questão de fornecer, para que ninguém se perca pelo caminho.

A Pedagogia no século XXI

fernando-trijullo.jpgOs pedagogos no nosso país habitam, fundamentalmente, a universidade e hoje esta é, mais do que nunca, uma torre de marfim, concentrada em obter um grande impacto das suas publicações em revistas especializadas para poder assim melhorar sua posição nos rankings e conseguir projectos de pesquisa com bons financiamentos. A consequência directa é que muitos pedagogos vivem hoje afastados das escolas e de outras experiências educativas. Disto ressente-se não só o seu conhecimento, determinado em grande parte pela publicabilidade em certas revistas, mas também a sua influência real na escola, onde são vistos como estranhos que às vezes chegam carregados de questionários, mas raramente trazem soluções ou, pelo menos, possibilidades.

O texto é de Fernando Trujillo, um professor espanhol da Universidade de Granada, mas este desfasamento entre a pedagogia dos académicos e aquela que os professores do básico e secundário aplicam diariamente com os seus alunos é algo que também se constata entre nós.

Contudo, esta pedagogia que se teoriza para os papers e as conferências universitárias e que ignora, quando não hostiliza, os saberes, a experiência e as dificuldades dos professores no terreno, não é boa para ninguém. E abre espaço, no sector da educação, para a influência dos interesses económicos e para a afirmação de novos mitos educativos ligados à informática, às neurociências e a uma amálgama de novas modas educativas associadas ao que se vai chamando Educação do século XXI.

Perante isto, Trujillo defende a importância da Pedagogia e de explica porque não podemos prescindir dela: em tempos de mercadores, necessitamos de pedagogos.

A Educação não pode esquecer os contributos da Pedagogia. Por um lado, a sua abordagem histórica e, por outro lado, o seu posicionamento crítico são absolutamente necessários para não perder o Norte da Educação em tempos de neoliberalismo. A Educação é um direito de todos, mas para fazer valer este princípio necessitamos de conhecimento para resolver a grande questão deste início do século XXI: há uma clara tentativa de usar a Educação para manter e reforçar a desigualdade no mundo, e a marginalização da Pedagogia e dos pedagogos, incluindo o seu próprio isolamento e estigmatização, fazem parte desse intento desequilibrador.

“Matamos a criatividade na escola”

rui-matos.JPGLi a entrevista a Rui Matos, professor-coordenador da ESE de Leiria e, embora esteja sempre de sobreaviso cada vez que os nossos eduqueses do regime descem da cátedra para falar às massas, ainda me espanto com a leviandade e a ligeireza com que gente responsável pela formação de professores fala sobre Educação. Vê-se bem que não têm de, no dia seguinte, entrar no ritmo das aulas de uma qualquer escola do ensino básico, aplicando as teorias arrasadoras que apregoam. Aliás, mesmo no doce remanso do ensino superior, não consta que estejam na forja as revoluções educativas que exortam os colegas dos outros níveis de ensino a empreender.

Claro que pelo meio surgem verdades evidentes e ideias interessantes, que ganhariam em ser discutidas de outra forma, que não com o radicalismo pequeno-burguês do académico que só não faz a revolução que está ali ao virar da esquina por manifesta falta de tempo. Como ele próprio reconhece, “o tempo que há é para preparar a próxima aula”. Vejamos alguns excertos da peça do Jornal de Leiria, que só encontrei em versão integral aqui.

Veja-se quando alguém olha para o lado num teste. Anula-se, é um escândalo. Mas depois queremos que as pessoas sejam cooperativas e façam trabalhos de grupo. É um contrassenso.

Não necessariamente. A aprendizagem em contexto de turma é cooperativa, todos trabalham em conjunto – e também isso é criticado quando algum bem-pensante decide achar que é uma forma de pôr todos a fazer o mesmo, desrespeitando o ritmo de cada um. Ora o teste de avaliação serve para avaliar o que o aluno é capaz de fazer sozinho. Se olha para a folha do colega e copia, e aceitamos isso, então o teste deixa de fazer sentido.

Não somos educados para responder criativamente. Somos educados para repetir. Repare-se que tem de se pedir para ir à casa de banho. Então há hipótese de não ser autorizado? Faço ali na sala? Se o aluno precisa, vai. Cá confunde-se isso com falta de respeito.

Da educação também fazem parte as regras de convivência em sociedade, e é isso que os professores tentam ensinar quando exortam os seus alunos a usar os intervalos para irem à casa de banho. Estar disponível para acompanhar e participar na aula que o professor lhes está a dar é, parece-me a mim, um dever de todos os alunos. E pedir educadamente licença para ir à casa de banho no caso de uma necessidade súbita e urgente não me parece que represente a opressão do professor tirano ante o aluno oprimido.

O professor está habituado a trabalhar sozinho. As pessoas estão fartas de ouvir falar na Finlândia, mas é um facto que têm resultados. Eles acabaram com as disciplinas. Na rua há Matemática, Português ou Biologia? Não. Vêem-se uma série de coisas e depois fala-se sobre elas usando estas linguagens em conjunto. O que estamos a fazer é a dar tudo em separado e pedimos depois ao aluno para juntar. Assim é fácil para nós, mas para o aluno é impossível. Depois há insucesso e desmotivação.

Na Finlândia não acabaram com as disciplinas. Estão a desenvolver projectos, longamente estudados e planeados, de articulação interdisciplinar, focados no trabalho de projecto, para substituir parte do currículo tradicional. E os primeiros resultados da experiência parece que não estão a ser brilhantes. De resto, embora a mente humana seja uma só, as aprendizagens complexas são geralmente mais eficientes, se estudarmos cada disciplina isoladamente. Claro que no fim é importante ligar tudo, mas é importante perceber que o imenso conhecimento que a nossa civilização acumulou só foi possível através da especialização. Como se aprende na Matemática, chega-se à solução de um problema complexo dividindo-o em partes e resolvendo uma de cada vez.

Os alunos percebem as coisas muito melhor se tiverem um problema concreto.

E é por aí que se começa. Mas compreender realmente passa por ser capaz de generalizar e de abstrair. Podemos passar a vida a contar e a juntar pedrinhas ou bolinhas, mas se no devido tempo não formos capazes de passar daí para as operações aritméticas e o desenvolvimento do cálculo mental então nunca chegaremos a aprender Matemática.

O exame do 12.º ano vai definir a vida de uma pessoa. Na véspera pode ter acontecido tanta coisa e já não entra na universidade: pode ter morrido um familiar directo ou pode ter acabado com a namorada. Mas é o exame que define o que é o aluno? Define é o aluno que mais bem se adapta ao papaguear. Faz sentido que tenha de ter uma grande nota porque quero ir para o ensino superior?

Se foi um aluno aplicado, só num pequeno número de cursos é que as notas dos exames serão decisivas. Aqui, tenho de concordar que os exames do secundário estão a ter um peso indevido no acesso ao ensino superior. As universidades deveriam, como defende Rui Matos, ter os seus próprios sistemas de selecção. Mas já me parece demagógica a conversa acerca do “papaguear”. Podemos questionar a relevância de algumas matérias que se estudam para exame, mas não me parece que as provas que se fazem actualmente, e que até avaliam aprendizagens complexas, se baseiem no apelo à memorização.

Por que se entendeu que quem tem boas notas tem de ir para Medicina? Se não houvesse exames como se entraria em cursos como Medicina? Há muita gente a ir para Medicina porque tem notas elevadas e depois são infelizes. Quantas vezes foram ao hospital ver como se trabalha como médico e em interacção com os outros colegas de profissão?

O problema das médias dos cursos de Medicina ultrapassa largamente as questões pedagógicas e tem a ver com o prestígio social do curso, a garantia de emprego, as carreiras aliciantes e, claro, os bons vencimentos geralmente associados ao exercício da profissão. A verdade é que há muitos mais candidatos do que as vagas disponíveis e a selecção tem de se fazer de alguma forma. Rui Matos parece pensar que tanto faz “ter 10 ou 19”, mas, se descartamos as notas, o que é que fica? O perfil do aluno, tão elogiado pelo professor da ESE de Leiria? Ignoramos o resultado de um exame que pode ter corrido mal, e valorizamos a entrevista, o portefólio, a “carta de motivação” do candidato para o passar à frente de outro cujas competências nos impressionaram menos? É quando levamos o raciocínio eduquês às últimas consequências que percebemos as suas contradições e, pior do que isso, a sua iniquidade.

Que oportunidades é que são dadas no básico para os alunos irem conhecer as profissões que existem? A escola é sociedade. Por que é que os alunos não podem aprender a trabalhar com as ferramentas de marceneiro? É só quem vai para os profissionais?

Também acho que foi um erro ter-se acabado com a Educação Tecnológica no 3º ciclo, mas uma vez mais o problema não é apenas de “ferramenta”: se a sociedade não valoriza certo tipo de profissões, se estas não têm empregabilidade ou estabilidade profissional, incluindo aqui o pagamento de salários decentes e o respeito dos direitos laborais, ou se lhes colamos o estigma de serem profissões de “pobres” e incultos, então poucos quererão pegar nas ditas ferramentas.