Um testemunho eloquente

Com um olhar lúcido e discurso a um tempo emotivo e assertivo, Armindo Olveira escreve, no Diário do Minho, sobre a escola que temos. Confrontando-a com a de um passado ainda não muito distante que este professor, já aposentado, recorda com saudade.

“Vim-me embora na altura certa” – quantos de nós ouvimos já esta afirmação, vinda de colegas estimados, profissionais empenhados e competentes que teriam ainda muito para dar à escola pública, mas irremediavelmente desencantados com o rumo que a política educativa, nos últimos 15 anos, têm vindo a tomar?

Consensualizada a importância de uma boa educação para enfrentar os desafios e as incertezas que o futuro nos reserva, nunca a sociedade, no seu todo, se mostrou tão exigente com a escola na formação das novas gerações. E, no entanto, nunca essas exigências se expressaram de modo tão contraditório e desacompanhado dos meios para concretizar as mudanças que todos acham necessárias…

Estou fora do sistema educativo há uns anos. Ainda hoje antigos colegas me perguntam se tenho saudades da Escola. Saudades da minha Escola,… claro. Fico, entretanto, pensativo, hesitante, um pouco absorto até, perante a questão, se bem que a minha resposta, já bem interiorizada, se mantenha sempre a mesma: Qual Escola? A Escola das burocracias, dos planos e dos projectos? Das reuniões intermináveis e maçudas? Das actas “alençoladas”? Da papelada infernal?

Desta Escola não tenho qualquer saudade. Nenhuma. O mesmo não acontece com os alunos e com os pais. Todos os alunos e a maioria dos pais. Sempre foram correctos comigo. Há sempre uns pais mais metediços e impreparados que estorvavam. E estorvam. Sempre tive relações espectaculares com a comunidade educativa por onde lecionei. Não deixei “rabos de palha”, nem contas por ajustar. Cumpri a minha “missão”.

1 – Tenho saudades, claro, da Escola em que o professor tinha “alguma” autoridade e em que os alunos eram disciplinados. Da Escola em que o professor era respeitado e até acarinhado pela comunidade educativa. Da Escola que se envolvia em actividades extracurriculares com gosto e entusiasmo. Da Escola em que os docentes motivados partilhavam experiências, vivências e saberes, numa atmosfera de bem-estar e de compreensão. Sim, da Escola participativa e viva. Da Escola em que os alunos eram o foco das preocupações dos seus professores e estes sabiam estar numa sala de aula como devia ser. Sim, desta Escola tenho saudades. Sem dúvida!

2 – Segundo informações que vou recolhendo junto de professores no activo, esta Escola, que esbocei simplesmente, uns retoques, acabou. Até me dizem que saí do sistema educativo na hora certa. Dizem mais: já não aturo a indisciplina, a falta de autoridade, a enormíssima carga burocrática, os pais zangados. A desmotivação docente é notória e influencia fortemente a acção pedagógica no dia-a-dia. Não é por acaso que as “baixas” por doença são uma marca bem negativa e real no momento educativo actual. Não é por acaso que não há professores para cobrir todas as necessidades da Educação. Não é por acaso que escasseiam candidatos a professores. Não é por acaso que há uma excessiva ingerência dos pais na vida escolar. Não é por acaso que a Escola se debate com problemas de violência e tem alunos sempre insatisfeitos e “desordeiros”. Nada é por acaso. Há causas e os efeitos estão à vista de todos.

3 – A Escola de hoje foi pensada para “amansar” os professores. “Amansá-los” nos salários, na progressão da carreira, no seu trabalho pedagógico, na sua influência socializadora, formadora e cultural. Havia a intenção de os contorcer e torná-los simples funcionários públicos, com todo o respeito pelos funcionários públicos. Os professores são, claramente, actores importantes e imprescindíveis na mudança de mentalidades e na construção de um país mais equilibrado, crítico e mais insubmisso. E esta influência e importância retratou-se durante o período pandémico, em que a capacidade dos professores – de trabalho, de inovação, de querer – veio ao cima. Mostrou a toda a gente que não há Escola sem professores.

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A aula do Presidente

Marcelo Rebelo de Sousa regressou esta quarta-feira à Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, na qual foi aluno há quase seis décadas, para dar a aula de abertura oficial do ano lectivo, que arrancou na semana passada. Num auditório cheio de estudantes, o Presidente deu a entender que o Governo “não tem a cabeça muito virada” para a Educação “porque está mais virada para medidas de apoio e de reacção à crise”, mas considerou que é preciso “ver além disso” e “repensar o sistema” educacional.”

Este é o momento para fazer um debate sério sobre os grandes desafios da Educação num mundo e num Portugal completamente diferente de há uma década”, disse, sublinhando que existe agora “uma janela de oportunidade para repensar o sistema como um todo”, nomeadamente olhando para “as estruturas físicas” das escolas, “a sua forma de organização” e “de gestão”, “os métodos [de ensino] utilizados” e “a maneira de encarar a revolução digital”.

“Este é um período, não diria ideal, mas mais fácil para tomar medidas”, caso contrário, a escola continuará “a gerir o que já aconteceu”, reiterou.

Num início do ano escolar marcado pela falta de professores, o Presidente alertou para os desafios actuais das escolas e universidades devido à diminuição da natalidade, que já está a fazer com que existam menos alunos jovens, bem como ao facto de a idade média dos professores ser “demasiado elevada”, e frisou a necessidade de se criarem “incentivos para quem ensina”.

Não tenho quaisquer saudades dos silêncios estudados e dos tabus rancorosos de Cavaco Silva, um presidente que nem como Chefe de Estado foi capaz de se elevar acima da sua própria mediocridade. Percebo que Marcelo Rebelo de Sousa cultive uma presença assídua nos media e se exprima com uma linguagem próxima da do cidadão comum, não fugindo aos temas que marcam a vida económica, social e política do país. Mas acho escusada a excessiva banalização das intervenções presidenciais, quase sempre generalidades e lugares-comuns que pouco ou nada acrescentam ao ruído mediático e que reconduzem Marcelo ao papel de comentador televisivo, em vez de o elevarem ao estatuto influente, reflexivo e moderador que a intervenção presidencial deveria assumir.

O tema do dia, a Educação, mereceria uma intervenção mais profunda, reflexiva e ponderada do Presidente, sob pena de estar a fazer exactamente o mesmo que critica ao Governo: desvalorizar a Educação, porque a cabeça anda mais virada para outras coisas…

Destaca-se, ainda assim, uma chamada de atenção importante para a necessidade de uma análise aprofundada do sistema educativo, dos bloqueios que persistem e das reformas que tardam em ser feitas. Importante, e oportuna, porque a ideia que insidiosamente se vai impondo é que passou o tempo das grandes reformas educativas: as melhorias a introduzir no sistema devem ser pontuais e cirúrgicas, aperfeiçoando e corrigindo este ou aquele ponto passível de ser melhorado.

Quando a apologia do improviso, da falta de avaliação e de planeamento ganha terreno entre as eminências pardas do actual situacionismo educativo – na mesma linha, aliás, da desvalorização, feita por uma ex-ministra de má memória, do “como chegámos até aqui” – é importante reforçar a necessidade de pensar a médio e longo prazo, de identificar com rigor os problemas e de consensualizar, planear e avaliar as políticas educativas, estratégicas para o desenvolvimento do país e a qualificação dos seus cidadãos. Isto deveria ser explicado com clareza, e Marcelo perdeu uma excelente oportunidade de o fazer.

Avisos, culpas e soluções da falta de professores

Sucedem-se as análises sobre a tragédia anunciada da falta de professores e discutem-se os remedeios. Mas debata-se o estrutural para que se aprenda com os erros. Aliás, se o essencial não mudar, e se a OCDE concluiu que “os professores portugueses são, na Europa, os mais desgastados, os que mais preenchem burocracia inútil e que são vítimas de uma organização de trabalho que os adoece”, rapidamente os novos professores entrarão em exaustão e se arrependerão da escolha profissional.

E ainda como ponto prévio, é finalmente inquestionável que os jovens rejeitam o ensino como profissão. Mas agravou-se, e contrariou expectativas, porque a robotização do ensino supervisionada por super-humanos (em “de volta ao futuro da Educação – quatro cenários da OCDE”) desacelerou com o imperativo, também evidenciado na pandemia, de recolocar o humano comum no centro das preocupações.

Num resumo sistémico, comece-se pela sonoridade dos avisos; e como a não audição persiste, convoque-se Milan Kundera: “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. E faça-se o que tanto se exigia aos professores: prestação de contas.

Analisando com profundidade e rigor o problema da falta estrutural de professores, Paulo Prudêncio começa por nos recordar o que, desde 2008, nos trouxe até aqui: a campanha anti-professores do primeiro governo de Sócrates, a que a classe respondeu com as maiores manifestações e protestos colectivos de sempre, a divisão da carreira, a imposição dos mega-agrupamentos escolares e do modelo de gestão unipessoal, que em conjunto com a avaliação do desempenho burocrática, punitiva e permeável a favorecimentos e abusos, destruiu o trabalho colaborativo e a participação democrática dos professores nas suas escolas.

O resto decorre daqui, através de uma política em que convergiram sucessivos governos: proclamou-se o excesso de professores, ao mesmo tempo que se aumentava o tamanho das turmas, se dispensavam professores contratados e se sobrecarregava de serviço os do quadro, na esperança de que alguns se fossem embora – e muitos foram! – antes do tempo e com pensões nalguns casos miseráveis. Precarizar, domesticar e proletarizar a profissão docente foi, como muito bem lembra o Paulo, um objectivo de política educativa perseguido internacionalmente, e os resultados começamos agora a vê-los em Portugal, como outros países que nos antecederam já descobriram há muito tempo: poucos querem uma profissão desconsiderada, trabalhosa e mal paga. Para não deixar alunos sem aulas, a alternativa a tomar medidas de fundo e abrir os cordões à bolsa é aceitar ao serviço todo o bicho-careta que queira dar umas aulas, mesmo que insuficientemente habilitado para o efeito.

Para que a escola não continue a ser um “laboratório de exclusão dos professores”, Paulo Prudêncio propõe diversas medidas, na linha do que tem sido aventado por quem conhece a realidade das escolas e dos problemas reais que os professores enfrentam: eliminar quotas e vagas, recuperar tempo de serviço, completar horários a concurso, reduzir o tamanho das turmas e recuperar a gestão democrática das escolas num quadro de descentralização administrativa e desburocratização. A questão é que estas propostas, sendo justas e necessárias, contrariam abertamente as políticas largamente consensualizadas do centrão educativo que nos trouxeram até aqui. Estará o Governo disposto a emendar a mão?…

A verdade completa

Embora a sinistra ministra não tivesse previsto ou pensado, sequer, nos efeitos a longo prazo das suas políticas, não vamos ser ingénuos ao ponto de pensar que foi tudo feito ao calhas. Como nos recorda a linguagem gráfica, sempre bem inspirada, do Antero Valério.

Existiam objectivos claros no embate contra os professores desencadeado pelo primeiro governo de Sócrates: embaratecer o trabalho docente, precarizando os mais novos e retardando as progressões dos mais velhos e domesticar uma classe até aí com níveis apreciáveis de autonomia pedagógica com mais burocracia e tempo de permanência na escola, um novo regime de gestão baseado no poder unipessoal dos directores e nos mega-agrupamentos e uma avaliação do desempenho docente punitiva e vexatória.

Nunca esquecer também que tudo isto, que devemos a Maria de Lurdes Rodrigues, tem sido escrupulosamente mantido, com uma ou outra alteração de pormenor, pelos seus sucessores. Faz parte do pacto educativo informal a que PS e PSD amarraram a política educativa e é justamente do imobilismo e da perversidade deste modelo que radica o problema da falta de professores.

A Educação em debate

Não é muito comum por aqui a recomendação de programas televisivos, mas esta é uma excepção que se justifica plenamente: um debate entre especialistas da Educação para o qual foi convidado… um professor. Como se dizia no meu tempo, deve estar para cair um santo do altar.

Paulo Guinote, um dos raros professores portugueses do ensino básico com desenvoltura e traquejo no formato televisivo, estará hoje na RTP1 em debate com três eminências pardas da Educação portuguesa: a antiga sinistra, digo, ministra Maria de Lurdes Rodrigues, a presidente da câmara corporativa do sector, o pomposo Conselho Nacional da Educação e o tudólogo Filinto Lima: director, presidente de associação de directores, colunista na imprensa, autarca socialista e talvez algumas coisas mais.

O programa, de que só tive conhecimento porque foi divulgado no seu blogue pelo próprio Paulo, contará também com as presenças online de dois académicos com ligações ao sector: uma das responsáveis pelas aprendizagens essenciais e um economista que tem feito uns estudos tipo school-of-business sobre Educação. A ver se ainda sobra tempo para falarem a sério do assunto que por ali os traz.

Pedagogias fanáticas

Mordaz e incisivo, Santana Castilho continua a hábil a desmascarar o teatro de sombras em que há muito se tornou a política educativa tutelada pelo finalmente ministro João Costa.

Creches gratuitas e escola digital, medidas úteis e necessárias, não substituem políticas de rendimento e emprego mais amigas das famílias nem a crescente falta de competências vocabulares e sociais de crianças e jovens enfronhados no mundo virtual.

Aulas regulares para alunos do secundário com deficiências profundas revelam a completa insanidade de um sistema mais preocupado em fazer valer as convicções de pedagogos fanáticos do que com o superior interesse dos alunos.

A falácia da redução do abandono escolar, quando o respectivo indicador é grosseiramente subavaliado.

Os exames faz-de-conta decretados para o 9.º ano.

A anunciada falta de professores para degradar ainda mais a formação inicial e facilitar a entrada de paraquedistas na profissão docente.

De tudo isto, aparentemente, se ufana João Costa, dentro e fora de portas…

À entrada para uma recente reunião de ministros da Educação da União Europeia, em Bruxelas, João Costa disse que as escolas devem ser laboratórios de democracia e oficinas de paz. Falava certamente de outras, que não das que governa. Essas são cada vez mais organizações pouco democráticas (quando não totalitárias), laboratórios sim, mas de experiências pedagógicas sem sentido, viveiros de integração hipócrita, fábricas de falsos sucessos e altares da mais estúpida e castradora burocracia. As escolas portuguesas são hoje, com raras ilhas de excepção, mundos de venenosos interesses miudinhos e subservientes, onde a vontade coletiva é secundarizada por visões unipessoais.

Desconstruir a pseudo-reforma educativa

Aqui ao lado, parece ser possível. Apesar dos esforços concertados do governo de izquierdas, do poderoso sub-sector do ensino privado financiado com dinheiro público, das fundações, dos bancos e das multinacionais na imposição de uma reforma educativa assente no construtivismo, no trabalho de projecto, na desconstrução dos currículos e no facilitismo avaliativo, há professores que resistem. Que contestam as mudanças que irão – percebe-se à légua – prejudicar tanto alunos como professores.

Por cá, com políticas muito semelhantes – mas vendidas com um pouco mais de lábia… – a apatia parece generalizada. Resmunga-se pelos cantos das salas de professores e nas redes sociais. Mas na hora da verdade lá vão quase todos flexibilizar, planificar o DAC ou inscrever-se obedientemente na formação secante da flexibilidade ou da transição digital.

Entretanto em Espanha, mais concretamente na Comunidade Valenciana, onde as autoridades educativas andam especialmente assanhadas na imposição das novas políticas educativas, um grupo de docentes organiza-se para debater, denunciar e desconstruir a banha da cobra educativa que anda a ser vendida como Educação do século XXI.

O eduquês de direita é a salvação?

José Matias Alves, professor da Universidade Católica e um dos expoentes do eduquês fofinho de direita, menos estridente, mas não menos insidioso do que o seu congénere mais à esquerda, escreve uma carta aberta ao novo ministro. E não será preciso ler muitas linhas da missiva para perceber a similitude do discurso e a coincidência de perspectivas: uma visão lírica e irrealista da escola e da sala de aula, própria de quem olha para o trabalho do professor da zona de conforto dos gabinetes e dos salamaleques das academias. Estivesse o Matias a ministro e o Costa no lugar de escriba e a conversa não seria, creio, muito diferente.

Os futuros professores não aprendem a ensinar quem não quer aprender, têm dificuldade em praticar uma avaliação pedagógica que esteja ao serviço das aprendizagens de todos os alunos, não veem as vantagens de modos de trabalho docentes de matriz mais colaborativa e em equipa educativa.

[…] Há um número indeterminado de professores que continua a pensar que o seu papel é ensinar. O problema é que pouco adianta ensinar se os alunos não aprenderem. Por isso, é preciso fazer ver que a missão primeira é gerar nos alunos a vontade de aprender. E isto é de extrema complexidade porque mexe com o querer, o saber e o poder dos professores, com os modos de trabalhar, com as pedagogias que têm de abandonar o quadro negro da pura transmissão.

Matias Alves está confuso de ideias e até mesmo o lacónico programa do PSD para a Educação conseguia ter mais qualidade do que o discurso redondo e eduquesmente correcto desta eminência parda do situacionismo educativo. Ali estão todos os clichés e bloqueios que vêm conduzindo as políticas educativas ao beco sem saída em que cada vez mais se vão afunilando, desde logo a incapacidade de assumir uma coisa tão simples como isto: o trabalho do professor é ensinar. Que tempos tão estranhos estamos vivendo, quando tantos pedagogos tentam induzir nos bons professores um sentimento de culpa por insistirem em fazer aquilo para que lhes pagam: ensinar algo aos seus alunos…

O arrazoado de Matias torna-se ainda mais contraditório nas confusões que faz entre centralização, burocracia e autonomia das escolas, como se esta fosse o antídoto para as outras duas. Errado. O grande demérito de João Costa nestes seis anos de governação na sombra foi ter usado a capa de uma falsa autonomia das escolas para elevar a burocracia escolar, o controleirismo ministerial e a centralização das políticas educativas a um nível nunca visto. Ora a autonomia de que precisamos não é a da burocracia centrada nas escolas, mas sim a autonomia pedagógica dos professores, focada nas necessidades dos seus alunos e no trabalho desenvolvido em sala de aula.

Matias Alves critica também o que chama as “lideranças tóxicas”, mas falta-lhe a coragem para assumir o óbvio: a toxicidade na gestão escolar radica no modelo autocrático e centralista de gestão escolar em vigor, defendido e implementado tanto pelo PS como pelo PSD. Uma escola livre e democrática como a que parece defender não precisa de andar permanentemente à procura de “líderes”, mas sim de dar liberdade pedagógica e condições de trabalho aos seus professores. Mas sobre isto nem uma palavra, antes o chavão da “territorialização”, eufemismo para designar um ainda maior enfeudamento das escolas às autarquias e às comunidades intermunicipais.

O resto – falta de formação dos professores em “avaliação pedagógica”, “trabalho colaborativo” e “liderança”, revisão da carreira docente e da ADD, políticas locais de Educação – disfarça mal a vontade dos “actores” que, estando fora da escola, não desdenham a possibilidade de colaborar na implementação das necessárias “reformas”: uma vocação que renasce a cada nova tranche de financiamentos europeus destinados ao sector.

Luís Costa – Pecado Mortal

Tenho apreciado bastante os inspirados textos que o Luís Costa vem escrevendo no final de cada semana. Desta vez, discorre sobre um tema pouco falado, mas altamente corrosivo da imagem pública dos professores e, por arrastamento, do sistema educativo: o preconceito, a desconsideração e a desvalorização da classe docente presente, de forma explícita ou implícita, no discurso de quem governa a Educação.

A campanha suja contra os professores teve o seu ponto alto, como todos sabemos, com José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues. Mas a mesma animosidade e desconfiança estão presentes, ainda que de forma mais branda e sobretudo mais dissimulada, nos actuais dirigentes do ME. A converseta do “diálogo” e da “proximidade” com as escolas esconde mal a dura realidade: é com os representantes dos directores e com alguns directores escolhidos a dedo que o secretário de Estado agora promovido a ministro contacta. Sendo que estes contactos servem acima de tudo, não para transmitir a quem manda as dificuldades e inquietações dos professores que trabalham nas salas de aula, mas sim para dizer aos mandantes aquilo que estes querem ouvir, confirmando-lhes as suas certezas e convicções.

Tudo isto, infelizmente, caucionado por uma classe docente amorfa e obediente, que se queixa e resmunga, mas acaba a fazer tudo, e às vezes mais ainda, o que lhe é exigido.

PECADO MORTAL

Cassandra, filha de Príamo, rei de Troia, tinha o dom de prever o futuro. Porém, o mesmo deus que lho concedeu (Apolo), quando percebeu que a bela troiana não corresponderia ao seu amor, fez cair sobre ela uma maldição: a de ninguém acreditar nas suas previsões. Salvaguardadas as distâncias, é o que está a acontecer aos professores deste país. Pecado mortal de um povo.

Em Portugal, foi Maria de Lurdes Rodrigues que fez de Apolo (que me desculpe o deus), lançando a desconfiança sobre os professores. Não havia frase em que ela não incluísse, direta ou subliminarmente, um resquício de desconsideração, um laivo de dúvida ou mesmo um insulto à dignidade profissional dos docentes. Esse olhar descrente não se foi desvanecendo com o tempo, bem pelo contrário: tem vindo a acentuar-se e a generalizar-se, sob o feérico fraque de hipocrisia que passou a fazer moda nos discursos. As palavras são de confiança, as ações semeiam o contrário, frutificando generosamente.

Apesar da assertividade das palavras, é por demais evidente que a dita Tutela manifesta, há muito, um profundo preconceito relativamente aos professores. Apesar de Portugal jamais ter tido um corpo docente tão qualificado, quem o tutela jamais manifestou tanta falta de confiança na sua competência, tanta falta de respeito, tanto desprezo. Como, nos bastidores dos discursos dourados, na penumbra do ego, quem manda considera que os professores não são competentes, que não estão devidamente compaginados com estes tempos e são muito refratários à mudança, então decide-se sem os ouvir ou ignorando a sua voz. Os professores falam, mas a caravana passa, seguindo, inexoravelmente, o seu cego caminho, absolutamente indiferente aos gritos de alerta que, há quinze anos, ecoam vãmente nas aflitas paredes das escolas e nas serenas e surdas paredes dos salões ministeriais.

É verdade que nunca os ministros e os secretários de Estado “dialogaram” tanto com as “escolas”. Mas… com quem dialogam efetivamente? Em primeiro lugar, e com uma regularidade assinalável, com aqueles que dizem representar aqueles que representam as escolas (parece complexo, mas não é); depois, já muito mais raramente, com os que foram efetivamente eleitos para representar as escolas. Tudo gente que, efetivamente, não está diariamente nas salas de aula, a lidar com os alunos: a conviver com a degradação do seu ritmo de aprendizagem, com o enfraquecimento progressivo da sua capacidade de concentração e de sacrifício, com o crescimento diário da desmotivação, com o alheamento galopante, com a gradativa desresponsabilização, com a alarmante falta de ambição, com a crescente incapacidade para compreender, memorizar, analisar, deduzir, inferir, transferir, etc. É óbvio que os professores dizem tudo isto, diariamente, aos diretores das escolas, porém, os diretores sabem que ninguém, acima deles, quer realmente saber, porque esta é, para eles, a voz dos professores do século XX, aquela que eles não querem ouvir, porque, no seu entender, está desfasada do tempo em que um valor mais alto, para eles, se levanta: o do perfil do aluno do século XXI, seja lá o que isso for. Aos diretores, são pedidas outras respostas, respostas às exigências desta autonomia burocraticamente manietada. Os diretores sabem que têm de dar resposta ao caderno de encargos que a Tutela, de várias formas e por diferentes meios, lhes impõe. Os diretores sabem que, se forem realmente porta-vozes daquilo que os professores realmente sentem e pensam, não serão ouvidos, na melhor das hipóteses.

Os pais e encarregados de educação também têm aqueles que dizem representá-los e que por eles falam, normalmente e quase sempre para se mostrarem alinhados com as linhas mestras da evolução pedagógica dos últimos tempos. Na sua globalidade — “representantes” e “representados” — padecem também da maldição de Apolo: não dão crédito aos já roucos gritos de desespero dos professores. Acreditam mais em quem está lá em cima (se lá está é porque sabe, tem preparação e merece), a enxergar o futuro antes dos demais, a decidir, a orientar. Além disso, os resultados escolares parecem provar que a Escola está a caminhar no bom sentido. E confiam-lhes, assim, o futuro dos filhos, apesar dos infindáveis alertas dos professores. Os poucos que ainda escapam à maldição nada podem fazer.

A resposta do Ministério da Educação a todas as inquietações manifestadas pelos professores é invariavelmente a mesma, e tem bem estampado o cunho de Lurdes Rodrigues: mais formação, mais capacitação, mais formação, mais capacitação, mais formação, mais capacitação, mais formação, mais capacitação. A resposta é sempre a formação e a capacitação, porque, está visto, os professores são incompetentes e retrógrados, ainda não conseguiram compreender o que lhes é pedido nem têm as ferramentas necessárias para implementar, a contento, as modernas pedagogias que o Ministério vem preconizando e os tempos impõem. A formação/capacitação tornou-se omnipotente, avassaladora e omnipresente. Os professores recebem esse maná a toda a hora, nos centros de formação, na escola, em casa e pelo caminho.

Não dar ouvidos aos professores e reformar o ensino contra o que eles pensam e sentem é um autêntico pecado mortal. O país pagará severamente as inevitáveis consequências desta soberba cega, desta prepotente presunção em que governantes e seus acólitos se têm acastelado, nos últimos tempos. Os professores não podiam fazer mais do que queixarem-se, obedecerem e tentarem, desdobrando-se em mil, contrariar este hálito doentio? Sim, é claro que podiam, apesar dos fortes grilhões. Podiam unir-se muito mais e dizer “NÃO”, a palavra mais luminosa, quando os dias são secos e de escuridão.

Luís Costa

Programa do governo para a Educação

Das linhas gerais ontem apresentadas, o que consta para o sector resume-se praticamente a isto:

• Tornar a carreira de Professor mais atrativa nomeadamente através de novos modelos de recrutamento e de vinculação;
• Permitir a vinculação ao quadro de escola, ao quadro de agrupamento e a zona pedagógica o mais rapidamente possível
.

Basicamente, pretendem resolver um problema estrutural de carência progressiva de docentes qualificados através de mexidas cirúrgicas no regime de concursos e vinculação. Pouco, terrivelmente pouco.

A insana burocracia escolar, o currículo esfarrapado por flexibilidades e pseudo-autonomias, os horários docentes repartidos por mais do que uma escola, as turmas multinível, o modelo unipessoal, centralista e tendencialmente autocrático de gestão, a municipalização insensata do sector que desagrada a todos os intervenientes, a começar pela maioria dos autarcas: tudo isto parecem ser, para o novo governo, não-problemas. Seis anos de costismo educativo trouxeram-nos ao melhor dos mundos educativos, bastando apenas manter o rumo seguido até aqui e temperar com umas pitadas de ubuntu, mindfulness e coisas digitais.

E afinal nem seria difícil, com um pouco de ambição e coragem, reconhecer e corrigir os erros que se cometeram. A pretexto do dia das mentiras, escrevi ontem sobre cinco medidas sem custos financeiros significativos que poderiam fazer a diferença para melhor, no futuro próximo, na Educação portuguesa. Notícia falsa, mas que poderia bem ser verdadeira se outro interesse e sensibilidade imperasse. Meras sugestões, que partem do conhecimento da realidade e da percepção do que realmente importa para melhorar as condições de trabalho nas escolas e motivar quem diariamente tenta dar o seu melhor na formação das novas gerações. Para fazerem a sua parte, os governantes necessitam de falar com os professores no terreno, saindo da bolha dos apoiantes e dos pretensos “especialistas”; de olhar para a realidade das escolas, não para os papéis ou as encenações que se montam para governante ver.