David Justino critica o “neobenaventismo”

justino-cratoO antigo ministro da Educação e ex-presidente do CNE, David Justino, critica as políticas educativas do actual governo, que sintetiza numa fórmula sugestiva: neobenaventismo com selo OCDE

A tese da violência sancionatória sobre os “meninos” e da perversidade dos rankings emergiram de novo, fazendo lembrar os argumentos que a secretária de Estado da Educação Ana Benavente tanto esgrimia. Acresciam, agora, as velhas ideias de que não se deve “estudar para exame” e que a memorização, a repetição e o treino estavam obsoletos, porque o que importava era compreender a “matéria” e não decorá-la. Os resultados desta primeira reversão ficaram bem expressos nos péssimos resultados apurados nas primeiras provas de aferição. O diagnóstico não poderia ser pior.

O segundo passo foi a orientação da ação pedagógica para a valorização das competências. Uma vez mais, adotou-se de forma acrítica a cartilha da OCDE atestada pela frequência inusitada com que o sr. Andreas Schleicher e os seus peritos passaram a visitar Portugal. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória — aprovado por um mero despacho do secretário de Estado — e as novas orientações curriculares para os ensinos básico e secundário repunham, no fundamental, os princípios do Currículo Nacional do Ensino Básico: competências essenciais, lançados por Ana Benavente (2001), agora alargados ao ensino secundário. Toda a agenda da OCDE foi incorporada nesta mistura entre as visões românticas da educação e as teorias do capital humano orientadas para as respostas educativas às supostas necessidades do mercado.

David Justino tem razão em muito do que escreve, e não é o facto de me situar noutro quadrante ideológico que me impede de reconhecer as evidências. Nunca simpatizei com a pedagogia dos “coitadinhos” que alguns pretendem associar a uma política educativa de esquerda. Pelo contrário, acredito que a distribuição das capacidades intelectuais é transversal a classes e grupos sociais, e que todas as crianças têm direito a uma educação estimulante e exigente que lhes permita desenvolver todas as suas potencialidades. Nunca quis a escola facilitista para os filhos de pobres e remediados, que acaba por ser o melhor caminho para conter na sua condição de desfavorecidos, enquanto os mais abonados escolhem para os seus filhos projectos educativos mais exigentes e diferenciados. E nunca defendi, como o faz alguma hipocrisia de esquerda que infelizmente também abunda, uma escola pública para a generalidade dos alunos diferente da que quis para os meus próprios filhos.

Subscrevo por isso as críticas do ministro-sombra de Rui Rio para a Educação quando descreve uma reforma educativa apressada e não consensualizada nem entre os agentes educativos nem com as outras forças políticas. Uma experiência pedagógica que é irresponsavelmente generalizada sem ser devidamente avaliada. Uma visão utilitária e instrumental da Educação que passa por dar aos jovens as competências que os empregadores pretendem “no século XXI”, sob o selo de qualidade da OCDE. E o constante torpedear – aqui, diga-se em abono da verdade, seguindo uma prática também adoptada pelos governos do PSD – da Lei de Bases do Sistema Educativo, cuja revisão ponderada e publicamente discutida e consensualizada deveria ser o ponto de partida de qualquer reforma educativa.

De resto, o discurso de Justino é o de um político em busca de credibilidade e de apoios para um projecto político que se pretende reerguer das ruínas do passismo. E não resiste, como é natural, a algumas cedências à demagogia. Noto, por exemplo, que o PSD continua a evocar o “benaventismo”, preservando a figura de Marçal Grilo como uma das eminências pardas do regime. Mas era ele o ministro da Educação, não passando, a Benavente, de sua “ajudante” – como diria Cavaco Silva. E achei piada à referência ao ME como “procuradoria” da Fenprof, numa altura em que a relação entre este governo e os professores e os seus sindicatos nunca esteve tão má.  O PSD sempre achou que criticar a maior federação de professores lhe dava votos, e já se sabe que velhos hábitos e profundas convicções custam a desaparecer. Mesmo quando já em nada correspondem à realidade.

 

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A pirâmide educativa

Como era o mundo da Educação há vinte anos atrás?

Embora já se falasse no direito ao sucesso e todas as pedagogias hoje tidas por inovadoras e “do século XXI” tivessem há muito tempo sido inventadas, ensinar era visto como uma competência profissional específica dos professores. Aprendia-se a dar boas aulas com quem sabia, ou seja, professores experientes instruíam os recém-chegados à profissão. E embora nas ESEs começassem a impor-se autoproclamados “cientistas da educação”, a maioria dos que aí ensinavam ainda temperavam as teorias pedagógicas com os ensinamentos da sua experiência profissional.

Nos anos noventa do século passado ainda não estavam na moda os rankings educativos de países, regiões ou escolas, e a ninguém passaria pela cabeça fazer reformas educativas ditadas por uns monos da OCDE.

O ensino público era modelo e referência do sistema educativo. As escolas privadas eram procuradas pelos que podiam, geralmente por razões de status, capacidade económica, conveniência de horários, elitismo ou tradição familiar. Mas não pela convicção de que, globalmente, preparassem melhor os seus alunos.

As grandes empresas produtoras de tecnologia educativa ou de conteúdos multimédia não tinham ainda identificado, no sector da Educação, um apetecível nicho de mercado para colocar os seus produtos e moldar as mentalidades das novas gerações de consumidores.

De então para cá, muitas mudanças ocorreram, em Portugal e no mundo, nos sistemas educativos. Mas há uma que importa destacar: os professores deixaram de ser reconhecidos como os especialistas da Educação. Hoje, já nem sequer são ouvidos em muitas das decisões que se tomam, sendo tidos como meros executores, passivos e acríticos, do que outros – políticos, banqueiros, burocratas, empresários, pais endinheirados e pretensiosos – decidem por eles.

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A pirâmide construída por Javier, um professor espanhol que partilha regularmente no Twitter as suas interessantes reflexões, traduz graficamente, de uma forma que me parece especialmente bem conseguida, o funcionamento actual do sistema educativo. Um mundo ao contrário…

Colaborações: ComRegras

No Topo: A cimeira internacional sobre a condição docente

Foi um evento relevante, mas sem grande cobertura mediática. Terá mesmo passado despercebido à grande maioria dos professores, assoberbados, por estes dias, com as avaliações de final de período. E, no entanto, na cimeira que decorreu quinta e sexta-feira no CCB, participaram governantes e sindicalistas de dezasseis países que se destacam pela qualidade dos seus sistemas educativos – e onde também se inclui, presentemente, Portugal – para debater a importância de um elemento essencial da Educação: os professores…

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No Fundo: Um ministro irrelevante

A presença de Tiago Brandão Rodrigues na cimeira sobre a condição docente, ao lado de Mário Nogueira, suscitou variadas reacções, mas não contrariou, antes sublinhou, a realidade incontornável: sem experiência, conhecimento ou pensamento próprios acerca dos temas educativos, o jovem ministro pode ter um ar simpático e ser uma presença agradável. Mas está longe de conseguir liderar efectivamente a sua equipa ou de definir um rumo para a política educativa do governo. Muito menos mobilizar professores e outros agentes educativos. E, pelo andar da carruagem, duvido que alguma vez consiga…

Os segredos da educação finlandesa

sanni.JPGÀ margem da cimeira internacional sobre a profissão docente que ontem terminou em Lisboa, a ministra da Educação finlandesa, Sanni Grahn-Laasonen, parece ter sido a governante mais solicitada para entrevistas à comunicação social: de facto, o modelo educativo da Finlândia, embora já não esteja no topo dos rankings internacionais, continua a despertar interesse e a mostrar-se inspirador.

Algumas ideias chave que ressaltam das declarações da ministra:

Os professores continuam a ser o elemento fundamental do sistema educativo.
Se tivesse que referir apenas um segredo do modelo de educação finlandês, diria que são os professores. Os professores finlandeses são muito respeitados pela sociedade finlandesa, estão muito motivados e bem formados, inclusive com mestrado. Damos-lhe uma grande autonomia pedagógica.

Os professores são os especialistas da Educação, não os políticos nem os burocratas governamentais.
Quando desenvolvemos a educação, os profissionais, professores e investigadores estão no centro do debate. Não são os políticos. Nós, políticos, não mexemos nos currículos. São feitos por profissionais, nomeadamente professores. Damos depois uma grande autonomia aos professores e às escolas para escolherem como e quando ensinam e os materiais que utilizam.

A valorização social da profissão docente, uma elevada procura e uma formação exigente garantem excelentes professores, em condições de exercerem a profissão com autonomia e responsabilidade.
Quase não há exames nacionais e os professores são profissionais com muita formação. Todos têm mestrado. Damos-lhes muita autonomia, de forma a que possam escolher os materiais que usam, os métodos que usam. São eles que decidem como ensinam, onde ensinam. Claro que temos um plano nacional de educação, que foi recentemente renovado, mas os professores têm autonomia e acho que isso nos deu excelentes resultados.

Todas as escolas devem ser boas porque todos os alunos têm direito a uma educação de qualidade. Por cá, continuamos a promover a desigualdade: iludimo-nos com as supostas virtudes dos rankings escolares e com a ideia tola de que ao “castigarmos” as escolas más as forçamos a melhorar.
Como mãe, agradeço que a minha filha possa ir à escola mais próxima e que seja tão boa como qualquer outra na Finlândia. Esse é um dos segredos da nossa educação: que todas as escolas sejam igualmente boas e que todas ofereçam a melhor educação.

Mais importante do que o número de horas que se passa na escola, é a qualidade da organização escolar, do trabalho pedagógico e das aprendizagens dos alunos.
Os dias de escola são bastante curtos. Por exemplo, quando a escola começa, aos 7 anos, só têm quatro horas de aulas por dia. Não temos de ter dias longos e muitos trabalhos de casa graças à alta qualidade dos professores.

A persistência de mais fracos resultados escolares entre os rapazes, face às raparigas, leva a repensar a questão da igualdade de género na educação. Eis um tema educativo verdadeiramente do século XXI…
Neste momento na Finlândia chegámos ao ponto em que as raparigas estão a ter resultados tão melhores do que os dos rapazes, e estamos preocupados que esse abismo possa crescer nos próximos anos. E estamos à procura de formas de motivar os nossos rapazes a estudar.

Digam-no mais alto!

groofSenhores que, lá no vosso ministério, prometeis uma educação nova: digam alto e repitam todos os dias, para nunca as esquecerem, as palavras de Jan de Groof, conselheiro da UNESCO para as reformas educativas. Para vós próprios e para quem estiver à vossa volta.

“Os peritos são os professores. Nós somos os burocratas”

Aprender a aprender ou aprender coisa nenhuma?

nunocrato[1]Embora não concorde com tudo o que diz e discorde de quase tudo o que fez enquanto ministro da Educação, respeito em Nuno Crato o intelectual com um pensamento próprio, estruturado e nalguns pontos polémico sobre Educação. Já escrevia e debatia sobre temas educativos muito antes de ser ministro, e deixando de o ser, continua a fazê-lo. O que é de registar e saudar.

E – um ponto a seu favor – não tem medo da polémica nem dos consensos politicamente correctos. António Guterres, na cerimónia recente de atribuição do doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, enfatizou a importância de um ensino menos formal e da aprendizagem ao longo da vida, valorizando o “aprender a aprender” em detrimento dos conhecimentos que se aprendem nas escolas e nas universidades e que rapidamente se mostram inúteis e ultrapassados. Crato, obviamente, discorda. E pergunta:

Gostaria algum de nós de ser tratado por um médico que, na universidade, tivesse aprendido Literatura Germânica, não tivesse prestado grande atenção à Anatomia nem à Histologia, mas que tivesse sido fantástico a “aprender a aprender”? Gostaria algum de nós de andar num avião mantido por uma equipa de mecânicos que, na sua escola de formação técnica, tivessem estudado Anatomia Patológica, nada sobre motores nem sobre aeronáutica, mas que fossem extraordinários a “aprender a aprender”?

Em boa verdade, o conhecimento conta. E dou razão a Nuno Crato: embora o discurso de Guterres tenha sido de circunstância, redondo e generalista, como aliás é seu timbre, não me parece que tenha sido feliz na formulação que encontrou. Antes de “aprender a aprender” é preciso primeiro aprender alguma coisa que sirva de base a essa “permanente procura do conhecimento” em tempos invocada por outro ilustre autodidacta, Miguel Relvas de seu nome. O raciocínio lógico e abstracto, o pensamento crítico e criativo e outras “capacidades” e “competências” hoje em dia muito gabadas não se desenvolvem a partir do nada: são precisos conhecimentos de base, vocabulário e outras ferramentas cognitivas para as conseguir utilizar e desenvolver.

Quanto à obsolescência do conhecimento escolar: ela ocorre mais facilmente com as aprendizagens “flexíveis” que agora se pretende estimular do que com o conhecimento disciplinar sólido e estruturado do ensino tradicional. Nuno Crato dá o exemplo feliz das coisas que se aprendiam quando se começou a dizer, dos computadores, que seriam o futuro: quem conhece hoje os comandos do MS-DOS, as teclas de atalho do WordPerfect ou a programação BASIC, tudo coisas que faziam furor no final dos anos 80?…

Em contrapartida, dominar uma língua estrangeira ou ter boas bases de Matemática, conhecer e compreender o essencial da História e da Geografia de Portugal, entender no fundamental a teoria da evolução de Darwin ou a relatividade de Einstein, não são conhecimentos inúteis nem ficarão certamente ultrapassados nas próximas décadas. São conteúdos sólidos e concretos que não só enriquecem os jovens que os têm como lhes permitem, esses sim, partir para novas aprendizagens.

Especialistas em educação

O meme tem dado a volta ao mundo, e a meu ver já merecia uma adaptação à triste realidade da Educação portuguesa.

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