Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: A importância dos exames 

A saída dos resultados dos exames nacionais do secundário é um dos momentos altos que marcam o final do ano escolar. É a altura em que os finalistas deitam contas à vida. Em que uns reforçam as suas ambições universitárias enquanto outros começam, a contragosto, a rever em baixa as suas expectativas. Na verdade, a competição e a pressão da universidade desvirtuam uma avaliação externa que deveria servir primordialmente não para seleccionar os futuros universitários mas para certificar as aprendizagens do secundário…

No Fundo: O não-estado da Educação

A semana política ficou marcada pela discussão parlamentar do estado da Nação – o habitual balanço do ano parlamentar, que este ano foi também um balanço da legislatura. Significativamente, num debate em que se falou de quase tudo, a Educação foi a grande ausente nas intervenções de todas as forças políticas. Esta realidade não é verdadeiramente surpreendente porque há muito sabemos que o sector, fundamental para o futuro do país, tem estado no fundo das prioridades governativas…

O estado da Educação

Entre as principais políticas sectoriais que costumam concentrar a atenção dos media, a Educação foi a grande ausente do debate parlamentar sobre o estado da Nação. Que acabou por ser, este ano, também um balanço da legislatura e do projecto político a que se convencionou chamar geringonça.

Em boa verdade, a Educação é hoje um sector que já não suscita as paixões de outrora, não mobiliza investimento público – a não ser o dinheiro fácil dos financiamentos europeus – e tende a ser visto, da parte de quem governa, como um terreno propício a experimentalismos, eleitoralismos e demagogias avulsas.

Há no entanto um balanço pouco favorável que a maioria dos profissionais da Educação fazem da política educativa seguida ao longo da legislatura que agora termina. E como se revêem nas palavras incisivas da última crónica de Santana Castilho, quando este descreve o que considera uma legislatura perdida para a Educação…

É difícil prever a extensão da conflitualidade que vai ser gerada dentro da classe, quando se verificar que professores com menos tempo de serviço acabam progredindo na carreira antes de outros com maior antiguidade. Mas é fácil antecipar os impactos negativos nas pensões de reforma, em termos remotos, e na já de si constantemente agredida motivação profissional, em termos mais imediatos.

Apesar das proclamações em sentido contrário, a legislatura que vai findar não deixa marca na afirmação das diferentes expressões artísticas nas escolas, nem tão-pouco ficará notada por, finalmente, termos integrado os professores das artes na carreira docente. 

Com o contentamento irresponsável de quem não conhece a realidade, o Governo puxou pela cabeça e lançou o Plano Nacional das Artes para os próximos 5 anos, a cujos aspectos mais caricatos me referi no último artigo. Como se não fossem velhas de há 30 anos, mas sistematicamente esquecidas, as bases gerais da organização da educação artística pré-escolar, escolar e extra-escolar (DL n.º 344/90). 

Os planos nacionais sempre foram (e assim continuaram nesta legislatura), expedientes a que se recorre quando as primeiras instâncias falham e não se sabe corrigir o que está mal. Custam muito dinheiro, jogado em cima do que já existe, e apenas servem para recuperar ilusões esquecidas.

Sem reflectir nem ouvir, o Governo decidiu-se pela medida mais populista de toda a legislatura: a gratuidade e reutilização dos manuais escolares, para todo o sistema de ensino público (ficando de fora, vá-se lá saber porquê, os alunos que frequentam escolas privadas com contrato de associação e os que frequentam escolas profissionais). 

A legislatura termina com meio país de borracha na mão, num esfrega-esfrega de terceiro mundo, e a costumada guerra do alecrim e da manjerona: o Tribunal de Contas disse que só 4% dos manuais distribuídos foram reutilizados, o patusco Tiago Brandão multiplicou há dias a cifra por dez. De concreto, os que pagam impostos, ricos ou pobres, com filhos e netos ou sem eles na escola, já têm a factura à frente: uns redondinhos 185 milhões de euros. 

nobena.jpgQuanto à equipa do ME, se o tirocínio dos secretários de Estado correspondeu ao que deles se pretendia e os deve, no futuro, catapultar para outros voos, de Tiago Brandão Rodrigues o máximo que se pode dizer é que foi um razoável ministro… do Desporto. De facto, foram tão assíduas as suas presenças nos principais eventos desportivos quanto notórias as suas ausências sempre que os temas e problemas educativos chegavam à primeira linha do debate político nacional. No resto, um político sonso e dissimulado que, sendo incapaz de estar à altura das suas funções, depressa aprendeu as artes da sonsice e da dissimulação à conta das quais fazem carreira tantos políticos portugueses E que o traço de Antero Valério tão certeiramente captou…

Os verdadeiros especialistas em Educação

orador.gifLapidar este quadro comparativo que coloca lado a lado aquilo a que podemos chamar, à falta de melhor, os gurus educativos – os conferencistas, youtubers, cientistas e peritos em educação que tendem a monopolizar o debate público sobre Educação – e os verdadeiros especialistas – os professores que diariamente trabalham com os seus alunos.

Não se pretende afirmar, naturalmente, que só os professores percebem de educação. Apenas denunciar que algo está muito mal quando a sua experiência, o seu conhecimento, a sua voz são sistematicamente postos de lado na altura de discutir e redefinir as políticas educativas.

Traduzido e adaptado daqui, o quadro foi construído a partir da realidade espanhola. No essencial, igualzinha à que conhecemos no nosso país…

GURU EDUCATIVO ESPECIALISTA EM EDUCAÇÃO
1.   Não põe o pé na sala da aula. 1.   Está a dar aulas.
2.   Tem nula ou pouca experiência docente. 2.   O seu melhor mestre é a experiência.
3.   Faz carreira criticando e desvalorizando o corpo docente. 3.   Respeita os seus colegas.
4.   Tem interesses económicos e negócios privados. 4.   O seu único interesse é a aprendizagem dos alunos.
5.   Tudo é espontâneo: a inteligência, a criatividade, o talento, a vocação… 5.   Sabe que ensinar e aprender exige um grande esforço e que as circunstâncias sociais e económicas são determinantes.
6.   Nunca equaciona a influência das políticas educativas. 6.   Sofre diariamente o impacto de políticas educativas corrosivas.
7.   Acha que ser docente é muito fácil: só exige usar dispositivos tecnológicos e procedimentos estandardizados. 7.   Sabe que a sua profissão é complexa e não existem receitas milagrosas.
8.   Colecciona mitos e mantras educativos. 8.   Colecciona erros.
9.   Não tem contradições. 9.   Alberga dúvidas e inseguranças.
10. Amigo e colaborador de bancos, políticos e empresas tecnológicas. 10. Questiona bancos, políticos e empresas tecnológicas.

Portugal, a nova Finlândia

Finland-Portugal.jpgUma nova Finlândia, a estrela emergente nos relatórios PISA. É desta forma entusiástica que o El País caracteriza a Educação portuguesa. O pretexto foi a entrevista que Tiago Brandão Rodrigues concedeu a este jornal.

Quanto à peça jornalística, o interesse não reside tanto nas declarações do ministro – essencialmente generalidades, na linha do que vai também dizendo por cá – mas sobretudo no olhar que, do país vizinho, se projecta sobre o nosso sistema educativo.

Ao contrário de que sucedeu entre nós, em Espanha o ensino privado com financiamento público tem ganho força nos últimos anos, sobretudo nas regiões mais ricas, como a Catalunha ou a Comunidade de Madrid, acentuando a desigualdade e as assimetrias no acesso à educação e nos resultados escolares. Olham por isso com alguma admiração para a capacidade que o governo português teve de enfrentar com sucesso o poderoso lobby dos colégios privados.

Quanto aos resultados dos testes PISA, enquanto Espanha tem conhecido uma estagnação, em Portugal tem-se registado, ao longo dos anos uma subida consistente. Embora se refiram a 2015, os últimos resultados disponíveis destes testes situam o nosso país acima da Espanha. Mas claro que não faz sentido atribuir as melhorias ao actual governo, que ainda não estava sequer em funções quando os alunos foram avaliados.

Outras realidades da educação portuguesa que o El País assinala:

O país destaca-se também na autonomia das escolas, na inovação pedagógica, na gratuitidade dos manuais escolares e na intensa formação de professores. Mas, desde o Verão, os docentes protestam para que se lhes reconheça a antiguidade laboral que lhes foi congelada com a crise.

Dando de barato a “inovação pedagógica” – um mero requentar de teorias educativas dos anos 90 – e a “formação”, escassa e de qualidade no mínimo duvidosa, há outros progressos assinaláveis que mostram como, partindo de uma realidade mais desfavorável, Portugal conseguiu suplantar, a vários níveis, o país vizinho. É o caso, por exemplo, do abandono escolar precoce (12,6% contra 17,9%), da escolaridade obrigatória (12 anos versus 10) ou da formação inicial dos professores e educadores – em Portugal, todos os cursos de formação de docentes têm o grau de mestrado, algo que ainda não sucede em Espanha. E com 97,5% dos alunos com necessidades especiais integrados em escolas regulares, Portugal lidera também na educação inclusiva.

A notícia não o refere, mas há outra diferença importante entre os dois sistemas educativos, e ela refere-se aos professores. Lá como cá, abundam as queixas em relação ao excesso de trabalho, à falta de apoio e de reconhecimento da tutela, às turmas grandes e ao rumo errático que tantas vezes leva a Educação. Mas parece haver, entre os colegas espanhóis, um debate de ideias talvez mais rico, uma contestação das políticas vigentes assente num pensamento crítico e reflexivo sobre a profissão. Por cá, critica-se muito, mas quando chega a altura de fazer o que nos mandam, não faltam aqueles que, na ânsia de ficar bem vistos, fazem ainda mais do que lhes pedem. Mesmo quando não acreditam verdadeiramente no trabalho que estão a realizar.

E é isso que permite ao nosso ministro cantar de galo, vangloriando-se perante a jornalista espanhola do êxito das suas reformas:

Não é preciso ser impositivo, as escolas vêem que se confia nelas e responderam muito bem.

A nova amiga dos professores

benavente.JPGPara a ex-secretária de Estado da Educação de Guterres, o braço-de-ferro com os professores foi uma ‘birra’ do Governo e tão cedo os docentes não votarão no PS. Sobre o atual ministro da Educação, Ana Benavente diz não ter dúvidas de que está no cargo apenas para «fazer o que o mandam fazer», não lhe reconhecendo «nenhuma competência».

Quem diria? Em dia de manifestação nacional de professores, Ana Benavente sai em defesa dos professores. Em entrevista ao Sol, a antiga secretária de Estado de Marçal Grilo assume um posicionamento crítico em relação ao actual governo socialista. Desde logo, no reconhecimento de que o ministro da Educação anda a apanhar bonés: sem experiência nem conhecimento do sector, sem iniciativa nem liderança, limita-se a fazer o que lhe mandam. Ainda bem que, na área do PS, alguém admite o que os professores dizem há muito.

Quanto ao resto da entrevista, e mesmo concordando, é impossível não esboçar pelo menos um sorriso quando se vê uma das principais promotoras do eduquês a verberar o excesso de burocracia nas escolas portuguesas…

É uma classe que tem uma brutal carga burocrática em cima. É inacreditável, ninguém imagina a parafernália de documentos que é preciso articular, desde o perfil, os objetivos, as competências essenciais, as reuniões que têm que fazer. A vida dos professores é uma vida de exaustão, é uma classe muito envelhecida.

Já quando critica os mega-agrupamentos, Ana Benavente toma uma posição muito comum em socialistas da velha guarda e até mesmo em antigos serventuários políticos do PS, hoje navegando por outras águas: as nossas políticas eram boas e necessárias, tínhamos motivações exclusivamente pedagógicas e nada economicistas. Quem veio depois de nós é que estragou tudo…

Os agrupamentos surgiram por razões pedagógicas, para articular os ciclos da escolaridade obrigatória. Isso funcionou em alguns territórios e foi uma experiência muito positiva. Mas os mega-agrupamentos são uma coisa tremenda. As escolas perderam a sua identidade, perderam o seu ritmo e não foram acompanhados pelo aumento do número de funcionários. Se está aberta a cantina está fechada a reprografia, a biblioteca fecha para abrir o bar. E isto são situações de um país subdesenvolvido.

Pensas que estás na tua barraca?

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Uma admoestação infeliz da professora à filha da colunista, que estaria mal sentada na sala de aula, serviu de pretexto à crónica no DN. A rapariga de 12 anos comentou em casa. E perguntou à mãe se achava bem que a professora fizesse uma pergunta destas.

Não, não acho. Não valorizei. Não falei com a professora. Não falei sequer com o diretor de turma. Mas não acho. E expliquei porquê à minha filha. Naquela pergunta que a professora lhe fez, e que não a afetou porque ela não vive numa barraca, está toda a injustiça social, a falta de pedagogia e a falta de empatia que tantas vezes persiste nas salas de aula portuguesas.

Na cabeça de quem fez aquela pergunta, que, calha, é professora, uma criança que vive numa barraca porta-se naturalmente mal, tem maus resultados, não tem emenda, talvez não tenha mesmo lugar ali, naquela escola, que, calha, é uma escola pública.

Até aqui, estaremos de acordo: admitindo que tudo se passou como é descrito, terá sido excessiva a linguagem da professora. Embora também se saiba como algumas turmas difíceis testam os professores até ao limite, e como por vezes é difícil corrigir atitudes e comportamentos, reagindo sempre no momento certo, no tom adequado e da forma mais eficaz, sem dizer uma só palavra ou expressão além do que é necessário ou apropriado.

Mas houve outra passagem desta crónica que também me chamou a atenção.

Uma das questões com que me debato e que me deixa os nervos em franja é porque é que a escola pública, que deveria ser o principal instrumento de justiça social e de criação de igualdade de oportunidades, continue a não conseguir, quase 45 anos depois do 25 de Abril, garantir um ensino igual para todos.

Confesso que fiquei um pouco perplexo com esta defesa do ensino igual para todos, uma ideia que defendo convictamente e que sempre associei aos ideais de liberdade, igualdade, democracia e justiça social que se impuseram no nosso país com a Revolução de Abril. É que o actual governo tem apostado exactamente no oposto: numa escola feita à medida de cada aluno, onde o ensino deve ser ministrado de forma diferenciada, tendo em conta a diversidade, não só de públicos escolares, mas de alunos dentro da sala de aula. Aquilo a que o ministro, num dos seus raros momentos de inspiração, chamou uma vez a escola-alfaiate, onde o ensino é como um fato talhado à medida de cada aluno.

Olho assim o desabafo desta mãe com algum optimismo: afinal não sou só eu, e mais uns quantos professores passadistas da velha guarda, a considerar que um ensino “igual para todos” é o melhor garante da igualdade de oportunidades. O aluno pobre tem de ser tratado com dignidade e respeito. Mas a pobreza por si só não justifica que lhe seja exigido menos do que a outro, mais afortunado economicamente. O ensino à medida de cada um acaba demasiadas vezes com o pobre “a aprender um ofício” e o rico a preparar a entrada na universidade, perpetuando a desigualdade social ao longo de sucessivas gerações.

Para que serve a escola?

escolinhaQual é o objectivo fundamental da escola?

Proporcionar aos seus alunos um espaço adequado onde, em conjunto com os seus pares, realizem aprendizagens relevantes e ajustadas ao seu nível etário e ao seu grau de desenvolvimento físico, intelectual e emocional?

E como verificar se essas aprendizagens foram de facto realizadas, senão através de uma avaliação objectiva dos conhecimentos e competências dos alunos, feita de forma contínua e sistemática?

Ou, pelo contrário, nada disto é importante, e consideramos que tudo vai bem se os alunos estiverem felizes e “incluídos” na sua escola, se as flexibilidades e os DACs ajudarem a amenizar o incómodo de estudar e aprender, se as avaliações “formativas” e feitas à medida permitirem escamotear o insucesso?

Para Eduardo Lemos, Director da Escola Secundária Eça de Queirós e Presidente do Conselho das Escolas, a actual política parece ser a receita para o desastre: está-se a substituir estratégias e objectivos claros, focados numa melhoria das aprendizagens aferida através da evolução dos resultados, por uma manta de retalhos feita de novos e vagos “paradigmas”, “inclusões” e “flexibilidades”, sem que ninguém perceba muito bem o que se pretende e o que anda a fazer.

Independentemente do reconhecimento da necessidade da mudança e do benefício da dúvida que se queira conceder às políticas deste ministério, julgo que é impossível, a qualquer professor atento ao que se vai passando nas escolas, não comungar da perplexidade e da apreensão que se percebem nas palavras do “director dos directores”…

Atualmente, vemos que os resultados escolares não constam da agenda educativa, nem da agenda mediática, tendo desaparecido completamente do discurso político, como se queimassem a boca de quem se atravesse a verbalizá-los.

Os desafios que se lançam hoje às Escolas e que se tornarão, inclusive, objeto central da avaliação externa, são a “flexibilidade curricular”, a “inclusão”, as “aprendizagens essenciais” (ainda há bem pouco tempo, “significativas”), a “avaliação formativa”, “os projetos”… Enfim, as Escolas são confrontadas hoje com objetivos de natureza diferente daqueles que perseguiram durante anos. E a tendência será para se alinharem por estes novos objetivos, de caráter holístico, é certo, mas de discutível escrutínio e tangibilidade.

O processo de ajustamento a este “novo paradigma” educativo refletir-se-á, do meu ponto de vista, negativamente no quotidiano escolar pois, não apenas obrigará as Escolas a alterar, uma vez mais, os projetos educativos, os regulamentos internos, os critérios de avaliação e dezenas de procedimentos, em extenuantes trabalhos de Sísifo, como também afetará a perceção e o discernimento dos professores na distinção entre o que é essencial e acessório no seu trabalho.

Temo que os professores, mesmo aqueles que foram seduzidos por estes novos desafios teóricos que se lançam às Escolas e à profissão, não demorarão muito a perceber que perderam a bússola em mar alto. Perceberão, também, que o que lhes falta em meios e recursos para materializar os novos projetos e metodologias sobeja em formulários, reuniões e burocracia. Perceberão, ainda, que a substituição de objetivos claros e mensuráveis por objetivos intangíveis e demasiado flexíveis é o primeiro passo para se desviarem do caminho que leva os alunos ao sucesso escolar.

Em resultado de tudo isto, temo que os alunos – afinal, aqueles para quem trabalhamos – nem terão mais facilitado o acesso ao sucesso no Ensino Superior, nem o acesso e sucesso no mercado de trabalho.