Outra vez o pacto educativo

pactoCriou-se um novo regime, dito de inclusão, para os alunos com necessidades especiais que, na realidade, vai permitir poupar recursos e reduzir despesa com estes alunos. Fez-se orelhas moucas aos múltiplos alertas, críticas e contributos dos especialistas, sobretudo dos que, trabalhando no terreno, mais depressa perceberam o logro desta falsa inclusão.

Impôs-se, a coberto da flexibilidade curricular e de uma falsa autonomia das escolas, uma revisão curricular encapotada que consolida a menorização das humanidades e das artes no currículo do básico e do secundário ao mesmo tempo que introduz uma complexidade desnecessária e contraproducente no desenvolvimento curricular.

Consolida-se assim uma organização escolar complicada e burocratizada, continuando a desgastar os docentes com tarefas extra-lectivas e a invadir a sua componente de trabalho individual com actividades que envolvem o acompanhamento, a leccionação e a avaliação de alunos.

Mantêm-se os professores à rédea curta, manietados por um regime de gestão escolar assente no poder unipessoal dos directores e nos mega-agrupamentos. Recupera-se, com o descongelamento de carreiras, o modelo de avaliação selectivo, burocrático e punitivo que é mais um instrumento de embaratecimento e domesticação da classe docente.

Falta apenas anular as veleidades dos profissionais docentes em relação à contagem do tempo de serviço congelado, fazendo-os aceitar uma recuperação simbólica de uma pequena parte desse tempo em vez dos 9 anos, 4 meses e 2 dias a que teriam direito.

Publicados os decretos que interessavam ao governo e postos os professores no lugar que lhes compete, está por isso na altura de voltar a falar de pactos educativos…

Em quatro décadas de democracia, é difícil descortinar um ano que não tenha conhecido instabilidade nas escolas. Entre governos, partidos, sindicatos e outras corporações, se algo tem sido prejudicial no nosso país é o ziguezague das diferentes políticas, mais tentadas a impor um modelo ou agenda próprios que orientar a atividade educativa durante largos períodos de tempo, muito mais dilatados que os ciclos eleitorais. E, entretanto, a “instrução pública” continua doente, reproduz desigualdades sociais, assimetrias regionais.

É urgente um pacto nacional pela educação. Uma reforma não deve estar sujeita a mudanças drásticas, embora deva acompanhar a evolução social e tecnológica. Um grande acordo na área educativa, que envolva todos os parceiros, deveria garantir estabilidade e ter em conta que as famílias e o contexto socioeconómico são elementos essenciais do sistema. Mas é indispensável resgatar o ânimo e o orgulho dos professores, cada vez com mais responsabilidades e menos apoio das famílias, num tempo em que a função do Estado é também assegurar-lhes formação, treino, experiência e metodologia adequados. Sem esquecer, claro, a exigência de contrapartidas em avaliação. Um pacto nacional pela educação tem de valorizar a função docente e aqueles a quem, durante muitas horas, confiamos os nossos filhos.

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A melhor vitória

tabarezSobre os méritos e deméritos das selecções de futebol de Portugal e do Uruguai, que se defrontaram há pouco, remeto para os entendidos nas questões da bola.

Espectador nem sempre suficientemente atento dos grandes jogo e pouco conhecedor das vicissitudes e dos meandros do futebol, poderei ter umas ideias, mas não sei ajuizar, em definitivo, acerca da justeza do resultado do jogo que há pouco terminou.

Mas há uma coisa que sei e valorizo: a equipa do Uruguai tem um treinador exemplar na capacidade que tem de aproveitar a visibilidade do cargo para falar, não apenas de vitórias no futebol, mas também de outros triunfos que deseja para o seu país. Por exemplo, na Educação.

Oscar Tabárez relembra uma promessa esquecida feita aos uruguaios, a de elevar a despesa pública em Educação a 6% do PIB. Porque é nas escolas de todo o país, e não nos estádios onde se disputa o Mundial, que verdadeiramente se joga o futuro das novas gerações. E nota que de nada lhes serve serem campeões na Rússia, se a maioria dos jovens não sabem sequer onde fica este país. Ou não percebem porque há, na selecção francesa, tantos jogadores nascidos em África ou filhos de africanos.

Independentemente de quão longe consiga chegar a sua selecção neste campeonato, o seleccionador uruguaio já marcou pontos importantes no debate social e político do seu próprio país. Um exemplo a assinalar, numa época em que o futebol continua a ser usado, demasiadas vezes, para alinear o povo, desviando a atenção dos cidadãos dos assuntos verdadeiramente importantes.

Fica a transcrição parcial da carta que Oscar Tabárez dirigiu aos professores uruguaios.

Queridos compatriotas,  encontramo-nos num momento decisivo para o país, para os nossos jovens e o nosso futuro. Nestes dias vamos jogar uma das partidas mais importantes. É necessário o apoio e a solidariedade de cada um dos uruguaios.

Este Junho, não é um Junho qualquer. Neste mês jogamos o futuro dos nossos jovens. É a oportunidade para cumprir o prometido, e marcar o golo mais importante: dar aos nossos jovens melhores condições para estudar, pôr a educação pública nas melhores ligas dos rankings internacionais. É o momento de cumprir o prometido e chegar aos 6% do PIB para a Educação Pública.

Como Professor sei o esforço, dedicação e compromisso que cada docente emprega nas suas aulas, nesse campo onde é tão difícil jogar. Nesse campo os rivais e as dificuldades são enormes. A má alimentação dos estudantes, a falta de estímulos e motivação, a falta de materiais didácticos para trabalhar, as dificuldades de aprendizagem, a sobrelotação e acima de tudo a falta de reconhecimento por este trabalho tão importante para construir uma sociedade melhor.

De nada serve sermos campeões do mundo se os nossos jovens não sabem onde fica a Rússia, ou porque há, na selecção francesa, tantos jogadores nascidos em África ou com pais africanos. De nada serve sermos campeões se não transmitirmos aos nossos jovens que valorizamos o que eles fazem e acreditamos que terão um futuro esperançoso. Temos a responsabilidade e a obrigação de dizer a todos os jovens e crianças  do Uruguai que acreditamos neles e que vale a pena apostar no seu futuro, e que se for necessário fazer mais esforços para lhes darmos o que merecem o iremos fazer.

Uma fraternal e respeitosa saudação a todos os docentes do Uruguai.

Oscar Washington Tabárez

A luta dos professores vista pela Direita

apaga-a-luz.JPGO homem é inqualificável, na arrogância presunçosa que ostenta, própria de quem acha que vive numa galáxia superior, muito acima do mundo chão dos professorzecos. Padece, como agora se diz, de excesso de auto-estima.

O discurso tenta ser provocatório, mas exprime sobretudo boçalidade e ignorância atrevida, pelo que não é digno de qualquer tentativa de contraditório. Nem merecem sequer, ele e quem o contrata para o pseudo-debate, qualquer tipo de divulgação ou publicidade.

No entanto, é importante questionar se compete à televisão pública gastar o dinheiro dos contribuintes pagando a comentadores que fazem gala de exibir a ignorância e o preconceito falando de assuntos de que, manifestamente, nada sabem. Pois uma coisa é confrontar diferentes ideias e pontos de vista, contribuindo para o debate público que é próprio das sociedades democráticas. Outra é dar palco ao exibicionismo de betinhos da direita gira, arrogantes e contentes consigo próprios, que se acham engraçados e acutilantes por atirarem irresponsavelmente umas bojardas sobre assuntos que estão para além do seu parco entendimento.

Mas o discurso anti-professores deste e de outros avençados tem, apesar de tudo, uma utilidade indesmentível: clarifica o pensamento da direita sobre a profissão docente. Quando a relação dos professores com o actual governo se degrada de dia para dia e se evidenciam os limites e contradições da geringonça em matéria educativa, pensar em possíveis vantagens de uma mudança política é, para muitos professores, uma tentação quase inevitável. Então, para percebermos o que poderemos esperar do PSD quando ele se abeirar de novo do poder, nada melhor do que dar a palavra aos betinhos desta direita folclórica e “radical”. Que nos dizem, sem papas na língua, aquilo que todos os outros também pensam, mas não se atrevem a dizer publicamente.

Os professores têm um trabalho como outro qualquer, não é uma profissão desgastante. Esse conceito só se aplica, por exemplo, aos mineiros que vão trabalhar longas horas para uma gruta debaixo da terra.

Não há problema algum em trabalhar com turmas numerosas ou em condições difíceis, pois supostamente todos os professores foram para a profissão por vocação. Estão a fazer o que gostam, portanto não se queixem.

Em vez de andarem sempre a protestar em defesa dos seus direitos, da sua carreira e das suas progressões, deviam manifestar-se, isso sim, em defesa dos seus alunos.

Os professores também não deveriam reclamar das colocações a centenas de quilómetros de casa porque se os concursos se fazem desta forma é porque eles próprios defenderam este modelo de colocações e para dar emprego a mais professores.

Finalmente, supra-sumo da demagogia, esta tirada absolutamente esmagadora: o Estado gasta mais de metade do orçamento da Educação com os professores, quando o deveria gastar com os alunos.

E, por último, a confissão… Fui acusado de não perceber nada de educação – e é verdade. E não quero perceber. Mas fui a uma coisa gira que é a Pordata e trouxe de lá uns números engraçados para provar aqui umas ideias…

É isto que querem, não é?

escola-futuro.jpgSerá este o programa educativo para o século XXI?

Com mais exames quando o governo é de direita, com puffs fofinhos quando vira à esquerda, mas no fim a vir dar sempre ao mesmo…

Finalidade da Escola: educar para a procura de trabalho.
Selecção de conteúdos: bancos e fundações.
Formação de professores: multinacionais.
Escolha de competências a desenvolver: empresas.
Avaliação do sistema: OCDE.
Objectivos: crianças consumidoras, empreendedoras e produtoras.
Resultado: mais desigualdade.

Adaptado daqui.

David Justino critica o “neobenaventismo”

justino-cratoO antigo ministro da Educação e ex-presidente do CNE, David Justino, critica as políticas educativas do actual governo, que sintetiza numa fórmula sugestiva: neobenaventismo com selo OCDE

A tese da violência sancionatória sobre os “meninos” e da perversidade dos rankings emergiram de novo, fazendo lembrar os argumentos que a secretária de Estado da Educação Ana Benavente tanto esgrimia. Acresciam, agora, as velhas ideias de que não se deve “estudar para exame” e que a memorização, a repetição e o treino estavam obsoletos, porque o que importava era compreender a “matéria” e não decorá-la. Os resultados desta primeira reversão ficaram bem expressos nos péssimos resultados apurados nas primeiras provas de aferição. O diagnóstico não poderia ser pior.

O segundo passo foi a orientação da ação pedagógica para a valorização das competências. Uma vez mais, adotou-se de forma acrítica a cartilha da OCDE atestada pela frequência inusitada com que o sr. Andreas Schleicher e os seus peritos passaram a visitar Portugal. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória — aprovado por um mero despacho do secretário de Estado — e as novas orientações curriculares para os ensinos básico e secundário repunham, no fundamental, os princípios do Currículo Nacional do Ensino Básico: competências essenciais, lançados por Ana Benavente (2001), agora alargados ao ensino secundário. Toda a agenda da OCDE foi incorporada nesta mistura entre as visões românticas da educação e as teorias do capital humano orientadas para as respostas educativas às supostas necessidades do mercado.

David Justino tem razão em muito do que escreve, e não é o facto de me situar noutro quadrante ideológico que me impede de reconhecer as evidências. Nunca simpatizei com a pedagogia dos “coitadinhos” que alguns pretendem associar a uma política educativa de esquerda. Pelo contrário, acredito que a distribuição das capacidades intelectuais é transversal a classes e grupos sociais, e que todas as crianças têm direito a uma educação estimulante e exigente que lhes permita desenvolver todas as suas potencialidades. Nunca quis a escola facilitista para os filhos de pobres e remediados, que acaba por ser o melhor caminho para conter na sua condição de desfavorecidos, enquanto os mais abonados escolhem para os seus filhos projectos educativos mais exigentes e diferenciados. E nunca defendi, como o faz alguma hipocrisia de esquerda que infelizmente também abunda, uma escola pública para a generalidade dos alunos diferente da que quis para os meus próprios filhos.

Subscrevo por isso as críticas do ministro-sombra de Rui Rio para a Educação quando descreve uma reforma educativa apressada e não consensualizada nem entre os agentes educativos nem com as outras forças políticas. Uma experiência pedagógica que é irresponsavelmente generalizada sem ser devidamente avaliada. Uma visão utilitária e instrumental da Educação que passa por dar aos jovens as competências que os empregadores pretendem “no século XXI”, sob o selo de qualidade da OCDE. E o constante torpedear – aqui, diga-se em abono da verdade, seguindo uma prática também adoptada pelos governos do PSD – da Lei de Bases do Sistema Educativo, cuja revisão ponderada e publicamente discutida e consensualizada deveria ser o ponto de partida de qualquer reforma educativa.

De resto, o discurso de Justino é o de um político em busca de credibilidade e de apoios para um projecto político que se pretende reerguer das ruínas do passismo. E não resiste, como é natural, a algumas cedências à demagogia. Noto, por exemplo, que o PSD continua a evocar o “benaventismo”, preservando a figura de Marçal Grilo como uma das eminências pardas do regime. Mas era ele o ministro da Educação, não passando, a Benavente, de sua “ajudante” – como diria Cavaco Silva. E achei piada à referência ao ME como “procuradoria” da Fenprof, numa altura em que a relação entre este governo e os professores e os seus sindicatos nunca esteve tão má.  O PSD sempre achou que criticar a maior federação de professores lhe dava votos, e já se sabe que velhos hábitos e profundas convicções custam a desaparecer. Mesmo quando já em nada correspondem à realidade.

 

A pirâmide educativa

Como era o mundo da Educação há vinte anos atrás?

Embora já se falasse no direito ao sucesso e todas as pedagogias hoje tidas por inovadoras e “do século XXI” tivessem há muito tempo sido inventadas, ensinar era visto como uma competência profissional específica dos professores. Aprendia-se a dar boas aulas com quem sabia, ou seja, professores experientes instruíam os recém-chegados à profissão. E embora nas ESEs começassem a impor-se autoproclamados “cientistas da educação”, a maioria dos que aí ensinavam ainda temperavam as teorias pedagógicas com os ensinamentos da sua experiência profissional.

Nos anos noventa do século passado ainda não estavam na moda os rankings educativos de países, regiões ou escolas, e a ninguém passaria pela cabeça fazer reformas educativas ditadas por uns monos da OCDE.

O ensino público era modelo e referência do sistema educativo. As escolas privadas eram procuradas pelos que podiam, geralmente por razões de status, capacidade económica, conveniência de horários, elitismo ou tradição familiar. Mas não pela convicção de que, globalmente, preparassem melhor os seus alunos.

As grandes empresas produtoras de tecnologia educativa ou de conteúdos multimédia não tinham ainda identificado, no sector da Educação, um apetecível nicho de mercado para colocar os seus produtos e moldar as mentalidades das novas gerações de consumidores.

De então para cá, muitas mudanças ocorreram, em Portugal e no mundo, nos sistemas educativos. Mas há uma que importa destacar: os professores deixaram de ser reconhecidos como os especialistas da Educação. Hoje, já nem sequer são ouvidos em muitas das decisões que se tomam, sendo tidos como meros executores, passivos e acríticos, do que outros – políticos, banqueiros, burocratas, empresários, pais endinheirados e pretensiosos – decidem por eles.

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A pirâmide construída por Javier, um professor espanhol que partilha regularmente no Twitter as suas interessantes reflexões, traduz graficamente, de uma forma que me parece especialmente bem conseguida, o funcionamento actual do sistema educativo. Um mundo ao contrário…

Colaborações: ComRegras

No Topo: A cimeira internacional sobre a condição docente

Foi um evento relevante, mas sem grande cobertura mediática. Terá mesmo passado despercebido à grande maioria dos professores, assoberbados, por estes dias, com as avaliações de final de período. E, no entanto, na cimeira que decorreu quinta e sexta-feira no CCB, participaram governantes e sindicalistas de dezasseis países que se destacam pela qualidade dos seus sistemas educativos – e onde também se inclui, presentemente, Portugal – para debater a importância de um elemento essencial da Educação: os professores…

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No Fundo: Um ministro irrelevante

A presença de Tiago Brandão Rodrigues na cimeira sobre a condição docente, ao lado de Mário Nogueira, suscitou variadas reacções, mas não contrariou, antes sublinhou, a realidade incontornável: sem experiência, conhecimento ou pensamento próprios acerca dos temas educativos, o jovem ministro pode ter um ar simpático e ser uma presença agradável. Mas está longe de conseguir liderar efectivamente a sua equipa ou de definir um rumo para a política educativa do governo. Muito menos mobilizar professores e outros agentes educativos. E, pelo andar da carruagem, duvido que alguma vez consiga…