Aprender em casa

ensino-domestico.jpgA escola que temos e aquela que queremos: eis um tema que, sobretudo nesta altura do ano, está quase sempre presente no debate público. E as queixas contra uma escola aborrecida, rotineira, desfasada no tempo, vão subindo de tom.

Mas a contestação manifesta-se com frequência em registos contraditórios. Há quem diga que os alunos aprendem pouco, e as médias baixas de resultados dos exames nacionais do secundário parecem demonstrá-lo. Mas também há quem defenda o contrário, que a escola debita programas demasiado extensos, atafulhando os cérebros dos alunos com conhecimentos que, quase todos, lhes serão inúteis.

A reforma curricular em curso reforça aquilo a que se vem chamando “educação para a cidadania”, enfatizando um conjunto de competências sociais e emocionais que nos garantem ser absolutamente vitais no futuro. Quando tantas famílias abdicam de transmitir regras de convivência, atitudes e valores necessários à vida em sociedade, é difícil não exigir à escola que tenha, cada vez mais, uma intervenção nessa área. Mas esta opção é criticada pelos pais que não prescindem da responsabilidade de educar os próprios filhos e não querem ver a escola a intrometer-se nas competências da família.

No centro da polémica estão, naturalmente, os professores. Pelo que fazem ou deixam de fazer, por não seguirem desde o primeiro momento todas as modas educativas nem correrem desalmadamente atrás de toda e qualquer novidade pedagógica. Por não terem a formação adequada ou, pelo contrário, por estarem demasiado formatados por pedagogias desactualizadas. Por não estarem disponíveis 25 horas por dia para atender as solicitações dos pais, dos directores ou das autoridades educativas. E ainda, e esse parece ser o seu maior pecado, por terem nascido no século XX: estão passados da validade, as crianças e jovens que andam hoje nas escolas são cidadãos digitais nascidos já no século XXI…

Neste vai e vem de críticas e acusações, surgidas de todo o lado – governantes e académicos, empresas e fundações, encarregados de educação e autarcas – há contudo quem não se limite ao papel de treinador de bancada. Ao contrário daqueles que exigem a Lua mas esperam que sejam outros a alcançá-la, há pais e mães que resolveram ser coerentes com a ideia de educação que querem para os filhos. E que, perante uma escola que não corresponde às suas expectativas, optaram por se organizar de forma a proporcionar aos filhos uma educação alternativa no ambiente familiar.

Pense-se o que se pensar da opção destes pais pelo ensino doméstico, numa altura em que o debate educativo parece dominado por oportunistas e demagogos, há algo que deve ser desde logo reconhecido em relação a estes pais que se sacrificam pelo que acreditam ser o melhor para os filhos: merecem respeito!

Evan andou na creche por pouco tempo quando tinha 3 anos. “Ele ficava triste e muitas vezes choramingava. Eu ficava com o coração apertado”, lembra a mãe, Anastasia. Não precisou de muito mais para tomar a decisão de ficar em casa com os filhos e ser responsável pelo seu ensino. “No início os dias pareciam enormes, não sabia o que fazer com eles e achava que tinha de estar sempre a fazer alguma coisa. Mas isso não é verdade. Não temos de estar sempre a fazer coisas e não temos de fazer tudo com eles. Temos de deixá-los explorar a imaginação. E depois eles crescem e tornam-se cada vez mais autónomos.”

Cinco anos depois, Anastasia e Pedro não poderiam estar mais felizes e convictos de que tomaram a decisão certa. O filho do meio, Tristan, tem 5 anos e já leu todos os livros de Harry Potter. Aprendeu a ler sozinho quando ainda não tinha 3 anos, mas a sua verdadeira paixão é a matemática. Evan e Tristan não sabem o que são metas curriculares e nunca fizeram um teste mas sabem fazer pão, falam e leem em português (a língua do pai), russo (a língua da mãe) e inglês, jogam xadrez melhor do que muitos adultos. O irmão mais pequeno, Artur, tem 2 anos e para já parece mais interessado em brincar e pintar.

“O mais importante é que aprendam a pensar”, diz Pedro, que é gestor e é o único na casa que tem horários a cumprir. “Queria que eles não perdessem a curiosidade”, acrescenta Anastasia. “Todas as crianças são curiosas, é uma coisa natural. Nós não temos de fazer nada. É só estar com eles e responder quando nos fazem perguntas. E se não sabemos, procuramos. E ensinamo-los a procurar as respostas.” A palavra ensinar não se aplica aqui. As aprendizagens são feitas à medida dos interesses e das curiosidades de cada um. Com muitos livros (mas não manuais escolares), viagens, brincadeiras, conversas e experiências – essa é a base de tudo. Depois ainda há as atividades “geralmente chamadas extracurriculares”, como a música, as artes marciais, os escuteiros. “E dois dias por semana temos encontros com outras famílias do ensino doméstico. O nosso recorde é oito horas a brincar no parque!”

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Os professores do futuro

super-profRui Gualdino Cardoso, um professor que colabora regularmente com o blogue DeAr Lindo, escreve esta semana no Público sobre um tema importante e sempre oportuno: com as políticas educativas actuais, que professores poderemos vir a ter futuramente?

A fraca atractividade da profissão docente já não é de agora, mas os resultados da primeira fase de colocações no ensino superior, com quase metade das vagas nos cursos de Educação por ocupar, demonstram que a falta de professores, há muito um problema crónico em alguns países europeus, poderá vir a ser também, em breve, uma realidade portuguesa.

Mas o que aconteceu nestes países para chegarem a este ponto? Não é necessário procurar muito para se encontrar uma razão. A falta de investimento na área de educação, a falta de condições de trabalho, os baixos salários em relação a outras carreiras semelhantes, a instabilidade ao nível de colocação e familiar que esta profissão acarreta, a desautorização do papel do professor enquanto educador, o crescente desrespeito do papel do professor na sociedade, estão entre muitas outras razões para estes cenários.

Lá fora é assim, por cá também é, e será, como lá.

Dentro de poucos anos, o cenário nas escolas portuguesas será semelhante aos países acima mencionados. Com a falta de candidatos a professores que hoje se verifica e com a eminente saída para a aposentação de milhares de professores nos próximos anos, o sistema de ensino, inevitavelmente, entrará em rutura por falta de profissionais.

Nessa altura, restar-nos-á o exemplo do que está a acontecer em alguns municípios do Reino Unido, com professores de Educação Física, formados em Portugal, a lecionar Matemática e Ciências, por na sua formação base terem uma ou duas cadeiras sobre essas matérias. Serão estes os professores do futuro?

Por cá, quem planeia e decide as políticas educativas tem preferido enterrar a cabeça na areia em vez de enfrentar um problema que é real, e que não desaparece pelo facto de ser ignorado. Faz-se por acreditar em estudos que apostam num decréscimo da natalidade ainda maior nos próximos anos, ou nas virtualidades dos mega-agrupamentos, das turmas grandes e da escola dita inclusiva para reduzir as necessidades futuras de professores.

Ou então, alternativa que me custa aceitar, acreditam mesmo naquelas ideias que nos têm andado a impingir: que os alunos do futuro aprenderão sozinhos, navegando autonomamente pelas auto-estradas do conhecimento e precisando apenas, de quando em vez, de um professor que, qual polícia sinaleiro, os ajude a resolver acidentes de percurso ou evitar os caminhos sinuosos.

Uma coisa parece evidente: a aposta nas flexibilidades e nas transversalidades curriculares é coerente com uma concepção de escola em que o professor já não precisa de ser um especialista daquilo que ensina. Se já não ensina nada, porque “a dar aulas ninguém aprende” então a formação e o recrutamento dos futuros “facilitadores de aprendizagens” podem ser bem menos exigentes do que são actualmente. E se os novos profissionais forem menos qualificados, tanto melhor – serão mais fáceis de domesticar pelas autoridades educativas e sairão certamente mais baratos.

Claro que paralelamente a esta escola low-cost destinada às massas, continuará a haver lugar para projectos educativos de qualidade e diferenciadores, destinados aos filhos das elites. Será o regresso à velha escola reprodutora das desigualdades o verdadeiro desígnio educativo do século XXI?…

Quem são os especialistas da Educação?

Os académicos que nunca deram uma aula fora da universidade?

Os burocratas ministeriais, enfiados nos seus gabinetes?

Os políticos em trânsito pelo Ministério da Educação?

Os psis, que atendem uma criança de cada vez?

Porque é tão difícil entender que os especialistas em Educação são os professores?

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Bons professores, bons programas, disciplina

inger.JPGA Suécia tem sido associada a uma certa vanguarda educativa que por cá, com flexibilidades, transversalidades e autonomias, se pretende obrigar escolas, professores e alunos, a acompanhar.

Mas não é nada disto que defende a professora Inger Enkvist, adepta de valores e práticas pedagógicas que o ensino centrado no aluno e o “aprender a aprender” colocaram fora de moda.

Uma política educativa de direita, portanto? Lendo a entrevista ao Público, parece-me que as ideias da professora sueca pendem mais para esse lado do espectro político. Embora registe, e até certo ponto subscreva, a preocupação em superar o confronto esquerda/direita no debate sobre Educação.

Há duas ideologias por detrás da ideia de que todos devem ter uma atenção pessoal, uma de direita e outra de esquerda. A de esquerda diz que todos somos iguais e quem não é precisa de ajuda para se tornar igual. A de direita diz que todos têm direito a atenção, direito à escolha, a ser um agente livre para fazer o que quer.

Ambas estão erradas! Não funcionam e não são do interesse do estudante, do país ou da aprendizagem. Mas são muito comuns e apresentadas como algo moderno. A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade.

Há uma ideia importante que apoio inteiramente e que nunca é de mais sublinhar nestes tempos que que se mitifica o ensino à medida de cada aluno, a aprendizagem instantânea no google ou no youtube e o ensino doméstico: a escola é uma das grandes invenções da humanidade, pois permite ensinar eficazmente muitos estudantes ao mesmo tempo, juntando grupos de alunos com capacidades e interesses semelhantes com professores que possuem os conhecimentos e as competências necessários para os fazer aprender.

Claro que a educação é para os estudantes, mas nada nos diz que é melhor ter um plano personalizado para cada um. Pelo contrário, o ensino funciona nos países onde os professores trabalham com grupos com as mesmas necessidades. É mais fácil que estes aprendam ao mesmo tempo. Essa ideia do aluno no centro leva a que seja precisa muita ajuda na escola e os recursos são mal usados. Se pensarmos em dinheiro, é mais económico aprender num grupo semelhante.

Ao longo da História, as alternativas à escola foram apenas três: o analfabetismo quase generalizado, o sistema corporativo dos mestres e aprendizes que qualificava os artesãos dos principais ofícios e o ensino doméstico, com preceptores ou professores particulares, acessível apenas aos filhos dos fidalgos e da alta burguesia. A escola como hoje a temos, universal, gratuita e obrigatória, é uma conquista civilizacional demasiado importante para a deixarmos destruir em nome de modas irracionais ou, pior do que isso, da agenda oculta das organizações internacionais e das fundações empresariais que promovem a “inovação educacional”.

Inger Enkvist defende o reforço da autoridade dos professores – as crianças, e a própria escola, precisam de regras para poderem funcionar e para que efectivamente se ensine e aprenda. É certo que a educação de base deve ser dada em casa, pelos pais. Mas quando estes não desempenharam bem o seu papel, é a escola que deve reforçar, logo nos primeiros anos de escolaridade, o seu papel educativo.

Alguns não têm ajuda em casa? São esses que precisam mais do que os outros de aprender correctamente a comportarem-se. No 1.º ano, a professora é quem abre o mundo do conhecimento às crianças, ao mesmo tempo que mostra como funciona a escola. Precisa de dizer-lhes: “É assim que se aprende e aprender é entusiasmante e transformador, vai mudar-te, vai tornar-te um adulto, mas há regras às quais tens de obedecer.”

Um ensino laxista, a falta de regras, o desrespeito pela autoridade e pela figura do professor, trazem outro problema: quando assim é, ninguém quer ser professor, tornando-se difícil atrair bons profissionais para a profissão docente…

Isso é importante porque os bons alunos querem ser professores – também é verdade para os educadores de infância e para os professores de 1.º ciclo. Se as crianças aos 4, 5, 6 anos tiverem bons educadores, inteligentes e preparados, arrancam bem, conseguem aprender bem a língua e ganham bons hábitos sobre como comportar-se na sala de aula. É mais divertido para um aluno estar com um professor inteligente que torna a aprendizagem divertida – este é um dos segredos do sucesso da Finlândia.

É um problema também noutros países que, em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, então, ninguém quererá ser professor.

Os pontos mais polémicos deste programa educativo: a aceitação de que se aprende melhor em grupos homogéneos e a defesa, consequentemente, da formação de grupos de nível e, paralelamente, a introdução de vias alternativas de ensino a partir dos doze anos.

Fala-se muito de discriminação, mas se você tivesse sido professora veria nos olhos dos alunos a ansiedade ou o aborrecimento porque não conseguem gerir o conhecimento que o professor está a transmitir. O que acontece a esses alunos é que se limitam a sobreviver na escola, na esperança de que um dia aquilo termine e sejam livres. Outros ficam tão aborrecidos que começam a fazer disparates porque não acham que o conhecimento seja importante. Na adolescência, diria que submeter os alunos a isso é um mau trato psicológico.

…aos 12 anos é preciso dar escolha aos alunos porque é impossível estarem todos interessados nas mesmas coisas e, ao desinteressarem-se, tornam o trabalho dos professores impossível.

Quanto ao problema da precocidade das escolhas, Inger tem uma posição clara: não podem ser os pais, muitas vezes com percepções irrealistas acerca do desempenho escolar dos filhos, nem os próprios alunos, a tomar este tipo de decisões: deve confiar-se nos professores que os acompanham e percebem melhor do que ninguém o que poderá ser mais adequado.

Finalmente, os telemóveis. O que pensa a professora sueca sobre a omnipresença destes aparelhos e a ideia de que podem substituir, não só o ensino dos professores, como a própria actividade intelectual dos alunos?

Isso é errado, errado, errado. Porque a nossa biologia não mudou e aprender é sobre mudar o nosso cérebro e se não o fizermos, então não aprendemos. A tecnologia é limitada, eles podem dizer muita coisa com o smartphone na mão, mas se lho tirarmos não sabem nada. É como se fosse uma prótese.

Quanto aos pais que não resistem a manter os filhos equipados com o gadget da última moda…

…os pais dão tudo e não têm a coragem de dizer “não”. Muitos não estão preparados e não compreendem como é importante dizer “não” a alguém de quem gostam.

Porque queremos ser amados pelos nossos filhos e também porque, no caso dos ecrãs, pensamos que não é muito tempo e, por isso, não faz mal. Mas isso é errado porque através dos ecrãs as crianças não recebem todos os estímulos necessários para aprender e com o nosso dinheiro estamos a empobrecê-los.

Outra vez o pacto educativo

pactoCriou-se um novo regime, dito de inclusão, para os alunos com necessidades especiais que, na realidade, vai permitir poupar recursos e reduzir despesa com estes alunos. Fez-se orelhas moucas aos múltiplos alertas, críticas e contributos dos especialistas, sobretudo dos que, trabalhando no terreno, mais depressa perceberam o logro desta falsa inclusão.

Impôs-se, a coberto da flexibilidade curricular e de uma falsa autonomia das escolas, uma revisão curricular encapotada que consolida a menorização das humanidades e das artes no currículo do básico e do secundário ao mesmo tempo que introduz uma complexidade desnecessária e contraproducente no desenvolvimento curricular.

Consolida-se assim uma organização escolar complicada e burocratizada, continuando a desgastar os docentes com tarefas extra-lectivas e a invadir a sua componente de trabalho individual com actividades que envolvem o acompanhamento, a leccionação e a avaliação de alunos.

Mantêm-se os professores à rédea curta, manietados por um regime de gestão escolar assente no poder unipessoal dos directores e nos mega-agrupamentos. Recupera-se, com o descongelamento de carreiras, o modelo de avaliação selectivo, burocrático e punitivo que é mais um instrumento de embaratecimento e domesticação da classe docente.

Falta apenas anular as veleidades dos profissionais docentes em relação à contagem do tempo de serviço congelado, fazendo-os aceitar uma recuperação simbólica de uma pequena parte desse tempo em vez dos 9 anos, 4 meses e 2 dias a que teriam direito.

Publicados os decretos que interessavam ao governo e postos os professores no lugar que lhes compete, está por isso na altura de voltar a falar de pactos educativos…

Em quatro décadas de democracia, é difícil descortinar um ano que não tenha conhecido instabilidade nas escolas. Entre governos, partidos, sindicatos e outras corporações, se algo tem sido prejudicial no nosso país é o ziguezague das diferentes políticas, mais tentadas a impor um modelo ou agenda próprios que orientar a atividade educativa durante largos períodos de tempo, muito mais dilatados que os ciclos eleitorais. E, entretanto, a “instrução pública” continua doente, reproduz desigualdades sociais, assimetrias regionais.

É urgente um pacto nacional pela educação. Uma reforma não deve estar sujeita a mudanças drásticas, embora deva acompanhar a evolução social e tecnológica. Um grande acordo na área educativa, que envolva todos os parceiros, deveria garantir estabilidade e ter em conta que as famílias e o contexto socioeconómico são elementos essenciais do sistema. Mas é indispensável resgatar o ânimo e o orgulho dos professores, cada vez com mais responsabilidades e menos apoio das famílias, num tempo em que a função do Estado é também assegurar-lhes formação, treino, experiência e metodologia adequados. Sem esquecer, claro, a exigência de contrapartidas em avaliação. Um pacto nacional pela educação tem de valorizar a função docente e aqueles a quem, durante muitas horas, confiamos os nossos filhos.

A melhor vitória

tabarezSobre os méritos e deméritos das selecções de futebol de Portugal e do Uruguai, que se defrontaram há pouco, remeto para os entendidos nas questões da bola.

Espectador nem sempre suficientemente atento dos grandes jogo e pouco conhecedor das vicissitudes e dos meandros do futebol, poderei ter umas ideias, mas não sei ajuizar, em definitivo, acerca da justeza do resultado do jogo que há pouco terminou.

Mas há uma coisa que sei e valorizo: a equipa do Uruguai tem um treinador exemplar na capacidade que tem de aproveitar a visibilidade do cargo para falar, não apenas de vitórias no futebol, mas também de outros triunfos que deseja para o seu país. Por exemplo, na Educação.

Oscar Tabárez relembra uma promessa esquecida feita aos uruguaios, a de elevar a despesa pública em Educação a 6% do PIB. Porque é nas escolas de todo o país, e não nos estádios onde se disputa o Mundial, que verdadeiramente se joga o futuro das novas gerações. E nota que de nada lhes serve serem campeões na Rússia, se a maioria dos jovens não sabem sequer onde fica este país. Ou não percebem porque há, na selecção francesa, tantos jogadores nascidos em África ou filhos de africanos.

Independentemente de quão longe consiga chegar a sua selecção neste campeonato, o seleccionador uruguaio já marcou pontos importantes no debate social e político do seu próprio país. Um exemplo a assinalar, numa época em que o futebol continua a ser usado, demasiadas vezes, para alinear o povo, desviando a atenção dos cidadãos dos assuntos verdadeiramente importantes.

Fica a transcrição parcial da carta que Oscar Tabárez dirigiu aos professores uruguaios.

Queridos compatriotas,  encontramo-nos num momento decisivo para o país, para os nossos jovens e o nosso futuro. Nestes dias vamos jogar uma das partidas mais importantes. É necessário o apoio e a solidariedade de cada um dos uruguaios.

Este Junho, não é um Junho qualquer. Neste mês jogamos o futuro dos nossos jovens. É a oportunidade para cumprir o prometido, e marcar o golo mais importante: dar aos nossos jovens melhores condições para estudar, pôr a educação pública nas melhores ligas dos rankings internacionais. É o momento de cumprir o prometido e chegar aos 6% do PIB para a Educação Pública.

Como Professor sei o esforço, dedicação e compromisso que cada docente emprega nas suas aulas, nesse campo onde é tão difícil jogar. Nesse campo os rivais e as dificuldades são enormes. A má alimentação dos estudantes, a falta de estímulos e motivação, a falta de materiais didácticos para trabalhar, as dificuldades de aprendizagem, a sobrelotação e acima de tudo a falta de reconhecimento por este trabalho tão importante para construir uma sociedade melhor.

De nada serve sermos campeões do mundo se os nossos jovens não sabem onde fica a Rússia, ou porque há, na selecção francesa, tantos jogadores nascidos em África ou com pais africanos. De nada serve sermos campeões se não transmitirmos aos nossos jovens que valorizamos o que eles fazem e acreditamos que terão um futuro esperançoso. Temos a responsabilidade e a obrigação de dizer a todos os jovens e crianças  do Uruguai que acreditamos neles e que vale a pena apostar no seu futuro, e que se for necessário fazer mais esforços para lhes darmos o que merecem o iremos fazer.

Uma fraternal e respeitosa saudação a todos os docentes do Uruguai.

Oscar Washington Tabárez

A luta dos professores vista pela Direita

apaga-a-luz.JPGO homem é inqualificável, na arrogância presunçosa que ostenta, própria de quem acha que vive numa galáxia superior, muito acima do mundo chão dos professorzecos. Padece, como agora se diz, de excesso de auto-estima.

O discurso tenta ser provocatório, mas exprime sobretudo boçalidade e ignorância atrevida, pelo que não é digno de qualquer tentativa de contraditório. Nem merecem sequer, ele e quem o contrata para o pseudo-debate, qualquer tipo de divulgação ou publicidade.

No entanto, é importante questionar se compete à televisão pública gastar o dinheiro dos contribuintes pagando a comentadores que fazem gala de exibir a ignorância e o preconceito falando de assuntos de que, manifestamente, nada sabem. Pois uma coisa é confrontar diferentes ideias e pontos de vista, contribuindo para o debate público que é próprio das sociedades democráticas. Outra é dar palco ao exibicionismo de betinhos da direita gira, arrogantes e contentes consigo próprios, que se acham engraçados e acutilantes por atirarem irresponsavelmente umas bojardas sobre assuntos que estão para além do seu parco entendimento.

Mas o discurso anti-professores deste e de outros avençados tem, apesar de tudo, uma utilidade indesmentível: clarifica o pensamento da direita sobre a profissão docente. Quando a relação dos professores com o actual governo se degrada de dia para dia e se evidenciam os limites e contradições da geringonça em matéria educativa, pensar em possíveis vantagens de uma mudança política é, para muitos professores, uma tentação quase inevitável. Então, para percebermos o que poderemos esperar do PSD quando ele se abeirar de novo do poder, nada melhor do que dar a palavra aos betinhos desta direita folclórica e “radical”. Que nos dizem, sem papas na língua, aquilo que todos os outros também pensam, mas não se atrevem a dizer publicamente.

Os professores têm um trabalho como outro qualquer, não é uma profissão desgastante. Esse conceito só se aplica, por exemplo, aos mineiros que vão trabalhar longas horas para uma gruta debaixo da terra.

Não há problema algum em trabalhar com turmas numerosas ou em condições difíceis, pois supostamente todos os professores foram para a profissão por vocação. Estão a fazer o que gostam, portanto não se queixem.

Em vez de andarem sempre a protestar em defesa dos seus direitos, da sua carreira e das suas progressões, deviam manifestar-se, isso sim, em defesa dos seus alunos.

Os professores também não deveriam reclamar das colocações a centenas de quilómetros de casa porque se os concursos se fazem desta forma é porque eles próprios defenderam este modelo de colocações e para dar emprego a mais professores.

Finalmente, supra-sumo da demagogia, esta tirada absolutamente esmagadora: o Estado gasta mais de metade do orçamento da Educação com os professores, quando o deveria gastar com os alunos.

E, por último, a confissão… Fui acusado de não perceber nada de educação – e é verdade. E não quero perceber. Mas fui a uma coisa gira que é a Pordata e trouxe de lá uns números engraçados para provar aqui umas ideias…