Deixem-nos ser professores, pá!

carmo-machado.JPGO desabafo é de Carmo Machado, uma professora de Português que, tal como a generalidade dos seus colegas, desespera com a quantidade absurda de burocracia escolar que nesta altura do ano se acumula nos emails, nos computadores e nas mesas de trabalho dos professores. E quem, além de dar aulas, tem também a desdita de ser director de turma, é certo e sabido que apanha com dose reforçada…

Dirigindo-se tanto às elites ministeriais que decretam a produção de papelada como aos que, nas escolas, transformam os decretos e os despachos em grelhas e relatórios para todos os gostos e de todos os feitios, a nossa colega faz uma pergunta sensata: em vez do “entulho” inútil que se produz nas escolas, não poderia simplesmente registar-se, na acta da reunião, tudo aquilo que se fez e decidiu?

E deixa, a terminar a habitual crónica na Visão, um repto pertinente: perdendo-se tanto tempo a preencher montes de papelada que ninguém irá ler, porque não libertar os professores deste trabalho inútil, dando-lhes mais tempo para se dedicarem aos seus alunos e aos verdadeiros problemas e desafios que o quotidiano docente já lhes coloca?

Estarão, vossas excelências, na posse da absoluta certeza de que é mesmo necessário também o anexo à ata? O relatório de turma e o anexo ao mesmo? O relatório das visitas de estudo? O plano de turma? E a ficha de alunos indicados para apoio? E a ficha de referenciação com a sua ficha anexa? E a ficha individual de transição? A ficha de identificação de necessidade e medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão? E o relatório técnico-pedagógico?

Não tenho a certeza. Sei, porém, que se acrescentarmos a estes documentos os outros que são obrigatórios das nossas disciplinas de lecionação, estamos perante um menu recheado de papel que no final de cada ano transformará em entulho. Sim, os resíduos resultantes da construção e demolição de mais um ano letivo serão enfiados – durante horas – em envelopes que mais ninguém abrirá e cujo destino será um qualquer arquivo morto com o qual os muitos ratos que habitam algumas escolas se irão certamente deliciar.

Por isso, peço-vos: (i) controlem, por favor, a propagação desta doença – grelhice crónica, como alguém já lhe chamou – e deixem ficar apenas as atas que ainda elaboro com tanto afinco, possuída pela esperança dos otimistas de que alguém as lerá; (ii) partam das reflexões, desabafos e preocupações que os professores nelas registam para os ajudarem a encontrar soluções para os muitos problemas que lá surgem; iii) usem-nas para, nas intermináveis horas de reuniões de conselho pedagógico (gastas a aprovar grelhas e fichas e afins que em nada acrescentam à qualidade do ensino) decidirem – com medidas efetivas – sobre os graves problemas que afetam diariamente a nossa prática letiva: a indisciplina, a desmotivação e a preocupante falta de inovação.

Porque é na aula que tudo acontece, não no papel, reconheço cada vez mais um cariz patético neste excesso de burocratização em que vivemos dentro da escola pública. Deixem-nos ser professores, pá!

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Reuniões de avaliação, dia 1

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Não sei se será preciso mandar umas fumaças, como sugere o cartoon do sempre inspirado Paulo Serra, ou se será necessária uma sessão prévia do mindfulness agora tão em voga nalgumas escolas…

Mas há uma enorme irracionalidade nesta obsessão de transformar as reuniões de avaliação em sessões de produção e verificação de papelada.

Uma azáfama que começa muitos dias antes, com os directores de turma a recolher todo o tipo de informações – relatórios, justificações, participações, monitorizações – e quase sempre se prolonga por mais umas horas, depois da reunião terminada – é preciso conferir pautas e registos, finalizar a acta, imprimir documentos…

Continuamos presos – ou melhor, querem-nos prender – à ideia de que transformamos a realidade, não através da acção, mas escrevendo sobre ela. Perante a falta de meios para construirmos a escola que realmente queremos, criamos no papel a escola virtual onde tudo funciona às mil maravilhas…

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Final de período

Julgo que nunca como agora o primeiro período foi sentido como uma verdadeira maratona de resistência por um número cada vez maior de professores. Cansados e desgastados, muitos docentes sentem-se desmotivados e desmoralizados justamente por quem teria a obrigação de os motivar e de criar condições para poderem fazer bem o seu trabalho: as direcções escolares e,acima de tudo, o Ministério da Educação…

No Fundo: O 54, o 55 e os outros

Se chegar incólume ao final do período lectivo não foi fácil, há uma provação final que falta ainda superar: as reuniões de avaliação. Não pelo acto de avaliar os alunos, algo que é intrínseco e natural na profissão de professor, mas pela quantidade de burocracia que se vai acumulando em torno de processo avaliativo. Este ano, com a entrada em vigor de nova legislação, tudo se está a complicar ainda mais…

Preparar as avaliações

Professor no interior do país a gastar dos dados pessoais, velocidade quase zero, a analisar o 54 para não resultar num 31.

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Mais um inspirado cartoon do nosso colega Paulo Serra.

De bicicleta para a escola – mas sem seguro

bicicleta.gifAndar de bicicleta faz bem à saúde, é económico e, em pequenos percursos, acabar por ser muitas vezes também a forma mais rápida e prática de deslocação. Num esforço louvável, até porque nem sempre com resultados imediatos, Governo e autarquias vêm fazendo investimentos significativos em vias cicláveis.

Claro que a escola, lugar onde se aprendem e moldam comportamentos saudáveis e ambientalmente sustentáveis, não deve ficar fora deste esforço colectivo. Sobretudo naquelas zonas do país onde o hábito de ir de bicicleta para a escola sempre existiu – basta incentivá-lo, melhorando as condições de conforto e a segurança dos jovens ciclistas.

Tudo isto parece simples e evidente, mas há um problema: quando um aluno vai de bicicleta para a escola, o seguro escolar não cobre eventuais acidentes, como sucede quando viaja a pé, no carro familiar ou no autocarro escolar. É a estupidez burocrática do nosso sistema educativo, que é tão boa a inventar problemas onde eles não existem, como a protelar a resolução dos problemas reais. Confrontados pelos jornalistas, a resposta lacónica dos responsáveis do ME não surpreende: estão, claro, a avaliar o assunto…

Em Setembro, o Governo anunciou que iria investir 300 milhões de euros em quase mil novos quilómetros de ciclovias mas a medida pode ficar a meio caminho. A Federação Portuguesa de Ciclismo alerta que o seguro escolar não cobre as deslocações feitas para a escola em bicicleta e que os alunos vão para a escola desprotegidos. Ministério da Educação reconhece que o “assunto está em avaliação”.

De acordo com dados do órgão recolhidos em 75 agrupamentos e divulgados este domingo no Jornal de Notícias, 1983 alunos praticam ciclismo de montanha ou BTT em escolas públicas. A actividade está coberta pelo seguro escolar, bem como no transporte de carro ou transportes públicos para a escola mas não se a criança utilizar a bicicleta para se deslocar até à escola.

A portaria que regula o seguro escolar é datada de 1999 e exclui apenas as deslocações em “velocípedes com ou sem motor”. No programa “Portugal Ciclável 2030”, o Governo prometeu construir 960 quilómetros ao longo dos próximos 12 anos de maneira a incentivar o uso da bicicleta nas deslocações diárias.

Ao contrário do aparelho ministerial, que tem no controle burocrático da Educação um modo de vida, nas escolas trabalha-se para dar resposta aos problemas e necessidades existentes. Como ilustração oportuna, fica outra notícia do fim de semana que também se enquadra no tema deste post…

A Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, em Ílhavo, tem uma oficina de bicicletas a funcionar dentro do estabelecimento. É gerida pelos alunos, que reconstroem bicicletas antigas e reparam as dos colegas. A oficina foi uma resposta a uma necessidade, já que todos os dias mais de de 300 alunos vão de bicicleta para a escola.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: A greve ao serviço extraordinário

Começou esta semana, sem grande alarido, aquela que poderá ser a greve mais prolongada de sempre dos professores. Sem interferir com as aulas, ela abrange o serviço lectivo que por vezes é abusivamente marcado na componente não lectiva dos professores. Afecta também as reuniões e acções de formação convocadas para além do horário não lectivo dos professores…

No Fundo: Um Orçamento sem ambição

Não se pode dizer que o Orçamento de Estado para 2019, esta semana aprovado na generalidade, não tenha aspectos positivos na área da Educação. A gratuitidade dos manuais escolares em todos os anos de escolaridade, as progressões na carreira de que alguns professores continuarão a beneficiar, o reforço da educação de adultos, a redução das propinas no ensino superior: o OE 2019 contempla tudo isto. E, no entanto, ainda não é desta que a Educação é assumida como a prioridade que deveria ser.

Dão-lhes jeito estas certezas…

certezas.JPGtenho a certeza de que os docentes do nosso país, as comunidades educativas, farão tudo para cumprir integralmente os seus projetos pedagógicos. Essa é a certeza que temos e as reivindicações sindicais são naturais, são como disse legítimas, porque fazem parte dos anseios desses docentes.

Quem assim falou foi o ministro da Educação, seguindo uma linha de raciocínio muito cara a todos os dirigentes do ME: nós cortamos nos vossos salários, anulamos as vossas perspectivas de progressão na carreira, limitamos a vossa autonomia profissional e tornamo-vos escravos dos nossos projectos. Em contrapartida, vocês continuam a dedicar-se de corpo e alma aos vossos alunos e aos “projectos pedagógicos” das vossas escolas porque o vosso profissionalismo não vos permitirá outra coisa.

Sucede que a pseudo-reforma educativa em curso não só está longe de consensualizada entre os professores a quem foi imposta, como implica, para a sua execução plena, aumentar ainda mais o tempo de trabalho não lectivo dos docentes. O que colide com uma das principais reivindicações dos professores, que é justamente o excesso de trabalho burocrático e extra-lectivo, não reconhecido nem remunerado, que lhes é imposto todos os anos.

Os professores já perdiam demasiado tempo a elaborar projectos, planificações, relatórios e actas e a participar reuniões em supostamente pedagógicas, mas que na prática servem acima de tudo para alimentar uma máquina de produção de documentos que raramente servem para outro fim que não o arquivamento. E quem pensava que a introdução das TIC viria simplificar o uso da documentação, mais tarde ou mais cedo teve de se render às evidências: a facilidade com que hoje se redige no computador ou, ainda mais fácil, se vai copiando de um lado para o outro o que alguém escreveu, apenas levou à multiplicação irracional da papelada, agora em formato digital.

Pelo que a questão que agora se coloca é saber se os professores portugueses vão continuar a desperdiçar o seu próprio tempo, e por vezes até aquele que deveriam dedicar aos seus alunos, a projectos pedagógicos cuja única utilidade, até agora demonstrada, é satisfazer a teimosia e a vaidade pessoal dos seus mentores.

Serão coerentes os professores portugueses que, ao mesmo tempo que lutam contra os abusos nos horários e a sobrecarga de trabalho, aceitem a marcação de sucessivas reuniões que excedem em muito o tempo semanal legalmente previsto? Que se ofereçam para sacrificar o seu tempo livre a elaborar DACs? A reavaliar alunos com necessidades especiais, porque alguém decidiu que, como estava, não servia? A redigir todo o tipo de documentos que cada escola, no âmbito da sua nova “autonomia”, decida inventar?

Pela parte que me toca, a regra será o cumprimento escrupuloso do horário de trabalho e dos tempos destinados a cada actividade, lectiva ou não lectiva. O que não se fizer hoje, faz-se amanhã. O que não se consegue fazer, por falta de tempo ou de meios, não se faz.

É tempo de os professores portugueses, mais do que exigirem respeito, darem-se ao respeito.