Sucesso recorde nos exames de 2020

hauling_arrow_up_graph_anim_md_wm-Green-Done[1]Houve mais 7.064 alunos que se submeteram a exames nacionais este ano a terem as notas mais elevadas (20 e 19 valores) do que no ano anterior. Os dados do Júri Nacional de Exames, analisados na edição desta quarta-feira do jornal Público, mostram que são mais de 15 mil os alunos que registaram notas de 19 e 20, comparados com os 8.486 do ano passado.

Parece estar descoberto o ovo de Colombo dos exames nacionais, recorrentemente marcados pelo estigma dos resultados inferiores ao esperado. Se as médias dos exames permanecem sistematicamente abaixo das classificações internas, isso pode ter vários significados: ou os alunos portugueses são fracos, ou os professores sobreavaliam as suas capacidades ou, não se verificando nada disso, então é a avaliação externa que se mostra incompetente para aferir com rigor os reais conhecimentos e capacidades dos estudantes portugueses.

Em qualquer caso, a solução das questões opcionais que foi encontrada para a realização de exames no contexto da pandemia conduziu, como muitos de nós prevíramos, a uma subida dos resultados que agora o Júri Nacional de Exames vem agora, estatisticamente, confirmar.

Aparentemente, todos ficam satisfeitos. Os alunos e as suas famílias, por razões mais do que óbvias. Os professores, porque vêem os seus alunos brilhar. E até o Governo recolhe daqui a evidência de que tomou, em circunstâncias difíceis, as decisões mais acertadas para promover o sucesso educativo.

As nuvens negras neste cenário animador surgirão em breve, quando se verificar que, nos cursos superiores de acesso mais competitivo, as médias de entrada irão também acompanhar a subida das notas dos exames. E em cima do festejado sucesso choverão, por certo, alguns baldes de água fria.

Claro que, nesta altura do campeonato, quase ninguém pensa nisso. E já se anuncia que o venturoso modelo dos exames deste ano é para repetir no próximo…

Os exames nacionais do ensino secundário deverão em 2021 repetir a estrutura adoptada este ano com o objectivo de “mitigar” os efeitos da pandemia de covid-19 nos resultados dos alunos.

Tal como se esperava!

hauling_arrow_up_graph_anim_md_wm-Green-Done[1]As notas da 1.ª fase dos exames nacionais do ensino secundário melhoraram em praticamente todas as matérias. As médias sobem até 3,3 valores em disciplinas como Biologia e Geologia, a prova que teve mais inscritos neste ano, ou Geografia A. Também Física e Química (mais 2,2 valores na média) e Matemática A (mais 1,8) têm resultados bastante superiores ao habitual nos anos anteriores. Apenas a Português a média tem uma variação mais próximo do que é habitual, crescendo 0,2 valores.

Claro que esta ilusão com as notas altas não passará disso mesmo, quando os estudantes que delas necessitam verificarem que as médias de entrada nos cursos universitários mais procurados irão subir na mesma proporção.

As notas inflacionadas deste ano eram previsíveis, tanto na avaliação interna como nos exames nacionais – antecipei o fenómeno neste post e analisei-o também aqui.

O assunto traz, naturalmente, pano para mangas, e a discussão durará pelo menos até à saída dos resultados das candidaturas ao ensino superior.

Para já, deixemos a opinião pública digerir o aparente paradoxo de, no ano em que supostamente, e devido ao confinamento, se terá aprendido menos, os resultados escolares no secundário serem os melhores de sempre.

Arejamento obrigatório

Antes de classificar, arejar…

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Mais um inspirado cartoon do nosso colega Paulo Serra.

Exames mais fáceis!

exames _faceisEsqueçam as teorias da treta – flexibilidades, cidadanias, pensamentos críticos, autonomias, competências, aprendizagens significativas, inclusões, desenho universal do currículo. Na hora da verdade a receita do sucesso resume-se, agora e sempre, numa palavra: facilitismo. E isso torna-se bem visível nesta primeira fase de exames nacionais.

Agora o problema já não está nos professores que “inflacionam as notas” e a quem se atira com os inspectores às canelas ou se ameaça, como fez o ministro Tiago, com processos disciplinares. Basta consultar o site do IAVE e analisar, por exemplo, a prova de Filosofia, para perceber claramente que a ordem, este ano, foi para facilitar.

O ME teme que os professores valorizem excessivamente o trabalho e as aprendizagens que os alunos, mesmo em tempo de pandemia, foram capazes de realizar. Mas se a inflação das notas acontecer nos exames, sobretudo naquelas disciplinas que ganharam fama de ser “difíceis”, então tudo estará, aparentemente, bem.

É verdade que o exame de Filosofia teve, no ano passado, fracos resultados, e isso fez soar alguns alarmes: más notas a Matemática ou a Física, ainda vá. Queremos médicos, engenheiros e cientistas competentes, pelo que a exigência nos exames nestas disciplinas serve, acima de tudo, para manter selectivo e competitivo o acesso aos cursos superiores mais prestigiados. Agora a Filosofia?…

Quando se fala do declínio das Humanidades, é importante perceber que ele começa ao não se valorizar e investir nas disciplinas desta área. A maioria dos alunos mostra dificuldades em interpretar, reflectir, dominar e aplicar conceitos, argumentar? Vamos levar a sério a prosa eduquesa do Perfil dos Alunos e fazer alguma coisa para melhorar isto? Claro que não, basta fazemos exames mais fáceis, onde responder acertadamente às questões de escolha múltipla é suficiente para garantir a aprovação.

Tomei o exame de Filosofia como exemplo, mas a tendência para o facilitismo parece-me estar a ser transversal a todas as provas. E começa no carácter opcional da maioria das perguntas, uma opção para a qual, quando se analisam as provas, não se encontra qualquer sentido.

No exame de História-A, que também costuma integrar o top dos mais difíceis, encontro diversas questões que poderiam, sem grandes dificuldades, ser acertadamente respondidas por alunos medianos do 3.º ciclo.

Já se sabia que iríamos ter exames-buffet, com os alunos a escolher ao que querem responder ou, caso estejam indecisos, a responder a tudo e esperar que o sistema escolha as melhores respostas. Confirmámos agora que a falta de coragem política para suspender a sua realização teve uma contrapartida: potenciar melhores resultados aos alunos que os realizarem.

Exame online feito pelo explicador

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A partir de maio, na mesma altura em que as instituições começaram a regressar lentamente ao ritmo do ensino presencial, com aval para reabrir portas às aulas práticas, “não sendo todos os dias, praticamente todos os dias me contactaram para isto”. Sempre por telemóvel, através de uma chamada ou de uma mensagem, inicialmente apenas para estudar o terreno. “Perguntavam se dava explicações, mas quando começava a explicar melhor em que consistia, eles caíam em si e diziam mesmo: ‘Não era bem explicações que queria, mas ter um professor a ajudar-me a resolver o teste na hora’.” Quem o conta é Maxime Ventura, 34 anos, dono de um centro de explicações no centro da cidade do Porto.

[…] “Muitas faculdades estão a fazer os exames online e não custa nada ter alguém ao lado que diga para fazer de uma determinada maneira. Temos um professor que tem recebido uma quantidade de propostas inacreditável”, conta. Trata-se de Hélder Souza, professor universitário, que não tem dúvidas de que o fenómeno esteja a alastrar: “Se aquilo de que tenho conhecimento for uma amostra estatística representativa, então estamos perante um fenómeno de grande escala.”

Como responsável pelo centro, foram já várias as histórias que Leonor teve a oportunidade de ouvir. Uma mãe “muito aflita, porque o filho tinha reprovado, foi muito honesto e fez o que sabia, mas os colegas que tiveram ajuda de explicadores conseguiram passar”. Outra, uma aluna de Direito, que “disse pagar o que fosse preciso” para que fizessem o exame por si.

Há um moderado cepticismo que não consigo evitar quando ouço colegas a afirmar, convencidos, que conseguem avaliar os conhecimentos dos alunos, em regime não presencial, com o mesmo rigor e isenção com que o fariam na sala de aula.

A verdade é que, mesmo no básico e no secundário, abundam os trabalhos copiados ou feitos por terceiros. Na faculdade, onde as exigências são maiores, fazer batota no teste online parece ter-se tornado, para alguns alunos, uma tentação irresistível. Como a notícia do DN irrefutavelmente documenta.

Contudo, embora a dimensão e a gravidade da fraude sejam maiores no caso do ensino universitário, não haverá nenhum nível de ensino que esteja imune ao fenómeno. Haverá algum professor que tenha trabalhado remotamente durante o confinamento e não se tenha surpreendido, uma e outra vez, com as competências e o nível de conhecimentos subitamente revelados por um ou outro aluno?…

Esta fome de boas notas, por parte de alunos que, em circunstâncias normais, não passariam da mediania, e que com o confinamento terão sentido ainda mais dificuldades em estudar e acompanhar as matérias, junta-se à vontade de comer de explicadores que,  em consequência do encerramento dos centros de estudos, perderam a sua principal, e nalguns casos exclusiva, fonte de rendimentos.

Como pano de fundo deste fenómeno, temos a realidade de uma geração inteira de profissionais da Educação que poderiam estar a leccionar nas escolas do país, mas a quem essa oportunidade, para a qual se prepararam, nunca lhes foi proporcionada. Os cortes orçamentais e o desinvestimento no sector, obra de sucessivos governos, tiveram o efeito prático de lhes fechar o acesso à profissão. E se muitos jovens profissionalizados para a docência acabaram por enveredar por outras profissões, houve sempre aqueles que não desistiram de manter a ligação ao ensino, optando pelo trabalho, quase sempre precário e mal pago, das explicações.

Um mundo que é fruto também das insuficiências da escola pública – que rejeita os jovens professores, ao mesmo tempo que alimenta o mercado das explicações de que muitos sobrevivem. Sem com isto querer desculpar as infracções éticas e legais de quem prevarica, noto que estão criadas as condições para que o cliente, que paga, mande muito mais do que deveria…

Exames: cenas do próximo capítulo

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Mais um cartoon super-inspirado do Paulo Serra

Aprender menos e ter melhores notas

exame-ginasio.JPGOs professores do ensino superior alertaram esta segunda-feira para o risco de os alunos que este ano fazem os exames nacionais terem melhores resultados, mas estarem pior preparados para frequentar as universidades e institutos politécnicos.

No arranque da primeira fase dos exames nacionais, que este ano são facultativos e apenas relevam enquanto provas específicas para o acesso ao ensino superior, é expectável um panorama avaliativo diferente do habitual.

Como as notas dos exames – que tendem a ser inferiores às classificações internas dos alunos – não contam para a média final das disciplinas, o efeito imediato será um inflacionamento das notas finais.

Mas também as notas dos exames poderão ter tendência a aumentar, relativamente a anos anteriores. Isto mesmo assumindo que as condições atípicas em que decorreu o terceiro período condicionaram negativamente a consolidação de aprendizagens. É que, por um lado, a maioria das perguntas são opcionais, sendo consideradas apenas aquelas que os estudantes escolherem ou em que tiverem melhores resultados. A percepção geral, que o exame de Português hoje realizado parece confirmar, é a de que teremos este ano provas mais acessíveis.

Por outro lado, ao funcionarem exclusivamente como provas específicas, será menor o universo de alunos a avaliar. Os alunos que se inscreveram nos exames são, à partida, os que têm a ambição de se candidatar ao ensino superior e apenas se inscrevem em disciplinas que são essenciais para a área ou o curso que pretendem seguir, o que traz só por si uma motivação acrescida.

E eis as razões pelas quais 2019/2020 poderá muito bem vir a ser o ano lectivo em que menos se aprendeu, mas também aquele em que melhores notas se obtiveram…

Menos inscrições nos exames nacionais

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É uma consequência directa das novas regras que vigoram este ano: os exames não são necessários para aprovação nas disciplinas nem para a média do secundário, pelo que apenas os fazem os estudantes que deles necessitem, ou julguem vir a precisar, como provas específicas na candidatura ao ensino superior.

É um modelo de avaliação externa completamente desajustado, e foi preciso vir a pandemia para se tornar evidente a lógica perversa que lhe está subjacente: os exames mostram-se dispensáveis para assegurar aquilo que deveria ser a sua principal utilidade: validar as aprendizagens ao longo do secundário, actuando como elemento regulador do sistema educativo. Em vez disso, estão reféns das exigências do sistema de ingresso nas universidades, fazendo o trabalho que estas deveriam ser capazes de assegurar pelos seus próprios meios e de acordo com as suas necessidades.

A 1.ª fase dos exames nacionais, que vai arrancar no dia 6 de julho, vai avaliar 151.530 alunos, que estão inscritos em 254.865 provas, divulgou, esta sexta-feira, o Ministério da Educação.

Estes números representam menos 8.310 alunos inscritos face ao ano passado e quase menos 90 mil provas a realizar (87.705), devido ao regime de exceção introduzido pela tutela por causa da pandemia de covid-19.

Contudo, a tutela ressalva que os dados do Júri Nacional de Exames são provisórios, uma vez que não incluem as inscrições fora de prazo.

Recorde-se que este ano as provas nacionais não são um requisito obrigatório para a conclusão do ensino secundário. 

Os alunos do secundário vão poder escolher os exames nacionais que querem fazer de acordo com as disciplinas específicas pedidas pelas instituições do Ensino Superior a que se queiram candidatar. Recorde-se que, habitualmente, para concluir o ensino secundário, os alunos fazem dois exames nacionais no 11.º ano e dois no 12.º ano, independentemente de os utilizarem, ou não, para ingressar no Ensino Superior.

 

Ingresso no ensino superior com novas regras

reg-esOs alunos que fizeram exames do ensino secundário em 2018 e 2019, e que ainda não entraram no ensino superior, podem candidatar-se este ano utilizando apenas as notas internas para efeitos de apuramento da classificação final. Esta hipótese encontra-se consagrada no projecto de portaria que aprova o regulamento do concurso nacional de acesso ao ensino superior para 2020-2021, que nesta sexta-feira foi colocado em consulta pública por 30 dias.

Esta solução tinha já sido anunciada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) como a forma encontrada para minorar a situação de “injustiça relativa” em que ficaram os estudantes que pretendiam ir a exame para melhorar as notas obtidas em provas realizadas nos dois anos anteriores.

Entre as medidas excepcionais adoptadas no âmbito da pandemia covid-19, o Governo decidiu em Abril que este ano os exames nacionais, que se realizam entre 6 e 23 de Julho, só contariam como provas de ingresso aos cursos do ensino superior escolhidos pelos estudantes. Não podendo, por isso, serem realizados com o objectivo de subir a classificação final do secundário, o que apanhou de surpresa muitos estudantes que estavam a contar fazê-los com esse fim.

Habitualmente, os exames contam 30% para a nota final das disciplinas sujeitas a estas provas. Mas este ano só serão contabilizados para o apuramento da média de candidatura ao ensino superior, onde no geral valem 50%. Para a classificação final do secundário, que vale outros tantos 50% na média de candidatura, contarão apenas as notas dadas pelos professores dos alunos (classificação interna).

Com mais um projecto de alteração ao regulamento do concurso de ingresso no ensino superior, o Governo tenta salvar um sistema que continua demasiado dependente dos exames do secundário. E que este ano, com a alteração de regras imposta pela pandemia, se vai tornar ainda mais iníquo, beneficiando, em primeiro lugar, os alunos que frequentam escolas e colégios onde inflacionar as classificações é parte não assumida do projecto educativo. Prejudicados serão todos os outros, e também os que concluíram o secundário em anos anteriores e não conseguiram entrar para o curso pretendido. Estes não poderão agora tentar melhorar a média repetindo os exames.

Há alguns paradoxos em torno dos exames nacionais. Criticados pelos seus detractores por serem injustos, por colocarem à prova, em duas horas, dois ou três anos de trabalho e de avaliação contínua dos alunos, eles acabam, actualmente, por ser mais justos do que os “critérios de avaliação” que cada escola elabora e aplica a seu belo prazer. Há aliás uma imensa dose de hipocrisia num ME que passou os últimos anos a exortar as escolas a desconstruir o currículo e a adaptar os instrumentos de avaliação de forma a maximizar o sucesso de todos os alunos e agora, de súbito, se mostra preocupado com o inflacionar das notas finais.

Sendo uma prova igual para todos, visando um conjunto de conhecimentos e competências que todos os alunos deverão  ter adquirido, o exame coloca todos os alunos em pé de igualdade. Se for bem elaborado, deverá obrigar os estudantes a reflectir e a pôr em prática o que aprenderam, em vez de apenas debitarem conhecimentos previamente memorizados. É justo reconhecer que, a par de pontuais e inevitáveis pequenas falhas, os nossos exames têm evoluído neste sentido.

Este é daqueles estudos que a DGEEC nunca faria, apesar de ter estatísticas para tudo e mais um par de botas. Mas valeria a pena comparar a proveniência dos alunos que ingressam actualmente nos cursos superiores mais procurados com a que resultaria de um sistema de ingresso em que apenas fossem considerados os resultados dos exames.

Por muitas voltas e reviravoltas que se dêem – e esta da pandemia é apenas mais uma – a verdade é que a avaliação, tanto interna como externa, do secundário, deveria focar-se apenas no trabalho desenvolvido, nos objectivos e nas aprendizagens deste nível de ensino. A entrada na universidade é outra coisa – e devia ser um processo com regras e procedimentos próprios, definidos e aplicados pelas instituições de ensino superior.

Exames nacionais – as novas informações-prova

Com a reconfiguração dos exames do secundário, que passaram a ter perguntas opcionais, havia necessidade de explicitar as mudanças introduzidas nas provas, quer quanto à forma como serão distribuídas as cotações, quer em relação aos critérios e ao processo de classificação.

É com essa finalidade que o IAVE publicou agora esta adenda às informações-prova, actualizando a documentação publicada no início do ano lectivo. Clicar na imagem para aceder ao documento.

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Entretanto as aulas, presenciais ou não, vão-se arrastando. O prolongamento do ano lectivo vai fazendo cada vez menos sentido, à medida que nos apercebemos que, a começar nas cabeças ministeriais e a terminar nos alunos, já só os exames parecem interessar para alguma coisa. Só eles agitam um pouco esta modorra que se instalou em torno de um ensino faz de conta.

Nem a flexibilidade dos currículos, nem o sucesso para todos, nem mesmo a bandeira da inclusão são agora hasteadas pelos responsáveis do ME. Percebe-se bem, e cada vez melhor, que quando falavam em “salvar o ano lectivo” o que queriam era salvar os exames…