E acabarem com as calculadoras gráficas nos exames?

contar.gifA introdução das calculadoras gráficas e o aproveitamento das suas potencialidades no ensino da Matemática foram certamente um passo em frente na época em que a decisão foi tomada.

Mas, nos dias de hoje, uma análise minimamente racional em termos de custo/benefício leva-nos a uma conclusão evidente: não faz sentido obrigar a um investimento de cerca de 150 euros numa máquina apenas para ser usada em situações de exame. Porque as funcionalidades da calculadora podem perfeitamente ser emuladas em qualquer smartphone, com capacidades gráficas e de processamento semelhantes ou superiores às da calculadora.

Numa altura em que tanto se fala em incorporar as novas tecnologias no ensino, porque não aproveitar o potencial dos actuais telemóveis, aparelhos que praticamente todos os alunos transportam consigo, em vez de os obrigar a gastar dinheiro numa máquina que, concluído o secundário, rapidamente ficará esquecida no fundo de uma gaveta?

Quanto aos exames, haveria apenas que tomar a decisão que se impõe: prescindir de avaliar em situação de exame – mas não nas aulas – o ponto específico da matéria em que os alunos têm de criar e reproduzir o gráfico. Tudo o resto pode ser feito numa vulgar calculadora científica.

Há apenas inércia e falta de visão, ou continuam a impor-se os interesses do duopólio que desde sempre dominou o limitado mercado das calculadoras topo de gama?…

A notícia do Público demonstra bem como se continua a preferir discutir minhoquices e criar novos problemas em vez de tomar decisões e encontrar soluções.

Os professores da Escola Secundária Camões, em Lisboa, consideram que os procedimentos enviados pelo Ministério da Educação sobre a utilização de calculadoras no exame de Física e Química A, do 11.º ano, constituem, “no mínimo, uma violação clara do que é considerado pedagógica e didacticamente correcto” quando está em causa uma prova de avaliação externa, necessária para “a conclusão da escolaridade obrigatória e até mesmo para o acesso ao ensino superior”.

Numa reunião geral realizada nesta semana, os professores do Camões aprovaram um protesto dirigido ao ME onde contestam a obrigação de os alunos terem de usar calculadoras gráficas com a funcionalidade modo de exame nas provas que se realizam na próxima semana e para a qual estão inscritos cerca de 45 mil estudantes. A razão evocada para este protesto prende-se sobretudo com o facto de os estudantes terem adquirido calculadoras gráficas no ano passado, quando entraram para o 10.º ano, “podendo na altura optar por modelos que não dispõem do modo de exame”, uma funcionalidade que ainda não era obrigatória.

[…]

Este procedimento “é no mínimo escandaloso e indignou todos os presentes”, informa o director da Secundária Camões numa nota que enviou ao PÚBLICO. “Todos estes alunos, seja porque não sabiam aquando da aquisição da calculadora no 10.º ano, seja porque ficaram com a calculadora de um irmão mais velho, seja porque simplesmente não têm condições económicas para adquirir uma calculadora gráfica topo de gama, deverão abdicar da informação disponível nas suas máquinas?”

Para os professores do Camões trata-se de “uma clara situação de discriminação socioeconómica” com a qual dizem não ser possível “compactuar”. Segundo o director da escola, dos 240 alunos inscritos para este exame apenas 10% terão calculadoras com modo de exame. Os docentes apelam por isso ao ME que altere os procedimentos previstos para os exames deste ano, o que não irá suceder. Estas calculadoras custam, em média, cerca de 150 euros. 

JNE propõe acabar com a actual 2.ª fase de exames

jne2018.JPGQuando os alunos que terminam agora o 10.º ano chegarem ao 12.º, as duas fases da época de exames deixarão, tal como hoje se encontram organizadas, de ser viáveis. A flexibilidade curricular vem permitir novas combinações de exames que até aqui não eram possíveis, obrigando a reservar mais dias para a realização de todas as provas.

Quem o afirma é o Júri Nacional de Exames, no seu último relatório. Responsáveis por toda a logística da avaliação externa, os dirigentes do JNE sabem do que estão a falar. E estão cheios de razão. Mesmo que nada tivesse mudado, a verdade é que o actual sistema é absurdamente complexo, consome excessivos recursos e amarra os professores envolvidos, por tempo demasiado, a um processo com o qual, em termos educativos, se ganha muito pouco.

Além das pertinentes razões invocadas, a proposta do JNE – reservar o acesso à 2.ª fase dos exames apenas a impedimentos graves e situações excepcionais devidamente comprovadas – decorre do mais simples e elementar bom senso:

A manter-se o atual modelo de avaliação externa, com duas fases de provas, dois períodos para reapreciação e dois períodos para reclamação, não será possível às estruturas regionais do JNE e aos Diretores dos Agrupamentos das Escolas gerirem a carência de recursos humanos para o processo de classificação, havendo que assegurar também as múltiplas tarefas internas de final de ano letivo, os períodos de férias a que os docentes têm direito.

Face às necessidades da Administração para as diferentes atividades e funções do serviço de exames, e não esquecendo, no caso do ensino secundário, a articulação com o Ensino Superior, no que respeita aos prazos de candidatura, defendemos que a atual 2.ª Fase não poderá ser alargada a todos os alunos, deverá ser remetida para a primeira quinzena de setembro, restringindo-se a alunos que faltaram aos exames, por razões atendíveis e justificáveis, bem como aos alunos atletas de alta competição, integrando a atual época especial, e, ainda, para alunos aos quais faltem até duas disciplinas, sujeitas ou não a exames nacionais, para conclusão do ensino secundário.

No entanto, o ME não vai em conversas. Por muito pertinente que seja, se a ideia não traz o aval de nenhum dos ideólogos eduqueses influentes no ministério, a reacção imediata é rejeitar liminarmente a proposta, ainda que razoável e sensata. Está mal…

…o Ministério da Educação já adiantou que a proposta não está em cima da mesa. “Esta proposta não está a ser analisada na elaboração do calendário do ano que vem. A aplicação do decreto-lei 55/2018 não tem impacto na existência das fases de provas e exames a decorrer em junho e julho”, esclareceu a tutela.

Insubstituíveis

Edviges FerreiraO Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) sabia que havia suspeitas que recaíam sobre a professora Edviges Ferreira quando, no Verão de 2017, aceitou que fosse ela a avaliar o exame de Português do 12.º ano antes de ser enviado para as escolas, para os alunos se submeterem à prova.

Eis um mal muito português, que tantas vezes impede que criminosos e infractores sejam julgados e punidos pelos seus actos. Ou que desonestos e incompetentes sejam simplesmente afastados dos lugares antes que a sua presença possa provocar maiores danos: a irresistível e inexplicável sedução que algumas pessoas, de comportamento no mínimo duvidoso, conseguem despertar à sua volta. E a teia de cumplicidades e condescendências que se vai construindo à sua volta.

Aparentemente, o IAVE desconfiava que Edviges Ferreira poderia vir a quebrar o sigilo que lhe era imposto. Mesmo assim, permitiu-lhe o acesso à prova de Português. E nós perguntamos: era assim tão difícil, entre milhares de professores de Português honestos, competentes e experientes que existem neste país, encontrar outra pessoa que fizesse o trabalho que se pretendia?

Este hábito de funcionar em capelinhas, em que uns e outros se vão ajudando e encobrindo – hoje é a mim, amanhã, ou quando precisares, calha-te a ti – é o oposto da meritocracia que caracteriza as economias e sociedades mais evoluídas. Em que as pessoas se afirmam pela sua competência, honestidade e pela qualidade do seu trabalho, sem precisarem de jeitinhos e favores para mostrarem o que valem.

Por cá, prefere-se demasiadas vezes levar ao colo pessoas aparentemente insubstituíveis e segurar nos seus lugares os incompetentes e os corruptos, em vez de multiplicar oportunidades para que mais pessoas apliquem as suas competências e demonstrem o seu valor. E não é só na administração educativa, como bem sabemos, que isto se verifica…

Finalmente, recorde-se que todo este caso da professora Edviges foi levado às últimas consequências apenas porque uma aluna deixou a prova, nas redes sociais, de que havia alunos a saberem antecipadamente o que iria sair no exame. Divulgada a gravação pelos media, não restou alternativa senão investigar até ao fim, sob pena de descredibilizar por completo o sistema de exames nacionais. Mas a dúvida permanece: há quantos anos subsistirão casos semelhantes de professores que têm acesso às provas na fase de elaboração e usam esse conhecimento privilegiado para aumentar a sua cotação no mercado das explicações particulares?

A verdade é que, se a gravação comprometedora não existisse, o mais provável é que a professora entretanto proscrita continuasse ainda a colaborar com o IAVE…

Estudar para aprender – II

examinandaO secretário de Estado da Educação defendeu esta quinta-feira que as escolas devem preocupar-se em ensinar em vez de se inquietarem com a preparação dos alunos para os exames nacionais, argumentando que desta forma os estudantes terão melhores resultados académicos.

Claro que sim. As escolas públicas estão lá para “ensinar”, entendendo-se por “ensino” o seguir à risca dos devaneios flexibilizadores de João Costa e dos seus apoiantes.

Preparar os alunos para os exames é outra conversa. Essa é a tarefa – e o negócio – dos colégios privados e dos explicadores particulares.

Há que respeitar a iniciativa privada.

Estudar para aprender – I

exam-question[1]O secretário de Estado da Educação defendeu esta quinta-feira que as escolas devem preocupar-se em ensinar em vez de se inquietarem com a preparação dos alunos para os exames nacionais, argumentando que desta forma os estudantes terão melhores resultados académicos.

“As escolas devem olhar para o que se aprende e não para a avaliação”, defendeu João Costa, lamentando que o programa de autonomia e flexibilidade curricular continue a ser visto com bons olhos apenas até ao 9.º ano.

Para avaliar se as alegações do SE Costa fazem algum sentido, deveríamos em primeiro lugar encontrar um consenso acerca do que é aprender.

Passará, seguindo uma concepção mais clássica, por adquirir um conjunto de conhecimentos e competências de base, a partir das quais a aprendizagem se vai progressivamente aprofundando e especializando?

Ou pensamos numa abordagem mais moderna, que baseia o processo educativo nos interesses e apetências dos alunos, nos apelos do mundo real, nos projectos, problemas e desafios que se vão lançando e a partir dos quais se constroem “aprendizagens significativas”?

Intuindo que é no meio que, geralmente, se encontra a virtude, podemos ainda tentar que uma aprendizagem motivadora e bem sucedida reúna as duas coisas: conhecimentos e competências de base, estruturantes, conjugados com a sua aplicação e aprofundamento através de trabalhos práticos.

Qualquer que seja a perspectiva acerca do que e como aprender, de uma coisa deveríamos poder estar seguros: que os seus adeptos estão verdadeiramente convictos de que se aprende mais e melhor pela via que defendem.

Ora não é isto que sucede. O que se nota nos teóricos das flexibilidades curriculares e, ainda mais, nas suas claques de apoiantes, é um imenso nervosismo com os exames. Parecem revelar uma enorme insegurança. Será que temem a demonstração final de que, com a última reforma educativa, os alunos aprendem menos do que aprendiam antes? Voltemos às declarações de João Costa:

Quando chegam aos exames e provas de aferição, “os alunos não falham na memória (…) falham na análise e na crítica”, disse o secretário de estado da Educação, lembrando os problemas que os estudantes têm revelado nas provas quando lhes é pedido para raciocinar, argumentar ou relacionar conceitos.

Do alto do seu pedestal de quase-ministro e rodeando-se de cortesãos que lhe dizem apenas o que quer ouvir, o SE parece ter dificuldade em compreender as dúvidas e apreensões dos professores no terreno. Dos que estão todos os dias nas escolas e dão aulas a alunos reais.

Permita então, senhor secretário, que lhe tente explicar o que preocupa os professores: temem que a aplicação das novas teorias flexibilizadoras não esteja afinal a promover “a análise e a crítica” tão bem como se esperaria. E que, em contrapartida, a geração da aprendizagem fácil e divertida venha a falhar mais no que depende da “memória”…

Greve de professores na Polónia

Uma greve de 600 mil professores e auxiliares educativos cumpriu ontem o seu quinto dia na Polónia. Está a ser praticamente ignorada pelos media internacionais, sempre tão atentos às recomendações da OCDE ou aos prémios para os docentes que se enquadram no modelo de professor missionário tão apreciado pelas fundações e multinacionais influentes no sector. Na imprensa portuguesa, tanto quanto me consegui aperceber, há zero notícias sobre o assunto.

Mas existe alguma informação disponível aqui e ali, bem como imagens que têm sido partilhadas em redes sociais relativas, nomeadamente, aos exames. Na falta de juízes reformados ou árbitros “representantes dos trabalhadores” que decretem a obrigatoriedade de os grevistas assegurarem este serviço, as autoridades recorrem aos bons serviços de padres e freiras para vigiarem as salas de exame…

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Entrar na universidade pela porta do cavalo?

porta-traseira.JPGAlunos do profissional vão poder entrar na universidade sem exames

Em vez de terem de fazer exames nacionais como provas de ingresso – que acabam por ser um dos maiores obstáculos por se realizarem, por vezes, em disciplinas que não tiveram – os estudantes apenas terão de cumprir os critérios definidos por cada instituição.

A novidade, adiantada pelo ministro do Ensino Superior, ainda está a ser discutida no seio do Conselho Coordenador do Ensino Superior (CCES). Mas há dois princípios já estabelecidos, diz Manuel Heitor. Em primeiro lugar, esta via de acesso destinada a alunos do profissional será realizada no âmbito dos chamados concursos locais, que são específicos para cada instituição, ao invés do concurso nacional de acesso. E poderão ser realizados tanto pelos politécnicos como pelas universidades, acrescenta. No fundo, trata-se de um regime semelhante ao que já é aplicado para o ingresso de estudantes internacionais ou para os maiores de 23 anos.

A definição deste novo regime deve estar concluída até final de abril. A ideia é alargar a base de acesso ao ensino superior. Sendo que a margem maior de aumento se encontra precisamente entre os jovens que frequentam o ensino profissional.

Ao contrário das reformas eduquesas do básico e do secundário, que vão fazendo ao sabor dos ventos que sopram da OCDE, as mexidas no ensino superior prosseguem objectivos bem definidos, em conjugação com os interesses das instituições e dos que lá trabalham. Entre eles, há um que o declínio demográfico das últimas décadas colocou no topo das prioridades: aumentar a frequência do ensino superior. O que, havendo cada vez menos jovens, só se consegue facilitando o ingresso de uma maior percentagem dos jovens que anualmente concluem o secundário.

A avaliar pelo que agora se anuncia, o novo regime que se encontra em estudo, podendo envolver algum facilitismo, não me escandaliza. Há muito que defendo que deveriam ser as universidades e os politécnicos a seleccionar os seus alunos, em vez de transferirem esse pesado encargo para os professores do secundário. E deve reconhecer-se que é injusto e discriminatório exigir aos alunos dos cursos profissionais a realização de exames  a disciplinas que não tiveram, ou feitos com base em programas diferentes dos que seguiram nos seus estudos.

Acrescente-se ainda mais isto: da forma como é apresentada, esta nova modalidade de acesso não irá concorrer directamente com o concurso nacional. Não seduzirá, certamente, as universidades mais procuradas, nem se aplicará aos cursos com média de entrada mais elevada, que todos os anos deixam alunos de fora. Será sobretudo uma forma de preencher vagas que não serão ocupadas nas sucessivas fases do concurso e que de outra forma acabariam por ficar desertas.

Resta a questão de determinar se os alunos que ingressarem por esta via estarão efectivamente preparados para as exigências do ensino superior. Hão-de estar, presumem governantes, reitores universitários e presidentes dos politécnicos. A verdade é que, quando se procuram alunos a todo o custo, a qualidade deixa de ser problema…