Edviges Ferreira reclama inocência

Edviges FerreiraMalta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. Pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória e outra sobre a importância dos vizinhos no combate à solidão.

Estávamos em Junho de 2017, decorria a primeira fase dos exames nacionais e o país surpreendia-se com a notícia de que havia alunos a ter conhecimento prévio do conteúdo das provas de exame. Claro que quase todos os anos há zunzuns semelhantes, mas dessa vez não deu para ignorar: não só o registo áudio da mensagem que correu as redes sociais ficou gravado para a posteridade como as matérias indicadas saíram mesmo na prova de Português.

Não demorou muito tempo a encontrar a principal suspeita: a professora Edviges Ferreira, que na qualidade de presidente da Associação de Professores de Português teve acesso às provas ainda na fase de preparação. O processo disciplinar à docente avançou de imediato, culminando na sua demissão em Março passado. Mas, no tribunal, só agora é que o caso irá a julgamento. É também só agora é que Edviges Ferreira, não se alongando em declarações, se pronuncia publicamente sobre o assunto.

Infelizmente o Ministério da Educação e a Inspeção-Geral de Educação e Ciência divulgaram uma série de informações incorretas sobre este processo e não fizeram uma verdadeira investigação, limitando-se a encontrar um bode expiatório.

“Assim, entendo que o tempo do arbítrio terminou e chegou a hora da justiça, pelo que não quero fazer qualquer declaração, uma vez que cabe ao tribunal fazer o julgamento.”

Parcas declarações, que a imprensa escrita procurou complementar com elementos do processo:

…já foi noticiado que uma das alegações da defesa da professora é a nota baixa que a aluna a quem dava explicações obteve no exame – 9,5 valores. Para a defesa, este resultado demonstra que a aluna não teve acesso a informação privilegiada.

Segundo o JN, dos autos do processo de acusação constam referências a outras possíveis denúncias que a defesa acusa o Ministério da Educação de não investigar – além da antiga presidente da Associação de Professores de Português, outras 54 pessoas do Instituto de Avaliação Educativa terão tido acesso ao exame.

Antes de mais, assinale-se a parcial confissão de culpa: Edviges Ferreira admite que exercia a actividade de explicadora, o que, de acordo com as regras de incompatibilidade impostas pelo IAVE a todos os seus colaboradores que tinham acesso às provas, era expressamente proibido.

Depois, uma justificação algo frouxa: apesar da ajuda, a explicanda não conseguiu mais do que uma classificação medíocre na prova. O baixo resultado reflecte simplesmente as reais capacidades da aluna, ou constitui prova de que a explicadora não a ajudou da forma de que é acusada?

Ao que parece, a principal linha da defesa não passará por aqui. Sabendo-se que mais de 50 pessoas terão tido conhecimento do teor da prova de exame em causa, a defesa de Edviges Ferreira quererá demonstrar que, em teoria, qualquer uma dessas pessoas poderia ser a autora da fuga à informação. Mas apenas a presidente da APP foi investigada.

Aparentemente, e seguindo uma velha tradição nacional, a defesa da ex-professora tentará diluir as suspeitas e mesmo os factos dados por provados num mar de dúvidas e incertezas. O que costuma ser a forma mais eficaz de garantir que ninguém sai condenado…

Exames para professores

cristasNitidamente desinspirados, os centristas não encontram melhores propostas para o sector da Educação do que a velha léria do “pacto educativo” – um bloqueio paralisante da política educativa, erigido em torno dos pantanosos consensos do regime que têm vindo a ser impostos no sector.

Em relação aos professores, recuperam a ideia infeliz de Nuno Crato das provas de avaliação escrita para docentes. A diferença é que agora os exames não se destinariam a seleccionar os candidatos à docência, mas a determinar a progressão nos escalões da carreira. O objectivo, esse, é o mesmo de sempre: dificultar ou impedir as progressões na carreira.

…quanto aos professores, a proposta dos centristas é que seja feita uma revisão da carreira, estabelecendo que “uma progressão na carreira implicará provas públicas a prestar em instituições de ensino superior públicas devidamente credenciadas para o efeito”, e “assente no mérito”.

O programa nada refere, em concreto, sobre a polémica em torno dos professores, e da contagem total do tempo em que as carreiras estiveram congeladas…

A ideia subjacente à proposta do CDS não é difícil de entender e está no extremo oposto àquilo que aparenta ser, uma defesa da meritocracia na classe docente.

Na verdade, as “provas de avaliação” não se destinam a eliminar os professores “maus”, mas apenas a encontrar um pretexto convincente para impedir alguns professores de progredir na carreira. Estes professores não são “maus” – se assim fosse, e estando identificados,  teriam de ser expulsos da profissão – apenas se pretende que continuem a fazer o seu trabalho sem direito a uma carreira e às respectivas progressões.

Matéria não dada

examesA ver se nos entendemos: não podemos criticar os exames dizendo que se limitam a um despejar de conhecimentos previamente adquiridos e afanosamente memorizados e, quando se começa a mudar o paradigma avaliativo, apelando menos à memória e ao treino e mais à reflexão e à aplicação dos conhecimentos adquiridos, reclamar porque saiu um texto que não foi dado nas aulas.

É questionável que esta mudança se tenha dado da 1.ª para a 2.ª fase da mesma época de exames, o que põe em causa o princípio de equidade entre alunos que, para todos os efeitos, deveriam estar em igualdade de circunstâncias. Mas concordo com a tendência de mudança, que aliás já vem sendo feita há alguns anos, e não apenas em Português, e espero que tenha vindo para ficar.

Por outro lado, se consideramos que um aluno do 12.º ano é incapaz de compreender um excerto d’Os Lusíadas que não tenha sido previamente esmiuçado nas aulas de Português ou nos manuais de estudo, então talvez seja de questionar a relevância do que se ensina, aprende e, sobretudo, se avalia na disciplina.

Levando a reflexão um pouco mais longe, não seria despiciendo considerar a pertinência de voltarem a existir, como houve em tempos, duas disciplinas distintas de Português. Uma, mais direccionada para o uso correcto da língua, o desenvolvimento da capacidade de expressão oral e escrita e a compreensão da leitura. Outra, destinada aos alunos de Línguas e Humanidades, onde se fizesse uma aprendizagem mais aprofundada da nossa literatura. Julgo que o estudo dos Lusíadas, do teatro vicentino ou dos sermões do Padre António Vieira deve ter lugar nas escolas secundárias portuguesas. O que se deve questionar é se todos os alunos, de todos os cursos, o devem fazer da mesma forma e com a mesma profundidade.

Tal como o ensino da Matemática no secundário se desdobra em três disciplinas com distintos graus de complexidade, também o mesmo se deveria equacionar em relação ao Português. Pois o que temos hoje é, claramente, um sistema que desvaloriza as Humanidades, nivelando por baixo a formação destes alunos e dificultando a construção de percursos escolares verdadeiramente diferenciadores. Como existem na área das Ciências e das Tecnologias…

Os alunos que realizaram o exame nacional de Português do 12.º ano na 2.ª fase foram confrontados com um excerto da obra Os Lusíadas, de Luís de Camões, que não tinha sido lecionado nas aulas e que não consta no programa da disciplina. Segundo o Público, uma professora alertou o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), que defendeu a decisão com a necessidade de avaliar a capacidade dos alunos de demonstrar “capacidades de interpretação” em vez de apenas reprodução de conhecimentos.

Mas no exame da 1.ª fase, e em anos anteriores, os alunos nunca tiveram que interpretar estâncias d’Os Lusíadas que não tivessem sido analisadas durante as aulas.

“O facto de se entender que os suportes textuais apenas podem ser selecionados de entre aqueles que, no programa, são indicados para o trabalho em sala de aula colide com pressupostos que enformam os programas e o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, na medida em que acaba por se valorizar a reprodução de conhecimentos, em detrimento da capacidade de mobilizar esses conhecimentos e capacidades na interpretação de outros suportes da mesma obra, de outras obras do mesmo autor ou do mesmo género textual”, defendeu o IAVE.

Num email enviado ao IAVE sobre o exame de 2.ª fase de Português, que continha as estâncias 26 a 29 do Canto VI da obra de Luís de Camões, a professora e classificadora de exames manifestou “perplexidade e indignação”, considerando ser “absolutamente inacreditável que os alunos tenham de ler e compreender quatro estâncias de Os Lusíadas que não correspondem a nenhuma das indicadas nos programas de Português”.

“As estâncias analisadas em aula já são suficientemente difíceis”, considerou a docente, defendendo não ser necessário “aumentar o grau de dificuldade”. Cerca de 17 mil alunos realizaram o exame de Português do 12.º ano na 2.ª fase.

O carrossel das médias dos exames

carrossel.gifA uma prova de Matemática demasiado difícil em 2018, só poderia suceder, em ano eleitoral, um exame mais acessível, capaz de gerar melhores resultados e deixar mais satisfeitos os alunos, pais e professores. Em contrapartida, as médias mais favoráveis de Português desceram ligeiramente quando comparadas com as do ano passado.

Bem-vindos ao mundo das provas finais do 9.º ano, onde a análise estatística dos resultados continua condicionada pelas oscilações anuais do grau de dificuldade das provas.  Claro que, no caso da Matemática, as coisas pioram um pouco. Como se sabe, a disciplina que tem sido alvo de constantes mexidas e duas organizações rivais, a científica e a pedagógica, disputam o protagonismo nas reformas empreendidas.

O exame de Matemática revela ainda outra realidade preocupante: cerca de 8% dos alunos chegam ao final do ensino básico como desistentes da disciplina. Entregam a prova em branco, ou erram de tal forma que as respostas certas não ultrapassam 1% da cotação total. Seria importante perceber o que se passa com estes jovens que nada querem com a Matemática e que acabam por passar de ano, sucessivamente, sem que se consiga inverter a situação. Será que a tão gabada flexibilidade curricular pode trazer respostas para este problema? Soluções efectivas que não passem pelo caminho fácil do fim dos exames nem pela resignada certificação da ignorância dos alunos que passam sem saber…

Subida a Matemática, descida a Português. São estes os resultados das provas finais do 9.º ano realizadas em Junho por cerca de 100 mil alunos e que constituem o inverso do que costumam ser as oscilações habituais nestes exames, com as subidas geralmente a favorecer a prova de Português.

Desta vez não foi assim. Numa escala de 0 a 100, a média a Português ficou nos 60, o que constitui uma descida de seis pontos percentuais por comparação ao resultado de 2018 (66). Já a Matemática a média subiu de 47 para 55 – um pulo de oito pontos percentuais.

Em ambas as disciplinas as taxas de reprovação baixaram. A Português passaram de 6 para 5% e a Matemática desceram de 33% para 29%, o que também se fica a dever à diminuição da proporção de alunos que obtiveram classificações negativas nos exames. Na prova de língua materna só 13% tiveram negativa; a Matemática foram 40%. No ano passado 52% dos alunos do 9.º ano tiveram negativa no exame. A Português esta percentagem foi, em 2018, de 13,2%.

No dia da prova de Matemática, a 27 de Junho, tanto a associação de professores da disciplina como a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) consideraram que esta tinha sido “acessível”. A presidente da associação de professores, Lurdes Figueiral, alertou que tal não significa que os alunos fossem ter boas notas, porque as provas de anos anteriores também foram acessíveis e “os resultados não foram bons”, em grande parte devido ao aumento do número de alunos que não vão além de 1%.

Dos 92.741 alunos que fizeram a prova em Junho, 8,3% tiveram entre 0% e 1%. A mesma proporção que foi registada em 2018. O que mudou, e levou à subida da média, foi o aumento dos que chegaram à positiva.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: A importância dos exames 

A saída dos resultados dos exames nacionais do secundário é um dos momentos altos que marcam o final do ano escolar. É a altura em que os finalistas deitam contas à vida. Em que uns reforçam as suas ambições universitárias enquanto outros começam, a contragosto, a rever em baixa as suas expectativas. Na verdade, a competição e a pressão da universidade desvirtuam uma avaliação externa que deveria servir primordialmente não para seleccionar os futuros universitários mas para certificar as aprendizagens do secundário…

No Fundo: O não-estado da Educação

A semana política ficou marcada pela discussão parlamentar do estado da Nação – o habitual balanço do ano parlamentar, que este ano foi também um balanço da legislatura. Significativamente, num debate em que se falou de quase tudo, a Educação foi a grande ausente nas intervenções de todas as forças políticas. Esta realidade não é verdadeiramente surpreendente porque há muito sabemos que o sector, fundamental para o futuro do país, tem estado no fundo das prioridades governativas…

Exames nacionais: o sobe e desce dos resultados

resultados-examesAs médias da primeira fase dos exames nacionais mais concorridos do ensino secundário registaram uma subida. De acordo com os dados do Ministério da Educação, a média de Português subiu de 11,0 para 11,8 valores, enquanto a média do exame de Matemática A passou de 10,9 para 11,5. De realçar a descida nas disciplinas de Física e Química, Filosofia e Geografia.

À exceção do exame de Filosofia, cuja média foi de 9,8 valores, as médias das classificações dos alunos internos foram todas superiores a 10 valores.

Na prova da disciplina de Matemática A – classificada como facilitista pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) – registou-se uma subida de 0,6 valores. Num comunicado enviado às redações após o exame, a SPM disse que a prova era “pobre” e não avaliava “de forma equilibrada a aprendizagem prevista no currículo do ensino secundário nem valorizava adequadamente o trabalho desenvolvido pelos alunos e respetivos professores ao longo dos três anos do ensino secundário”.

De acordo com o gráfico de distribuição de classificações, mais de 1200 alunos internos tiveram uma classificação superior a 19 na prova de Matemática A – e a taxa de reprovação passou de 14 para 12%.

Na disciplina de Português, a subida em relação ao ano de 2018 foi de 0,8 e houve cerca de mil estudantes internos com notas superiores a 18 valores. Desta forma, a percentagem de reprovações desceu de 6% para 4%.

A Física e Química, a média do exame desceu de 10,6 valores em 2018 para 10,0 valores, o que fez com que a taxa de reprovação passasse de 10 para 14%.

Registou-se, ainda, uma descida nas classificações médias das disciplinas de Filosofia – de 11,1 para 9,8 – e Geografia A – de 11,6 para 10,3.

Quanto a Biologia e Geologia, a terceira prova mais realizada no ensino secundário, registou-se uma ligeira descida na média do exame: de 10,9 para 10,7.

À exceção de Filosofia, Geografia A, Física e Química A e Latim A, a taxa de reprovação desceu na maioria das disciplinas sujeitas a exame nacional.

Uma ligeira melhoria, já esperada, dos resultados dos exames que no ano passado tiveram notas mais baixas, os de Matemática A e História A. Uma tendência, aliás, comum à maioria dos exames desta primeira fase. No resto, o habitual sobe-e-desce, que globalmente nem é muito expressivo, é mais revelador das oscilações no grau de dificuldade das provas do que das variações no nível médio de conhecimentos dos alunos.

Perante os resultados, continuo a achar as médias dos exames muito baixas, sobretudo tendo em conta que os números habitualmente considerados incluem apenas as notas obtidas pelos alunos internos – excluindo portanto os dos cursos profissionais e todos os outros que se apresentam também como auto-propostos. Na verdade, se os alunos supostamente mais aplicados do ensino secundário obtêm notas que, em média, oscilam entre os 10 e os 12 valores em quase todas as disciplinas, alguma coisa não bate certo. Claro que não se espera que as notas de exame emulem as classificações internas. As duas avaliações são distintas e avaliam de forma diferente, sendo a interna, forçosamente, mais rica e diversificada. Mas fazem sentido diferenças tão acentuadas? Será que os alunos aprendem pouco e os professores inflacionam as notas? Ou, pelo contrário, são os exames que perseguem metas irrealistas? Eis uma reflexão que deve continuar na ordem do dia.

O quadro com as médias de todas as disciplinas pode ser consultado aqui.

A culpa é dos exames?

exames0_lv[1]Há quem pague 200 euros por mês em explicações. A “culpa” é dos exames

Professores e investigadores defendem que os exames, que caracterizam o actual modelo de acesso ao ensino superior, são o que alimenta o mercado de explicações. Quem pode pagar tem acesso. Quem não pode fica para trás.

A manchete do Público suscita diversas dúvidas e inquietações. Mesmo sem ler a notícia por inteiro – na versão online só está disponível para assinantes – julgo que o raciocínio proposto não tem muito que enganar: para entrar na universidade é preciso obter boas notas nos exames, o que os mais abonados conseguem recorrendo a explicações. Quem não tem dinheiro é, por isso, discriminado. E nos cursos universitários com maior procura estão, já o sabemos, sobre-representados os alunos das classes alta e média alta.

Aparentemente, pensará o leigo na matéria, se são os exames que fomentam a desigualdade, então bastaria acabar com eles para exterminar também o maléfico e dispendioso “mercado de explicações”. Mas será que isto resolveria o problema? Como se faria então o acesso ao ensino superior? Apenas com as classificações internas do secundário? Ou com um novo modelo de exames, centrado nas instituições de ensino superior?

Claro que, havendo exames, estes criarão sempre procura para um negócio assente na preparação para os mesmos. E enquanto houver cursos superiores com cem vagas e mil candidatos será sempre necessário um mecanismo de selecção para decidir quem entra e quem fica de fora. Não sendo perfeitos, os exames têm-se revelado, apesar de tudo, um método de ordenação e selecção de candidatos mais justo e equitativo do que as classificações internas, sujeitas à aplicação de diferentes critérios de avaliação e níveis de exigência de escola para escola, ou a subjectividade das entrevistas, das “cartas de motivação” ou de outros métodos de recrutamento mais “personalizados”  – e permeáveis à cunha.

Pelo que a forma que o Público encontrou para pegar no tema – culpar os exames e as explicações pela desigualdade no acesso ao ensino superior – sendo fácil e demagógica, é a que menos ajuda a compreender a realidade. E a realidade tem muitas nuances.

Passa, por exemplo, pela dificuldade que as escolas continuam a ter em reduzir ou desdobrar turmas para apoiar e recuperar alunos ou grupos de alunos com dificuldades específicas em determinadas matérias.

Mas, quando as escolas conseguem superar obstáculos e criar salas de estudo ou aulas de apoio, não é raro os alunos com dificuldades e as suas famílias rejeitarem-nos.  Prefere-se pagar uma explicação do que obtê-la gratuitamente através da escolaAparentemente, o que não é pago não é valorizado, o que também se vê na diferença da postura de muitos alunos quando passam da aula de apoio na escola pública para a explicação privada…

E que dizer das famílias, que mais depressa pagam explicações aos filhos do que lhes fazem ver que, se estiverem atentos e participarem nas aulas, se estudarem com regularidade e fizerem os trabalhos propostos, então poderão ser bons alunos sem necessidade de explicações individuais. É uma realidade visível em muitas escolas secundárias, incluindo algumas que integram os primeiros lugares dos rankings, haver alunos que distraem os colegas e perturbam as aulas, porque acham que não precisam de se estar atentos: o explicador logo lhes explicará, individualmente, aquilo que o professor tenta ensinar a toda a turma. Numa sociedade crescentemente egoísta e materialista, o sucesso que se compra parece valer mais do que aquele que se consegue pelo trabalho e pela valorização pessoal.

O sucesso das explicações e dos centros de estudo passa igualmente pelo facilitismo que se está a promover no sistema de ensino, em que os alunos transitam de ano sem precisarem de evidenciar conhecimentos sólidos sobre as matérias que aprenderam. Quando, já no secundário, se mostram ambiciosos em relação ao curso superior pretendido é que se apercebem da falta de conhecimentos e competências de base que evidenciam – e as explicações surgem como a solução que permite remediar o mal e almejar melhores resultados académicos no futuro. Claro que nem todas as famílias podem as pagar. O que demonstra algo que alguns “velhos do Restelo” vêm alertando há muito tempo: o facilitismo prejudica sobretudo os mais pobres – é uma ilusão acreditar que lhes facilitará a vida…