Já eles estão preparados para falar sobre tudo

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Seja pela idade avançada, seja pela falta de preparação técnica, os professores não estão preparados para ensinar à distância. Esta é uma das conclusões de um estudo realizado pela Universidade Nova de Lisboa. O digital pode trazer muitas oportunidades ao ensino, mas apenas como complemento, e escolas precisam de preparação para que a igualdade entre alunos seja uma realidade.

Estou curioso para saber como correu a experiência do ensino online nas universidades – também haverá “estudos” a respeito?… – onde, como sabemos, a generalidade dos professores são jovens e estão preparados para tudo. E quanto a pedagogia, métodos de ensino e de avaliação inovadores, ui, ui!…

O resto é mais do mesmo, um friso de comentadores a falar do que não sabe, gente que nunca deu aulas, ou fugiu cedo do desconforto da sala de aula, a opinar sobre o trabalho dos professores e dos alunos. Claro que o resultado se resume a um debitar de lugares-comuns, entremeado com a desconfiança e o preconceito contra os professores do ensino “inferior”.

Assinale-se ainda como o espesso semanário do regime, que resguarda quase todos os seus conteúdos por detrás da paywall, vai deixando estas iniciativas, com evidente cunho doutrinário e ideológico, em acesso livre.

E dizer mais do que isto é fazer publicidade a iniciativas que a desmerecem.

Aulas presenciais, para quê?

Perante a realidade nova e de contornos incertos que nos trouxe a pandemia do coronavírus, tento não ter ideias fechadas nem alimentar fundamentalistas num ou noutro sentido. Tento perceber o que nos vão dizendo os especialistas, embora note que nem sempre concordam entre si e que, nalgumas situações andam, quase tanto como os leigos, a apalpar terreno. Não sou adepto de um confinamento radical e prolongado no tempo que, a prazo, teria potencial para fazer ainda mais vítimas do que o próprio vírus. Mas entendo a necessidade do isolamento, do distanciamento social, da adaptação de hábitos e modos de vida às circunstâncias que temos pela frente, do encerramento de actividades especialmente perigosas e sem as quais podemos bem viver.

Isto tudo para dizer que até aceitaria a reabertura condicionada das aulas do secundário se ela fosse fundamentada em justificações médicas e pedagógicas. Discordo frontalmente quando é mais do que evidente que se vai expor alunos e professores a um risco perfeitamente evitável e desnecessário sem argumentos de peso a justificá-lo. Basta ter em conta que os alunos mais velhos são os que se encontram em melhores condições para tirar o melhor partido do ensino online: conseguem ser autónomos e organizar-se e não precisam dos pais ou de outros cuidadores por perto para se orientarem durante os dias em que ficam em casa.

Não, a razão para o retomar das aulas é apenas a absurda obstinação em salvar os exames nacionais, pois se pretende que eles continuem a ser a pedra basilar em que assenta o sistema de ingresso no ensino superior. E isto, obviamente, é inaceitável. Foi preciso, infelizmente, vir esta pandemia para que até os mais empedernidos defensores dos exames percebessem que esta insistência é inaceitável. Pelo que deveria aproveitar-se este raro consenso para, pelo menos este ano, chamar as universidades a assumir as suas responsabilidades – a começar por aquelas que já decretaram, para si próprias, a suspensão das aulas presenciais até ao fim do presente ano lectivo.

Termino com o inspirado boneco de Paulo Serra, o nosso colega e artista que tão bem captou o que devem estar a sentir, por estes dias, muitos dos professores a quem calharam na rifa as aulas presenciais…

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Sacado do Facebook de Paulo Serra.

Não aprenderam nada

covid-recessao.jpgAs medidas anunciadas por Costa de “ajuda às famílias e empresas” linhas de crédito, com juros, inclusivé nas moratórias de crédito à habitação para famílias, tudo com juros. Não são ajudas – são um novo resgate bancário, pago com as pensões dos portugueses. A isto junta-se a redução da TSU para as empresas, que é a parte dos empresários para a Segurança Social que deixa de ser paga ou é reduzida; e o Lay off, pago pela Segurança Social (reformas e pensões dos idosos e reformados), para mandar os trabalhadores para casa, com cortes salariais. Se Costa não tivesse anunciado este pacote de medidas, supostamente para ajudar “famílias e pequenas empresas” estas empresas, todas dependentes da Banca até para viverem 15 dias, iam entrar em incumprimento com a Banca, e a Banca ia falir. Sim, vivemos num país onde as empresas não conseguem sobreviver 15 dias sem a Banca – são na verdade empresas que só existem não porque são empreendedores, mas porque vivem dependentes da Banca. Um pequeno café de aldeia mandou os trabalhadores para casa e paga-lhes o salário completo 2 meses. A Padaria Portuguesa, com dezenas de lojas, manda-os para casa em Lay-off e pede que a nossa reforma e pensão e serviços públicos lhes pague as dívidas à Banca, delapidando a Segurança Social.

As famílias não foram ajudadas – há milhares de despedimentos, e pode-se, com esta lei de Costa, fazer lay off e continuar a despedir. As pequenas empresas também não foram ajudadas, porque estas medidas só conseguem proteger as grandes. As outras não têm condições de se endividar, estão apenas à espera do fim – é isso que esta lei permite, aguardar pelo fim. O fundo das reformas dos nossos idosos – que supostamente Costa trata bem, e o Ministro holandês mal – vai para o poço, desaparecer, e a Segurança Social falir. O esquema piramidal financeiro mantém-se, salvo. Os trabalhadores ficam na miséria, as empresas despedem com o auxílio da reforma dos idosos, e as grandes aguardam, sem fazer pagamentos, com os lucros e dividendos protegidos, acumulados, para vir ao mercado daqui a uns meses comprar as pequenas empresas falidas e oferecer aos trabalhadores metade do salário. Tudo isto com o uso das reformas também de médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros, e professores, a quem farão elogios públicos, enquanto cortam nas reformas, porque “não há dinheiro”. Não aprenderam nada, com 2008.

Raquel Varela denuncia, certeiramente, a hipocrisia das “ajudas” que o Governo, sob a batuta da ortodoxia neoliberal e monetarista que continua a comandar as políticas europeias, se prepara para impor em Portugal.

Na verdade, se são as famílias que perdem empregos e rendimentos e as pequenas empresas que a crise deixa com a corda na garganta, faria todo o sentido apoiar directamente quem está em dificuldades. Até porque, ao saldarem as suas dívidas e comprarem o que necessitam, esse dinheiro acaba por circular por toda a economia, beneficiando também, e como sempre, as grandes empresas, os bancos e até o Estado.

Financiar directamente os grandes, delapidando os cofres públicos e os fundos da segurança social, será apenas repetir a longa e desatrosa recessão que se seguiu à crise de 2008: a estagnação de uma economia atolada em dívida, a par da fuga de capitais e do fortalecimento da especulação financeira e dos grandes grupos económicos.

Por detrás da desejada “união nacional” na guerra colectiva contra o coronavírus, subsiste o eterno conflito de interesses entre uma elite gananciosa e predatória, para quem a crise de saúde pública é apenas mais uma oportunidade de continuar a enriquecer, e a generalidade dos cidadãos, que querem preservar a sua saúde sem alienar o seu futuro. Em vez de consensos de regime legitimados por “guerras ao vírus” ou estados de emergência, precisamos, agora e sempre, de denúncia e pensamento crítico, de discussão aberta e ideias alternativas.

Hoje tenho a certeza, inabalável, que o maior mal que pode atingir uma sociedade é a ausência de contraditório, de pensamento crítico, de alternativa, podemos resistir a uma quarentena, não podemos resistir à ausência de reflexão crítica. Esta crise, sem pensamento crítico e políticas alternativas, vai reforçar a tragédia em que o país está, e não ajudar a sair dela. Era a hora de nacionalizar a banca sob controlo público e resgatar as pequenas empresas e os trabalhadores; e nas grandes empresas, usar os activos para pagar a Segurança Social e reforçá-la. Em vez disso caminhamos para mais do mesmo – qualquer manual de economia básico sabe como funcionam as linhas de crédito numa economia de PMEs como a nossa. Rio já disse que apoia Costa nesse caminho desastroso.

Podemos e devemos discordar, debater abertamente. Não podemos deixar de informar, pensar e projectar cenários realistas. É o que se espera de todos aqueles que têm presença e voz públicas. Sem contraditório não há democracia.

Do Parlamento nada de novo

parlamento-be.PNGPetição e projetos do BE e do PCP foram chumbados, esta sexta-feira, e professores com horários incompletos vão continuar a contabilizar menos de 30 dias para a Segurança Social. Há quem precise de 80 anos para conseguir uma carreira contributiva de 40 anos e ter direito à aposentação sem penalizações.

Os votos do BE, PCP, PAN e Verdes não chegaram para aprovar a mudança que pretendia que volte a ser contabilizado o tempo integral para a Segurança Social dos professores com menos de 16 horas letivas no horário. As abstenções do PSD – que defendeu em plenário que a situação tem de ser corrigida pelo Governo -, do CDS e do Iniciativa liberal (que não intervieram no debate) inviabilizaram a aprovação dos projetos que só tiveram o voto contra do PS.

As deputadas Joana Mortágua (BE) e Ana Mesquita (PCP) insistiram que a mudança, com reduzido impacto orçamental, agrava a falta de professores que já se faz sentir em muitas escolas, especialmente em horários incompletos.

“Há alunos sem professores, mas o sistema diz que há professores de segunda categoria com um enorme buraco na carreira contributiva”, defendeu Joana Mortágua.

Este ano letivo estão colocados em horários inferiores a 16 horas letivas 5480 professores, estima Ricardo Pereira, fundador do grupo dos professores lesados nos descontos da Segurança Social e primeiro subscritor da petição que motivou o debate desta sexta-feira e que recolheu mais de cinco mil assinaturas.

Ao terem deixado de ser contabilizados, desde 2011, os 30 dias de descontos, os docentes não preenchem o tempo, por exemplo, para receberem o subsídio de desemprego. “Um professor que seja sucessivamente colocado em horários de 11 horas demoraria 80 anos para atingir os 40 anos de descontos para a aposentação”, aponta. Ricardo Pereira também garante que a mudança não pesaria no Orçamento do Estado. E exemplifica: um docente que fique no desemprego (sendo o subsídio 65% do salário bruto) após um horário de 10 horas letivas, ganharia pouco mais de 690 euros pelo que o subsídio rondaria os 380 euros.

Vamos ser claros: se os professores com horário incompleto vão continuar a ser prejudicados na contagem do tempo de serviço, ao PS e ao PSD o devem. E se no caso do PS se trata de dar suporte à política do seu governo, no caso do PSD é mesmo um misto de completa insensibilidade e calculismo político que os leva a optar pela cómoda abstenção. Pois se tivessem juntado os seus votos aos do BE, PCP, Verdes e PAN teriam vencido a oposição socialista.

Quando ao PS, há uma notória irresponsabilidade em ignorar decisões dos tribunais favoráveis às pretensões dos professores. E uma evidente miopia ao não ser capaz de admitir que a discriminação na contagem do tempo, além de injusta para os visados, que regra geral não escolheram ter horário incompleto, mas sujeitam-se a ele pela força das circunstâncias, é um dos factores que contribui para que largos milhares de alunos estejam meses privados de professores. Revela também um evidente cinismo quando alega que não se podem tratar de forma igual situações diferentes. Pois é isso mesmo que estão a fazer. Dois exemplos:

  • Um professor colocado num horário de 15 horas, desconta para a SS na proporção das horas que lhe estão atribuídas, enquanto um colega com 16 horas, tendo um horário igualmente incompleto, faz o desconto na totalidade;
  • Contudo, se esse professor cumprir as 16 horas em duas escolas distintas – 10 numa e 6 noutra, vamos supor – então já não tem direito ao desconto integral.

Noutra matéria de interesse para as escolas e os professores – a democratização da gestão escolar – as decisões foram adiadas. Os projectos de lei do BE e do PCP e o projecto de resolução do PAN baixaram, perante a perspectiva do chumbo pelo PS e os partidos à sua direita, à discussão em sede de comissão parlamentar.

Na Educação, portanto, consenso dos partidos do arco governativo em torno das grandes questões que lhes interessam – subfinanciamento do sector, contenção salarial da carreira docente, gestão unipessoal, mega-agrupamentos, municipalização – continua de pedra e cal. Em tudo o que é potencialmente fracturante no sector, aí temos a muralha de aço dos partidos do regime a funcionar. E dizem que temos falta de um pacto educativo…

PS e PSD recusam mexidas na gestão escolar

directorOs grupos parlamentares do PS e do PSD manifestaram-se nesta quinta-feira disponíveis para avaliar “melhorias” ao actual regime de gestão das escolas que se encontra em vigor desde 2008, mas recusaram que se deite “tudo para o lixo” e se regresse às direcções colectivas — existentes antes de ter sido instituída a figura de director como “órgão unipessoal” de liderança.

O deputado socialista Porfírio Silva revelou, a este respeito, que o seu grupo parlamentar já fez seguir para o Governo uma pergunta quanto ao prazo em que este “conta ter e disponibilizar a avaliação” ao modelo em vigor, conforme prometido no programa do executivo de António Costa. E onde se institui que “o Governo irá avaliar o modelo de administração e gestão das escolas e adequá-lo ao novo quadro que resultou do processo de descentralização [para os municípios] e aos progressos feitos em matérias de autonomia e flexibilização curricular”.

Como se previa, os partidos do centrão não estão disponíveis para uma revisão do modelo de gestão escolar que ponha em causa o modelo unipessoal, burocrático e centralista, dos directores e dos mega-agrupamentos, actualmente em vigor.

PS e PSD sentem-se confortáveis com o modelo que construíram e apenas admitem alterações pontuais para o adaptar à nova realidade que resulta da transferência de competências para as autarquias. Não querem “deitar para o lixo” todo o trabalho feito, ao longo destes anos, para limitar fortemente os princípios de gestão democrática que deveriam nortear a escola portuguesa, claramente explicitados na Constituição e na Lei de Bases do Sistema Educativo. Rejeitam por isso os projectos de lei do BE e do PCP por entregarem, veja-se só a ousadia, a gestão das escolas… aos professores!

Mais curiosas são as reacções dos representantes dos directores, também auscultados pelo Parlamento. Embora sejam parte interessada na discussão, tanto Eduardo Lemos como Manuel Pereira admitem que pode haver espaço para melhorias do actual modelo. Permitindo por exemplo o regresso das direcções colegiais, se for essa a vontade das comunidades educativas, e reforçando o papel e os poderes do conselho pedagógico.

Num parecer à petição da Fenprof apresentado a pedido da comissão parlamentar da Educação, o presidente do Conselho das Escolas José Eduardo Lemos considera que “não  há exemplo de nenhum  outro  serviço  público  do  país  com  uma  gestão  tão  democrática  e  participada  como a que existe  nas escolas  públicas”. Frisa ainda que a existência de um director “agiliza e flexibiliza a gestão” e “associa a gestão da organização escolar a uma pessoa concreta, perfeitamente identificada e conhecida de toda a comunidade”. 

Mas o presidente do Conselho das Escolas, o órgão que representa os directores junto do ministério, também defende que “nesta, como noutras matérias, se deve seguir o reforço da autonomia das escolas e, nessa medida, é favorável a que conceda às comunidades educativas a possibilidade de poderem optar pelo tipo de gestão que preferem – de tipo colegial ou unipessoal, como ocorreu entre 1998 e 2008”.

Também o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira, indica no seu parecer que “considera relevante a discussão” sobre o modelo de gestão. Mas frisa o seguinte: “Só uma gestão escolar baseada no conhecimento efectivo das necessidades da comunidade escolar, com uma comunidade educativa baseada na igualdade e no respeito mútuo, com a revalorização do papel do conselho pedagógico na tomada de decisões, o regresso ao exercício da colegialidade e um processo eleitoral verdadeiramente democrático, pode garantir uma escola pública de qualidade”.

O futuro da Educação

Eis o admirável mundo da Educação do século XXI, dominada por políticos e empresários, autarcas e académicos, gestores e directores, jornalistas e economistas.

É impressionante e, ao mesmo tempo, revelador: organizam um fórum sobre Educação e, entre mais de 20 palestrantes, não há um único que seja professor a sério. Quer dizer, daqueles que efectivamente dão aulas.

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Percebe-se que há dinheiro a ganhar nos novos “projectos educativos”. Livros a vender, parcerias a celebrar, votos e influências a conquistar. O mundo educativo é cada vez mais um mundo de negócios. Neste contexto, a última coisa que interessa são professores preocupados com os seus alunos ou, suprema das heresias, a reclamarem direitos e a exigirem condições de trabalho para operar as mudanças de que as escolas e os alunos necessitam verdadeiramente.

Eis a Educação que nos dizem ser a do Futuro, construída à medida dos interesses que gravitam à volta das escolas. Um jogo de cartas viciadas, onde nem os autênticos interesses dos alunos nem a voz e a cultura profissional dos professores têm lugar.

Só posso subscrever…

São Medalhas, Senhor@s!

Quando merecemos classificações como “desprezível”, “reles” ou “canalha” por parte de certas criaturas que acham que estão acima de qualquer crítica, se conseguimos que isso aconteça com poucas linhas de opinião divergente em relação ao que se pretende que seja o consenso pantanoso, já não se perderam por completo alguns minutos.

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E embora seja por natureza avesso a medalhas, se tiver de as receber, que seja por maus serviços prestados ao situacionismo educativo…

Ninguém sabia de nada?

isabel-dos-santos.jpgCom a queda em desgraça de Isabel dos Santos, vemos a espantosa desfaçatez com que a elite política, empresarial e financeira se vai demarcando de conexões comprometedoras com a cleptocracia angolana. Banqueiros, consultores, advogados, investidores e dirigentes políticos, todos nos irão garantir que nada sabiam dos negócios sujos do petróleo e da lavandaria de petrodólares que a oligarquia angolana instalou em Portugal. Com a conivência, a troco de generosos pagamentos, daqueles que agora se tentam distanciar.

Claro que a lógica dos comparsas de Isabel dos Santos é muito simples: há muito dinheiro a ganhar; se não aproveitarmos, outros o farão. Embora não o digam, pensarão hoje exactamente o mesmo que quando começaram a emparceirar com o regime de Luanda. A única coisa que mudou entretanto é que, com Eduardo dos Santos no poder, a roubalheira estava caucionada pelo poder político. Com o actual presidente, deixou de estar.

Se com João Lourenço os lucros do petróleo deixarão finalmente ser drenados pelos oleodutos da corrupção, passando a financiar o desenvolvimento de Angola e a melhoria das condições de vida dos angolanos, ainda é cedo para saber. O certo é que tudo isto é conhecido há muitos anos, e foi pormenorizadamente explicado no livro Donos Angolanos de Portugal, publicado em 2014. Ali está, descrito com impressionante clareza e actualidade, tudo o que já então se sabia sobre o fluxo de dinheiro angolano na economia de Portugal…

Foi ontem apresentado em Lisboa o livro Os Donos Angolanos de Portugal, uma obra que denuncia a crescente influência dos investimentos angolanos em Portugal, encabeçados por Isabel dos Santos (filha primogénita de JES), Manuel Vicente (vice-presidente da República e ex-director da Sonangol) e pelo general Vieira Dias “Kopelipa” (ministro de Estado e chefe da Casa Militar do presidente da República).

O livro, da autoria de três dirigentes da formação política Bloco de Esquerda, retrata a teia de interesses e parcerias entre as elites político-empresariais angolanas e portuguesas, numa altura em que a tensão entre os dois países se intensifica. O capital angolano investido em Portugal aumentou 35 vezes na última década e, no seu conjunto, os angolanos são os investidores estrangeiros com maior peso na Bolsa de Valores de Lisboa. Interesses angolanos detêm agora posições significativas no sector bancário, nas telecomunicações, na energia e na comunicação social em Portugal.

A acumulação de capital em Angola, resultado de uma década de elevados preços do petróleo e da institucionalização da corrupção, liderada pelo presidente da República, coincidiu com a crise económica em Portugal.

A fragilidade da economia portuguesa, assim como a predisposição da sua classe política e económica para fechar os olhos à proveniência dos capitais angolanos, completaram um quadro em que os interesses das principais figuras angolanas encontraram em Portugal portas abertas para o branqueamento de capitais e para a internacionalização de investimentos obtidos de forma ilícita.

Violência escolar no Prós e Prós

pros-pros.JPGA violência escolar esteve em debate na RTP na passada segunda-feira. Reconhecendo a importância e oportunidade do tema, não gosto do formato do programa, que mais apropriadamente se deveria chamar Prós e Prós. Embora se tente ensaiar o confronto de ideias e a polémica, o que dali resulta quase sempre é a insinuação de falsos consensos e, muitas vezes, a sensação de superficialidade e tempo perdido que invade o espectador atento e interessado no tema do debate.

Um ponto sensível deste tipo de debates é a cuidadosa hierarquização dos convidados. Os VIPs, com direito a ocupar um dos dois palanques no palco. Seguem-se os de segunda categoria, que se sentam na parte da frente da plateia e que, com sorte, poderão ser chamados a animar a festa com as suas intervenções. Dos restantes, apenas se espera que componham o auditório e que vão pontuando com palmas as intervenções mais ousadas ou polémicas. Ou que pretendam passar por tal.

No caso em apreço, seguiram-se as regras não escritas habituais em todos os debates sobre Educação. Embora os professores sejam quem melhor conhece os alunos e avalia o que se passa nas escolas, a teorização sobre os problemas existentes é sempre remetida para outros profissionais: psicólogos, psiquiatras, economistas, académicos, encarregados de educação. Qualquer olhar exterior sobre a escola é sempre mais valorizado do que a experiência vivida no seu interior. Não é por isso de estranhar que os professores estivessem em minoria no palco e representados por situações de excepcionalidade: uma directora que ali foi chamada nesta qualidade e um professor que ganhou legitimidade para falar pelos restantes por ter ganho um prémio de “professor do ano” – atribuído por não professores.

Contudo, se no palco se desfiaram sobretudo vulgaridades e lugares-comuns, da plateia vieram algumas boas intervenções. Destaco, entre todas, a do Luís Braga, nome bem conhecido na blogosfera docente e nos grupos de professores nas redes sociais, pela forma clara e incisiva do seu discurso, aproveitando bem os “minutos de fama” que a televisão pública aceitou conceder-lhe.

Entre as ausências, foi especialmente notada a de um representante ministerial, o que reforça duas ideias que deverão ser centrais à nova governação: o low profile mediático, evitando o desgaste perante as câmaras e procurando adormecer o debate público sobre temas educativos – aquilo a que alguns ingénuos chamarão a pacificação do sector da Educação. E a ideia de que os professores deverão continuar a ser o saco de pancada e a válvula de escape do sistema, aqueles a quem se deverá poder pedir sempre mais um sacrifício ou impor, como obrigação, o que não passa de intolerável humilhação.

Num momento-chave do debate, uma frase de uma anterior ministra da Educação socialista foi oportunamente recordada. A governante, que se gabou de ter perdido os professores, mas ganho a opinião pública, assumiu pela primeira vez a escola pública como um campo de batalha, onde se degladiam forças e interesses contraditórios. Os frutos dessa conflitualidade criada quando se olhou para a escola como terreno de luta política vieram a colher-se mais tarde com a progressiva erosão da autoridade e da dignidade profissional dos professores, abandonados e hostilizados por quem os deveria valorizar e defender. E desenganem-se os pais que achem porventura que isto de os professores também estarem sujeitos a “levar no focinho” é mais democrático: o caos violento subjacente a este modelo de escola acabará por virar-se, de forma mais violenta ainda, contra os próprios alunos.

De resto, a discussão foi, como é habitual nos Prós e Prós, inconclusiva, fugindo demasiadas vezes do tema central do debate – a violência escolar – para se centrar em assuntos paralelos, lugares-comuns e, por vezes, algum narcisismo de intervenientes demasiado contentes consigo próprios. Um debate morno sublinhou a ideia de que a violência escolar está longe de ser uma preocupação nacional. E ainda mais preocupante é o número de professores que acham que ser agredido é uma coisa que só sucede a professores inflexíveis, chatos e antiquados. Ou que já ousam pensar que nada que um aluno lhes diga, ou faça, os deve incomodar ou ofender.

Novo governo ou remodelação governamental?

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A equipa governativa escolhida por António Costa não parece, como vários políticos e comentadores têm notado, um governo verdadeiramente novo. Com a grande maioria dos anteriores ministros mantidos em funções, sugere mais com uma remodelação governamental do que a mudança que se exigiria numa nova legislatura.

Em equipa que ganha não se mexe, costuma dizer-se com alguma razão. Mas isso implica considerar que as apostas do anterior governo foram, na perspectiva socialista, ganhadoras. O que no caso da Educação e da Saúde, para referir apenas dois exemplos emblemáticos, estará longe da realidade. Contudo, a manutenção em funções de Tiago Brandão Rodrigues e de Marta Temido, respectivamente, sugere uma continuidade das políticas nestes sectores. E uma avaliação positiva do desempenho dos ministros, fiéis executores da única linha política que mostrou ser determinante e consistente nos quatro anos de governação costista: o rigor orçamental de Mário Centeno e das suas proverbiais cativações.

Centeno, aliás, mantém-se como um dos ministros das Finanças mais populares das últimas décadas. Rigoroso nas contas e controlador na despesa, o superministro das Finanças tornou-se figura incontornável do segundo governo de António Costa, e não apenas por ter entretanto ascendido à liderança do Eurogrupo. Ele restituiu ao PS, na área das finanças públicas, uma credibilidade perdida com o desvario despesista e o endividamento irresponsável que, durante o socratismo, quase levaram o país à bancarrota.

Apesar de o PS, embora reforçado eleitoralmente, continuar a não ter maioria absoluta no parlamento, o partido ficará numa posição mais confortável nesta legislatura. Enquanto até aqui necessitava dos votos favoráveis do BE e do PCP para aprovar orçamentos ou enfrentar eventuais moções de censura, agora poderá nem precisar do apoio explícito destes partidos: bastará negociar a abstenção do PSD ou do BE para conseguir, apenas com os seus próprios deputados, aprovar o que pretender. Sem amarras a qualquer acordo escrito, o PS poderá negociar caso a caso com todos os partidos, optando, em cada situação, pelo que lhe apresentar o preço mais baixo.

Finalmente, com a correlação de forças à esquerda alterada a favor do PS e um PSD enfraquecido e tendencialmente moderado, parece provável que o segundo governo de António Costa se posicione mais à direita do que o anterior. O centrão político não morreu durante o governo da geringonça, ressurgindo várias vezes nas votações parlamentares que punham em causa os consensos do regime – a mais recente permitiu aprovar alterações à lei laboral penalizadoras para os trabalhadores contratados. A revisão das carreiras da administração pública e outras “guerras” que o novo governo já deu sinais de querer comprar, deixam antever entendimentos na forja entre os dois principais partidos da situação. Irá a aproximação natural entre PS e PSD manter-se ao nível dos acordos pontuais, ou evoluirá para um relacionamento mais íntimo, profundo e duradouro?…