A fila dos professores

Interessantíssimas as reflexões de Paulo Prudêncio num delicioso texto onde, a pretexto dos “retroactivos” exigidos pelos professores e dos inflacionados “600 milhões” que custaria recuperar o tempo de serviço, se revisitam as teorias de Adam Smith e Piketty, de  Friedman e Stiglitz.

Onde se lembra que a maré que sobe não eleva todos os barcos, porque o impedem as amarras da desigualdade e da acumulação de riqueza. E se nota que os instrumentos do neoliberalismo – a desregulação, os paraísos fiscais, a corrupção – estão a consumir em dívida os orçamentos públicos e a esmagar os rendimentos dos que ainda pagam impostos.

Perante um Estado capturado pelos interesses dos seus credores, é evidente que os professores nunca estarão na fila para receber retroactivos. Pelo contrário, ficarão sempre na primeira linha dos que pagam, retroactivamente, as negociatas feitas pelos sucessivos governos. Como todos os dias vamos sabendo pela comunicação social.

Mas o melhor mesmo é ler no original…

Os professores são sensatos. Nunca exigiram retroactivos (mais de 8 mil milhões de euros) e até a recuperação do tempo de serviço (600 milhões nas contas inflacionadas) admitiu um faseamento. Os professores, e não só, não exigem retroactivos, mas fartam-se de pagar retroactivamente. Explico-me.

O crescimento económico não é a “maré enchente que subirá todos os barcos” porque a riqueza acumulada numa minoria não é taxada, nem redistribuída, e acentua as desigualdades. Os governos não têm força para contrariar o neoliberalismo vigente; e há os que o promovem. A história da distribuição da riqueza é política. Não se reduz a mecanismos puramente económicos. Lê-se em dois clássicos: “Riqueza das Nações” de Adam Smith e “O capital no século XXI” de Thomas Piketti. A economia não é independente da filosofia moral e política e tem na actualidade uma agravante: “Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(…)”.

quino.jpgA história recente inscreve o triunfo do liberalismo de Milton Friedman (fora de Keynes, Adam Smith ou Stuart Mill), que derivou para um neoliberalismo branqueador de poderes não eleitos e que não prestam contas. A desregulação dos impostos (década de 90 do século XX), inspirada na visão optimista de que os grandes financeiros exerciam melhor a responsabilidade social do que os estados, “deslegitimou-se”. O capital em offshores não tem fim e só a crise de 2008 – e os processos “leaks” -, fez tremer a predação. O que resta aos governos? Taxar, com impostos directos e indirectos, e gerar uma imprevisível revolta. As classes médias fartam-se de pagar a “impagável” dívida e os juros que “consomem” os orçamentos dos estados.

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Desigualdades e hipocrisias

pobreza-educ.JPGDirectora do Pordata lembra que a escola não está a conseguir atenuar as desigualdades “à velocidade necessária” para que determinismos sociais “terríveis” se apaguem.

A demógrafa e directora do portal de estatísticas Pordata mostra-se preocupada com a desigualdade de oportunidades no acesso à Educação. Os mais alunos mais carenciados continuam, em geral, a ter piores resultados escolares. Mas o discurso situacionista sobre Educação que as fundações e as organizações internacionais vão alimentando parte de pressupostos errados que, pela minha parte, nunca me cansarei de denunciar.

Se a escola não é eficaz a combater a perpetuação das desigualdades, isso não significa que devemos que fazer mais uma reforma educativa, insistindo naquilo que, comprovadamente, não funciona.

A necessidade que temos é de encontrar outras formas de realizar as transformações sociais que a escola, está mais do que demonstrado, não consegue fazer sozinha.

Por muito boa que seja a escola, se a sociedade não criar oportunidades reais de ascensão económica e social aos filhos dos pobres, a pobreza irá sempre perpetuar-se.

Por muito talentosas que sejam as crianças de meios desfavorecidos, se as fortunas e as heranças se continuarem a transmitir entre um punhado de famílias, a multidão de remediados e deserdados terá sempre de se contentar com os restos do banquete.

Se a exploração do trabalho, agora organizada à escala global, continuar a favorecer, na distribuição de rendimentos, o capital em detrimento do trabalho, não haverá “nivelador social” que consiga contrariar o aprofundamento das desigualdades.

Mas é óbvio que interessa propagar a ideia, e por isso ela está tão presente no discurso institucional, de que podemos combater eficazmente a desigualdade através da escola, deixando intactos os mecanismos políticos, económicos e sociais que a reproduzem.

O grupo Jerónimo Martins, ao qual pertence a Pordata, é o campeão português da desigualdade salarial. O CEO da empresa ganha 130 vezes mais do que o trabalhador médio do grupo. Se estivessem mesmo preocupados com a pobreza e as desigualdades, provavelmente encontrariam muito que fazer portas adentro, na gestão do seu universo empresarial.

Muito mais fácil do que pôr em causa o modelo de negócio, os lucros milionários e o dumping fiscal é culpar o sistema educativo e os professores, por não serem capazes de corrigir as injustiças sociais e a desigualdade de oportunidades que o capitalismo neoliberal faz questão de acentuar.

Restará saber, no dia em que o filho de uma caixeira do Pingo Doce provar ser melhor gestor do que qualquer um dos que actualmente se sentam no Conselho de Administração, qual dos soaresdossantos colocaria o seu lugar à disposição.

Trabalhar para ganhar a vida, ou gastar a vida a trabalhar?

Carreiras profissionais de 50 a 60 anos de duração, mudar de emprego 10 ou 12 vezes, fazer formação profissional continuamente, porque o mercado laboral não pára de fazer novas exigências. Eis o futuro delirante que nos oferecem as multinacionais, as fundações empresariais e as organizações internacionais.

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Incapazes de perspectivar o futuro fora das formatações mentais do capitalismo neoliberal e tecnológico dominante neste início de século, os doutrinadores da “era digital” não conseguem antever coisas tão simples como a escassez de trabalho no mundo informatizado, automatizado e robotizado que prevalecerá dentro de duas ou três décadas.

É preciso uma completa falta de juízo para imaginar septuagenários e octogenários a trabalhar ao ritmo imposto na generalidade das profissões. Mas já seria mais fácil se colocassem uma questão bem mais simples e que encontra resposta na realidade do presente: quantas empresas existem, nos dias de hoje, a admitir novos trabalhadores com 50 ou 60 anos de idade? Irão recrutá-los, no futuro, quando tiverem 70 anos?

Para quem exerce a profissão docente, todo este discurso chega a parecer surrealista, tamanha a exaustão profissional que vemos afectar a maioria dos professores com mais de 60 anos – e alguns bem mais novos. Está mais que demonstrado que há profissões – e a docência é uma delas – especialmente desgastantes. Nesses casos, é um completo disparate achar que se poderia trabalhar até mais tarde. Quando muito, deveria pensar-se em começar mais cedo a carreira, melhorando as condições de acesso e exercício da profissão pelos jovens professores.

Quanto ao problema das reformas e da insustentabilidade dos actuais regimes de segurança social, o que fazemos é andar às voltas, adiando a idade da aposentação e penalizando ainda mais quem já muito trabalhou e descontou. Claro que isto nada resolve em definitivo: o subfinanciamento do sistema de pensões é um problema que só será resolvido quando as máquinas que substituem o trabalho humano descontarem para a segurança social na proporção dos ganhos que proporcionam aos seus donos.

A ilusão do voluntariado

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Foram os primeiros a aterrar em Lisboa. Para muitos, o trabalho começou antes de a arena abrir as portas. Vestem o já habitual azul-turquesa, para se destacarem na multidão. Falam todas as línguas do mundo. Da Polónia ao Panamá, não há nação que escape ao batalhão de voluntários recrutados para a Web Summit. Para não faltarem ao chamamento, tiram a semana de férias no trabalho ou fazem gazeta às aulas. Pagam para trabalhar mas não se importam. “O que conta é a experiência”, podia ser o mantra dos dois mil voluntários que ajudam a pôr de pé a maior cimeira de tecnologia do mundo.

Voluntários que aceitam trabalhar de graça, iludidos com a “experiência”, seduzidos pelo glamour do evento ou apenas com a possibilidade de entrar sem pagar bilhete.

Discursos “inspiradores” que nos ajudam a naturalizar a desigualdade, a especulação, o oportunismo, promovendo-os à categoria de novos valores universais.

Empreendedores que acreditam na multiplicação perpétua dos unicórnios e que a bolha das novas tecnologias continuará a inchar infinitamente.

Iniciativas e lucros privados altamente financiados com dinheiro público – 11 milhões de euros anuais que saem dos cofres públicos para pagar a festa.

Bem-vindos à nova economia do século XXI – e desculpem o indisfarçável cheiro a bafio…

Bolsonaro e o ódio aos professores

bolsonaro.jpgNo rescaldo da esperada eleição de Jair Bolsonaro como novo Presidente do Brasil, adivinham-se tempos difíceis para a Educação no Brasil. Um enorme país onde as taxas de analfabetismo e iliteracia atingem valores elevados e a escola pública se debate com enormes carências e apresenta fracos resultados. Ainda assim, numa sociedade marcada por extremas desigualdades sociais, a educação começou a funcionar, no tempo de Lula da Silva, como elevador social, permitindo a um número crescente de filhos de pobres o acesso à formação superior.

Investir na Educação e na escola pública, melhorar a formação e valorizar a autonomia profissional dos professores, fomentar a igualdade de oportunidades no acesso à Educação: o programa é claramente incompatível com os projectos políticos neoliberais e fascizantes do novo Presidente, pelo que não irá ser fácil a vida dos professores e de todos os que defendem o progresso social do povo brasileiro e não o enriquecimento das suas elites.

O professor Vítor Bemvindo ajuda-nos a perceber o que poderemos esperar da nova liderança política do Brasil. E mais: explica-nos porque é que Bolsonaro odeia os professores. Alguns excertos de uma excelente análise que merece ser lida na íntegra.

A cultura do ódio e da violência tem sido a principal marca da campanha à Presidência de Jair Bolsonaro. O culto à violência e os ataques às minorias sociais, étnicas e de gênero, têm omitido outro alvo preferencial da família Bolsonaro: os professores. Desde 2014, o clã bolsonarista apadrinhou os projetos de lei “Escola Sem Partido”, com o pretexto de combater uma pretensa doutrinação marxista e a “ideologia de gênero” nas escolas. Ao abraçar essa proposta, Bolsonaro e seus filhos elegeram os professores como os verdadeiros culpados pelo fracasso do sistema educacional brasileiro.

A educação que Bolsonaro defende é a que impede o posicionamento crítico a qualquer professor, que restringe a liberdade de abordagem dos conteúdos de sua área do conhecimento e que não toque em temas que suscitem a reflexão, como garantia de diretos, cidadania, diversidades cultural e sexual, dentre outros.

Como forma de combater o pensamento crítico, ele propõe ainda expandir a educação à distância (EAD), desde o ensino fundamental, em especial em áreas rurais (porém não faz qualquer menção em como expandir os recursos tecnológicos necessários para implementar tal proposta). Recentemente, em uma transmissão pela internet, disse que o principal objetivo da proposta é reduzir custos com professores, funcionários e estrutura escolar. Bolsonaro quer tirar os estudantes da escola, afastá-los dos professores, impedi-los de terem acesso ao convívio com os demais alunos.

Essa preocupação com os custos pode até parecer algo razoável na visão de um gestor público, no entanto, o candidato não só votou favoravelmente à Emenda Constitucional, que limita os recursos destinados à saúde e educação pelos próprios 20 anos, como também afirma em seu projeto que pretende mudar a educação brasileira com os mesmos recursos aplicados atualmente. Isso significa que não haverá política de valorização salarial dos professores, nem um processo de melhoria das estruturas das escolas. Esses temas sequer são mencionados no programa de governo.

O projeto de Bolsonaro quer criar uma cultura do ódio, da ignorância, na qual uma mensagem de Whatsapp ou um vídeo postado no Youtube tenha mais credibilidade que a posição de um professor. Os professores são uma ameaça real ao projeto bolsonarista, porque são eles que falam da história, da cultura, que nos ajudam a questionar as injustiças, as opressões e as explorações; que nos apresentam a ciência e o desenvolvimento tecnológico. Tudo isso é uma ameaça ao “mito”. E é por isso que Bolsonaro odeia professores.

Maus tempos para a Educação

aula-divertida.gifFlexibilidade curricular, competências transversais, direito ao sucesso, aulas divertidas: os sinais dos tempos em matéria educativa são o pretexto para uma reflexão profunda e pertinente de António Jacinto Pascoal nas páginas do Público.

Este nosso colega começa por tentar desbravar o ideário confuso da pedagogia agora dominante, tal como ela é vertida para os documentos oficiais e ministrada nas formações que, visando públicos seleccionados, andam a ser dadas pelo país fora. Basicamente, defende-se um ensino centrado na auto-aprendizagem dos alunos, no desenvolvimento de competências em detrimento da assimilação de matérias, no derrube das barreiras disciplinares, tidas como obstáculo à aprendizagem.

Omnipresente, está uma ideia que, de tantas vezes repetida, já quase todos tomam como verdadeira. Mas longe de cabalmente demonstrada. A de que o mundo muda hoje ao ritmo mais acelerado de sempre e que dentro de uma ou duas décadas tudo à nossa volta estará radicalmente diferente. No mundo da educação, isto significaria que não adianta transmitir hoje conhecimentos que amanhã estarão obsoletos, importa sobretudo desenvolver competências que capacitem os adultos de amanhã para “empregos ainda não criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas que ainda se desconhecem”. A citação é do decreto-lei 55/2018, o da reorganização curricular, e mostra como o mantra ideológico contamina até a produção legislativa, retirando o módico de rigor e sensatez que deveria presidir a qualquer intervenção no sistema educativo. Nem se percebe que a grande revolução educativa que se anuncia é, afinal de contas, aquilo que a escola nunca deixou de fazer: preparar crianças e jovens para a vida num mundo em constante mudança. Jacinto Pascoal pressente-o bem. E não poderia ser mais claro e incisivo:

O que nós conhecemos é o passado e conhecemos o presente e é nele que vivemos e é nele que devemos resolver problemas. Supor que o direito à aprendizagem e ao sucesso educativo (eis a grande obsessão) reside numa solução exclusivamente escolar é um erro fatal e uma forma subtil de descarregar o ónus no sistema de ensino em geral e nos professores em particular. Enquanto os problemas da pobreza, dos salários baixos, das condições socioeconómicas, da habitação e da estabilidade profissional não forem resolvidos, não haverá direito efectivo à aprendizagem nem sucesso (essa faca de dois gumes) educativo. É que, diga-se o que se disser, os alunos não partem de condições sociais igualitárias nem de circunstâncias globalmente justas para poderem emergir em igualdade de oportunidades. Não admira o fracasso (para não usar o termo insucesso) que muitos experimentam. Haverá sempre expedientes a salvaguardar as elites, quanto mais não seja pelo poder financeiro.

Se há coisa que caracteriza bem os projectos políticos de centro-esquerda que subsistem em pleno século XXI, ela é precisamente a capitulação perante o neoliberalismo dominante. Os poucos governos socialistas e sociais-democratas que ainda subsistem desistiram dos programas de reforma económica e social que poderiam combater eficazmente a discriminação e a pobreza, redistribuir a riqueza e aumentar a igualdade de oportunidades e a justiça social. Como têm medo de se meter com banqueiros, empresários, tecnocratas e gestores da nova ordem internacional, metem-se com os professores. E exigem-lhes que resolvam, na escola, os problemas de uma sociedade doente. Uma utopia, a rimar com outras: no novo programa educativo não falta sequer a busca do Homem Novo, esse mito da velha Esquerda recriado, para a educação portuguesa no século XXI, no delírio colectivo a que chamaram Perfil dos Alunos

Heterodoxias: Porque progridem os mais ricos e os pobres não

desigualdade.jpgUma análise lúcida e muito oportuna sobre o capitalismo dos nossos dias. Texto de Antón Costas que integra uma série de reportagens e artigos de opinião que o El País dedica à crise que mudou o mundo. Tradução e destaques da minha responsabilidade.

Os aniversários são úteis para fazer um balanço dos eventos críticos do passado e retirar lições para o presente. Agora cumpre-se o décimo aniversário do ponto de ignição da grande crise de 2008: a falência do Lehman Brothers. Foi a maior crise financeira da história, Grande Depressão incluída. A singularidade desta crise em relação àquela foi a sincronização com que avançou a nível global e a rapidez e intensidade do seu impacto no comércio mundial e na atividade e no emprego das economias nacionais.

Os balanços tentarão mostrar que aprendemos e que foi feito o necessário para evitar uma crise similar. A minha opinião é que se aprendeu pouco e se fez ainda menos. Com a perspectiva destes dez anos, pode-se afirmar que os governos e as elites financeiras o que pretenderam foi, com resgates e pequenos ajustes, retornar ao mundo anterior a 2008. Não compreenderam que esta crise foi o anúncio do fim de um modelo económico, político e social que atingiu o seu esgotamento.

A evidência de que isto é assim é que os impactos da crise passaram da economia para a política e mais além. O descontentamento social não se deve apenas à crise económica e financeira, mas é também a uma reacção contra a hegemonia das elites que romperam o contrato social que sustentou a economia social de mercado e o Estado social do pós-guerra. Esse descontentamento trouxe, como nos anos vinte e trinta do século passado, uma onda global de populismo político nacionalista. A raiz profunda desse descontentamento com o modelo económico que surgiu na década de 1970 é o facto de que a prosperidade económica aumentou espectacularmente, mas o bem-estar da maioria não.

Não creio que seja necessário parar para dar notícia do aumento da desigualdade. A evidência é esmagadora. Houve crescimento, mas beneficiou apenas uns poucos. O 1% dos muito ricos é um grupo formado em grande parte por altos dirigentes de grandes corporações e fundos de investimento. Eles são uma nova aristocracia do dinheiro que substituiu a antiga aristocracia da terra do “ancien régime“, mas sem o sentido que “noblesse oblige“. Uma nova aristocracia cosmopolita e apátrida que quebrou o contrato com aqueles que foram deixados para trás, caídos na vala, sem emprego, renda ou expectativas.
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