Vai estudar, Greta…

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O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, sugeriu hoje à ativista pelo clima Greta Thunberg que vá estudar Economia, defendendo que não é preciso deixar de utilizar combustíveis fósseis.

Ao repto do governante norte-americano poderia facilmente contrapor-se a ignorância e a insensibilidade das elites políticas e financeiras em relação ao impacto ambiental brutal e irreversível do actual capitalismo neoliberal, desregulado e hiperconsumista.

É verdade que a nossa casa comum já está a arder, como diz a activista sueca – literalmente, como é bem visível nos incêndios australianos – mas também é certo que enquanto os interesses dos donos do mundo, que querem continuar a enriquecer, não forem travados, é ilusão pensar-se que alguma coisa de substancial poderá mudar na forma como irremediavelmente vamos destruindo o único planeta que temos para viver.

Uma resposta à altura ao secretário de Estado foi dada, via Twitter, por Yanis Varoufakis:

O que diz Mnuchin, infelizmente, faz sentido. Se Greta fosse estudar economia convencional, passaria vários semestres a estudar modelos de mercados onde nem uma catástrofe climática nem uma crise económica são possíveis. É tempo de transformar tanto a política económica como a economia.

És liberal e não sabias…

ribadouro[1]Duas dezenas de escolas suspeitas de subir notas

Inspeção-Geral da Educação abriu mais dois processos disciplinares no Externato Ribadouro e tem cerca de duas dezenas de averiguações em curso. Inflação de notas subverte acesso ao ensino superior

Se há quem queira e possa pagar pelas notas que, por mérito, não conseguiria obter, qual é o problema? – perguntarão alguns.

Se sou eu que pago, porque é que não posso ter a nota que quero?

Se, para o neoliberalismo dominante, os mercados satisfazem todas as necessidades dos indivíduos, porque é que as notas escolares não podem ser um bem transaccionável?

Afinal de contas, entre escolas privadas que vendem notas e alunos e famílias que as compram, há muita gente que é liberal e não sabia…

Leituras: Joseph Stiglitz – O fim do neoliberalismo e o renascimento da história

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No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um famoso ensaio chamado “The End of History?”. Ele argumentou que a queda do comunismo eliminaria o último obstáculo que separava o mundo inteiro do seu destino de democracia liberal e economia de mercado. Muita gente concordou.

Hoje, à medida que enfrentamos uma retirada da ordem global liberal baseada em regras, com governantes autocráticos e demagogos à frente de países que contêm bem mais da metade da população do mundo, a ideia de Fukuyama parece peculiar e ingénua. Mas reforçou a doutrina económica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos.

A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados desenfreados como sendo o caminho mais seguro para a prosperidade partilhada está na unidade dos cuidados intensivos nos dias de hoje. E com razão. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou uma mera correlação. O neoliberalismo prejudica a democracia há 40 anos.

A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu próprio destino, tal como Dani Rodrik da Universidade de Harvard explicou de forma tão clara e tal como afirmo nos meus recentes livros Globalization and Its Discontents Revisited e People, Power, and Profits. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se o principal candidato à presidência num mercado emergente “perdesse a graça” em Wall Street, os bancos retirariam o seu dinheiro do país. Os eleitores enfrentavam então uma escolha dolorosa: ceder a Wall Street ou enfrentar uma grave crise financeira. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos do país.

Mesmo nos países ricos, era dito aos cidadãos comuns: “Vocês não podem defender as políticas que desejam” – fosse ela a proteção social adequada, os salários decentes, a tributação progressiva ou um sistema financeiro bem regulamentado – “porque o país perderá competitividade, os empregos desaparecerão e vocês sofrerão”.

Tanto nos países ricos como nos pobres, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam a um crescimento económico mais rápido e que os benefícios iriam ser repartidos para que todos, inclusive os mais pobres, ficassem em melhor situação. Para se chegar a esse patamar, os trabalhadores teriam, contudo, de aceitar salários mais baixos e todos os cidadãos teriam de aceitar cortes em importantes programas governamentais.

As elites alegaram que as suas promessas eram baseadas em modelos económicos científicos e na “investigação com base em provas”. Bem, após 40 anos, os números estão aí: o crescimento diminuiu e os frutos desse crescimento foram na sua esmagadora maioria para um punhado que está no topo. À medida que os salários estagnavam e o mercado de acções subia, o rendimento e a riqueza espalhavam-se para os mais ricos, em vez de se espalharem para os mais pobres.

Como é que a restrição salarial – para alcançar ou manter a competitividade – e a redução dos programas governamentais podem resultar em padrões de vida mais elevados? Os cidadãos comuns sentiram como se lhes tivessem vendido uma lista de artigos. Estavam certos em sentirem-se enganados.

Agora estamos a enfrentar as consequências políticas deste grande artifício: desconfiança das elites, da “ciência” económica em que se baseava o neoliberalismo e do sistema político corrompido pelo dinheiro que tornou tudo isso possível.

A verdade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiães eram totalmente intolerantes à dissidência. Os economistas com perspectivas heterodoxas eram tratados como hereges a ser evitados ou, na melhor das hipóteses, desviados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo continha poucas semelhanças com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Tal como George Soros enfatizou, Popper reconheceu que a nossa sociedade é um sistema complexo e em constante evolução, no qual quanto mais aprendemos, mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.

Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a que vivemos em 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma inundação em 500 anos – um fenómeno insólito que nenhum modelo poderia ter previsto. Ainda hoje, os defensores dessas teorias recusam-se a aceitar que a sua crença nos mercados auto-regulados e a sua rejeição de externalidades como inexistentes ou sem importância levaram à desregulamentação que foi essencial para alimentar a crise. A teoria continua a sobreviver, com tentativas ptolomaicas de ajustá-las aos factos, o que atesta a realidade de que as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm uma morte lenta.

Se a crise financeira de 2008 não conseguiu fazer-nos perceber que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria conseguir: o neoliberalismo acabará literalmente com a nossa civilização. Mas também está claro que os demagogos que querem que viremos as costas à ciência e à tolerância só pioram as coisas.

O único caminho a seguir, o único caminho para salvar o nosso planeta e a nossa civilização, é um renascimento da história. Temos de revitalizar o Século das Luzes e reafirmar o nosso compromisso de honrar os seus valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e democracia.

Joseph Stiglitz, O fim do neoliberalismo e o renascimento da históriaproject-syndicate.org

Chega para lá!…

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André Ventura, do Chega, vai sentar-se o mais à direita possível do hemiciclo, na segunda fila, isto porque os deputados únicos não têm assento na primeira fila. O mesmo acontece com Joacine Katar Moreira, do Livre, que se sentará na segunda fila, entre o PCP e o PS, e com João Cotrim Figueiredo, do Iniciativa Liberal, que se vai senta na segunda fila, ao lado do PSD e do CDS.

Numa nota enviada ao Expresso, o Iniciativa Liberal explica que “as conclusões da conferência de líderes demonstram uma vez mais o sentimento de propriedade que alguns têm da democracia. Tomam decisões sobre deputados que não estão presentes e, neste caso, até ignorando uma vontade demonstrada publicamente”.

O IL, que se estreia no Parlamento com a eleição de João Cotrim Figueiredo por Lisboa, queria ficar “o mais distante dos extremos“, uma vontade que promete voltar a frisar “assim que os trabalhos começarem”.

“O mundo evoluiu, mas alguns continuam presos a estereótipos da revolução francesa”. O hemiciclo, “assim como a política portuguesa, precisa de se renovar”, concluem os liberais, na nota enviada ao semanário.

O Chega também critica a distribuição dos assentos, não pela localização no espectro, mas sim pelo recuo do lugar. André Ventura terá um lugar no extremo direito do hemiciclo, mas sem direito a primeira fila, como costuma acontecer com os deputados únicos.

André Ventura disse ao Expresso que esta decisão é “vergonhosa”. “Se pudessem, colocavam o Chega cá fora na escadaria.” O deputado adiantou ainda que o partido deveria também ter direito a voto em conferência de líderes.

Reveladoras as reacções dos pequenos partidos de direita que passaram a ter assento parlamentar.

Apesar de tudo mais honesto o deputado do Chega, que assume a posição de extrema-direita no espectro partidário, reclamando apenas o lugar na fila da frente.

Já a Iniciativa Liberal tem outras ambições, dispostos a explorar o filão que a reciclagem do discurso liberal e a imagem de uma direita de cara lavada pode representar. Basta ver a rápida ascensão eleitoral que teve o Ciudadanos em Espanha ou mesmo a subida de Macron à presidência francesa.

Rejeitam, porque sabem que isso os pode prejudicar, a velha dicotomia entre esquerda e direita. Apesar de ideologicamente estarem muito bem identificados, não querem que esse facto lhes limite o potencial de crescimento. Sabem que, com o declínio dos partidos tradicionais de direita e o inevitável desgaste da governação à esquerda, podem pescar votos e apoios tanto dum lado como do outro.

Há, no entanto, um velho teste na política que, tal como o do algodão, não engana: quem diz que não é de esquerda nem de direita… é de direita!…

A quem interessam os “jovens talentos” nas escolas portuguesas?

teachfp– Quem são estes “jovens talentos” que o Ministério da Educação terá autorizado a entrar e permanecer nas salas de aula durante a atividade letiva, após frequentarem 5 semanas um Instituto de Verão?

– Que formação tiveram e quem a certificou e avaliou? Os mesmos que tão exigentes são para com os professores?

– Tiveram esses “jovens talentos”, que irão lidar com as crianças e jovens, de apresentar certidão de registo criminal como todos os trabalhadores, docentes e não docentes, das escolas?

– Que compromissos assumiu o Ministério da Educação com esta organização, a ponto de lhes abrir as portas das salas de aula das escolas públicas?

– Qual o grau de envolvimento da Direção-Geral de Educação, cujo logótipo surge em documentos desta organização?

– Por que também surgem os logótipos dos programas de financiamento comunitário “Portugal 2020” e “POCH”?

Já tinha escrito há uns dias sobre os “jovens talentos” que se disponibilizam a ir, para escolas degradadas, brincar aos professores. Não conhecia, confesso, pormenores acerca da Teach For Portugal, a filial portuguesa da multinacional com origem nos EUA, mas o que li nas entrelinhas da apresentação do projecto logo me cheirou a esturro.

Pois bem, a Fenprof, que agora interpela o ME acerca de mais um”projecto” que está a ser introduzido nas escolas pela porta do cavalo, investigou o historial de uma organização internacional que prossegue a agenda neoliberal para a Educação: formar mão-de-obra barata mas supostamente qualificada para alimentar negócios na área educativa. Uma leitura que se recomenda, instrutiva e bastante esclarecedora.

Quanto ao ME, o vergonhoso patrocínio que, em final de mandato, está a dar a esta iniciativa, reconheça-se que ele constitui um digno remate para a série de borradas que tem vindo a fazer no que diz respeito a pretensas “inovações” educativas. Lamentavelmente, podemos dizer que não nos surpreende.

Nos Estados Unidos da América surgiu, há alguns anos, a organização Teach for America que se dispunha a recrutar diplomados de ‘alto calibre’ para ensinar em escolas socialmente desfavorecidas. Esta organização desenvolveu uma narrativa focada em “diplomados de alta qualidade” a trabalhar nas áreas de maior complexidade social onde, alegadamente, seria mais difícil recrutar professores devidamente qualificados. De acordo com aquela organização, os jovens que fossem recrutados receberiam um treino rápido antes de começarem a trabalhar e, depois, continuariam a treinar “no trabalho”. O princípio seria proporcionar aos jovens uma certa “experiência de trabalho”, na qual estes iriam adquirir algumas competências úteis de emprego para, posteriormente, abandonando o ensino, se dedicarem ao trabalho na sua área específica de formação.

Os sindicatos de professores rapidamente denunciaram esta situação que perverteu o conceito de professor, como profissional formado e qualificado para o exercício de determinadas funções. Rapidamente, porém, alguns governos estaduais se aproveitaram desta mão de obra não qualificada mas barata, sendo exemplo mais negativo o que aconteceu em Nova Orleães depois de o furacão Katrina ter devastado largas áreas da região. O governo do Distrito de Nova Orleães fechou todas as escolas, despedindo os professores, e quando as reabriu foi como escolas Charter (as tais, cujo modelo já foi promovido no nosso país em iniciativas da Fundação Francisco Manuel dos Santos), contratando apenas alguns docentes e substituindo a maioria dos anteriores por gente recrutada pela Teach for America.

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O socialismo funciona?

Discussão_Socialismo.jpgO fracasso inevitável do socialismo é uma daquelas falsas evidências que o pensamento neoliberal tenta tornar consensual.

É inegável a derrocada do “socialismo real” da URSS e do Leste Europeu. É verdade que a China está hoje plenamente convertida ao capitalismo, embora mantenha quase intacto o regime ditatorial herdado do maoísmo. E relíquias do passado como a Coreia do Norte tornaram-se caricaturas dos ideais da Revolução Socialista.

Ainda assim, há um socialismo que parece funcionar: mais conhecido como social-democracia, é aquele que, respeitando as regras democráticas, fortaleceu o Estado social e usou a fiscalidade para promover políticas eficazes de redistribuição de riqueza, reduzindo as desigualdades sociais.

O socialismo nórdico – ou como lhe queiram chamar – parece ser dos que mais confundem e embaraçam a fluência do discurso neoliberal…

Imagem daqui.

Tweet do dia

É nestas alturas que o neoliberalismo de pacotilha tropeça nas suas próprias incongruências e contradições.

Pois não há greve que afecte serviços públicos que não receba, dos neoliberais encartados da nossa praça, o comentário chapa-3: se o serviço fosse privado, nada disto acontecia…

A greve dos camionistas de materiais perigosos demonstra claramente que não é a natureza pública ou privada do vínculo laboral que promove ou impede greves, mas a determinação e a capacidade reivindicativa dos trabalhadores.

Quanto à questão de saber se é justo um modelo de relações laborais em que uns trabalhadores, pelo facto de terem maior poder reivindicativo, são mais favorecidos do que os restantes, ela pode ter pelo menos duas respostas.

Uma é que tem prevalecido entre nós, um país que em termos de salários e direitos laborais continua na cauda da Europa: o discurso da inveja social, do “se eu não tenho tu também não deves ter”.

A outra resposta é que a conquista de aumentos salariais e melhores condições de vida e de trabalho foi e é uma luta dura, difícil e demorada. Por vezes com claros avanços, mas também, em certas alturas, com indisfarçáveis recuos. Quanto às conquistas alcançadas, elas não são obtidas por todos, em todo o lado, ao mesmo tempo. Os trabalhadores mais bem organizados, combativos e – lá está – com maior poder reivindicativo abrem o caminho que outros, mais tarde ou mais cedo, também acabarão por trilhar.

camiao-cisternaBasta conhecer um pouco de História para saber que ela confirma o acerto da segunda resposta.