SpaceX, regresso ao passado

spacex.JPGA cápsula Dragon, da SpaceX, amarou, este domingo, no Golfo do México com dois astronautas da agência espacial norte-americana NASA, concluindo o primeiro voo espacial privado a colocar pessoas em órbita. A cápsula foi recolhida por uma embarcação da SpaceX, empresa do milionário Elon Musk, com mais de 40 pessoas a bordo, incluindo médicos e enfermeiros, que cumpriram um período de isolamento de duas semanas e foram testados para o novo coronavírus antes do contacto com os astronautas.

Incrível como a generalidade dos media, reproduzindo à escala global a agenda neoliberal da privatização da investigação aeroespacial, apresenta como grande feito que uma empresa privada tenha conseguido alcançar, em 2020, o que a NASA fazia, de forma rotineira, nos anos 60 e 70 do século XX.

Depois disso, a NASA assumiu a liderança tecnológica nas viagens espaciais, com o uso dos vaivéns, naves que aterravam em segurança, não no mar, mas numa pista em terra como um vulgar avião, podendo ser posteriormente reutilizadas.

Acredito que possa ter sido um sucesso para a empresa em causa, que agora valorizará acções na bolsa e terá portas abertas a novos negócios e investimentos. Do ponto de vista científico e tecnológico os progressos do visionário Musk são na realidade um retrocesso de mais de 50 anos.

Do Estado-papão ao Estado-papá

januario-torgal-ferr.JPGEm entrevista à Visão, Januário Torgal Ferreira discorre com clareza e lucidez sobre o conturbado tempo em que vivemos. E fala, com a frontalidade cordata que lhe é habitual, de algumas carecas que a pandemia destapou: é o caso de muitos neoliberais da nossa praça que, perante as dificuldades trazidas pela crise, rapidamente mudaram a agulha no seu discurso. E se antes queriam menos Estado, agora são os primeiros a exigir a salvação estatal dos seus negócios. E quanto aos bancos, salvos da ruína à custa do contribuinte, que contributo estarão dispostos a dar agora para a salvação colectiva?…

Para quem, como eu, sempre defendeu um Estado reformista, de índole social-democrata, e passou a vida a ouvir receitas liberais e neoliberais, ver tanta gente a reclamar o apoio do Estado até dá vontade de rir! Eram tantos a berrar “chega de Estado, basta de Estado” e agora é vê-los, nus e desgraçados, de roupinha nas mãos, a virarem-se para o Estado e a dizer: “Ó papá, salve-nos!” Na hora da penúria, aqueles que gritaram “nada com o Estado, tudo contra o Estado” são os primeiros a lembrar-se dele. Espero que o Estado seja, sobretudo, corretor de injustiças e desigualdades, e não sirva apenas para dar dinheiro. Um Estado justo e com sentido de equidade tem de ser pedagogo. O equilíbrio entre o papel do Estado e a nossa livre decisão é saudável, mas é preciso que aqueles que mais têm façam a justa distribuição antes de virem chorar o apoio do Estado.

Nas crises, todas elas, nunca faltou dinheiro para os bancos. E todos pagamos as crises financeiras. Noutros momentos, não tem havido idêntica atitude por parte dos bancos em relação à sociedade. Há até remunerações e reformas no setor bancário, vindas de outras eras, que hoje são completamente injustificadas para bem da nossa sanidade social. Para haver justiça e equilíbrios sociais, alguém tem de perder alguma coisa ou deixar, pelo menos, de ter a tentação de acumular ou ganhar tudo. Tenho assistido a muitas atitudes de ganância, fruto de uma relação absurda com o dinheiro. O capitalismo tem sido fonte de grandes tragédias sociais. Mas as crises têm de ser pagas por todos.

Na entrevista, que merece ser lida na íntegra, há uma nota de optimismo que perpassa o presente sombrio e as nuvens negras que se perfilam no horizonte. As dificuldades e o isolamento impostos pela pandemia convidam à reflexão e à mudança de hábitos, modos de vida, mentalidades. O bispo emérito das Forças Armadas tenta pensar positivo…

Na minha linguagem, ainda acredito que as pessoas querem ser mais santas do que pecadoras. Mas receio que, passado o efeito dos murros no estômago, voltem as tentações. O dinheiro é insidioso, totalitário e omnipresente. Como já disse, fizeram-se grandes fortunas no meio dos escombros. E depois, nestas alturas, há também o grande cortejo dos hipócritas. Mas isto não é o fim da História. E os seus ventos sopram mais no sentido da humanização das nossas sociedades.

Não aprenderam nada

covid-recessao.jpgAs medidas anunciadas por Costa de “ajuda às famílias e empresas” linhas de crédito, com juros, inclusivé nas moratórias de crédito à habitação para famílias, tudo com juros. Não são ajudas – são um novo resgate bancário, pago com as pensões dos portugueses. A isto junta-se a redução da TSU para as empresas, que é a parte dos empresários para a Segurança Social que deixa de ser paga ou é reduzida; e o Lay off, pago pela Segurança Social (reformas e pensões dos idosos e reformados), para mandar os trabalhadores para casa, com cortes salariais. Se Costa não tivesse anunciado este pacote de medidas, supostamente para ajudar “famílias e pequenas empresas” estas empresas, todas dependentes da Banca até para viverem 15 dias, iam entrar em incumprimento com a Banca, e a Banca ia falir. Sim, vivemos num país onde as empresas não conseguem sobreviver 15 dias sem a Banca – são na verdade empresas que só existem não porque são empreendedores, mas porque vivem dependentes da Banca. Um pequeno café de aldeia mandou os trabalhadores para casa e paga-lhes o salário completo 2 meses. A Padaria Portuguesa, com dezenas de lojas, manda-os para casa em Lay-off e pede que a nossa reforma e pensão e serviços públicos lhes pague as dívidas à Banca, delapidando a Segurança Social.

As famílias não foram ajudadas – há milhares de despedimentos, e pode-se, com esta lei de Costa, fazer lay off e continuar a despedir. As pequenas empresas também não foram ajudadas, porque estas medidas só conseguem proteger as grandes. As outras não têm condições de se endividar, estão apenas à espera do fim – é isso que esta lei permite, aguardar pelo fim. O fundo das reformas dos nossos idosos – que supostamente Costa trata bem, e o Ministro holandês mal – vai para o poço, desaparecer, e a Segurança Social falir. O esquema piramidal financeiro mantém-se, salvo. Os trabalhadores ficam na miséria, as empresas despedem com o auxílio da reforma dos idosos, e as grandes aguardam, sem fazer pagamentos, com os lucros e dividendos protegidos, acumulados, para vir ao mercado daqui a uns meses comprar as pequenas empresas falidas e oferecer aos trabalhadores metade do salário. Tudo isto com o uso das reformas também de médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros, e professores, a quem farão elogios públicos, enquanto cortam nas reformas, porque “não há dinheiro”. Não aprenderam nada, com 2008.

Raquel Varela denuncia, certeiramente, a hipocrisia das “ajudas” que o Governo, sob a batuta da ortodoxia neoliberal e monetarista que continua a comandar as políticas europeias, se prepara para impor em Portugal.

Na verdade, se são as famílias que perdem empregos e rendimentos e as pequenas empresas que a crise deixa com a corda na garganta, faria todo o sentido apoiar directamente quem está em dificuldades. Até porque, ao saldarem as suas dívidas e comprarem o que necessitam, esse dinheiro acaba por circular por toda a economia, beneficiando também, e como sempre, as grandes empresas, os bancos e até o Estado.

Financiar directamente os grandes, delapidando os cofres públicos e os fundos da segurança social, será apenas repetir a longa e desatrosa recessão que se seguiu à crise de 2008: a estagnação de uma economia atolada em dívida, a par da fuga de capitais e do fortalecimento da especulação financeira e dos grandes grupos económicos.

Por detrás da desejada “união nacional” na guerra colectiva contra o coronavírus, subsiste o eterno conflito de interesses entre uma elite gananciosa e predatória, para quem a crise de saúde pública é apenas mais uma oportunidade de continuar a enriquecer, e a generalidade dos cidadãos, que querem preservar a sua saúde sem alienar o seu futuro. Em vez de consensos de regime legitimados por “guerras ao vírus” ou estados de emergência, precisamos, agora e sempre, de denúncia e pensamento crítico, de discussão aberta e ideias alternativas.

Hoje tenho a certeza, inabalável, que o maior mal que pode atingir uma sociedade é a ausência de contraditório, de pensamento crítico, de alternativa, podemos resistir a uma quarentena, não podemos resistir à ausência de reflexão crítica. Esta crise, sem pensamento crítico e políticas alternativas, vai reforçar a tragédia em que o país está, e não ajudar a sair dela. Era a hora de nacionalizar a banca sob controlo público e resgatar as pequenas empresas e os trabalhadores; e nas grandes empresas, usar os activos para pagar a Segurança Social e reforçá-la. Em vez disso caminhamos para mais do mesmo – qualquer manual de economia básico sabe como funcionam as linhas de crédito numa economia de PMEs como a nossa. Rio já disse que apoia Costa nesse caminho desastroso.

Podemos e devemos discordar, debater abertamente. Não podemos deixar de informar, pensar e projectar cenários realistas. É o que se espera de todos aqueles que têm presença e voz públicas. Sem contraditório não há democracia.

Leituras: Byung-Chul Han – A emergência viral e o mundo de amanhã

covid19A Europa está fracassando. Os números de infectados aumentam exponencialmente. Parece que a Europa não é capaz controlar a pandemia. Na Itália, morrem diariamente centenas de pessoas. Retiram os respiradores dos pacientes idosos para socorrer os jovens. Porém, também se podem observar ações inúteis. O fechamento de fronteiras é evidentemente uma expressão desesperada de soberania. Nos sentimos de volta à época da Monarquia. O soberano é quem decide sobre o estado de exceção. É soberano aquele que fecha fronteiras. Mas isso é uma exibição vazia de soberania que não serve para nada. Seria muito mais útil cooperar intensamente dentro da zona do Euro do que fechar fronteiras a esmo. Entretanto, também a Europa decretou a proibição de entrada a estrangeiros: um ato totalmente absurdo diante do fato de que a Europa é precisamente aonde ninguém quer vir. Quando muito, seria mais sensato decretar a proibição de saída de europeus, para proteger o mundo da Europa. Afinal, a Europa neste momento é o epicentro da pandemia.

Em comparação com a Europa, que vantagens oferece o sistema da Ásia que resultem eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos como Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan ou Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado. E não só na China, mas também na Coreia ou no Japão a vida cotidiana está organizada muito mais estritamente do que na Europa. Sobretudo, para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Acreditam que no big data poderia encontrar-se um potencial enorme para defender-se da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas apenas pelos virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo também pelos informáticos e os especialistas em macrodados. Uma mudança de paradigma da qual a Europa ainda não se deu conta. Os apologetas da vigilância digital proclamariam que o big data salva vidas humanas.

A consciência crítica em relação à vigilância digital na Ásia é praticamente inexistente. Quase não se fala de proteção de dados, inclusive em Estados liberais como Japão e Coreia. Ninguém se incomoda com o frenesi das autoridades por recompilar dados. Entretanto, a China introduziu um sistema de crédito social inimaginável para os europeus, que permite uma avaliação ou uma análise exaustiva dos cidadãos. Cada cidadão deve ser avaliado de acordo com sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido a observação. Se controla cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais. De quem avança com o semáforo no vermelho, de quem interage com críticos do regime ou de quem posta comentários críticos nas redes sociais: são tirados pontos. Então, a vida pode chegar a ser muito perigosa. Ao contrário, a quem compra pela internet alimentos saudáveis ou lê jornais afins com o regime, são dados pontos. Quem tem pontos suficientes obtém um visto de viagem ou créditos baratos. Ao contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos poderia perder seu trabalho. Na China é possível esta vigilância social porque se produz um irrestrito intercâmbio de dados entre os provedores de Internet e de telefonia móvel e as autoridades. Praticamente não existe proteção de dados. No vocabulário dos chineses não aparece o termo “esfera privada”.

Na China há 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas providas de uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam inclusive as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Estas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer cidadão nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital resultou agora ser sumamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante, todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus telefones celulares. Não à toa, o sistema sabe quem estava sentado onde no trem. As redes sociais contam que inclusive estão se usando drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena, um drone se dirige voando a ele e lhe ordena regressar a sua casa. Talvez ainda lhe imprima uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas à qual, pelo visto, não se oferece resistência na China.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han demonstra a superior eficácia dos regimes autoritários e das democracias musculadas do Oriente, comparativamente com o demoliberalismo europeu, na contenção da pandemia do novo coronavírus. Enquanto a secular tradição de obediência e a confiança nos prodígios da tecnologia e do big data parecem apresentar resultados na luta contra o covid-19, a Europa experimenta sem grande sucesso as velhas receitas do fecho de fronteiras, das quarentenas voluntárias e do isolamento dos infectados.

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O fracasso das charter schools

As charter schools são um dos modelos de escola mais defendidos e acarinhados pelo neoliberalismo educativo. Especialmente populares nos EUA e no Reino Unido, trata-se de escolas privadas que se propõem prestar serviço público, recebendo fundos estatais para assegurarem o ensino gratuito. Entre nós, há um equivalente aproximado nas escolas com contrato de associação, na acepção mais abrangente que tiveram durante o governo de Passos Coelho, quando se tentou substituir o carácter supletivo destas escolas por um modelo concorrencial com o ensino público.

As charter schools baseiam-se nos dogmas liberais que garantem que o privado é, por natureza, melhor a gerir e que a liberdade de escolha potencia a concorrência, permitindo às famílias eleger as melhores escolas para os seus filhos. Em teoria, isto elevaria a qualidade do sistema educativo, obrigando as piores escolas a melhorarem os seus resultados ou, não sendo capazes de o fazer, a fechar portas.

Na prática, as charter schools revelam-se, para empresários ambiciosos e sem escrúpulos, um excelente negócio: desejoso de facilitar a vida aos empreendedores, o Estado liberal cede gratuitamente os edifícios escolares aos novos projectos privados, que os usam livremente ao serviço do seu negócio ou, quando este deixar de render, os podem vender a outros investidores.

Duplamente penalizados, ficam os contribuintes: financiaram primeiro a construção das escolas e, depois, a sua compra por privados. Pagaram duas vezes por um património que, no final, deixou de lhes pertencer.

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Quanto a resultados educativos, as charter schools têm-se revelado um rotundo fracasso: aumentam a desigualdade e acentuam os guetos educacionais. São, além disso, um modelo dispendioso, onde se gastam rios de dinheiro sem o retorno correspondente. Nos EUA, o dinheiro fácil que é canalizado para estes projectos e a falta de controlo sobre a forma como é gasto tem conduzido a sucessivos escândalos financeiros cuja factura é invariavelmente paga pelos contribuintes.

Um modelo falhado, mas que os arautos do neoliberalismo e da liberdade de escolha à portuguesa continuam a defender…

Vai estudar, Greta…

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O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, sugeriu hoje à ativista pelo clima Greta Thunberg que vá estudar Economia, defendendo que não é preciso deixar de utilizar combustíveis fósseis.

Ao repto do governante norte-americano poderia facilmente contrapor-se a ignorância e a insensibilidade das elites políticas e financeiras em relação ao impacto ambiental brutal e irreversível do actual capitalismo neoliberal, desregulado e hiperconsumista.

É verdade que a nossa casa comum já está a arder, como diz a activista sueca – literalmente, como é bem visível nos incêndios australianos – mas também é certo que enquanto os interesses dos donos do mundo, que querem continuar a enriquecer, não forem travados, é ilusão pensar-se que alguma coisa de substancial poderá mudar na forma como irremediavelmente vamos destruindo o único planeta que temos para viver.

Uma resposta à altura ao secretário de Estado foi dada, via Twitter, por Yanis Varoufakis:

O que diz Mnuchin, infelizmente, faz sentido. Se Greta fosse estudar economia convencional, passaria vários semestres a estudar modelos de mercados onde nem uma catástrofe climática nem uma crise económica são possíveis. É tempo de transformar tanto a política económica como a economia.

És liberal e não sabias…

ribadouro[1]Duas dezenas de escolas suspeitas de subir notas

Inspeção-Geral da Educação abriu mais dois processos disciplinares no Externato Ribadouro e tem cerca de duas dezenas de averiguações em curso. Inflação de notas subverte acesso ao ensino superior

Se há quem queira e possa pagar pelas notas que, por mérito, não conseguiria obter, qual é o problema? – perguntarão alguns.

Se sou eu que pago, porque é que não posso ter a nota que quero?

Se, para o neoliberalismo dominante, os mercados satisfazem todas as necessidades dos indivíduos, porque é que as notas escolares não podem ser um bem transaccionável?

Afinal de contas, entre escolas privadas que vendem notas e alunos e famílias que as compram, há muita gente que é liberal e não sabia…

Leituras: Joseph Stiglitz – O fim do neoliberalismo e o renascimento da história

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No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um famoso ensaio chamado “The End of History?”. Ele argumentou que a queda do comunismo eliminaria o último obstáculo que separava o mundo inteiro do seu destino de democracia liberal e economia de mercado. Muita gente concordou.

Hoje, à medida que enfrentamos uma retirada da ordem global liberal baseada em regras, com governantes autocráticos e demagogos à frente de países que contêm bem mais da metade da população do mundo, a ideia de Fukuyama parece peculiar e ingénua. Mas reforçou a doutrina económica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos.

A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados desenfreados como sendo o caminho mais seguro para a prosperidade partilhada está na unidade dos cuidados intensivos nos dias de hoje. E com razão. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou uma mera correlação. O neoliberalismo prejudica a democracia há 40 anos.

A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu próprio destino, tal como Dani Rodrik da Universidade de Harvard explicou de forma tão clara e tal como afirmo nos meus recentes livros Globalization and Its Discontents Revisited e People, Power, and Profits. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se o principal candidato à presidência num mercado emergente “perdesse a graça” em Wall Street, os bancos retirariam o seu dinheiro do país. Os eleitores enfrentavam então uma escolha dolorosa: ceder a Wall Street ou enfrentar uma grave crise financeira. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos do país.

Mesmo nos países ricos, era dito aos cidadãos comuns: “Vocês não podem defender as políticas que desejam” – fosse ela a proteção social adequada, os salários decentes, a tributação progressiva ou um sistema financeiro bem regulamentado – “porque o país perderá competitividade, os empregos desaparecerão e vocês sofrerão”.

Tanto nos países ricos como nos pobres, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam a um crescimento económico mais rápido e que os benefícios iriam ser repartidos para que todos, inclusive os mais pobres, ficassem em melhor situação. Para se chegar a esse patamar, os trabalhadores teriam, contudo, de aceitar salários mais baixos e todos os cidadãos teriam de aceitar cortes em importantes programas governamentais.

As elites alegaram que as suas promessas eram baseadas em modelos económicos científicos e na “investigação com base em provas”. Bem, após 40 anos, os números estão aí: o crescimento diminuiu e os frutos desse crescimento foram na sua esmagadora maioria para um punhado que está no topo. À medida que os salários estagnavam e o mercado de acções subia, o rendimento e a riqueza espalhavam-se para os mais ricos, em vez de se espalharem para os mais pobres.

Como é que a restrição salarial – para alcançar ou manter a competitividade – e a redução dos programas governamentais podem resultar em padrões de vida mais elevados? Os cidadãos comuns sentiram como se lhes tivessem vendido uma lista de artigos. Estavam certos em sentirem-se enganados.

Agora estamos a enfrentar as consequências políticas deste grande artifício: desconfiança das elites, da “ciência” económica em que se baseava o neoliberalismo e do sistema político corrompido pelo dinheiro que tornou tudo isso possível.

A verdade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiães eram totalmente intolerantes à dissidência. Os economistas com perspectivas heterodoxas eram tratados como hereges a ser evitados ou, na melhor das hipóteses, desviados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo continha poucas semelhanças com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Tal como George Soros enfatizou, Popper reconheceu que a nossa sociedade é um sistema complexo e em constante evolução, no qual quanto mais aprendemos, mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.

Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a que vivemos em 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma inundação em 500 anos – um fenómeno insólito que nenhum modelo poderia ter previsto. Ainda hoje, os defensores dessas teorias recusam-se a aceitar que a sua crença nos mercados auto-regulados e a sua rejeição de externalidades como inexistentes ou sem importância levaram à desregulamentação que foi essencial para alimentar a crise. A teoria continua a sobreviver, com tentativas ptolomaicas de ajustá-las aos factos, o que atesta a realidade de que as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm uma morte lenta.

Se a crise financeira de 2008 não conseguiu fazer-nos perceber que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria conseguir: o neoliberalismo acabará literalmente com a nossa civilização. Mas também está claro que os demagogos que querem que viremos as costas à ciência e à tolerância só pioram as coisas.

O único caminho a seguir, o único caminho para salvar o nosso planeta e a nossa civilização, é um renascimento da história. Temos de revitalizar o Século das Luzes e reafirmar o nosso compromisso de honrar os seus valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e democracia.

Joseph Stiglitz, O fim do neoliberalismo e o renascimento da históriaproject-syndicate.org

Chega para lá!…

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André Ventura, do Chega, vai sentar-se o mais à direita possível do hemiciclo, na segunda fila, isto porque os deputados únicos não têm assento na primeira fila. O mesmo acontece com Joacine Katar Moreira, do Livre, que se sentará na segunda fila, entre o PCP e o PS, e com João Cotrim Figueiredo, do Iniciativa Liberal, que se vai senta na segunda fila, ao lado do PSD e do CDS.

Numa nota enviada ao Expresso, o Iniciativa Liberal explica que “as conclusões da conferência de líderes demonstram uma vez mais o sentimento de propriedade que alguns têm da democracia. Tomam decisões sobre deputados que não estão presentes e, neste caso, até ignorando uma vontade demonstrada publicamente”.

O IL, que se estreia no Parlamento com a eleição de João Cotrim Figueiredo por Lisboa, queria ficar “o mais distante dos extremos“, uma vontade que promete voltar a frisar “assim que os trabalhos começarem”.

“O mundo evoluiu, mas alguns continuam presos a estereótipos da revolução francesa”. O hemiciclo, “assim como a política portuguesa, precisa de se renovar”, concluem os liberais, na nota enviada ao semanário.

O Chega também critica a distribuição dos assentos, não pela localização no espectro, mas sim pelo recuo do lugar. André Ventura terá um lugar no extremo direito do hemiciclo, mas sem direito a primeira fila, como costuma acontecer com os deputados únicos.

André Ventura disse ao Expresso que esta decisão é “vergonhosa”. “Se pudessem, colocavam o Chega cá fora na escadaria.” O deputado adiantou ainda que o partido deveria também ter direito a voto em conferência de líderes.

Reveladoras as reacções dos pequenos partidos de direita que passaram a ter assento parlamentar.

Apesar de tudo mais honesto o deputado do Chega, que assume a posição de extrema-direita no espectro partidário, reclamando apenas o lugar na fila da frente.

Já a Iniciativa Liberal tem outras ambições, dispostos a explorar o filão que a reciclagem do discurso liberal e a imagem de uma direita de cara lavada pode representar. Basta ver a rápida ascensão eleitoral que teve o Ciudadanos em Espanha ou mesmo a subida de Macron à presidência francesa.

Rejeitam, porque sabem que isso os pode prejudicar, a velha dicotomia entre esquerda e direita. Apesar de ideologicamente estarem muito bem identificados, não querem que esse facto lhes limite o potencial de crescimento. Sabem que, com o declínio dos partidos tradicionais de direita e o inevitável desgaste da governação à esquerda, podem pescar votos e apoios tanto dum lado como do outro.

Há, no entanto, um velho teste na política que, tal como o do algodão, não engana: quem diz que não é de esquerda nem de direita… é de direita!…

A quem interessam os “jovens talentos” nas escolas portuguesas?

teachfp– Quem são estes “jovens talentos” que o Ministério da Educação terá autorizado a entrar e permanecer nas salas de aula durante a atividade letiva, após frequentarem 5 semanas um Instituto de Verão?

– Que formação tiveram e quem a certificou e avaliou? Os mesmos que tão exigentes são para com os professores?

– Tiveram esses “jovens talentos”, que irão lidar com as crianças e jovens, de apresentar certidão de registo criminal como todos os trabalhadores, docentes e não docentes, das escolas?

– Que compromissos assumiu o Ministério da Educação com esta organização, a ponto de lhes abrir as portas das salas de aula das escolas públicas?

– Qual o grau de envolvimento da Direção-Geral de Educação, cujo logótipo surge em documentos desta organização?

– Por que também surgem os logótipos dos programas de financiamento comunitário “Portugal 2020” e “POCH”?

Já tinha escrito há uns dias sobre os “jovens talentos” que se disponibilizam a ir, para escolas degradadas, brincar aos professores. Não conhecia, confesso, pormenores acerca da Teach For Portugal, a filial portuguesa da multinacional com origem nos EUA, mas o que li nas entrelinhas da apresentação do projecto logo me cheirou a esturro.

Pois bem, a Fenprof, que agora interpela o ME acerca de mais um”projecto” que está a ser introduzido nas escolas pela porta do cavalo, investigou o historial de uma organização internacional que prossegue a agenda neoliberal para a Educação: formar mão-de-obra barata mas supostamente qualificada para alimentar negócios na área educativa. Uma leitura que se recomenda, instrutiva e bastante esclarecedora.

Quanto ao ME, o vergonhoso patrocínio que, em final de mandato, está a dar a esta iniciativa, reconheça-se que ele constitui um digno remate para a série de borradas que tem vindo a fazer no que diz respeito a pretensas “inovações” educativas. Lamentavelmente, podemos dizer que não nos surpreende.

Nos Estados Unidos da América surgiu, há alguns anos, a organização Teach for America que se dispunha a recrutar diplomados de ‘alto calibre’ para ensinar em escolas socialmente desfavorecidas. Esta organização desenvolveu uma narrativa focada em “diplomados de alta qualidade” a trabalhar nas áreas de maior complexidade social onde, alegadamente, seria mais difícil recrutar professores devidamente qualificados. De acordo com aquela organização, os jovens que fossem recrutados receberiam um treino rápido antes de começarem a trabalhar e, depois, continuariam a treinar “no trabalho”. O princípio seria proporcionar aos jovens uma certa “experiência de trabalho”, na qual estes iriam adquirir algumas competências úteis de emprego para, posteriormente, abandonando o ensino, se dedicarem ao trabalho na sua área específica de formação.

Os sindicatos de professores rapidamente denunciaram esta situação que perverteu o conceito de professor, como profissional formado e qualificado para o exercício de determinadas funções. Rapidamente, porém, alguns governos estaduais se aproveitaram desta mão de obra não qualificada mas barata, sendo exemplo mais negativo o que aconteceu em Nova Orleães depois de o furacão Katrina ter devastado largas áreas da região. O governo do Distrito de Nova Orleães fechou todas as escolas, despedindo os professores, e quando as reabriu foi como escolas Charter (as tais, cujo modelo já foi promovido no nosso país em iniciativas da Fundação Francisco Manuel dos Santos), contratando apenas alguns docentes e substituindo a maioria dos anteriores por gente recrutada pela Teach for America.

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