Liberalismo para totós… e colunistas aperaltados

O boneco já é um clássico das redes sociais, mas serve bem para compreender uma realidade simples que muitos fazem por desentender.

Basta substituir o imigrante pelo trabalhador desempregado ou em lay off forçado por causa da pandemia e o operário pelo “burguês em teletrabalho”, expressão insultuosa para designar o trabalhador que não ficou privado de emprego nem do seu rendimento habitual porque, mesmo confinado, continuou a trabalhar.

Quanto ao verdadeiro burguês, o dono e distribuidor das bolachas, esse manteve, e em muitos casos a aumentou, o seu rendimento. Continua a ser proprietário de meios de produção e redes de distribuição, podendo explorar a força de trabalho, tirando partido não só das novas oportunidades abertas pela globalização e pela economia digital, como das carências e novas necessidades trazidas pela pandemia. E, claro, continua a ter todas as facilidades para expatriar lucros para paraísos fiscais e recorrer à contabilidade criativa e às leis feitas à medida para contornar e minimizar as obrigações fiscais.

Redesenhado à medida da recente polémica nas redes sociais, o boneco poderia incluir um quarto elemento, representando uma pequena burguesia petulante e deslumbrada com a possibilidade de, papagueando umas idiotices, chegar às primeiras páginas dos jornais. Aparentemente, pensam pela sua cabeça, mas o que dizem e escrevem só é amplificado porque convém aos donos das bolachas.

Se uma coligação de interesses económicos e políticos criou a economia de casino que leva hoje a concentração de riqueza a níveis inauditos, os académicos aperaltados que transformaram as faculdades de Economia em escolas de negócios ao serviço dos senhores do mundo são objectivamente seus serventuários e aliados. Quando recorrem aos media para nos tentar convencer que devemos partilhar melhor as migalhas para que os pobres não morram de fome enquanto os ricos continuem a engrossar o seu bolo, a mensagem não é inocente, muito menos isenta. E é isso que precisa de ser intransigentemente denunciado.

Leituras: A escola da ignorância – II

No post anterior ressalva-se a necessidade de preservar, no ensino massificado que melhor se ajusta às economias globalizadas do século XXI, nichos de qualidade que permitam a reprodução das elites políticas e económicas. Contudo, para a grande massa da população, bastarão os conhecimentos práticos, ou nem isso: a educação “inovadora” ou “para a cidadania” pode ser apenas uma forma pouco sofisticada de cultivar a ignorância…

Quanto às competências técnicas médias – a Comissão Europeia estima que têm “uma esperança de vida de cerca de dez anos, e que o capital intelectual se desvaloriza uns 7% por ano, o que está associado a uma redução correspondente na eficiência laboral” – o problema é um pouco diferente. Em suma, é uma questão de conhecimento descartável, tão descartável como os humanos que o detêm temporariamente, na medida em que, sendo baseado em competências de rotina e adaptado a um contexto tecnológico preciso, deixa de estar operacional assim que o seu próprio contexto é ultrapassado. No entanto, desde a revolução da informação, estas são competências que, de uma perspectiva capitalista, apenas apresentam vantagens. Um conhecimento utilitário e natureza principalmente algorítmica, ou seja, que não requer necessariamente nem a autonomia nem a criação do utilizador, é um conhecimento que, em condições extremas, pode ser aprendido sozinho, ou seja, em casa, em frente de um computador com o programa educativo correspondente. Em geral, no caso de competências intermédias, graças à utilização do ensino à distância multimédia, a classe dominante será capaz de matar dois coelhos de uma cajadada. Por um lado, as grandes empresas (Olivetti, Philips, Siemens, Ericsson, etc.) estarão destinadas a “vender os seus produtos no mercado da educação contínua regido pelas leis da oferta e da procura”. Por outro lado, dezenas de milhares de professores (sabe-se que o seu financiamento representa a maior parte das despesas do orçamento da educação) serão transformados em algo completamente inútil e poderão assim ser despedidos, o que permitirá aos Estados investir a factura salarial economizada em operações mais rentáveis para as grandes empresas internacionais.

Evidentemente, os mais numerosos permanecem; aqueles que o sistema pretende manter desempregados (ou empregados de forma precária e flexível, por exemplo, nos vários empregos-lixo) em parte porque, de acordo com os termos escolhidos pela OCDE, “nunca constituirão um mercado lucrativo” e porque a sua “exclusão social se tornará mais aguda à medida que os outros continuarem a progredir”. É aqui que o tittytainment terá de encontrar o seu nicho. Efectivamente, é óbvio que a custosa transmissão de conhecimentos reais, e portanto críticos, bem como a aprendizagem de comportamentos cívicos básicos ou mesmo simplesmente a promoção da rectidão e honestidade, não têm qualquer interesse para o sistema. De facto, em certas circunstâncias políticas, podem mesmo constituir uma ameaça à sua segurança. Obviamente que é nesta escola que a ignorância em todas as suas formas possíveis deve ser ensinada. No entanto, esta não é uma tarefa fácil e, até agora, para além de alguns progressos, os professores tradicionais não foram adequadamente formados a este respeito. A escola da ignorância exigirá a reeducação dos professores, ou seja, forçando-os a “trabalhar de forma diferente”, sob o despotismo iluminado de um exército poderoso e bem organizado de especialistas em “ciências da educação”. Obviamente, a tarefa fundamental destes peritos será a de definir e impor (por todos os meios à disposição de uma instituição hierárquica para assegurar a submissão daqueles que dela dependem) as condições pedagógicas e materiais do que Debord chamou de “dissolução da lógica”: por outras palavras, “a perda da possibilidade de reconhecer instantaneamente o que é importante e o que é acessório ou deslocado; o que é incompatível ou, pelo contrário, o que poderia ser complementar; tudo o que tal consequência implica e o que, ao mesmo tempo, impede”. Debord acrescenta que um estudante formado desta forma se encontrará “desde o início, ao serviço da ordem estabelecida, mesmo que a sua intenção possa ter sido absolutamente contrária a este resultado”. Na essência, ele conhecerá a língua do espectáculo, já que é a única com a qual estará familiarizado: a língua com a qual terá sido ensinado a falar. Sem dúvida que quererá mostrar-se inimigo da sua retórica, mas usará a sua sintaxe.

[…]

Naturalmente, os objectivos atribuídos ao que resta da escola pública pressupõem uma dupla transformação decisiva a mais ou menos longo prazo. Por um lado, haverá uma transformação dos professores, que terão de abandonar o seu estatuto actual de sujeitos supostamente detentores de um saber, para se tornarem animadores de diferentes actividades de valor ou transversais, saídas pedagógicas ou fóruns de discussão ( evidentemente concebidos de acordo com o modelo dos programas de debate televisivo); para que a sua utilização seja rentável, serão também estes animadores os encarregados de diferentes tarefas materiais ou de reforço psicológico. Por outro lado, a escola tornar-se-á um espaço vivo, democrático e alegre, ao mesmo tempo um viveiro de cidadania – onde a animação das festividades (aniversário da abolição da escravatura, nascimento de Victor Hugo, Halloween…) poderá estar a cargo das associações de pais mais desejosos de se envolverem, com a rentabilidade que isso implica – e um local liberalmente aberto a todos os representantes da cidade (militantes de associações, militares reformados, homens de negócios, malabaristas ou faquires, etc.) ) bem como todos os bens tecnológicos ou culturais que as grandes marcas, convertidas em parceiros explícitos do “acto educativo”, consideram apropriado vender aos vários participantes. Penso também que surgirá a ideia de colocar alguns dispositivos electrónicos muito simples na entrada deste grande parque de diversões escolares para detectar a possível presença de objectos metálicos.

Jean-Claude Michéa, La escuela de la ignorancia y sus condiciones modernas, Madrid, 2002.

Leituras: A escola da ignorância – I

Impressionante, ao ler/reler textos de há duas décadas atrás, perceber como a nova ordem educativa das competências, flexibilidades e inclusões já se encontrava então tão claramente desenhada nos seus objectivos…

Em 1979, Christopher Lasch, um dos espíritos mais penetrantes deste século, descreveu o declínio do sistema educativo americano nestes termos:

“A educação em massa, que prometia democratizar a cultura, anteriormente restrita às classes privilegiadas, acabou por embrutecer os próprios privilegiados. A sociedade moderna, que conseguiu um nível de educação formal sem precedentes, deu também origem a novas formas de ignorância. É cada vez mais difícil para as pessoas dominar a sua língua de forma fluente e precisa, recordar os factos fundamentais da história do seu país, fazer deduções lógicas ou compreender textos escritos que não sejam rudimentares”.

[…]

Em Setembro de 1995, sob a égide da Fundação Gorbachev, “quinhentos importantes políticos, líderes económicos e cientistas” que se consideravam a si próprios a elite mundial, tiveram de reunir-se no Hotel Fairmont em São Francisco para confrontar os seus pontos de vista sobre o destino da nova civilização. Dado o seu objectivo, o fórum foi presidido por um desejo de alcançar a mais estrita eficácia: “Regras estritas obrigam todos os participantes a esquecer a retórica. Os oradores têm apenas cinco minutos para introduzir o tema: nenhuma intervenção durante os debates deve exceder dois minutos”. Uma vez definidos estes princípios de trabalho, a assembleia começou por reconhecer, como evidência que não merecia ser discutida, que “no próximo século, dois décimos da população activa seriam suficientes para sustentar a actividade da economia mundial. Numa base tão sincera, o principal problema político que o sistema capitalista teria de enfrentar nas próximas décadas pôde ser formulado com todo o seu rigor: como poderia a elite mundial manter a governabilidade dos restantes oitenta por cento da humanidade, cuja inutilidade tinha sido programada pela lógica liberal?

Após o debate, a solução que acabou por se impor como a mais razoável foi a proposta por Zbigniew Brzezinski sob o nome de tittytainment. Com este termo, tratava-se simplesmente de definir um “cocktail embrutecedor mas suficientemente nutritivo para manter a população frustrada do planeta de bom humor”. Esta análise cínica e desdenhosa tem a vantagem óbvia de definir, com toda a clareza desejável, as especificações que a elite mundial atribui à escola do século XXI. A partir desta análise, é possível deduzir, com uma margem de erro mínima, as formas a priori de qualquer reforma destinada a reconfigurar o aparelho educativo de acordo com os únicos interesses políticos e financeiros do Capital Internacional. Entremos, por um momento, neste jogo.

Antes de mais, é óbvio que um sistema deste tipo deve manter um sector de excelência, concebido para formar as várias elites científicas, técnicas e de gestão ao mais alto nível. Estas serão cada vez mais necessárias à medida que a guerra económica mundial se intensifica.

Estes pólos de excelência, com condições de acesso necessariamente muito selectivas, terão de continuar a transmitir rigorosamente (ou seja, essencialmente, seguirão provavelmente o modelo da escola tradicional) não só os saberes sofisticados e criativos, mas também (seja qual for a reticência positivista deste ou daquele defensor do sistema) o mínimo de cultura e espírito crítico sem o qual a aquisição e o domínio efectivo de tais conhecimentos carece de sentido e, acima de tudo, de qualquer utilidade real.

Continua…

Jean-Claude Michéa, La escuela de la ignorancia y sus condiciones modernas, Madrid, 2002.

O capitalismo cognitivo

Uma interessante entrevista com a filósofa catalã Marina Garcés ajuda-nos a desconstruir a imensa fraude que se esconde em chavões como flexibilidade ou inovação, com os quais se pretende dar forma à escola dita do século XXI. Quando OCDE e Banco Mundial, multinacionais tecnológicas e fundações milionárias recuperam, mais no discurso do que nas práticas, pedagogias alternativas inventadas no século XX, é óbvio que o que está em causa não é qualquer revolução educativa. Trata-se de uma nova faceta do sistema capitalista – capitalismo cognitivo, assim lhe chama Garcés – que tenta formatar a Educação, pondo-a ao serviço do capitalismo neoliberal e globalizado dominante nos nossos tempos.

A verdade é que, enquanto discutimos metodologias educativas, não questionamos as transformações económicas e sociais que impõem os novos paradigmas educativos. Deveríamos debater e decidir democraticamente, isso sim, os modelos económicos e sociais que queremos para o nosso futuro. E não a pedagogia que melhor se adapta as inevitabilidades que nos querem impor.

Fica um excerto da entrevista, traduzido da versão original em castelhano, e o convite para ler mais, aqui.

Denuncia a forma como o sistema se apropriou da linguagem da pedagogia renovadora. Soa um pouco a O Leopardo, uma mudança aparente para que tudo continue na mesma.

O neoliberalismo incorporou conceitos que eram anteriormente típicos da crítica institucional e das experiências de transformação social. A luta contra as hierarquias, a rigidez… Estas lógicas – típicas do capitalismo industrial – extravasam no capitalismo cognitivo, um sistema baseado na flexibilidade e no movimento constante. Em pedagogia, a consequência é que certas práticas em tempos revolucionárias têm uma parte da sua linguagem e modos de funcionamento transferidos para os modelos hegemónicos.

A inovação como sinónimo de mudança vertiginosa, repleta de novidades tecno-metodológicas. Com uma azáfama contínua que nos impede de abordar questões fundamentais como a que coloca: como queremos ser educados?

É uma distracção que é em parte deliberada – uma vez que os mercados vêem uma oportunidade de negócio e mesmo de formatar esses futuros ainda por definir – e em parte procedente da desorientação do nosso tempo. Esconde-se a crise educativa, que é uma crise de civilização, está a ser encoberta, reduzindo o debate à metodologia e tornando difícil imaginarmo-nos em relação aos outros e com respeito a futuros partilhados. Transformámos o debate pedagógico em rivalidade e conflito entre receitas superficiais.

Nesta desorientação impõe-se em todas as áreas, incluindo a educativa, a mensagem de que tudo é demasiado complexo para ser compreendido. E que, em qualquer caso, as possíveis explicações têm data de validade.

Instalámo-nos no óbvio da incerteza. Tudo é incerto, complexo, demasiado rápido… E em vez de procurar as ferramentas para poder ler o que acontece, para decifrar a realidade, resignamo-nos a procurar respostas eficazes à mudança permanente e a treinar-nos para este objectivo. A realidade como mudança permanente é uma definição vazia de valores, relações, afectos, propósitos. E conduz a uma educação meramente adaptativa.

A ideia de que uma transformação profunda não é viável é imposta às escolas. Que o máximo a que podemos aspirar é a acatar o que chama servidão adaptativa perante um mundo em que a obsolescência e a incerteza são a norma.

A noção de servidão adaptativa é fundamental para compreender porque é que já não estamos em relações de obediência mecânica. É verdade que se mantêm algumas directrizes rígidas: horários, faixas etárias… Mas o importante é que se tenta reduzir a nossa capacidade de aprendizagem a uma flexibilidade codificada que aspira a soluções imediatas.

Para o aluno esta é uma mensagem desanimadora: tudo muda, mas tu não podes mudar nada.

Há alguns anos, algumas estudantes do ensino secundário perguntaram-me: “Como nos podemos comprometer com o nosso futuro? Respondi-lhes que comprometendo-se com o seu presente. Mas parece que o presente está anulado, que não é mais do que uma passagem, um local de circulação. O que esta actividade adaptativa não permite perceber é a relação causal entre o presente e o futuro, precisamente porque se toma como certo que tu não vais causar nada: és uma função dessa mudança, não um agente da mesma, um sujeito político.

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O valor do trabalho

pedro-prola

Não foi com a receita neoliberal da especulação e do lucro que enfrentámos a pandemia. Ela não foi combatida em todo o lado da mesma forma, mas os países mais bem sucedidos foram, de um modo geral, aqueles que dispõem de um sistema nacional de saúde universal, um Estado robusto e uma administração pública competente. O fim de tudo isto ainda vem longe, mas tarda o reconhecimento e a valorização dos trabalhadores da saúde e dos serviços essenciais. Como muito bem sintetiza Pedro Prola:

A OMS declarou a pandemia há 7 meses. Neste tempo, trabalhadores da saúde têm trabalhado incansavelmente e, após os aplausos diários nas janelas por todo o mundo terem acabado, continuam sem aumentos.

O fracasso do neoliberalismo ficou demonstrado durante a pandemia, mas ele permanece, como um morto-vivo. Milhões de pessoas entram na pobreza e na pobreza extrema, enquanto os mais ricos enriquecem.

A pandemia evidenciou a importância de funções sociais mal-remuneradas. a sociedade depende de trabalhadores que, muitas vezes, recebem o salário mínimo. ainda assim, continua a oposição da direita a aumentos reais de salário mínimo, demonstrando a injustiça do sistema.

O motivo pelo qual a direita se opõe aos aumentos de salário não é a preocupação meritocrática ou a capacidade do mercado em identificar as funções sociais mais importantes. É apenas porque, para aumentar o salário das pessoas na base, tem que se reduzir os lucros no topo.

Iniciativa Laboral

No dia em que a CGTP-Intersindical comemora os seus 50 anos, seja-me permitido assinalar aqui a importância do movimento sindical em todos os sectores do mundo laboral do século XXI.

Mais iniciativas laborais – em prol dos muitos que trabalham, criando a riqueza de que poucos usufruem – e menos iniciativas liberais, promotoras da desigualdade, da concentração da riqueza, da perpetuação da pobreza e da falta de oportunidades.

Como tão bem se exprime no inspirado boneco que encontrei aqui.

iniciativa laboral

O 11 de Setembro chileno: fascismo e neoliberalismo

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É habitual recordar, nesta data, os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, talvez o acontecimento que melhor simboliza a entrada no mundo globalizado e multipolar do século XXI. Pela minha parte, atribuo hoje maior actualidade o que se passou num outro 11/09, o de 1973: o golpe de Estado dos militares chilenos, apoiados pela CIA, contra o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. 

É importante recordar, não apenas o martírio do presidente e de milhares dos seus apoiantes, que acabaram por morrer na sequência do golpe ou nas prisões políticas da ditadura de Pinochet, mas também o carácter precursor do regime então instituído no Chile: um casamento quase perfeito entre fascismo e neoliberalismo. Sem liberdades políticas, o Chile foi o primeiro país a experimentar as amplas liberdades económicas preconizadas pela Escola de Chicago.

Uma receita que, apesar dos modestos resultados económicos e dos enormes custos sociais e políticos, teve e tem seguidores. No Brasil de Bolsonaro, por exemplo, olhares atentos detectam sinais evidentes de uma pinochetização do regime…

Com Pinochet no poder, o ideário neoliberal dos Chicago Boys não foi apenas defendido, mas rigorosamente implementado. As medidas reverteram uma série de iniciativas sociais colocadas em prática pelos governos de Eduardo Frei Montalva (1964-1970) e Allende (1970-1973), e suas consequências são sentidas ainda hoje.

“Esse projeto neoliberal radical precisa da violência para ser implementado. O exemplo chileno é o mais emblemático”, afirma Joana Salém, doutoranda em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP).

Em entrevista ao Brasil de Fato, a pesquisadora disse que o Brasil, sob a tutela de Guedes, já passa por um processo de “choque neoliberal”  fortemente inspirado no modelo implementado no Chile durante a ditadura Pinochet. “É muito importante entender que o projeto do atual ministro da Economia [do Brasil], que colocou muitos de seus asseclas na estrutura do Estado para desconstruir a nossa Constituição, [tem como] modelo o Chile”.

Por cá, o proto-fascismo do partido de André Ventura e os lobos neoliberais com pele de cordeiro tentam, por vias distintas, mas tendencialmente convergentes, refundar a direita portuguesa. O discurso securitário de uns liga bem com a desregulação da economia e o desmantelamento do Estado social que os outros querem promover. Por muito que nos queiram convencer do contrário, a verdade é que nenhum fascista chegou ao poder sem ter, na hora H, algum apoio decisivo vindo das hostes liberais.

Afinal de contas, para um genuíno liberal, a sua liberdade individual vale mais do que a democracia, expressão da liberdade de todos. Se tiver de sacrificar a democracia, em benefício do pacote integral de liberdades que reserva para si próprio – incluindo a liberdade de explorar e oprimir o próximo – o bom do liberal não pensa duas vezes.

Quarenta e sete anos depois do golpe fascista de Pinochet, vale a pena pensar nisto.

Neoliberalismo calunioso… e corrupto!

Há uma característica especialmente desprezível entre os bernardos da velha direita que agora disfarçam o cheiro a mofo e os preconceitos de classe com as novas roupagens do neoliberalismo. Mas a falta de empatia e o egocentrismo, esses continuam lá, como marca indelével de uma casta que se julga, há demasiado tempo, dona de Portugal.

Vem isto a propósito de um ataque vil mas recorrente que é feito pelos cães de fila direitolas às deputadas do Bloco de Esquerda, as irmãs Mariana e Joana Mortágua, filhas de Camilo Mortágua, um lutador antifascista que esteve envolvido em acções de resistência física à ditadura. As mais conhecidas são o assalto ao paquete Santa Maria e a uma agência do Banco de Portugal.

De acordo com o discurso direitola que se espraia nas redes sociais, as duas deputadas integrariam assim a linhagem de um “ladrão de bancos” e “assassino”, atributos que lhes estariam na massa do sangue que pretensamente as diminuem como pessoas e cidadãs.

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Que isto possa ser dito e pensado por quem se auto-intitula liberal só demonstra duas coisas: o baixo nível desta gentalha e quando o conceito de liberdade e de responsabilidade individual é distorcido e manipulado nos nossos dias. Pois no âmago do pensamento liberal esteve sempre a ideia de que cada ser humano se faz a si mesmo, pelas suas escolhas e realizações ao longo da vida, e não pelos constrangimentos impostos pela família ou o grupo social em que se integra.

No entanto, Deus não dorme, como se dizia antigamente, ou o karma é tramado, como está na moda afirmar nos dias de hoje, e eis que um bernardo provocador é apanhado na teia dos laços familiares comprometedores: o pai foi condenado num processo de corrupção.

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Neste ponto, até a mente mais retorcida consegue subitamente ver as coisas como elas são: é evidente que o Blanco-filho não é responsável pelos eventuais actos ilícitos do Blanco-pai. Ainda que deles até possa ter, indirectamente, beneficiado.

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A grande diferença, e que aqui serve de conclusão à estória, é apenas esta: os bernardos têm vergonha de serem associados a actos condenáveis dos progenitores, mas também não são capazes de se demarcar deles. Repare-se como, na hora do aperto, o pai do bernardo é reduzido à mera condição de “familiar”. Já as manas Mortágua, essas terão certamente orgulho no pai que resistiu à ditadura e arriscou a vida na luta pela liberdade.

SpaceX, regresso ao passado

spacex.JPGA cápsula Dragon, da SpaceX, amarou, este domingo, no Golfo do México com dois astronautas da agência espacial norte-americana NASA, concluindo o primeiro voo espacial privado a colocar pessoas em órbita. A cápsula foi recolhida por uma embarcação da SpaceX, empresa do milionário Elon Musk, com mais de 40 pessoas a bordo, incluindo médicos e enfermeiros, que cumpriram um período de isolamento de duas semanas e foram testados para o novo coronavírus antes do contacto com os astronautas.

Incrível como a generalidade dos media, reproduzindo à escala global a agenda neoliberal da privatização da investigação aeroespacial, apresenta como grande feito que uma empresa privada tenha conseguido alcançar, em 2020, o que a NASA fazia, de forma rotineira, nos anos 60 e 70 do século XX.

Depois disso, a NASA assumiu a liderança tecnológica nas viagens espaciais, com o uso dos vaivéns, naves que aterravam em segurança, não no mar, mas numa pista em terra como um vulgar avião, podendo ser posteriormente reutilizadas.

Acredito que possa ter sido um sucesso para a empresa em causa, que agora valorizará acções na bolsa e terá portas abertas a novos negócios e investimentos. Do ponto de vista científico e tecnológico os progressos do visionário Musk são na realidade um retrocesso de mais de 50 anos.

Do Estado-papão ao Estado-papá

januario-torgal-ferr.JPGEm entrevista à Visão, Januário Torgal Ferreira discorre com clareza e lucidez sobre o conturbado tempo em que vivemos. E fala, com a frontalidade cordata que lhe é habitual, de algumas carecas que a pandemia destapou: é o caso de muitos neoliberais da nossa praça que, perante as dificuldades trazidas pela crise, rapidamente mudaram a agulha no seu discurso. E se antes queriam menos Estado, agora são os primeiros a exigir a salvação estatal dos seus negócios. E quanto aos bancos, salvos da ruína à custa do contribuinte, que contributo estarão dispostos a dar agora para a salvação colectiva?…

Para quem, como eu, sempre defendeu um Estado reformista, de índole social-democrata, e passou a vida a ouvir receitas liberais e neoliberais, ver tanta gente a reclamar o apoio do Estado até dá vontade de rir! Eram tantos a berrar “chega de Estado, basta de Estado” e agora é vê-los, nus e desgraçados, de roupinha nas mãos, a virarem-se para o Estado e a dizer: “Ó papá, salve-nos!” Na hora da penúria, aqueles que gritaram “nada com o Estado, tudo contra o Estado” são os primeiros a lembrar-se dele. Espero que o Estado seja, sobretudo, corretor de injustiças e desigualdades, e não sirva apenas para dar dinheiro. Um Estado justo e com sentido de equidade tem de ser pedagogo. O equilíbrio entre o papel do Estado e a nossa livre decisão é saudável, mas é preciso que aqueles que mais têm façam a justa distribuição antes de virem chorar o apoio do Estado.

Nas crises, todas elas, nunca faltou dinheiro para os bancos. E todos pagamos as crises financeiras. Noutros momentos, não tem havido idêntica atitude por parte dos bancos em relação à sociedade. Há até remunerações e reformas no setor bancário, vindas de outras eras, que hoje são completamente injustificadas para bem da nossa sanidade social. Para haver justiça e equilíbrios sociais, alguém tem de perder alguma coisa ou deixar, pelo menos, de ter a tentação de acumular ou ganhar tudo. Tenho assistido a muitas atitudes de ganância, fruto de uma relação absurda com o dinheiro. O capitalismo tem sido fonte de grandes tragédias sociais. Mas as crises têm de ser pagas por todos.

Na entrevista, que merece ser lida na íntegra, há uma nota de optimismo que perpassa o presente sombrio e as nuvens negras que se perfilam no horizonte. As dificuldades e o isolamento impostos pela pandemia convidam à reflexão e à mudança de hábitos, modos de vida, mentalidades. O bispo emérito das Forças Armadas tenta pensar positivo…

Na minha linguagem, ainda acredito que as pessoas querem ser mais santas do que pecadoras. Mas receio que, passado o efeito dos murros no estômago, voltem as tentações. O dinheiro é insidioso, totalitário e omnipresente. Como já disse, fizeram-se grandes fortunas no meio dos escombros. E depois, nestas alturas, há também o grande cortejo dos hipócritas. Mas isto não é o fim da História. E os seus ventos sopram mais no sentido da humanização das nossas sociedades.