Dicionário de Novilíngua Alienante para Português Escorreito – II

A segunda parte do guia breve, mas útil, que nos ajuda a transpor para língua de gente as palavras novas que se inventam globalmente para designar coisas mais velhas do que a Sé de Braga. São incensadas por muitos mas, chamadas pelos seus verdadeiros nomes, poucos as querem para si ou para aqueles que prezam.

Traduzido e adaptado duma sequência de tweets de Pascual Gil Gutiérrez.

Gerir as desigualdades:aceitar as desigualdades.
Desregulamentar:desproteger.
Parceria público-privada:desmantelamento do sector público e capitalismo de amigalhaços.
Mercado:novo Deus (e ainda para mais o chunga, o do Antigo Testamento).
Transição eco-sustentável:jorro de milhões de dinheiro público sobre empresas privadas para que não reduzam os seus lucros.
Mercado de trabalho dinâmico:ir saltando entre empregos precários e desemprego ao longo da vida.
Minijob:trabalhas e és pobre.
Pós-verdade:mentira.
Relativismo:sucessão de mentiras.
Gestão/inteligência emocional:alienação e adaptabilidade a um sistema insano.
Sindicato:gri, gri, gri, gri…
“Esquerda”:Fina camada de verniz legitimador de um sistema antropófago.
Influencer:novo apóstolo.
Democracia:idiocracia e timocracia (poder dos idiotas e dos influentes).
Capital humano:antes dizíamos pessoas.
Externalizar:privatizar.
Mobilidade externa:emigração por razões económicas.
Adaptar o sistema educativo ao sistema produtivo:há demasiados universitários num país de empregados de mesa.

Dicionário de Novilíngua Alienante para Português Escorreito – I

Um guia breve, mas útil, para evitar as armadilhas mais óbvias no discurso dos apóstolos da globalização neoliberal, da sociedade do conhecimento, do admirável mundo novo ali ao virar da esquina.

A verdade é que, se não alterarmos radicalmente os processos de acumulação e distribuição de riqueza, caminhamos para um mundo onde nunca se produziu tanto e tão eficazmente, mas onde as desigualdades nunca foram tão gritantes.

E aqui a linguagem não é, nunca foi, neutra. Convém por isso que, sempre que nos dizem alguma coisa, sejamos capazes de compreender do que nos estão, de facto, a querer convencer.

Traduzido e adaptado, com a devida vénia, desta sequência de inspirados tweets.

Coaching:sacerdócio laico.
Empreendedorismo:auto-exploração.
Aceita-te como és:não tentes mudar nada.
Autoconhecimento:fechar-se em si próprio.
Flexibilização:precariedade.
Ajustamento da despesa:cortes orçamentais.
Ajustamento de pessoal:despedimentos.
Liberdade:liberdade de consumo, num mercado abundante, mas limitada pela tua carteira.
Resiliência:resignação acrítica.
Coliving:és pobre.
Jobhoping:és pobre.
Freeganismo:és pobre.
Nesting:és pobre.
Mindfulness:exame de consciência mas em mais giro.
Autoajuda:auto-sugestão charlatona.
Desaceleração:(outra) crise.
Envelhecimento activo:não te vais aposentar.
“segundo a OCDE”:segundo uma entidade supranacional e não democrática criada para o crescimento económico e a competitividade de mercado.

Pensamento do dia

Se a única política educativa a que temos direito é o cumprimento escrupuloso da agenda determinada pela OCDE, onde é que votamos para eleger os dirigentes desta organização?

A escola, um laboratório de conformismo?

Andreu Navarra serve-se da profusão de leis educativas que vigoraram em Espanha desde a restauração da democracia para analisar a evolução do sistema educativo. As conclusões surgem no novo livro Prohibido Aprender e não são surpreendentes para quem acompanha o mundo da Educação, mesmo vivendo e trabalhando noutro país: o economicismo sobrepõe-se à pedagogia, a burocracia aumenta, tal como o desprestígio da função do professor. Sob a batuta da OCDE, vai-se impondo um modelo educativo “para o século XXI” que reúne o consenso aparente de governos de esquerda e de direita: sob a aparência da modernidade, do “alunocentrismo” e do direito ao sucesso, a cultura escolar tende a descambar no facilitismo e a agravar as desigualdades no acesso a uma educação pública de qualidade.

A propósito da publicação do livro, Navarra concede uma extensa mas excelente entrevista que merece, para quem se interessa por estas coisas e tenha algum à-vontade com a língua de Cervantes, ser lida integralmente. Tendo em conta a extensão, por aqui fica a tradução e adaptação de alguns excertos mais significativos do pensamento do autor.

A escola está a preparar os alunos, como diz Andreas Schleicher, para um mundo que já não existe?

Talvez o que se deva explicar é porque é que “este mundo” já não existe. Habituámo-nos a auto-sugestionarmo-nos com frases retumbantes que na realidade nada significam ou significam muito pouco.

O que Schleicher não explica é por que razão nem a Europa nem a Espanha serão capazes de criar suficientes empregos de qualidade no mundo de amanhã. Para não mencionar a enorme anomalia que a nossa política educativa tenha de depender da OCDE. Propus-me devolver à esfera política a questão da educação. O que estou a tentar responder é porque tentam vender-nos, a partir da desinformação e manipulação mais inquietantes, como pedagogia o que nada mais são do que previsões ideológicas, ou seja, anúncios sobre o que está prestes a acontecer no mundo económico.

Os nossos jovens compreenderam que estudar, ler ou fazer um esforço neste contexto é totalmente inútil, porque não conseguirão escapar ao desemprego e à precariedade. É por isso que estas afirmações resultam obscenas, são de uma hipocrisia extrema. Vendem como a escola de amanhã o que é uma certificação da ausência de futuro para os nossos jovens, aos quais se recomenda não tentar prosperar, não tentar ir para a universidade, não adquirir cultura cívica, antes conformarem-se com as medíocres “competências” ditadas pelos políticos no encontro europeu em Lisboa.,

O que fazemos com os alunos que estão distantes desta cultura escolar?

O que devemos fazer com os alunos que alheados da cultura escolar é, antes de mais, restaurar a vocação escolar da escola, ter uma escola que não renuncie aos seus objectivos democráticos básicos, por exemplo, a plena alfabetização. Estas escolas deveriam ter um rácio de 12-15 alunos por turma. Como é que nenhum destes “revolucionários”, cujas doutrinas são idênticas às dos bancos, propõe baixar os rácios? E assim que tivermos algumas condições mínimas, inovar, sim. Mas neste país, a inovação só vai num sentido: o que ditam as organizações económicas, um sentido que prejudica os estudantes mais desfavorecidos porque os prende à sua condição inicial.

As soluções tecnofeudais não servem para cimentar as políticas de justiça social. Um dia teremos de deixar de falar de “equidade” como um nivelamento abusivo por baixo, como se os nossos alunos pobres fossem também idiotas, e falar sobre o que devemos falar: de igualdade social, de igualdade de oportunidades que só o sector público pode oferecer com garantias.

Não se sente confortável com o rótulo “professáurio”, mas queixa-se de que estamos a assistir ao fim da escola como a conhecemos?

É que os fósseis são os outros. Trinta anos de redentorismos facilitistas e fracassados já cansam. Estamos a confundir pedagogia com engenharia social neoliberal. Parece-me muito mais pré-histórico quem apresenta como uma opção progressiva o que teria feito Ronald Reagan ou Margaret Thatcher chorar de entusiasmo, pura e dura estratificação social.

A escola já não é escola propriamente dita, mas um laboratório de conformismo. Os próprios alunos percebem-no. Estariam mais à vontade num local onde aprendessem muitas coisas, com prestígio académico que gerasse sentimento de pertença, do que neste conglomerado de ocorrências desconexas que desencadeia o tédio mas esconde a falta de aprendizagem com a passagem universal. As pessoas vão à escola “para passar”, para “não fazer nada”.

Popularizou-se a ideia suicida de que o academismo não pode ser inclusivo, que inclusão e cultura são termos mutuamente exclusivos. Faz tudo parte de um dispositivo gigantesco para desarticular a curiosidade, a inteligência e a construção de mentes inteligentes.

Os ricos não pagam a crise

O crescimento avassalador das desigualdades já vem de longe: está associado ao triunfo do neoliberalismo, que impôs as suas regras e práticas de desregulamentação e financeirização da economia, privatização de sectores estratégicos e liberalização dos mercados e dos fluxos de capital. A crise pandémica acentuou as tendências que se antecipavam e até mesmo as ajudas estatais, concebidas para manter as economias a funcionar e os grupos mais vulneráveis acima da linha de água, acabaram a ser embolsadas, em grande parte, pelos mais ricos.

Portugal, com uma economia anémica, endividade, dependente do exterior e enfraquecida por numerosos parasitas, continua com muitas dificuldades em relançar-se no crescimento económico. Não criamos riqueza, mas não temos dificuldade em produzir ricos, ainda que à custa do crescimento da pobreza e das desigualdades.

Num artigo do “Financial Times” de 14 de maio, Ruchir Sharma chama a atenção para o facto de a pandemia ter acelerado algumas tendências sociais e económicas que já estavam em marcha. Em particular, o número de bilionários tem crescido a um ritmo verdadeiramente recorde: no último ano, a nível mundial, tem surgido aproximadamente um novo bilionário por dia.

Adicionalmente, os bilionários que já existiam têm visto a sua riqueza, em percentagem do PIB, aumentar continuadamente. A riqueza total dos 2755 bilionários listados na “Forbes” cresceu, em 12 meses, de cinco triliões (na métrica americana) de dólares para 13, o aumento mais rápido alguma vez registado pela revista. O artigo cita alguns exemplos bastante impressionantes, como o do empresário Amancio Ortega (Inditex) ou do empresário Bernard Arnaut (Louis Vuitton), ambos com uma riqueza avaliada em cerca de 5% do PIB dos respetivos países.

Em certa medida, esta evolução dos super-ricos deriva da política monetária seguida por uma parte significativa dos bancos centrais: dinheiro fácil e barato que continua a ser lançado na economia a um ritmo significativo. Desde o início da pandemia já foram injetados cerca de nove triliões de dólares para manter a economia mundial à tona. Uma parte substancial deste estímulo é dirigido aos mercados financeiros de onde “salta” para os bolsos dos bilionários.

Do ponto de vista político a situação é reconhecida e vai sendo mais ou menos discutida (em baixa voz, para não assustar ninguém). Em vários países fala-se em taxar os bilionários não só no rendimento, mas também na riqueza. Isto permitiria arrecadar receita e também ajudaria a nivelar um pouco as assimetrias.

Em Portugal temos dois bilionários na listagem da “Forbes” de 2021: Maria Fernanda Amorim no lugar 608 e José Neves (Farfetch) no lugar 1249. A viúva de Américo Amorim conta com uma fortuna avaliada em 3,9 mil milhões de euros que corresponde, grosso modo, a 2% do PIB português e que – ainda, segundo a “Forbes” –, teve um crescimento de 20% num ano. De acordo com o “The Wealth Report 2021”, o número de super-ricos em Portugal deverá crescer 17% entre 2020 e 2025.

Este cenário é particularmente grave quando olhamos para os números no outro extremo da distribuição. Segundo dados do INE, em 2020 a população em risco de pobreza ou exclusão social, em Portugal, era de 19,8% (20,2% se considerarmos apenas as mulheres), e o rendimento anual médio líquido por adulto equivalente era pouco mais de 12.600 euros.

Um liberal desmascarado

Embora no discurso político a linguagem seja mais contida, e tentem disfarçar com alguma irreverência o mais puro egoísmo e falta de empatia, quando os autoproclamados liberais se soltam um pouco deixam bem à vista as pessoas egocêntricas, sem escrúpulos e mal formadas que nunca deixaram de ser.

Mas nem tudo está perdido, e o tweet infeliz, embora revelador, deu azo a centenas de comentários de desaprovação e de repulsa, de utilizadores que não se revêem na estupidez da atitude e muito menos no desprezo com que o desprezível Lobo se refere à involuntária companheira de viagem. Que certamente dispensaria a companhia pouco recomendável deste burgesso com o monco de fora.

O idiota, que diz que as máscaras não protegem, não consegue sequer perceber o básico: a máscara não serve tanto para lhe dar protecção a ele como para proteger os que o rodeiam, num espaço fechado onde não é possível o distanciamento físico.

Mas até se compreende. Trata-se de pensar nos outros, fazer alguma coisa pelo bem de todos em vez de estar cada um unicamente focado no seu interesse e no que entende ser a sua liberdade individual. Que ideias tão estranhas para as novas seitas de neoliberais, libertários, anarco-capitalistas e cripto-coisos…

É a desigualdade, estúpido!

Os alunos de origem imigrante têm resultados escolares significativamente abaixo dos alunos de origem portuguesa e são segregados mesmo dentro das escolas, que não fazem tudo o que podem para o evitar, segundo um estudo divulgado esta sexta-feira.

As conclusões constam dos resultados preliminares do estudo “Inclusão ou discriminação? Da análise dos resultados escolares às estratégias para o sucesso dos alunos com origem imigrante”, desenvolvido pela faculdade de economia da Universidade Nova de Lisboa, a Nova SBE, e o Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da mesma universidade, a pedido da Associação EPIS – Empresários Pela Inclusão Social.

Luís Catela Nunes, professor da Nova SBE e um dos investigadores que coordena o estudo, disse em entrevista à Lusa que há diferenças claras entre alunos nativos e alunos migrantes.

Curioso como, naquela que é talvez a mais elitista das escolas superiores públicas, se faz currículo a apontar a “segregação” e a “discriminação” alegadamente existentes nas escolas básicas e secundárias. Onde, ao contrário do que sucede na exclusivista “escola de negócios”, as portas estão abertas a toda a gente.

Não li o estudo do doutor Catela, encomendado pela conhecida associação dos empresários que pretendem combater a desigualdade e a exclusão nas escolas, em vez de o fazerem nas suas próprias empresas. Mas pelo que é descrito na peça jornalística, percebe-se que a suposta segregação escolar pouco ou nada tem a ver com a naturalidade das crianças e jovens que frequentam as escolas portuguesas. Estes alunos têm mais insucesso, acima de tudo, porque provêm de famílias pobres e/ou pouco instruídas, reproduzindo o mesmo padrão bem conhecido entre os seus colegas nascidos em Portugal.

Sabendo-se que a pobreza, as más condições de vida e a discriminação social e laboral têm maior incidência entre algumas comunidades imigrantes do que na população em geral, é perfeitamente expectável que tanto o insucesso escolar como o sucesso fictício do passar sem aprender – que parece agradar a demasiada gente – sejam maiores entre os alunos que vieram do estrangeiro.

Quanto ao problema da “inclusão” e de as escolas não estarem a fazer tudo o que estaria ao seu alcance para a promover, há que lembrar que a maioria destes alunos migrantes iniciou o seu percurso escolar nos países de origem. Além de barreiras culturais e linguísticas, é necessário ter em conta as debilidades dos sistemas educativos, sobretudo no caso dos PALOP e mesmo do Brasil, que dificultam a integração e comprometem o desempenho académico destes alunos.

A “escola de negócios” do regime nunca nutriu grande interesse pela educação. Nunca trouxe nenhum contributo relevante às chamadas ciências da educação nem se dedica à formação de professores. Mas parece ter acordado agora para a necessidade de ter uma presença influente nas políticas educativas. Vimos recentemente a doutora Peralta a passar a receita para a recuperação de aprendizagens, com tutorias e escolas de Verão. Vem agora o doutor Catela olhar, de forma pouco arguta, para uma suposta discriminação que mais não é do que a reprodução, nas escolas, da desigualdade existente na sociedade.

Ora a verdade é que estes olhares nada trazem de novo. E disfarçam mal os objectivos que ocultam. Um, é demonstrar a incapacidade das escolas de cumprirem o seu papel social, de forma a justificar a entrada de parceiros privados, a instalar à mesa do orçamento educativo. O outro é a afirmação da ideia absurda em que, nos tempos que correm, liberalismos, reformismos e socialismos parecem convergir: a de é possível impor a igualdade de oportunidades, a equidade e a inclusão na escola, enquanto cá fora se continua a promover a desigualdade e a praticar a exclusão.

Tutorias e escolas de Verão

Um grupo de investigadores propôs ao Governo uma estratégia de recuperação de aprendizagens para os alunos do 1º ao 9º ano, incluindo a introdução de programas de tutoria às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, assim como a criação de escolas de verão.

“Desde o último confinamento em Portugal, ainda não foi tornado público nenhum plano de recuperação de aprendizagens. Este documento propõe dois tipos de medidas imediatas, efetivas e temporárias, já testadas em outros sistemas de ensino e adaptadas ao sistema Português”, pode ler-se no texto “Aprendizagens perdidas devido à pandemia: Uma proposta de recuperação”, da autoria de Bruno P. Carvalho, Pedro Freitas, Miguel Herdade, Susana Peralta, e Ana Balcão Reis, e que foi entregue ao Governo esta quinta-feira.

No que toca aos programas de tutoria, o plano dos académicos é o seguinte: duas aulas semanais e integradas no horário escolar de Português e Matemática, com duração entre 30 minutos e uma hora, para “pequenos grupos” de três a cinco alunos do ensino básico, durante pelo menos 12 semanas. “A evidência acerca da eficácia deste tipo de programas tem mostrado ganhos, medidos em tempos de aprendizagem, entre 3 e 15 meses”, apontam os investigadores.

No que toca às escolas de verão, a ideia é a de abranger os alunos inscritos no 1º e 2º ciclo do ensino público: teriam uma duração de quatro semanas, “combinando atividades lúdicas e de recuperação de aprendizagens”, num total de 20 horas de tutoria – ou cinco horas por semana. “No fundo, é um programa de tutoria mais diluído”, explica Peralta, adiantando que o plano teve em conta a realidade remuneratória dos professores em Portugal.

Quando um grupo de economistas, professores de uma escola de negócios, largam a sua suposta área de especialização e se dedicam a elaborar e propor planos de “recuperação de aprendizagens” como se fossem especialistas em educação, o que pensar? Obviamente, ou não conhecêssemos as peças de outros carnavais, querem transformar a educação num negócio.

Um negócio privado, bem entendido, mas pago pelo Estado, à boa maneira neoliberal. E se os prejuízos causados pela pandemia puderem ser aproveitados para promover este objectivo não assumido, mas mal dissimulado, nem se pensa duas vezes.

Chamemos-lhe tutorias, aulas suplementares ou “escola de Verão”, o esquema proposto pressupõe sempre um apreciável aumento de carga lectiva, estendendo-se eventualmente pelos meses de Verão. E castigando sobretudo os alunos mais carenciados ou com maiores dificuldades – aqueles que, de acordo com as “provas” recolhidas pelos economistas em estudos de outros países, mais perderam com os confinamentos.

Contudo, para dar mais aulas são precisos mais professores. Como os que estão no activo já têm os seus horários preenchidos e não deixarão de gozar férias na altura devida, o plano prevê a contratação de novos docentes, que tanto podem ser professores desempregados como licenciados sem habilitação para a docência. E é por aqui que esta iniciativa se junta a outras que andam por aí a fervilhar e que têm um objectivo comum: embaratecer e desqualificar a profissão docente, abrindo o acesso à profissão a candidatos sem qualificações pedagógicas.

O modelo de recrutamento que aceita como professores profissionais com formações diversificadas, podendo não ter sequer formação ou prática pedagógica, é comum nos países anglo-saxónicos que foram referência para os “estudos” destes autores. Mas não é adoptado nos países ocidentais que constituem referência em bons resultados educativos: nestes, sabe-se bem da importância da formação inicial de professores para promover e manter, de forma consistente, a qualidade do sistema educativo.

Em Portugal, voltar ao tempo das habilitações “próprias”, “suficientes” e “mínimas” significaria regredir pelo menos trinta anos no sistema de recrutamento e formação inicial de professores, quando a falta de profissionalização constituía pretexto para barrar a entrada na carreira a dezenas de milhares de docentes, enquanto para outros dar umas aulas era um biscate para complementar rendimentos ou enquanto não se encontrava coisa melhor. Na sonsa modernidade das nossas schoolofbusiness há quem defenda, por convicção ou interesse, este regresso ao passado.

Liberalismo para totós… e colunistas aperaltados

O boneco já é um clássico das redes sociais, mas serve bem para compreender uma realidade simples que muitos fazem por desentender.

Basta substituir o imigrante pelo trabalhador desempregado ou em lay off forçado por causa da pandemia e o operário pelo “burguês em teletrabalho”, expressão insultuosa para designar o trabalhador que não ficou privado de emprego nem do seu rendimento habitual porque, mesmo confinado, continuou a trabalhar.

Quanto ao verdadeiro burguês, o dono e distribuidor das bolachas, esse manteve, e em muitos casos a aumentou, o seu rendimento. Continua a ser proprietário de meios de produção e redes de distribuição, podendo explorar a força de trabalho, tirando partido não só das novas oportunidades abertas pela globalização e pela economia digital, como das carências e novas necessidades trazidas pela pandemia. E, claro, continua a ter todas as facilidades para expatriar lucros para paraísos fiscais e recorrer à contabilidade criativa e às leis feitas à medida para contornar e minimizar as obrigações fiscais.

Redesenhado à medida da recente polémica nas redes sociais, o boneco poderia incluir um quarto elemento, representando uma pequena burguesia petulante e deslumbrada com a possibilidade de, papagueando umas idiotices, chegar às primeiras páginas dos jornais. Aparentemente, pensam pela sua cabeça, mas o que dizem e escrevem só é amplificado porque convém aos donos das bolachas.

Se uma coligação de interesses económicos e políticos criou a economia de casino que leva hoje a concentração de riqueza a níveis inauditos, os académicos aperaltados que transformaram as faculdades de Economia em escolas de negócios ao serviço dos senhores do mundo são objectivamente seus serventuários e aliados. Quando recorrem aos media para nos tentar convencer que devemos partilhar melhor as migalhas para que os pobres não morram de fome enquanto os ricos continuem a engrossar o seu bolo, a mensagem não é inocente, muito menos isenta. E é isso que precisa de ser intransigentemente denunciado.

Leituras: A escola da ignorância – II

No post anterior ressalva-se a necessidade de preservar, no ensino massificado que melhor se ajusta às economias globalizadas do século XXI, nichos de qualidade que permitam a reprodução das elites políticas e económicas. Contudo, para a grande massa da população, bastarão os conhecimentos práticos, ou nem isso: a educação “inovadora” ou “para a cidadania” pode ser apenas uma forma pouco sofisticada de cultivar a ignorância…

Quanto às competências técnicas médias – a Comissão Europeia estima que têm “uma esperança de vida de cerca de dez anos, e que o capital intelectual se desvaloriza uns 7% por ano, o que está associado a uma redução correspondente na eficiência laboral” – o problema é um pouco diferente. Em suma, é uma questão de conhecimento descartável, tão descartável como os humanos que o detêm temporariamente, na medida em que, sendo baseado em competências de rotina e adaptado a um contexto tecnológico preciso, deixa de estar operacional assim que o seu próprio contexto é ultrapassado. No entanto, desde a revolução da informação, estas são competências que, de uma perspectiva capitalista, apenas apresentam vantagens. Um conhecimento utilitário e natureza principalmente algorítmica, ou seja, que não requer necessariamente nem a autonomia nem a criação do utilizador, é um conhecimento que, em condições extremas, pode ser aprendido sozinho, ou seja, em casa, em frente de um computador com o programa educativo correspondente. Em geral, no caso de competências intermédias, graças à utilização do ensino à distância multimédia, a classe dominante será capaz de matar dois coelhos de uma cajadada. Por um lado, as grandes empresas (Olivetti, Philips, Siemens, Ericsson, etc.) estarão destinadas a “vender os seus produtos no mercado da educação contínua regido pelas leis da oferta e da procura”. Por outro lado, dezenas de milhares de professores (sabe-se que o seu financiamento representa a maior parte das despesas do orçamento da educação) serão transformados em algo completamente inútil e poderão assim ser despedidos, o que permitirá aos Estados investir a factura salarial economizada em operações mais rentáveis para as grandes empresas internacionais.

Evidentemente, os mais numerosos permanecem; aqueles que o sistema pretende manter desempregados (ou empregados de forma precária e flexível, por exemplo, nos vários empregos-lixo) em parte porque, de acordo com os termos escolhidos pela OCDE, “nunca constituirão um mercado lucrativo” e porque a sua “exclusão social se tornará mais aguda à medida que os outros continuarem a progredir”. É aqui que o tittytainment terá de encontrar o seu nicho. Efectivamente, é óbvio que a custosa transmissão de conhecimentos reais, e portanto críticos, bem como a aprendizagem de comportamentos cívicos básicos ou mesmo simplesmente a promoção da rectidão e honestidade, não têm qualquer interesse para o sistema. De facto, em certas circunstâncias políticas, podem mesmo constituir uma ameaça à sua segurança. Obviamente que é nesta escola que a ignorância em todas as suas formas possíveis deve ser ensinada. No entanto, esta não é uma tarefa fácil e, até agora, para além de alguns progressos, os professores tradicionais não foram adequadamente formados a este respeito. A escola da ignorância exigirá a reeducação dos professores, ou seja, forçando-os a “trabalhar de forma diferente”, sob o despotismo iluminado de um exército poderoso e bem organizado de especialistas em “ciências da educação”. Obviamente, a tarefa fundamental destes peritos será a de definir e impor (por todos os meios à disposição de uma instituição hierárquica para assegurar a submissão daqueles que dela dependem) as condições pedagógicas e materiais do que Debord chamou de “dissolução da lógica”: por outras palavras, “a perda da possibilidade de reconhecer instantaneamente o que é importante e o que é acessório ou deslocado; o que é incompatível ou, pelo contrário, o que poderia ser complementar; tudo o que tal consequência implica e o que, ao mesmo tempo, impede”. Debord acrescenta que um estudante formado desta forma se encontrará “desde o início, ao serviço da ordem estabelecida, mesmo que a sua intenção possa ter sido absolutamente contrária a este resultado”. Na essência, ele conhecerá a língua do espectáculo, já que é a única com a qual estará familiarizado: a língua com a qual terá sido ensinado a falar. Sem dúvida que quererá mostrar-se inimigo da sua retórica, mas usará a sua sintaxe.

[…]

Naturalmente, os objectivos atribuídos ao que resta da escola pública pressupõem uma dupla transformação decisiva a mais ou menos longo prazo. Por um lado, haverá uma transformação dos professores, que terão de abandonar o seu estatuto actual de sujeitos supostamente detentores de um saber, para se tornarem animadores de diferentes actividades de valor ou transversais, saídas pedagógicas ou fóruns de discussão ( evidentemente concebidos de acordo com o modelo dos programas de debate televisivo); para que a sua utilização seja rentável, serão também estes animadores os encarregados de diferentes tarefas materiais ou de reforço psicológico. Por outro lado, a escola tornar-se-á um espaço vivo, democrático e alegre, ao mesmo tempo um viveiro de cidadania – onde a animação das festividades (aniversário da abolição da escravatura, nascimento de Victor Hugo, Halloween…) poderá estar a cargo das associações de pais mais desejosos de se envolverem, com a rentabilidade que isso implica – e um local liberalmente aberto a todos os representantes da cidade (militantes de associações, militares reformados, homens de negócios, malabaristas ou faquires, etc.) ) bem como todos os bens tecnológicos ou culturais que as grandes marcas, convertidas em parceiros explícitos do “acto educativo”, consideram apropriado vender aos vários participantes. Penso também que surgirá a ideia de colocar alguns dispositivos electrónicos muito simples na entrada deste grande parque de diversões escolares para detectar a possível presença de objectos metálicos.

Jean-Claude Michéa, La escuela de la ignorancia y sus condiciones modernas, Madrid, 2002.