Heterodoxias: Porque progridem os mais ricos e os pobres não

desigualdade.jpgUma análise lúcida e muito oportuna sobre o capitalismo dos nossos dias. Texto de Antón Costas que integra uma série de reportagens e artigos de opinião que o El País dedica à crise que mudou o mundo. Tradução e destaques da minha responsabilidade.

Os aniversários são úteis para fazer um balanço dos eventos críticos do passado e retirar lições para o presente. Agora cumpre-se o décimo aniversário do ponto de ignição da grande crise de 2008: a falência do Lehman Brothers. Foi a maior crise financeira da história, Grande Depressão incluída. A singularidade desta crise em relação àquela foi a sincronização com que avançou a nível global e a rapidez e intensidade do seu impacto no comércio mundial e na atividade e no emprego das economias nacionais.

Os balanços tentarão mostrar que aprendemos e que foi feito o necessário para evitar uma crise similar. A minha opinião é que se aprendeu pouco e se fez ainda menos. Com a perspectiva destes dez anos, pode-se afirmar que os governos e as elites financeiras o que pretenderam foi, com resgates e pequenos ajustes, retornar ao mundo anterior a 2008. Não compreenderam que esta crise foi o anúncio do fim de um modelo económico, político e social que atingiu o seu esgotamento.

A evidência de que isto é assim é que os impactos da crise passaram da economia para a política e mais além. O descontentamento social não se deve apenas à crise económica e financeira, mas é também a uma reacção contra a hegemonia das elites que romperam o contrato social que sustentou a economia social de mercado e o Estado social do pós-guerra. Esse descontentamento trouxe, como nos anos vinte e trinta do século passado, uma onda global de populismo político nacionalista. A raiz profunda desse descontentamento com o modelo económico que surgiu na década de 1970 é o facto de que a prosperidade económica aumentou espectacularmente, mas o bem-estar da maioria não.

Não creio que seja necessário parar para dar notícia do aumento da desigualdade. A evidência é esmagadora. Houve crescimento, mas beneficiou apenas uns poucos. O 1% dos muito ricos é um grupo formado em grande parte por altos dirigentes de grandes corporações e fundos de investimento. Eles são uma nova aristocracia do dinheiro que substituiu a antiga aristocracia da terra do “ancien régime“, mas sem o sentido que “noblesse oblige“. Uma nova aristocracia cosmopolita e apátrida que quebrou o contrato com aqueles que foram deixados para trás, caídos na vala, sem emprego, renda ou expectativas.
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Heterodoxias: Byung-Chul Han

byungByung-Chul Han é um filósofo sul-coreano que se tem dedicado a analisar criticamente o mundo neoliberal, hiperconsumista e alienante que se desenvolveu nas últimas décadas. Esteve há cerca de meio ano em Barcelona, o que foi pretexto para alguma imprensa espanhola divulgar o pensamento do filósofo nascido em 1959 na Coreia do Sul e actualmente professor na Universidade de Berlim. A partir da edição brasileira do El País, aqui deixo algumas das suas ideias e reflexões.

No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação.

Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito. […] Hoje a pessoa explora-se a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout. […] Não há mais contra quem direccionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros.

Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual… Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”.

Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!

Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica actual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes.

A aceleração actual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós.

Quem quer ser o melhor professor?

gtp.pngA iniciativa já tem dois ou três anos lá por fora, e a linha ideológica inscreve-se na agenda neoliberal para a Educação. É convenientemente impulsionada por fundações privadas que funcionam como testas de ferro dos interesses económicos que querem, não só ajustar a Educação às necessidades dos mercados, mas também abrir novas oportunidades de negócio dentro do próprio sistema educativo.

A primeira edição do Global Teacher Prize Portugal realiza-se em parceria com a Fundação Galp e a Fundação Calouste Gulbenkian. Os professores de qualquer grau de ensino e de todas as áreas podem candidatar-se até 10 de Março. Os finalistas são anunciados a 19 de Abril e o vencedor é conhecido a 3 de Maio.

A ideia é, como em tudo o que costuma motivar este tipo de gente, não precisamos de mudanças estruturais na economia e na sociedade, não necessitamos de consensos e compromissos colectivos num sector crucial para as gerações futuras. Nada disso: bastam-nos um punhado de professores “inspirados” e “inspiradores”, que “façam a diferença”, que “mudem as vidas” dos seus alunos. Pois estes já trazem tudo o que interessa dentro de si e só precisam que alguém “acredite neles” para que os seus sonhos se concretizem. Nada de novo num velho discurso que segue a vulgata neoliberal, entre o pseudo-moralista e o tele-evangelismo.

Ao menos que dessem um prémio de jeito. O vendedor ganhará trinta mil euros, pagos em prestações e com a obrigação de serem gastos, pelo menos em parte, num projecto a desenvolver. Comparados com o milhão de dólares do prémio internacional, ressalta ainda mais a tradicional forretice das fundações à portuguesa…

O aumento das desigualdades

nadar-em-dinheiro.gifPara quem ainda acredita, ou faz por acreditar, nas fábulas do capitalismo neoliberal, os números ontem divulgados pela Oxfam são demolidores: os mais ricos continuam a acumular cada vez mais riqueza, que é distribuída de forma mais desigual. E só não erradicamos a pobreza porque continuamos a ter um sistema económico criado para favorecer a acumulação de fortunas em indivíduos que, nem que vivessem mil anos, as conseguiriam gastar.

A partir da notícia do Público, alguns números que ilustram a irracionalidade económica do mundo em que vivemos e que deveriam dar que pensar:

  • 80% da riqueza mundial criada em 2017 foram parar às mãos do 1% mais rico da população;
  • A riqueza dos multimilionários aumentou 13% ao ano em média desde 2010, seis vezes mais do que os aumentos dos salários pagos aos trabalhadores (2% ao ano);
  • Mais de metade da população mundial tem um rendimento diário entre 2 e 10 dólares (entre 1,6 euros e 8,1 euros);
  • A sétima parte dos 762 mil milhões de dólares em que aumentou a riqueza dos 2043 maiores multimilionários em 2017 seria suficiente para acabar com a pobreza extrema a que está condenada a população mundial que sobrevive com menos de um dólar por dia.

Mas os grandes multimilionários, um clube quase só de homens (9 em cada 10) e que está a aumentar, não actuam sozinhos: eles dominam grandes grupos económicos à escala global, geridos de forma a maximizar o lucro dos seus accionistas. Para conseguirem enriquecer ao ritmo a que o fazem, recorrem sobretudo a duas coisas: a evasão fiscal e o esmagamento dos salários dos trabalhadores.

E mesmo o velho mito de que há uma ética no capitalismo e de que o enriquecimento é o prémio pelo esforço, o risco, a iniciativa, a poupança ou o talento dos que acabam por ser bem sucedidos é desmontado pelas evidências…

A Oxfam recusa a ideia de que este aumento de riqueza no topo possa constituir um incentivo para que, depois, se gere mais investimento e inovação. “Há cada vez mais provas de que os actuais níveis de desigualdade extrema excedem em muito aquilo que pode ser justificado pelo talento, esforço e tomada de risco. Em vez disso, essa desigualdade é cada vez mais do produto das heranças, dos monopólios e das ligações suspeitas aos Governos”.

Infâncias chinesas

wang.jpgA história de Wang, o menino chinês de oito anos que percorre diariamente, ao gelo e ao frio, nove quilómetros diários para ir à escola, já foi divulgada há alguns dias.

A imagem do “menino de gelo” foi publicada nas redes sociais na segunda-feira, pelo diretor da escola no condado de Ludian. Rapidamente, a fotografia tornou-se viral, com os internautas a defender que não está a ser feito o suficiente para ajudar as crianças das famílias pobres das zonas rurais da China.

Segundo a BBC, o menino de oito anos faz um trajeto a pé de 4,5 quilómetros para chegar à escola, ou seja, uma viagem que dura mais de uma hora. No dia em que a fotografia foi tirada, a temperatura naquela zona da China rondava os nove graus negativos.

Mais recentemente, soube-se também da desventura de Li, que com sete anos faz entregas de encomendas em vez de frequentar a escola.

Um vídeo publicado no site Pear Video, um site popular em território chinês, mostra o menino, apelidado de “Pequeno Li” nas redes sociais, entregando pacotes na cidade de Qingdao, no leste da China. As imagens foram vistas mais de 18 milhões de vezes.

O Pear Video afirma que o Pequeno Li perdeu o pai e perdeu contato com sua mãe após ela se casar novamente. O garoto vive com um amigo de seu pai desde os três anos.

Esse homem trabalha com entregas, e o menino passou a acompanhá-lo nesses momentos depois de eles se mudarem da região rural da Província de Shandong. Hoje, o garoto faz entregas sozinho.

Um caso e outro mostram as debilidades do tão louvado modelo de desenvolvimento da China, um país que, conservando uma caricatura de comunismo, adoptou o pior do modelo capitalista. Um Estado ditatorial e repressivo que tudo controla mas não garante direitos aos cidadãos, nem mesmo aos mais frágeis e indefesos. E um liberalismo selvagem que sacrifica no altar da competitividade e do lucro os mais fracos e vulneráveis, condenando-os à miséria e ao desamparo.

Quanto às súbitas comoções que estes casos suscitam nas redes sociais, elas valem o que valem, e quando as iniciativas solidárias contribuem para melhorar a vida de uma destas crianças, elas são certamente de valor. Mas não resolvem os problemas de fundo.

Há que ter consciência de que não é pela caridade que se resolve a situação de dezenas ou centenas de milhões de pobres, muitos deles crianças, jovens e idosos que continuam a tentar sobreviver na China. Um país cujo desenvolvimento explosivo tarda em gerar melhores oportunidades e condições de vida para a maior parte da sua população. O capitalismo chinês, baseado na acumulação e concentração de riqueza e cada vez mais projectado para o exterior, acentua as desigualdades internas, perpetuando a ancestral pobreza do mundo rural e gerando novas formas de miséria.

Heterodoxias: Sem Sombra de Pecado

manuel+antónio+pina.jpg[…]

Talvez o maior erro do marxismo tenha sido o seu optimismo, a sua injustificada confiança na natureza humana (incluindo a natureza humana dos marxistas…). Mas, provavelmente, o pior crime dos liberais «après la lettre» que por aí agora andam é o do cinismo. Os bárbaros tomaram de assalto a cidadela: os relatórios das empresas, os projectos económicos, os programas dos partidos e dos governos ululam desvairadamente por «agressividade» e por «competitividade»; o «lucro» e o vampirismo social tornaram-se no desmedido motor do novo «progresso»; a «iniciativa privada» numa feroz fortaleza fechada onde se desfazem os destroços das últimas instituições fundadas na solidariedade e na cultura. (Já vi pateticamente defender, a seguir à privatização e sujeição à lógica do «lucro» das escolas, dos hospitais e por aí adiante, também a apropriação privada dos rios, dos mares, do próprio ar que respiramos!)

No meio disto indo, «cultura» é ter um óleo de Vieira da Silva na sala de jan­tar ou no cofre-forte ou «investir» num contador indo-português em algum leilão da Leiria & Nascimento. E a ostentação mais primária tornou se no sinal exterior de felicidade e de inocência da parte dos que (e são cada vez mais) alegremente se vão libertando dos encargos da consciência moral. Curioso é que a espécie de «cultura económica» que cauciona a predação social instalada não prescinda de pregar ética às presas…

[…]

Cristo — que não percebia nada de Finanças — expulsou à chibatada os economistas do Templo, e Dante, vivesse ele em Portugal e soubesse o que nós sabemos hoje, ter-lhes-ia certamente destinado um penoso lugar no último círculo do Inferno. O triunfo da Economia passa pela expulsão dos poetas e dos visionários da cidade. Quem se surpreenderá, pois, que a Poesia, sob todas as suas incertas e gratuitas formas, seja o inimigo mortal dos mercado­res?

De facto, a vulgata económica capitalista e a sua cultura de clã contamina­ram, como uma peste, a nossa vida e a nossa alma colectivas. Os melhores de nós vagueiam agora, como indefesos sobreviventes, no pesadelo climati­zado finissecular que resta da antiga cultura. Passou o tempo de queimar livros, agora compram-se (e os escritores também) sob a forma de «best sellers»; a religião formalizou-se e ritualizou-se até perder qualquer significado cultural; a própria História foi reescrita.

Swift, há 250 anos, sugeriu aos ricos que comessem os pobres. Na altura nin­guém o levou a sério, mas os nossos economistas liberais estão já a servi-los vorazmente à mesa, aos pobres, aos reformados, aos velhos, aos fracos. Sem sombra de pecado, isto é, de cultura, que é o mais preocupante.

Manuel António Pina (1943-2012), in Jornal de Notícias, 11/11/1992

O neoliberalismo explicado em 15 segundos

…com bolachas!

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