O vira-casacas

homem.cristo

Sabendo-se que os professores hoje no activo são praticamente os mesmos que ensinavam em 2014, é caso para perguntar: o que levou o escriba do Observador, o jovem “investigador” de temas de educação levado ao colo, pelo CDS, para o Conselho Nacional de Educação, a mudar radicalmente a sua opinião?

O vira-casaquismo esteve muito em voga a seguir à Revolução que hoje se comemora. Pessoas que nunca se interessaram por política inventaram para si próprias um passado antifascista. Homens de confiança do anterior regime transformaram-se de um dia para o outro em activos e radicais revolucionários.  Com a mesma falta de princípios, gente sem vontade nem préstimo para leccionar, que faz carreira a admoestar os professores e a denegrir o profissionalismo da classe – e há tantos por aí – não se inibe de dirigir elogios interesseiros aos professores, quando sente que isso lhe dá jeito.

A coerência não é propriamente um valor em alta entre uma certa direita de boas famílias que sempre se habituou a abrir caminho usando o seu dinheiro, poder e influência para atacar, ofender, desmoralizar quem se atravessa à frente. Ou não se desvia para o lado com suficiente rapidez. Recorrendo à arrogância e à displicência como forma de disfarçar incompreensão e ignorância.

Será que, como uma certa opinião pública pouco informada, o investigador e jornalista especializado em assuntos educativos se surpreendeu com o à vontade dos professores da “telescola” no uso dinâmico das novas tecnologias? De tanto ajudar a difundir a patranha dos “professores do século XX”, terá acreditado nela? Ignoraria que os vídeos, os powerpoints, os sons e as animações gráficas há muito que fazem parte da rotina escolar das salas de aula portuguesas?

A verdade é esta: só não fazemos mais e ainda melhor porque a falta de meios e a sobrecarga de turmas e alunos não nos deixa tempo para investirmos tanto como gostaríamos naquilo que gostamos mesmo de fazer: proporcionar aos nossos alunos mais e melhores aprendizagens.

Outra realidade não menos evidente são as ruas da amargura em que vegeta o jornalismo tendencioso do Observador, um projecto político neoliberal que usou o jornal online como barriga de aluguer. Percebe-se que de 2014 para cá os tempos mudaram e as proclamações da seita neoliberal já não encontram hoje a mesma aceitação. E se ontem os “maus professores” eram o inimigo a abater, serão hoje uma potencial clientela que interessa seduzir…

16 thoughts on “O vira-casacas

  1. Muito bem apanhado e desmontado.
    Mais um exemplar para a coleção já extensa do Ricardo Araújo Pereira.
    Na sombra e se o ambiente lhe for favorável volta a trocar de agulha.
    A luta do justo é sempre a mesma, a luta contra o esquecimento (escrito na pedra).

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    • Quando começaram, pareciam nadar em dinheiro, que nunca se percebeu muito bem de onde vinha.
      Agora nota-se que as fontes de financiamento parecem ter secado e andam a fazer-se à vida, ensaiando um estilo menos ideológico e mais consensual…

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      • Tenho ideia que o dinheiro começou a escassear quando os financiadores do jornal se aperceberem que ressuscitar Passos Coelho era uma impossibilidade.

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  2. O tipo não envelheceu nada em 6 anos!

    Apreciei o seu texto até chegar à questão da direita. Percebo o seu facciosismo, mas não limite estas coisas à velhinha oposição E/D. É transversal, meu caro.

    Só não compreendo por que razão se presta atenção aos Cristos, Pachecos, Schésschés e companhia da vida. Pior: por que os seguimos.

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    • Aceito a crítica, e reconheço que ataques à escola pública e a uma classe docente com sentido crítico e autonomia profissional tanto podem surgir da esquerda como da direita.

      Em minha defesa acrescento que não tenho problemas em criticar projectos e ideologias de menorização e domesticação dos professores que surgem associados a um pseudo-progressismo de esquerda. Veja-se o exemplo paradigmático de José Pacheco, sobre o qual ainda esta semana escrevi, e não fui meigo…

      No caso do Observador, é claramente um projecto político de direita pretensamente moderna e neoliberal. Pareceu-me necessária essa referência para contextualizar um pouco as diatribes do jornalista-investigador…

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  3. Ainda nesta semana, no parlamento (creio… quando comecei a ouvir a hipocrisia com os professores desliguei, nauseada, a TV – era a mesma porcaria em todos os canais )
    País de HIPÓCRITAS E MENTIROSOS!

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  4. Fui eleitor de Cavaco e de Santana Lopes, no caso deste para evitar (tentar) a eleição do pseudo-engenheiro, alegadamente trafulha.

    Hoje, sou um indivíduo sem partido, digamos assim. A casa onde cresci já não existe. Passos Coelho e a cambada que o acompanhou construíram uma coisa em que não posso viver. Tinha alguma simpatia pelo CDS de Freitas do Amaral e Lucas Pires. Hoje, também não sei o que é aquilo.

    Se quisermos ser simplórios, diria que me descobri um Frankenstein político: a cultura + o rigor. E vivo muito bem com isso, o que me permite rir de desprezo pelo que se passou no Parlamento hoje, pejado de muita gente que cabe na sua descrição ou que se apropriou do 25 de Abril para se apoderar das benesses que o Estado proporciona.

    Aquele indivíduo que defeca para o segredo de Estado é um dos inúteis deste país que construiu uma vida a deturpar o 25 de Abril. Deve ter aprendido com o Soares filho, que, salvo erro, a propósito do pseudo-engenheiro, disse que um político só deveria ser preso por crimes de sangue e unicamente se fosse apanhado em flagrante. Isto para não recuarmos aos Otelos desta vida.

    O 25 de Abril não se deveria tanto comemorar, mas praticar.

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  5. A sísifo:

    Aqui vão uns versos de Sophia Andresen para encher a alma, comemorar e motivar para praticar:

    25 DE ABRIL
    Esta é a madrugada que eu esperava
    O dia inicial inteiro e limpo
    Onde emergimos da noite e do silêncio
    E livres habitamos a substância do tempo

    PS: Ontem um dos meus filhos ligou-me do outro lado do Atlântico:

    ” Mãe, como eu gostava de ter vivido o 25 de Abril como tu e o pai viveram! Deve ter sido uma das experiências únicas de uma vida. ….estás a ver a “Hora da Liberdade?”…mostraste-me esse filme quando eu era mais novo e gostei muito. Vou vê-lo aqui outra vez. Imagina que na descrição dizem que é um filme brasileiro sobre o 25 de Abril em Portugal!!!.”

    -“Já te injectaste hoje com desinfectante, uma lixíviazita tipo neoblanc?”
    – “Não me injectei, mas bebi um batido de lixívia logo o pequeno almoço”
    – “Está bem, mas começa com a variante gentil”
    – “Agora a sério, estou preocupado com vocês. Protejam-se!”
    – ” E tu também. Bj e vai lá rever o filme.”

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    • Nada me pode encher a alma, exceto afastar da vida política todos os corruptos (e são tantos!) que com ela fazem a vidinha, começando por todos aqueles que enchem a boca com o 25 de Abril, mas nunca o praticaram, antes se aproveitaram dele ao longo deste quase meio século.

      Associar a Sophia (ou o Torga, ou outro qualquer) a esta corja é insultar a sua memória enquanto mulher, cidadã e escritora.

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  6. A Sísifo,

    Há sempre corruptos. Em todo o lado e latitudes.
    Mas há muito mais gente séria, incluindo políticos, que fizeram e fazem o melhor que puderam e podem.
    Somos nós que votamos neles. É nossa responsabilidade estar informados e saber em quem votamos. É na AR que se legisla e aprovam ou desaprovam leis. Por isso a importância da composição do parlamento.

    A corrupção que dói mais é a grande e poderosa corrupção – os que enriquecem cada vez mais e em tempos de crise, os que não pagam impostos,os que não se mostram, os que colocam os seus lucros limpinhos em offshores. A Grande corrupção. Os que os ajudam e são apanhados aqui e ali são os testa-de ferro, uma espécie de peanuts.

    Deu 2 exemplos: um político e um “a-político”, segundo sempre afirmou. Compreendo o seu desencanto…..

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    • Mostre-nos dez políticos vindos do 25 de abril que nunca se tenham envolvido em esquemas ou rodeado de gente que o fez.

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        • 1- Antes de mais, uma sondagem de 2014 que arrepia pela ligeireza com que o problema é visto – totalmente descontextualizado:

          “Segundo uma sondagem levada a cabo pela Pitagórica e esta segunda-feira divulgada pelo jornal i, uma fatia de 46,5% dos portugueses considera que os políticos do Estado Novo eram mais sérios e honestos do que os atuais. Aliás, do bolo dos inquiridos, apenas 17,7% entende que os governantes de hoje em dia têm mais competências do que os de “antigamente”.”

          https://www.noticiasaominuto.com/politica/203431/politicos-da-ditadura-eram-mais-serios-e-honestos-do-que-os-atuais

          2- 10 políticos que considero sérios, trabalhadores e honestos (sem qualquer cronologia)
          – Mariano Gago
          – Salgado Zenha
          – António Arnaut
          – João Semedo
          – Miguel Portas
          – Honório Novo
          – António Filipe
          – Miguel Tiago
          – João Ferreira
          – Marisa Matias

          Nem vou entrar pelos mais conhecidos e, quiçá, polémicos.
          Mas deixe-me dizer o seguinte: O ter estado “rodeado” por políticos de “esquemas” é algo muito injusto.
          Nem Jesus Cristo escaparia!!!

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