De bicicleta para a escola… mas com seguro!

bicicletaEm tempo de férias, uma boa notícia para a reentré escolar, que apenas peca por tardia. Até agora, os alunos podiam ir para a escola a pé ou de transportes públicos. No carro familiar ou à boleia de amigos ou vizinhos. Em qualquer dos casos, a viagem de ida e a de regresso estavam sempre abrangidas pelo seguro escolar, o que já não sucedia se o percurso fosse feito de bicicleta.

Uma discriminação inaceitável num país que quer promover hábitos de vida saudável e fomentar o uso de meios de transporte económicos e amigos do ambiente.

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, anunciou esta sexta-feira que a ida para a escola de bicicleta vai passar a estar abrangida pelo seguro escolar, à partida para a oitava etapa da Volta a Portugal em bicicleta.

Em Viana do Castelo, o governante anunciou a “possibilidade de o seguro escolar integrar a ida para a escola em bicicleta, enquadrado na estratégia nacional para a mobilidade ativa ciclável” e no esforço de descarbonização.

Brandão Rodrigues destacou, à margem da partida para a oitava etapa, o trabalho feito em conjunto com a Federação Portuguesa de Ciclismo para que “mais gente possa andar de bicicleta” e que seja fomentado nas escolas através do desporto escolar, onde já há “um conjunto importante” de iniciativas.

“Eu não aprendi nada!” – O fracasso da escola do século XXI

Pontukse- koulu-Lappeenranta.jpgA aprendizagem baseada em projectos é uma ideia antiga que está a ser recuperada em vários países, Portugal incluído. Os seus defensores acreditam que a pedagogia construtivista é mais motivadora para os alunos, propicia situações de aprendizagem mais enriquecedoras e significativas e, sobretudo, está mais bem adaptada às necessidades e aos desafios do século XXI.

A Finlândia tem liderado os rankings do sucesso educativos no continente europeu. Contudo, num desafio arriscado – em equipa que ganha não se mexe, diz-se no mundo do desporto – o país abraçou a partir de 2016 a vaga recente de velhas pedagogias recauchutadas à era da internet. Sendo cedo para ter resultados conclusivos, vão-se ainda assim acumulando as evidências de que nem tudo está a correr bem…

Aino Piironen, do sexto ano, descobriu que a necessidade de criar o seu próprio plano de estudo era um desafio insuperável, depois de uma epilepsia infantil a ter deixado com leves dificuldades de memória.

Os pais de Aino acreditam que a escola falhou na sua tarefa principal de educar Aino. Do seu ponto de vista, o ambiente de aprendizagem moderno da escola dificultava-lhe a concentração e ela também precisaria de mais ajuda de professores e funcionários para apoiar a sua memória.

Outra área de dificuldade para Aino foi quando todos os membros das unidades separadas se reuniram no espaço aberto, ou “praça do mercado”. As crianças geralmente procuravam um lugar para sentar nos assentos almofadados enquanto os professores sentavam em uma mesa no meio da sala.

“O início do dia na escola foi caótico”, lembrou Aino.

O mais difícil de tudo, segundo Aino, era a falta de ensino. Os alunos começavam o dia trabalhando no seu próprio plano semanal, aproximando-se dos professores no meio da “praça do mercado” para aconselhamento quando necessário.

“Foi difícil para mim que a professora não tivesse ensinado de início, mas em vez disso tivéssemos de ser capazes de aprender as coisas sozinhos”, disse Aino. “Eu não aprendi nada.”

O problema de fundo, incompreendido por tantos teóricos da Educação, é que a abordagem construtivista não é geralmente a mais adequada a alunos com dificuldades de aprendizagem, falta de conhecimentos de base ou pouca autonomia. Como qualquer professor experiente sabe, os bons alunos aprendem praticamente de qualquer maneira. Pelo que as melhores pedagogias, numa escola inclusiva, não são as que permitem “fazer flores”. São, isso sim, as que possibilitam que todos os alunos adquiram uma base sólida de conhecimentos, que depois poderão aplicar na resolução de problemas, no desenvolvimento de projectos e em novas aprendizagens. São aquelas que se adaptam à diversidade do público escolar, não deixando ninguém para trás. Ao contrário do que sucedeu, neste caso, com Aino e alguns dos seus colegas.

As metodologias de projecto nos primeiros anos do ensino básico podem proporcionar experiências interessantes aos alunos, mas não me parece que devam ser a base do trabalho pedagógico. Enquanto não estiverem adquiridas e consolidadas as principais competências ao nível da leitura, escrita e cálculo, dificilmente se farão aprendizagens significativas através dos projectos. Construir a casa pelo telhado pode ser, nos sonhos delirantes de alguns cientistas da educação, uma ideia desafiadora. No mundo real, resulta geralmente num monte de escombros.

Voltando à história de Aino, apesar de tudo com um final feliz: as dificuldades da aluna resolveram-se com uma simples mudança de escola. Num ambiente mais próximo das metodologias tradicionais, a criança mostrou de imediato a sua satisfação, sentindo-se segura graças à orientação e à ajuda, sempre que necessária, de um professor. A ansiedade desapareceu e não precisou sequer de apoios especiais, beneficiando unicamente dos que já estavam estabelecidos na turma em que se integrou.

Concursos: da fartura à falta de professores

professoresCerca de 20 dos 8600 professores contratados que foram colocados nesta sexta-feira estão à beira de fazer 60 anos. Neste grupo existem pelo menos dois docentes que estão há mais de 30 anos a dar aulas, sempre a contrato. E vários outros têm entre 18 e 20 anos de aulas em cima.

Português, História, Filosofia e Informática são os grupos de recrutamento (disciplinas) com maior concentração de colocados com esta idade. O concurso de contratação inicial, destinado a professores contratados, registou cerca de 47 mil candidaturas.

Como os professores podem concorrer para dar aulas a mais do que uma disciplina, o número de candidaturas não é igual ao de candidatos, que deve andar à volta de 34 mil. Por agora ficaram colocados 8600 professores a contrato, dos quais 5400 em horários completos (22 horas de aulas por semana).

Com uma média de quatro candidatos para cada vaga – ou seja, três quartos dos opositores ao concurso não obtiveram, para já, colocação – parece que a falta de professores que se antevê a médio e longo prazo não é ainda uma realidade.

Na verdade, não é bem assim. O que as colocações na contratação inicial demonstram é que, em todo o país, não faltam candidatos a horários completos e anuais. As dificuldades irão surgir mais tarde, tal como sucedeu nos anos anteriores, quando se tratar de preencher os horários incompletos e temporários que venham a surgir. Todos os trabalhadores, e os professores não são excepção, valorizam a estabilidade profissional e estarão pouco dispostos a trabalhar para aquecer. Pelo que, conhecedor desta realidade, deveria o ME esforçar-se por colocar o maior número possível de horários a concurso no início do ano.

Não é seguro que o tenha feito. Assim como, nota a Fenprof, também os quadros de muitas escolas e agrupamentos estarão subdimensionados em relação às reais necessidades de docentes. Pelo que o brilharete conseguido com a antecipação da publicação das listas não garante que os problemas com as colocações ao longo do ano estejam resolvidos…

Para a Fenprof, as colocações conhecidas nesta sexta-feira confirmam também que “os quadros das escolas/agrupamentos estão subdimensionados”. Uma das provas disso, acrescenta, é o facto de se registar “um aumento, em relação a 2018, de cerca de 2600 contratações para horários completos (mais 86,6% em relação ao ano passado)”.

Colocações a 16 de Agosto: novo normal ou ano eleitoral?

concursos.JPGColocar os professores a tempo e horas deveria fazer parte da rotina de lançamento de cada novo ano escolar, de forma a que o assunto não tivesse de, por más ou por boas razões, ser todos os anos chamado às manchetes dos jornais.

Da parte do Governo, que conseguiu a aparente proeza de ter as listas de colocação publicadas a meio de Agosto, até se percebe que tente puxar dos galões e, num gesto simpático mas evidentemente calculista, procure repartir o mérito com outros intervenientes.

Já a subserviência da associação dos professores contratados em relação aos governantes tem o seu quê de indecoroso, embora também esteja longe de constituir novidade.

Quanto à Fenprof, é claro que tem razão: um governo apostado em ampliar a votação do PS até ao limiar da maioria absoluta não iria correr o risco de ter problemas com as colocações docentes em vésperas de eleições. Depois de, com a recusa da recuperação dos 9-4-2, já terem perdido tudo o que tinham a perder com os professores, a estratégia agora será encetar a difícil missão de tentar recuperar votos entre a classe docente…

Ao longo dos anos, os professores contratados têm sabido em que escola vão ficar praticamente nas vésperas do arranque do ano escolar, a 1 de Setembro, sendo que muitos deles podem ser colocados a centenas de quilómetros do estabelecimento escolar em que deram aulas no ano anterior. Por isso a ANPC considera que se viveu nesta sexta-feira um “dia histórico na colocação de professores”.

Em resposta ao PÚBLICO, o Ministério da Educação refere que a antecipação na divulgação as listas “foi possível graças ao inexcedível empenho e trabalho das escolas e do Ministério da Educação, por ser ano em que não houve nem concursos extraordinários, nem concurso interno, e por não ter havido outras vicissitudes perturbadoras do procedimento”. No ano passado foram sete os concursos de colocação de professores que decorreram em simultâneo.

Já a Federação Nacional de Professores (Fenprof) tem outra leitura: “A esta antecipação não é alheio o facto de o ano lectivo abrir em plena campanha eleitoral o que demonstra que, para o Ministério da Educação/Governo, contam mais as eleições do que o interesse dos professores e das escolas”.

Na América de Cima, só números amaricanos

numeros.jpgJá sabíamos que nos EUA continuam a não querer nada com o sistema decimal usado em praticamente todo o mundo. Agora ficámos também a saber que, a crer nesta sondagem, a maioria também prescinde dos números, se estes forem… árabes…

O resultado pode ser interpretado como um reflexo da proverbial ignorância e preconceito do cidadão comum nos EUA. Mas confirma uma outra ideia, bem mais interessante e esclarecedora: em qualquer inquérito ou sondagem, as respostas que obtemos dependem significativamente da forma como se faz a pergunta.

Neste caso, a formulação estava perfeitamente ajustada aos fins em vista. Mas quantas vezes não são os questionários intencionalmente manipulados com o objectivo, não de se saber o que as pessoas realmente pensam, mas de se obterem os dados estatísticos mais convenientes para os fins em vista?

O sistema de numeração árabe é o sistema de numeração standard do mundo – foi inicialmente desenvolvido na Índia antes de se alastrar ao mundo árabe e à Europa – mas a sua designação deixou desconfiada a maioria dos 3.624 inquiridos na sondagem “As escolas na América deviam ensinar os números árabes como parte do seu currículo” levada a cabo pela empresa de estudos de mercado americana Civic Science que… não explicava o significado de “numeração árabe”. E sim, a ideia era mesmo explorar o preconceito em relação à palavra “árabe”.

Vamos, então, às respostas: 56% das pessoas (2020) que responderam consideram que não, que tal coisa não deve ser ensinada às crianças. A percentagem aumenta quanto se tem em conta apenas os indivíduos republicanos – 72 por cento, contra 40% dos democratas.

Do total de inquiridos, 29% concordam que estes números devem ser ensinados nas escolas dos EUA e 15% não têm opinião.

Estes resultados representam “o testemunho mais triste e engraçado da intolerância americana que alguma vez vimos nos nossos dados”, resume John Dick, responsável executivo da Civic Science.

Tiago Brandão Rodrigues nunca desilude

time-tbrO ministro perceberá hoje de Educação quase o mesmo que sabia quando entrou para o ministério. Mas as manhas de político medíocre, parece tê-las aprendido todas. E nota-se o incómodo com essa chatice da prestação de contas, um dos deveres mais importantes dos governantes em democracia.

Se a prosa esclarecedora do Fumaça no Twitter apenas confirmou, de Brandão Rodrigues, que continua igual a si próprio, deu-me por outro lado oportunidade para espreitar o trabalho de um projecto jornalístico independente que merece ser apoiado.

Em julho, o Fumaça marcou uma entrevista com o ministro da @Educacao_PT, Tiago Brandão Rodrigues, para analisar a sua ação enquanto membro do governo e questionar as políticas de educação dos últimos 4 anos. Ia acontecer no Festival Paredes de Coura. Mas já não vai.

Foi publicamente anunciada para dia 16 de agosto, no Palco Jazz na Relva, no Festival Paredes de Coura. Infelizmente, há cerca de duas semanas, a entrevista foi cancelada.

O governante está de férias esta semana, em Paredes de Coura. Mas não está disponível para falar sobre as suas decisões e responsabilidades governativas. Mostrou-se, no entanto, favorável a falar sobre outros temas.

Uma conversa sobre o percurso profissional e extrapolítico do ministro, natural de Paredes de Coura, não faria sentido. No Fumaça, temos pouco interesse em narrativas sobre os feitos do “filho da terra”, quando nos propomos a escrutinar quem detém cargos de Poder.

Assim, no mesmo dia e à mesma hora, falaremos com o escritor @valterhugomae, que aceitou falar connosco sobre cultura e política cultural. Apareçam, pelas 17h, dia 16 de agosto (sexta-feira), no Palco Jazz na Relva.

PS: Para que fique claro, a explicação para a recusa da entrevista deveu-se, segundo a assessoria de imprensa do ministro, a um “mal entendido” entre o ministério e a produção do festival sobre o tema da conversa.

Técnicos especializados sem direito a renovar contrato

despedidosEis uma situação para a qual tinha sido alertado há uns dias por um leitor do blogue: técnicos especializados que prestam serviço nos cursos profissionais e no ensino artístico especializado estão a ser, à margem da lei, impedidos de renovar contrato. Estes formadores são, na prática, professores. Mas, como não se enquadram nos grupos de recrutamento existentes, não são considerados como tal. E agora estão a ser vítimas de um vergonhoso subterfúgio destinado a impedi-los de conseguir o tempo de serviço necessário para vincular.

A denúncia parte da Fenprof e a situação junta-se ao vasto rol de injustiças, abusos e ilegalidades protagonizadas pela DGAE e pela secretária de Estado Alexandra Leitão, que tutela esses serviços.

A FENPROF e os seus sindicatos têm estado a receber inúmeras queixas de direções de agrupamentos e escolas não agrupadas sobre a impossibilidade de procederem à renovação de contratos de técnicos especializados que reúnem as condições para tal na aplicação eletrónica disponibilizada para o efeito e sobre a falta de resposta formal e escrita aos inúmeros pedidos de esclarecimento que têm endereçado à DGAE a propósito desta situação.

A resposta aos inúmeros pedidos de esclarecimento tem sido dada via telefone e está a causar uma enorme indignação junto das direções das escolas e dos técnicos especializados, pois está a ser informado pela DGAE que apenas os técnicos especializados aderentes ao Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP) estariam em condições de renovar os contratos! A mesma resposta está a ser dada aos técnicos especializados que se têm dirigido à DGAE, acrescentando que são “indicações internas”… Ora, a candidatura ao PREVPAP era só para técnicos não docentes, e como tal, os formadores com atividades docentes estavam impedidos de concorrer a esse programa.

 Esta é uma situação claramente violadora da legislação em vigor e contrária às notas informativas emanadas pela própria DGAE em 23 de julho e 5 de agosto sobre este mesmo assunto. A consequência imediata deste ato ilegal é a não vinculação de todos os técnicos especializados colocados desde há 2 anos em horários completos e anuais, que entrariam assim no 3.º contrato sucessivo em horário completo e anual. Ou seja, o ME tentou arranjar, à margem da lei, e num desrespeito total pelas escolas e por estes profissionais, uma “espécie” de norma-travão que impede estes técnicos de vincularem no próximo ano.