Licenciatura em 6 meses

Obter, sendo licenciado, uma segunda licenciatura em apenas 6 meses: julgo que ainda não se consegue por cá, a não ser em situações muito excepcionais, mas no Brasil tornou-se algo corriqueiro. Uma segunda licenciatura permite concorrer a mais vagas e aumentar as oportunidades de colocação dos professores. Ávidas de alunos, as universidades e escolas superiores fazem o jeito, recorrendo a um truque antigo e bem conhecido: trata-se de usar as famosas equivalências para dispensar os estudantes da maioria das disciplinas do curso, reduzindo-o assim à duração mínima de um semestre.

Vendo as coisas como elas são, percebe-se que este é o corolário lógico de um ensino cada vez mais assente no estudo superficial de tópicos – agora chamados aprendizagens essenciais – em vez de uma base estruturada de conhecimentos. Em transdisciplinaridades – campo em todos sabemos de tudo, porque “está tudo na internet” – em vez da especialização disciplinar. E em competências instrumentais substituindo o conhecimento sólido, estruturado e base de autonomia, do espírito crítico e de novas aprendizagens.

O desinvestimento na formação de professores é uma demonstração evidente da degradação das políticas educativas que a OCDE, o Banco Mundial e as multinacionais estão a impor à escala global. Só um sistema educativo pouco ou nada exigente aceita formar professores especializados em apenas seis meses, a quem a acumulação de cursos apenas facilitará que sejam, nas escolas, pau para toda a obra. Trabalhadores docentes precários e mal pagos, contratados e descartados ao sabor das necessidades e dos caprichos dos dirigentes educativos.

Uma decisão incompreensível

A Direção-Geral da Saúde (DGS) esclareceu hoje que a vacinação de crianças com idades entre 12 e 15 anos sem doenças tem de ter prescrição médica, não bastando a vontade dos pais, como defendeu o Presidente.

Num esclarecimento hoje enviado à agência Lusa, a DGS considera, depois de ouvida a comissão técnica de vacinação contra a covid-19, que “deve ser dada a possibilidade de acesso à vacinação a qualquer adolescente com 12-15 anos por indicação médica”.

No sábado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou que as autoridades de saúde não proibiram a vacinação contra a covid-19 para crianças saudáveis, considerando que “esse espaço continua aberto à livre escolha dos pais”.

Pelo menos por enquanto, a vontade dos pais não é suficiente para que a população com idades entre 12 e 15 anos e sem doenças seja automaticamente imunizada, embora isso possa ser conseguido caso o médico avance com uma prescrição.

É sempre ingrato questionar as decisões das autoridades de saúde, certamente na posse de informação técnica e experiência profissional de que os leigos na matéria, como é o meu caso, não dispõem.

Ainda assim já tivemos, em momentos críticos da actual pandemia, ocasiões em que a intuição dos responsáveis políticos ou mesmo de uma grande parte dos cidadãos se revelou mais acertada do que as ponderadas e avalizadas recomendações dos “peritos”. Ora é com essa percepção, e com o saber de experiência feito que um ano e meio de crise pandémica nos deu a todos, que vejo neste abrandamento na dinâmica da vacinação um passo atrás na luta contra a pandemia.

Claro que, na perspectiva infantocêntrica cada vez mais presente na vida social e familiar, é simples justificar o adiamento da vacinação anticovid dos mais novos. Raramente adoecem e quando isso sucede os sintomas são geralmente ligeiros. E como os mais velhos estão vacinados, a possibilidade de serem contagiados com gravidade pelos filhos ou netos é muito reduzida. Assim sendo, para quê incomodar as “crianças” de 13 ou 14 anos com uma incómoda “pica” e uma ida “secante” ao centro de vacinação?

A questão é que não nos defrontamos com um mero problema de bem-estar infantil ou juvenil. Estamos perante o que é, até agora, o maior problema de saúde pública do século XXI. E embora ainda não saibamos tudo sobre a covid-19, há algumas certezas, ainda que provisórias, que podemos ter. Uma é que as vacinas são, a par do uso das máscaras, as mais eficazes medidas para conter a pandemia. Mas nem uma nem outra têm eficácia total, pelo que é necessário continuar a usar máscara em determinadas situações e alargar ao máximo a vacinação da população. Também sabemos que as vacinas são seguras e algumas estão internacionalmente aprovadas para aplicação em menores a partir dos 12 anos.

Assim sendo, o que se ganha em complicar o acesso à vacina, obrigando os pais que querem vacinar os filhos a ir à em busca do atestado médico que o permitirá fazer? Em fomentar hesitação e insegurança na vacinação dos sub-16, depois dos esforço hercúleo que vem sendo feito por todos os envolvidos no processo? Em começar o novo ano lectivo com a grande maioria dos alunos por vacinar, quando está ao nosso alcance fazê-lo atempadamente?

Há realmente vontade de debelar a pandemia e virar esta página negra ou vamos, em vez de tomar medidas corajosas e decididas, adiar decisões e ficar à espera de milagres? Numa guerra que dura há demasiado tempo, e quando estamos finalmente em condições de dar o golpe de misericórdia ao inimigo, permitiremos que se recomponha para uma quinta vaga?…

BBD Vida Selvagem – parte II

Segunda parte da BBD Vida Selvagem (primeira parte aqui), um retrato bem humorado dos professores, essa espécie muito peculiar que se foi adaptando à vida na escola. Um habitat que, ainda assim, se revela muitas vezes inóspito aos mais desafortunados docentes. Créditos ao nosso colega e artista Luís Cardoso.

Os filhos das elites também andam na “escola inclusiva”?

Uma forma segura de aferir a bondade das actuais políticas educativas, consensualizadas por organizações internacionais tão influentes como a OCDE, o Banco Mundial ou as fundações milionárias, seria averiguar se as elites confiam nessa escola universal, compreensiva e inclusiva para a educação dos seus próprios filhos.

A questão pertinente levantada por Raquel Varela fica obviamente sem resposta. O que legitima todas as dúvidas…

Não creio que as pessoas devam fazer confissões públicas individuais da sua vida pessoal, mas era importante termos um estudo, anónimo, sobre onde estudam os filhos das elites económicas, intelectuais e políticas do país? Esta é uma questão pública. Compreender se também estas crianças e jovens são cobaias e vítimas da degradação da qualidade da escola pública ou se há nichos onde se reproduzem elites com acesso ao conhecimento.
Uma escola inclusiva não é a que cria currículos aligeirados mas justamente o seu contrário, quanto mais as classes trabalhadoras e médias tiverem dificuldades mais aos seus filhos deve ser dado um currículo exigente.
O currículo é a sistematização do belo, justo e do bom, da ciência, da filosofia e da arte, do melhor que a humanidade ao longo da sua história produziu e realizou. As aprendizagens essenciais aligeiram o currículo para adaptarem uma força de trabalho a um mercado pobre, sem exigência ele mesmo.
Todo o país é turbinado nesta pobreza – a alunos poucos exigentes adaptam-se cursos de formação pouco exigentes, professores pouco qualificados, que cada vez sabem e podem ensinar menos, para uma força de trabalho barata que por sua vez arrasta para baixo todos os salários de manutenção dessa mesma força de trabalho…

Continuar a ler…

Sábado, 31/07, RTP2: Uma Turma Difícil

A RTP2 vai exibir amanhã, pelas 19:20h, um filme francês de 2014 que mantém inteira actualidade: no ambiente difícil de escolas secundárias recheadas de alunos com “interesses divergentes dos escolares”, como motivar e manter a motivação para a aprendizagem? Mais, como encontrar alternativas a aulas “secantes” sem ceder ao sucesso fictício, à irrelevância ou ao facilitismo?

Um filme a ver, rever ou gravar para ver mais tarde.

Republico o post da série “A escola no cinema” que publiquei originalmente em 2017.

Uma Turma Difícil

Título original: Les Héritiers, 105m, França, 2014.

turma-dificil.jpgUm filme recente – não confundir com A Turma, do qual também já se escreveu por aqui – sobre uma temática que tem sido diversas vezes abordada pela cinematografia francesa: as turmas complicadas das escolas secundárias, recheadas de alunos desmotivados, indisciplinados e onde cada aula se torna um duro desafio mesmo para os professores mais persistentes e determinados.

Ora é justamente com uma destas turmas difíceis de um liceu de Créteil que a professora de História decide tentar algo de diferente das estratégias habituais, propondo aos alunos um daqueles desafios que geralmente se reservam às turmas mais promissoras: a participação num concurso nacional evocativo das memórias da resistência, da deportação e do Holocausto.

Ao longo do filme vemos como a participação no projecto, de início quase impossível, acaba por envolver os alunos, como constrói laços de amizade, solidariedade e cooperação entre os jovens e como acaba por constituir, não apenas uma bem sucedida tarefa escolar, mas também uma experiência transformadora das suas vidas.

BBD Vida Selvagem – parte I

Esta divertida série de cartoons, do nosso colega Luís Cardoso, já tem alguns anos, mas só recentemente, e por mero acaso, a descobri.

Imaginando a escola como um habitat natural, neste caso a savana, eis alguns dos seus mais notórios habitantes…

Continua aqui.

João Costa e – ainda – as escolas TEIP

O Programa TEIP não carece de defesa, porque tem provas mais do que dadas. Contudo, quando se faz notícia, a partir de um estudo, afirmando a ineficácia de uma política pública, generalizando a partir de uma amostra lacunar e de conclusões precipitadas e sem se tratar o contraditório fornecido pelo Ministério da Educação, torna-se útil disponibilizar informação verdadeira sobre os resultados das escolas que se encontram em territórios educativos de intervenção prioritária (TEIP), evitando-se, assim, eventuais aproveitamentos políticos (ou sensacionalismos) de um trabalho académico discutível.

Escrevi recentemente sobre as escolas TEIP a propósito da tese de doutoramento de Hélder Ferraz. Não tencionava voltar ao tema, mas a intervenção do SE Costa, na defesa do que parece ser uma menina dos seus olhos e no ataque a um trabalho académico que não foi apadrinhado pelo seu círculo de apoiantes e dependentes, leva-me a regressar ao assunto, apenas para sublinhar alguns pontos fundamentais.

É inegável que, criando uma resposta educativa para crianças e jovens de meios desfavorecidos que antes não iam à escola ou a abandonavam precocemente, as escolas TEIP reduziram o absentismo e o abandono escolar precoce. Contudo, se cumprir o dever da escolaridade é já uma vitória, interessa saber como foram aproveitados esses anos por aqueles alunos a quem a escola interessa de facto muito pouco e que ainda não há muito tempo desistiam de estudar em idades muito precoces. Aprenderam de facto alguma coisa, ou andaram por lá a passear e a conviver?

Para perceber o que se passa, interessa saber até que ponto os alegados sucessos são reais. Nos diversos projectos, relatórios, inspecções e avaliações tudo parece correr às mil maravilhas. No entanto, ao fim de mais de uma década de intervenção, os resultados escolares, sobretudo quando aferidos pela avaliação externa, continuam a ser modestos. Se apesar do reforço de meios e da prioridade dada à intervenção nestas escolas, não se observa uma aproximação às médias do restante universo escolar, então algo deve estar a falhar.

Há desde logo um equívoco de base com a criação dos TEIP: a ilusão de que a criação de guetos educativos pode resolver, ou pelo menos atenuar, os problemas decorrentes dos guetos geográficos e sociais que lhes estão subjacentes. As escolas TEIP fariam e fazem todo o sentido se forem integradas numa resposta global aos problemas da exclusão social e da gentrificação urbana. Mas a verdade é que estes fenómenos continuam a acentuar-se, levando à concentração em determinadas escolas de alunos que trazem consigo um conjunto de problemas e dificuldades que condicionam e limitam a sua integração escolar. E as escolas não fazem milagres.

Neste contexto, uma resposta que deveria ser integrada e transitória a problemas que em larga medida extravasam a própria escola, tem vindo a impor-se como solução permanente. A realidade escolar não muda porque as carências do meio social, cultural e familiar dos alunos também não se alteram. Apenas um exemplo: quando, em vez de apoiar as famílias e as comunidades, aceitamos que algumas escolas permaneçam abertas nas férias para que certos alunos possam aí fazer a única refeição decente do dia, isso diz tudo sobre a concepção assistencialista e fatalista da escola para pobres que os TEIP, inevitavelmente, reproduzem.

Inaceitável, ainda mais sob a vigência de um governo que se diz de esquerda. É como se devêssemos conformar-nos com a desigualdade de oportunidades que está subjacente a uma concepção de escola pública a diferentes velocidades, consoante o público escolar dominante em cada uma. A consagração das aprendizagens essenciais como programa mínimo, que nas escolas TEIP será o todo o programa, é apenas a consagração de um modelo educativo que, sob a capa da promoção da igualdade, irá agravar ainda mais a desigualdade no acesso à educação.

Muro às progressões, muro da vergonha

Em mais uma das suas declarações aparentemente favoráveis aos trabalhadores, a Ministra da Administração Pública afirmou que estar dez anos sem progredir na carreira é um exagero, mas há 235 professores que não progridem há 11 e 12 anos e muitos deles serão, mais uma vez, impedidos de progredir. Este obstáculo à progressão de docentes aos 5.º e 7.º escalões é, de facto, o “muro da vergonha” imposto à sua carreira, sendo necessário lutar para o derrubar. De acordo com as listas provisórias ontem divulgadas ao final da tarde (nas quais faltam docentes que as deveriam integrar), o número de educadores e professores retidos nos 4.º e 6.º escalões da carreira, de um ano para o outro, passará de 2021 para 4342. Ou seja, o número de docentes retidos mais que duplica, aumentando 115%!

Se analisarmos a situação em cada escalão verificamos que para os 3844 candidatos à progressão ao 5.º há 2100 vagas, o que significa que 45,4% não irão progredir; no que respeita ao 7.º escalão, são apenas 1442 vagas para os 4040 candidatos, o que significa que 64,3% serão impedidos de progredir. É de salientar que 235 docentes estão no 4.º ou no 6.º escalão desde 2010 ou mesmo antes. Isto é, para escalões cuja permanência é de 4 anos, há quem neles permaneça há mais de uma década e, pelo seu lugar na ordenação, muitos destes professores continuarão impedidos de progredir.

Esta é uma situação, realmente, vergonhosa porque: 

– Todos os docentes candidatos à progressão, para além de já terem tempo de serviço para se encontrarem dois ou três escalões acima daquele em que permanecem, foram avaliados com classificações que correspondem a Bom, Muito Bom ou Excelente, cumpriram os módulos de formação a que estão obrigados e, no caso dos que se encontram no 4.º escalão, sujeitaram-se a observação de aulas; 

– Os docentes que obtiveram classificações correspondentes a Muito Bom (entre 8 e 9) e Excelente (entre 9 e 10), provavelmente a maioria dos que constam das listas divulgadas, viram ser-lhes apenas atribuída a menção de Bom, por força da aplicação das quotas de avaliação. A sua avaliação real ter-lhes-ia permitido progredir sem terem de se sujeitar a vaga; 

– Essas quotas de avaliação são tão mais injustas, quanto alguns dos docentes atingidos pelas quotas obtiveram classificações superiores a outros que, apesar de terem obtido classificação mais baixa, foram abrangidos na sua escola. Há docentes com 9,6 em 10 (Excelente) a quem foi atribuído Bom, não podendo, por isso, progredir se não obtiverem vaga, havendo, no entanto, quem tivesse sido dispensado, e bem, com uma classificação de 8; 

– Dos docentes que irão progredir e dos que ficarão retidos, a maioria não recuperou os 2 anos, 9 meses e 18 dias e, por esse motivo, até essa pequena parcela de recuperação de tempo de serviço cumprido lhes é roubada, somando aos anos de serviço de espera para a obtenção de vaga; 

– Todos estes docentes são discriminados em relação aos seus colegas que exercem atividade nas regiões autónomas, pois, havendo um número de vagas igual ao de candidatos (Madeira) ou não existindo regime de vagas (Açores), todos progredirão sem perda de tempo de serviço, para além, também, de estar em curso a recuperação total dos 9 anos 4 meses e 2 dias de congelamento.

A Fenprof denuncia mais uma vez esta injustiça que vem do último governo de Sócrates e que o ME impôs como moeda de troca pelo desaparecimento da fractura na carreira entre professores e professores titulares. O subsequente congelamento das progressões deixou o assunto em banho maria e é agora, que um número crescente de docentes se vê impedido de progredir normalmente, que a arbitrariedade e a injustiça revelam a sua verdadeira dimensão.

Outro problema associado às candidaturas aos 5.º e 7.º escalões é a falta de informação nas listas ordenadas, pois a coberto de uma alegada protecção de dados individuais, a DGAE oculta dados relevantes para verificar a correcta ordenação dos candidatos.

Sem respostas da secretária de Estado responsável, a Fenprof irá amanhã ao ministério, onde deixará o seu protesto e exigirá ser recebida. E convida todos os professores interessados – e prejudicados! – a comparecer.

FENPROF desloca-se amanhã, dia 28, ao ME (10h30), onde irá protestar contra a opacidade das listas de candidatos às vagas de progressão e exigir que nenhum docente seja impedido de progredir

PCP critica o plano de recuperação do Governo

O que é preciso para recuperar aprendizagens e melhorar o acompanhamento dos alunos, tornar as aulas mais interessantes e produtivas e dar apoio efectivo aos alunos com dificuldades?

Será aumentando ainda mais a burocracia escolar, colocando os professores a preencher plataformas e papéis, ou libertando o seu tempo para se poderem dedicar inteiramente ao trabalho com os alunos?

Polvilhar o horário de cada turma com meia dúzia de coadjuvâncias, ou reduzir o tamanho das turmas, de forma a que todos os professores possam dar mais atenção e apoio aos alunos que precisem?

Apoios especializados ao nível da psicologia, terapias e educação especial para os alunos com maiores comprometimentos, ou apoios generalistas que são apenas mais do mesmo?

O PCP identifica bem o caminho certo para o pós-pandemia educativo: turmas reduzidas, mais profissionais nas escolas, flexibilidade não para andar a brincar aos currículos e às avaliações, mas para gerir créditos horários que permitam responder às necessidades dos alunos e da organização das escolas.

Principal muleta de suporte a um governo cada vez mais isolado e fechado em si mesmo, esperemos que o PCP saiba impor, mais do que exigir, melhores soluções governativas para a Educação portuguesa.

Em relação ao Plano de Recuperação de Aprendizagens para o próximo ano lectivo apresentado pelo Governo no início de Julho, Jorge Pires criticou “um plano de intenções, pouco desenvolvido e de objectivos pouco claros”, que, acusa, foi “elaborado à revelia de quem tem o conhecimento real da situação”.

“Ainda que, após a sua apresentação, o Ministério da Educação tivesse promovido uma aparente audição das organizações representativas da comunidade educativa, ela não levou o Ministério a alterar o projecto que elaborara, ficando por responder às muitas questões levantadas por organizações sindicais, associações de dirigentes escolares ou pelo movimento associativo de pais”, lamentou. Outra das críticas é o facto de, dos 900 milhões anunciados pelo Governo para dois anos, “apenas 140 milhões são dirigidos aos trabalhadores o que é manifestamente pouco”.

Entre as medidas que o PCP exige agora ao executivo socialista na área da educação está a redução do número de alunos por turma, a flexibilização da organização das turmas e o “reforço efectivo de horas atribuídas às escolas para o desenvolvimento de tutorias e mentorias”.

Reforçar os “meios destinados a uma educação verdadeiramente inclusiva” e criar “equipas multidisciplinares específicas ou reforço significativo das existentes para que articulem os Planos de Recuperação” é outro dos pedidos.

Ouvir a voz dos alunos

Ouvir e considerar as opiniões dos/as alunos/as não tem sido uma preocupação frequente entre os profissionais de educação. Nas suas formas mais tradicionais, a escola desenvolveu uma cultura de transmissão de conhecimentos de sentido único: da escola para os alunos/as, com reduzidas possibilidades de acolher as suas intervenções. Ouvir as crianças e os jovens sobre as suas próprias aprendizagens, e genericamente sobre todo o processo educativo, tem sido considerado, na educação tradicional, um procedimento inadequado. A criança é vista como um recetor e um ser humano por vir, ainda desprovido de responsabilidade, de capacidade de decisão e de conhecimento suficiente sobre o mundo. Perante esta conceção de criança, a escola organiza-se como uma estrutura que assume a missão de transmitir conhecimentos e valores, na convicção de que venha mais tarde, então adulta, a poder emitir opiniões e a ser responsável pelos seus atos.

Ouvir a voz dos alunos está a tornar-se o novo mantra educativo dos pedagogos do regime. O SE Costa já anda com essa conversa há algum tempo, e o Conselho Nacional de Educação veio agora reforçar a ideia que urge encasquetar nas mentes dos professores portugueses. Num texto longo e repetitivo, diria mesmo obssessivo, o grupo de conselheiros redactores culpa os docentes por não ouvirem os alunos, nem terem em conta as suas ideias e opiniões no planeamento e na prática lectiva.

Pela minha parte, tenho alguma dificuldade em aceitar o tom sentencioso dos doutores eduqueses que sempre evitaram as salas de aula onde poderiam ouvir todos os dias “a voz dos alunos”, nunca as tendo frequentado ou, quando não conseguiram escapar à fatalidade, fugindo assim que puderam para as suas torres de marfim nas academias, nos gabinetes ministeriais e nas escolas superiores de educação.

Em mais de trinta anos de profissão docente, nunca deixei de ouvir as vozes dos meus alunos – só agora experimento algumas dificuldades, por causa do uso da máscara, que torna os sons menos perceptíveis – e apenas exijo algo que talvez esteja a ficar fora de moda na informalidade dos novos tempos, que é falarem cada um na sua vez. De resto, sou todo ouvidos, e tomara eu que a maioria dos meus alunos ouvissem os seus pares com a mesma atenção que eu dedico a cada um deles quando usa da palavra.

Mas recuso-me a embarcar em relativismos pseudo-democráticos. Uma opinião infundada não pode ser considerada no mesmo plano de um facto comprovado. A intervenção ponderada de um aluno que estudou e reflectiu não vale o mesmo do que um disparate proferido à mesma velocidade com que nos passa pela cabeça. Uma pergunta de quem quer saber mais ou compreender melhor não está ao mesmo nível de uma afirmação movida pela ignorância ou o preconceito. Mas claro que todas estas intervenções podem ser oportunidades de aprendizagem e como tal devem ser trabalhadas e não ignoradas. Mas é para isso mesmo que nós, os professores, sempre lá estivemos.

E sim, os alunos estão na escola para adquirir conhecimento. Desistir de lhes ensinar tudo o que são capazes de aprender, sob o pretexto de que os seus saberes são tão válidos como os de quem estudou para lhes ensinar, seria o maior crime que poderíamos cometer contra os nossos alunos. Ao contrário do que sugerem os defensores mais radicais do construtivismo, nenhuma geração humana construiu, sozinha, o seu próprio conhecimento. Pelo contrário, beneficiou do imenso capital de conhecimento e experiência acumulado e transmitido pelas gerações que a antecederam. A aprendizagem formal, que a escola pública permitiu universalizar, é comprovadamente o meio mais eficaz de democratizar o conhecimento e acelerar o progresso da humanidade.

Estas são reflexões nada estranhas ao quotidiano de qualquer professor, mas que passam ao lado do longo relambório que o CNE aprovou e fez publicar em Diário da República. Um extraterrestre que chegasse agora ao nosso planeta e conseguisse decifrar a Recomendação 2/2021 ficaria certamente a imaginar os professores portugueses como seres cavernícolas, uns brutos insensíveis que vão para as aulas despejar matéria sem permitir que os alunos abram a boca, encarando os jovens cérebros como arcas vazias que precisam de ser atulhadas de conhecimento.

Lá para o final, há um excerto significativo que se torna revelador. É quando recomendam mudanças na formação de professores, no sentido de que as aulas deixem de ser meramente expositivas e permitam o diálogo entre docentes e discentes. Ora isto é o que os professores do básico e do secundário, de um modo geral, sempre fizeram! Pelo que ouso pensar que, antes de invectivar à mudança os docentes que consideram inferiores, talvez os doutores eduqueses da faculdade ganhassem em começar por questionar e melhorar as suas próprias práticas lectivas.