Quadros Docentes – António Garcia na Praia

Professor gozando os seus três meses de férias. Óleo sobre ignorância…

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Joaquín Sorolla e Bastida, António Garcia na Praia (1909)

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Insucesso e abandono no ensino profissional

O mais recente “estudo” da DGEEC, que o Público noticia, analisa o insucesso e abandono escolares nos cursos profissionais.

Algo indigesto para abordar em período de férias escolares, o estudo confirma, através dos números, uma ideia que, para quem conhece a realidade do ensino profissional e das vias alternativas de conclusão do ensino básico, não é surpreendente.

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Há uma percentagem elevada de alunos que, ao fim dos três anos regulamentares, não chegam a concluir os cursos profissionais em que se matricularam. E esta taxa aumenta ainda mais quando analisamos o universo de alunos que concluiu o ensino básico através de um percurso alternativo: um CEF, um PCA ou um curso vocacional. Mas não é difícil perceber porquê: o percurso escolar destes alunos foi marcado por problemas de aprendizagem e/ou comportamentais, por norma com uma ou mais retenções, e esta tendência não desaparece com a entrada no secundário. E mais: completando os 18 anos antes da conclusão do curso, deixam a partir desse momento de estar sujeitos à escolaridade obrigatória – pelo que largar a escola, que os aborrece, acaba per ser, em muitos casos, uma tentação irresistível.

Ainda assim, se o que está na moda, entre os promotores do “sucesso” a todo o custo e a qualquer preço, é reparar no copo meio vazio, eu prefiro olhar a realidade de uma forma mais positiva: é inegável que, apesar de tudo, o insucesso e o abandono estão a diminuir nos cursos profissionais: nos três anos analisados, há uma subida consistente da percentagem de alunos que consegue concluir o respectivo curso.

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Para o que já não há pachorra nenhuma é para as críticas insidiosas e persistentes de Joaquim Azevedo: citado na peça, o catedrático da Católica do Porto continua a culpar “as escolas” por tudo o que corre mal com estes alunos, como se os principais preditores e condicionantes do insucesso não residissem no contexto social e familiar dos jovens, ou como se fossem as escolas a definir as políticas educativas que continuam a produzir estes resultados insatisfatórios. Como muito bem nota Paulo Guinote,

…as turmas “alternativas” não podem ser depósitos para tudo e mais alguma coisa e esperar que com pós de perlimpimpim se dê uma alquimia do sucesso de um momento para o outro. Um terço de insucesso até é muito bom e garanto-vos que é um valor que só é obtido com um enorme esforço por parte de quem acaba por colaborar, nem que seja por cansaço, com a estratégia global de fingimento.

Na verdade, o que Azevedo parece sugerir é a necessidade de uma terceira via para a conclusão do secundário, uma via vocacional ou profissionalizante ainda menos exigente do que os actuais cursos profissionais. A pretexto de combater o “modelo curricular único e igual para todos”, deveríamos explorar o conceito, agora tão na moda, da flexibilidade curricular, para construir respostas educativas que, mais do que preparar para a vida profissional ou o ensino superior, se foquem no objectivo de reter todos os alunos na escola até à conclusão do secundário.

Uma ideias que merece discussão, embora sem perder de vista que o actual modelo do ensino profissional e a sua “rigidez” decorrem em grande medida de ter sido desenvolvido em função das regras dos financiamentos europeus para a formação profissional. Pensar o sistema, não na perspectiva da facilidade com que se “vai ao pote”, mas na da forma de melhor responder aos interesses e necessidades dos estudantes, implica equacionar a necessidade de aumentar o financiamento público a este subsector do sistema educativo.

Por outro lado, construir percursos de sucesso académico e profissional para os nossos jovens não é uma tarefa que possa caber em exclusivo às escolas e aos professores, por maior que seja o empenhamento e o profissionalismo dos profissionais da educação. Deve ser parte de uma política económica e social que apoie as famílias e promova o emprego qualificado, o desenvolvimento económico e uma mais justa distribuição de rendimentos. Só que, chegados a este ponto, deparamo-nos com a eterna contradição dos nossos eduqueses de direita: querem, ou fingem querer, uma educação que promova os seus “pobrezinhos” – neste caso, os jovens carenciados que são seguidos pelo “observatório” do doutor Azevedo -, mas sem nunca questionar um sistema económico que aprofunda e perpetua as desigualdades.

Publicada a lei da municipalização

É oficial e definitivo: foi hoje publicada a lei-quadro da transferência de competências, na educação e noutros sectores, para as autarquias e as comunidades intermunicipais. É a Lei n.º 50/2018, aprovada pelo Parlamento depois de ter sido cozinhada entre os estados-maiores dos dois partidos do regime, remetendo para um plano secundário os representantes dos autarcas que, supostamente, seriam os seus maiores defensores. Mas que não tenho visto entusiasmados com o aumento de competências, provavelmente pela magreza do correspondente “envelope financeiro”…

No caso da Educação, tanto os dirigentes escolares como os representantes das comunidades escolares – pessoal docente e não docente, alunos e encarregados de educação – foram completamente mantidos à margem do processo de discussão e negociação de um modelo no qual, até ao momento, se vislumbra apenas um potencial vantagem: a maior facilidade de acesso aos fundos europeus, por parte dos municípios e comunidades intermunicipais, para o financiamento de obras de construção e reabilitação de estabelecimentos de ensino. É aliás este ponto que assume lugar de destaque quando se enumeram as novas competências das autarquias:

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Quanto às comunidades intermunicipais, elas assumirão funções que em parte já lhes estão actualmente confiadas, ao nível da rede e dos transportes escolares:

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Para vigorar plenamente, a nova lei carece ainda de legislação suplementar que irá nortear a sua aplicação gradual. Prevê-se que as transferências de competências comecem a ser feitas já em 2019, embora as autarquias mais recalcitrantes possam adiar a sua aplicação em 2019 e 2020. Mas em 2021, já com novo governo, mas com os actuais autarcas ainda em funções, todo o processo deverá estar concluído.

Novas pedagogias – O trabalho de projecto

trab-projecto.jpgA aprendizagem por projectos pretende substituir o sistema formal de ensino, centrado na explicação do professor, no uso sistemático do manual e na avaliação formal através de testes, por uma aprendizagem baseada na resolução de problemas. Será que resulta?

Este método surgiu nos Estados Unidos, nos cursos universitários de Medicina, estendendo-se progressivamente ao ensino secundário e ao básico. A investigadora Marta Ferrero reconhece que o sistema funciona e tem dado bons resultados com estudantes mais avançados, que já têm algum conhecimento da matéria, mas não é recomendado quando se trata de ensinar conhecimentos básicos nem para alunos com dificuldades.

Entre nós, o trabalho de projecto tem sido apontado como uma metodologia de eleição pelos apóstolos do novo projecto de flexibilidade curricular, por ser alegadamente capaz de melhorar as aprendizagens de alunos desmotivados pelas pedagogias tradicionais. Ora  a investigação parece apontar no sentido oposto: são precisamente os alunos com maiores dificuldades os que mais facilmente ficarão “perdidos” perante as abordagens holísticas e problematizadoras que lhes são propostas, mas para as quais não reúnem os pré-requisitos necessários a uma aprendizagem bem sucedida.

Voltando à investigadora citada, ela sublinha que “o problema é que há métodos que servem para umas idades ou aprendizagens e não para outros. Escolhe-se uma metodologia, esquecem-se ou não se ensinam essas diferentes matizes e, de repente, generaliza-se um sistema a todos os alunos e níveis de ensino”. Obviamente, é perigoso: em pedagogia, nem tudo funciona em qualquer circunstância.

Adaptado daqui.

Quadros Docentes – O Grito

Quando, na véspera do teste, te perguntam:
– Mas, professor, o que é que sai?…

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Edvard Munch, O Grito (1895)

Quem são os especialistas da Educação?

Os académicos que nunca deram uma aula fora da universidade?

Os burocratas ministeriais, enfiados nos seus gabinetes?

Os políticos em trânsito pelo Ministério da Educação?

Os psis, que atendem uma criança de cada vez?

Porque é tão difícil entender que os especialistas em Educação são os professores?

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Teóricos…

perito-ed.JPGQuando a ideia é aprender alguma coisa com eles, eis o método mais eficaz para avaliar o que cientistas da educação, pedagogos  e especialistas em desenvolvimento do currículo, inovação educativa, flexibilidade curricular, educação do século XXI terão para nos ensinar. Basta perguntar-lhes se dão mesmo aulas nalguma escola básica ou secundária.

Se a resposta for sim: óptimo, por favor compartilhe a sua experiência.

Se a resposta for não: obrigado, volte quando já o tiver feito.

Adaptado daqui.