No rescaldo dos incêndios – I

Quando se pensa que já vimos tudo, em termos de baixaria informativa, lá aparece quem nos mostre que é sempre possível afundar mais um pouco.

Uma capa inqualificável da revista Sábado.

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Blogosfera sem docentes

Os blogues sobre Educação ocupam um cantinho modesto na blogosfera portuguesa, esmagadoramente dominada por outros temas, ocupações e preocupações: moda, culinária, viagens, maquilhagens, hobbies, estilos de vida.

Ora o tema Educação não consegue competir, em fascínio e glamour, com os temas atrás citados. É um daqueles assuntos em que toda a gente acha que já sabe tudo, pelo que escrever, ler e reflectir sobre ele é, para a grande maioria, uma desinteressante perda de tempo.

Não é por isso de estranhar que a área da Educação esteja muitas vezes ausente de rankings e votações que se fazem tentando determinar quais são os blogues mais populares, interessantes ou com maior audiência em Portugal. Surpreendentemente, contudo, a TVI lembrou-se de incluir a categoria no seu concurso dos “Blogs do Ano”.

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Nenhum dos quatro nomeados se pode considerar especificamente, na minha opinião, um blogue sobre Educação. Serão projectos com qualidade e interesse, um sobre o uso da Língua Portuguesa, outro sobre Feminismo, outro ainda sobre Pintura. Há também o que me parece uma iniciativa empresarial que pretende criar à sua volta uma “comunidade” de jovens estudantes, escrevendo sobre assuntos do seu interesse.

Não deixa de ser curiosa, embora expectável, a ausência de qualquer representante da chamada “blogosfera docente”. Os blogues de professores, sobretudo os mais antigos e com maiores audiências, são bem conhecidos da comunicação social, que a eles recorre quando necessita de informações, opiniões e esclarecimentos para a elaboração de determinadas notícias sobre Educação. Mas não são, pelos vistos, suficientemente bons para terem direito a nomeação.

Claro que as razões se compreendem melhor quando comparamos com as nomeações noutras áreas e encontramos facilmente um padrão comum: percebe-se o gosto pela superficialidade, a valorização da forma em detrimento do conteúdo, a preferência pela escrita leve e concisa para não cansar o leitor. Uma blogosfera bem comportada, previsível e convencional, cada vez mais parecida com os modelos impostos pelas redes sociais.

 

Fora de moda?

Há pouco mais de um ano, estava ao rubro a contestação dos colégios amarelos aos cortes nos contratos de associação. Sucediam-se as manifestações e os protestos, aos quais a comunicação social dava o devido destaque noticioso.

Até aqui tudo normal. O que se começou a estranhar foram os frequentes apontamentos de amarelo na toilette dos pivôs dos noticiários.

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Apoio à causa dos colégios, respondendo ao apelo de vestir a “camisola amarela” e violando as normas de isenção e imparcialidade que devem nortear o jornalista em exercício de funções? Nada disso, responderam os profissionais dos media em uníssono, cada um veste como quer e o amarelo está na moda.

Curiosamente, ultrapassada a polémica, nunca mais voltou a moda do amarelo ao jornalismo televisivo…

Jornalismo de sangue

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Depois da análise ao sangue do candidato do PS à Câmara de Lisboa, esperam-se novas revelações do jornalismo-choque da TVI:

António Costa tem sangue comunista herdado do pai, militante do PCP, e sangue feminista do lado da mãe, Maria Antónia Palla, conhecida defensora, ainda no tempo da ditadura, dos direitos das mulheres.

Marcelo Rebelo de Sousa, por sua vez, tem sangue fascista, pois é filho de um ministro do governo de Marcelo Caetano.

A vaga incendiária na comunicação social

A par das falhas na coordenação do combate aos fogos de Pedrógão Grande, da insuficiência ou ineficácia dos meios usados, do completo desleixo em relação a medidas preventivas que pudessem ter evitado ou minimizado o sucedido e de outros erros e negligências que os já anunciados inquéritos irão apurar, há um facto demasiado evidente: a comunicação social também não esteve bem.

Não digo que seja fácil cobrir um acontecimento com a carga destruidora e emotiva que uma tragédia desta dimensão inevitavelmente terá. Mas houve órgãos de comunicação que, na ânsia do sensacionalismo, passaram diversas linhas vermelhas da ética e deontologia da sua profissão. E, pior do que isso, chamados à atenção, houve aqueles que, em vez de corrigirem os excessos, reagiram com a arrogância de quem não aceita críticas, não ouve bons conselhos e não respeita sequer os direitos e os sentimentos das vítimas dos trágicos acontecimentos.

A postura reprovável dos media, ao arrepio das boas práticas da profissão, tornou-se especialmente evidente no episódio de fake news da queda do avião. Um após outro, jornais, rádios e televisões foram escorregando na casca de banana de um acidente aéreo que nunca existiu. Mas que, percebe-se, daria imenso jeito que tivesse acontecido…

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Oportuno e sempre inspirado cartoon de Antero Valério, retirado daqui.

O país dos incêndios

incendio-pedrogao1Ainda lavram, incontrolados, os incêndios em Pedrógão Grande e concelhos vizinhos. Pouco haverá a acrescentar ao muito que já se disse sobre a imensa tragédia do fim de semana. Falta o mais importante, que é agir de acordo com o que há muito se sabe que está por fazer em matéria de ordenamento do território, de responsabilização dos proprietários, de coordenação de estruturas de protecção civil, de rentabilização do muito dinheiro que se esbanja, anualmente, em cada “época de incêndios”, para continuarmos, ano após ano, no lugar nada invejável de país europeu com mais área florestal ardida.

De facto, basta percorrer o IC8 para perceber a dimensão e a densidade da mancha florestal a que se convencionou chamar Pinhal Interior: perante o envelhecimento e a desertificação humana e a fraca aptidão agrícola da maioria dos solos, apostou-se na exploração florestal, sem tomar em devida conta as necessidades do ordenamento do território e de uma gestão adequada das florestas. Esquecem-se medidas básicas e fundamentais de segurança como a desflorestação e a limpeza das zonas adjacentes às estradas ou em torno das povoações que preservariam zonas seguras e caminhos de fuga às populações ameaçadas pelas chamas.

No meio da tragédia, que foi pasto não apenas para as chamas mas também para intermináveis serviços noticiosos que, a certo ponto, mais não faziam do que repetir até à náusea as mesmas imagens e informações, o destaque, pela negativa, coube desta vez à TVI e à sua jornalista-vedeta Judite de Sousa. Achando por bem deixar, por uma vez, o conforto dos estúdios e ir pavonear-se para o centro dos acontecimentos, não encontrou melhor sítio para fazer a sua reportagem do que ao lado do cadáver de uma senhora vitimada pelo fogo.

judite-pedrogao.jpgDuplamente lamentável, não só pelo triste exemplo ético e deontológico de uma jornalista que é também professora de jornalismo, mas também porque todos soubemos da sua imensa dor e sofrimento aquando do falecimento recente do seu filho. E nos recordamos de como foi alvo de inúmeras manifestações de apoio, compreensão e de solidariedade. O que teria sentido Judite de Sousa na altura, se um seu colega de profissão fosse fazer uma reportagem ao lado do corpo do seu filho?

Abusos privados

prof-musica.jpgUma instituição de ensino particular, ligada à Igreja, apanhou um professor de música a abusar sexualmente de uma aluna menor, mas não comunicou o caso às autoridades, para evitar um escândalo.

O caso é divulgado pelo Correio da Manhã (CM) que nota que o colégio particular do Porto expulsou o professor de música de 62 anos, mas que “abafou” a situação, não fazendo qualquer denúncia à polícia, como seria de esperar, perante o que é considerado um crime público.

À Polícia Judiciária terão entretanto, chegado três queixas de menores, com idades entre os 12 e os 16 anos, que acusam o professor de abusos sexuais.

Julgo que seria impensável, numa escola pública, haver esta cumplicidade e encobrimento de uma situação que, segundo as suspeitas da PJ, se arrastou durante anos. O que demonstra que há na nossa sociedade corporativismos bem mais fortes e poderosos do que o chamado corporativismo docente.

Registe-se também a forma cuidadosa como até o Correio da Manhã dá a notícia, mencionando a ligação do colégio à Igreja, mas evitando cuidadosamente identificar a instituição onde tudo se passou. Claro que se fosse uma escola pública, já teria equipas de reportagem à porta e o seu nome andaria nas parangonas de todos os jornais.

Respeitinho, ainda para mais em dia de visita do Santo Padre, é o que se quer.