Fake News… all over the world!

A denúncia partiu do STOP: a agência Reuters está desde ontem a difundir, à escala global, uma notícia falsa. Segundo a agência, os professores portugueses estariam a reivindicar ao Governo o pagamento de aumentos salariais retroactivos.

Apesar do protesto feito pelo sindicato, a notícia não foi corrigida. A imagem que publico reproduz o print do site que fiz por volta das 20 horas. Como se vê, a frase mentirosa por lá continua, inalterada.

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É evidente, e estes casos vão-no demonstrando, que a proliferação das fake news não é apenas um subproduto das redes sociais ou da acção de grupos organizados de contra-informação. Elas surgem também, como sempre aconteceu, quando os jornalistas esquecem os princípios basilares do seu ofício e difundem notícias que parecem feitas com os pés, reproduzindo informação não rigorosa e factualmente incorrecta. Ou confiando em “fontes” que são ao mesmo tempo partes interessadas no assunto noticiado, sem a imprescindível confirmação dos factos.

maior agência internacional de notícias do mundo publicou, ontem, uma notícia falsa sobre as reivindicações dos professores, e o que esteve em causa na recente votação da Assembleia para a recuperação do tempo de serviço: “aumento salarial retroativo para os professores” (“proposed retroactive pay rises for teachers”)!
https://uk.reuters.com/article/uk-portugal-politics-poll/portugal-pms-party-up-in-poll-after-teachers-pay-gamble-idUKKCN1SJ135

Já contactamos a agência Reuters Portugal e, também, a sede em Londressolicitando a correção desta falsidade que circula em todo Mundo.

Na linha do que temos feito, sobretudo desde dia 3 de maio, temos contactado vários órgãos de comunicação social (jornais, canais de televisão) para informar, corrigir, e solicitar entrevistas para o esclarecimento correto da opinião pública, inclusive de todos os colegas que tem procurado clarificar e repor a verdade dos factos e números. 

Repor a verdade continua a ser urgente!

Temos recebido contactos de colegas indignados, os quais nos informam que amigos e conhecidos, inclusive, continuam a pensar que estamos a reivindicar retroativos!

Não colegas, os cerca de 8 mil milhões (que os professores contribuíram durante a chamada crise) não estão a ser reivindicados e, mesmo assim, parece que alguém insiste em passar nomeadamente essa mentira para colocar a população contra a luta dos professores.

Plano europeu contra as notícias falsas

eight_col_01-header-truth-and-lies.gifPara grandes males, grandes remédios. O poder da informação falsa e tendenciosa, dos factos alternativos e dos perfis falsos nas redes sociais está a corroer a democracia, manipulando opiniões e intenções de voto de forma a forjar os resultados eleitorais que interessam a quem gere as centrais que produzem as fake news. A eleição de Trump e a vitória do Brexit são dois exemplos recentes de processos eleitorais que provavelmente teriam outro desfecho sem a influência da desinformação e da manipulação.

Por cá, prefere-se ignorar a dimensão do problema e apostar em formações da treta, atirando responsabilidades e chatices para as escolas e os professores, enquanto a aliança espúria entre partidos políticos e patrões dos media vai alimentando o plantio de notícias falsas. E o esquecimento das verdadeiras, quando tidas por inoportunas ou inconvenientes…

A União Europeia prepara-se para lançar um sistema de alerta rápido para detectar notícias falsas. Faz parte de um “Plano de Acção” global contra a desinformação que foi anunciado o ano passado.

Bruxelas explica que o projecto está assente numa “plataforma digital segura” e que as informações apresentadas virão de “fontes abertas” para impedir “tentativas coordenadas de agentes estrangeiros para manipular o debate.”

“O sistema estará pronto por volta de Março”, disse ao PÚBLICO a porta-voz da Comissão Europeia, Maja Kocijancic. “Ao conectar governos e especialistas através dos Estados-membros, [o sistema] vai-nos ajudar a apresentar uma resposta europeia aos desafios da desinformação.”

Está também a ser criada uma rede de verificadores de factos para a qual está previsto um financiamento inicial de 2,5 milhões de euros ao abrigo do Mecanismo Interligar a Europa (investimento para melhoria das redes de transporte, energia e digital). Haverá equipas para identificar em tempo real campanhas organizadas a partir do exterior.

Formação em… fake news

fakenewsO Ministério da Educação (ME) e o Sindicato dos Jornalistas (SJ) vão assinar este sábado um protocolo para dar formação na área dos meios de comunicação social a professores. A formação responde à “urgência de formar cidadãos informados”, num tempo que as fake news (notícias falsas) estão na ordem do dia, indica o ME numa nota enviada esta sexta-feira à comunicação social. E pretende chegar às gerações mais novas através da escola.

Numa altura em que “o poder das redes sociais emerge, é urgente formar cidadãos informados, conscientes e participativos para o futuro colectivo”, diz a nota. O objectivo, explica, é desenvolver mais competências “de professores, e por conseguinte, de alunos” em “matérias de consumo informado e crítico dos conteúdos difundidos pelos meios de comunicação social”. E disponibilizar aos professores metodologias, recursos e ferramentas que poderão usar nas actividades de Literacia dos Media em contexto de sala de aula.

A lógica é sempre a mesma: os professores são retrógrados, os seus conhecimentos estão ultrapassados e precisam de ser actualizados nas competências do século XXI. Pegue-se então num tema da moda – as fake news – e ‘bora lá fazer umas formações fixes para o pessoal, que os infelizes não devem ter coisa melhor para fazer a um sábado.

A perplexidade surge quando se percebe que a nova área de formação surge de uma parceria com o Sindicato dos Jornalistas e que metade dos formadores serão, justamente, profissionais dos media. É que quase todos os dias vejo jornais e jornalistas a veicular informação falsa ou tendenciosa, a omitir verdades e a propagar mentiras e factos alternativos, a misturar informação e opinião, a tomar como verdadeiros e a divulgar sem contraditório  os comunicados governamentais e as notícias plantadas, a mando de interesses políticos e económicos, na comunicação social.

Julgo, na minha ingenuidade, que em vez de quererem ensinar os professores a precaver-se, e a alertar os seus alunos, sobre o perigo das notícias falsas, deveriam antes ensinar os seus colegas de profissão a noticiarem com verdade, isenção, objectividade e rigor. Aquele b-á-bá que encontramos em qualquer manual de Iniciação ao Jornalismo e que tantas vezes parece, nos dias de hoje, letra morta.

Infelizmente, não é preciso ir para as redes sociais para encontrar informação falsa e manipulada. Ela está presente, vezes sem conta, nos media em que deveríamos poder confiar. Os profissionais da informação prestam-se demasiadas vezes ao papel de desinformar. Ou de se limitarem a servir de pé de microfone quando deveriam questionar e confrontar.

Sugerir que a culpa de as notícias falsas se propagarem com tanta facilidade é – uma vez mais! – da escola e dos professores, que não preparam os seus alunos para as novas “literacias”, parece-me um lamentável exercício de hipocrisia.

Os professores e a “sondagem” do Expresso

expresso-sondagemO Expresso tenta, através das suas sondagens, tomar o pulso ao estado da geringonça e à evolução da conjuntura política até às próximas legislativas. Embora não costume perder tempo com as análises de um semanário que, se ainda consegue ter alguma influência, há muito deixou de ser de referência, houve algo em que não pude deixar de reparar: segundo a edição de ontem do jornal, só 16,9% dos portugueses concordam com a pretensão dos professores de recuperar integralmente o tempo de serviço que lhes foi retirado. Os restantes inquiridos com opinião formada apoiam a devolução parcial proposta pelo Governo ou acham até que não devia ser recuperado tempo algum.

Claro que estas “sondagens”, feitas com base em entrevistas telefónicas a detentores de telefone fixo, há muito deixaram de assentar numa amostra representativa da população portuguesa. Como se costuma dizer, valem o que valem, e neste caso valem muito pouco. Estou convicto, aliás, que servem mais o intuito de influenciar a opinião pública, uma missão de que o Expresso continua a sentir-se investido, do que o de reflectir o que os cidadãos realmente pensam e sentem.

Mas há algo que os jornalistas/opinadores/comentadores do Expresso parecem esquecer enquanto se congratulam com o apoio popular esmagador à política do Governo contra as reivindicações “corporativas” dos professores: 16,9% dos habituais votantes nas eleições representam perto de um milhão de votos. São, em termos práticos, um factor limitador do crescimento eleitoral do PS até ao limiar da maioria absoluta.

Parece persistir, no PS profundo, a convicção de que o enfrentamento dos professores rende dividendos políticos. E nem a perda da maioria absoluta em 2009, resultado dessa e doutras obstinações do socratismo, levou os dirigentes socialistas a rever ideias e posições. Para os professores, a reiterada desconfiança do PS em relação aos profissionais da Educação e a forma acintosa como faz questão de os tratar, apenas podem ter um resultado: no que deles depender, jamais o PS voltará a ter uma maioria absoluta…

O Conservador

obs.JPGNesta quadra natalícia, o Observador vem dedicando uma série, aparentemente interminável, de artigos de opinião ao tema da Virgindade de Maria. Perplexo face ao empenhado zelo com que o assunto anda a ser discutido nas colunas do jornal online, interrogo-me se entre os desígnios superiores do jornalismo digital do século XXI estará o de nos reconduzir aos esfuziantes debates que ocupavam os escolásticos medievais.

Ou será isto, apenas, a sina da direita portuguesa? Por muito moderna e liberal que se apresente, há sempre aqueles momentos em que sente absoluta necessidade de retornar à sua praia, a zona de conforto do conservadorismo social, moral e religioso…

Por outro lado, quando, à direita, se acusa a esquerda de fugir à discussão incómoda dos reais problemas do país e do povo, o que dizer desta direita observadora com óbvia falta de assunto?…

Carta ao Pai Natal

pai-natal– Pai Natal, este ano portei-me bem e por isso quero o meu presente: uma lei educativa consensual e estável.

– Isso é impossível, homem! Pede outra coisa.

– Então quero um artigo no Público, sobre Educação, que não diga mal dos professores.

– Mmmm… a lei educativa, queres com os percursos curriculares ou sem?

Adaptado daqui.

Aumento salarial de 19% para os professores – a sério?…

hauling_arrow_up_graph_anim_md_wm-Green-Done[1]Não há acordo na educação mas professores têm aumento de 19%

O Governo e os professores não chegaram a acordo em relação à progressão das carreiras dos docentes, após as reuniões com as estruturas sindicais que se realizaram esta terça-feira, 18 de dezembro. Em comunicado, o Ministério das Finanças informou que o processo negocial, mas assegurou uma valorização remuneratória de 19% para estes funcionários públicos.

“Com esta proposta, assegura-se que entre 2019 e 2023 a carreira docente será uma das que terá maior valorização remuneratória em toda a administração pública, com um aumento médio acumulado de 19% e um custo total, nesse período, de cerca de 750 milhões de euros”, refere o gabinete de Mário Centeno, na mesma nota.

O título enganador recorda-nos como um certo jornalismo económico persiste em transmitir informação sensacionalista e pouco rigorosa, o que se percebe logo que se passa à leitura do corpo da notícia. Não sei se é apenas caça ao clique ou se os fretes ao Governo e a outros poderes continuam a fazer parte do modus vivendi da imprensa especializada nos assuntos económicos.

O fabuloso “aumento de 19%” é afinal um valor médio, diferido ao longo de cinco anos. Corresponderá a uma ou duas progressões na carreira de que a generalidade dos professores supostamente irão beneficiar neste período.

E dizer-se que a carreira dos professores será das que terão maior valorização é apenas meia verdade. Dever-se-ia acrescentar que, ao contrário do que sucedeu noutras carreiras, onde houve promoções durante o congelamento, nenhum professor progrediu durante esse período.

No essencial, as progressões de carreira que agora se acenam aos professores só se irão concretizar na próxima legislatura. Ou seja, o actual Governo promete aquilo que outros irão pagar. Se pagarem.