Jornalistas e professores: em luta, ou a mesma luta?

jornalismo.jpgNão há nenhuma classe profissional tão hostilizada nos jornais como os professores. De um modo geral, todas as reivindicações dos professores são consideradas ilegítimas e a classe profissional é vista como detentora de uma força sindical da qual faz um uso abusivo. Diga-se, em boa verdade, que antes de enfrentar a hostilidade do jornalismo, os professores tiveram de enfrentar as hostilidades do modelo de gestão da escola e do ensino, numa guerra da qual saíram vencidos. Foi-se reduzindo progressivamente o tempo de trabalho autónomo, que era uma parte importante do tempo de trabalho de um professor (porque se entendia que o saber – manual ou intelectual, técnico ou teórico, académico ou não — é um direito à autonomia) e aumentando o tempo de trabalho controlado, que é hoje a quase totalidade do trabalho docente. O professor ficou assim submetido ao trabalho das classes proletárias, mas continua a recair sobre ele a imagem de que é um animal de luxo.

António Guerreiro iniciou assim uma reflexão, nas colunas do Público, sobre a difícil relação entre jornalistas e professores.

O cronista nota que tanto a escola moderna como o jornalismo actual nascem com o Iluminismo, essa revolução cultural dos finais do século XVIII que não só trouxe novas ideias e mentalidades mas também o conceito fundamental de universalização e democratização da cultura e do conhecimento.

A sociedade de homens livres, “tendo como único senhor a razão” carecia, por um lado, de escolas públicas onde todos pudessem aprender a ler e a escrever, e por outro, de uma imprensa capaz de manter informada uma opinião pública cada vez mais atenta, exigente e influente.

Contudo, entre os professores que, alicerçados num conhecimento cientificamente estruturado, preparam as novas gerações e os jornalistas que, trabalhando geralmente a partir da opinião e do efémero, formam a opinião pública, tende a surgir uma rivalidade sem sentido. Pois apesar dos pontos de vista, dos públicos e das formas de actuação diferentes, professores e jornalistas realizam um trabalho que se complementa mutuamente.

Mas a realidade é que, nos dias de hoje, tanto a profissão docente como o jornalismo se encontram em crise, perante uma sociedade que criou formas alternativas de acesso à informação e ao conhecimento e que julga poder dispensar, sem verdadeiramente os substituir, estes profissionais.

Reencontrar o seu lugar de intermediadores e divulgadores do conhecimento, que nunca será a mesma coisa que a difusão sem critério de doses maciças de informação indiferenciada e de verdades alternativas, é um desafio comum de jornalistas e professores no século XXI.

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Copo meio cheio ou meio vazio?

Não sei se os responsáveis pela primeira página do Expresso se aperceberam, mas haveria sempre, no mínimo, duas formas diferentes de dar esta notícia: sublinhando a metade das casas já reconstruídas ou a outra metade, ainda por construir.

Escolhendo esta manchete, confirmam a sua parcialidade na contenda político-partidária em torno da tragédia dos incêndios.

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Respeito pelos professores, sff.

Respeito.jpgÉ o que se pede, ou melhor, que se exige a quem tem responsabilidades públicas e aos órgãos de comunicação social e respectivos comentadores. De facto, os aparentes sucessos negociais obtidos pelos sindicatos de professores a favor da classe que representam têm despertado, ultimamente, uma vaga de ataques, que não dispensa o recurso ao insulto, à difamação e à calúnia.

Tenho evitado, por aqui, ajudar a amplificar o discurso de baixo nível de alguns comentadores do regime e de certos betinhos bem falantes da direita gira. Quem andou anos a comprar-lhes os jornais ou a achar piada ao seu “sentido de humor” que os ature, que da minha parte há muitos anos deixei de contribuir para esses peditórios.

Nada disto tem a ver, note-se, com o apelo a qualquer tipo de censura. Há argumentos válidos e pertinentes que podem ser usados para rebater as pretensões dos professores, que não são donos únicos da razão. O confronto de opiniões e ideias opostas é próprio da sociedade livre e democrática a que quase todos queremos pertencer. Mas o ponto é esse mesmo: devemos contrapor ideias e argumentos sem recurso à demagogia barata da mentira, do insulto ou da difamação.

Subscrevo assim o apelo da Fenprof e do seu líder, Mário Nogueira, para que cesse a campanha de difamação contra os professores que, além dos ressabiados do costume, conta com o indisfarçável apoio dos partidos de direita e de vários órgãos de comunicação que abrem as suas páginas, microfones e câmaras a todo o tipo de dislates e insultos contra a classe docente. E que ganhou fôlego assim que se percebeu que os professores poderiam ter de alguma forma contrariado o processo de domesticação e proletarização em que se empenharam sucessivos governos nos últimos dez anos.

“É absolutamente inacreditável que na sequência disso aparece um conjunto de gente, comentadores, mas também pessoas com responsabilidade política”, a fazerem acusações que “parece que os professores cometeram um crime qualquer pelo facto de terem considerado importante resolver aspetos que têm a ver com a sua vida profissional”.

O dirigente sindical lamentou que haja pessoas no plano político que querem “aproveitar-se da luta ou dos resultados dos professores para combater o Governo”.

“Nós não aceitamos ser joguetes de disputa política. Portanto, se há quem na oposição não seja capaz de fazer os combates que tem que fazer, que não venha tentar apanhar boleia da luta dos professores porque o carro já está cheio e só com professores”, frisou.

Para Mário Nogueira, esta situação é inaceitável e defendeu que “os professores têm que ser respeitados”.

Sublinhou ainda que têm que se perceber que os professores têm “um trabalho extremamente exigente nas escolas, em condições que poucas vezes são as desejáveis”, e mesmo assim têm “conseguido dar o melhor de si”, sendo que os resultados do seu trabalho têm sido reconhecidos internacionalmente.

“Achamos que compete ao Ministério da Educação, ao Governo, às entidades públicas, aos partidos, Assembleia da República contrariar esta escalada de difamação e de enxovalhamento dos professores, com mentiras absolutamente inacreditáveis”, declarou.

A carreira docente explicada aos totós

professor-idosoMário Nogueira, recorrentemente criticado pelos seus detractores por se manter há décadas afastado das salas de aula, encheu-se de brios e demonstrou que as suas capacidades pedagógicas continuam intactas, abraçando um dos desafios mais difíceis para qualquer professor: o de tentar ensinar a quem não quer aprender.

Aproveitando o espaço de opinião do DN, o líder da Fenprof desmonta o lugar-comum das progressões “automáticas” e das carreiras assentes apenas na acumulação de tempo de serviço. E explica, pacientemente, as principais regras e constrangimentos da carreira dos professores.

Repare-se: para ingressar na carreira é necessário entrar num quadro, o que, para muitos docentes, demora dez, 20 ou mais anos. Enquanto contratados, estes são avaliados anualmente, dependendo do resultado a possibilidade de verem renovado o seu contrato ou poderem concorrer a novo. Na carreira, os docentes estão sujeitos a procedimentos avaliativos anuais, concluindo o ciclo no ano anterior à mudança, sendo, então, atribuída a classificação e a menção semelhante às que se aplicam em toda a administração pública.

Assim, ao tempo de serviço, acresce a menção de Bom (acima de 6,5 numa escala de 0 a 10) e ainda o requisito da formação contínua, por norma, 50 horas avaliadas por escalão. Mas também há procedimentos extraordinários no acesso a alguns escalões. Para entrar nos 3.º e 5.º a avaliação do docente integra observação de aulas e a progressão aos 5.º e 7.º escalões está sujeita à obtenção de vaga a estabelecer anualmente. É, ainda, de assinalar que a atribuição de Regular impede a progressão e o Insuficiente levará ao afastamento da profissão.

Quanto à diferenciação, ela está expressa na possibilidade de atribuição das menções de Excelente e Muito Bom, em ambos os casos condicionada por quotas de, respetivamente, 5% e 20%. Os professores desafiam todos os que afirmam que a sua carreira é automática a dizerem quantas têm este grau de exigência e, principalmente, aos que repetem a mentira exigem que sejam sérios. Sejam sérios e respeitadores dos professores, pois é neles que reside a construção de uma sociedade melhor, mais justa e solidária.

Aos destinatários óbvios do artigo, políticos demagogos e oportunistas e comentadores ignorantes e preconceituosos, MN faz, em nome da classe que representa, as suas exigências. Aos primeiros, que não se sirvam dos professores, ora usando as suas pretensões como pretexto para criar dificuldades ao governo, ora rejeitando-as quando isso lhes é mais vantajoso. Aos segundos, que sigam a regra básica de se informarem antes de comentar.

Bullying violento na sala de aula

O bullying continua a ser um problema sério nalgumas escolas portuguesas. Desvalorizá-lo ou ignorar a sua existência não é solução. Mas também não é recomendável que um jornalismo que pretende ser sério e tantas vezes crítico do imediatismo, das falsidades e dos preconceitos que campeiam nas redes sociais, trate o tema ao sabor das denúncias e dos comentários incendiários do facebook.

bullying.jpgComo fez ontem o DN:

A mãe de uma aluna de 12 anos que frequenta a Escola EB 2,3 de Quarteira publicou nas redes sociais, na sexta-feira, dia 17 de novembro, uma fotografia que denuncia o abuso que a filha sofreu por parte de uma colega.

A mãe da criança, Sheila Correia, refere ao Correio da Manhã que já apresentou queixa e diz que esta não é a primeira vez que a filha é vítima de bullying, “A minha filha já tinha sido várias vezes ameaçada, mas na quinta-feira foi agredida em plena aula”.

Seguindo a ligação, percebe-se que a ignóbil acusação de que a professora teria tirado os óculos à aluna para que a colega lhe pudesse “bater à vontade” é desmentida pela leitura de posts e comentários subsequentes. Uma acusação grave e sem fundamento, que aliás nem faria qualquer sentido, mas à qual o DN resolveu dar eco. Ao que parece, os óculos caíram no chão e o que a professora fez foi apanhá-los para que, no meio da confusão instalada, não se partissem.

Outras apreciações acerca do que a professora em causa poderia ou não ter feito perante uma agressão violenta na sua aula estarão dependentes, naturalmente, das averiguações que venham a ser realizadas. Mas julgo que não deveria merecer dúvidas que, perante um acto desta natureza, qualquer docente procurará pelos meios ao seu alcance, pôr fim à violência o mais rapidamente que conseguir.

Continuando a leitura, que não finalizei pois os comentários vão já em várias centenas e se tornam repetitivos, apercebi-me também de que o caso não envolveu apenas as duas alunas: haveria desaguisados anteriores entre a aluna agressora e a mãe da agredida. Ou seja, como muitas vezes sucede nestes casos, os julgamentos sumários e definitivos não são recomendáveis. O que não significa que não se condene à partida, e sem reservas, toda e qualquer violência no meio escolar, sobretudo num caso em que as provas da agressão são evidentes.

Competirá agora à direcção escolar desencadear o procedimento disciplinar que, cumprindo os termos legais, deverá apurar os factos ocorridos e propor as medidas disciplinares tidas como adequadas. Sem prejuízo da participação dos factos às autoridades policiais ou judiciais, se a sua gravidade o justificar.

É necessário que quem agride, ofende e humilha os outros seja confrontado com a gravidade dos seus actos e que haja a percepção de que nenhum acto violento e ofensivo fica impune. Pois só agindo dessa forma se evita a escalada da desordem e da violência. Assim se constrói, num esforço que tem de ser feito por todos, todos os dias, uma escola segura, pacífica e tolerante com as diferenças.

No rescaldo dos incêndios – I

Quando se pensa que já vimos tudo, em termos de baixaria informativa, lá aparece quem nos mostre que é sempre possível afundar mais um pouco.

Uma capa inqualificável da revista Sábado.

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Blogosfera sem docentes

Os blogues sobre Educação ocupam um cantinho modesto na blogosfera portuguesa, esmagadoramente dominada por outros temas, ocupações e preocupações: moda, culinária, viagens, maquilhagens, hobbies, estilos de vida.

Ora o tema Educação não consegue competir, em fascínio e glamour, com os temas atrás citados. É um daqueles assuntos em que toda a gente acha que já sabe tudo, pelo que escrever, ler e reflectir sobre ele é, para a grande maioria, uma desinteressante perda de tempo.

Não é por isso de estranhar que a área da Educação esteja muitas vezes ausente de rankings e votações que se fazem tentando determinar quais são os blogues mais populares, interessantes ou com maior audiência em Portugal. Surpreendentemente, contudo, a TVI lembrou-se de incluir a categoria no seu concurso dos “Blogs do Ano”.

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Nenhum dos quatro nomeados se pode considerar especificamente, na minha opinião, um blogue sobre Educação. Serão projectos com qualidade e interesse, um sobre o uso da Língua Portuguesa, outro sobre Feminismo, outro ainda sobre Pintura. Há também o que me parece uma iniciativa empresarial que pretende criar à sua volta uma “comunidade” de jovens estudantes, escrevendo sobre assuntos do seu interesse.

Não deixa de ser curiosa, embora expectável, a ausência de qualquer representante da chamada “blogosfera docente”. Os blogues de professores, sobretudo os mais antigos e com maiores audiências, são bem conhecidos da comunicação social, que a eles recorre quando necessita de informações, opiniões e esclarecimentos para a elaboração de determinadas notícias sobre Educação. Mas não são, pelos vistos, suficientemente bons para terem direito a nomeação.

Claro que as razões se compreendem melhor quando comparamos com as nomeações noutras áreas e encontramos facilmente um padrão comum: percebe-se o gosto pela superficialidade, a valorização da forma em detrimento do conteúdo, a preferência pela escrita leve e concisa para não cansar o leitor. Uma blogosfera bem comportada, previsível e convencional, cada vez mais parecida com os modelos impostos pelas redes sociais.