Bolsonaro e o ódio aos professores

bolsonaro.jpgNo rescaldo da esperada eleição de Jair Bolsonaro como novo Presidente do Brasil, adivinham-se tempos difíceis para a Educação no Brasil. Um enorme país onde as taxas de analfabetismo e iliteracia atingem valores elevados e a escola pública se debate com enormes carências e apresenta fracos resultados. Ainda assim, numa sociedade marcada por extremas desigualdades sociais, a educação começou a funcionar, no tempo de Lula da Silva, como elevador social, permitindo a um número crescente de filhos de pobres o acesso à formação superior.

Investir na Educação e na escola pública, melhorar a formação e valorizar a autonomia profissional dos professores, fomentar a igualdade de oportunidades no acesso à Educação: o programa é claramente incompatível com os projectos políticos neoliberais e fascizantes do novo Presidente, pelo que não irá ser fácil a vida dos professores e de todos os que defendem o progresso social do povo brasileiro e não o enriquecimento das suas elites.

O professor Vítor Bemvindo ajuda-nos a perceber o que poderemos esperar da nova liderança política do Brasil. E mais: explica-nos porque é que Bolsonaro odeia os professores. Alguns excertos de uma excelente análise que merece ser lida na íntegra.

A cultura do ódio e da violência tem sido a principal marca da campanha à Presidência de Jair Bolsonaro. O culto à violência e os ataques às minorias sociais, étnicas e de gênero, têm omitido outro alvo preferencial da família Bolsonaro: os professores. Desde 2014, o clã bolsonarista apadrinhou os projetos de lei “Escola Sem Partido”, com o pretexto de combater uma pretensa doutrinação marxista e a “ideologia de gênero” nas escolas. Ao abraçar essa proposta, Bolsonaro e seus filhos elegeram os professores como os verdadeiros culpados pelo fracasso do sistema educacional brasileiro.

A educação que Bolsonaro defende é a que impede o posicionamento crítico a qualquer professor, que restringe a liberdade de abordagem dos conteúdos de sua área do conhecimento e que não toque em temas que suscitem a reflexão, como garantia de diretos, cidadania, diversidades cultural e sexual, dentre outros.

Como forma de combater o pensamento crítico, ele propõe ainda expandir a educação à distância (EAD), desde o ensino fundamental, em especial em áreas rurais (porém não faz qualquer menção em como expandir os recursos tecnológicos necessários para implementar tal proposta). Recentemente, em uma transmissão pela internet, disse que o principal objetivo da proposta é reduzir custos com professores, funcionários e estrutura escolar. Bolsonaro quer tirar os estudantes da escola, afastá-los dos professores, impedi-los de terem acesso ao convívio com os demais alunos.

Essa preocupação com os custos pode até parecer algo razoável na visão de um gestor público, no entanto, o candidato não só votou favoravelmente à Emenda Constitucional, que limita os recursos destinados à saúde e educação pelos próprios 20 anos, como também afirma em seu projeto que pretende mudar a educação brasileira com os mesmos recursos aplicados atualmente. Isso significa que não haverá política de valorização salarial dos professores, nem um processo de melhoria das estruturas das escolas. Esses temas sequer são mencionados no programa de governo.

O projeto de Bolsonaro quer criar uma cultura do ódio, da ignorância, na qual uma mensagem de Whatsapp ou um vídeo postado no Youtube tenha mais credibilidade que a posição de um professor. Os professores são uma ameaça real ao projeto bolsonarista, porque são eles que falam da história, da cultura, que nos ajudam a questionar as injustiças, as opressões e as explorações; que nos apresentam a ciência e o desenvolvimento tecnológico. Tudo isso é uma ameaça ao “mito”. E é por isso que Bolsonaro odeia professores.

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A direita portuguesa em três actos

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Boneco retirado daqui.

A esquerda podemita e a direita bonifácia

moradiaA recente compra de uma moradia com piscina e jardim por Pablo Iglesias, líder do Podemos (o equivalente espanhol do Bloco de Esquerda português) e pela sua companheira, também dirigente do partido, levantou alguma polémica no país vizinho: podem ser levados a sério dirigentes políticos de esquerda, que defendem políticas de igualdade e justiça social, em defesa dos mais desfavorecidos, ao mesmo tempo que, em privado, fazem vida de ricos?

O tema é sempre tentador do ponto de vista da direita, e entre nós foi Fátima Bonifácio que não resistiu a explorar a contradição entre os políticos que falam para os pobres mas querem viver como os ricos. Contudo, o argumentário moralista que se tentou montar em torno deste episódio tem óbvias limitações, como a própria acaba por reconhecer.

O caso, em si mesmo, não vale nada: convenhamos que 600.000 euros não chega a ser dinheiro a sério, que no mercado imobiliário de hoje em dia se cifra em valores muito acima de um milhão. O casal Iglesias ambicionou mais do que um vulgar apartamento, quis um lar como deve ser, uma casinha com jardim e piscina. Por aquele preço, a casinha com jardim e piscina é necessariamente modesta e por certo edificada numa qualquer Picheleira dos arredores de Madrid.

Mas constitui sem dúvida uma muito ofensiva imodéstia aos olhos dos que vivem em habitações pobres e exíguas, numa espécie de lúgubres vãos de escada, em bairros sociais periféricos e de má construção. Estes são aos montes, e é para estes que Iglesias fala, é a estes que Iglesias promete salvação. Mas enquanto os não salva, trata de se salvar a si mesmo.

A análise destas contradições entre o modelo de sociedade que os partidos de esquerda defendem e as formas de vida, gostos e ambições pessoais dos seus líderes políticos parte muitas vezes da percepção de que um líder dos pobres tem de ser pobre e assim permanecer , pois qualquer melhoria do seu nível de vida representa uma “traição” ao povo que representa e aos ideais que defende. Uma ideia errada, porque tem subjacente a falsa noção de que o socialismo e as políticas colectivistas e redistributivas, que os socialistas defendem, se destinam a universalizar a pobreza e a miséria. Pelo contrário: trata-se de distribuir melhor, por todos, a riqueza produzida.

Não há nada de mal em que Iglesias queira proporcionar à sua família uma moradia confortável, uma opção de vida que partilhará com milhões de espanhóis. Irá pagá-la com um empréstimo bancário que certamente consumirá uma boa parte dos seus rendimentos ao longo das próximas décadas. Outros contentar-se-ão em viver num apartamento menos dispendioso, ficando com mais dinheiro para gastar em coisas que consideram mais importantes. Desde que ganhe o suficiente, não apenas para sobreviver, mas para viver com dignidade – isto sim, é um ideal de esquerda -, cada um faz as suas opções livremente, de acordo com os seus interesses e prioridades.

Outra coisa que à direita por vezes se desentende é que há uma diferença fundamental entre os luxos de outros tempos e os que hoje estarão ao alcance de quase todos. A riqueza dos privilegiados de outrora só era possível à custa da exploração e da miséria da grande maioria. Ainda há menos de duzentos anos, até o liberal Almeida Garrett se interrogava acerca de quantos pobres era preciso sacrificar para se fazer um rico…

Pelo contrário, nas sociedades pós-industriais em que hoje vivemos, ter uma casa confortável e bem equipada, um ou dois automóveis na garagem ou hábitos de consumo mais ou menos sofisticados, não é algo que prive, necessariamente, outros cidadãos de conseguir as mesmas coisas. Pelo contrário, o consumo em massa das classes médias gera emprego do lado da produção, alargando o universo de consumidores.

A compra da casa de Iglesias não impedirá outros de fazerem semelhantes aquisições. Antes pelo contrário, irá estimular a construção, a venda, o arrendamento deste tipo de propriedades. Assim como das casas que entretanto ficarão devolutas e que serão recolocadas no mercado. Se forem devidamente controladas as tendências especulativas, o sector da habitação é dos que tem maior capacidade, não só de melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas também de estimular, de uma forma global e sustentada, o crescimento da economia.

Não é preciso ser pobre para se ser convictamente de esquerda, nem os ricos estão condenados a reproduzir os estereótipos mentais e sociais da classe dominante. Melhorar a sua condição económica ou a sua instrução não transforma ninguém em traidor da classe de origem. O que faz a diferença, para o cidadão bem sucedido na vida, é ter vontade de lutar por uma sociedade em que todos possam, tal como ele, aceder à fruição dos bens materiais e culturais ou, pelo contrário, querer reservar esse privilégio a uma elite económica e social à qual passou a pertencer. É sobretudo por aqui que passa, no século XXI, a diferença entre ser de esquerda ou ser de direita.

A luta dos professores vista pela Direita

apaga-a-luz.JPGO homem é inqualificável, na arrogância presunçosa que ostenta, própria de quem acha que vive numa galáxia superior, muito acima do mundo chão dos professorzecos. Padece, como agora se diz, de excesso de auto-estima.

O discurso tenta ser provocatório, mas exprime sobretudo boçalidade e ignorância atrevida, pelo que não é digno de qualquer tentativa de contraditório. Nem merecem sequer, ele e quem o contrata para o pseudo-debate, qualquer tipo de divulgação ou publicidade.

No entanto, é importante questionar se compete à televisão pública gastar o dinheiro dos contribuintes pagando a comentadores que fazem gala de exibir a ignorância e o preconceito falando de assuntos de que, manifestamente, nada sabem. Pois uma coisa é confrontar diferentes ideias e pontos de vista, contribuindo para o debate público que é próprio das sociedades democráticas. Outra é dar palco ao exibicionismo de betinhos da direita gira, arrogantes e contentes consigo próprios, que se acham engraçados e acutilantes por atirarem irresponsavelmente umas bojardas sobre assuntos que estão para além do seu parco entendimento.

Mas o discurso anti-professores deste e de outros avençados tem, apesar de tudo, uma utilidade indesmentível: clarifica o pensamento da direita sobre a profissão docente. Quando a relação dos professores com o actual governo se degrada de dia para dia e se evidenciam os limites e contradições da geringonça em matéria educativa, pensar em possíveis vantagens de uma mudança política é, para muitos professores, uma tentação quase inevitável. Então, para percebermos o que poderemos esperar do PSD quando ele se abeirar de novo do poder, nada melhor do que dar a palavra aos betinhos desta direita folclórica e “radical”. Que nos dizem, sem papas na língua, aquilo que todos os outros também pensam, mas não se atrevem a dizer publicamente.

Os professores têm um trabalho como outro qualquer, não é uma profissão desgastante. Esse conceito só se aplica, por exemplo, aos mineiros que vão trabalhar longas horas para uma gruta debaixo da terra.

Não há problema algum em trabalhar com turmas numerosas ou em condições difíceis, pois supostamente todos os professores foram para a profissão por vocação. Estão a fazer o que gostam, portanto não se queixem.

Em vez de andarem sempre a protestar em defesa dos seus direitos, da sua carreira e das suas progressões, deviam manifestar-se, isso sim, em defesa dos seus alunos.

Os professores também não deveriam reclamar das colocações a centenas de quilómetros de casa porque se os concursos se fazem desta forma é porque eles próprios defenderam este modelo de colocações e para dar emprego a mais professores.

Finalmente, supra-sumo da demagogia, esta tirada absolutamente esmagadora: o Estado gasta mais de metade do orçamento da Educação com os professores, quando o deveria gastar com os alunos.

E, por último, a confissão… Fui acusado de não perceber nada de educação – e é verdade. E não quero perceber. Mas fui a uma coisa gira que é a Pordata e trouxe de lá uns números engraçados para provar aqui umas ideias…

Censura no Facebook

jovemcd.jpgA página satírica Jovem Conservador de Direita foi apagada definitivamente do Facebook esta semana. Acusado de “incentivar o ódio”, um dos responsáveis pela publicação alerta para os limites à liberdade de expressão que o “ataque” do Facebook representa.

Com mais de 54 mil seguidores, o Jovem Conservador de Direita foi vítima de um novo um apagão digital. Se, no primeiro, que aconteceu depois de uma série de publicações sobre o Partido Nacional Renovador (PNR), o Facebook voltou a colocar a página disponível, desta vez foi diferente.

“Fizemos um post de elogio fúnebre ao engenheiro Belmiro de Azevedo e, pouco tempo depois, recebemos uma série de denúncias”, explica um dos responsáveis pela página, ao “JN”.

Depois de a publicação ter sido apagada da conta, os administradores fizeram um recurso à rede social. O posto voltou a ser colocado do feed, mas foi novamente apagado. “Finalmente, recebemos uma resposta, em que o Facebook justifica o apagão por se tratar de uma página que usa um tipo de discurso que incentiva o ódio”, diz. “Sendo esta uma página satírica, que pauta pela ironia, olhamos para esta resposta com uma boa dose de humor”, aponta.

Uma das coisas que mais me assusta no novo mundo tecnológico em que mergulhamos ávida e despreocupadamente é a ilusão de que os instrumentos, as tecnologias e os novos poderes emergentes são libertários, democráticos, solidários e partilhados. Na verdade, mesmo uma rede social omnipresente como o Facebook, onde julgamos poder dizer tudo o que queremos, vigia constantemente o que vai sendo publicado, eliminando o que, nem sempre com critérios claros e bem assumidos, considera violador das suas regras de conduta. Além disso, à maneira das polícias políticas dos regimes ditatoriais, incentiva os utilizadores a denunciar contas e publicações que considerem inadequados. A diferença é que, perante um regime político repressivo, os defensores da liberdade unem-se em sua defesa. Já numa rede social, que aparenta ser um espaço público mas é, na verdade, para todos os efeitos, propriedade privada, não há muito que os cidadãos possam fazer para combater o poder discricionário dos censores.

Vem tudo isto a propósito de uma das mais interessantes, criativas e originais páginas surgidas nas redes sociais nos últimos tempos: o Jovem Conservador de Direita. Com um perfil construído a partir do estereótipo de um jotinha dum partido de direita, jovem ambicioso e de boas famílias, o JCD escreve textos irónicos e satíricos, mas sempre corteses e respeitadores: sr. dr. para cá e para lá. Mas apesar do tom leve e bem humorado consegue ser bastante incisivo no apontar das hipocrisias e contradições do discurso das direitas. E foi provavelmente a eficácia corrosiva da página que mobilizou gente de direita para a campanha de denúncias que levou os responsáveis do Facebook, mais interessados em ganhar dinheiro do que alimentar polémicas, a eliminar a conta.

Contudo, o Jovem Conservador de Direita mantém-se activo, e espero que assim continue, no Twitter, onde o acompanho há alguns meses. Aqui fica o convite para uma visita e, em jeito de homenagem, a reprodução de alguns dos tweets mais recentes e inspirados…

Na democracia ideal só existe um partido. O líder é tão competente que as pessoas sentem que não vale a pena votar noutros partidos. Eu posso ser esse lider para Portugal. E a trabalhar em part time. Não vou sair da Goldman só para ser primeiro ministro de Portugal.

As pessoas deviam festejar o Natal por turnos para evitar congestionamentos nas superfícies comerciais. As famílias de ateus podiam festejar o aniversário do Dr. Ricky Gervais ou do dr. Nietzsche. Se não acreditam no Dr. Jesus também não festejam o aniversário dele.

Estado social do futuro: os cidadãos que precisam de ajuda abrem campanhas de crowdfunding e os contribuintes escolhem aqueles que querem beneficiar com o dinheiro dos seus impostos.

Parabéns ao Dr. Ricardo Araújo Pereira por ter abandonado a sua “carreira” de humorista e por se ter tornado no Dr. Nuno Rogeiro do assunto ‘politicamente correcto’.

Sou pela meritocracia da internet. Sites úteis de empreendedorismo ou tutoriais de Excel devem ter prioridade em relação a sites que só servem para perder tempo e prejudicar a produtividade como sites porno ou vídeos de gatinhos.

A Presidente da Raríssimas exigia ser tratada por Doutora. Um excelente sinal de liderança. Se permitirmos que um subalterno nos trate pelo nome, em pouco tempo está a mandar-nos tirar fotocópias.

Estão a atacar a Presidente da Raríssimas por receber muito dinheiro. O verdadeiro altruísmo paga-se bem. Se queremos pessoas competentes a praticar o bem temos de lhes pagar. Fazer o bem não pode ser um exclusivo de pessoas que não conseguem arranjar empregos a sério.

As pessoas que se recusam a acreditar em Deus contra todas as evidências vão sentir-se tão estúpidas quando morrerem. Deve ser para se rir da cara deles nesse momento que Deus criou os ateus.

No tempo do Dr. Pedro Passos Coelho, o Dr. Gaspar e a Dra. Maria Luís também podiam ter ido para o Eurogrupo, mas preferiram salvar Portugal.

A esquerda não gostava do Dr. Belmiro Azevedo, mas a verdade é que deu mais emprego nas suas lojas a licenciados em ciências sociais do que a FCT e o Boaventura Sousa Santos juntos.

Estão a acusar-me de brincar com a morte do Dr. Belmiro de Azevedo. Que ridículo. É claro que não estou a brincar. Infelizmente, o Dr. Belmiro faleceu mesmo.

O Dr. Belmiro de Azevedo era tão a favor da meritocracia que escolheu o Dr. Paulo de Azevedo como sucessor. Mesmo apesar de ser filho dele.

A Dra. Popota agora fica livre para assinar pelo Pingo Doce?

O génio da banalidade

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Cavaco Silva reapareceu ontem naquilo a que chamam a Universidade de Verão do PSD, apenas para mostrar que continua ressabiado com a actual solução governativa e ainda mais com o seu sucessor na Presidência da República. Uma assombração, como sugere Joana Mortágua?

Saí de casa e entrei no carro e assisti a um anti-milagre de ressuscitação. Parece que ouvi no rádio uma voz do além, das profundezas, a dizer uma série de disparates e afinal era o Cavaco Silva que tinha voltado, não se sabe bem de onde, para dizer umas coisas.

O que ouvi não foi muito, mas o cinismo, o argumento tortuoso, as meias palavras e as meias verdades típicas do discurso cavaquista, isso estava lá tudo. E recordou-me o retrato certeiro de José Saramago, possivelmente a pessoa que melhor definiu este político tão medíocre quanto mesquinho:

Sempre que fala o professor Cavaco Silva está dando uma lição. Mas hoje descobri – não direi exactamente com surpresa – que tudo quanto ele diz é banal. É uma espécie de génio da banalidade.

 

 

ONU condena “Escola Sem Partido”

formatar.jpgJá por aqui tinha falado em tempos do Escola Sem Partido, um movimento político que com a presidência de Michel Temer passou a ser abertamente apoiado pelas autoridades educativas do Brasil e com o qual se pretende impedir os professores de “doutrinarem” politicamente os seus alunos ao abordarem temas polémicos na sala de aula.

Os professores de História, Economia ou Filosofia estão entre os que mais facilmente podem ser visados pelas queixas de alunos e pais, mesmo que se limitem a tratar temas incluídos nos respectivos programas. Pois aprender implica reflectir sobre o que se estuda, comparar diferentes ideias e pontos de vista, debater e discutir sem medos nem preconceitos as questões polémicas e contraditórias do mundo em que vivemos.

A escola não existe para conformar as crianças e os jovens com as maneiras de pensar predominantes nas suas famílias, mas para lhes abrir horizontes, confrontando-as com ideias e realidades diferentes daquelas que já conhecem.

A liberdade de expressão, tal como a de aprender e ensinar, integram os direitos humanos fundamentais, pelo que não é de estranhar que o Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU venha agora questionar as iniciativas do governo brasileiro nesta matéria:

Em comunicado publicado nessa qinta-feira(13), relatorias especiais do Alto Comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) recomendam que o governo brasileiro tome atitudes necessárias para conduzir uma revisão dos projetos de lei (PLs) que tratam do Escola Sem Partido.

De acordo com o comunicado, por não definir o que é doutrinação política e ideológica, propaganda político-partidária e educação moral, a proposição permite “alegar que um professor está violando as regras pelo fato de autoridades ou pais subjetivamente considerarem a prática como propaganda político-partidária”. Além disso, o Escola Sem Partido poderá retirar das salas de aula, “discussões de tópicos considerados controversos ou sensíveis, como discussões de diversidade e direitos da minorias”.

Embora a posição da ONU não seja vinculativa para as autoridades educativas do Brasil, que nem sequer são legalmente obrigadas a responder a esta invectiva no prazo de 60 dias que lhes é proposto, é importante que o governo golpista de Temer perceba que o resto do mundo está atento aos desenvolvimentos do seu programa educativo reaccionário e conservador.

Não menos importante é que os professores brasileiros sintam a solidariedade, à escala global, dos professores, educadores e de todos os que amam a liberdade, nesta luta que são forçados a travar contra a prepotência, o preconceito e o obscurantismo do pensamento único.