Polvo açoriano

A grande coligação das direitas açorianas mostra ao que veio.

Nada ficam a dever aos Césares e demais famílias socialistas…

E assim vão combater os grandes problemas do arquipélago, a corrupção e o RSI dos pobres…

Imagem de origem indeterminada, em circulação nas redes sociais.

Fascismo ou tachismo?

André Ventura não é um fascista genuíno, muito menos o político “anti-sistema” que a propaganda chegana nos tenta apresentar. É, isso sim, um oportunista com poucos escrúpulos que um dia percebeu que nunca conseguiria fazer, no interior do PSD, um percurso à medida das suas ambições. E resolveu partir à conquista de um nicho do mercado eleitoral que existe um pouco por toda a Europa, que nos EUA foi decisivo na eleição de Trump, mas que em Portugal estava claramente por explorar: o do eleitorado descontente que se deixa seduzir pelo discurso autoritário e securitário, racista e xenófobo, conservador com laivos de saudosismo pelo anterior regime.

Isto não significa, atenção, que este protofascismo seja menos perigoso: além dos dissidentes do PSD e do CDS, o Chega dá guarida a diversos radicalismos de extrema direita, fomentando o discurso de ódio e encorajando as acções violentas, de neonazis e outros criminosos, contra minorias étnicas e sociais. Tal como outros populistas de direita, recorre à manipulação e à demagogia para aglutinar descontentes e alargar a sua base de apoio. Semeia ventos, mas não espera colher a tempestade. As vítimas seremos todos nós, os que permitirmos que os ideais fascistas derrotados em 1945 voltem a ter lugar na política do século XXI.

O manifesto da vergonha

clemente-cavaco-passosCerca de 100 personalidades públicas assinaram um manifesto contra a obrigatoriedade da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento nas escolas, considerando que os pais devem ter direito à objecção de consciência para não permitirem que os filhos a frequentem.

Este abaixo assinado surge no âmbito do caso despoletado pelos pais de duas crianças de Vila Nova de Famalicão que não deixaram os filhos frequentar as aulas da disciplina que é obrigatória.

O manifesto, tortuoso e dissimulado em relação aos fins pretendidos pelos seus promotores, assemelha-se a um parecer jurídico daqueles que se encomendam, para defender interesses manhosos, a professores de Direito e escritórios de advocacia.

Impressiona desde logo pela sucessão de assinaturas, um mosaico do conservadorismo social e político que continua a influenciar os destinos do país. Cavaco Silva, sempre do lado errado da História, Passos Coelho, representando a velha cepa do liberalismo “conservador nos costumes” e o cardeal Clemente, representante máximo da ICAR, serão os nomes mais sonantes. Há também um numeroso grupo de professores da Universidade Católica, de onde a iniciativa terá partido, e outro de ex-governantes da área do PSD/CDS. Aqui, cumpre destacar David Justino, um homem de quem, pelas posições que assumiu e pelas responsabilidades que teve, no ME e posteriormente no CNE, se esperaria uma posição mais esclarecida e equidistante nesta polémica. Enfim, percebe-se que houve toque a rebate nas fileiras da direita conservadora e até gente afastada de guerras ideológicas como o dom pretendente ao trono e a doutora Jonet do Banco Alimentar foram chamados a alimentar esta ideia.

Quanto à sofisticação jurídica da prosa, e apesar das inúmeras evocações da Constituição, da Declaração dos Direitos Humanos e outros pactos e convenções internacionais, ela parte de um pressuposto errado que inquina todo o raciocínio: aquilo que está consagrado em todos esses textos é o princípio de que os pais têm o direito de procurar, numa escola privada, uma educação alternativa à que o Estado proporciona, de acordo com as suas convicções morais e religiosas. Em lado algum se estabelece o princípio de que os pais podem decidir retirar partes do currículo de acordo com as suas preferências ou convicções. Se querem escola ideologicamente enviesada ou comprometida com a religião e a moral que professam, que a escolham entre as ofertas disponíveis no mercado e a paguem do seu bolso.

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Não me peçam calma

mamadou-baNão me peçam calma nem contenção porque estou cansado dos vossos pedidos. Até quando me vão acusar de ser responsável pelo racismo de que sou vítima? Até quando continuarão a dizer que sou igual àqueles que me violentam e me querem matar? Até quando continuarão a pedir-me para esperar enquanto se vai matando ou ameaçando matar uma parte de mim? Até quando? Ou ainda não perceberam que qualquer morte ou ameaça de morte racista é uma morte da própria ideia dos valores de humanidade que tanto gostam de apregoar? Só a condescendência com a morte da própria ideia de humanidade pode levar uma comunidade política a não se sentir ela própria ameaçada com ameaças de morte por ódio racial. Portanto, a única decência que espero dos que insistem em negar ou relativizar o racismo é que tenham a inteligência e a coragem de matar o racismo antes que ele nos mate.

O dirigente do SOS Racismo coloca – bem – o dedo na ferida. Afinal de contas, há um relativismo cultural e moral de que a esquerda costuma ser acusada que também é evidente à direita. A verdade é que nem todos os radicalismos se equivalem, e ser radical na defesa de direitos para todos não é a mesma coisa que ameaçar a vida, a liberdade e a segurança de outros cidadãos.

Independentemente de posicionamentos políticos ou ideológicos, há que reconhecer coragem e sentido de justiça na intervenção oportuna de Mamadou Ba. O racismo existe, e a condescendência com os actos racistas apenas sublinha que a discriminação, a exclusão e a violência contra portugueses de etnias minoritárias continuam bem vivas entre nós. E encoraja a extrema-direita fascizante e xenófoba a ser mais ousada e perigosa na sua afirmação.

O apelo à calma dos que são violentados enquanto se transige com os violentadores é a demonstração clara de que há mesmo um racismo estrutural na sociedade portuguesa. Ainda que gostemos de viver, nesta como noutras realidades, em estado de negação.

O vira-casacas

homem.cristo

Sabendo-se que os professores hoje no activo são praticamente os mesmos que ensinavam em 2014, é caso para perguntar: o que levou o escriba do Observador, o jovem “investigador” de temas de educação levado ao colo, pelo CDS, para o Conselho Nacional de Educação, a mudar radicalmente a sua opinião?

O vira-casaquismo esteve muito em voga a seguir à Revolução que hoje se comemora. Pessoas que nunca se interessaram por política inventaram para si próprias um passado antifascista. Homens de confiança do anterior regime transformaram-se de um dia para o outro em activos e radicais revolucionários.  Com a mesma falta de princípios, gente sem vontade nem préstimo para leccionar, que faz carreira a admoestar os professores e a denegrir o profissionalismo da classe – e há tantos por aí – não se inibe de dirigir elogios interesseiros aos professores, quando sente que isso lhe dá jeito.

A coerência não é propriamente um valor em alta entre uma certa direita de boas famílias que sempre se habituou a abrir caminho usando o seu dinheiro, poder e influência para atacar, ofender, desmoralizar quem se atravessa à frente. Ou não se desvia para o lado com suficiente rapidez. Recorrendo à arrogância e à displicência como forma de disfarçar incompreensão e ignorância.

Será que, como uma certa opinião pública pouco informada, o investigador e jornalista especializado em assuntos educativos se surpreendeu com o à vontade dos professores da “telescola” no uso dinâmico das novas tecnologias? De tanto ajudar a difundir a patranha dos “professores do século XX”, terá acreditado nela? Ignoraria que os vídeos, os powerpoints, os sons e as animações gráficas há muito que fazem parte da rotina escolar das salas de aula portuguesas?

A verdade é esta: só não fazemos mais e ainda melhor porque a falta de meios e a sobrecarga de turmas e alunos não nos deixa tempo para investirmos tanto como gostaríamos naquilo que gostamos mesmo de fazer: proporcionar aos nossos alunos mais e melhores aprendizagens.

Outra realidade não menos evidente são as ruas da amargura em que vegeta o jornalismo tendencioso do Observador, um projecto político neoliberal que usou o jornal online como barriga de aluguer. Percebe-se que de 2014 para cá os tempos mudaram e as proclamações da seita neoliberal já não encontram hoje a mesma aceitação. E se ontem os “maus professores” eram o inimigo a abater, serão hoje uma potencial clientela que interessa seduzir…

Camelo Lourenço

Ou da importância de, mesmo em tempo de pandemia, comemorar oficialmente o 25 de Abril.

Explicado de forma a que o entenda uma criança ou, muito mais difícil, um direitola tão ignorante quanto arrogante…

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Chega para lá!…

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André Ventura, do Chega, vai sentar-se o mais à direita possível do hemiciclo, na segunda fila, isto porque os deputados únicos não têm assento na primeira fila. O mesmo acontece com Joacine Katar Moreira, do Livre, que se sentará na segunda fila, entre o PCP e o PS, e com João Cotrim Figueiredo, do Iniciativa Liberal, que se vai senta na segunda fila, ao lado do PSD e do CDS.

Numa nota enviada ao Expresso, o Iniciativa Liberal explica que “as conclusões da conferência de líderes demonstram uma vez mais o sentimento de propriedade que alguns têm da democracia. Tomam decisões sobre deputados que não estão presentes e, neste caso, até ignorando uma vontade demonstrada publicamente”.

O IL, que se estreia no Parlamento com a eleição de João Cotrim Figueiredo por Lisboa, queria ficar “o mais distante dos extremos“, uma vontade que promete voltar a frisar “assim que os trabalhos começarem”.

“O mundo evoluiu, mas alguns continuam presos a estereótipos da revolução francesa”. O hemiciclo, “assim como a política portuguesa, precisa de se renovar”, concluem os liberais, na nota enviada ao semanário.

O Chega também critica a distribuição dos assentos, não pela localização no espectro, mas sim pelo recuo do lugar. André Ventura terá um lugar no extremo direito do hemiciclo, mas sem direito a primeira fila, como costuma acontecer com os deputados únicos.

André Ventura disse ao Expresso que esta decisão é “vergonhosa”. “Se pudessem, colocavam o Chega cá fora na escadaria.” O deputado adiantou ainda que o partido deveria também ter direito a voto em conferência de líderes.

Reveladoras as reacções dos pequenos partidos de direita que passaram a ter assento parlamentar.

Apesar de tudo mais honesto o deputado do Chega, que assume a posição de extrema-direita no espectro partidário, reclamando apenas o lugar na fila da frente.

Já a Iniciativa Liberal tem outras ambições, dispostos a explorar o filão que a reciclagem do discurso liberal e a imagem de uma direita de cara lavada pode representar. Basta ver a rápida ascensão eleitoral que teve o Ciudadanos em Espanha ou mesmo a subida de Macron à presidência francesa.

Rejeitam, porque sabem que isso os pode prejudicar, a velha dicotomia entre esquerda e direita. Apesar de ideologicamente estarem muito bem identificados, não querem que esse facto lhes limite o potencial de crescimento. Sabem que, com o declínio dos partidos tradicionais de direita e o inevitável desgaste da governação à esquerda, podem pescar votos e apoios tanto dum lado como do outro.

Há, no entanto, um velho teste na política que, tal como o do algodão, não engana: quem diz que não é de esquerda nem de direita… é de direita!…

Quando a direita descobre que caiu na armadilha…

Eu diria que escorregaram em cascas de banana que eles próprios lançaram.

Isso e a falta de agenda própria, que leva os partidos de direita a correr atrás dos foguetes lançados pela esquerda, demonstrando falta de iniciativa e incapacidade política.

Claro que, enquanto se discutem casas de banho ou museus de Salazar, não se beliscam os pactos de regime que, nas matérias verdadeiramente importantes, continuam a unir o PS e a direita.

O que é que “a gente” faz com os pobres?

soares-dos-santos.JPGA longa entrevista de Alexandre Soares dos Santos, o patriarca do grupo Jerónimo Martins, ao Observador, é interessante e reveladora. Com 85 anos, afastado da condução activa dos negócios do grupo, o empresário recorda a sua longa carreira à frente do negócio de família que transformou numa empresa multinacional e num dos maiores grupos económicos portugueses.

Com um discurso lúcido e sem grandes pruridos com o política e empresarialmente correcto, Soares dos Santos revela, um pouco mais do que é habitual neste tipo de entrevistas, o que lhe vai na alma. E há uma passagem, especialmente, que está a ser intensamente citada e comentada:

…os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média e depois subirem se possível. É para isso que a gente luta…

A afirmação inscreve-se num tipo de pensamento e de discurso caro a uma certa direita liberal e nesse sentido não causa estranheza. Pressupõe que para combater a pobreza é preciso criar riqueza. Uma responsabilidade das empresas, que ao contratarem trabalhadores, pagando-lhes salários dignos e dando-lhes perspectivas de carreira, permitem a ascensão económica e social de pessoas pobres, mas trabalhadoras.

Contudo, uma análise mais atenta permite ir um pouco além deste simplismo discursivo. Desde logo, a ideia de que os pobres fazem parte de uma espécie de ordem natural das coisas. Os pobres existem para que “a gente”, ou seja, os que já nascemos livres dessa condição, façamos algo por eles. A caridadezinha para ganhar o Céu, dirá o catolicismo conservador. Mas essa não é a visão de ASS, que prefere arranjar-lhes emprego nas suas empresas. Explorar a sua força de trabalho, dirão os mais cínicos. Ou os mais realistas. A verdade é que a ideia de que os ricos tenham de “transformar” os pobres implica que estes tenham de existir, quanto mais não seja, para dar sentido à existência dos ricos. E para que estes aumentem as suas fortunas.

Aqui, pode perguntar-se: será que a grande maioria dos trabalhadores do grupo Jerónimo Martins, que ganham o salário mínimo ou pouco mais, se libertam da pobreza pelo trabalho? Um grupo económico que lidera o ranking da desigualdade salarial (o filho de ASS ganha mais de 130 vezes o que recebe o trabalhador médio do grupo) será referência ou exemplo para alguém nesta matéria? Há uma evidente contradição entre o discurso meritocrático do “elevador social” e os hábitos de desvalorização do trabalho profundamente enraizados nalguns dos nossos maiores grupos empresariais.

Por último olhemos o topo da pirâmide social: a perpetuação da pobreza e mesmo da classe média pressupõe a existência dos ricos. Sabemos até, como já Almeida Garrett notava, que são precisos demasiados pobres para fazer um rico. Mas assim como há, entre estes, os que se acham predestinados a “transformar” os pobres, não deveria existir também forma de transformar os ricos em classe média? Estou a pensar sobretudo naqueles ricos que andam há anos a ser subsidiados pelo contribuinte.

A realidade é que, como nota João Quadros, cada vez que surge a oportunidade real de transformar um punhado de ricos, a viver nitidamente acima das suas – e das nossas – possibilidades, em classe média, logo se descobre que os passarões são demasiado grandes para cair. E nós pagamos para os segurar. Ou, como acrescenta Constança Cunha e Sá, porque os ricos “fizeram-se” para que a gente não os transforme em pobres

A importância de cantar o hino

Não faltam carências, necessidades e prioridades ao conturbado mundo da Educação brasileira. Num país que não prestigia os seus professores, não investe adequadamente na escola pública e vem revertendo as políticas sociais do tempo de Lula da Silva, os resultados académicos dos alunos brasileiros mantêm-se, persistentemente, no fundo das tabelas do PISA e de outros testes internacionais.

Mas para o novo governo de Bolsonaro, que chegou ao poder animado da vontade de fazer algumas mudanças no sistema educativo, a primeira prioridade parece estar já definida. E não passa por melhorar os apoios sociais aos alunos ou os depauperados salários dos professores, nem tão pouco por mexidas nas avaliações ou nos currículos. Mais importante do que tudo isso é pôr os alunos a cantar na escola, a plenos pulmões, o hino do Brasil. Com direito a gravação, para que o momento fique registado para a posteridade…

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Numa circular distribuída por todas as escolas do Brasil, o ministro da Educação brasileiro, Ricardo Vélez, deixou um pedido aos directores dos estabelecimentos de ensino para que leiam uma carta aos alunos, cantem o hino nacional e que gravem esse momento em vídeo, para depois ser enviado ao Governo. Tudo isto sem sequer contemplar o pedido de autorização dos pais.

A mensagem do ministro da Educação surge numa altura em que os estudantes brasileiros regressam à escola, depois das férias de Verão, mas não explica o que o Governo pretende fazer com as filmagens. Numa nota enviada às escolas de todo o país, o ministro dá apenas indicação para que os estudantes fiquem de perfil, com a bandeira brasileira de frente, enquanto lhes é lida a carta e que depois ouçam o hino nacional.