Chega para lá!…

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André Ventura, do Chega, vai sentar-se o mais à direita possível do hemiciclo, na segunda fila, isto porque os deputados únicos não têm assento na primeira fila. O mesmo acontece com Joacine Katar Moreira, do Livre, que se sentará na segunda fila, entre o PCP e o PS, e com João Cotrim Figueiredo, do Iniciativa Liberal, que se vai senta na segunda fila, ao lado do PSD e do CDS.

Numa nota enviada ao Expresso, o Iniciativa Liberal explica que “as conclusões da conferência de líderes demonstram uma vez mais o sentimento de propriedade que alguns têm da democracia. Tomam decisões sobre deputados que não estão presentes e, neste caso, até ignorando uma vontade demonstrada publicamente”.

O IL, que se estreia no Parlamento com a eleição de João Cotrim Figueiredo por Lisboa, queria ficar “o mais distante dos extremos“, uma vontade que promete voltar a frisar “assim que os trabalhos começarem”.

“O mundo evoluiu, mas alguns continuam presos a estereótipos da revolução francesa”. O hemiciclo, “assim como a política portuguesa, precisa de se renovar”, concluem os liberais, na nota enviada ao semanário.

O Chega também critica a distribuição dos assentos, não pela localização no espectro, mas sim pelo recuo do lugar. André Ventura terá um lugar no extremo direito do hemiciclo, mas sem direito a primeira fila, como costuma acontecer com os deputados únicos.

André Ventura disse ao Expresso que esta decisão é “vergonhosa”. “Se pudessem, colocavam o Chega cá fora na escadaria.” O deputado adiantou ainda que o partido deveria também ter direito a voto em conferência de líderes.

Reveladoras as reacções dos pequenos partidos de direita que passaram a ter assento parlamentar.

Apesar de tudo mais honesto o deputado do Chega, que assume a posição de extrema-direita no espectro partidário, reclamando apenas o lugar na fila da frente.

Já a Iniciativa Liberal tem outras ambições, dispostos a explorar o filão que a reciclagem do discurso liberal e a imagem de uma direita de cara lavada pode representar. Basta ver a rápida ascensão eleitoral que teve o Ciudadanos em Espanha ou mesmo a subida de Macron à presidência francesa.

Rejeitam, porque sabem que isso os pode prejudicar, a velha dicotomia entre esquerda e direita. Apesar de ideologicamente estarem muito bem identificados, não querem que esse facto lhes limite o potencial de crescimento. Sabem que, com o declínio dos partidos tradicionais de direita e o inevitável desgaste da governação à esquerda, podem pescar votos e apoios tanto dum lado como do outro.

Há, no entanto, um velho teste na política que, tal como o do algodão, não engana: quem diz que não é de esquerda nem de direita… é de direita!…

Quando a direita descobre que caiu na armadilha…

Eu diria que escorregaram em cascas de banana que eles próprios lançaram.

Isso e a falta de agenda própria, que leva os partidos de direita a correr atrás dos foguetes lançados pela esquerda, demonstrando falta de iniciativa e incapacidade política.

Claro que, enquanto se discutem casas de banho ou museus de Salazar, não se beliscam os pactos de regime que, nas matérias verdadeiramente importantes, continuam a unir o PS e a direita.

O que é que “a gente” faz com os pobres?

soares-dos-santos.JPGA longa entrevista de Alexandre Soares dos Santos, o patriarca do grupo Jerónimo Martins, ao Observador, é interessante e reveladora. Com 85 anos, afastado da condução activa dos negócios do grupo, o empresário recorda a sua longa carreira à frente do negócio de família que transformou numa empresa multinacional e num dos maiores grupos económicos portugueses.

Com um discurso lúcido e sem grandes pruridos com o política e empresarialmente correcto, Soares dos Santos revela, um pouco mais do que é habitual neste tipo de entrevistas, o que lhe vai na alma. E há uma passagem, especialmente, que está a ser intensamente citada e comentada:

…os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média e depois subirem se possível. É para isso que a gente luta…

A afirmação inscreve-se num tipo de pensamento e de discurso caro a uma certa direita liberal e nesse sentido não causa estranheza. Pressupõe que para combater a pobreza é preciso criar riqueza. Uma responsabilidade das empresas, que ao contratarem trabalhadores, pagando-lhes salários dignos e dando-lhes perspectivas de carreira, permitem a ascensão económica e social de pessoas pobres, mas trabalhadoras.

Contudo, uma análise mais atenta permite ir um pouco além deste simplismo discursivo. Desde logo, a ideia de que os pobres fazem parte de uma espécie de ordem natural das coisas. Os pobres existem para que “a gente”, ou seja, os que já nascemos livres dessa condição, façamos algo por eles. A caridadezinha para ganhar o Céu, dirá o catolicismo conservador. Mas essa não é a visão de ASS, que prefere arranjar-lhes emprego nas suas empresas. Explorar a sua força de trabalho, dirão os mais cínicos. Ou os mais realistas. A verdade é que a ideia de que os ricos tenham de “transformar” os pobres implica que estes tenham de existir, quanto mais não seja, para dar sentido à existência dos ricos. E para que estes aumentem as suas fortunas.

Aqui, pode perguntar-se: será que a grande maioria dos trabalhadores do grupo Jerónimo Martins, que ganham o salário mínimo ou pouco mais, se libertam da pobreza pelo trabalho? Um grupo económico que lidera o ranking da desigualdade salarial (o filho de ASS ganha mais de 130 vezes o que recebe o trabalhador médio do grupo) será referência ou exemplo para alguém nesta matéria? Há uma evidente contradição entre o discurso meritocrático do “elevador social” e os hábitos de desvalorização do trabalho profundamente enraizados nalguns dos nossos maiores grupos empresariais.

Por último olhemos o topo da pirâmide social: a perpetuação da pobreza e mesmo da classe média pressupõe a existência dos ricos. Sabemos até, como já Almeida Garrett notava, que são precisos demasiados pobres para fazer um rico. Mas assim como há, entre estes, os que se acham predestinados a “transformar” os pobres, não deveria existir também forma de transformar os ricos em classe média? Estou a pensar sobretudo naqueles ricos que andam há anos a ser subsidiados pelo contribuinte.

A realidade é que, como nota João Quadros, cada vez que surge a oportunidade real de transformar um punhado de ricos, a viver nitidamente acima das suas – e das nossas – possibilidades, em classe média, logo se descobre que os passarões são demasiado grandes para cair. E nós pagamos para os segurar. Ou, como acrescenta Constança Cunha e Sá, porque os ricos “fizeram-se” para que a gente não os transforme em pobres

A importância de cantar o hino

Não faltam carências, necessidades e prioridades ao conturbado mundo da Educação brasileira. Num país que não prestigia os seus professores, não investe adequadamente na escola pública e vem revertendo as políticas sociais do tempo de Lula da Silva, os resultados académicos dos alunos brasileiros mantêm-se, persistentemente, no fundo das tabelas do PISA e de outros testes internacionais.

Mas para o novo governo de Bolsonaro, que chegou ao poder animado da vontade de fazer algumas mudanças no sistema educativo, a primeira prioridade parece estar já definida. E não passa por melhorar os apoios sociais aos alunos ou os depauperados salários dos professores, nem tão pouco por mexidas nas avaliações ou nos currículos. Mais importante do que tudo isso é pôr os alunos a cantar na escola, a plenos pulmões, o hino do Brasil. Com direito a gravação, para que o momento fique registado para a posteridade…

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Numa circular distribuída por todas as escolas do Brasil, o ministro da Educação brasileiro, Ricardo Vélez, deixou um pedido aos directores dos estabelecimentos de ensino para que leiam uma carta aos alunos, cantem o hino nacional e que gravem esse momento em vídeo, para depois ser enviado ao Governo. Tudo isto sem sequer contemplar o pedido de autorização dos pais.

A mensagem do ministro da Educação surge numa altura em que os estudantes brasileiros regressam à escola, depois das férias de Verão, mas não explica o que o Governo pretende fazer com as filmagens. Numa nota enviada às escolas de todo o país, o ministro dá apenas indicação para que os estudantes fiquem de perfil, com a bandeira brasileira de frente, enquanto lhes é lida a carta e que depois ouçam o hino nacional.

A guerra contra os professores

trump-jrEm Portugal, a discussão pública dos temas educativos não tem tido muitas variações. Para além dos problemas profissionais dos professores, entre os quais avulta o não reconhecimento do tempo de serviço, discutem-se as principais reformas introduzidas pelo Governo – a flexibilidade, a autonomia,  a inclusão – temas que seguem de perto a agenda educativa da OCDE, principal fonte inspiradora da política educativa de um governo que, como outros antes dele, opta por ignorar as opiniões e os contributos dos verdadeiros especialistas em Educação: os professores.

Contudo, a nível internacional, os tempos também não correm de feição para a escola pública e os professores. A ascensão ao poder de governantes de direita e extrema-direita, alguns dos quais assumindo uma postura verdadeiramente proto-fascista, está a dar forma a um movimento internacional contra os professores “marxistas” que supostamente usam a sala de aula para doutrinar os seus alunos. Já vimos isto no Brasil, com o movimento “Escola sem Partido”. Mas também na Alemanha a extrema-direita apela à denúncia de professores “esquerdistas”. Mais recentemente, foi o próprio filho do presidente dos EUA a chamar “losers” aos professores que pretenderiam doutrinar as crianças, desde pequeninas, nas ideias socialistas.

Noutros lados, mesmo em países económica e socialmente desenvolvidos, são matérias que não deveriam suscitar polémica, como a teoria da evolução, as alterações climáticas ou a educação sexual que se encontram debaixo do fogo de políticos reaccionários e conservadores. Em última análise, despedir professores continua a ser uma solução popular nalgumas partes do mundo: poupam despesa e vêem-se livres de indesejáveis que têm o mau hábito de pensar pela sua cabeça. E de incentivar os seus alunos a fazê-lo também…

Por cá, a governação geringôncica não segue este rumo, mas há pelo menos um ponto da agenda da direita política que vão adoptando: a desvalorização do ensino da História, em favor de um cardápio de cidadanias, orientado em função das prioridades dos governos, das fundações e das multinacionais. Se tiverem sucesso, será meio caminho andado para privar as novas gerações de referências essenciais à compreensão do mundo em que vivemos. Esta e outras reflexões faziam-se, há dias, num interessante texto publicado na Folha de S. Paulo que não resisto a partilhar.

As salas de aula incomodam qualquer governo preocupado em manter um pensamento homogêneo. Professores são sempre perseguidos em regimes que não admitem dissenso. Sei que o estudo de história anda meio fora de moda, já que muitas pessoas não querem ser incomodadas com fatos de verdade (infelizmente, há uma certa tendência em produzir passados alternativos em profusão). O ponto é que o estudo sistemático do passado clareia o pensamento. Mostra semelhanças e rupturas.

Uma das maiores novidades do nosso tempo é a infantilização da crítica aos professores e o desprezo completo pelo rigor conceitual. Meninos crescidos, como Donald Trump Jr, usam marxista como ataque tal qual crianças do ensino fundamental se ofendem na base do “bobo” ou “cara de melão”. Rebaixam a discussão sem nenhuma responsabilidade com as próprias palavras. Usam socialismo para descrever qualquer ideia das quais discordem. Eles claramente não sabem do que estão falando —e talvez justamente por isso falem com tanta convicção. Transformam a discussão pública numa grande sessão de zoeira ou trolagem. É preciso cultivar uma ignorância convicta para fazer isso sem sentir vergonha.

[…]

O mundo dos moleques, infelizmente, transforma o debate público sobre educação no pesadelo dos melhores professores. Todo mundo grita e ninguém aprende. Enquanto isso, as questões reais vão para o fim da fila. E ainda se perguntam por que os melhores alunos, mesmo os vocacionados para a docência, estão fugindo da pedagogia…

O programa anti-Educação de Bolsonaro

Com a tomada de posse de Jair Bolsonaro como novo Presidente do Brasil, adivinham-se tempos difíceis para a Educação brasileira.

Não que este político de extrema-direita tenha ideias claras ou um pensamento estruturado sobre o sector da Educação. Mas o pouco que vai dizendo, em linha com as ideias mais ou menos avulsas dos sectores mais retrógrados e conservadores da sociedade brasileira, associado à vontade de cortar despesa nesta e noutras áreas sociais, é de molde a suscitar as maiores inquietações em quem vê na Educação um factor-chave do progresso económico e social.

Acabar com a “doutrinação marxista” nas escolas – o que quer que isso seja -, reduzir a oferta educativa nas zonas rurais, erradicar a pedagogia moderna e os temas de cidadania e promover um modelo de “escola militar” de contornos pouco definidos: eis alguns pontos de um programa educativo ainda pouco explícitos. Mas que Bolsonaro, na véspera da tomada de posse, fez questão de relembrar…

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Para Bolsonaro, a presença do Brasil nos últimos lugares dos ‘rankings’ desenvolvidos por organizações internacionais como a OCDE é o reflexo das políticas do Partido dos Trabalhadores (PT).

O futuro presidente, que tomará posse no primeiro dia de 2019, é defensor de uma política conhecida como a “Escola Sem Partido”, que tenta evitar que os professores usem a sua situação para compartilhar com os alunos conceitos ideológicos.

Eleito com forte apoio de grupos evangélicos e dos setores mais conservadores do Brasil, Bolsonaro criticou também o PT por promover campanhas contra a homofobia e a igualdade de género nas escolas.

O projeto “Escola Sem Partido”, que está dependente de votação no Congresso, prevê a luta contra o uso das salas de aula como um local para transmitir doutrinas partidárias e promover discussões sobre questões como a de género.

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometeu, por um lado, pôr fim aos métodos de ensino que seguem a ideologia do educador brasileiro Paulo Freire e, por outro, promover as escolas militares.

O próximo ministro da Educação será o filósofo colombiano naturalizado brasileiro Ricardo Velez Rodriguez, que, nas suas mensagens nas redes sociais, já antecipou que conceitos como a família e os valores serão os alicerces do sistema.

O Conservador

obs.JPGNesta quadra natalícia, o Observador vem dedicando uma série, aparentemente interminável, de artigos de opinião ao tema da Virgindade de Maria. Perplexo face ao empenhado zelo com que o assunto anda a ser discutido nas colunas do jornal online, interrogo-me se entre os desígnios superiores do jornalismo digital do século XXI estará o de nos reconduzir aos esfuziantes debates que ocupavam os escolásticos medievais.

Ou será isto, apenas, a sina da direita portuguesa? Por muito moderna e liberal que se apresente, há sempre aqueles momentos em que sente absoluta necessidade de retornar à sua praia, a zona de conforto do conservadorismo social, moral e religioso…

Por outro lado, quando, à direita, se acusa a esquerda de fugir à discussão incómoda dos reais problemas do país e do povo, o que dizer desta direita observadora com óbvia falta de assunto?…