O ano do covid

Seja qual for a perspectiva, 2020 será incontornavelmente recordado como o ano em que uma epidemia misteriosa, ao princípio confundida com uma vulgar “gripezinha”, acabou por se instalar no quotidiano e alterar tão profundamente as nossas vidas.

Nas escolas, recorreu-se inicialmente a um ensino remoto de emergência, acompanhando o movimento de confinamento geral das actividades não essenciais. Para se retomar, em Setembro, uma quase normalidade cujo impacto, na segunda vaga pandémica, está ainda por determinar.

A exemplo de anos anteriores, mas desta vez com a pandemia em pano de fundo, passa-se em revista o ano de 2020 revisitando alguns dos posts mais lidos e comentados na Escola Portuguesa.

O paradigma do sucesso

…vamos criar um projecto ambicioso – integrado e inovador! – de combate ao insucesso escolar. Com financiamento assegurado pelo Fundo Social Europeu, o que fazemos? Contratamos professores, técnicos e pessoal de apoio para as escolas? Investimos em equipamento para as escolas e recursos pedagógicos adequados ao século XXI? Bom, talvez no fim sobrem uns trocos para essas coisas. Para já, vamos comprar uns automóveis…

3.º período em casa, disse o primeiro-ministro

Não sendo um fundamentalista pró ou contra os exames, sempre os entendi como um elemento regulador do sistema educativo e uma ferramenta ao serviço da avaliação das aprendizagens. Contudo, na perspectiva hoje enunciada pelo primeiro-ministro, não são os exames que estão ao serviço da escola, mas a escola que é colocada ao serviço dos exames…

Professores, líderes de audiências

Produzidas em tempo recorde, as aulas da nova telescola estão a dar nova vida à televisão, um meio de comunicação que as novas gerações já quase tinham abandonado. E basta dar uma volta pelos comentários nas redes sociais para ver como são admirados e elogiados os professores que, de um dia para o outro, aceitaram o enorme desafio de reinventar a profissão e enfrentar as câmaras, para poderem chegar a uma enorme plateia de alunos virtuais.

O vira-casacas

Sabendo-se que os professores hoje no activo são praticamente os mesmos que ensinavam em 2014, é caso para perguntar: o que levou o escriba do Observador, o jovem “investigador” de temas de educação levado ao colo, pelo CDS, para o Conselho Nacional de Educação, a mudar radicalmente a sua opinião?

O ano não está perdido – este modelo de exames é que não tem futuro

Discordo de Luís Maria Gottschalk quando sugere, no Público, que o ano lectivo está perdido. Dois terços do ano lectivo decorreram presencialmente e não me parece que o trabalho de professores e alunos mereça ser desconsiderado dessa forma. Se, em termos de avaliação final, só a nota do 3.º período é que conta, é igualmente certo que esta deve reflectir todo o trabalho feito e avaliado ao longo do ano. Agora também é evidente que este simulacro de ensino a distância que vamos produzindo está muito longe do que se consegue alcançar com aulas a sério. Não terá sido um ano perdido mas, não o vamos esconder, ficou muito aquém do que eram os planos e objectivos iniciais…

Ainda a demagogia dos rankings

Polémica, por vezes excessiva, para alguns, na forma como exprime os seus pontos de vista, Raquel Varela tem o imenso mérito de não alinhar com os consensos pantanosos que continuamente se vão erigindo na área da Educação. Sob a batuta da OCDE e do internacionalismo financeiro e traduzido naquela novilíngua de tiradas pedantes e chavões pretensiosos a que convencionou chamar-se eduquês…

8198 docentes colocados em MPD

…não ponho em causa um direito justamente reconhecido a todos os docentes fragilizados por doenças graves, do próprio, ou de familiares próximos, que lhes permite conciliar as limitações do seu estado de saúde com o cumprimento dos deveres profissionais.

Apenas saliento duas realidades que têm caracterizado a MPD e que, mesmo nas condições excepcionais de 2020, se continuam a registar…

João Costa, ordem para reprovar…

…tudo começou há dois anos atrás, com a introdução da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento no ensino básico. O pai dos dois alunos em causa, invocando “objecção de consciência”, proibiu os filhos de frequentar as aulas de CD. Seguiu-se, aparentemente, uma troca de missivas e argumentos com a escola e as autoridades educativas, até que, passados dois anos, o SE João Costa entendeu que os alunos em causa, embora com boas notas a todas as disciplinas, não poderiam transitar de ano por não terem nem frequentado a disciplina nem cumprido o plano de recuperação das aprendizagens elaborado pela escola…

O manifesto da vergonha

manifesto, tortuoso e dissimulado em relação aos fins pretendidos pelos seus promotores, assemelha-se a um parecer jurídico daqueles que se encomendam, para defender interesses manhosos, a professores de Direito e escritórios de advocacia.

Impressiona desde logo pela sucessão de assinaturas, um mosaico do conservadorismo social e político que continua a influenciar os destinos do país…

Um reaccionário confessa-se

António Barreto não consegue sequer enunciar correctamente o nome da disciplina que, no seu entender, deveria desaparecer do currículo. Mas, com o ar gravissério de oráculo do regime, lá vai defendendo a ideia, tão utópica quanto, nos dias de hoje, reaccionária: uma escola neutra em matéria de princípios e valores…

3 thoughts on “O ano do covid

  1. “8198 docentes colocados em MPD ”

    Último parágrafo: quais são as “duas realidades” (…) “que se continuam a registar” ?

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    • Cara maria, clicando no título pode aceder ao post original, onde o assunto é desenvolvido.
      Essencialmente tem a ver com o desequilíbrio regional deste tipo de colocações e com o recurso crescente a esta forna de mobilidade.

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  2. Muito boa síntese. Infelizmente quase só aspetos negativos.

    O COVID centralizou tudo, mas fez bem não esquecer a prosápia das CIM com esse arrogante Plano Inovador e Integrado de Combate ao Insucesso. Os projetos que impingem, a forma como gastam o dinheiro dá uma dor de alma. Essa é para mim a foto do ano.
    Ligado a este tema, vem a descentralização, mas é cedo para balanços.
    Depois, a MPD tem de levar uma grande volta. Há pessoas a concorrer para escolas do mesmo concelho, ou de concelhos contíguos e isso não faz qualquer sentido.
    É verdade que a barcaça da flexibilidade começou a revelar uns rombos, mas ainda falta algum tempo para ir ao fundo, Não faltará muito para se concluir o ridículo que existe no 55 e no 54.
    Bom 2021.

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