Imperdoável ofensa

A ministra da Saúde, Marta Temido, declarou esta quarta-feira que a “resiliência” deve ser um fator a ter em conta na contratação de profissionais de saúde, por ser um aspeto “por ventura” tão importante “como a competência técnica”. O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) reagiu às declarações da ministra classificando-as como uma “imperdoável ofensa” que os médicos “não mais perdoarão e esquecerão”.

Foram declarações infelizes, insensatas e irreflectidas da ministra, dir-se-á. Mas a verdade é que se nota aqui um padrão consistente de comportamento, com que nos deparamos em governantes de diferentes cores políticas. Já Passos Coelho criticava os portugueses piegas, que se queixavam da austeridade e recusavam sair da “zona de conforto”. Tal como na Educação se faz política educativa contra os professores, culpando-os de todas as insuficiências do sistema, também na Saúde se tenta disfarçar o subfinanciamento e a má gestão do sector sobrecarregando de trabalho os profissionais no terreno. Como é possível, quando se usa e abusa das horas extraordinárias para compensar a falta de médicos e enfermeiros, culpar os profissionais por não trabalharem ainda mais, mantendo-se “resilientes” até serem consumidos de vez pelo cansaço físico e psicológico?

O que torna ainda mais desprezível este tipo de atitude é perceber-se que a maior resiliência que se pretende não é para assegurar o cumprimento dos deveres profissionais, mas para aguentar melhor os desmandos e a incompetência da tutela. Tendo sido, na sua origem, uma boa solução política, a geringonça cedo foi revelando as suas limitações. Uma delas é precisamente a mediocridade dos titulares da maioria das pastas ministeriais. O que em parte se explica pela fraca ambição das políticas, mais apostadas em manter o barco à tona da água do que em definir um rumo para a navegação.

A verdade é que seis anos de governação socialista terão permitido manter “contas em ordem” à custa de cativações e subfinanciamento dos serviços públicos, enquanto se cobrem escrupulosamente as “imparidades” do sistema financeiro e as contas caladas das parcerias público-privadas e de outros interesses sentados à mesa do Orçamento. Mas falharam redondamente na resposta à necessidade de reformas: preencher e renovar os quadros de pessoal, motivar os profissionais, melhorar a capacidade de gestão. Até podemos aceitar que, em período pós-troika, a braços com uma pandemia e com persistentes debilidades estruturais da nossa economia e da balança de pagamentos, não exista dinheiro para satisfazer todas as necessidades e aspirações de quem trabalha na linha da frente dos serviços públicos. O que não é aceitável é a completa ausência de diálogo social, o total desprezo com que o segundo governo de António Costa vem tratando os trabalhadores do Estado. Se lidam assim com os heróis da luta contra a pandemia, como se fossem um bando de preguiçosos, que consideração se pode esperar que tenham pelos restantes profissionais?

Os médicos do SIM prometem não esquecer a ofensa da ministra. Já entre os professores, onde a consideração e respeito que recebem da tutela não é maior, continua a haver muita gente de memória curta. Para já não falar dos que apoiam e aplaudem quem diariamente os desconsidera…

4 thoughts on “Imperdoável ofensa

  1. Uma afirmação imperdoável de Marta Temido que até não tem dito muitas alarvidades, ao contrário de outros colegas de governo.
    Só pode significar que está cansada e esgotada com mais esta subida da pandemia, com médicos a demitirem-se e as urgências do SNS a ficarem “entupidas”. Atira-se a outros a falta de “resiliência” e descarrega-se assim o stress. Mas não pode.
    Entretanto, ouve-se que os doentes não se devem dirigir às urgências dos hospitais mas sim aos centros de saúde e pergunto- mas quais centros de saúde? A funcionar como? E com que médicos de família ou outros?

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  2. Este tipo de conversa não é novo, lembrem-se das declarações do ministro do Ensino Superior acerca dos médicos de família. Tudo indiciador de que a próxima classe a proletarizar será a dos médicos.
    Galinha gorda por pouco dinheiro.

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  3. Desde que descobriram a palavra ‘resiliência’, passaram a utilizá-la a torto e a direito, quase sempre com o significado de ‘resistência’.
    É um perfeito disparate, apenas devido ao facto de, como a palavra é mais comprida, mais complicada, mais ‘sofisticada’, como alguns diriam, ‘fica’ melhor ouvirem-nos falar assim.
    Talvez também não saibam o que é… equitenência?
    https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/08/ainda-nao-sabe-o-que-e-equitenencia_078350082.html

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  4. Na mouche:

    “A verdade é que seis anos de governação socialista terão permitido manter “contas em ordem” à custa de cativações e subfinanciamento dos serviços públicos, enquanto se cobrem escrupulosamente as “imparidades” do sistema financeiro e as contas caladas das parcerias público-privadas e de outros interesses sentados à mesa do Orçamento. Mas falharam redondamente na resposta à necessidade de reformas: preencher e renovar os quadros de pessoal, motivar os profissionais, melhorar a capacidade de gestão. Até podemos aceitar que, em período pós-troika, a braços com uma pandemia e com persistentes debilidades estruturais da nossa economia e da balança de pagamentos, não exista dinheiro para satisfazer todas as necessidades e aspirações de quem trabalha na linha da frente dos serviços públicos. O que não é aceitável é a completa ausência de diálogo social, o total desprezo com que o segundo governo de António Costa vem tratando os trabalhadores do Estado. Se lidam assim com os heróis da luta contra a pandemia, como se fossem um bando de preguiçosos, que consideração se pode esperar que tenham pelos restantes profissionais?”

    Ora nem mais. É mesmo assim que eu penso que se deve colocar a questão e nesse preciso contexto.
    Muitos parabéns António Duarte pela sua assertividade e pensamento crítico.

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