161 mil profissionais de educação vacinados no fim de semana

O domingo terminou com 64 500 inoculações da vacina contra a covid-19 e 57 700 foram a professores e auxiliares da ação educativa e do apoio social do Ensino Secundário. Juntam-se aos 120 mil de sábado, sendo que 103 mil são profissionais do ensino.

Dados provisórios avançados pela task force, mas só esta segunda-feira se farão as contas finais, nomeadamente sobre quem não compareceu e quem não recebeu a mensagem.

O coordenador da estrutura, o vice-almirante Gouveia e Melo garantiu este domingo que quem não foi vacinado será chamado para a semana.

Ninguém está esquecido. Se houve professores e auxiliares que não foram incluídos por falha de processo, serão novamente incluídos e com a mesma prioridade que têm agora”, disse Gouveia e Melo no final de uma visita ao centro de vacinação de Gondomar, no distrito do Porto.

Correu bem, de um modo geral, a campanha de vacinação em massa do passado fim de semana. A quase totalidade dos professores e outros profissionais das escolas convocados compareceram à chamada, embora tenha havido, como é natural num processo desta dimensão, algumas falhas, nomeadamente na não inclusão nas listas de pessoas que deveriam ter sido vacinadas.

Para os que receavam, injustificadamente, que os professores estivessem a ser usados como “cobaias” da nova fase do processo de vacinação, há que dizer que sim, de certa forma fomos cobaias, mas no bom sentido do termo: demonstrámos como, com toda a segurança, boa organização e civismo, é possível ultrapassar num só dia a meta das 100 mil inoculações – uma capacidade logística que será determinante, quando finalmente as vacinas chegarem na quantidade que se deseja, para alcançar rapidamente a imunidade de grupo em relação a uma doença que nos atormenta há demasiado tempo.

Um liberal desmascarado

Embora no discurso político a linguagem seja mais contida, e tentem disfarçar com alguma irreverência o mais puro egoísmo e falta de empatia, quando os autoproclamados liberais se soltam um pouco deixam bem à vista as pessoas egocêntricas, sem escrúpulos e mal formadas que nunca deixaram de ser.

Mas nem tudo está perdido, e o tweet infeliz, embora revelador, deu azo a centenas de comentários de desaprovação e de repulsa, de utilizadores que não se revêem na estupidez da atitude e muito menos no desprezo com que o desprezível Lobo se refere à involuntária companheira de viagem. Que certamente dispensaria a companhia pouco recomendável deste burgesso com o monco de fora.

O idiota, que diz que as máscaras não protegem, não consegue sequer perceber o básico: a máscara não serve tanto para lhe dar protecção a ele como para proteger os que o rodeiam, num espaço fechado onde não é possível o distanciamento físico.

Mas até se compreende. Trata-se de pensar nos outros, fazer alguma coisa pelo bem de todos em vez de estar cada um unicamente focado no seu interesse e no que entende ser a sua liberdade individual. Que ideias tão estranhas para as novas seitas de neoliberais, libertários, anarco-capitalistas e cripto-coisos…

Recuperar a natalidade

Dados do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, mais conhecido como o “teste do pezinho”, indicam que foram estudados 18.226 recém-nascidos neste primeiro trimestre, em plena pandemia de covid-19, o número mais baixo desde 2015 para igual período.

Relativamente, ao período homólogo de 2020, foram rastreados menos 2.898 bebés (-13,7%), segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

“A verificar-se esta diminuição, e se o valor se mantiver, poderemos estar perante o valor mínimo histórico dos nascimentos em Portugal, ou seja, abaixo dos 80.000 no ano de 2021”, disse à agência Lusa Maria João Valente Rosa, ressalvado que estes dados são relativos ao “teste do pezinho” e não ao número de nascimentos, embora “normalmente andem próximos”.

Em vez de lamentos em torno das “aprendizagens perdidas” devido ao confinamento e de insensatos planos para as recuperar, faríamos melhor em olhar para as perdas realmente graves provocadas pela pandemia: os empregos desaparecidos e que não serão retomados com o regresso gradual à normalidade, as empresas e actividades económicas em irremediável declínio e, pouco notado mas não menos importante, o novo Inverno demográfico que se anuncia, e que poderá ser ainda pior do que o ocorrido nos tempos da troika.

O declínio da natalidade num dos países do mundo onde nascem menos crianças e onde a estrutura etária da população é das mais envelhecidas compromete o nosso futuro colectivo. Ao contrário das aprendizagens, essenciais ou não, que se podem reprogramar, o adiamento dos projectos de maternidade/paternidade significa muitas vezes a sua não concretização. A maternidade tardia força também muitos pais a ficarem-se pelo filho único – muitas vezes também único sobrinho e neto – que já é a realidade mais comum entre as famílias actuais. As falências, o desemprego forçado, a perda de rendimentos, irão ter um forte impacto na qualidade de vida das famílias, com efeito no melhor activo que cada país pode ter: a sua população.

Um plano nacional para recuperar os nascimentos perdidos parece-me bem mais urgente e decisivo do que um plano para recuperar aprendizagens, algo que sempre fez parte, do trabalho dos professores. Para este último, nem precisam de inventar nada: basta não estorvarem. Dêem condições às escolas e deixem trabalhar os professores. Por cá, trataremos do resto.

Covid-19 reduz esperança média de vida

Dados provisórios do Eurostat indicam que em Portugal a esperança de vida à nascença recuou oito meses em 2020 face a 2019, ou seja dos 81,9 anos para os 81,1.

É perturbador constatar como um vírus, a mais simples das criaturas, que em termos biológicos não pode sequer ser considerada um ser vivo, pode condicionar tanto, e de forma tão prolongada, a forma como vivemos. Como resiste aos esforços da medicina na sua contenção e tratamento. Como uma sociedade cada vez mais escorada na ciência e na tecnologia se mostra afinal tão vulnerável perante um vírus que, nem sendo dos mais perigosos, se revelou como um dos mais contagiosos e resistentes.

A diminuição da esperança média de vida, resultante não só das mortes devidas à covid-19 mas também da mortalidade por outras doenças que a pandemia levou a descurar, é uma péssima notícia. Sem me congratular com aquilo que pode ser considerado um retrocesso civilizacional, espero que esta descida seja devidamente considerada nos cálculos futuros da idade legal de aposentação e do factor de sustentabilidade da segurança social…

Desconfinamento

Cartoon de Antero Valério no Facetoons.

Um crime sem castigo

Carlos entrava em casa quando ouviu o estrondo. O chão tremeu. Um clarão enorme iluminava o breu. “Mataram o padre Max!”, gritava a irmã.

Lurdes jazia no meio da estrada, ao quilómetro 71.

Ainda disse “que desgraça!” ou “socorre-me!”, algo assim.

Max estava caído junto à valeta, à esquerda.

“Ó pá, que desgraça!”, disse, a custo.

O Simca, partido em dois, era já sucata. No chão, havia panfletos ensopados a anunciar um baile na Quinta do Rodo, em Godim, na Régua.

Maria de Lurdes foi transportada ao hospital num jeep que passava. Ele seguiu no carro do cunhado de Carlos. No caminho, disse que lhe faltava o ar.  

Ela chegou já sem vida ao hospital. Vestia três camisolas leves de várias cores.

Max entrou com grande dificuldade em falar.

Perguntaram-lhe o que se passara.

“Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa”.

Depois entrou em coma.

Faleceu às seis horas e vinte minutos do dia 3 de abril de 1976.

Tinha 32 anos e dizia que não chegaria à idade de Cristo.

Foi há 45 anos, mais precisamente a 2 de Abril de 1976 que o terrorismo de extrema-direita cometeu um dos seus crimes mais hediondos e repugnantes: o assassinato à bomba do Padre Max e de Maria de Lurdes, a jovem estudante que o acompanhava. Um crime sem castigo, pois apesar das ligações evidentes ao MDLP, organização terrorista muito activa no norte do país naquele período, uma teia de cumplicidades influentes na Polícia Judiciária, no aparelho judicial, na própria hierarquia religiosa, se conjugou para dificultar a investigação e impedir a recolha de elementos de prova.

Num excelente trabalho jornalístico, Miguel Carvalho evoca a vida e a acção social, cultural e política do padre Max, no estertor do Estado Novo e durante o período pós-revolucionário, quando Maximino de Sousa abraçou em pleno os ideias de Abril e assumiu o seu compromisso com os pobres e as classes trabalhadoras. Foi uma opção que valeu ao sacerdote revolucionário a hostilidade de muitos, no ambiente reaccionário e conservador do interior transmontano.

A peça, cuja leitura recomendo vivamente, recorda as circunstâncias do assassinato do Padre Max e tenta desvendar o que, passados 45 anos, é ainda possível deslindar acerca dos seus responsáveis morais e materiais, que nunca foram levados a julgamento.

Dia das Mentiras

Já um ano ou outro não resisti à tentação, e assinalei o tradicional dia das mentiras postando por aqui uma notícia falsa. Mas nos tempos que correm não me apetece fazê-lo, e nem seria muito difícil inventar uma qualquer peta para brincar um pouco, tentando enganar os mais incautos dos meus leitores.

Na realidade, a mentira clara e assumida, agora elevada à condição de verdade alternativa, instalou-se solidamente na manipulação mediática e, mais ainda, nas redes sociais. Negar mesmo as verdades mais evidentes tornou-se modo de vida de políticos ignorantes e populistas, de jornalistas sem escrúpulos em busca de audiências, de perfis falsos que enxameiam as redes sociais. Para quem, como eu, marca diariamente presença na blogosfera, combater a desinformação e a manipulação tornou-se parte do quotidiano. Perco demasiado tempo a tentar desmontar maroscas e aldrabices para ter vontade de inventar mentiras no dia das ditas cujas.

No admirável mundo do século XXI, o negacionismo tornou-se o supra-sumo da arte de mentir.

Imagem daqui.

Pensamento do dia

– Estes pobres vão ter de se acostumar a mudar de emprego precário 15 ou 20 vezes ao longo da vida.

– Mas não podemos dizer-lhes isso…

– Então diz-lhes que a modernidade implica enfrentar, sendo resiliente e proactivo, um ambiente de mudança recheado de desafios, riscos e incertezas.

Adaptado daqui.

Pandemia e desigualdade

A pandemia, educacional e pedagogicamente falando, tem contribuído quer para aumentar as desigualdades entre os alunos, acentuando as dificuldades de aprendizagem, quer para afetar um número significativo de alunos que não reúne em casa as condições de realização das atividades mediadas pela tecnologia.

Se o ensino à distância, através de plataformas digitais, foi largamente utilizado, numa transposição direta do ensino presencial para o ensino síncrono, o que ficou para trás – na grande maioria dos países, incluindo os que têm um rendimento per capita mais elevado, como consta do Relatório da UNESCO/UNICEF e do Banco Mundial, de 2020, sobre o impacto da covid-19 na educação – foi o apoio pedagógico aos alunos com mais dificuldades e aos alunos em situações de emergência.

Tal como aconteceu com o furacão Katrina, aquando da sua passagem por territórios do sul dos Estados Unidos, o mesmo está a acontecer com a pandemia de covid-19: a desigualdade existente foi desocultada, revelando ser ainda mais desigual do que seria expectável, pois a realidade social nem sempre é totalmente capturada no seu lado mais excludente pelos dados estatísticos.

Como foi referido, no PÚBLICO, de 18 de janeiro último, pela Presidente do Conselho Nacional da Educação, “descobrimos as desigualdades que já existiam. Foram desocultadas, até parece que ninguém tinha dado por elas antes. Isso tornou-se muito mais evidente agora. Mas além dessa desocultação de uma coisa que já existia, é evidente que também nos demos conta que isto veio agravar as desigualdades”.

O conceito de escola enquanto instituição reprodutora das desigualdades leva décadas a ser combatido através do investimento na escola pública de qualidade, universal e gratuita. Espera-se que na escola se derrubem barreiras e discriminações sociais. Exige-se que, mais do que tratar todos por igual, alcance a equidade, dando a cada um o que precisa e mobilizando maiores recursos para os alunos com maiores necessidades.

No entanto, o encerramento das escolas, forçado pela pandemia, e o recurso improvisado às aulas à distância trouxeram de novo à tona as desigualdades que, na verdade, nunca desapareceram. E se o confinamento prolongado traz prejuízos a toda uma geração, é certo que esses danos serão incomparavelmente maiores e mais difíceis de recuperar pelos alunos à partida mais carenciados: aqueles que não têm estrutura e apoio familiar que possa compensar o que a escola deixou de lhes poder dar.

É um ponto positivo a capacidade de reconhecer, como já vamos vendo, que não foi a pandemia que trouxe a desigualdade: apenas agravou e tornou mais visível uma realidade pré-existente. Mas enquanto as exigências que são feitas às escolas continuam em alta, há uma questão incómoda que continua por responder: será possível um combate vitorioso contra a desigualdade, que é estrutural no modelo de economia e sociedade em que vivemos, travando-o apenas no interior da instituição escolar?

Dito por outras palavras, pode a escola promover a igualdade num mundo globalizado onde as desigualdades não cessam de aumentar? O frenesim reformista das escolas e dos sistemas educativos parece ser um sinal evidente de que queremos mudar a escola porque colectivamente nos faltam a força, a vontade e a coragem para lutar pela mudança realmente necessária: a construção de uma sociedade mais justa e solidária.

As fases da pandemia

A última será sempre a mais complicada e exigente…

Do Facetoons.