Deixar de ter filhos, ou mudar de vida?

antinatalismo.JPGA emergência climática – ou seja, as graves e em grande medida irreversíveis alterações climáticas que a actividade humana está a provocar no nosso planeta – impôs-se na agenda política mundial. Embora seja ainda muito mais o que se discute do que as acções concretas para travar um fenómeno que irá degradar significativamente as condições de vida na Terra – e a sua capacidade de sustentar uma população que continua a aumentar.

Por outro lado, também constatamos que as preocupações com os graves problemas ambientais continuam a ser largamente ignoradas entre os decisores políticos e boa parte da opinião pública dos países poluidores. Por exemplo, é na Europa que se fazem as maiores campanhas pela eliminação e tratamento dos plásticos. Mas é de rios asiáticos e africanos que provêm 90% dos plásticos que contaminam os oceanos. E que dizer da força que ainda tem nos EUA o negacionismo climático, que ganhou um novo impulso após a eleição de Trump, ou das intenções de Bolsonaro e da sua trupe de destruir o que ainda resta da selva amazónica?

Neste contexto, há uma posição radical que começou recentemente a ganhar popularidade: a daqueles que entendem que, no actual estado de coisas, o melhor que temos a fazer é parar de ter filhos. Já que a pressão sobre a natureza é exercida pela actividade humana, e esta não dá mostras de diminuir, então a solução seria travar o crescimento demográfico perante a eminência da escassez e da destruição de recursos. O antinatalismo foi ainda recentemente evocado entre nós, por uma organização holandesa que veio à Praia das Maçãs celebrar a baixa taxa de natalidade portuguesa.

Contudo, se o crescimento demográfico continua a ser um problema grave em África e no sul da Ásia, não me parece que as políticas natalistas façam grande sentido em países como Portugal, que com os seus 1,3% de taxa de natalidade caminha a largos passos para o declínio demográfico e o envelhecimento acentuado da sua população. E há outro problema: mesmo quando as políticas antinatalistas se mostram eficazes – o que nem sempre sucede – só têm resultados significativos a muito longo prazo. Ora isto contradiz a própria ideia de emergência climática: é preciso agir de imediato, tomando medidas concretas que permitam controlar factores determinantes como a poluição e a emissão de gases com efeito de estufa. Não há tempo para ficar à espera do impacto que irá ter, daqui a 20 ou 30 anos, a decisão dos que hoje prescindem de ter filhos.

Como explica Blythe Pepino, uma defensora – moderada – do movimento antinatalista. Ela não quer que as pessoas parem definitivamente de ter filhos, mas sim usar o antinatalismo como forma de pressão para que os governos tomem medidas efectivas em defesa do planeta. E salienta o que é, nesta complexa questão, verdadeiramente importante:

As crianças não libertam emissões [de CO2]. O problema é aquilo que compramos para elas, a forma como as alimentamos, o sistema em que vivemos e que nos obriga a ter altos níveis de consumo. Esse é o problema. Centrar a discussão no controlo populacional é desresponsabilizar o nosso estilo de vida. Eu vou ter de mudar o meu estilo de vida, quero que isso aconteça. Mas há muitas pessoas que não querem e centram-se no controlo demográfico porque, assim, não têm de desafiar o seu estilo de vida.

Música para os 50 anos do Festival de Woodstock

“Não confiem em ninguém com mais de 30 anos”

O DN publica uma excelente evocação daquele que terá sido o maior percursor dos grandes festivais de Verão. Muito marcado pela música rock, o movimento hippie, o consumo recreativo de drogas e o pacifismo – com os EUA envolvidos em pleno na Guerra do Vietname – Woodstock foi um ponto alto de afirmação da cultura juvenil dos anos 60 e do que podemos chamar uma contracultura contestatária que abalou, na altura, o conformismo e o consumismo das sociedades ocidentais. E que tinha tido um outro ponto alto, no ano anterior, nos confrontos do Maio de 68 francês…

Um razoável acordo – e duas objecções

fectrans-antram.JPGO processo de negociação de revisão do Contrato Colectivo de Trabalho Vertical (CCTV) do sector de transportes de mercadorias foi acelerado a fundo na quarta-feira, com a intermediação do Governo, como forma de pressionar os sindicatos grevistas a desconvocarem a paralisação em curso. No memorando de entendimento saudado pelo primeiro-ministro António Costa e apadrinhado pelo ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, estão previstas diversas alterações laborais, entre todas um aumento salarial global de 120 euros, bem como a definição mais clara do pagamento das horas extraordinárias.

Os sindicatos em greve – Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) e Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM) – já desvalorizaram os termos do acordo, depois de terem rompido as negociações que decorriam desde Maio precisamente por exigirem aumentos salariais mais pronunciados e um pagamento mais abrangente das horas extraordinárias.

Esta manhã, a Fectrans divulgou os termos genéricos do acordo assinado com os patrões, que resolve, sublinha, algumas das “questões nucleares” dos trabalhadores e que será agora discutido com os dirigentes sindicais e trabalhadores de forma a retomar as negociações em Setembro, para que possa entrar em vigor já em Janeiro do próximo ano.

Apesar de não serem ainda inteiramente claros os moldes do acordo ontem anunciado com pompa e circunstância, desejo sinceramente que a acção da Fectrans traga ganhos efectivos a todos os camionistas.

Contudo, há aqui duas coisas que me desagradam.

Uma é a continuada prática dos memorandos de entendimento – acordos genéricos e pouco explícitos nas matérias mais polémicas em discussão – que suspendem greves, aliviam a pressão e remetem a negociação final para um timing que favorece objectivamente o Governo e o patronato. Que é aqui o caso: o previsível engonhanço negocial marcado para Setembro pode facilmente arrastar-se até às eleições de Outubro, evitando desta forma qualquer perturbação no calendário eleitoral.

Mas há outra coisa que me desgosta ainda mais, que é ver a CGTP a apressar acordos com os patrões quando há trabalhadores do sector envolvidos numa dura greve. Claro que a Fectrans tem o direito de se demarcar de uma luta que não aprova ou não considera adequada aos fins em vista. Mas ao sabotar desta forma a acção dos outros sindicatos está a copiar as piores práticas da UGT e do chamado sindicalismo amarelo que tantas vezes criticou.

Tweet do dia

É nestas alturas que o neoliberalismo de pacotilha tropeça nas suas próprias incongruências e contradições.

Pois não há greve que afecte serviços públicos que não receba, dos neoliberais encartados da nossa praça, o comentário chapa-3: se o serviço fosse privado, nada disto acontecia…

A greve dos camionistas de materiais perigosos demonstra claramente que não é a natureza pública ou privada do vínculo laboral que promove ou impede greves, mas a determinação e a capacidade reivindicativa dos trabalhadores.

Quanto à questão de saber se é justo um modelo de relações laborais em que uns trabalhadores, pelo facto de terem maior poder reivindicativo, são mais favorecidos do que os restantes, ela pode ter pelo menos duas respostas.

Uma é que tem prevalecido entre nós, um país que em termos de salários e direitos laborais continua na cauda da Europa: o discurso da inveja social, do “se eu não tenho tu também não deves ter”.

A outra resposta é que a conquista de aumentos salariais e melhores condições de vida e de trabalho foi e é uma luta dura, difícil e demorada. Por vezes com claros avanços, mas também, em certas alturas, com indisfarçáveis recuos. Quanto às conquistas alcançadas, elas não são obtidas por todos, em todo o lado, ao mesmo tempo. Os trabalhadores mais bem organizados, combativos e – lá está – com maior poder reivindicativo abrem o caminho que outros, mais tarde ou mais cedo, também acabarão por trilhar.

camiao-cisternaBasta conhecer um pouco de História para saber que ela confirma o acerto da segunda resposta.

Militares para todo o serviço

gnr-camiao.JPGTomando descaradamente partido, na greve dos camionistas, pelo lado dos patrões, o Governo está literalmente a lançar combustível sobre um conflito que todos teriam a ganhar se fosse resolvido pela via negocial.

Sendo uma disputa entre privados, o que se esperaria do Governo era que, por um lado, promovesse o diálogo e a concertação e, por outro, reconhecesse que a reivindicação essencial dos camionistas – o aumento do salário-base, em detrimento de ajudas de custo que servem acima de tudo para reduzir os pagamentos dos patrões ao fisco e à segurança social – é também um imperativo de legalidade e justiça social que deveria estar entre as preocupações de um governo dito de esquerda.

Em vez disso, o governo PS, com chocante passividade dos seus parceiros políticos, continua empenhado em usar este conflito para minar o exercício do direito à greve de todos os trabalhadores, fazendo instalar a ideia de que uma greve, qualquer que ela seja, só é legítima se não incomodar ninguém.

A mais recente descoberta governamental é que os militares da GNR e das forças armadas são, afinal de contas, profissionais para todo o serviço. E se logo no primeiro dia alguns se instalaram ao volante dos camiões carregados de combustível – o transporte fez-se, mas a descarga nas bombas nem sempre terá corrido bem – ontem houve militares a estrearem-se nas funções de delegado de saúde: enviados a casa de motoristas de baixa, para averiguar se estavam mesmo doentes…

Claro que nada disto prestigia as forças e os agentes envolvidos e denota um claro abuso de autoridade da parte de um Governo lançado na conquista de votos. E aparentemente convencido de que a imagem de eficácia e determinação que, a pretexto desta greve, conseguir criar à sua volta, aumentará a sua popularidade entre o centrão moderado e ordeiro que geralmente constitui a chave para a maioria absoluta.

Homem prevenido…

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© Henricartoon

Racismo, disse ele!

Faro foi esta semana noticia na imprensa britânica quando um jovem alegou ter sido agredido por agentes da PSP no momento em que estes tentavam retirá-lo de um avião da companhia aérea low cost Ryanair. O caso aconteceu na quarta-feira quando Rafik Boutiche, de 20 anos, foi expulso do avião que estava prestes a descolar do aeroporto de Faro com destino a Londres. Foi acusado de não respeitar as regras da empresa e de ter empurrado uma assistente de bordo que não o deixou mudar de lugar.

A notícia do DN não o refere, mas nas redes sociais o caso ganhou repercussão sobretudo por terem sido invocadas motivações racistas. Contudo, o preconceito étnico ou religioso, se existe, não me parece visível nas imagens divulgadas. O que se sabe é que o vídeo que mostra a alegada agressão é divulgado por uma conta Twitter intitulada Islam e que nesta se acusa a hospedeira de ter “perfilado racialmente” o jovem interpelado.

Pela minha parte, entendo que o racismo e a discriminação que persistem nas sociedades actuais são um assunto demasiado sério para que possam ser invocados de ânimo leve. Em todas as etnias, nacionalidades e religiões há gente educada, cumpridora das leis, respeitadora do próximo. E há aqueles que o não são. Não é aceitável que se use a cartada do “Racismo!” como estratégia de vitimização, quando a suposta vítima é o verdadeiro prevaricador.

Neste caso, o essencial parece bastante simples: um passageiro sentou-se num lugar que não era o seu, colidindo com os procedimentos de organização e de segurança da companhia aérea. Foi-lhe pedido, como é normal nestas situações, que ocupasse o seu lugar. E terá sido a desobediência e a forma rude como se dirigiu à assistente de bordo que motivou a intervenção das autoridades. Que, nestes casos, segue um padrão também habitual na aviação comercial: a retirada do passageiro desordeiro, para que o voo possa prosseguir sem mais demoras ou incidentes.

Que nada disto tem a ver com racismo, mas apenas com a necessidade de respeitar e cumprir regras que são iguais para todos os viajantes, fica ainda mais claro se nos lembrarmos que há poucas semanas, na mesma companhia aérea, um conhecido treinador de futebol foi igualmente obrigado a sair do avião por não se saber comportar.

Na verdade, o que estes casos nos mostram é que há pessoas com claras dificuldades em viver em sociedade. Em aceitar que as regras que valem para os outros também se aplicam a elas próprias. E se em espaços públicos mais vastos as tensões se diluem, no interior confinado e superpovoado de um avião o egocentrismo e os comportamentos anti-sociais mais facilmente podem vir ao de cima.

Em jeito de conclusão, gostaria de deixar aqui a história vista, não pelo lado dos desordeiros, nem das autoridades, nem sequer dos media ávidos de notícias polémicas e sensacionalistas. De facto, parece-me mais interessante e esclarecedor o olhar de quem diariamente lida com estas e outras situações nos voos comerciais. Adaptado a partir de uma sequência de tweets, fica o testemunho lúcido e esclarecedor de Carina Horta.

Isto aconteceu ontem com uma colega minha de trabalho. Esta situação foi muito mal contada pois quando ela chegou a nós estava super abalada e toda desfraldada! Todas as indicações que a tripulação de cabina vos dá é para vossa própria segurança. Da fila 1 à 5 e 33 à 29 temos de ter um número certo de pessoas lá sentadas devido ao equilíbrio, balanço do avião para descolagem e aterragem. Se não fazem o que vos mandam, pois correm o risco de serem expulsos! Isto é para segurança de todos.

Agora já estarem a falar de racismo e tudo mais. Ninguém foi racista, que mania de desviarem logo as situações para o racismo. Ele simplesmente não fez o que lhe mandaram e aposto que lhe deram a possibilidade de mudar de lugar com o amigo durante o voo. Este tipo de situações deixa-me enojada. Adoram apontar o dedo logo ao pessoal de bordo.

Já com o Sá Pinto foi igual. Sabem porque foi expulso? Ele estava sentado na fila 1. As filas 1 , 2, 16 e 17 são saídas de emergência, ou seja as pessoas que lá estão sentadas têm que estar aptas para ajudar todos os outros passageiros a sair em caso de emergência. Ou seja, nada de grávidas, pessoas com menos de 16 anos, pessoas que tenham algo que as possa impossibilitar de ajudar. E o senhor Sá Pinto tinha uma lesão no joelho, nem a perna podia dobrar. Foi lhe pedido que mudasse de lugar. Recusou. Recusou-se e depois vem com a conversa que foi de estar ao telefone e com a perna esticada. Contam tudo mal!

O avião não é a casa do povo, há regras a ser cumpridas. Faz parte da lei, e não é apenas da Ryanair. É em todas as companhias aéreas.