Porque é que os liberais te perseguem?

Quando apareceu, o partido Iniciativa Liberal apresentou-se como uma lufada de ar fresco na política portuguesa. Uma direita de cara lavada, liberal não só na economia mas também nos costumes, seduzindo, não com o ar sisudo ou o fato e gravata da direita tradicional, mas com um discurso moderno e arejado, recorrendo a slogans e frases chamativas, a memes e à linguagem gráfica usada em posters e cartazes estrategicamente dispostos pelas grandes cidades. O público-alvo é formado preferencialmente pelas gerações mais jovens, urbanas, instruídas e sensíveis aos sinais de irreverência e modernidade desta direita nova e gira, que fez o seu tirocínio no ocaso do socratismo.

Um partido com estas características entra naturalmente em disputa eleitoral, não só com as outras forças de direita, mas também com quem, à esquerda, tem conseguido afirmar-se entre o eleitorado jovem e urbano, arejado de ideias e assumidamente liberal, se não na economia, pelo menos nos costumes e nas formas de pensar: o Bloco de Esquerda, eleitoralmente a terceira força política em Portugal.

Sobre o liberalismo, entendamo-nos: foi, no seu tempo, uma ideologia inovadora e, pode dizer-se sem receio, revolucionária. Nas velhas sociedades de ordens do Antigo Regime, marcadas pelo poder absolutista e autocrático dos reis e dos seus favoritos, os privilégios de nascimento e condição, as amarras que os resquícios do feudalismo, nos campos, e o corporativismo, nas cidades, impunham ao trabalho e ao desenvolvimento das forças produtivas, o ideal de uma sociedade de homens livres, de um governo assente no consentimento dos governados, do império da lei sobre o arbítrio dos poderosos e dos privilegiados, era verdadeiramente revolucionário.

No entanto, se princípios afirmados pelo liberalismo, como a liberdade ou a igualdade de direitos, são hoje valores universais, a verdade é que a ideologia, no seu todo, é completamente desajustada ao mundo contemporâneo. Se exacerbar a liberdade individual fazia todo o sentido numa sociedade opressiva, hoje é apenas um instrumento para enfraquecer e destruir o Estado social, que é justamente o único garante de que os direitos dos cidadãos mais desprotegidos são respeitados e concretizados, não se ficando como letra morta numa folha de papel.

As políticas neoliberais que têm dominado a agenda dos Estados e das organizações internacionais são responsáveis pelo agravamento das desigualdades e pelo crescimento anémico da economia global, que nem assim consegue evitar a depredação de recursos naturais nem as alterações climáticas a uma escala cada vez mais acelerada. Já não são sobre a emancipação do povo, libertando-o da submissão a senhores e tiranos. A liberdade que agora se preza é a de os ricos acumularem ainda mais riqueza e a subtraírem ao pagamento de impostos e de salários decentes, na ilusão de que quanto mais comida houver na mesa dos abastados, mais migalhas sobrarão para alimentar os pobres.

Quatro décadas de políticas neoliberais traduzem-se em perspectivas de futuro nada invejáveis: um planeta devastado onde as novas gerações que irão ter, em média, um nível de vida inferior ao dos seus pais. A isto os novos liberais respondem que a culpa é “do socialismo”, enquanto nos tentam vender, com novas roupagens, a velha receita que nos trouxe ao ponto em que nos encontramos. Aos jovens, gostam de prometer empregos abundantes e elevados salários, ao mesmo tempo que se opõem ao aumento do salário mínimo. A moda agora é convencer todos de que pagamos demasiados impostos – e pagamos, como consequência de uma política de ruinosas privatizações de inspiração neoliberal – e de que só por isso os patrões não pagam salários justos aos trabalhadores.

Perante o discurso neoliberal apelativo e sedutor, dotado de uma lógica simplista mas eficaz, por vezes até irónico e bem humorado, a melhor resposta pode muito bem passar pelo uso do mesmo registo de linguagem, mas com uma nuance importante: falar verdade, evitando a demagogia de que os liberais usam e abusam. Acima de tudo, deixar clara uma ideia fundamental: não é a mão invisível dos mercados, deixados à solta, que nos irá conduzir a um futuro mais próspero. Historicamente, a melhoria de salários e de condições de vida e de trabalho resultou sempre da luta dos próprios trabalhadores. Nunca foi a magia dos mercados nem a generosidade dos empregadores a realizar o suave milagre. É esta a mensagem que, seja por que meio for, importa passar aos jovens. E aos menos jovens.

Vacinar as crianças

Nota-se uma enorme divisão, se não na sociedade, pelo menos na opinião que se publica, a respeito da necessidade de vacinar ou não, contra a covid-19, as crianças dos 5 aos 11 anos. Colocada a questão ao nível do custo/benefício, até mesmo os especialistas se dividem, enquanto por outro lado se percebe que, a nível político, a decisão estava há muito tomada e apenas por razões logísticas não se inicia de imediato. Não sendo perfeitas, as vacinas existentes são de longe o meio mais eficaz de prevenir as formas mais graves da doença. E sabemos que as crianças, embora raramente adoeçam com uma infecção que afecta sobretudo pessoas mais velhas, são igualmente transmissoras, sendo o ambiente escolar, sobretudo no Inverno, propício aos contágios. O facto de os surtos nas escolas estarem este ano a ocorrer sobretudo no 1.º ciclo e pré-escolar, onde não há vacinados e o uso de máscara está ausente ou é facultativo, é significativo.

Ainda assim, o movimento de recusa é forte, aparentemente contaminado por um certo infantocentrismo que tem dominado as sociedades ocidentais envelhecidas. Se há uns anos atrás se endeusava a juventude, agora são os príncipes e as princesas o centro das atenções. Sendo cada menino ou menina um ser tão especial, que direito há de incomodá-los com uma pica, em nome de algo tão egoísta como… proteger os seus familiares directos de eventuais contágios?…

E, no entanto, basta espreitar o plano nacional de vacinação para constatar que quase todas as vacinas que dele constam são administradas nos primeiros meses ou anos de vida. Até aos 10 anos, tomamos praticamente todas as vacinas de que iremos necessitar ao longo da vida. A partir daí, serão sobretudo reforços das inoculações anteriores ou novas vacinas desenvolvidas contra doenças que, como a covid-19, se insinuaram nas nossas vidas.

Sugerir que as crianças, apenas por o serem, não deveriam receber a vacina anti-covid soa assim a argumento irracional. Estando provada a segurança das vacinas em causa, a questão essencial deveria ser a defesa da saúde pública, para a qual todos, miúdos e graúdos, devem contribuir. Mas mesmo que se insista em continuar a focar o problema no interesse e no bem-estar da criança, então há que considerar os prejuízos para ela advirão da propagação da doença entre os seus familiares. Será boa para a criança a eventualidade de ter o pai, a mãe ou algum dos avós hospitalizado? Há benefícios para os miúdos de vivermos em pandemia ainda muito mais tempo, sabendo-se que a vacinação em massa é, até agora, o único caminho para conter e superar a pandemia sem novos confinamentos?

As crianças fazem parte da sociedade e não devem ficar de fora de um dos mais fortes desafios colectivos que se coloca à humanidade nos tempos que vivemos. Como professor, repugna-se que se tente transmitir a ideia de que as crianças, pelo simples facto de o serem, não possam contribuir para o bem daqueles que as rodeiam, ou de que devam ser dispensadas de fazer tudo o que não resulte em seu benefício directo. Muito do que se faz nas escolas, por exemplo, não resulta no seu prazer e satisfação imediatos. Mas a escolarização em massa melhorou a vida presente e futura das crianças, em todos os países em que foi implantada.

Vacinem lá os príncipes e as princesinhas, que não dói nada…

Imperdoável ofensa

A ministra da Saúde, Marta Temido, declarou esta quarta-feira que a “resiliência” deve ser um fator a ter em conta na contratação de profissionais de saúde, por ser um aspeto “por ventura” tão importante “como a competência técnica”. O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) reagiu às declarações da ministra classificando-as como uma “imperdoável ofensa” que os médicos “não mais perdoarão e esquecerão”.

Foram declarações infelizes, insensatas e irreflectidas da ministra, dir-se-á. Mas a verdade é que se nota aqui um padrão consistente de comportamento, com que nos deparamos em governantes de diferentes cores políticas. Já Passos Coelho criticava os portugueses piegas, que se queixavam da austeridade e recusavam sair da “zona de conforto”. Tal como na Educação se faz política educativa contra os professores, culpando-os de todas as insuficiências do sistema, também na Saúde se tenta disfarçar o subfinanciamento e a má gestão do sector sobrecarregando de trabalho os profissionais no terreno. Como é possível, quando se usa e abusa das horas extraordinárias para compensar a falta de médicos e enfermeiros, culpar os profissionais por não trabalharem ainda mais, mantendo-se “resilientes” até serem consumidos de vez pelo cansaço físico e psicológico?

O que torna ainda mais desprezível este tipo de atitude é perceber-se que a maior resiliência que se pretende não é para assegurar o cumprimento dos deveres profissionais, mas para aguentar melhor os desmandos e a incompetência da tutela. Tendo sido, na sua origem, uma boa solução política, a geringonça cedo foi revelando as suas limitações. Uma delas é precisamente a mediocridade dos titulares da maioria das pastas ministeriais. O que em parte se explica pela fraca ambição das políticas, mais apostadas em manter o barco à tona da água do que em definir um rumo para a navegação.

A verdade é que seis anos de governação socialista terão permitido manter “contas em ordem” à custa de cativações e subfinanciamento dos serviços públicos, enquanto se cobrem escrupulosamente as “imparidades” do sistema financeiro e as contas caladas das parcerias público-privadas e de outros interesses sentados à mesa do Orçamento. Mas falharam redondamente na resposta à necessidade de reformas: preencher e renovar os quadros de pessoal, motivar os profissionais, melhorar a capacidade de gestão. Até podemos aceitar que, em período pós-troika, a braços com uma pandemia e com persistentes debilidades estruturais da nossa economia e da balança de pagamentos, não exista dinheiro para satisfazer todas as necessidades e aspirações de quem trabalha na linha da frente dos serviços públicos. O que não é aceitável é a completa ausência de diálogo social, o total desprezo com que o segundo governo de António Costa vem tratando os trabalhadores do Estado. Se lidam assim com os heróis da luta contra a pandemia, como se fossem um bando de preguiçosos, que consideração se pode esperar que tenham pelos restantes profissionais?

Os médicos do SIM prometem não esquecer a ofensa da ministra. Já entre os professores, onde a consideração e respeito que recebem da tutela não é maior, continua a haver muita gente de memória curta. Para já não falar dos que apoiam e aplaudem quem diariamente os desconsidera…

Este é o gráfico!

Imagem daqui

Muitos dados e números se têm esgrimido desde o início da pandemia, mas raras vezes a realidade foi exposta com tanta clareza como neste gráfico que tem estado a ser amplamente partilhado e comentado no Twitter.

Pegando nos números oficiais recolhidos da plataforma Our World In Data apresentam-se em duas colunas as percentagens de vacinação e o número de mortes por milhão da habitantes nos diversos países europeus.

A correlação é evidente: no terço superior do gráfico, países renitentes à vacinação que continuam a registar elevadas mortalidades associadas à covid-19. No terço inferior, países com altas taxas de vacinação e número residual de mortos por covid. Estatisticamente, demonstra-se que a vacinação em massa não extingue a doença, mas reduz drasticamente os casos de doença grave ou fatal.

Naturalmente que em processos desta complexidade outros factores influem, como a manutenção ou não de medidas de prevenção e distanciamento, a eficácia da resposta dos serviços de saúde, a maior ou menor fiabilidade do processo de recolha e registo dos dados estatísticos. Os raros países que parecem desafiar a tendência geral serão, neste contexto, as excepções que confirmam a regra.

Greve à sexta-feira

Alguém critica o Pingo Doce ou o Continente por fazerem as suas maiores promoções em determinado dia da semana? Um profissional liberal por decidir fazer uma ponte? O governo por reunir à quinta-feira e não noutro dia qualquer? Os deputados por fazerem os plenários de sexta-feira da parte da manhã, libertando as tardes para poderem ir à sua vida?

Então porque é que todo o bicho careta se acha no direito de decidir o dia da semana em que se deveriam fazer as greves? Que autoridade moral julgam ter para ajuizar do valor ou da legitimidade das greves em função do dia em que acontecem?

Além de perderem o dia de salário, e para contentarem certos idiotas, os grevistas ainda teriam de o fazer no dia menos conveniente, para demonstrarem não se sabem bem o quê. Outro palerma afirmava, convicto, que para ter valor, a greve deveria ser feita com os trabalhadores presentes no local de trabalho.

Muitos destes anti-grevistas são apenas idiotas úteis, sem noção do que é lutar colectivamente por melhores salários e condições de vida e de trabalho. São da mesma estirpe daqueles que, por ganharem 750 ou 800 euros, são contra o aumento do salário mínimo. Mas outros há que sabem bem o que fazem, e exploram por todos os meios o egoísmo e a desunião dos trabalhadores para enfraquecer as lutas laborais.

Pelo que é conveniente reafirmar, alto e bom som e sem hesitações: é aos trabalhadores, apenas, que compete decidir o calendário das suas greves. Cada um faz o que tem a fazer no dia que lhe dá jeito!

Um sucesso inesperado?

A greve desta sexta-feira terá encerrado cerca de 95% das escolas e foi provavelmente a greve da Administração Pública que encerrou mais escolas, afirmou o dirigente da FENPROF, Mário Nogueira, num balanço a meio da manhã.

“Pelos menos 95% estão encerradas (..) e é provavelmente a greve que fechou mais escolas no nosso país”, afirmou o dirigente sindical, numa declaração pública sobre os efeitos da paralisação, em Lisboa.

Mário Nogueira adiantou que a participação dos professores no protesto “é elevadíssima”, e que só nos próximos dias serão divulgados dados mais precisos sobre a adesão ao protesto.

Ainda será cedo para conclusões definitivas, mas pelo que se vai sabendo, parece que esta greve geral da administração pública está a ter níveis de adesão que poucos esperariam, tendo em conta o actual momento político. Mesmo sabendo que do outro lado não existe um governo a prazo, sem capacidade de negociar compromissos para o futuro, os trabalhadores das escolas, hospitais e outros serviços públicos aproveitaram a oportunidade para mostrar a sua frustração e o seu descontentamento, ao fim de tantos anos de promessas vãs e soluções adiadas.

Adianta pouco virem, os detractores de todos os protestos laborais, com o estribilho das greves à sexta-feira e dos fins de semana prolongados, como se, por exemplo, os trabalhadores não docentes que hoje encerraram as escolas tivessem, com o salário mínimo que recebem ao fim do mês, dinheiro para extravagâncias.

A verdade é que, venha o governo que vier, há um trabalho a fazer na dignificação do trabalho nos serviços públicos, que passa pela revalorização das carreiras e tabelas salariais, a melhoria das condições de trabalho, o rejuvenescimento dos quadros e uma avaliação do desempenho incentivadora do mérito e da melhoria da qualidade do serviço em vez de meramente economicista, punitiva e vexatória para os profissionais. Esquecidos e maltratados por sucessivos governos, os trabalhadores em greve fazem questão de o relembrar.

O regresso dos gangues juvenis

Em vez de entretido a mandar ouvir vozes dos alunos e a lançar, sobre as escolas, catadupas de projectos que ninguém encomendou, que dispersam esforços e retiram o foco do essencial, andaria melhor o Governo se estivesse atento, prevenido e actuante relativamente ao recrudescimento da violência juvenil. Mas se nem relativamente às escolas há interesse em saber o que realmente se passa, preferindo confiar-se na sorte e repetir mil vezes que “as escolas são seguras”, na esperança de que o desejo se torne realidade, o que se pode esperar de um Governo que continua a empurrar os problemas da violência e da criminalidade violenta com a barriga e a reagir, geralmente tarde e a más horas, em vez de agir preventivamente?

Os números negros da delinquência juvenil e da criminalidade violenta em geral baixaram durante o confinamento, mas isso não permite concluir que será mais segura, pacífica e ordeira a vida em sociedade no regresso à normalidade. Pelo contrário, aos antigos problemas, que não desapareceram, juntam-se as tensões acumuladas. Nos bairros sociais, nas famílias desestruturadas ou noutras situações problemáticas em que o sentimento de pertença dos jovens se constrói através da formação de bandos ou de gangues, a violência de grupo torna-se uma forma de afirmação. As identidades e rivalidades construídas através das redes sociais exteriorizam-se através da agressão. Com resultados trágicos, por vezes fatais, como sucedeu no recente caso do jovem assassinado por outros jovens a golpes de arma branca.

Numa muito bem documentada reportagem, o DN expõe uma realidade preocupante, da qual tendemos a conhecer apenas a ponta do icebergue: os homicídios que chegam às manchetes da comunicação social.

O homicídio de Rafael Vaz Lopes, de apenas 19 anos, foi resultado de uma escalada de violência que teve como primeiro campo de batalha as redes sociais, e depois passou para o mundo real. Não foi o primeiro caso a acabar com um miúdo a matar outro miúdo. Nem o primeiro a ter por detrás rivalidades entre grupos de jovens

“Estes grupos funcionam pela proximidade territorial e pelas redes sociais. Pela internet difundem o seu poder, a sua imagem, as suas façanhas criminais, ostentam os objetos dos roubos ou relatam os seus ataques. Nos fins de semanas as festas abundam e há sempre muito álcool envolvido. Em geral acabam em conflitos, há incursões de grupos nos bairros inimigos, muitas vezes envolvem ajustes de contas que podem ser tão triviais como por causa de alguma boca às namoradas ou algum comentário nas redes sociais, mas também roubos e agressões”, explica ao DN fonte policial que acompanha o fenómeno.

[…]

O presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), António Nunes, sublinha que “houve uma acumulação de tensões e quando se descomprimiu, um pouco pelo desconfinamento, elas escaparam do mundo virtual”.

Sublinha que “a delinquência juvenil não tem tido uma política sustentada de prevenção e controlo” e que “com a pandemia os problemas acentuaram-se”. “Os jovens ficaram mais juntos, fortaleceram laços e fomentaram a presença nas redes sociais. A interação que antes era física passou para as redes sociais e agravou as rivalidades”, sublinha.

Para António Nunes “era por isso essencial que houvesse uma política pensada holisticamente para prevenir a delinquência juvenil, incluindo o impacto das redes sociais nos jovens com estes enquadramentos sociodemográficos. Os contratos locais de segurança, que podiam ter um papel importante nesta matéria, não têm pura e simplesmente nenhuma eficácia, não há ligação aos líderes informais, não há criação de mediadores nestes bairros”.

[…]

Na comunidade onde estes miúdos vivem, como a Cova da Moura, há muitas interrogações e poucas respostas. O que leva miúdos a matarem-se uns aos outros? Qual o valor que dão às suas vidas?

Celso Lopes, da Associação Moinho da Juventude, uma das mais antigas do bairro que tenta promover atividades de apoio aos jovens do bairro, mostra apreensão. “Não entendo mesmo esta situação e todas as outras que possam ocorrer depois desta… porque o ciclo de dor e vingança só traz mais do mesmo. Pessoalmente tenho muitos amigos no Casal da Mira e várias outras pessoas da minha geração também o têm. Por isso, isto tudo é algo que eu sinceramente não consigo entender, não sei o que se passa na cabeça desta juventude e o que a leva a fazer algo desta natureza. Esta nova geração tem muito mais do que a minha teve, mas, infelizmente, não aproveita as chances e a vida doutra forma”[…].

Jakilson Pereira, da direção do Moinho, defende que “não se trata de um fenómeno geográfico local, enquanto bairro. É um fenómeno global das redes sociais. Os miúdos absorvem toda a violência dos filmes que vêm principalmente dos EUA e tentam provar o seu poder através da violência. Os pais trabalham de sol a sol na sua maior parte e não estão com os filhos, nem têm sequer noção das dinâmicas que eles vivem nas redes sociais”.

[…]

Um magistrado que trabalha na zona da Amadora confessou ao DN ter “muita dificuldade em entender” que “o valor vida não seja tido em conta por estes miúdos”.

“Há um retrocesso significativo em termos de valores. Há valores básicos intemporais, como a vida e a liberdade, que não são assimilados por estes jovens”.

Porquê? “Penso que pode ter a ver com as dinâmicas sociais da zona onde vivem, pelo ambiente que os envolve e com que convivem normalmente e que é para eles a normalidade. A violência partilhada nas redes sociais, os jogos de computadores, podem ter outro tipo de impacto em jovens que vivem nestes ambientes, boa parte das vezes sem uma presença dos pais – que têm de trabalhar o dia inteiro -, com grandes dificuldades e uma grande carência afetiva que os leva a procurar estes grupos que funcionam como uma família. Nem estão preocupados com a banalidade da violência, pois aquela que vivenciam no seu dia-a-dia, quer no mundo real, quer nas redes sociais, filmes e jogos, torna-os insensíveis a valores transversais e intemporais, como a vida”.

Os livros estão fora de moda?

Lúcia Vaz Pedro reflecte, a propósito do lançamento do seu novo livro, sobre a perda de hábitos de leitura entre as novas gerações. Nunca se andou tanto tempo na escola, nunca tivemos pais tão escolarizados como temos hoje, nem tão poucos filhos por família, o que em teoria deveria permitir uma disponibilidade sem precedentes para os filhos. Será que a omnipresença dos gadgets digitais explica tudo, ou estaremos, enquanto pais, educadores e sociedade em geral, a falhar clamorosamente no exemplo que damos e nas vivências que proporcionamos às gerações mais novas?…

Apesar de a oferta literária em Portugal ser vasta e de grande qualidade, os miúdos leem cada vez menos. Mas porquê? “Cada vez temos mais livros, com muita qualidade, muitos escritores, mas as crianças e os jovens têm outros veículos de informação e entretenimento mais apetecíveis”, salienta Lúcia Vaz Pedro.

Para a professora, os computadores, os telemóveis, os jogos de consola e tablets, entre outros, “são veículos de distração”, e longe de serem os melhores: “É que não estamos a falar de brincadeiras de rua ou de brincar às casinhas, que são atividades que os ajudam a socializar, a falar uns com os outros. Estas distrações atuais fazem com que os miúdos fiquem cada vez mais isolados no mundo deles, e nem sequer aprendam a comunicar”.

Mas as plataformas digitais e os ecrãs não são os únicos culpados para este distanciamento dos mais jovens com a leitura. “Os filhos imitam os pais. Quando eu era criança e adolescente, estava ansiosa por chegar a casa e ler, e muito porque esse hábito me foi incutido pelos meus pais. Ambos liam muito, e o meu pai chegava a dizer-me que livros eu devia ler primeiro, por grau de dificuldade, e fazia-me sempre perguntas detalhadas depois de eu terminar, para ter a certeza que eu tinha mesmo lido”, recorda a professora.

E os benefícios da leitura vão muito além do entretenimento. “São muitas as vantagens”, salienta a educadora. “Conseguimos ter mais reconhecimento do mundo, de outras culturas. É possível desenvolver a expressão oral, escrita, a compreensão, para além de enriquecermos o nosso vocabulário. Mesmo a nível profissional, os livros são uma forma de desenvolver conhecimentos em áreas especificas, desenvolver competências linguísticas.”

Lúcia Vaz Pedro acredita que o facto de os adultos também lerem cada vez menos faz com que, por consequência, as crianças também não o façam: “É verdade que os tempos são outros, que hoje em dia há muita corrida, que os pais não têm tempo e que chegam a casa sempre aflitos para dar banhos, fazer o jantar, etc.. Mas mesmo quando têm esse tempo, preferem outras coisas que não os livros e claro que os miúdos vão fazer o mesmo”.

Para além de tentarem incutir este hábito nos filhos, a professora também acha que os pais têm de ter mais tempo para as crianças. “As famílias têm de falar, conversar, fazer refeições sem uma televisão ou telemóveis. Perdeu-se o hábito de conversar”, lamenta.

A entrevista integral pode ser lida aqui.

Facilitar reformas, travar despedimentos

A proposta, oportuna e pertinente, que o BE apresentou há duas semanas para o Orçamento de Estado de 2022, pretende dar resposta a um duplo objectivo: evitar os despedimentos, protegendo o direito ao trabalho, mas facilitando ao mesmo tempo a passagem à reforma, sem penalizações, a quem tem já uma longa carreira contributiva de 40 ou mais anos mas ainda não atingiu a idade legal de reforma.

No impasse em que parece estar a aprovação do Orçamento, e mesmo sabendo que o actual Governo olha com muitas reservas tudo o que soe a aumento de encargos com tudo o que não seja banco privado ou empresa pública falida, seria bom que reanalisasse a proposta do Bloco. A pandemia fragilizou as condições de vida e de trabalho das camadas mais desprotegidas da população e só é possível contrariar o agravamento das desigualdades com o reforço dos direitos e políticas sociais.

É difícil, acho mesmo que deveria ser impossível, aprovar orçamentos à esquerda levando a cabo políticas de direita.

…”propor o acesso facilitado a reforma para quem tem 40 anos de descontos: recálculo das pensões atribuídas, a quem, face à lei atual, não estaria sujeito ao fator de sustentabilidade” e, deste modo, corrigindo o valor da pensão para quem se reformou antes da entrada em vigor da lei, sem retroativos, explicou o partido ao JN. A medida é também pensada para as profissões de desgaste rápido.

“No imediato, é preciso uma moratória que impeça despedimentos em empresas com lucros. Para além disso, o Bloco assume como prioritária, no quadro da negociação do próximo OE, a alteração das leis do trabalho. Não existirá recuperação do país sem resposta à injustiça provocada pela intermediação do trabalho (empresas de trabalho temporário, outsourcings), pela caducidade da contratação coletiva ou pela manutenção dos cortes nas pensões de reforma de quem tem 40 ou mais anos de carreira contributiva”, explica o BE. E “trabalhadores que tiveram carreiras contributivas longas (com mais de 40 anos), trabalhadores por turnos ou trabalhadores com deficiência devem ver anulados os cortes nas suas pensões”.

Em matéria laboral, refere ainda que “a manutenção das leis da troika no Código do Trabalho – da redução do pagamento das horas extraordinárias ao embaratecimento dos despedimentos – pressiona para a baixa dos salários”. E “nenhuma das 64 propostas apresentadas pelo Governo na concertação social é eficaz face à precariedade, à desregulação laboral ou à estagnação dos salários”. Já “as regras de chantagem e de amordaçamento dos trabalhadores mantêm-se e são um instrumento fundamental da estratégia patronal para o pós-crise pandémica: a substituição de trabalhadores com direitos por trabalhadores precários”.

Pedofilia na Igreja Católica

A Igreja Católica portuguesa prefere incorrer na “falácia do espantalho” no que respeita aos abusos sexuais de menores cometidos por clérigos, optando por “levantar a poeira noutros sectores” em vez de “olhar para dentro e agir”. Foi num tom inusitadamente duro que o secretário de Estado adjunto e da Educação, João Costa, reagiu no Facebook à posição assumida pelo bispo D. Américo Aguiar, coordenador da comissão de protecção de menores do Patriarcado de Lisboa, que admitiu a realização de um levantamento retrospectivo sobre os abusos de menores em Portugal, desde que o mesmo não se restrinja aos membros do clero.

“A Igreja é a única instituição que, apesar de todos os arrastamentos e dificuldades, está a levar isto a sério. Vêem o Ministério da Educação a fazer alguma coisa? As ordens profissionais a fazer alguma coisa?”, argumentara D. Américo Aguiar, em declarações ao PÚBLICO. Na reacção, João Costa lembrou que, ao contrário do que se passa na Igreja, “nas escolas, quando há indícios de abuso por parte de algum profissional, abrem-se de imediato processos de averiguações, suspensões preventivas e reporte às autoridades. Não há silêncio ou deslocação do profissional para outra escola”.

“Como católico, entristece-me profundamente que a posição oficial da Igreja portuguesa seja esta”, escreveu o governante, declarando ter “uma esperança quase nula” quanto à efectiva capacidade de actuação das comissões que as 21 dioceses criaram por imposição do Papa Francisco para prevenir e lidar com eventuais queixas de abuso sexual perpetrado por padres e outros membros da Igreja.

As críticas, por vezes duras e nada simpáticas, que tenho feito a João Costa, o quase-ministro da Educação que, na inexistência política do titular da pasta, aparece frequentemente a dar a cara pelas políticas ministeriais, não me impedem de reconhecer o óbvio: foi oportuno e assertivo nesta defesa da escola pública das insinuações torpes do Patriarcado de Lisboa a propósito da pedofilia na Igreja Católica. Um problema de fundo desta instituição, que os seus responsáveis tardam em assumir, prevenir e combater.

As palavras de João Costa ganham um outro peso quando este se assume como católico: apesar dessa condição não se revê nem aceita a forma displicente como os responsáveis fazem tábua rasa das recomendações do Papa, nomeando comissões e simulando preocupações com a pedofilia ao mesmo tempo que tentam diluir por toda a sociedade as culpas e responsabilidades próprias. Para que, no final, tudo continue na mesma.

Relativamente às escolas, é bom lembrar que todos os profissionais da Educação têm de apresentar anualmente registo criminal comprovando que não têm cadastro relativo a condenações por abuso de menores. E que é justamente nas escolas, a par dos serviços de saúde, que são detectados a maior parte dos casos de abuso de menores quando estes não são reportados pela família às autoridades.

Ao longo dos seus quase dois mil anos de história, a relação da Igreja Católica com a sexualidade sempre foi complexa e contraditória. Se a proibição formal do casamento foi relativamente fácil de impor, já o voto de castidade se mostrou, para muitos clérigos, impossível de manter. Ora este empurrar da sexualidade dos padres para o campo do oculto e do proibido pode abrir caminho a variadas perversões. No ambiente fechado de colégios religiosos e seminários ou nos esconsos das sacristias, muitos abusos terão ocorrido e poderão continuar a acontecer: esta é uma realidade documentada em vários países onde o assunto mereceu amplo debate e investigação e as vítimas ganharam confiança e coragem para denunciar. Em Portugal, há quem prefira tentar tapar o sol com a peneira, colocando lama na ventoinha e tentando convencer- nos de que no pasa nada