Do Estado-papão ao Estado-papá

januario-torgal-ferr.JPGEm entrevista à Visão, Januário Torgal Ferreira discorre com clareza e lucidez sobre o conturbado tempo em que vivemos. E fala, com a frontalidade cordata que lhe é habitual, de algumas carecas que a pandemia destapou: é o caso de muitos neoliberais da nossa praça que, perante as dificuldades trazidas pela crise, rapidamente mudaram a agulha no seu discurso. E se antes queriam menos Estado, agora são os primeiros a exigir a salvação estatal dos seus negócios. E quanto aos bancos, salvos da ruína à custa do contribuinte, que contributo estarão dispostos a dar agora para a salvação colectiva?…

Para quem, como eu, sempre defendeu um Estado reformista, de índole social-democrata, e passou a vida a ouvir receitas liberais e neoliberais, ver tanta gente a reclamar o apoio do Estado até dá vontade de rir! Eram tantos a berrar “chega de Estado, basta de Estado” e agora é vê-los, nus e desgraçados, de roupinha nas mãos, a virarem-se para o Estado e a dizer: “Ó papá, salve-nos!” Na hora da penúria, aqueles que gritaram “nada com o Estado, tudo contra o Estado” são os primeiros a lembrar-se dele. Espero que o Estado seja, sobretudo, corretor de injustiças e desigualdades, e não sirva apenas para dar dinheiro. Um Estado justo e com sentido de equidade tem de ser pedagogo. O equilíbrio entre o papel do Estado e a nossa livre decisão é saudável, mas é preciso que aqueles que mais têm façam a justa distribuição antes de virem chorar o apoio do Estado.

Nas crises, todas elas, nunca faltou dinheiro para os bancos. E todos pagamos as crises financeiras. Noutros momentos, não tem havido idêntica atitude por parte dos bancos em relação à sociedade. Há até remunerações e reformas no setor bancário, vindas de outras eras, que hoje são completamente injustificadas para bem da nossa sanidade social. Para haver justiça e equilíbrios sociais, alguém tem de perder alguma coisa ou deixar, pelo menos, de ter a tentação de acumular ou ganhar tudo. Tenho assistido a muitas atitudes de ganância, fruto de uma relação absurda com o dinheiro. O capitalismo tem sido fonte de grandes tragédias sociais. Mas as crises têm de ser pagas por todos.

Na entrevista, que merece ser lida na íntegra, há uma nota de optimismo que perpassa o presente sombrio e as nuvens negras que se perfilam no horizonte. As dificuldades e o isolamento impostos pela pandemia convidam à reflexão e à mudança de hábitos, modos de vida, mentalidades. O bispo emérito das Forças Armadas tenta pensar positivo…

Na minha linguagem, ainda acredito que as pessoas querem ser mais santas do que pecadoras. Mas receio que, passado o efeito dos murros no estômago, voltem as tentações. O dinheiro é insidioso, totalitário e omnipresente. Como já disse, fizeram-se grandes fortunas no meio dos escombros. E depois, nestas alturas, há também o grande cortejo dos hipócritas. Mas isto não é o fim da História. E os seus ventos sopram mais no sentido da humanização das nossas sociedades.

Quarentena de luxo

rei-tailandia.JPGQuando se é o rei da Tailândia, há problemas do comum dos mortais que passam completamente ao lado. Ou dos quais é possível desviar-se em grande estilo.

Enquanto os tailandeses se debatem com a doença do coronavírus – a Tailândia foi o segundo país, depois da China, a registar ocorrências – o rei foge do país e isola-se em luxuosa quarentena, com as suas vinte mulheres, numa estância turística da Baviera, ao serviço exclusivo da real comitiva…

A actual pandemia de coronavírus dita o isolamento social, mas o rei Maha Vajiralongkorn – Rama X – faz a quarentena de outra forma, com o seu harém de 20 mulheres, num hotel na Baviera, numa excepção à lei local do estado de emergência da região alemã.

A estância de luxo, o Grand Hotel Sonnenbichl, em Garmisch-Partenkirchen, foi reservada na totalidade pelo monarca, com “permissão especial” do distrito para o acomodar e à sua comitiva – que inclui as 20 concubinas e múltiplos empregados, não sendo claro se as quatro esposas de Rama X estarão incluídas.

A excepção concedida tem que ver com o facto de “os hóspedes serem um só grupo de pessoas, homogéneo e sem flutuações”, segundo o porta-voz do conselho distrital da região, citado do tablóide local Bild pelo espanhol El País. Entretanto, foi também reportado que 119 membros da comitiva do monarca de 67 anos foram extraditados para a Tailândia, sob suspeita de terem contraído a covid-19.

A insólita quarentena do rei Rama X na Europa está a enfurecer a Tailândia, que tem acorrido às redes sociais para criticar o soberano – um feito que pode dar até 35 anos de pena de prisão no país. Segundo o El País, nas 24 horas após as primeiras notícias do lazer alemão do monarca, uma hashtag tailandesa de revolta esteve nas tendências do Twitter, registando 1,2 milhões de entradas.

Mãe em reunião

Ou as contingências do teletrabalho com os filhos em casa…

reuniao

Cartoon de autor anónimo, em circulação nas redes sociais.

Leituras: Byung-Chul Han – A emergência viral e o mundo de amanhã

covid19A Europa está fracassando. Os números de infectados aumentam exponencialmente. Parece que a Europa não é capaz controlar a pandemia. Na Itália, morrem diariamente centenas de pessoas. Retiram os respiradores dos pacientes idosos para socorrer os jovens. Porém, também se podem observar ações inúteis. O fechamento de fronteiras é evidentemente uma expressão desesperada de soberania. Nos sentimos de volta à época da Monarquia. O soberano é quem decide sobre o estado de exceção. É soberano aquele que fecha fronteiras. Mas isso é uma exibição vazia de soberania que não serve para nada. Seria muito mais útil cooperar intensamente dentro da zona do Euro do que fechar fronteiras a esmo. Entretanto, também a Europa decretou a proibição de entrada a estrangeiros: um ato totalmente absurdo diante do fato de que a Europa é precisamente aonde ninguém quer vir. Quando muito, seria mais sensato decretar a proibição de saída de europeus, para proteger o mundo da Europa. Afinal, a Europa neste momento é o epicentro da pandemia.

Em comparação com a Europa, que vantagens oferece o sistema da Ásia que resultem eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos como Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan ou Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado. E não só na China, mas também na Coreia ou no Japão a vida cotidiana está organizada muito mais estritamente do que na Europa. Sobretudo, para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Acreditam que no big data poderia encontrar-se um potencial enorme para defender-se da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas apenas pelos virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo também pelos informáticos e os especialistas em macrodados. Uma mudança de paradigma da qual a Europa ainda não se deu conta. Os apologetas da vigilância digital proclamariam que o big data salva vidas humanas.

A consciência crítica em relação à vigilância digital na Ásia é praticamente inexistente. Quase não se fala de proteção de dados, inclusive em Estados liberais como Japão e Coreia. Ninguém se incomoda com o frenesi das autoridades por recompilar dados. Entretanto, a China introduziu um sistema de crédito social inimaginável para os europeus, que permite uma avaliação ou uma análise exaustiva dos cidadãos. Cada cidadão deve ser avaliado de acordo com sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido a observação. Se controla cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais. De quem avança com o semáforo no vermelho, de quem interage com críticos do regime ou de quem posta comentários críticos nas redes sociais: são tirados pontos. Então, a vida pode chegar a ser muito perigosa. Ao contrário, a quem compra pela internet alimentos saudáveis ou lê jornais afins com o regime, são dados pontos. Quem tem pontos suficientes obtém um visto de viagem ou créditos baratos. Ao contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos poderia perder seu trabalho. Na China é possível esta vigilância social porque se produz um irrestrito intercâmbio de dados entre os provedores de Internet e de telefonia móvel e as autoridades. Praticamente não existe proteção de dados. No vocabulário dos chineses não aparece o termo “esfera privada”.

Na China há 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas providas de uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam inclusive as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Estas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer cidadão nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital resultou agora ser sumamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante, todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus telefones celulares. Não à toa, o sistema sabe quem estava sentado onde no trem. As redes sociais contam que inclusive estão se usando drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena, um drone se dirige voando a ele e lhe ordena regressar a sua casa. Talvez ainda lhe imprima uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas à qual, pelo visto, não se oferece resistência na China.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han demonstra a superior eficácia dos regimes autoritários e das democracias musculadas do Oriente, comparativamente com o demoliberalismo europeu, na contenção da pandemia do novo coronavírus. Enquanto a secular tradição de obediência e a confiança nos prodígios da tecnologia e do big data parecem apresentar resultados na luta contra o covid-19, a Europa experimenta sem grande sucesso as velhas receitas do fecho de fronteiras, das quarentenas voluntárias e do isolamento dos infectados.

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Música para o isolamento social: Das varandas italianas para o mundo…

Numa situação excepcional…

raquel-varela…medidas excepcionais!

Raquel Varela critica a actuação tardia, hesitante e insuficiente do Governo perante aquela que poderá vir a tornar-se a maior crise de saúde pública dos últimos cem anos. E não foi por falta de aviso: a OMS nunca poupou nas palavras para alertar sobre os riscos desta pandemia global. Mesmo entre nós, não faltaram biólogos, matemáticos e epidemiologistas a avisar sobre o que aí vinha. Mas o poder político preferiu dar ouvidos ao discurso irresponsável e por vezes imbecil dos pataratas que o regime promoveu a especialistas e autoridades de saúde pública.

A historiadora e investigadora de temas sociais não hesita em qualificar como uma guerra esta luta que colectivamente devemos travar e vencer contra a propagação do coronavírus. E assim, como em qualquer guerra, há que centrar esforços no que é fundamental para travar o combate, proteger os combatentes e mobilizar todos os recursos essenciais para o esforço de guerra. Requisitando ou mesmo nacionalizando, quando os privados são incapazes de cumprir com a sua parte. Num país onde se respondeu com a requisição civil a uma greve de enfermeiros e mobilizou o exército para substituir camionistas em luta, é admissível hesitar perante a necessidade de requisitar os recursos dos hospitais privados perante uma emergência de saúde pública?…

Nos aeroportos, portos, Metro, Carris não havia até agora nenhuma protecção real para quem trabalhava, sem máscaras, luvas – o plano de contingência era “avise se tem febre”…; são milhões de trabalhadores a circular. Apontar o dedo à praia – que nem sabemos se faz mal ou bem, de facto – é não querer ver o problema. Querem a todo o custo manter produção que não é prioritária a funcionar, com risco para quem trabalha. Temos que parar toda a produção que não é essencial, porque estão nas OGMA a construir aviões? Na Auto Europa, na Visteon? Temos que manter a trabalhar só os sectores essenciais de abastecimento, e esses protegê-los ao máximo de contágios. Isto é uma guerra – em guerra deslocam-se sectores produtivos do que é menos importante para o que é essencial – essencial é logística, energia, saneamento, abastecimento. Temos que tentar produzir material médico em falta, ventiladores, ou exigir à União Europeia – que nada fez até agora a não ser pedir fronteiras abertas!! – que produza.

Mandar as pessoas para casa com 66% do salário é uma medida de um Governo que não tem a mínima noção da realidade laboral do país. Isso para os precários, mais de 30% da força de trabalho do país, significa 450 euros ou menos, não paga sequer a renda. Para quem ganha o salário mínimo, 25% de toda a força de trabalho, significa o mesmo. E os outros fixos só ganham 1000 ou 1500 euros porque a maioria trabalha por turnos e faz horas extra – mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas por semana – se param não pagam as contas. Ou seja, esta medida tem que ser acompanhada pela suspensão do pagamento de hipoteca e rendas, no mínimo; congelamento e redução do preço de bens essenciais. Sob pena de as pessoas não terem como comer.

Os hospitais privados vão reunir-se com a Ministra dia 17…Nunca subestime a vergonha e a cobardia. Nos outros países, como Espanha, já avisaram que vai haver requisição civil. Se for necessária, e é, deve nacionalizar-se os hospitais privados e laboratórios ao serviço do combate à epidemia. Vejam o exemplo dos investigadores do mundo inteiro que estão a tentar produzir vacinas e medicamentos sem direitos de autor, partilhando o que descobrem! Gente decente.

 

Covid-19, desorientação e mentiras

…as 2000 camas que se divulgam estarem preparadas para receber estes doentes, na realidade não existem. Foi-nos pedido (e eu respondi a este inquérito) quantas camas existiam em cada um dos nossos hospitais em quartos individuais. Nunca nos foi perguntado quantas camas estavam vagas. No seu conjunto, os hospitais em Portugal terão essas camas sim, mas ocupadas com outros doentes. Não estão vagas, à espera dos doentes com CoVID-19. A não ser que se pretenda uma ocupação dupla na mesma cama, podemos esquecer a capacidade das 2000 camas no país.

Sempre me pareceu muita fruta aquele número subitamente atirado para o ar, duas mil camas hospitalares surgidas do nada e imediatamente disponíveis para futuros casos de infecção pelo Covid-19. Sobretudo quando bastou o aparecimento de dois ou três casos na região de Lisboa para que surgissem, de um dia para o outro, uns barracos hospitalares destinados a acolher os infectados…

HSM-HospitalCampanha.jpg

Na verdade, demasiadas vezes os jornalistas se prestam ao papel de pés de microfone, em vez de confrontarem os responsáveis com as perguntas que se impõem. Neste caso, e sabendo que a falta de camas, tanto na rede hospitalar como na de cuidados continuados e paliativos, é uma realidade, importa saber que doentes irão ser desalojados dos hospitais para receber os casos de Covid-19 que vierem a surgir. Ou se não é tudo isto, uma vez mais, um lamentável exercício de irresponsabilidade e demagogia.

Quanto às escolas básicas e secundárias, é cada um por si. Aqui, parte-se em visita de estudo para Espanha como se não se passasse nada. Acolá, basta um aluno dar um espirro mais sonoro ou tossir com mais força para ser encaminhado, imediatamente, para a sala de isolamento. Proíbem-se saídas para espaços abertos, mas continuam a amontoar-se turmas de quase 30 alunos em salas de aula acanhadas.

Enquanto se equaciona a antecipação das férias da Páscoa, quantos estudantes anseiam pela suspensão das aulas, não pelo medo do contágio, mas pela alegria de umas férias antecipadas? Não para se irem enfiar em casa em isolamento, mas para intensificar a sua vida social em centros comerciais, bares e discotecas?…