Não há quem queira trabalhar?…

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A musa inspiradora da direita neoliberal portuguesa, o oráculo anunciador da desgraça que aí vinha, retoma, aos 70 anos, em entrevista ao jornal i, o velho discurso das matronas da alta sociedade perante a falta de criadas de servir: já não há quem queira trabalhar!

Dando o devido desconto às palas ideológicas, ainda assim poderia esperar-se mais do economista de esmerada educação: então não sabe que estas coisas se explicam, antes de mais, pela lei da oferta e da procura?

Não sabe que, como dizem os amaricanos, se pagar em amendoins, só arranja macacos para trabalhar? E se a paga, mesmo assim, for pouca, nem os macacos quererão trabalhar de graça?

Quanto à referência aos lares de terceira idade, não exprime apenas a arrogância e a displicência habituais nestes espécimes. É o verdadeiro fundo moral com que as velhas famílias do antigo regime criavam os seus filhos a vir ao de cima – a insensibilidade, o cinismo, o egocentrismo – apenas disfarçado por grossa camada de verniz. Que, ainda assim, estala quando menos se espera.

De resto, pegando na imagem de fino gosto usada pelo antigo “patrão dos patrões”, diria apenas que, nas empresas portuguesas, o lugar que mais se assemelha a lar de terceira idade é o conselho de administração. E aí não será por “não haver quem queira” que não se faz a desejável renovação geracional.

Aliás, do que verdadeiramente precisamos no nosso empresariado não é de necessariamente de gente mais nova: é acima de tudo de novas mentalidades, de pessoas com ideias mais arejadas. Capaz de perceber que a competitividade que queremos, que é a que têm os países mais desenvolvidos do mundo, não se constrói com base em baixos salários. E que há óbvias limitações no “modelo de desenvolvimento” defendido pelos ferrazesdacosta desta vida: um mundo de senhores e meninos-família nascidos para mandar e, abaixo deles, a imensa ralé destinada a trabalhar e a obedecer.

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A naturalização da violência

viol-namoro.JPGA violência no namoro tornou-se um tema recorrente no Dia dos Namorados. Pouco romântico, por certo. Mas quando se chega à conclusão preocupante de que não faltam, entre as novas gerações, rapazes e raparigas que acham normais os comportamentos violentos entre namorados, então talvez seja mesmo pertinente continuar a falar neste fenómeno, em vez de embarcar nas lamechices ou nos apelos consumistas que estiveram na origem da efeméride.

Têm 15 anos em média. Rapazes e raparigas. Para muitos (40%), se alguém impede o namorado ou a namorada de se vestir de determinada forma, isso não é violência. Se numa discussão entre os dois há insultos, isso não é violência (25%). E também não o é uma agressão corporal se dela não resulta uma ferida ou uma marca (8%). Já a violência sexual — forçar beijos em público, pressionar ou coagir para ter relações sexuais, por exemplo — é legitimada por um quarto dos 4000 inquiridos num estudo da UMAR, União de Mulheres Alternativa e Resposta, que é apresentado nesta quarta-feira, no Porto. Ou seja, é considerada “natural”.

O estudo da UMAR mostra que, no cômputo geral, as diversas formas de violência no namoro – física, verbal e psicológica – não estão a diminuir. E algumas situações concretas tendem a ser consideradas “normais” pelos jovens inquiridos. Pressionar o outro para obter o que se pretende, ainda que contra a sua vontade, bater sem deixar marcas, controlar o que o/a parceiro/a faz, as pessoas com quem fala, a forma como se veste ou a presença nas redes sociais: são actos muitas vezes desculpados porque vistos como provas de amor e não como os abusos intoleráveis que na realidade são.

É necessário continuar a lutar contra esta naturalização da violência, embora esta “guerra”, como geralmente sucede com tudo o que envolve mudança de mentalidades, não se ganhe de um ano para o outro. Claro que o factor decisivo para prevenir a violência no namoro é capacitar os jovens de ambos os sexos para identificar e rejeitar os comportamentos violentos. Um trabalho que tem de ser feito com os próprios jovens e que envolve não só as escolas – que muito têm feito, aliás, nesta matéria – mas também as famílias e a sociedade no seu todo.

Outros Carnavais

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Lisboa, Carnaval de 1927. Imagem daqui.

Viver em continência

continencia.JPGOs católicos recasados podem “em circunstâncias excepcionais” aceder aos sacramentos, mas a Igreja não deve deixar de lhes propor “a vida em continência”, isto é, sem a prática de relações sexuais. A orientação está contida no documento que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicou anteontem, com algumas normas para regular o acesso aos sacramentos de pessoas em “situação irregular”, isto é, àquelas em que ao matrimónio sucedeu a ruptura e um casamento civil.

Num só parágrafo, está bem patente a posição duplamente hipócrita e contraditória que o catolicismo continua a ter sobre a indissolubilidade do matrimónio.

Por um lado, o absurdo de aceitar o novo casamento, desde que “vivido em continência”, ou seja, se os casados se abstiverem da prática de relações sexuais. E já agora, como é que averiguam isso? Fazendo fé a declaração dos próprios, ou encarregam alguém de ir verificar?

Por outro, o renascer do negócio das anulações de casamento, que parece ir de vento em popa, com um número crescente de uniões que são desfeitas, não por divórcio, mas porque a Igreja Católica decide fingir, a troco de dinheiro e aceitando uma gama cada vez mais variada de justificações, que alguns casamentos religiosos na verdade nunca existiram.

Indo mais longe, na sua interpretação restritiva, do que o Papa Francisco e até, segundo a notícia do Público acima citada, do que o arcebispado de Braga, o Cardeal Manuel Clemente confirma-se como um dos dirigentes mais retrógrados e conservadores da Igreja Católica portuguesa.

Campos nazis na Polónia ou campos da morte polacos?

auschwitz.JPGO Senado da Polónia aprovou na quarta-feira uma polémica lei sobre o Holocausto, que tem como objetivo “defender a imagem do país”, sob fortes críticas de Israel, que acusa Varsóvia de “querer reescrever a história”.

O projeto-lei prevê um máximo de três anos de prisão ou o pagamento de uma multa a quem utilize a expressão “campos da morte polacos” para denominar os campos de concentração instalados no país pelo regime nazi durante a II Guerra Mundial. As mesmas sentenças estão previstas para quem acusar a Polónia de cumplicidade com o Holocausto.

A relação da Polónia com o nazismo, o anti-semitismo e o Holocausto é ainda hoje difícil, complexa e contraditória. Invadidos e ocupados pelos Nazis, os Polacos viram ser instalados no seu território os principais campos da morte que serviram a “solução final” aplicada a judeus, ciganos e outras minorias étnicas e sociais que não teriam lugar no futuro Reich. É natural, e compreensível, que não gostem de ser associados e responsabilizados pelo genocídio perpetrado, no seu território, pelos ocupantes nazis.

Mas também é verdade que o anti-semitismo estava já disseminado na Polónia antes da guerra – e existe ainda hoje em franjas consideráveis da população polaca – tanto ou mais do que na própria Alemanha. Só que nada na História é a preto e branco: se muitos polacos colaboraram com os ocupantes nazis na perseguição, deportação e extermínio de judeus, em Auschwitz e noutros locais, também não foram poucos os que resistiram e acabaram também como vítimas da barbárie nazi.

Na sequência da invasão e ocupação da Polónia pela Alemanha nazi – considerada uma das mais brutais da II Guerra – morreram 2,77 milhões de polacos e ainda 2,9 milhões de judeus polacos.

Os polacos são a nacionalidade com mais cidadãos distinguidos pelo museu Yad Vashem por salvar vidas de judeus durante a guerra – 6706 cidadãos (num total de 26.513). Muitos polacos foram mortos por terem escondido judeus nas suas casas (a pena era a morte de todos os habitantes da casa).

A Polónia foi também o país com o maior movimento de resistência aos ocupantes nazis. O Armia Krajowa (Exército Nacional) era a mais importante força de resistência e era leal ao governo polaco exilado em Londres, chegando a ter cerca de 300 mil combatentes depois de ter absorvido a maior parte de outros movimentos de resistência.

Muitos polacos aproveitaram a situação da altura para tirar vantagens para si próprios. Existe uma palavra, szmalcownik, para designar os que informavam sobre os judeus escondidos para obter recompensas, ou chantageavam os próprios judeus ou os polacos que os escondiam.

O número de colaboracionistas polacos é de “muitos milhares”, diz o “caçador de nazis” Efraim Zuroff do Centro Simon Wiesenthal.

Julgo que o problema maior, em relação à Polónia, já nem é tanto o que aconteceu durante a guerra e o Holocausto mas sobretudo a forma como a sociedade lidou com essa memória histórica no pós-guerra. Enquanto na Alemanha o legado nazi foi radicalmente renegado, na Polónia, um dos países onde o nazismo causou mais mortes e sofrimento, os Polacos assumiram o papel de vítimas, o que de certa forma os dispensou de uma profunda auto-crítica em relação a sentimentos racistas e anti-semitas ainda hoje presentes num país que, dizem os estrangeiros por lá residentes, continua a denotar preocupantes sinais de xenofobia. E quando governos e parlamentos populistas cavalgam estes sentimentos em vez de os contrariar, as coisas podem facilmente dar para o torto. Como nota, acertadamente, o editorialista do Público:

Esta lei não surge só como alegada “prevenção” contra difamações ou provável tentativa de negação da História, mas como fruto de uma alma nacionalista inflada por uma crescente demagogia política. Em Novembro passado, muitos milhares de polacos exigiram nas ruas, no seu Dia da Independência, uma “Europa branca” de “sangue limpo”, gritando palavras de ordem contra refugiados, muçulmanos, judeus, e homossexuais. O ministro do Interior disse-se “orgulhoso”, e não se demarcou do que o mundo viu ou ouviu.

A actual lei é apenas mais um tijolo no muro antieuropeu que na Polónia se vai erguendo.

Deve dizer-se que foi entre ciganos?…

amadeu-gaudencio.JPGNo rescaldo dos graves incidentes na Escola Amadeu Gaudêncio, na Nazaré, onde o pai e o avô de um aluno da escola se envolveram em cenas de violência que originaram uma vítima mortal, a discussão, nos comentários da imprensa online e nas redes sociais, gira em torno do que todos parecem saber, mas que nenhum órgão de comunicação de âmbito nacional achou conveniente divulgar: agressor e vítima são de etnia cigana.

Morreu o homem de 67 anos que foi atingido a tiro, esta manhã de segunda-feira, durante um tiroteio que levou ao encerramento da Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio, na Nazaré. A informação foi confirmada pelo Hospital de Santo André, de Leiria.

De acordo com o hospital, o homem, de 67 anos de idade, foi “admitido na emergência em manobras de Suporte Avançado de Vida, efetuadas pela equipa da VMER”, e foram tentadas manobras de reanimação “sem sucesso, sendo verificado o óbito”. Ainda segundo o hospital, a vítima apresentava “lesões provocadas por arma de fogo e por arma branca”.

Na origem dos desacatos estará um desentendimento entre dois adultos do sexo masculino, familiares de um aluno, em que “foram disparados vários tiros.

Uma das crianças que terá presenciado o momento em que a rixa aconteceu explicou ao CM que a vítima dos disparos será o avô de um menino que frequenta a escola, e o autor dos mesmos o pai da criança. “O pai de um amigo meu deu um tiro ao avô dele. Ele tinha uma ordem para não ver o filho mas queria ver o filho. Trouxe uma pistola e ouvi dizer que também trouxe uma faca”, revelou Tomás. 

Não houve envolvimento de elementos da comunidade escolar e a escola, depois de ter permanecido encerrada durante o resto do dia, já deverá abrir normalmente amanhã. De resto, vão sendo infelizmente comuns os casos de violência em contextos de famílias desavindas. E a verdade é que a sua incidência não escolhe idade, etnia ou condição económica ou social, como casos recentemente mediatizados têm amplamente demonstrado.

O que se destaca neste caso é a violência trágica e desproporcionada perante o que estava em causa – um pai a querer ver o filho e os avós a pretender impedi-lo, respaldados numa ordem judicial – e o fim trágico do conflito. Mas também o fácil acesso a armas de fogo por parte de pessoas que nem a uma fisga deveriam ter direito.

Pode ainda perguntar-se, no meio disto tudo, onde fica o papel educativo e formativo da escola. Valerão de muito, para alguns alunos, as aulas de “cidadania”, quando o exemplo que têm de casa é aquele que hoje foi demonstrado no átrio da escola da Nazaré? E que dizer da segurança escolar, quando se percebe que a qualquer momento um tresloucado armado e violento pode irromper pelo recinto escolar, disposto a fazer justiça à sua maneira e pelas próprias mãos?

No final, sobra a questão inicial: será relevante dizer que se tratou de uma rixa de ciganos? E em caso afirmativo, o que se conclui? Desvalorizamos, pois é “uma coisa entre eles” e felizmente não houve vítimas “portuguesas”? Ou relativizamos de uma outra forma, que é tentar justificar o ocorrido pela falta de “integração”, da qual os culpados, indirectamente, somos nós todos, ou pelos particularismos “culturais” da comunidade?

Sem respostas instantâneas nem definitivas sobre um tema complexo, confesso-me ainda assim defensor da universalidade das leis e da justiça, que devem aplicar-se a todos da mesma forma, avaliando a sua culpa e punindo-os de acordo com a ilicitude e a gravidade dos seus actos. Ser cigano não deve, só por si, ser agravante do crime, mas também não pode servir de atenuante em nome de um qualquer relativismo cultural. Neste caso, tratou-se de um atentado ao mais precioso dos bens, uma vida humana que se perdeu num estúpido e inglório incidente. Castigar o assassino, depois de provada a culpa, e é o que se exige, independentemente da sua etnia.

A manifestação dos advogados

manif-advogados.jpgA manifestação de advogados e solicitadores que ontem percorreu o centro de Lisboa surpreendeu pelo ineditismo. De facto, não é habitual ver profissionais liberais a recorrer a este tipo de acções de luta colectiva para defender os seus interesses. Neste caso, contra as elevadas contribuições que são obrigados a pagar a um subsistema de protecção social que para pouco ou nada lhes serve.

Passada a surpresa inicial, e tentando perceber um pouco melhor o que levou advogados de todo o país a participar neste protesto, apercebi-me da inteira propriedade com que se aplica aqui o tradicional provérbio “casa de ferreiro, espeto de pau”. Na verdade, estes profissionais estão habituados a invocar e a tirar partido de todos os argumentos e expedientes possíveis e imaginários em defesa dos seus constituintes na barra dos tribunais. Então, é caso para perguntar, como se conformaram estes anos todos com um regime contributivo que claramente os discrimina em relação aos restantes trabalhadores, obrigando-os a pagar mais para usufruir de menos direitos? Como se compreende que se submetam a leis que os obrigam a descontar uma caixa de previdência que é um resquício do estado corporativo salazarista e que não assegura o acesso às prestações sociais nos moldes a que qualquer outro trabalhador tem direito?

O que se percebe é que a advocacia e outras actividades conexas já não garantem hoje o nível de rendimentos nem a estabilidade profissional de há algumas décadas atrás. A par dos grandes escritórios da advocacia de negócios, onde se ganham milhões, existe um mundo paralelo de profissionais que tentam sobreviver na profissão, quer gerindo um pequeno escritório, onde o que ganham em muitos casos mal dá para as despesas, quer integrando uma espécie de proletariado de toga, ao serviço dos escritórios e colegas que dominam a profissão. E se um pagamento mensal de 240 euros será um valor irrisório para alguns, poderá tornar-se incomportável para muitos dos que ainda lutam para conseguir singrar na profissão.

Há ainda mais duas coisas que a manifestação de ontem demonstrou. Primeiro, que os jovens e menos jovens advogados que saíram à rua o fizeram porque certamente sentiram, como muitos outros trabalhadores, as portas fechadas à resolução, por outras vias, dos seus problemas profissionais. Em segundo lugar, e não menos importante, descobriram, em conjunto, a importância da luta colectiva para dar visibilidade, força e pertinência às suas reivindicações. Na defesa de causas que a todos dizem respeito, se lutarem juntos, terão mais força.

Faltará dar o passo seguinte, que é questionar todo um regime anacrónico e antidemocrático de regulação profissional, assente em ordens profissionais e caixas de previdência sectoriais, claramente desajustado da organização livre e democrática da sociedade, do mundo laboral dos nossos dias e das necessidades e aspirações dos profissionais mais jovens. Na verdade, a pretensa auto-regulação de cariz corporativo que continua a existir nalgumas profissões mais não é do que a desresponsabilização do Estado na garantia de direitos constitucionais dos cidadãos e a legitimação do poder de uma elite profissional para condicionar o acesso à profissão, preservar privilégios e consolidar  hierarquias – e por vezes dinastias – profissionais.

Uma reflexão que interessa também aos que, não a tendo, anseiam por ser postos na Ordem…