Tratá-los melhor enquanto estão vivos, ou ajudá-los a morrer?

eutanasia.pngEis um dilema que não deveria nunca ter de se colocar. Mas, infelizmente, receio que o debate pós-moderno em torno da eutanásia possa introduzir, subrepticiamente, este tipo de tentações: que tal convencer os mais velhos e doentes de que estão por cá a mais, em vez de gastar dinheiro a preservar, tanto quanto possível, a sua qualidade de vida?

Sendo em teoria favorável à legalização da eutanásia, na prática sinto imensas reservas em relação ao tema numa sociedade que, sendo cada vez mais hedonista e individualista, me parece impreparada para tratar, com a dignidade que ela merece, uma questão que envolve tão profundamente a vida, a saúde e a dignidade humanas.

E são sobretudo notícias destas que, confirmando os meus receios, me preocupam…

Ainda que a sensibilização para o tema tenha aumentado nos últimos anos, são poucos os hospitais nacionais que têm unidades de internamento de cuidados paliativos. Esta “deficiência” tem um reflexo nos últimos dias de vida de muitos portugueses: entre 69 a 82% dos doentes que morrem no país necessitam desses cuidados – mas mais de 80% não os tem por falta de resposta suficiente, revela o “Jornal de Notícias” esta terça-feira.

Existem, neste momento, entre 71 mil e 85 mil portugueses que precisam de cuidados paliativos, segundo números da Comissão Nacional de Cuidados Paliativos. Porém, não há boas notícias: em 2017, os cuidados paliativos só terão chegado a 12 mil doentes terminais portugueses.

Parece-me difícil negar a um doente em sofrimento, padecendo de doença incurável e sem qualidade de vida o direito a decidir, de forma consciente, pôr termo à sua vida. E de ser, para esse efeito, ajudado por profissionais de saúde a quem o acto não levante problemas de consciência.

Agora também é verdade que para a eutanásia ser uma opção do doente é preciso que ele tenha alternativas, que passam por cuidados continuados adequados à sua situação clínica. É essencial que a eutanásia seja sempre uma escolha, e nunca a única saída. E não me parece que um país que trata tão mal os seus mais velhos esteja preparado para, uma vez legalizada a eutanásia, entender e assumir este princípio fundamental.

Na realidade, negar a dezenas de milhares de doentes o acesso à assistência e aos tratamentos de que necessitariam, condenando-os a uma morte lenta e em sofrimento, pode conduzir a que a eutanásia seja vista socialmente, não como um direito dos doentes terminais, mas como uma opção alternativa, e certamente mais económica, ao investimento numa rede de cuidados paliativos adequada à nossa população cada vez mais envelhecida.

Parece-me de uma crueldade e desumanidade extremas levar as pessoas mais idosas e dependentes a desejar a morte, não porque efectivamente estejam cansadas de viver, mas porque não querem continuar a ser um encargo para os familiares – que é o que sucede tantas vezes, por falta de resposta dos serviços públicos que deveriam acudir a estas situações.

Rejeito que, em nome da afirmação do direito à morte assistida, se venham daqui a amanhã a negar, a um doente em sofrimento, as terapias dispendiosas que lhe poderiam aliviar a dor, partindo do princípio de que, se não quer sofrer, tem bom remédio: basta-lhe pedir para ser eutanasiado.

Por outras palavras, aceito que a eutanásia possa existir enquanto direito, mas nunca enquanto dever moral do doente, nem como pretexto para a sociedade e o Estado se desobrigarem dos seus deveres para com os doentes graves e incuráveis que querem, mesmo assim, continuar a viver.

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O gangue de Alcochete e o seu presidente

gangue-alcochete.JPGNada escrevi, até hoje, sobre o assalto criminoso ao campo de treino sportinguista nem sobre o inenarrável e aparentemente inamovível presidente do clube. E nem tem a ver com o facto de as polémicas futebolísticas estarem habitualmente afastadas deste blogue, por opção assumida do seu autor. É que por vezes me desagrada escrever sobre aquilo que é gritantemente óbvio. O que todos sabem e percebem, embora o sectarismo ou a clubite patológica os impeça de assumir publicamente.

Ainda assim, de tudo o que li sobre uma novela que parece ainda não ter terminado, destaco a crónica de ontem de João Miguel Tavares. Tal como ele, custa-me entender que pessoas que privaram com Bruno de Carvalho, que o apoiaram na conquista da direcção do clube e tomaram parte na sua equipa dirigente, venham agora afirmar, contritas, que não perceberam logo a bisca que ali estava. Pois eu, que nada percebo de futebóis e que só o conhecia de meia dúzia de fugazes aparições televisivas, não duvidei do carácter pouco recomendável da peça: uma evidência talvez difícil de explicar por palavras sem entrar em generalizações injustas, mas que, é um facto, entra pelos olhos dentro.

E nem a comparação com Sócrates, um tema obsessivo neste cronista, é despicienda: inebriada com a conquista do poder que um líder com óbvias falhas e limitações poderia apesar de tudo proporcionar, demasiada gente, dentro e fora do PS, se deixou seduzir pelo socratismo, colaborando na construção da imagem do político corajoso e determinado e aceitando não fazer perguntas acerca da origem e do destino dos muitos milhões que os projectos e as negociatas do socratismo fizeram circular pelo país.

Por que é que ninguém os via? Toda a gente os via. Só que aqueles que os admiravam fingiam não ver. Aquilo que Sócrates dava aos socialistas, tal como aquilo que Bruno de Carvalho dava aos sportinguistas, era tão valioso, que os impulsos autoritários, a obsessão com o “eu” ou a sede absurda de poder eram desvalorizados como idiossincrasias mansas ou meros traços de “carisma”. […] Nós tapamos voluntariamente os nossos olhos desde que estejamos a escutar música para os nossos ouvidos. Da próxima vez que alguém se espantar como engolimos 40 anos de ditadura, é olhar à volta. A nossa ridícula tolerância para com as várias espécies de animais ferozes continua igualzinha ao que sempre foi. Sócrates e Bruno de Carvalho têm isto em comum: são ambos fruto da nossa complacência, da nossa cegueira e da nossa passividade.

Médico agredido no centro de saúde

csaude-chamusca.JPGUm médico de família do centro de saúde da Chamusca foi agredido por recusar passar uma baixa a uma utente, situação que está a indignar a Ordem dos Médicos, que vai avançar para tribunal.

O médico, recém-especialista, contou à agência Lusa que foi agredido fisicamente pelo companheiro de uma utente que lhe tinha solicitado uma renovação de baixa médica, após ter recusado passá-la.

Afinal, dir-se-á, não são apenas os professores que ocasionalmente são vítimas de agressões no seu local de trabalho. Os centros de saúde e os hospitais têm sido identificados como locais de crescente conflitualidade, com os profissionais de saúde a serem sujeitos a uma pressão excessiva da parte dos utentes e das condições de funcionamento do próprio sistema.

Há, contudo, uma diferença importante. Além de ter recebido o apoio da Ordem dos Médicos e do sindicato, também o responsável político pela Saúde percebeu que lhe competia dirigir um gesto de preocupação e solidariedade para com o médico agredido:

Segundo o profissional, o ministro da Saúde soube da situação e já lhe telefonou.

Na Educação, quando teremos um ministro capaz de condenar publicamente os actos de violência contra os professores? Ou, simplesmente, de se interessar por estas situações, de sentir a necessidade de se mostrar atento e solidário, de perceber que os problemas que enfrentam os seus profissionais, no exercício de funções, são também problemas da Educação?

Alguém imagina um certo Tiago a telefonar pessoalmente, por sua iniciativa, a um docente vítima de agressão?…

Primeiro de Maio

A assinalar o Dia do Trabalhador, algumas imagens do Primeiro de Maio de 1974 em Lisboa, quando, pela primeira vez após a longa ditadura, foi comemorado em liberdade.

Foi a maior manifestação de sempre em Portugal, num dia em que se calcula que terão saído à rua, em diversas cidades do país, mais de um milhão de portugueses, para festejar a liberdade e a democracia recém-conquistadas.

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© Gérald Bloncourt

O detector de mentiras

Porque haverá tantos pobres e remediados a defenderem ideologias de ricos?

Provavelmente, pela mesma razão que os leva a apostar no euromilhões…

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A Manada

Cinco jovens foram condenados a nove anos de prisão por abuso, não por agressão sexual. Um juiz queria a absolvição já que nos vídeos a vítima tinha uma expressão “relaxada”.

Os factos, sucedidos em Espanha em 2016 e dados como provados, contam-se em poucas palavras. Um grupo de cinco homens, que apropriadamente se chamavam a si próprios a “Manada”, rodearam uma jovem de 18 anos que tinham conhecido minutos antes, levaram-na para um local isolado e forçaram-na à prática de relações sexuais. A rapariga, perante a esmagadora superioridade física dos homens, ficou em choque, incapaz de resistir. Fechou os olhos e esperou que tudo acabasse o mais depressa possível.

Tratou-se de uma violação colectiva, como facilmente se percebe. Mas, para o tribunal que julgou o caso, foi apenas abuso sexual. E apesar de a sentença de nove anos de cadeia, mais o pagamento de indemnizações, não ter sido propriamente branda – em Portugal, talvez se safassem com uma pena suspensa – a decisão está a indignar a sociedade espanhola, tendo gerado manifestações de protesto nas principais cidades e uma onda de repúdio pela sentença e de solidariedade com a vítima encheu as redes sociais.

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No entanto, a decisão judicial não foi unânime entre os juízes:

Um deles defendia a absolvição, alegando que, nos vídeos que eles gravaram com o telemóvel, a expressão do rosto da vítima era “relaxada e descontraída” e por isso “incompatível com qualquer sentimento de medo, rejeição ou recusa” e que “os seus gestos e sons sugerem prazer”.

Este juiz matarruano é um bom exemplo do machismo e da insensibilidade atroz que infelizmente continua a marcar presença entre a magistratura. Passou-se em Espanha, mas também por cá temos alguns juízes dispostos, em casos deste tipo, em tornarem-se acusadores das vítimas, como se fossem elas que estivessem a ser julgadas. Nestas situações, como alguém comentou no Twitter, a mensagem que o sistema judicial continua a passar é,

Tinhas de ter fechado as pernas;
de ter resistido mais;
de ter gritado.
Morta, acreditaríamos em ti.
São rapazes, estavam a brincar.
A culpa é tua, mulher!

A dimensão avassaladora do movimento de repúdio e revolta que esta decisão está a ter em Espanha mostra que a sociedade espanhola já não se revê nesta justiça e nestes juízes. E isso alimenta a esperança de uma revisão da sentença, com a inevitável apreciação do caso por um tribunal superior.

Sindicatos europeus enfrentam a Ryanair

ryanair.JPGUma forma de comemorar hoje o Dia da Liberdade é saudar o acordo entre sindicatos europeus da aviação, que decidiram ontem unir esforços na luta contra as práticas laborais abusivas da Ryanair e o sistemático desrespeito desta companhia aérea pelos direitos dos seus funcionários.

O verão de 2018 promete ser animado para a Ryanair. No horizonte da companhia aérea irlandesa está agora a ameaça de uma greve dos tripulantes de cabina à escala europeia, que poderá ter lugar nos movimentados meses de julho e agosto em países como Portugal, Espanha, Itália, Bélgica, Holanda e Alemanha. Isto se até 30 de junho a empresa não cumprir as reivindicações acordadas ontem numa reunião que juntou em Lisboa, e pela primeira vez, os representantes de vários sindicatos europeus.

A uma só voz, o português SNPVAC, o belga CNE/LBC, o italiano UILTRASPORTI e os espanhóis SITCPLA e USO, exigem agora que a Ryanair aplique “a legislação nacional relativa a cada país nos respetivos contratos de trabalho”, de acordo com a Convenção de Roma, e também que adote os “mesmos termos e condições contratuais e legais a todos os tripulantes de cabina, incluindo os contratados por empresas de trabalho temporário Crewlink ou Workforce, entre outras.

As dificuldades negociais começam logo na recusa, por parte da administração da Ryanair, em reconhecer os dirigentes sindicais como interlocutores válidos: numa peculiar incompreensão da natureza do sindicalismo, alegam que não aceitam, à mesa das negociações, sindicalistas que sejam funcionários de outras companhias. Mas esta confusão deliberada entre um sindicato e uma comissão de trabalhadores não será fruto da ignorância: é apenas uma forma de tentar ter, do outro lado, negociadores mais fáceis de pressionar ou manipular.

Outra coisa que os sindicalistas europeus ontem reunidos também perceberam é que as formas de pressão que a Ryanair usa habitualmente, fazendo crer aos trabalhadores de um país que estão isolados nas suas reivindicações, se baseiam na manipulação e na mentira: em todo o lado as queixas e reivindicações são as mesmas. Pelo que faz todo o sentido que exista unidade na acção e na luta reivindicativa contra uma empresa que persiste em fugir ao diálogo e ao compromisso com os representantes dos trabalhadores.

A Ryanair foi, em diversos aspectos, uma companhia aérea inovadora nos céus europeus, contribuindo para tornar mais acessíveis as viagens aéreas e para promover o turismo em muitas cidades europeias. O modelo de negócio da empresa tem futuro, mas este também depende agora, e cada vez mais, de os seus dirigentes serem capazes de moderar a ganância do lucro, cumprir as leis dos países em que operam e respeitar os direitos dos seus trabalhadores.