Estamos assim…

Um quinto lugar entre todos os países europeus no número de casos de covid-19 per capita, à frente de todos os países da Europa mediterrânica com que habitualmente nos comparamos, não é nada invejável, e deveria dar que pensar.

Antes de mais, aos políticos, autoridades de saúde e epidemiologistas que pela inacção, pelo mau exemplo e pelas medidas irreflectidas, erráticas e contraditórias, dão os sinais errados e não se mostram à altura das suas responsabilidades. Mas também a todos os que, em alegres desconfinamentos, julgam fintar a pandemia e lançam foguetes antes da festa.

Saudosismos…

Daqui.

O ano das vacinas

Daqui.

Eficiência nórdica

Oito funcionários de um lar na Alemanha foram vacinados individualmente com cinco doses da vacina contra a covid-19 da Pfizer/BioNTech, dos quais quatro foram hospitalizados porque começaram a manifestar sintomas ligeiros de gripe.

Os Países Baixos decidiram iniciar a campanha de vacinação contra a covid-19 em janeiro, apesar de já toda a União Europeia ter começado, considerando que “a pressa” visa dar “um espetáculo simbólico”, mas é perigosa.

“Temos de seguir um caminho seguro, não é responsável começar mais cedo”, explicou o ministro da Saúde holandês, Hugo de Jonge, aos deputados, sublinhando que o que seus parceiros europeus estão a fazer “não é prudente”.

O Parlamento holandês não compreende, no entanto, que todas estas questões técnicas e logísticas demorem quase duas semanas mais do que no resto da União Europeia.

O líder da extrema direita (PVV), Geert Wilders, acredita que a abordagem oficial “é errada” e classificou-a de “amadorismo”, enquanto os socialistas lamentaram que os Países Baixos “estejam a ficar para trás novamente”, como aconteceu – segundo referiram – com a aplicação móvel de rastreamento do coronavírus ou com a capacidade de fazer testes.

Vacinas anti-covid

O enorme alarido em torno de vacinas tão ansiosamente esperadas é bem o reflexo de uma sociedade hiper-mediatizada, onde a razão cede à emoção, o conhecimento cientificamente fundamentado vale tanto como as verdades alternativas e as opiniões mais disparatadas, se emitidas por gente influente, suplantam o rigor e a veracidade dos factos.

Na linguagem gráfica ao gosto das redes sociais é mais ou menos isto, não é?…

O capitalismo cognitivo

Uma interessante entrevista com a filósofa catalã Marina Garcés ajuda-nos a desconstruir a imensa fraude que se esconde em chavões como flexibilidade ou inovação, com os quais se pretende dar forma à escola dita do século XXI. Quando OCDE e Banco Mundial, multinacionais tecnológicas e fundações milionárias recuperam, mais no discurso do que nas práticas, pedagogias alternativas inventadas no século XX, é óbvio que o que está em causa não é qualquer revolução educativa. Trata-se de uma nova faceta do sistema capitalista – capitalismo cognitivo, assim lhe chama Garcés – que tenta formatar a Educação, pondo-a ao serviço do capitalismo neoliberal e globalizado dominante nos nossos tempos.

A verdade é que, enquanto discutimos metodologias educativas, não questionamos as transformações económicas e sociais que impõem os novos paradigmas educativos. Deveríamos debater e decidir democraticamente, isso sim, os modelos económicos e sociais que queremos para o nosso futuro. E não a pedagogia que melhor se adapta as inevitabilidades que nos querem impor.

Fica um excerto da entrevista, traduzido da versão original em castelhano, e o convite para ler mais, aqui.

Denuncia a forma como o sistema se apropriou da linguagem da pedagogia renovadora. Soa um pouco a O Leopardo, uma mudança aparente para que tudo continue na mesma.

O neoliberalismo incorporou conceitos que eram anteriormente típicos da crítica institucional e das experiências de transformação social. A luta contra as hierarquias, a rigidez… Estas lógicas – típicas do capitalismo industrial – extravasam no capitalismo cognitivo, um sistema baseado na flexibilidade e no movimento constante. Em pedagogia, a consequência é que certas práticas em tempos revolucionárias têm uma parte da sua linguagem e modos de funcionamento transferidos para os modelos hegemónicos.

A inovação como sinónimo de mudança vertiginosa, repleta de novidades tecno-metodológicas. Com uma azáfama contínua que nos impede de abordar questões fundamentais como a que coloca: como queremos ser educados?

É uma distracção que é em parte deliberada – uma vez que os mercados vêem uma oportunidade de negócio e mesmo de formatar esses futuros ainda por definir – e em parte procedente da desorientação do nosso tempo. Esconde-se a crise educativa, que é uma crise de civilização, está a ser encoberta, reduzindo o debate à metodologia e tornando difícil imaginarmo-nos em relação aos outros e com respeito a futuros partilhados. Transformámos o debate pedagógico em rivalidade e conflito entre receitas superficiais.

Nesta desorientação impõe-se em todas as áreas, incluindo a educativa, a mensagem de que tudo é demasiado complexo para ser compreendido. E que, em qualquer caso, as possíveis explicações têm data de validade.

Instalámo-nos no óbvio da incerteza. Tudo é incerto, complexo, demasiado rápido… E em vez de procurar as ferramentas para poder ler o que acontece, para decifrar a realidade, resignamo-nos a procurar respostas eficazes à mudança permanente e a treinar-nos para este objectivo. A realidade como mudança permanente é uma definição vazia de valores, relações, afectos, propósitos. E conduz a uma educação meramente adaptativa.

A ideia de que uma transformação profunda não é viável é imposta às escolas. Que o máximo a que podemos aspirar é a acatar o que chama servidão adaptativa perante um mundo em que a obsolescência e a incerteza são a norma.

A noção de servidão adaptativa é fundamental para compreender porque é que já não estamos em relações de obediência mecânica. É verdade que se mantêm algumas directrizes rígidas: horários, faixas etárias… Mas o importante é que se tenta reduzir a nossa capacidade de aprendizagem a uma flexibilidade codificada que aspira a soluções imediatas.

Para o aluno esta é uma mensagem desanimadora: tudo muda, mas tu não podes mudar nada.

Há alguns anos, algumas estudantes do ensino secundário perguntaram-me: “Como nos podemos comprometer com o nosso futuro? Respondi-lhes que comprometendo-se com o seu presente. Mas parece que o presente está anulado, que não é mais do que uma passagem, um local de circulação. O que esta actividade adaptativa não permite perceber é a relação causal entre o presente e o futuro, precisamente porque se toma como certo que tu não vais causar nada: és uma função dessa mudança, não um agente da mesma, um sujeito político.

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Registo de maçónicos

Portugal é hoje uma sociedade democrática evoluída em que a liberdade de associação é um direito adquirido, mas vivemos num contexto em que os cidadãos são cada vez mais exigentes para com os titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos, exigindo-lhes deveres acrescidos de transparência e de compromisso com o interesse público. Nessa óptica, é hoje inconcebível que os titulares destes cargos continuem a não ter quaisquer incentivos para declarar a sua filiação em organizações como a maçonaria, que, tendo-se há muito desviado da sua matriz original, têm regras de funcionamento marcadas por uma grande opacidade e que apelam a fortes laços de hierarquia e de solidariedade entre os seus membros.

André Silva, deputado do PAN, defende a proposta de lei que o seu partido apresentou ao Parlamento e que pretende tornar obrigatória o registo, na declaração de interesses dos deputados, da pertença a maçonarias e outras organizações ditas “discretas”. A proposta é justa e pertinente, e espero que os principais partidos, onde se acoitam alguns dos mestres de obras das diversas “lojas”, não recorram às habituais manhas, subterfúgios e outros jogos de baixa política para impedir a adopção de uma regra básica de transparência democrática.

Como muito bem sublinha o deputado no texto que escreveu para o Público, não está aqui em causa a liberdade de associação garantida pela Constituição. Na sua vida privada, cada um é livre de se associar aos grupos e às causas com os quais se identifique. O que não se pode permitir é que, a partir do momento em que se passa a exercer um cargo público em representação dos cidadãso se possa esconder a esses mesmos cidadãos a pertença a “irmandades” cujas regras internas condicionam a isenção e a independência dos seus membros.

No derrube dos estados absolutistas e nos primórdios da democracia moderna, as sociedades secretas deram um contributo fundamental para a construção das sociedades laicas, igualitárias e democráticas em que hoje vivemos. Mas a verdade é que o secretismo, que nesses tempos foi essencial à sobrevivência destas organizações e à segurança dos seus membros, é hoje um inimigo da democracia. Ainda que se digam “discretas” e não secretas, as organizações que iniciam os seus membros na busca de uma qualquer superioridade ética, moral ou intelectual estão de facto a favorecer o nepotismo e o tráfico de influências. Não têm faltado exemplos recentes, quer de lutas pelo poder e guerras sujas que extravasam para o exterior, quer de membros que, na vida política ou empresarial, agem em completa dissonância com os elevados princípios e valores invocados por estas organizações.

Não irei ao ponto de afirmar, porque não tenho elementos para tal, que alguns casos de corrupção, tráfico de influências e favorecimento público de interesses privados possam ter sido congeminados a partir das relações que os “irmãos” estabelecem nas suas “lojas”. Mas é evidente que a divulgação pública, assumida pelos próprios deputados, dos seus interesses, dependências e relações de pertença, é um passo fundamental para aumentar a transparência do sistema político.

Professor auxiliar???

Um professor auxiliar do Colégio Maristas de Carcavelos, de 18 anos, foi detido pela Polícia Judiciária e, segundo o “Correio da Manhã”, em causa estão suspeitas de abusos sexuais a dez alunos da instituição onde trabalhou recentemente, os Maristas de Carcavelos, e de um colégio em Cascais.

A notícia surpreende, e não apenas por referir um dos colégios elitistas da Linha de Cascais, daqueles que costumam aparecer na comunicação social quando se fala em rankings e outros sucessos educativos. É que o Expresso e o Correio da Manhã, dois esteios da imprensa do regime, um na pose institucional de semanário de referência, outro do jornalismo ao gosto popular, unem-se para inventar a figura insólita, no ensino não superior português, de “professor auxiliar”. E só o leitor mais atento, antes de passar aos pormenores do caso de assédio sexual aos menores, poderá eventualmente questionar: mas isso existe?

A profissão de professor continua a ser regulamentada pelo Estatuto da Carreira Docente, que é claro ao exigir habilitações científicas e profissionais de nível superior a todos os professores. Em Portugal, ninguém é professor aos 18 anos, mas também ninguém parece importar-se muito com este enxovalhar da profissão, ecos de um tempo em que, na falta de candidatos habilitados, se recrutava qualquer um. No mesmo país em que seria impensável, por exemplo, chamar juiz auxiliar a um funcionário judicial. Ou confundir uma auxiliar de acção médica com uma médica auxiliar.

E, no entanto, não era difícil, fazendo o trabalho de jornalista, apurar e relatar com rigor a verdade dos factos. Como fizeram outros órgãos de informação…

O abusador exercia funções de auxiliar de ação educativa, técnico de informática e audiovisuais, para além de formador de atividades de enriquecimento curricular naqueles estabelecimentos, tendo aproveitado a proximidade e a confiança que mantinha com as crianças para assim consumar os atos ilícitos, os quais decorreram entre os meses de setembro e novembro passados”, refere o comunicado das autoridades.

Deste caso extrai-se, ainda, outra lição. A de que nem os colégios de topo estão imunes ao risco de contratarem gente pouco recomendável para trabalhar com crianças. Interessado em poupar nas contratações para garantir a rentabilidade do seu projecto educativo, o colégio não se mostrou demasiado selectivo nas admissões. E foi assim que o jovem pedófilo, que sentava crianças do sexo masculino ao colo e as tentava seduzir, teve a sua oportunidade de trabalho. Depois de já ter passado por um outro colégio, pelos escuteiros e pela catequese.

Professores ficam para o fim?

Na maioria dos planos nacionais de vacinação contra a covid-19, educadores e professores dos vários níveis de ensino têm estado a ser considerados entre os grupos prioritários para vacinação. Em regra, logo a seguir aos idosos e aos profissionais de saúde.

A ideia é acertada e faz todo o sentido a partir do momento em que se definiu, claramente, que todo o ensino deveria ser presencial. No seu quotidiano, os professores têm contacto próximo com dezenas, por vezes centenas de alunos, pertencentes a diferentes turmas. Serão dos profissionais mais expostos, não só ao risco do contágio, mas também à possibilidade de eles próprios se tornarem agentes transmissores da doença.

No entanto, se isto é entendido em quase todos os lados, por cá os professores continuam, aparentemente, a ser olhados com um misto de invisibilidade e de desprezo. Será que a classe docente é auto-imune e ninguém nos avisou? A verdade é que o Governo definiu, até agora, cinco prioridades, divididas em duas fases, para efeitos de vacinação. E os professores não constam de nenhuma

Os grupos prioritários da primeira fase serão:

1. Profissionais de saúde e residentes em lares e em instituições similares e profissionais e internados em unidades de cuidados intensivos (250 mil pessoas).

2. Pessoas com 50 ou mais anos, com pelo menos uma das seguintes patologias: insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal, doença pulmonar obstrutiva crónica sob suporte ventilatório e/ou oxigenoterapia de longa duração (400 mil pessoas).

3. Profissionais de saúde diretamente envolvidos na prestação de cuidados de doentes e profissionais de forças de segurança e serviços críticos (300 mil pessoas).

Segunda fase:

1. Com 65 ou mais anos, com patologias ou não (1,8 milhões de pessoas).

2. Pessoas com mais de 50 anos, com diabetes, neoplasia maligna ativa, insuficiência hepática, insuficiência renal, obesidade, hipertensão arterial e, eventualmente, outras patologias (900 mil pessoas).

Presente de Reis

O boneco exprime bem os sentimentos contraditórios que as vacinas contra a covid-19, brevemente ao dispor na generalidade dos países europeus, inspiram nos cidadãos.

Tão depressa se reclama por não estar na lista dos prioritários no acesso à vacina, como se receia os efeitos perniciosos e ainda desconhecidos que fármacos criados, testados e produzidos em tempo recorde possam vir a ter.

Venha depressa a vacina mas, por via das dúvidas, vacinem os outros primeiro…