Capitalismo bom, a utopia do século XXI

andrew-keen.JPGNum mundo intoxicado em propaganda que constantemente nos incentiva a olhar a realidade a partir de chavões como “nativos digitais”, “empreendedorismo”, “economia de partilha” ou “sociedade do conhecimento”, é útil prestar atenção a pensadores lúcidos que nos ajudam a desconstruir alguns dos mitos e ideias feitas com que nos querem formatar para o admirável mundo do século XXI.

É o caso de Andrew Keen. Tanto a condição de imigrante em Silicon Valley como a formação clássica em História e Ciências Políticas fazem dele um observador atento e um crítico – moderado e talvez demasiado optimista – das mudanças profundas que estamos a viver.

Alguns excertos de uma entrevista recente ao DN. Selecção, destaques e títulos da minha responsabilidade.

A revolução digital não trará, só por si, um mundo melhor.
A evolução do mundo digital está a criar diversas situações que é necessário prevenir. Um futuro que poderá ter de enfrentar uma grave crise de desemprego, em que a desigualdade será cada vez maior, em que se assistirá a uma crescente corrosão cultural devida às redes sociais e que assentará no capitalismo vigilante, que é o modelo de negócio dominante em Silicon Valley. […] O objetivo das empresas é ter lucro, não é fazer do mundo um lugar melhor. A única surpresa é que tanta gente não partilhe da minha opinião e tenha demorado tanto tempo até perceber o que estava e está a acontecer.

A educação deve focar-se em ensinar o que as máquinas não conseguem fazer.
Devemos procurar novos modelos de educação, focados em estimular a criatividade e a empatia, competências que são a mais-valia do ser humano relativamente às máquinas e à inteligência artificial. […] O algoritmo pode aprender leis, pode aprender medicina, pode conduzir carros, pode fazer contas, mas não pode sentir empatia nem ser criativo.

A adaptação ao mundo digital não é um problema geracional.
…penso que entendemos mal a geração a que chamamos de nativos digitais. Eles são os que percebem melhor do que ninguém o mundo digital e são os que estão a sair das redes sociais e são os que abraçaram a música analógica, com o vinil, e são os que redescobriram a escrita à mão e são os que pagam pela música que ouvem no Spotify. Por isso, tenho muita confiança nesta geração. Penso que a minha geração apaixonou-se pela tecnologia e somos nós os responsáveis pelo estado a que isto chegou, mas não veria as coisas de um ponto de vista geracional. Acho que não faz sentido.

Há muitos problemas por resolver, mas tudo o que há a fazer, pode ser feito.
Que os empreendedores criem novos produtos e companhias e soluções e modelos de negócio e resolvam a primeira vaga de problemas. Que os consumidores exijam melhores produtos e estejam disponíveis para pagar por estes e pelas suas buscas nas redes sociais e não serem vigiados o tempo todo. Que os cidadãos, desde investidores a advogados ou a músicos, etc., todos lutem por um mundo melhor […] É preciso muito trabalho de diversos quadrantes, ativistas dos direitos dos consumidores, como Nader, advogados que defendem os direitos laborais dos condutores de Uber, capitalistas responsáveis que investem em companhias e modelos de negócio mais sustentáveis, políticos como a comissária europeia Margrethe Vestager, que forçam mudanças. Não há uma solução simples e única, não há uma app para corrigir o futuro.

Na era da internet, continuamos a precisar de bom jornalismo.
Matou algumas formas de jornalismo, matou o jornalismo e os jornais locais, mas os grandes jornais estão a reinventar-se e a criar novos modelos de negócio, pagos. O grande desafio é beneficiar do debate em torno da democracia contemporânea, dar às pessoas mais informação e lutar contra as fake news. Penso que o modelo antigo, baseado na publicidade e nas vendas, não vingará, mas o modelo digital resulta em determinadas circunstâncias e há outros modelos a serem desenvolvidos. Precisamos do jornalismo a informar as pessoas acerca do mundo, de outra forma estaremos muito mais vulneráveis às fake news.

A ideia de um capitalismo bom, capaz de se auto-regular, continua a ser uma utopia.
Uma das ilusões de Silicon Valley é que se pode ser rico e bom ao mesmo tempo. Foi esse o erro: o miúdo que é multimilionário e também está a salvar o mundo – o modelo Mark Zuckerberg – é a verdadeira utopia. Nem é utopia, é só infantil. E é aqui que entra a regulação. O que eu defendo é que a regulação pode forçar os líderes empresariais a adotarem modelos de negócio assentes numa maior responsabilidade social. O ideário de Silicon Valley é o de que estas companhias podem, em conjunto, autorregular-se, nomeadamente no que diz respeito à inteligência artificial (IA), e que podemos confiar nelas para garantir que a IA não destrói empregos ou não constrói máquinas que subjuguem os humanos. Eu não acredito nisso. Mas também não sou um marxista que acha que as grandes empresas são más por definição. Penso que algumas companhias fazem o bem, dependendo da liderança e da indústria em causa e há oportunidades para isso. […] O socialismo falhou em todo o mundo. O que temos de manter é um equilíbrio entre capitalismo e democracia. Essa deve ser a preocupação. Podemos controlá-lo, regulá-lo, mas não vejo alternativa a este sistema.

Um patrão igual aos outros?

casanova.JPGPCP condenado a reintegrar funcionário crítico da “geringonça”

Miguel Casanova diz ter sido despedido sem justa causa e a sentença, conhecida esta quarta-feira, dá-lhe razão. O funcionário terá de ser reintegrado “nas mesmas funções que exercia” antes do conflito laboral. PCP vai recorrer.

É certo que trabalhar profissionalmente para um partido político se traduz numa espécie de militância a tempo inteiro e implica uma especial relação de lealdade e confiança com a direcção do partido. Sobretudo se as funções a desempenhar forem eminentemente políticas.

Mas a verdade é este tipo de lealdade, este “vestir a camisola”, também não está ausente da relação que muitas empresas querem cultivar com os seus trabalhadores. Pelo que, qualquer que seja a entidade para quem se trabalha, há um certo número de direitos e garantias de que o trabalhador, a parte notoriamente mais fraca da relação laboral, deve usufruir.

Neste caso, independentemente da razão que lhe possa assistir – e acredito que exista alguma – o que se vê da actuação do PCP é muito semelhante ao procedimento do patronato mais prepotente e abusador: retirada de funções e responsabilidades, extinção do posto de trabalho, transferência forçada para outro local de trabalho, resistência às decisões judiciais no sentido da reintegração.

Como disse, percebo que a situação possa ser delicada e incómoda também para o PCP, que não deseja manter em funções que implicam confiança e lealdade um funcionário em quem os dirigentes manifestamente não confiam e que mantém um litígio com o partido nos tribunais. Mas esperar-se-ia que encontrassem uma forma de resolver o problema sem recorrer a procedimentos que o PCP tantas vezes, e com inteira razão, denunciou e criticou. O partido que há mais tempo e de forma mais persistente tem defendido os direitos dos trabalhadores só deveria ter bons exemplos a dar nesta matéria.

És único e especial

Usa bibe para fazeres parte.

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Usa traje para fazeres parte.

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Usa fato e gravata para fazeres parte.

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És único e especial.

Ideia daqui.

Multa de 31 mil euros? Acho pouco…

cristina-tavares.JPGO Tribunal do Trabalho, em Santa Maria da Feira, confirmou, na tarde desta segunda-feira, a multa de 31 mil euros que a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) tinha aplicado à corticeira Fernando Couto, de Paços de Brandão, Feira, por assédio moral à trabalhadora Cristina Tavares.

No acórdão, a juíza decidiu como totalmente improcedente o recurso apresentado pela empresa, “condenando-se a arguida [Fernando Couto S.A.] pela prática da contraordenação muito grave”. A empresa terá que liquidar a multa, sendo a quantia paga, solidariamente, pelo presidente do conselho de administração e pela empresa. Como pena acessória, a Fernando Couto terá, ainda, que publicitar publicamente a decisão do tribunal.

Fica, assim, confirmado o assédio moral no local de trabalho, que poderá ser alvo de recurso para o Tribunal da Relação. Recurso que foi já confirmado pela corticeira: “vamos analisar a decisão e interpor recurso, pois não nos conformamos com a injustiça”, pode ler-se num comunicado da empresa.

Foi feita justiça ao comportamento miserável desta empresa e dos seus responsáveis, esperando-se agora que nenhum douto juiz desembargador venha desencantar algum pretexto para desagravar a pena que o tribunal da Feira aplicou.

Que a multa, ainda assim, me parece ser castigo brando: o assédio moral, os maus tratos e as humilhações infligidos à funcionária parecem suficientemente comprovados. Deveriam, parece-me evidente, fazer cair os seus autores sob a alçada do direito penal.

Durante o julgamento do recurso da coima, a inspetora da ACT confirmou que Cristina Tavares estava a trabalhar em “circunstâncias penosas” e em funções não apropriadas. Verificou que Cristina Tavares estava a exercer funções que não se enquadravam nas tarefas para a qual tinha sido reintegrada por ordem do Tribunal.

Disse que, para além de constatar que a trabalhadora, que estava a proceder a limpezas com um “aspirador volumoso e com algum constrangimento na sua deslocação”, teve, ainda, como tarefa, “empilhar paletes (…) e pegar em cinco sacos com cinco mil rolhas e peso aproximado de 20 quilos”. “Ora os retirava, ora os colocava”, explicou.

Afirmou, ainda, que lhe estava destinada uma casa de banho em exclusividade que “não lhe dava privacidade”. “Na sua casa de banho não havia papel higiénico, que tinha que o trazer de casa”.

Prevenir, prevenir, prevenir…

menor-em-risco.JPGAs conclusões de especialistas e responsáveis são convergentes: quando há menores em risco, a intervenção deve ser feita o mais cedo possível. A partir dos 12 anos, a actuação das CPCJ já requer a concordância do menor, que nem sempre aceita, nesta fase, o que vê como uma intromissão na sua vida. E a partir dos 15 surgem, sobretudo entre os rapazes, os comportamentos disruptivos que os podem arrastar para o mundo do crime, da droga, da marginalidade, da violência.

A solução passa assim por prevenir, sinalizando o mais cedo possível os casos de menores em risco e intervindo sem demora perante as situações detectadas. Só dessa forma se maximizam as possibilidades de sucesso. E se garante a cada criança e jovem maltratado ou negligenciado a protecção, a segurança, o bem-estar e o afecto a que todos têm direito.

Vale a pena ler na íntegra a peça do DN sobre o assunto:

Em 2018, as comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) acompanharam 60 493 menores, a maioria dos 6 aos 17 anos. Mas é no escalão dos 15 aos 17 que soaram os alarmes. De acordo com o relatório de atividade das CPCJ, ontem divulgado num encontro nacional que decorre até sexta-feira, em Tavira, os comportamentos de perigo na infância e na juventude estão a aumentar. Nos últimos cinco anos, a subida é de três pontos percentuais de ano para ano.

A presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), Rosário Farmhouse, disse num encontro com jornalistas que esta é uma situação preocupante e que diferencia a realidade de anos anteriores. “Não há grandes diferenças de um ano para o outro. A não ser um aumento registado relativamente à negligência e à exposição dos jovens a comportamentos de perigo“, dos quais “os progenitores nem sequer se apercebem. Depois, não os conseguem proteger e acabam por pôr em causa o seu próprio bem-estar.”

Das 13 905 situações de perigo diagnosticadas em 2018, os comportamentos de perigo na infância e na juventude aparecem em segundo lugar, com 18,7%. Ou seja, 2606 situações que envolveram menores chegaram às comissões de proteção devido a comportamentos considerados perigosos. Mais rapazes do que raparigas, sobretudo entre os 15 e os 17 anos, e por “situações de comportamento social incontrolável e indisciplinado, consumo de álcool, estupefacientes e adição às novas tecnologias”, referiu a presidente da comissão nacional.

A situação torna-se mais complexa porque a partir dos 12 anos os jovens já têm de dar o seu consentimento para serem acompanhados pelas CPCJ e nem sempre isso acontece. “Muitos fogem à assinatura de um acordo de proteção e promoção”, disseram-nos.

A presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Dulce Rocha, confirma que nesta faixa etária é difícil atuar, defendendo que a aposta para estes casos só pode ser a da prevenção, porque depois o caminho para muitos destes jovens é a delinquência. “Os jovens não nascem delinquentes, tornam-se, e se não tivermos cuidado, família, sociedade, técnicos, o caminho deles será o dos processos titulares educativos e a criminalização para alguns comportamentos”, sublinha.

Continuar a ler…

Lesados do BES atacam de novo

lesados-1.jpgDisfarçaram-se de militantes do PS, envergando camisolas do partido ou ostentando ramos de rosas vermelhas, para tentarem chegar ao primeiro-ministro à sua chegada a Coimbra. E conseguiram. Mas António Costa desvalorizou o incidente, sublinhando que 99% dos “lesados” já chegaram a acordo.

Respeito o direito à indignação de todos os lesados pelas maquinações fraudulentas que deram descaminho às suas poupanças no antigo BES. Mesmo deste pequeno grupo que, ao contrário dos 99% restantes, não aceitou ser ressarcido de apenas uma parte do dinheiro que aplicaram nos produtos tóxicos vendidos pelo banco.

O que me continua a fazer confusão é nunca ter visto estes manifestantes à porta do dr. Salgado ou de qualquer um dos outros responsáveis pelo banco que os enganou. Afinal de contas, na hora de aplicar o seu dinheiro, confiaram na marca Espírito Santo e isso lhes bastou – não fizeram questão de ler as letras miudinhas da aplicação financeira. Porque não é o ex-dono-disto-tudo, que foi quem traiu a confiança depositada no banco que dirigia, incomodado por aqueles que lesou?…

Se foi a Ricardo Salgado e aos seus comparsas que os depositantes confiaram as poupanças – e foram estes que as dissiparam, em negociatas ruinosas e “liberalidades” com os amigos e a família – por que carga de água hão-de ser agora os contribuintes a ressarci-los até ao último cêntimo?

Na verdade, há um respeitinho que nunca se perde por certos berços e apelidos. Basta comparar a reverência que ainda se nota em relação aos antigos donos do BES e o tratamento nada cerimonioso que se reserva a um arrivista como Berardo. Como por estes dias alguém disse, muito acertadamente, vivemos num país em que até para ser ladrão é preciso ser de boas famílias.

Contudo, por mais esperas e arruadas que se façam aos governantes, há um ponto em que não devem subsistir mal entendidos: o dinheiro que os lesados exigem a António Costa não é do BES, nem do PS, nem do Governo – é o dinheiro dos contribuintes!…

De ambulância ou de helicóptero, sôtor?

heli.gif…Ao fim destes anos, temos um SNS degradado e caótico onde: se morre em longas listas de espera de meses ou anos para consultas ou cirurgia, consoante a especialidade; há legionella que mata em hospitais públicos; doentes com cancro sem poder fazer exames e que morrem à espera; equipamentos alugados a hospitais privados por serem obsoletos ou estarem avariados; não há roupas de cama lavadas nem material médico suficiente e faltam medicamentos; não há acesso aos melhores tratamentos oncológicos por serem caros; as instalações hospitalares estão degradadas por falta de manutenção; não há pessoal de enfermagem ou médico suficientes por isso centenas de doentes são tratados em corredores ou salas de espera por um único enfermeiro… 

Nem de propósito: no mesmo dia em que no site do partido Aliança se publicava este arrazoado, dizendo cobras e lagartos do Serviço Nacional de Saúde, o Estado esbanjava recursos públicos para cuidar de que nada faltasse ao dr. Santana Lopes, depois do aparatoso acidente que protagonizou ao despistar-se na auto-estrada ao volante do seu automóvel.

Tratamento de luxo, de facto: digam os responsáveis do INEM o que disserem, a verdade é que não há memória de se deslocar um helicóptero para transportar um doente sem mazelas graves nem risco de vida, que chegaria mais depressa ao hospital na ambulância, com suporte avançado de vida, que já se encontrava no local do acidente, do que no helicóptero estacionado a quase cem quilómetros de distância.

No dia anterior, uma jovem de 23 anos despistou-se e caiu por uma ravina abaixo na Serra da Lousã. Aqui, apesar da gravidade do acidente, ninguém tratou de mobilizar o helicóptero de Santa Comba. E a jovem, com múltiplas fracturas, lá seguiu de ambulância, por sinuosas e esburacadas secundárias, para o hospital, onde veio a falecer umas horas antes de dar entrada, helitransportado, o doente VIP.

Embora a elite goste de se tratar bem, a verdade é que as cufes e as cruzes vermelhas não dispõem de meios para acudir a acidentes ou outras emergências súbitas que ocorram por esse país fora. E assim, quando o inesperado surge, ou as coisas se complicam, é aos hospitais públicos que até os liberais mais empedernidos acabam por recorrer.

Pelo que, no fundo, as duas realidades aqui em confronto – as críticas ao mau funcionamento do SNS e o tratamento diferenciado de alguns doentes, sem justificação clínica para tal – são, afinal de contas, duas faces da mesma moeda. O SNS poderia funcionar melhor se, além de ser adequadamente financiado, estivesse mais orientado para servir bem todos cidadãos. Usando os recursos disponíveis de acordo com as necessidades, sem que as cunhas, os conhecimentos ou a notoriedade pública de quem precisa de assistência fossem determinantes para ser bem tratado.

Afinal de contas, e como se comentava há pouco no Twitter…

Os Hospitais de Coimbra são, provavelmente, os melhores do país. Ainda ontem receberam uma vítima helitransportada e já lhe deram alta!