Greta Thunberg

As causas ambientais estarão certamente na primeira linha do debate e da acção política ao longo do século XXI. Mais do que confronto de ideias, assumir a absoluta necessidade de reduzir a pegada ecológica da humanidade é determinante para a nossa sobrevivência colectiva e um futuro sustentável do nosso planeta.

Dito isto, parece-me lamentável que as causas ecológicas precisem de recorrer à exposição abusiva de menores, como sucede com a conhecida activista sueca Greta Thunberg. O que vemos na imagem é a jovem a chorar, nitidamente perturbada, no final da sua intervenção no Parlamento Europeu.

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Greta sofre de depressão e de uma perturbação relacionada com a síndrome de Asperger. Uma razão acrescida para ser resguardada da exposição pública a que está a ser sujeita, quase como se fosse um animal de circo. É uma menor que precisa de ser cuidada e acompanhada, não de ser promovida a estrela mediática ou transformada no brinquedo novo de políticos oportunistas e dos media.

Não quero com isto dizer que não devam os jovens exercitar a cidadania activa, compreender os problemas e os desafios que ameaçam o seu futuro e intervir no espaço público em defesa de causas e ideais em que acreditam. Apenas me parece que neste caso se está a ir longe demais, usando e manipulando uma jovem generosa e obsessiva na sua luta ambiental, levando-a a assumir o peso de responsabilidades que não são suas. São, isso sim, dos adultos que se escondem na sua sombra.

Esquisitos com a comida

Nunca gostei de recorrer a reais ou imaginários conflitos de gerações para tentar compreender a realidade social.

Mas aqui tenho de reconhecer que o boneco está bem apanhado. Comer pode representar várias coisas, desde satisfazer uma necessidade básica a saborear um prato apetitoso e bem confeccionado. Ou simplesmente o pretexto para desfrutar de momentos privilegiados de convívio com colegas, familiares e amigos.

Contudo, nos tempos que correm, os fundamentalismos em torno da comida nos países ricos, onde nunca houve tanta quantidade e sobretudo tanta variedade de comida, estão a tornar o tema da alimentação numa fonte de discussão especialmente aborrecida.

E se comessem apenas e não chateassem?…

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O namoro no século XXI

Tá-se fixe, tá-se bem…

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Print de autor desconhecido, em circulação nas redes sociais.

Menina não joga

Cristiano Ronaldo joga à bola com o filho bebé.

O vídeo é, para uns, ternurento. Outros reparam sobretudo no potencial da criança, que parece ter herdado os genes futebolísticos do pai.

Mas há quem note uma outra coisa. Enquanto o menino joga à bola com o pai, a irmã, lá mais atrás, dá sinais de querer também entrar na brincadeira. Mas o pai, embevecido com a performance do menino, parece ignorar por completo a filha. Que acaba por pegar numa vassoura e dedicar-se a uma brincadeira mais… feminina.

Dir-me-ão que o pai nem reparou, não fez por mal ou com intenção de discriminar. Mas o vídeo é paradigmático: é com estas atitudes, tão naturalizadas que as pessoas nem se apercebem delas, que se criam e perpetuam os estereótipos de género.

Ladrões de Portugal

Se fosse verdade, daria uma colecção deveras interessante.

E bastante completa, pois devem conhecê-los a todos..

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“Sem os meus seguidores eu não sou nada”

jessy-taylorSer youtuber, instagrammer e influencer de sucesso: eis um modo de vida alternativo que atrai cada vez mais jovens. Uma das profissões ditas “do século XXI”, que tanto apela às “novas literacias” como se faz dependente das omnipresentes tecnologias da informação e das redes sociais.

Mas muitos destes percursos de sucesso assentam em bases muito frágeis, algo que se vai percebendo quando nos deparamos com a vacuidade, superficialidade e mediocridade da maior parte dos conteúdos que estes gurus da modernidade vão colocando online. E quando as coisas correm mal – por exemplo, quando em vez de seguidores começam a acumular detractores e os likes vão sendo substituídos por denúncias anónimas e mensagens de ódio – todo o mundo virtual em que assenta a sua vida pode desabar subitamente.

Foi o que sucedeu a Jessy Taylor, uma jovem estadunidense que depois de diversos fracassos na vida académica e profissional, construiu uma rápida carreira de sucesso no Instagram. Mas as sucessivas denúncias e encerramentos da conta acabaram por levar a jovem ao desespero. No vídeo que publicou no Youtube, a jovem, banhada em lágrimas, não consegue disfarçar a frustração e o desespero de quem, não tendo habilitações nem se sentindo talhado para cumprir um horário “das 9 às 5”, vê ruir a vida aparentemente fácil e despreocupada de uma influenciadora digital, vendendo produtos e ilusões, modas e tendências, aos seus milhares de seguidores.

“A minha conta de Instagram foi eliminada. Estou a tentar recuperá-la e a pedir ajuda a toda a gente, não sei porque é que não está a funcionar. Eu não sou nada sem os meus seguidores, não sou nada sem os meus seguidores”, diz a bloguer no vídeo, que tem cerca de 188 mil visualizações desde que foi publicado, na terça-feira.

“Eu quero dizer a toda a gente que me está a reportar para pensar duas vezes, porque está a arruinar a minha vida. Eu ganho todo o meu dinheiro online e não quero perder isso. Sei que as pessoas gostam de me ver em baixo e que seja como 90% delas, que trabalham das 9 às 17 horas, mas eu não sou. Não estou em Los Angeles para ser assim (…) Trabalhei muito para chegar onde estou e tirarem-me isso é a pior sensação do mundo”, continuou.

Na mensagem, Jessy admite ter sido prostituta no passado e ter trabalhado num restaurante McDonalds antes de se dedicar às redes sociais, sublinhando que não quer regressar a nenhum desses momentos da sua vida. Arranjar outra ocupação não está em cima da mesa. “O que alguns de vocês têm de perceber é que eu não tenho capacidade. Tenho 20 mil dólares em dívida à Universidade por isso nem poderia estudar mesmo que quisesse”.

“Antes de ter tudo o que tenho, era uma falhada”, rematou.

Em tempo de pausa lectiva, julgo estar aqui matéria para reflexão sobre os devaneios que andamos, colectivamente a incutir nas novas gerações. Quantos miúdos sonham hoje, por todo o mundo, com uma vida fácil, divertida, ganhando dinheiro sem esforço, a fazer e a promover aquilo de que gostam nas redes sociais? Quantos acham já hoje que não precisam de estudar porque a internet, que hoje lhes dá o entretenimento, amanhã lhes irá dar também o sustento?

E o duro choque com a realidade, como o irão suportar?…

Tudo em família

Explorada até à exaustão pela oposição de direita, com a prestimosa ajuda da comunicação social, a polémica baseada nas conhecidas ligações familiares entre ministros do actual governo evoluiu para as acusações de nepotismo praticado pelos governantes socialistas. E levou, para já, à demissão de um secretário de Estado e do primo que este havia nomeado.

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Contudo, esta está longe de ser uma realidade circunscrita a este governo ou ao partido actualmente no poder. As elites políticas e económicas sempre se reproduziram entre nós de uma forma bastante endogâmica. Num país pequeno, de recursos limitados e fortemente dependente do exterior, a solidez das fortunas e das teias de poder e de influência sempre dependeu muito da capacidade de controlar e instrumentalizar em benefício próprio o exercício dos cargos públicos.

Nem mesmo a ruptura política concretizada pela Revolução de Abril conseguiu contrariar, de forma duradoura, o poder das famílias de outrora. Menos de meio século volvido, temos hoje um Presidente que é filho do antigo ministro das Colónias de Marcelo Caetano. Boa parte dos influentes que usam hoje o duplo apelido pertencem a famílias que pontificavam no tempo do anterior regime. E nem a queda estrondosa do grupo BES, que continuaremos por muitos anos a pagar, teria a dimensão que teve sem a teia de dependências e cumplicidades que a família de banqueiros alimentou, durante décadas, à sua volta.

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Ainda assim, a democracia trouxe novos intervenientes à política e à gestão das maiores empresas e grupos económicos. Mas o que se verificou a seguir foi mais uma recomposição das elites, aglutinando velhos e novos protagonistas, do que uma mudança definitiva nas práticas dinásticas ou na traficância de influências.

Por isso, quando se aponta hoje o dedo ao nepotismo na política ou, ainda pior, a promiscuidade entre a política, o mundo empresarial, a justiça e a advocacia de negócios, não é difícil recordar um passado recente onde tudo isto se encontrava já bem presente.

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O que haverá hoje é, talvez, uma maior visibilidade das situações. A maior presença das mulheres na política, um maior fechamento dos partidos à influência da sociedade civil, um certo sentimento de impunidade que também existe – tudo isto facilita o recurso mais frequente à “prata da casa” nas nomeações políticas. O escrutínio e a denúncia pública por jornalistas e cidadãos informados, a partilha de informação através das redes sociais, fazem o resto.

Contudo, a censura pública não é suficiente. Uma mudança efectiva desta situação só acontecerá quando os cidadãos penalizarem fortemente, nas urnas, os partidos que insistem em levar a votos os representantes das velhas dinastias políticas passadas da validade. Quando a renovação política passar a ser, para todos os partidos, um imperativo de sobrevivência. E não apenas uma intenção piedosa de que rapidamente se descartam quando chegam ao poder.