Aulas online para alunos confinados?

Com dois filhos a frequentarem diferentes anos do 1.º ciclo, numa escola de Lisboa, Nuno Januário encontra energia para se rir da situação actual das crianças, em isolamento e impedidas de se deslocarem à escola por a mãe estar infectada com covid. “Um deles, no 4.º ano, está a ter aulas por Zoom, o mais novo, que está no 2.º ano e anda na mesma escola, não, porque apesar da boa vontade, a escola não tem Internet que funcione no pavilhão onde ele tem aulas”, conta ao telefone. Não é caso único.

Nuno Januário salvaguarda que, apesar desta discrepância, os filhos estão a conseguir acompanhar as aulas, graças às “professoras fantásticas” que ambos têm, mas diz que não pode deixar de chamar a atenção para o que diz ser “o ridículo da situação”. E salvaguarda que, no caso da criança mais nova, a quem é enviado um plano de trabalho diário, para compensar a ausência das aulas, o tempo só não é dado por perdido porque há um acompanhamento permanente por parte da mãe.

Para Carmo Teixeira, com duas filhas a frequentar diferentes níveis de ensino — uma está no 1.º ano a outra no 6.º, em duas escolas do mesmo agrupamento do Porto —, a relação das crianças com as aulas por estes dias também está a ser complicada. Ela e a filha mais nova estão infectadas com covid, a filha mais velha não, mas também não pode ir à escola, por viverem todas juntas. Nenhuma está a ter aulas online. Rita, a mais velha, vai-se desenrascando com os resumos que “alguns” professores enviam do que vão dando nas aulas e com o material que vai sendo colocado na plataforma Classroom. Mas, apesar de o isolamento estar reduzido a sete dias, já percebeu que vai ter de fazer um esforço extra para não ficar para trás. “Os testes estão a aproximar-se. Tenho um de Português no dia 2 de Fevereiro e tenho imensa matéria de gramática que não estou a entender muito bem. Vou ter mesmo de aproveitar as últimas aulas”, diz a aluna, que espera regressar à escola nesta quinta-feira.

Julgo que ninguém saberá ao certo quantos milhares de alunos estão presentemente em confinamento, impedidos de comparecer presencialmente nas aulas que continuam a funcionar. Mas duas coisas parecem certas: são muitos, e o seu número continua a aumentar.

Nestas situações, e embora no discurso oficial se continue a garantir que é pobre e muito limitada a escola à distância, nem pais nem responsáveis ministeriais hesitam em responsabilizar as escolas por encontrar formas de os alunos retidos em casa continuarem a acompanhar as aulas. Uma exigência que, no plano dos princípios faz todo o sentido, mas na prática esbarra em dificuldades por vezes intransponíveis.

Um dos problemas decorre da falta de recursos informáticos. Já tivemos dois confinamentos prolongados, mas nem assim o ME foi capaz de acordar para a necessidade de equipar as escolas com meios tecnológicos dignos do século XXI e da propalada sociedade de informação. A verdade é que não basta ligar uma câmara a um PC obsoleto para passarmos a ter ensino online: é preciso que as ligações tenham velocidade suficiente para garantir a transmissão e que o próprio computador aguente a sobrecarga de tarefas – é que em muitos casos ele já está a ser usado como recurso pedagógico na aula. Aqui, cumpre recordar que o relativo sucesso do ensino online decorreu, entre outros factores, do facto de a generalidade dos professores ter disponibilizado gratuitamente os seus próprios recursos, algo que o ME, numa atitude vergonhosa, nunca foi capaz de reconhecer e valorizar.

Mas há uma outra questão que decorre da gravação das aulas, para que os alunos possam acompanhar em casa: a reduzida eficácia, já amplamente demonstrada, de um ensino à distância que se limita a replicar as aulas presenciais. Garantir a aprendizagem dos alunos confinados, durante o período de isolamento, implicaria o desenvolvimento de planos de trabalho e materiais próprios, algo que todos os professores fizeram durante os confinamentos. Mas que, agora, implicariam para muitos, e à medida que se vulgarizam as idas e vindas dos isolamentos profilácticos, uma insustentável sobrecarga de trabalho. E pergunta-se: justifica-se por uma semana de faltas à escola, que é o tempo que duram quase todas estas ausências?

Não havendo uma resposta definitiva para todas estas questões, talvez um meio termo e alguma sensatez nos levem às melhores soluções: cada escola, turma, disciplina terá as suas condições e especificidades próprias. O que nuns casos é possível fazer, noutros ficar-se-á pelo desejável. O que funciona bem num certo contexto talvez não resulte noutro. Perante as dificuldades e incertezas desta busca apressada de soluções, que tal confiar um pouco, para variar, nas escolas e nos professores?

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