Duas semanas de E@D

Num balanço muito provisório, diria que as duas primeiras semanas de ensino a distância estão, de um modo geral, a correr melhor do que na experiência do primeiro confinamento. É o que sinto como professor a dar aulas a partir de casa e é também o sentimento que encontro, largamente dominante, entre os colegas que ouço e leio,

Faz sentido que assim seja. Desde logo, porque a experiência e o bom senso têm-nos ajudado a evitar os erros e as armadilhas que não soubemos evitar quando mergulhámos de cabeça, há quase um ano atrás, no desafio do apropriadamente chamado ensino remoto de emergência. Percebeu-se que as teorias que recomendam o reforço do trabalho autónomo em contexto de ensino não presencial têm evidentes limitações. Muitos alunos, sobretudo os mais novos, os menos motivados, os mais desacompanhados ou com maiores dificuldades de aprendizagem, pura e simplesmente desligam da escola a distância quando são deixados por sua conta. E se também não é recomendável replicar integralmente as aulas presenciais na modalidade online, há um equilíbrio entre momentos síncronos e assíncronos que este ano, regra geral, tem funcionado muito melhor.

Depois, os próprios alunos. Quase todos mais à-vontade no domínio das tecnologias, mais atentos e participativos nas sessões, mais aplicados e cumpridores nas tarefas realizadas. Quase todos sentem a falta da escola e do convívio com os amigos e da presença física dos professores, têm o regresso no horizonte e mostram-se dispostos a contribuir para que este período de confinamento não resulte, em termos académicos, como tempo perdido. Até a polémica das câmaras desligadas, que marcou o final da temporada anterior de confinamento escolar, parece agora ter-se desvanecido.

O grande falhanço que há a registar é o do Ministério da Educação. Insensível, como tem sido sempre, às reais necessidades das escolas, alunos e professores, resolveu insistir no que ninguém lhe pediu – uma dose de reforçada de aulas televisivas que ninguém vê – em vez de fazer o mais necessário e urgente: fornecer os equipamentos capazes de permitir o acesso às aulas a partir de casa aos alunos sem meios tecnológicos. Insistindo no óbvio – nada substitui o ensino presencial – os responsáveis mostraram-se incapazes de perceber que a opção pelo ensino a distância não surge por razões pedagógicas, mas como uma necessidade absoluta imposta pelo alastrar da pandemia. Sabendo-se que o E@D promove desigualdades e exclusão, o desafio é contrariar esta tendência, ultrapassando dificuldades e constrangimentos e fornecendo a alunos e professores os meios para que o período de confinamento escolar seja, ainda assim, aproveitado da melhor forma possível. Na prática, só lhes era pedido que fornecessem computadores e ligações à internet a alunos e eventualmente a professores que os não têm. Desde que, em Março do ano passado, foram notadas estas carências, tiveram quase um ano para resolver o problema. Falharam miseravelmente.

Computadores para professores? Não há, nem vai haver…

Nada de novo na frente educacional: alunos e professores enfrentaram, no último ano lectivo, o desafio da escola digital. O confinamento imposto ditou o recurso àquilo que apropriadamente se chamou um ensino remoto de emergência. De início pouco mais existia do que empenhamento e vontade de aprender, mas rapidamente o sentido de responsabilidade e o profissionalismo dos professores permitiram erguer e manter em funcionamento planos de ensino à distância que, se estiveram longe da perfeição – aliás inalcançável num modelo de escola de massas não presencial – também não foram o fiasco que alguns vaticinaram.

Quem não esteve à altura das suas responsabilidades foram os responsáveis ministeriais, demonstrando que a retórica neo-eduquesa em torno das competências digitais não passa de conversa da treta. Serve de mote para denegrir os “professores do século XX” mas não motiva o ME a fazer a sua parte, para que as tecnologias educativas do século XXI cheguem efectivamente às escolas portuguesas.

Felizmente a comunicação social vai começando a perceber o embuste, antecipando uma maior percepção, pela opinião pública, do zero à esquerda que são as políticas educativas deste governo. E e até Filinto Lima, fiel ao estilo ziguezagueante das suas intervenções públicas e sempre atento às mudanças do vento, já vai sentindo a necessidade de ajustar o discurso…

Na perspetiva de Filinto Lima, “o ministério devia dar indícios de distribuição de computadores para professores e escolas”. “Somos mais de 100 mil professores, nem um teve a título de empréstimo facultado pelo Ministério da Educação”. “Se o professor não tem direito a uma cedência temporária é desmotivador para algumas pessoas”, completa.

Segundo o presidente da ANDAEP, tanto professores como alunos reforçaram “as competências digitais” e recorrem “cada vez mais ao digital”. No entanto, à chegada às escolas, “os computadores são os mesmos, não são melhores”, assegura Filinto Lima.

Como muitos docentes não têm possibilidades de trabalhar a partir de casa vão para as escolas, uma situação relatada por Filinto Lima, mas que também já tinha sido denunciada pela FENPROF.

Apesar de tentarem contornar o problema de não terem material suficiente em casa para trabalhar, os professores não têm mais sorte quando se deslocam à escola sendo que as condições dos materiais informáticos nas escolas não são de grande qualidade, segundo a ANDAEP

Um Apagão Pela Educação

A iniciativa, nascida nas redes sociais, pretende dar visibilidade e força a um protesto que até aqui tem vivido sobretudo de posições individuais: o ensino à distância decretado pelo Governo está a fazer-se por conta dos equipamentos dos profissionais da Educação. O ME não só não forneceu quaisquer recursos para o teletrabalho como nem sequer houve a dignidade, da parte dos seus responsáveis, de perguntar aos professores se não se importariam de assegurar o serviço educativo, a partir de casa, com os seus próprios meios. Algo que, como deveria ser óbvio, não têm obrigação de fazer. Também não está prevista qualquer compensação, ainda que simbólica, por esta requisição não assumida de bens privados para a prestação de um serviço público em estado de emergência. E aos professores que declararam não poder ou não querer emprestar o seu material, a resposta foi lacónica: venham então teletrabalhar para a vossa escola!

É neste contexto que surge a iniciativa de estimáveis colegas que, através de paralisações simbólicas, mas coordenadas, do E@D feito a partir de casa, pretendem evidenciar os frágeis alicerces em que assenta este ensino remoto onde a boa vontade e abnegação de quem ensina contrasta com a incompetência e a displicência de quem nada preparou para a eventualidade, mais do que previsível, de um segundo confinamento. Na base, um princípio inatacável: se são nossos os computadores e as ligações à internet, então eles só funcionarão se e quando nós quisermos…

Pessoalmente, não tenho dúvidas acerca da justeza dos princípios invocados. Mas já não estarei tão seguro da oportunidade e da eficácia de uma luta que arrisca dividir os docentes – algo que tem sido visível nas discussões nos grupos de professores – e não ser bem compreendida pela opinião pública. No entanto, divulgo com todo o gosto a iniciativa dos colegas e estarei atento às futuras concretizações, reacções e novos desenvolvimentos.

Um grupo de cidadãos, que exerce a profissão docente, apela aos restantes profissionais de educação, que estão em sua casa a usar, sem compensação, o seu próprio equipamento e condições técnicas para realizar ensino à distância, que adiram ao seguinte protesto, por agora, ainda só simbólico:

  • nos dias 18 e 19 de Fevereiro, quinta e sexta feira, desligar, pelas 9.15h, durante um período de 15 minutos, o equipamento de que são donos e suspender, nesse período, a colaboração com o disfarce de falta de preparação, que tem impedido a opinião pública de perceber que o ministro Brandão mente ao dizer que tudo corre bem e tudo estava preparado.
  • Na semana seguinte apelamos a passar a 2 períodos diários de desligamento de 15 minutos, em horas diferentes, ponderando, na semana a seguir, passar a 3 períodos e, assim sucessivamente.

Apelamos a que o protesto se mantenha até o governo perceber que tem de respeitar e agradecer aos professores a sua boa vontade e colaboração, que tem ajudado a que não se perceba, em nome dos alunos, o desgoverno na educação.

Este protesto, que é simbólico, e visa evitar o custo para os alunos do desligar total, que é legal e legítimo, pelos seus donos da infraestrutura digital do ensino à distância, também serve para que a comunicação social fale de todos os problemas da Educação, de alunos e de professores, num ângulo mais realista e menos desfocado pela propaganda frenética do ministro.

O protesto deve manter-se até o governo negociar com todas as organizações sindicais, em conjunto, os problemas que preocupam os professores e que se agravam de há 15 anos para cá: questões de salário e de respeito pela carreira, condições de trabalho, horários, aposentação, concursos, tratamento dos contratados, avaliação, falta de recursos para os alunos e más condições de trabalho para os assistentes operacionais, imagem pública da classe e sua degradação pelas mentiras junto da opinião pública.

O texto completo pode ler-se no post original. Para os interessados nos aspectos legais e formais deste protesto e esclarecimento de dúvidas, os organizadores prepararam um conjunto de FAQs de leitura fácil e esclarecedora, que pode ser descarregado daqui.

Estudo em casa é por conta da casa!

Da casa dos professores, note-se. Os resultados do inquérito promovido pela Fenprof e hoje divulgado confirmam aquilo que empiricamente já se sabia: é com os equipamentos e as ligações à internet dos próprios professores que o ensino à distância está a ser assegurado. Desobrigando-se o ME, como vem sendo habitual, de assumir quaisquer responsabilidades nesta matéria. Seja no fornecimento de equipamentos e ligações, seja compensando de alguma forma os professores que aceitam colocar os seus recursos privados a prestar serviço público.

Apesar da enxurrada de dinheiro que se anuncia para a “transição digital”, o ME nem sequer foi capaz de organizar, em tempo útil, um plano de formação nas novas tecnologias educativas para os professores que sentem a necessidade premente de aperfeiçoar competências digitais. E basta ver a quantidade de oferta de formação paga que por aí vai florescendo para perceber que este é mais um negócio que, por inépcia do ministério, alguns professores se sentem forçados a alimentar.

Recorde-se que tudo isto – equipamentos de trabalho e formação para os usar adequadamente – são obrigações das entidades patronais; não têm de ser suportadas pelo próprio trabalhador. E não são só os professores ou os seus sindicatos que o dizem. É o que está consagrado no Código do Trabalho, uma lei que o Estado impõe a todos os patrões mas de que o ME continua a desobrigar-se.

Apenas 5% dos professores receberam equipamento necessário para dar aulas a partir de casa, segundo um questionário da Fenprof que revela que 95% dos docentes usa o seu próprio equipamento e passou a ter despesas acrescidas.

A Federação Nacional de Professores (Fenprof) concluiu que “valeram os professores para que os alunos voltassem às aulas”, a partir do inquérito divulgado esta segunda-feira, ao qual responderam mais de quatro mil docentes.

Para a Fenprof, o ensino à distância – que foi retomado há uma semana – está a funcionar graças aos docentes, “uma vez que, dez meses depois das promessas do primeiro-ministro, as escolas continuam sem recursos para uma resposta que, sendo de emergência, é fundamental quando o ensino presencial, por razões excecionais, tem de ser suspenso”.

Segundo o inquérito, 95% dos professores estão a trabalhar em casa com o seu equipamento e a maioria teve de comprar um computador, uma vez que em 81% das casas há, no mínimo, duas pessoas em teletrabalho simultâneo.

Também 95% dos docentes disseram ter despesas acrescidas, não incluindo a compra de computador, mas sim o uso da internet, telemóvel e outros recursos indispensáveis ao trabalho remoto.

Postal electrónico

De acordo com o Código de Trabalho, compete às entidades empregadoras públicas e privadas garantir aos trabalhadores em teletrabalho os equipamentos, incluindo a instalação e manutenção, bem como o pagamento de despesas realizadas com esta modalidade de trabalho. Acontece, no entanto, que o Governo, na qualidade de representante da entidade empregadora Estado, não respeita esta obrigação legal. Acresce que as condições para que o ensino a distância decorra com alguma normalidade, não provocando problemas ainda maiores do que aqueles que já lhe estão inerentes, não se esgotam nos recursos materiais. Por exemplo, seria necessário assegurar apoio aos docentes com filhos menores de 12 anos, o que também não acontece.

Recorda-se que, há quase um ano, o Primeiro-Ministro prometia que, no ano letivo seguinte (o que decorre),  não se repetiriam os problemas assinalados em março de 2020 com o recurso ao ensino a distância porque, em setembro, todas as escolas teriam computadores e Internet móvel de banda larga disponíveis para todos os alunos e professores. Provavelmente, aquela promessa do Governo destinava-se a sair da situação difícil em que tinha evidentes responsabilidades, mas, tendo sido feito tão pouco no sentido de honrar o compromisso, somos levados a concluir que os governantes decidiram acreditar na sorte em vez de investir no futuro.

A reivindicação é inteiramente justa e tem todo o meu apoio. Depois de vários posts onde se denunciou a falta de apoio aos professores em confinamento e a desresponsabilização do ME em garantir meios e condições adequados para trabalhar em casa, resta-me divulgar a iniciativa da Fenprof e o seu convite aos professores e educadores para que subscrevam o postal electrónico que será remetido ao Primeiro-Ministro e ao Ministro da Educação.

Poliglotas à distância

E@D no primeiro ciclo com duas línguas estrangeiras, Inglês e… Mandarim?

Como se vê pelo horário reproduzido no blogue Primeiro Ciclo, a autonomia das escolas dá para tudo…

Zoom matinal

Na saga do ensino à distância, mais um cartoon do nosso colega Paulo Serra.

Ensino remoto de emergência, v2.0

“Uma boa aula à distância não pode ser igual à presencial, porque os níveis de concentração não são comparáveis. O professor tem de recorrer a recursos diferenciados e mais atrativos. Devemos variar as estratégias de forma a fomentar a autonomia do aluno”, sublinha. A professora de Espanhol não esquece, também, o papel fulcral do docente no bem-estar emocional dos alunos. “É importante que os alunos sintam que o professor está lá e que se preocupa com o estado emocional deles”, conclui.

Marco Bento, investigador da Universidade do Minho, e especialistas em e@d também refere ao DN que os professores estão agora mais preparados para o desafio, contudo, teme que alguns erros cometidos em março do ano passado não sejam corrigidos. “A minha perspetiva é que não existirá ensino à distância, uma vez mais, mas a versão 2.0 do ensino remoto de emergência. Nesse caso, os professores dominam melhor a tecnologia, o que os pode tornar mais ágeis, mas a questão de fundo permanece inalterável, ou seja, o conhecimento de práticas pedagógicas, que mais do que ativas possam ser interativas com os alunos. Não posso deixar de referir, que temo que a versão 2.0 não seja mais do que um upgrade substancial, porque grande parte dos planos de ensino remoto de emergência dos agrupamentos continuam a ser pautados por cronogramas e horários muito similares ao presencial, antevejo a continuidade da replicação, ou digitalização, de um ensino presencial”, explica.

José António Moreira, docente da Universidade Aberta, deu formação a milhares de docentes nos últimos meses e partilha da opinião de Marco Bento. Para o especialista, “não basta ligar o PC e não podemos passar essa má imagem”. Há uma série de equívocos quando se fala em e@d. O que está a acontecer não é ensino a distância, mas sim remoto ou digitalizado. Há uma transferência da realidade das práticas da escola física para a ligação de uma câmara. Nada contra isto, mas isto não é o que preconizamos nos modelos de educação à distância. Uma boa aula tem uma série de condições obrigatórias na geografia virtual. Usa-se o termo e@d sem o estar a implementar. Não houve ajustamento do e@d, mas uma transferência online”, defende.

O DN toca no ponto fulcral da problemática do ensino à distância: além das suas limitações óbvias, os bons resultados que ainda assim pode ter dependem de se adaptarem metodologias e estratégias a esta modalidade de ensino.

Mas de tanto se repisar inutilmente a ideia de que nada substitui a escola presencial, caiu-se num erro de palmatória que a experiência do primeiro confinamento nos deveria levar a evitar: se o ensino presencial é que é bom, então vamos tornar as sessões online o mais próximas possível das aulas presenciais, a começar pela organização escolar. Quando amanhã de manhã for dado o pontapé de saída de mais uma temporada de ensino remoto, muitos alunos terão um horário escolar muito semelhante ao da escola presencial. Nalguns casos, com o tempo destinado às sessões síncronas a chegar aos 100% da mancha horária.

A peça do DN faz uma análise aprofundada mas esclarecedora das dificuldades de implementar um verdadeiro ensino à distância quando nos limitamos a tentar replicar as práticas da sala de aula, como se fosse possível, por videoconferência, manter os mesmos níveis de comunicação e concentração que se conseguem nas aulas tradicionais. E salienta um dado pertinente: o uso de plataformas e ferramentas de comunicação à distância vai estar cada vez mais presente nas nossas vidas futuras. Há uma hibridação entre ambientes físicos e virtuais que vai fazendo o seu caminho, e há evidentes potencialidades na E@D para promover a muito falada transição digital que não é seguro que saibamos aproveitar.

A grande confusão

Professores mandados para a escola dar aulas online a alunos sem meios para lhes aceder: está a confusão instalada no arranque da segunda temporada de ensino à distância. Uma situação indesculpável depois de a experiência do primeiro confinamento ter permitido identificar falhas e insuficiências que agora deveriam ter sido prevenidas. A começar, naturalmente, por dotar de meios técnicos adequados – sobretudo computadores e acessos à internet de banda larga – as comunidades escolares.

As escolas, ainda assim, prepararam os seus planos de ensino à distância. Só não puderam contar com os equipamentos informáticos inúmeras vezes prometidos para alunos e professores, mas que o ME não há meio de conseguir fazer chegar às escolas. Do lado do ministério, incompetência rima com prepotência: não fazem o que lhes compete, desrespeitam as normas do estado de emergência estabelecidas pelo próprio Governo e, com a desfaçatez que se vai tornando habitual, lançam culpas e empurram responsabilidades para terceiros.

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof) denunciou esta sexta-feira um contexto de “confusão instalada” em algumas escolas, a poucos dias de retomarem o ensino a distância, de acordo com relatos que recebeu nos últimos dias.

“Neste momento está a confusão instalada”, sublinhou Mário Nogueira em conferência de imprensa, referindo que entre as queixas que a começou a receber desde quinta-feira há casos de professores chamados para dar aulas presenciais numa espécie de regime misto.

Nestas situações, relatou, as escolas estão a convocar docentes para irem à escola dar aulas presenciais a alunos que não têm como aceder às sessões ‘online’ e, simultaneamente, a todos os restantes alunos da turma que estão em casa.

“Perante isto, o próprio objetivo de passar a ensino a distância, que é as pessoas estarem confinadas e não andarem a confinar, perde-se”, sublinhou o dirigente sindical.

Professores desconfinados em manchete no DN

O documento intitulado “Carta aberta dos professores desconfinados à força”, refere-se aos docentes que, por exemplo, só têm um computador em casa, a ser partilhado pelos filhos que também estão em ensino à distância. “E tanta preocupação com a desigualdade e, no caso dos professores com filhos (ou que só têm recursos para um computador para a família toda, para continuarem a trabalhar) porque é que o seu “patrão” não cumpre a lei e não lhes entrega material para trabalhar, para que não tenham de escolher entre o estudo dos filhos e o trabalho?”, questionam os autores da carta.

O DN sabe que, nas reuniões entre diretores de agrupamentos e o secretário de Estado da Educação, João Costa, o responsável foi questionado sobre de que forma estes responsáveis teriam de atuar nos casos em que os professores que não têm, não podem ou não querem usar o seu material para dar aulas . “O secretário de Estado disse que aqueles que não têm condições para estar em teletrabalho têm de ir para as escolas”, explicou ao DN um dos diretores presentes na reunião.

Uma luta inoportuna, dirão muitos. No entanto, a exigência de que o Estado forneça aos professores das escolas públicas as mesmas condições para o teletrabalho que impõe aos empregadores privados está a fazer o seu caminho entre a classe docente e até, espantosamente, na opinião pública, tendo chegado hoje à primeira página do DN.

A verdade é que fornecer computadores, ligações robustas à internet e outras infraestruturas necessárias ao ensino online aos professores em teletrabalho em nada interfere com o combate à pandemia, não perturba o funcionamento dos hospitais nem cria constrangimentos ao plano de vacinação contra a covid-19. Os que dizem que agora a reivindicação não é oportuna são, regra geral, os mesmos que acham que tudo o que soe a acção reivindicativa nunca é oportuno. Sobretudo se o seu partido estiver no poder.

Há um ministério inteiro para tratar dos assuntos da Educação, e se este não faz o seu trabalho, inventando problemas e complicações que ninguém pediu em vez de resolver os constrangimentos reais que comprometem o funcionamento do sistema e agravam as desigualdades no acesso à Educação, é preciso que se saiba. Se, para salvar a face dos incompetentes que não prepararam um segundo confinamento mais do que previsível, obrigam professores a violar as leis do Estado que impõem o teletrabalho obrigatório, esta condenação a sair de casa e eventualmente “apanhar covid” precisa de ser denunciada.

Mesmo sendo certo que a maioria dos professores não levantam grandes objecções ao uso do seu próprio equipamento ao serviço da profissão, isso não os deve impedir de reconhecer o direito que assiste aos colegas que, pelas mais variadas razões, não podem ou não querem usar os seus computadores. Muito menos devemos compactuar com o misto de displicência, insensibilidade e arrogância com que os responsáveis do ME têm tratado esta questão.