A cruzada contra a “ideologia de género”

moiteiro.JPGO presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, António Moiteiro, defendeu nesta terça-feira que é preciso formar professores e catequistas para responder ao que classificou como “ideologia de género”, noticia a agência de informação católica Ecclesia.

“Estas distinções, o que significa o ser humano na sua essência, a construção do ser humano, tudo isso passa por uma formação antropológica séria, como também todos os outros campos da teologia”, escreve a Ecclesia, citando declarações do bispo de Aveiro no lançamento do novo ano lectivo e pastoral.

[…]

No final de Agosto, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) voltou a dar destaque no site oficial à carta pastoral “a propósito da ideologia de género”, publicada em 2013, no qual questiona a “difusão” de um pensamento que pretende secundarizar “a identidade sexual como condição natural e biológica que nos faz ser mulheres ou homens, dando a primazia à construção de uma identidade, que cada um cria para si mesmo, independentemente do sexo com que nasceu e cresceu.” “Assim ficaria aberta a porta para a legitimação das uniões homossexuais e para o aparecimento de diversas alternativas à família de sempre, já não constituída por uma mãe, um pai e filhos, com raízes na sexualidade, matriz da nossa identidade”, lê-se no comunicado da CEP sobre o documento.

Claro que a Igreja Católica tem, como qualquer outra confissão religiosa, o direito de defender e propagar as crenças e os valores da sua religião. Para alcançar esse fim, precisa naturalmente de dar a devida formação ao clero e restantes propagadores da Fé, como é o caso dos catequistas e dos professores que, nas escolas públicas, ensinam a religião e a moral católicas.

Mas já é estranho que, saindo do campo estritamente religioso, a Conferência Episcopal pretenda transformar os professores de EMRC numa espécie de soldados de uma cruzada contra direitos constitucionalmente reconhecidos, a todos os cidadãos, pelo mesmo Estado que paga, àqueles professores, o ordenado ao fim do mês.

E de nada serve invocarem, como o faz a direita mais reaccionária e conservadora, a “ideologia de género”. O que está em causa não é qualquer ideologia, mas apenas a constatação que a identidade de género de cada indivíduo, sendo à partida determinada pelo sexo com que se nasce, é também uma construção social e cultural.

Como aliás a Igreja Católica deveria saber melhor que ninguém. Basta olhar para o celibato forçado em que vivem padres e freiras para perceber que essa condição decorre, não de qualquer limitação biológica, mas de uma imposição do direito canónico. Uma construção cultural, portanto.

A verdade é que uma instituição que continua a exigir o voto de castidade aos seus membros, obrigando-os a “casar com Deus” e a reprimir as suas pulsões sexuais, carecerá sempre de moral para criticar, a terceiros, a construção de uma identidade de género distinta da “condição natural e biológica” inicial.

10 thoughts on “A cruzada contra a “ideologia de género”

  1. O celibato não é imposto aos membros da Igreja, é uma opção individual de alguns, exigida sim para acesso a determinadas funções, como ser padre (e mesmo aí não é universal); entrar numa comunidade celibatária como frades e freiras é evidentemente uma escolha, não é uma imposição. O que seria estranho é que para entrar numa comunidade celibatária essa condição fosse opcional. Há também comunidades cristãs em que casais vivem em conjunto. Esse não é certamente um argumento para discutir as indicações dos bispos sobre “ideologia de género”.

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    • A questão é que o celibato imposto como condição para o ingresso, quer no sacerdócio quer numa ordem religiosa, nem sequer encontra fundamento bíblico. Faz parte das chamadas “tradições da Igreja”, quase todas rejeitadas pelas outras igrejas cristãs, que admitem o casamento do clero. E nesse sentido digo que é uma construção cultural.

      Da mesma forma que respeitamos e não vamos “combater” o direito de a Igreja católica se organizar como entender, também não me parece que a Igreja se deva intrometer no que diz respeito à identidade de género dos cidadãos não católicos nem contestar os direitos que o Estado laico lhes confere nesta matéria.

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    • O João só reforçou o argumento do António. Se o celibato não é uma imposição mas uma opção individual, que não assenta na nossa natureza biológica mas numa mundividência espiritual e religiosa, então é necessariamente uma construção social e cultural. O mesmo acontece ao conceito de família, igualmente uma construção social e cultural, ao conceito de monogamia, entre outros. Ao contrário do que o João diz, este é um argumento central para discutir as indicações dos bispos. Afinal o precedente sobre essa matéria foi aberto, precisamente, pelos críticos de agora.

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  2. Isso equivale a dizer que as comunidades vegetarianas impõem aos seus membros a “reprimir as suas pulsões” naturais para comer carne, como os humanos sempre fizeram. As comunidades vegetarianas não impõem nada, simplesmente se juntam ao “clube” as pessoas que se sentem bem assim. E se não concordarem, não se juntam àquela comunidade. As comunidades religiosas também.

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  3. Num estado laico (repito, laico ), a existência nos currículos escolares de uma disciplina como a EMRC levanta questões merecedoras de alguma atenção.

    Exactamente por ser laico, não compete ao mesmo estado promover ou fazer a apologia de qualquer religião ou credo. Muito menos tomar a seu cargo o respectivo financiamento , o qual consiste , neste caso, na atribuição de generosos ordenados ( e pensões de reforma) aos respectivos professores – pagos com o dinheiro dos contribuintes, evidentemente . Garantir a liberdade religiosa é coisa bem diferente.

    A minha modesta opinião escuda-se, designadamente, no parecer a este respeito emitido pelo reputado constitucionalista Professor Vital Moreira.

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  4. Voltando ao tema:

    Com a proverbial hipocrisia , talvez tentando legitimar do ponto de vista constitucional a inclusão desta disciplina – que “esconde” na sua sigla a expressão Religião Católica , os apaniguados e beneficiados peroram. Que não senhor, que a questão estritamente religiosa é de somenos, que aqui são inculcados apenas valores universais a seguir por qualquer pessoa de bem, que são organizados “retiros” de grande alcance formativo, etc. e tal. Pois.

    E para que ninguém “meta foice em seara alheia” , atente-se nos seguintes pormenores:

    a) o programa da dita é da exclusiva responsabilidade da Igreja Católica .

    b) os professores são designados pela Diocese ( o estado não “mete bico” )

    c) ao estado compete – unicamente – pagar . E não “bufar”.

    (

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  5. Volto a dizer a dizer que o celibato é uma escolha inerente a determinadas funções e não é uma imposição. Sobre organização social, todos os grupos têm direito de manifestar os seus pontos de vista, os protetores dos animais e os defensores das touradas, para dar um exemplo. Mas há grupos mais ou menos relevantes, consoante a sua representatividade, a sua história e a sua capacidade de influenciar. Os bispos representam um grupo com algum peso na sociedade pelos vários motivos: número de membros que representam, peso histórico e capacidade de influenciar. Por isso não acho descabido que tenham posição sobre um tema novo que perturba a ordem estabelecida. Continuo é a não ver em que é que o celibato (que não é um exclusivo católico, nem cristão, nem religioso) possa ser argumento para dizer que os bispos não têm que manifestar opinião sobre a nova polémica.

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