A picareta falante da Educação

joao-costa.JPGPortugal tem uma evolução, na educação, admirável. Temos 45 anos de escola democrática e o que foi conseguido é muito, embora por vezes não tenhamos noção disso. Estamos sempre a falar mal das escolas, dos professores, dos alunos e dos pais, mas as taxas de escolarização, alfabetização, insucesso escolar e abandono precoce têm evoluído de forma notável. Temos muitas conquistas: basta ver que, por exemplo, hoje, as taxas de frequência dos ensinos secundário e superior são extremamente mais elevadas do que antes do 25 de Abril. Temos, contudo, ainda questões para resolver e uma delas é o facto de sermos um dos países onde os alunos reprovam mais: o cerne da questão não é a retenção por si só, mas sim o facto de esta estar associada à condição socioeconómica dos alunos. Ou seja, o insucesso escolar é um problema de justiça social porque já respondemos bem aos mais favorecidos e não encontrámos resposta para aqueles que mais precisam da escola.

A extensa entrevista de João Costa ao jornal i soa já a final de mandato. O secretário de Estado da Educação faz o balanço das realizações do governo na área educativa, destacando naturalmente aquelas em que esteve especialmente envolvido, como é o caso do novo regime de inclusão e da flexibilidade curricular. Evoca os tímidos passos do ME naquilo que seriam medidas correctas e urgentes, mas que ficaram no campo das boas intenções ou com uma realização meramente simbólica: a diminuição do número de alunos por turma e a contratação, em tempo útil, de mais assistentes operacionais, técnicos especializados e professores de apoio.

João Costa é um herdeiro à altura da velha tradição socialista das picaretas falantes: tem um discurso fluente, lógico, articulado. O que ele diz soa bem e parece bem. Qualquer um que não saiba da barracada que está a ser a implementação forçada da flexibilidade curricular nas escolas compra facilmente a conversa deste quase-ministro da Educação. O problema maior está, parece-me, naquilo que Costa não diz.

A indisciplina, por exemplo, continua a ser um problema grave em muitas escolas, convenientemente varrido para debaixo do tapete. Mesmo admitindo que novas pedagogias e aprendizagens mais dinâmicas e flexíveis podem reduzir as tensões, é um engano pensar que resolvem os problemas de fundo que estão por detrás dos comportamentos disruptivos. Não é uma questão de aulas mais ou menos “chatas”, mas de alunos que se recusam a cumprir regras e a respeitar colegas e professores. De famílias que compactuam ou que estão na origem dos maus comportamentos. E de falta de meios e recursos adequados nas escolas onde estes alunos tendem a concentrar-se.

Os professores, por outro lado, continuam a ser uma classe profissional desprezada pela tutela. Embora em abstracto possam não se negar elogios ao seu trabalho, no concreto o que vemos é a continuidade de uma política de menorização e proletarização da classe. Em vez de interlocutores e parceiros nas reformas que se pretende realizar, o que se quer são trabalhadores obedientes, que cumpram sem questionar as directrizes ministeriais. Em vez de respeitar e valorizar uma carreira que, na sua actual configuração, foi definida por um outro governo socialista, aposta-se no roubo de tempo de serviço e nas barreiras à progressão para conseguir o que interessa acima de tudo: professores mais baratos.

Para o final da entrevista, Costa evoca um velho problema do nosso sistema educativo; o regime de ingresso no ensino superior e a forma como subordina e instrumentaliza o ensino secundário e em particular os exames nacionais deste nível de ensino. Que em vez de cumprir finalidades próprias, parece existir apenas para servir de antecâmara do superior.

…o ensino secundário está completamente refém do acesso [ao ensino superior] e deve haver um debate profundo, calmo e onde se oiça todas as partes: os alunos, os professores, os pais e até outros países. Andamos sempre a dizer que as situações não estão bem, mas não as corrigimos. Isto tem de mudar.

Não defendendo o fim dos exames do secundário, concordo com a ideia de desligar a conclusão do secundário da candidatura ao superior. E pego nas palavras de João Costa para lançar o repto: se querem um debate com todas as partes, que tal começar já, o partido no poder, por divulgar a sua ideia sobre o assunto, para irmos pensando com calma? E para sabermos com o que contar, antes de irmos a votos…

Pai, estou farto da flexibilidade!…

rapaz-zangado.png“Até que enfim estou livre daquelas ‘oficinas’ em que levámos o ano inteiro a fazer projectos e nunca saímos do mesmo sítio… Uns trabalhavam e outros ficavam a ver. O costume… Nas apresentações ninguém se preocupava se estava bem feito ou não, se tinha sido copiado da Internet ou escrito por nós… Além disso, eu pensava que os projectos eram para fazermos coisas úteis, giras… O nome engana… ‘oficinas’… São uma seca e das grandes!”

Resolvi dar-lhe alguma atenção, mas silenciosa. Sem que eu lhe perguntasse coisa alguma, do alto dos seus onze anos, [o meu filho] não teve papas na língua: “Os professores andam aborrecidos. Toda a gente vê. Não os deixam dar as aulas como querem e não têm tempo para dar a matéria toda. Fica sempre a meio, agora com a mania das disciplinas semestrais… Eles tentam disfarçar, mas nós bem vemos o que está a acontecer. Dizem que para o ano que vem as aulas vão ser todas assim. Só projectos e trabalhos de grupo. Que raiva! Estou mesmo a ver no que vai dar… Mas nem quero pensar muito nisso. Já estou de férias. Quem me dera que as aulas normais voltassem e acabasse esta porcaria que inventaram para aí.”

Porque será que, ao contrário da retórica balofa e da argumentação capciosa dos defensores da flexibilidade curricular, o discurso deste jovem e do seu pai, que é também professor, ressoam autenticidade? Em vez da irresponsabilidade dos governantes, que mandam as escolas mudar por mudar, sem terem sequer uma ideia objectiva acerca do que se pretende e sabendo que não serão afectados pelas mudanças, os alunos empenhados e responsáveis, bem como as suas famílias, sentem a insegurança e a falta de rumo inerentes a reformas educativas feitas em cima do joelho.

Ao contrário dos políticos de turno no Ministério da Educação, que querem ganhar votos para o seu partido, poupar dinheiro às finanças públicas e impor, servindo interesses inconfessados, a agenda educativa da OCDE, os pais e os professores só devem ter uma preocupação: a qualidade das aprendizagens das crianças e jovens que têm à sua responsabilidade. E têm razão para se preocupar: os ecos que vamos tendo do que se passa nalgumas escolas que mergulharam de cabeça no experimentalismo da flexibilidade curricular não auguram, efectivamente, nada de bom.

Claro que nada disto significa a defesa de uma escola parada no tempo e avessa a toda e qualquer evolução. Não o defendo, e julgo que ninguém – professores, alunos, pais – o deseja. Mas o que se nota é que se perdeu a noção do que são as mudanças realmente necessárias: as que partem da auscultação dos reais problemas e necessidades das comunidades educativas. A escola dita do século XXI deve ser capaz de se adaptar aos desafios do mundo em que vivemos, mas sem descartar tudo que de bom existe na organização escolar, e que nos trouxe até onde nos encontramos.  O pensamento crítico de que tanto se fala não significa ir atrás de cantos de sereia, promovendo a reprodução acrítica, através da escola, de modas e modelos que lhe são impostos exteriormente. Passa, isso sim, por fornecer as bases do conhecimento sólido e estruturado que permitam aos seus alunos compreender, reflectir e, a seu tempo, transformar o mundo em que vivemos.

Não é nada fácil a missão das escolas e dos professores nos tempos que correm – e termos governantes que persistem em criar novos problemas em vez de se empenharem na busca de soluções não está a ajudar nada. Não é garantido que a escola pública ganhe esta batalha, na qual está em jogo o direito a uma educação de qualidade para todos os alunos, e não apenas para os que podem pagar as propinas de uma escola privada. Mas, se com a derrota perderemos todos, os mais desfavorecidos serão sempre os mais prejudicados. Como, no final do seu artigo de opinião, Ruy Ventura nota certeiramente…

Vítimas de teorias e práticas pedagógicas que já eram velhas há quarenta anos, porque lhes dão jeito para camuflar o insucesso que realmente existe e continuará a existir por este caminho, há escolas (e cada vez são mais) que vivem um autêntico PREC educativo, com traços de maldade e insanidade, cujas consequências plenas são ainda difíceis de alcançar. Uma delas é todavia evidente. Os alunos com bom respaldo familiar conseguirão sobreviver a tudo isto, com grande dispêndio de tempo e de dinheiro, que não há outro modo de compensar o que lhes é tirado nessas escolas públicas. Alguns, filhos de agregados mais abonados, partirão para bons colégios privados – onde a conversa é outra… Aqueles a quem falta o dinheiro ou a família ou tudo isto junto serão vítimas a médio prazo de uma escola que, assim, se demite de lutar contra as desigualdades, em benefício de uma “inclusão” que é, na realidade, exclusão social ao longo da vida.

Os colegas dos meus filhos que não fazem testes de avaliação, que se alegram por passar de ano sem trabalhar e sem melhorar o seu comportamento, que deixam de ter aulas baseadas no conhecimento sólido dos seus professores, que não são treinados para o esforço que o estudo implica e implicará sempre, que são vítimas da “flexibilidade” e da “inclusão”, poderão agora exultar com as suas famílias, alheados do que se passa, do que motiva esta “nova pedagogia” e dos seus resultados futuros. Estou certo disso, porque os vejo, os ouço e converso com alguns dos seus pais. Os efeitos futuros não serão, todavia, algo que seja bom de ver. Sem se terem habituado à exigência, ao trabalho, à atenção, à concentração e ao estudo – enganados por sereias maviosas e sorridentes que, desse modo, dizem “levar habilmente a escola rumo ao sucesso” – ver-se-ão a braços com uma violenta e frustrante desigualdade de oportunidades. E tal não é digno de um país que afirma defender a dignidade de todos os seres humanos.

Exames mais fáceis?

Já se sabia que este ano os exames do secundário terão menos matéria para estudar. A decisão, que parece sensata tendo em conta que a flexibilidade curricular veio reduzir a extensão dos programas, acaba no entanto a dar razão a quem acusa a actual política educativa de promover o facilitismo. Se com a flexibilidade os alunos “aprendem mais”, como garante o SE João Costa, como é que se justifica que os exames tenham de ser mais curtos em termos de conteúdos avaliados?…

Entretanto, com a Filosofia a inaugurar, esta manhã, a época de exames 2019, as primeiras impressões parecem apontar também, para uma prova ligeiramente mais fácil do que a do ano anterior. A confirmar-se, pode tratar-se também de dar seguimento a uma velha tentação em anos eleitorais: nada como uma oportuna subida dos resultados para deixar satisfeitos os alunos e as suas famílias ao mesmo tempo que se demonstra o acerto das políticas educativas.

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Veremos se a prova de Português, amanhã, e os exames dos próximos dias confirmam ou não uma tendência a que é difícil resistir…

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: O ME nos tribunais

…É nesta fase que se torna evidente o que já se antecipava: as novas regras de recuperação faseada atenuam, mas não resolvem, a situação injusta que representa haver professores que, progredindo mais tarde, mudam novamente de escalão mais depressa do que, por exemplo, os que progrediram em 2018. Uma injustiça que se vem juntar a outras, como as decorrentes dos reposicionamentos, cujas regras permitem que docentes que ingressaram mais tarde na carreira ultrapassem os que foram vinculados no tempo da troika…

No Fundo: Facilitismo nas avaliações finais

O quadro legal instituído pelos diplomas legais que regulam a inclusão escolar – o “54” – e a flexibilidade curricular – o “55” – veio estabelecer uma espécie de direito natural ao sucesso escolar. A ideia é: se o aluno não aprende, seja por que razão for, algo deverá ser feito, quer ao nível pedagógico, quer na vertente da avaliação, para obter sucesso…

The Flexibility Experience

Inspirado na capa da revista Time, é do Luís Costa o boneco mais oportuno e corrosivo dos últimos tempos sobre a Educação portuguesa.

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Claro que, embora a manhosa flexibilidade curricular meta água por todos os lados, é altamente improvável que Tiago Brandão Rodrigues, o testa de ferro escolhido para ser o seu rosto em vez dos neo-eduqueses que deram corpo ao projecto, se afunde com ela.

Sabemos que o tirocínio político à frente do ME costuma ser, em regra, bem recompensado a posteriori

Ministério sem rumo

indeciso.gifHá um problema de fundo no ensino português que a implementação da flexibilidade curricular ainda mais evidenciou: há muita teoria, muita vontade de mandar, muito desejo de mostrar serviço. Desligados da realidade das escolas, académicos, burocratas e decisores políticos mandam fazer – mas não sabem como se faz.

É aqui que entra a outra faceta da envergonhada reforma curricular em curso. A pretensa autonomia das escolas é a desculpa perfeita para o ME se desresponsabilizar pelos deslizes, pelos inconseguimentos, pelos becos sem saída em que as escolas se venham a meter. Afinal de contas, deram-lhes autonomia para trabalharem como entendessem e tomarem as melhores decisões…

Lançados para o meio da confusão, os professores tentam resistir aos maiores desvarios e continuar a focar o mais possível o seu trabalho, como sempre fizeram, em prol dos seus alunos. Uns e outros acabam como involuntárias cobaias de sucessivas reformas e contra-reformas insensatas e planeadas em cima do joelho.

Esta é uma realidade que não escapa à reflexão de Luís Filipe Torgal, nartigo de opinião que já ontem aqui comentei…

…O Governo, os seus fiéis funcionários e os «pedagogos de gabinete» comprometidos com o Ministério da Educação ordenam o cumprimento das políticas educativas que engendraram, mas não sabem como as executar. Os inspetores escolares pressionam as escolas para cumprir o «eduquês» da tutela, mas ignoram como o concretizar. Os formadores encartados do Ministério da Educação foram formatados e são ressarcidos para doutrinar os professores no novo «evangelho» que aqueles também desconhecem como operacionalizar. Os diferentes professores não enxergam processos de realizar as diretrizes vertidas no novo aparato educativo legal. Os diretores escolares — há muito arredados da sala de aula –, comprimidos pela tutela, pelos inspetores e os professores, batem-se pelo cumprimento das normas legais vertidas na manhosa Autonomia e Flexibilidade Escolar, também eles sem saberem que caminhos ou vielas seguir para satisfazer os seus enigmáticos desígnios.

Assim vai a escola pública, transformada num patético laboratório de políticas educativas negligentes e incongruentes, onde os alunos e os professores assumem o papel de cobaias. Quais as consequências de toda esta fantasia? Descrédito do conhecimento, sucesso educativo fraudulento, reprodução de assimetrias sociais — circunstâncias que se vão tornando mais explícitas entre professores, alunos e encarregados de educação, embora sejam menos percecionadas ou então olimpicamente ignoradas pela opinião pública e a opinião publicada.

A burrice é uma ciência?

smart_donkey[1]Santana Castilho evoca a sabedoria popular de António Aleixo para descrever um país em que a burrice ministerial manda nos homens e mulheres de inteligência que todos os dias, nas escolas, dão o seu melhor ensinando as novas gerações.

O cronista do Público desmascara o discurso maniqueísta do SE João Costa e dos seus sequazes: quem não é por nós, que somos bons e defendemos o sucesso, é mau e só quer reprovar alunos. Denuncia a cobardia política de um governo que, tendo ameaçado demitir-se por causa do possível impacto orçamental de uma lei do Parlamento, aceita agora que uma “nota informativa” de uma direcção-geral venha estabelecer, à margem da lei, normas com incidência orçamental. E expõe a falta de equidade e sentido de justiça patente na actuação de um governo que enfrenta os professores enquanto dobra a espinha perante os interesses dos juízes dos tribunais superiores.

…João Costa veio, em artigo de 30 de Maio passado (Observador), defender-se das críticas às suas teorias sobre flexibilidade e inclusão. Abalroada pela demagogia que a domina, a prosa do secretário de Estado assentou num maniqueísmo primário e populista. Segundo ele, uns querem sucesso e inclusão para todos (ele e prosélitos), outros (os que lhe criticam os métodos) preferem reprovar os alunos. Escapou-lhe considerar que o que separa a turma dele (perita em baixar a fasquia dos pobres em vez de lhes conferir os meios para chegarem onde os ricos chegam) da turma dos outros é a recusa, por parte dos segundos, a certificar a ignorância. E que o grande combate a favor da inclusão começa fora da Escola, sob responsabilidade alheia aos professores, colada, outrossim, à pele dos políticos promotores da mediocridade. E continuará na Escola, quando substituirmos proclamações palavrosas, papéis e burocracia por meios, recursos e dignidade para quem ensina.

[…]

Leu-se profusamente na imprensa que o Governo criou um regime especial de avaliação para que professores possam progredir na carreira. Ora o Governo não criou coisa nenhuma. Foi a DGAE que “criou”, com uma simples “nota informativa”, uma brincadeira para remediar a trapalhada que o Governo pariu. Ou seja, o homem demitia-se se a AR fizesse cócegas ao OE, para fazer justiça mínima aos professores. Mas não tugiu nem mugiu quando uma directora-geral resolveu (com impacto orçamental) ao contrário do que continua escrito na lei.

[…]

O Parlamento decidiu aumentar o salário dos juízes dos tribunais superiores, os quais, a partir de agora, poderão ganhar mais do que o primeiro-ministro. Ao fazê-lo, retirou legitimidade moral e ética à retórica da contenção salarial. Com efeito, é inaceitável, no domínio dos princípios constitucionais, que as carreiras das classes profissionais sejam tratadas em função da expressão numérica que as caracteriza, falemos de professores, militares ou outros portugueses…