A máquina de matar professores

A escola pública portuguesa tem sofrido assaltos sucessivos de grupos de pressão que, directa ou indirectamente, se têm instalado nos feios prédios do Aterro lisboeta, à Avenida 24 de Julho. Quem conheça o meio, sabe bem quem o povoa e quem por lá tem influência e é ouvido. As políticas educativas que conseguem impor, graças a eficazes manobras de propaganda, de pressão ou de manipulação, não visam nem alguma vez visaram a qualidade da escola e das aprendizagens. Não querem saber dos alunos nem das famílias nem dos professores. Servem interesses académicos e pessoais, agendas políticas e sociais, estratégias económicas. Pretendem usar a escola como palco, como ferramenta de manipulação ideológica, como caixa multibanco. As técnicas de sedução são exímias. Chegam a cativar muitos docentes, aliciando-os, ludibriando-os, estimulando os seus instintos mais escusos. Sabem recompensá-los. Usam-nos, depois, como armas de arremesso contra os seus colegas que têm a ousadia de pensar pela sua própria cabeça e de afirmar, sem medo, que o rei vai nu, que as “maravilhas fatais” apresentadas em formações e deformações não passam de quinquilharia velha ou sem valor, destinada a enganar meio mundo e a outra metade. A maioria dos professores não é, todavia, parva. Percebe o que está a suceder. Tem percebido. Tem resistido como pode. Essa resistência é conhecida. E detestada por muitos directores, por demasiados colegas, por muitos pais inconscientes e, obviamente, pela tutela do Ministério. Há mais de duas décadas que o assalto vem crescendo.

Ninguém ignora que o assédio moral dentro das escolas é uma realidade constante e reiterada. Quase sempre, subtil. […] Pais envenenados, colegas manipulados ou interesseiros, hierarquias picadas pelo Ministério sujeitam quem quer fazer o seu trabalho honestamente a pressões inimagináveis, a humilhações de que poucos suspeitam. Visam destruir a sua autonomia científica, técnica e pedagógica que, apesar de garantida pelo Estatuto da Carreira Docente, vem sendo dinamitada há muito tempo, com especial intensidade nos últimos seis anos (nos quais têm pontificado os fiéis continuadores da guerrilha promovida com eficácia, entre 2005 e 2009, por uma senhora chamada Maria de Lurdes Rodrigues e seus comparsas). Junte-se a isto a subversão das regras de avaliação do trabalho dos docentes (alvo de um constante tráfico de influências e das mais mirabolantes manobras), o congelamento da sua progressão na carreira, a desconsideração do seu mérito efectivo (em benefício de um lambe-botismo atávico), a intromissão nas suas aulas (que chega ao ponto de impor “coadjuvantes” dentro das salas que, na prática, são muitas vezes vigilantes e bufos), o apagamento ou manipulação do rigor na avaliação e na disciplina – e não serão muitos os resistentes. Quem está perto da reforma, aposenta-se o mais depressa que pode, mesmo com prejuízo na carteira. Quem consegue encontrar uma porta aberta por onde possa fugir, muda de emprego, definitivamente ou durante algum tempo. Outros, infelizmente, não resistem e sofrem graves consequências na sua saúde, nem sempre remediáveis.

Ruy Ventura traça, nas páginas do Público (acesso exclusivo a assinantes) e no seu mural do Facebook, um retrato deprimente, mas certeiro e incisivo, da escola portuguesa nestas primeiras décadas do século XXI. Demonstrando como ela se transformou, pela incompetência, perfídia e laxismo de dirigentes e governantes, numa máquina que lentamente corrói a energia e a alma dos professores. Que os adoece, matando neles, pouco a pouco, a dedicação e o gosto que um dia tiveram pela sua profissão.

Num sistema educativo subordinado a uma gestão economicista de vistas curtas, dominado por uma burocracia galopante e capturado por lobbies eduqueses de diversas cores e feitios, o superior interesse dos alunos acaba por ser mero pretexto, tantas vezes invocado em vão, para o experimentalismo permanente, uma sucessão de falsas inovações que apenas acentua a falta de rumo da escola pública. Apanhados no turbilhão das exigências e das mudanças sem sentido, os professores assistem à degradação das suas condições de trabalho, ao ataque às suas carreiras e autonomia profissional, ao alastrar da indisciplina e do assédio moral, à imposição de um modelo de gestão autocrático e de um sistema de avaliação injusto, punitivo e vexatório.

Neste quadro, a propalada autonomia das escolas pouco mais é do que a liberdade de as comunidades educativas fazerem o que quiserem, desde que queiram o mesmo que o ministério pretende. Esta é mais uma forma de menorizar e domesticar a classe docente, pondo em causa a autonomia científica, técnica e pedagógica dos professores, consagrada no artigo 5.º do Estatuto da Carreira Docente ainda em vigor.

E é assim que décadas de menosprezo, de humilhação e assédio contra os professores, vistos como alvos a abater numa quadro de uma política educativa feita contra os professores, têm agora o resultado há muito previsível, mas que parece surpreender e perturbar as cabeças (pouco) pensantes do ministério: há falta de professores. Muitos dos profissionais habilitados para ensinar fartaram-se de servir um patrão que os maltrata. E a profissão deixou de ser atractiva para as novas gerações. Haverá discernimento para encarar a realidade, compreendendo a necessidade de defender e valorizar a profissão docente? Ou irá prosseguir a política de tiro ao alvo aos professores, esses seres perigosos porque habituados a pensar pela sua cabeça e a cultivar valores fora de moda como a ética, a exigência e o rigor, até que não sobre nenhum digno desse nome?…

4 thoughts on “A máquina de matar professores

  1. Ao excelente texto do Ruy, apenas gostaria de acrescentar um ponto. A referência à Milú, como ao ausente, deve ser encarada tal como os factos demonstram, ou seja, tanto um como outro não passam de meros comissários políticos, simples mandaretes ou executores das directicvas dos respectivos PM, esses sim, os verdadeiros ministros da educação. Trata-se portanto de aplicar uma política, logo, a guerra vai prosseguir sim, que ninguém duvide. Que tudo vai ficar em cacos, vai. Já está a ficar. E lá vamos, cantando e rindo, levados, levados sim…

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