Sobre o Prós e Prós dedicado à Educação

pros.JPGSeguindo a mesma linha de sempre – a construção de falsos consensos destinados a legitimar as políticas e os interesses que se impõem nas diversas áreas da economia e da sociedade – o programa de ontem lá tentou reinventar a santa aliança entre governo, empresários e famílias rumo à Educação do século XXI.

Do conjunto de participantes, destaco a intervenção irrepreensível de Paulo Guinote, que era, bem vistas as coisas, o único que verdadeiramente sabia do que estava a falar.

Pois é muito fácil, olhando a escola a partir de fora, elaborar teorias acerca dos seus malefícios actuais e do que deveria ser. É fácil dar largas à imaginação, sabendo que não se irá ser confrontado, no terreno, com a concretização dos miríficos projectos.

Contudo, se invertermos a lógica da coisa, à maneira das flipped classrooms agora na moda, e exercitarmos nós, professores, a observação clínica destes pedagogos instantâneos, também conseguiremos perceber, com relativa facilidade, ao que é que eles andam.

A educação é uma potencial área de negócio e as oportunidades no sector surgem essencialmente de duas formas. Uma, relativamente benigna, convencendo os decisores a comprar determinados zingarelhos indispensáveis à educação do futuro. A outra, verdadeiramente maligna, degradando a qualidade da escola pública até que esta chegue a um nível tão baixo que crie por si só o mercado para os projectos educativos diferenciados que actualmente não se conseguem impor.

Pelo meio disto tudo, há uma ideia perigosa que vai fazendo o seu caminho: a ilusão de que as aprendizagens devem ser fáceis e divertidas, que as crianças não precisam de se esforçar para serem boas naquilo que fazem, não devem ser contrariadas e só precisam de estudar aquilo de que gostam. O embate com a realidade vai ser terrível – já está a ser – para muitos jovens criados nesta redoma de facilitismos e proteccionismos.

Uma palavra ainda para os senhores directores que marcaram ontem presença e que comprovaram uma vez mais que é mais fácil estar do lado dos decisores, a impor toda e qualquer reorganização curricular, do que do lado dos professores que a terão de executar. O entusiasmo com que defendem os projectos não os leva a largar os gabinetes da direcção para serem seus executores no terreno.

Finalmente, o secretário de Estado: confirmou a ideia que tinha dele, um demagogo hábil e insinuante. O que, tendo em conta as ideias que defende e a gente de que se rodeia, não augura nada de bom para os próximos tempos. A João Costa têm sido apontadas nos últimos tempos as estreitas ligações à OCDE. Pois bem, talvez a ambicionada carreira internacional nessa organização nos libertasse dos excessos de flexibilidade que ameaçam pôr de rastos a martirizada Educação portuguesa.

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Transferências televisivas

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© Henricartoon

Babysitters electrónicos

tablets.jpgEntre adolescentes e pré-adolescentes, todos sabemos da omnipresença dos telemóveis e de outros dispositivos electrónicos que se tornaram o principal meio de acesso às redes sociais, aos jogos online e a outros conteúdos mais ou menos recreativos, informativos e interactivos. Mas, e o que dizer da relação com os aparelhos providos de ecrã durante a infância, aquele período entre os 3 e os 8 anos, em que já não são bebés, mas a adolescência ainda vem longe?

99% das casas dos portugueses dispõem de televisor, 92% de telemóvel, 70% de computador portátil e 68% de tablet. “Estes equipamentos estão nos espaços comuns da casa, ao alcance das crianças e, em alguns casos, até lhes pertencem. As crianças apropriam-se dos dispositivos comuns e conseguem manuseá-los com facilidade”, especifica a ERC. Em dois terços dos domicílios com tablet, as crianças usam o equipamento sem a vigilância dos pais e dos irmãos mais velhos e, em 63% dos casos, o tablet pertence-lhes.

Os dados são de um estudo da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que concluiu também que 94% das crianças vêem televisão diariamente em casa, em média mais de uma hora por dia e mais ainda ao fim de semana. Os pais admitem que muitas vezes a TV, tal como o telemóvel ou o tablet, funcionam como “babysitter”, entretendo os filhos enquanto eles estão ocupados com outras tarefas.

Menos razoável é estes aparelhos serem levados para a mesa durante as refeições, sendo usados para distrair a criança enquanto lhe metem comida na boca ou para estar entretida sem incomodar os pais. Que, não raro, se entretêm também, eles próprios, cada um com o respectivo telemóvel. É aliás uma cena que recorrentemente se observa nos restaurantes, uma família a almoçar ou a jantar e em vez de conversarem e conviverem está cada um de olhos fixos e dedos deslizantes no respectivo ecrã.

Quem não tem filhos pequenos fica ainda a saber que o telemóvel também dá jeito quando a criança está a ser vestida e quando é preciso adormecê-la ou acordá-la. O babysitter electrónico, é claro, pode ser cedido como recompensa do bom comportamento ou dos bons resultados escolares. Embora para algumas o prémio seja permanente: 18% das crianças dos três aos oito anos têm já o seu próprio telemóvel.

Em jeito de consolação acrescente-se que as famílias parecem revelar algum cuidado em relação aos conteúdos a que os filhos acedem. Os pais mais escolarizados tendem a evitar as telenovelas e os reality shows da TV generalista que os de menor instrução vêem com os filhos, preferindo a bonecada do Canal Panda e similares. Mas todos querem evitar que os filhos sejam expostos à violência, à linguagem obscena e a conteúdos de natureza sexual. Nos telemóveis e tablets o acesso à internet tende a ser direccionado para jogos e vídeos adequados à idade dos miúdos. Para mais tarde ficará a descoberta do admirável mundo das redes sociais…

 

Fidelizações conjugais e das outras

fidelizacao.jpgCada um é livre de casar e descasar as vezes que entender, obviamente, mas quando um casamento dura menos do que o período de fidelização de um contrato com um operador de telecomunicações, alguma coisa deixou de fazer sentido.

Se um casal, ao fim de oito meses, se fartou do casamento e decide, sem penalizações, voltar à vida de solteiro, por que raio é que a contratação de um serviço de internet ou TV por cabo, ou às vezes até uma simples alteração nos serviços ou no tarifário, obriga o consumidor a dois anos de fidelidade à empresa com a qual contratou?

Durante dois anos, o consumidor não é livre de se interessar por uma box mais inteligente, um pacote mais bem recheado ou uma internet com maior capacidade, ou simplesmente acabar com a relação tecnológica, pois o fim antecipado do contrato pode implicar uma penalização de centenas de euros.

Pior do que a forma de actuação das três ou quatro operadoras que dominam o mercado  e que obviamente procuram aumentar os lucros e reter a clientela, será a inoperância das entidades reguladoras, neste caso a ANACOM, cujos dirigentes principescamente pagos se mostram coniventes com as práticas abusivas das empresas, mudando as regras para que tudo continue na mesma, ou fique ainda pior.

Amarelo televisivo

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Será possível que os jornalistas das televisões nacionais desconheçam os apelos públicos dos defensores dos contratos com os colégios para que toda a gente se vista de amarelo em sinal de solidariedade com a sua causa?

E será função de um jornalista isento tomar partido de uma forma tão óbvia num tema que deveria tratar com objectividade e rigor?

Ou vamos concluir que as três toilettes  exibidas no mesmo dia, perante as câmaras das três principais televisões, foram mera coincidência, e que os pivôs dos noticiários  agiram com ingenuidade e ignorando por completo o significado da cor da roupa escolhida?

O que, se for o caso, também não abona muito a favor das suas qualidades profissionais e intelectuais.

Os Truques da Imprensa Portuguesa, onde o caso foi denunciado e amplamente comentado, é uma página no Facebook e no Twitter que se dedica a desmontar as múltiplas facetas do jornalismo manipulador e tendencioso que não raras vezes encontramos nos media portugueses.

Nicolau Breyner (1940-2016)