De ambulância ou de helicóptero, sôtor?

heli.gif…Ao fim destes anos, temos um SNS degradado e caótico onde: se morre em longas listas de espera de meses ou anos para consultas ou cirurgia, consoante a especialidade; há legionella que mata em hospitais públicos; doentes com cancro sem poder fazer exames e que morrem à espera; equipamentos alugados a hospitais privados por serem obsoletos ou estarem avariados; não há roupas de cama lavadas nem material médico suficiente e faltam medicamentos; não há acesso aos melhores tratamentos oncológicos por serem caros; as instalações hospitalares estão degradadas por falta de manutenção; não há pessoal de enfermagem ou médico suficientes por isso centenas de doentes são tratados em corredores ou salas de espera por um único enfermeiro… 

Nem de propósito: no mesmo dia em que no site do partido Aliança se publicava este arrazoado, dizendo cobras e lagartos do Serviço Nacional de Saúde, o Estado esbanjava recursos públicos para cuidar de que nada faltasse ao dr. Santana Lopes, depois do aparatoso acidente que protagonizou ao despistar-se na auto-estrada ao volante do seu automóvel.

Tratamento de luxo, de facto: digam os responsáveis do INEM o que disserem, a verdade é que não há memória de se deslocar um helicóptero para transportar um doente sem mazelas graves nem risco de vida, que chegaria mais depressa ao hospital na ambulância, com suporte avançado de vida, que já se encontrava no local do acidente, do que no helicóptero estacionado a quase cem quilómetros de distância.

No dia anterior, uma jovem de 23 anos despistou-se e caiu por uma ravina abaixo na Serra da Lousã. Aqui, apesar da gravidade do acidente, ninguém tratou de mobilizar o helicóptero de Santa Comba. E a jovem, com múltiplas fracturas, lá seguiu de ambulância, por sinuosas e esburacadas secundárias, para o hospital, onde veio a falecer umas horas antes de dar entrada, helitransportado, o doente VIP.

Embora a elite goste de se tratar bem, a verdade é que as cufes e as cruzes vermelhas não dispõem de meios para acudir a acidentes ou outras emergências súbitas que ocorram por esse país fora. E assim, quando o inesperado surge, ou as coisas se complicam, é aos hospitais públicos que até os liberais mais empedernidos acabam por recorrer.

Pelo que, no fundo, as duas realidades aqui em confronto – as críticas ao mau funcionamento do SNS e o tratamento diferenciado de alguns doentes, sem justificação clínica para tal – são, afinal de contas, duas faces da mesma moeda. O SNS poderia funcionar melhor se, além de ser adequadamente financiado, estivesse mais orientado para servir bem todos cidadãos. Usando os recursos disponíveis de acordo com as necessidades, sem que as cunhas, os conhecimentos ou a notoriedade pública de quem precisa de assistência fossem determinantes para ser bem tratado.

Afinal de contas, e como se comentava há pouco no Twitter…

Os Hospitais de Coimbra são, provavelmente, os melhores do país. Ainda ontem receberam uma vítima helitransportada e já lhe deram alta!

Ladrões de Portugal

Se fosse verdade, daria uma colecção deveras interessante.

E bastante completa, pois devem conhecê-los a todos..

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Tudo em família

Explorada até à exaustão pela oposição de direita, com a prestimosa ajuda da comunicação social, a polémica baseada nas conhecidas ligações familiares entre ministros do actual governo evoluiu para as acusações de nepotismo praticado pelos governantes socialistas. E levou, para já, à demissão de um secretário de Estado e do primo que este havia nomeado.

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Contudo, esta está longe de ser uma realidade circunscrita a este governo ou ao partido actualmente no poder. As elites políticas e económicas sempre se reproduziram entre nós de uma forma bastante endogâmica. Num país pequeno, de recursos limitados e fortemente dependente do exterior, a solidez das fortunas e das teias de poder e de influência sempre dependeu muito da capacidade de controlar e instrumentalizar em benefício próprio o exercício dos cargos públicos.

Nem mesmo a ruptura política concretizada pela Revolução de Abril conseguiu contrariar, de forma duradoura, o poder das famílias de outrora. Menos de meio século volvido, temos hoje um Presidente que é filho do antigo ministro das Colónias de Marcelo Caetano. Boa parte dos influentes que usam hoje o duplo apelido pertencem a famílias que pontificavam no tempo do anterior regime. E nem a queda estrondosa do grupo BES, que continuaremos por muitos anos a pagar, teria a dimensão que teve sem a teia de dependências e cumplicidades que a família de banqueiros alimentou, durante décadas, à sua volta.

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Ainda assim, a democracia trouxe novos intervenientes à política e à gestão das maiores empresas e grupos económicos. Mas o que se verificou a seguir foi mais uma recomposição das elites, aglutinando velhos e novos protagonistas, do que uma mudança definitiva nas práticas dinásticas ou na traficância de influências.

Por isso, quando se aponta hoje o dedo ao nepotismo na política ou, ainda pior, a promiscuidade entre a política, o mundo empresarial, a justiça e a advocacia de negócios, não é difícil recordar um passado recente onde tudo isto se encontrava já bem presente.

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O que haverá hoje é, talvez, uma maior visibilidade das situações. A maior presença das mulheres na política, um maior fechamento dos partidos à influência da sociedade civil, um certo sentimento de impunidade que também existe – tudo isto facilita o recurso mais frequente à “prata da casa” nas nomeações políticas. O escrutínio e a denúncia pública por jornalistas e cidadãos informados, a partilha de informação através das redes sociais, fazem o resto.

Contudo, a censura pública não é suficiente. Uma mudança efectiva desta situação só acontecerá quando os cidadãos penalizarem fortemente, nas urnas, os partidos que insistem em levar a votos os representantes das velhas dinastias políticas passadas da validade. Quando a renovação política passar a ser, para todos os partidos, um imperativo de sobrevivência. E não apenas uma intenção piedosa de que rapidamente se descartam quando chegam ao poder.

Fraude no acesso à universidade

stanfordA notícia já tem alguns dias, mas as ondas de choque continuam a propagar-se por terras do Tio Sam. Num país que gosta de acreditar na meritocracia, na igualdade de oportunidades e noutras fábulas neoliberais, descobrir que os ricos, além de serem naturalmente beneficiados no acesso à Educação, ainda fazem batota quando nem tudo corre de feição, é naturalmente perturbador…

Meia centena de pessoas foram acusadas, nesta terça-feira, de envolvimento num gigantesco esquema fraudulento que garantiu a entrada a inúmeros alunos em universidades conceituadas dos Estados Unidos — como Yale, Stanford, Georgetown, a Universidade do Sul da Califórnia (USC) e a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) — através do pagamento de milhões de dólares.

Entre figuras de Hollywood e directores executivos de grandes empresas, pelo menos 33 pais são acusados de terem pago elevadas quantias para garantir que os seus filhos eram aceites em determinadas universidades dos EUA, segundo a acusação judicial agora conhecida. Mas no esquema estariam também envolvidos treinadores desportivos de universidades de topo, que são acusados de aceitar subornos de milhões de dólares para garantir que determinados alunos fossem aceites nas instituições de ensino, ao abrigo de programas teoricamente reservados para jovens atletas promissores, acabando por acolher estudantes que não preenchiam os requisitos académicos e atléticos necessários.

Segundo o diário New York Times, este é o maior processo relacionado com candidaturas universitárias alguma vez movido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. A investigação mobilizou 200 agentes a nível nacional e resultou em acusações contra 50 pessoas em seis estados norte-americanos.

O ensino superior dos EUA, embora de qualidade mundialmente reconhecida, sobretudo nas suas instituições de topo, é um sistema duplamente elitista: no acesso às universidades mais prestigiadas, onde os candidatos excedem largamente as vagas disponíveis e nos valores proibitivos das propinas cobradas, dificultando o acesso, não apenas aos pobres, mas também a quase todos os que não fazem parte daquele 1% da população norte-americana para quem o dinheiro nunca constitui problema.

A mega-fraude no acesso às universidades está a ter ampla discussão e diversas leituras. Do que li, partilho convosco um excerto da que me pareceu mais pertinente, incisiva e esclarecedora.

Os filhos da classe trabalhadora aprenderam uma lição brutal esta semana, quando os procuradores federais acusaram criminalmente pessoas ricas de comprar o ingresso em universidades de elite para os seus filhos não-tão-brilhantes.

A lição é que não importa o quanto trabalhes duro, não importa o quão inteligente ou talentoso fores, porque no fim um garoto burro, preguiçoso e rico vai-te vencer.

É crucial que todos os que não são estrelas de cinema, gestores de fundos de risco ou executivos – ou seja, 99% de todos os americanos – vejam o escândalo das admissões na faculdade pelo que ele é realmente: um microcosmo do mais vasto e corrupto sistema que funciona contra os trabalhadores, esmagando as suas oportunidades de progredir.

Esse sistema é o motivo pelo qual as pessoas ricas e as corporações receberam cortes fiscais massivos no ano passado, enquanto para os 99% eles foram insignificantes. É a razão pela qual o salário mínimo federal e o limite de horas extraordinárias estão fixos em níveis de pobreza. É a razão pela qual os sindicatos diminuíram nas últimas quatro décadas.

Este sistema é a razão pela qual não podemos ter coisas boas. Apesar de toda essa treta da terra da igualdade de oportunidades, os ricos garantem que só eles podem ter coisas boas, começando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente para seus filhos e continuando com o que podem comprar legalmente e ilegalmente aos políticos que fazem as regras que tiram dinheiro dos bolsos de trabalhadores e o depositam nas contas bancárias dos fabulosamente ricos.

Quando o mentor do esquema de admissão em universidades de elite, William Singer, se declarou culpado esta semana, ele expôs a plataforma de lançamento disponível para os bem sucedidos garantirem que seus filhos serão bem sucedidos. Mesmo depois que os ricos pagarem para os seus herdeiros frequentar academias preparatórias proibitivamente caras, as suas notas, os resultados de testes e as actividades extra-curriculares podem não ser suficientes para entrar nas universidades da Ivy League, nas quais um diploma praticamente garante uma posição bem paga em Wall Street e, com isso, uma nova geração de acumulação de riqueza.

Colégios de elite com lotação esgotada

colegio-eliteEis um aparente paradoxo da educação privada em Portugal: quanto mais caros são os colégios, mais difícil é conseguir vaga para as crianças. Mesmo cobrando propinas que podem ultrapassar, no final do ano, a dezena de milhares de euros, os colégios da moda entre as classes alta e média-alta vêem-se obrigados a recusar muitos candidatos. E a submeter os restantes a provas e entrevistas, a ver se estão suficientemente “desenvolvidos” para ingressar na instituição…

Já é muito tarde. Estamos cheios». Esta é a resposta que uma mãe mais ouve ao telefone quando tenta inscrever um aluno de cinco anos para frequentar o 1.º ano – a partir de setembro – num colégio. A quatro meses do início das aulas parece ser uma missão impossível.  

Entre os testes de aptidão ou de maturidade e as entrevistas como critérios de admissão, todos os anos os pais têm de ter atenção ao calendário. Este não foge à regra.

As listas de espera para conseguir vaga num colégio estão a multiplicar-se e há escolas privadas que, contactadas, chegam mesmo a aconselhar os pais a pré-inscrever as crianças de cinco anos «o mais cedo possível», de forma a ter vaga quatro anos mais tarde, ou seja, para o 5.º ano de escolaridade. E são já vários os colégios que têm pré-inscrições abertas para setembro de 2019. 

Esta não é uma realidade apenas nas grandes cidades, está a espalhar-se por todo o país. E em Lisboa e no Porto as listas de espera intermináveis não existem só nos colégios mais concorridos.

Se há uns anos o peso na carteira com a despesa das escolas privadas podia reduzir a procura, hoje, em colégios onde  a despesa total para as famílias ultrapassa em muito o valor do salário médio em Portugal – que de acordo com o INE ronda os 856 euros –, já não há vagas para o próximo ano letivo.

Assim como no sector da saúde o peso excessivo do sector privado nalgumas especialidades só se justifica devido à escassez de recursos ou à desorganização dos serviços do Estado nessa área, também na educação haverá em muitos lados o interesse em alimentar o florescimento das escolas privadas com base no preconceito de que a escola pública é de má qualidade.

O que não é verdade. Estudos bastante completos e aprofundados que têm sido feitos, nomeadamente na Universidade do Porto, demonstram de forma consistente que as escolas públicas em geral preparam melhor os alunos para a universidade do que as privadas. E isso é visível no desempenho académico dos jovens universitários.

Quanto às causas deste acentuado aumento da procura sentido pelos colégios, sobretudo os mais caros e exclusivistas, a notícia que citei não aponta muitas pistas. Mas há por certo razões de natureza económica que até certo ponto explicam o fenómeno, como a recuperação de algum rendimento pelas famílias, que poderá estar a permitir a algumas delas equacionar, em relação à educação dos filhos, hipóteses até aqui impensáveis.

O agravamento das desigualdades – Portugal continua a ser dos países europeus com maior desequilíbrio na distribuição da riqueza – também favorece o negócio dos colégios de elite, destinados a uma clientela endinheirada que não só não empobreceu com a crise como continua a ter cada vez mais dinheiro para gastar.

Depois, o carácter exclusivista destas escolas, com peculiaridades como as fardas, o ensino bilingue, as modalidades desportivas que não existem na escola pública e, sobretudo, a clientela seleccionada com que os alunos do colégio terão oportunidade de conviver: numa sociedade que é, no topo, ainda muito fechada, algumas famílias sentem que as amizades e os conhecimentos certos serão melhores garantias para o futuro dos seus filhos do que o conhecimento que possam adquirir nos livros, nos computadores ou nas salas de aula.

Também opções recentes de política educativa, como o fim da “liberdade de escolha” enquanto critério para permitir a frequência gratuita de alguns colégios privados, ou as mais recentes alterações nas regras das matrículas, podem também estar a aumentar a procura dos colégios. Não querendo inscrever o filho na escola pública da área de residência, e não tendo ele lugar noutra escola pretendida, o colégio privado torna-se a alternativa lógica para quem lhe quer dar “o melhor”, ainda que isso implique algum sacrifício financeiro.

Finalmente, muitos destes meninos que passam por ricos sem o serem verdadeiramente, são os beneficiários directos da baixíssima natalidade do nosso país. Sendo filhos únicos a maioria das crianças que hoje nascem – e muitas vezes também sobrinhos e netos únicos – acabam por ter acesso a um nível de bem-estar material e a oportunidades que não teriam noutros tempos, ainda não muito distantes, em que os recursos familiares, além de serem menores, tinham de ser repartidos por várias crianças.

Reflexões natalícias I

colegio-elite.JPGVeremos se tanta vontade e empenho em mudar uma escola que se diz ser do século XIX não esconde a intenção de recriar um modelo de sociedade em que o conhecimento estruturado e aprofundado seja privilégio de alguns.

Como acontecia, precisamente, no século XIX.

Pensar fora da caixa – II

bebe-doutorContinuemos a falar claro, a propósito do acesso ao ensino superior, sobre mais duas ou três coisas de que habitualmente não se fala muito e que muitos fazem por desentender.

Com uma natalidade que em Portugal ronda actualmente os 90 mil bebés por ano e a entrada prevista, só este ano, de 73 mil caloiros nas universidades e politécnicos – número oficial, que os reitores consideram ainda insuficiente, e querem aumentar – a falta de vagas será, cada vez mais, uma falsa questão.

Complicado será, com o quadro recessivo da natalidade, arranjarem os alunos pretendidos, sendo óbvio que não se poderão fazer esquisitos com o pedigree, em matéria de exames e de conhecimentos gerais, dos futuros estudantes.

De facto, o que complica a distribuição dos alunos pelas vagas existentes é outra coisa. Depois de décadas de louvável investimento público em universidades e politécnicos espalhados pelo país, tem-se andado, a coberto da moda importada dos rankings, a criar nos estudantes a ideia de que o seu curso só terá valor se for feito na universidade xpto. Isto faz com que certos cursos e instituições tenham uma procura que supera largamente a capacidade de oferta, enquanto cursos idênticos, de qualidade idêntica ou até, porventura, superior em alguns aspectos, deixam vagas por preencher.

Ora esta ideia retrógrada, de que as pessoas valem, não pelo que são e pelo que fazem, mas pelo nome da instituição que lhes passou o diploma, está a fazer de novo o seu caminho entre nós, após a grande vaga democratizadora do acesso à Educação dos anos pós-25 de Abril, e num mercado de trabalho que se quereria mais arejado em tempos de globalização. Há um insuportável cheiro a bafio num certo elitismo à portuguesa que se tenta reconstruir com engenheiros que só podem ser do Técnico, arquitectos que para serem bons têm de vir da escola do Porto ou gestores devidamente formados na sculafebizniss da Nova.

E nada tenho contra estas prestigiadas escolas, onde, num caso ou noutro, até estudaram familiares próximos. Mas tenho tudo contra a ideia de que só nestes sítios é que se aprende, ou que qualquer jovem que tenha a desdita de estudar noutra instituição esteja destinado ao fracasso profissional. Como se o nosso futuro não fosse feito por cada um de nós, ou a qualidade das universidades e politécnicos não fosse acima de tudo construída por quem ali estuda e trabalha todos os dias.