Pensar fora da caixa – II

bebe-doutorContinuemos a falar claro, a propósito do acesso ao ensino superior, sobre mais duas ou três coisas de que habitualmente não se fala muito e que muitos fazem por desentender.

Com uma natalidade que em Portugal ronda actualmente os 90 mil bebés por ano e a entrada prevista, só este ano, de 73 mil caloiros nas universidades e politécnicos – número oficial, que os reitores consideram ainda insuficiente, e querem aumentar – a falta de vagas será, cada vez mais, uma falsa questão.

Complicado será, com o quadro recessivo da natalidade, arranjarem os alunos pretendidos, sendo óbvio que não se poderão fazer esquisitos com o pedigree, em matéria de exames e de conhecimentos gerais, dos futuros estudantes.

De facto, o que complica a distribuição dos alunos pelas vagas existentes é outra coisa. Depois de décadas de louvável investimento público em universidades e politécnicos espalhados pelo país, tem-se andado, a coberto da moda importada dos rankings, a criar nos estudantes a ideia de que o seu curso só terá valor se for feito na universidade xpto. Isto faz com que certos cursos e instituições tenham uma procura que supera largamente a capacidade de oferta, enquanto cursos idênticos, de qualidade idêntica ou até, porventura, superior em alguns aspectos, deixam vagas por preencher.

Ora esta ideia retrógrada, de que as pessoas valem, não pelo que são e pelo que fazem, mas pelo nome da instituição que lhes passou o diploma, está a fazer de novo o seu caminho entre nós, após a grande vaga democratizadora do acesso à Educação dos anos pós-25 de Abril, e num mercado de trabalho que se quereria mais arejado em tempos de globalização. Há um insuportável cheiro a bafio num certo elitismo à portuguesa que se tenta reconstruir com engenheiros que só podem ser do Técnico, arquitectos que para serem bons têm de vir da escola do Porto ou gestores devidamente formados na sculafebizniss da Nova.

E nada tenho contra estas prestigiadas escolas, onde, num caso ou noutro, até estudaram familiares próximos. Mas tenho tudo contra a ideia de que só nestes sítios é que se aprende, ou que qualquer jovem que tenha a desdita de estudar noutra instituição esteja destinado ao fracasso profissional. Como se o nosso futuro não fosse feito por cada um de nós, ou a qualidade das universidades e politécnicos não fosse acima de tudo construída por quem ali estuda e trabalha todos os dias.

 

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A escola no cinema: O Sorriso de Mona Lisa

O Sorriso de Mona Lisa

Título original: Mona Lisa Smile, 117m, EUA, 2003.

sorriso-mona-lisa.jpgEste filme transporta-nos ao ambiente conservador de um colégio para raparigas de alta sociedade dos EUA, onde a chegada de uma nova professora de História de Arte, jovem e idealista, causa alguma perturbação.

Disposta a desafiar o conservadorismo do colégio para meninas de boas famílias, a professora, aqui interpretada por Julia Roberts, inicia as suas alunas na arte moderna, ausente dos programas da instituição. Tentando levar as raparigas, que na sua maioria parecem desejar apenas tornarem-se boas esposas e mães de família, a terem ambições próprias e a lutar por elas, a professora entra em conflito com a cultura dominante na escola e no meio social das suas alunas.

Não sendo propriamente uma obra-prima nem fugindo por completo aos clichés e ao convencionalismo romântico deste tipo de filmes, O Sorriso de Mona Lisa conta-nos uma boa história e explora de forma interessante a relação entre um modelo de escola e o meio social e cultural que lhe está subjacente.

Froilán e o direito ao sucesso

froilan.JPGO jovem Froilán de Marichalar é entre nós um ilustre desconhecido, mas o mesmo não sucede no país vizinho: é neto do antigo rei de Espanha e sobrinho do actual, Filipe VI. Quarto na linha de sucessão ao trono, rapaz bem parecido e namoradeiro, amante de farras e de touradas, aquele que tem sido apontado como neto favorito de Juan Carlos de Bourbon revela contudo um ponto problemático a seu desfavor: é pouco dotado para os estudos.

Os problemas escolares de Froilán começaram aos 12 anos, quando os fracos resultados levaram os pais a mudá-lo de escola. Contudo, parece que nenhuma escola se mostrou suficientemente boa para motivar o régio rebento, que passou por um internato inglês e dois colégios religiosos, sempre com notas fracas. Até que chegou ao equivalente ao nosso 8º ano de escolaridade, de onde já não conseguiu passar. Repetiu duas vezes, sem sucesso, o 8º ano e repetiria uma terceira vez se os pais, com o beneplácito dos avós, que têm pago as contas elevadas a este aluno problemático, não decidissem enviar o filho para um colégio de tipo militar nos EUA.

O sistema educativo norte-americano, ou a troca do colégio religioso pelo regime militar, aparentemente fizeram milagres: o aluno cábula e incapaz de se concentrar nos estudos fez aqui, em dois anos, o equivalente a cinco anos de escolaridade. E depois da cerimónia de formatura, regressou já a Espanha, em condições de frequentar a Universidade no próximo ano lectivo.

Em Madrid, Froilán irá estudar Administração e Gestão de Empresas numa selecta universidade internacional, The College for International Studies, onde a família pagará cerca de 20 mil euros anuais para usufruir de um ensino que lhe dá todas as condições para continuar no rumo do sucesso. Haja dinheiro, é caso para dizer, e quase todos os problemas encontram solução.

Trata-se de um centro muito exclusivo que tem apenas 200 alunos com um rácio de 15 alunos por professor. Uma formação semelhante à que recebia no “Pilar” e nos outros colégios privados de Madrid em que fez o seu agitado percurso escolar. Segundo se expõe na sua página web, “CIS é uma universidade, mas também uma Grande Família, na qual os alunos se sentem cómodos, cuidados e orientados na hora de tomar decisões académicas importantes”.

Ou, como já dizia no século XVII o grande poeta Francisco de Quevedo, poderoso caballero es don dinero…

A verdadeira diferenciação pedagógica

Lê-se a entrevista do DN à fundadora da Park International School e antevê-se uma escola inacessível a 99% dos Portugueses, mas que segue o modelo que as elites mais cosmopolitas do país desejam para os seus filhos. Aqui a verdadeira diferenciação pedagógica faz-se pela capacidade económica dos pais, que querem que os seus filhos sejam “líderes”, num mundo “sem fronteiras” e aceitam pagar mensalmente, pela escola de cada um, bem mais do que um salário mínimo nacional.

park.JPG

Apesar da recente partilha de despojos com chineses, angolanos e outros capitalistas globais, com ou sem pátria, há uma casta de donos disto tudo que continua a dar cartas, e até nos apelidos dos empreendedores notamos como o capital dos bancos falidos que agora andamos todos a pagar se reciclou nos novos empreendimentos onde as elites se reinventam.

“Desde que criei o Park – com dinheiro que tinha, uma ajuda da família e de amigos e algum financiamento bancário – que pensei que não queria abrir o capital. Acabei por dar uma posição acionista à Marta (Villarinho), mas nós estamos juntas desde o início e complementamo-nos perfeitamente, portanto fazia sentido. Mas agora (em 2015) achei que tinha mesmo de o fazer se não queria ficar limitada ao 6.º ano. Era ficar ali ou abrir o capital e crescer sem medos.” E não foi preciso pensar muito: entregou uma fatia do negócio a um fundo de private equity gerido pelo Menlo Capital, que permitiu o encaixe financeiro necessário para responder à pressão dos pais para alargar o colégio ao secundário (o plano ficará completo quando os miúdos atualmente no 7.º lá chegarem) e criar a primeira escola internacional de Lisboa. “E tivemos imensa sorte com os sócios que encontrámos” – bem como com a parceria estabelecida com o Imofomento, do BPI, fundo que detém todos os edifícios onde funcionam as escolas e a quem os sócios do Park pagam uma renda.

[Um] colégio que, apesar de relativamente recente, está cotado entre os melhores do país. Onde a alimentação dos miúdos resulta de uma parceria com a Go Natural e eles são ensinados, além do que é vulgar aprenderem na escola, a pensar e a questionar o mundo, com a ajuda de programas inovadores como o My Time, em que, sob proposta dos professores, têm a oportunidade de brilhar no que mais gostam de fazer – tenha ou não ligação direta com o que estão a aprender. Ou o Big Idea, em que se juntam em grupos de dez ou doze, de idades diferentes, para propor uma resposta a perguntas abertas como “para que servem as cores” ou “explica matematicamente a tua escola” – projetos que vão desenvolvendo uma manhã por semana e para cuja conclusão têm todos os professores disponíveis para ajudar e todo o material que possam querer, de papel higiénico e plasticina a impressões 3D.

“Os miúdos vivem aqui numa bolha e se não os preparamos para o que há além dessa bolha não vão ser felizes. Por isso é tão importante essa parte, que passa por lhes mostrarmos que têm de ser cidadãos do mundo, de conhecer diferentes culturas, de aceitar diferentes pontos de vista e de ser responsáveis.” Nessa lógica, o Park construiu um programa notável que passa por dedicar determinado número de horas curriculares – dependendo do ciclo educativo – a um programa de fellowship em que são ensinados a ajudar dentro da escola, na comunidade e no mundo. “Eles é que escolhem, mas podem por exemplo ir ter com a senhora da cozinha para lavar pratos, ou atender telefones.” O serviço à comunidade passa este ano por irem ensinar os velhotes de um lar vizinho a mexer no iPad e os miúdos de uma escola próxima a usar os smart boards oferecidos pelo Park. E na sua versão mais ampla o programa escolhido para este ano foi o Girl Rising, promovido por uma ONG que quer despertar consciência para as muitas raparigas que ainda não vão à escola.

De resto, o projeto educativo do Park funciona na lógica da maioria das escolas: até ao 1.º ciclo há um professor que só fala português e outro que só fala inglês em cada sala; do 1.º ao 6.º ano são seguidas as metas do Ministério da Educação, com aulas em português (Língua Portuguesa, História e Matemática) e em inglês (alguns temas de Estudo do Meio, Ciências, Educação Física, Música, Artes, Tecnologias…), e a partir do 7.º é seguido o programa de Cambridge com o ensino a passar todo para a língua inglesa. Mas com uma preocupação acrescida pela aprendizagem da História, da língua e da cultura portuguesas – que implica um aumento da carga horária mas que Bárbara considera essencial para manter as raízes.

“No fim das aulas, nós levamo-los ao Belenenses, ao CIF (ténis) ou ao Holmes Place (natação) e os pais só têm de os ir buscar ao final da tarde, o que é uma facilidade para eles.

Resta apenas uma questão: quanto custa ter um filho na escola que Bárbara de Beck constrói diariamente? “Cerca de oito mil euros por ano”, responde de imediato.

A Escola no Cinema: Clube dos Poetas Mortos

Clube dos Poetas Mortos

Título original: Dead Poets Society, 128m, EUA, 1989.

clube-poetas-mortos.JPGEis um clássico que dispensa grandes apresentações. Provavelmente já quase todos os leitores terão visto este filme, que ainda assim não poderia ficar ausente desta série de posts dedicada às visões cinematográficas sobre a escola.

A história desenrola-se a partir da chegada de um invulgar professor de Literatura a um colégio de elite norte-americano. A abordagem sedutora e anti-convencional do novo professor, a sua personalidade marcante e o contacto próximo com os alunos abrem a mente dos estudantes para a literatura a para a vida.

Numa história absorvente e bem contada há aqui e ali algum apelo ao sentimentalismo e diversas questões que o filme levanta nem sempre são completamente exploradas. Ainda assim, Dead Poets Society revelou-se um verdadeiro filme de culto logo após o seu lançamento e uma referência na abordagem cinematográfica da relação professor/alunos e do convencionalismo dos colégios internos elitistas e conservadores.

A afundação das universidades

uc-fundacao.JPGA Associação Académica de Coimbra fugiu à modorra habitual das sessões comemorativas da universidade contente consigo própria. E aproveitou o Dia da Universidade, 1 de Março, para lançar a contestação estudantil contra a vontade dos actuais dirigentes da UC de transformar a secular universidade numa fundação, seguindo o caminho do ISCTE e das Universidades de Aveiro, Porto, Minho e Nova de Lisboa.

A possibilidade de mudar o estatuto jurídico das universidades e escolas superiores públicas portuguesas, de entidades públicas para fundações regidas pelo direito privado, foi criada por Mariano Gago, certamente inspirada nos exemplos de outras universidades europeias cujo sucesso é atribuído, em grande parte, a esse posicionamento privilegiado que lhes permite usufruir do melhor de dois mundos: são instituições de utilidade pública e sem fins lucrativos, mas dotadas de ampla autonomia financeira e organizacional, mantendo-se independentes do poder político e estabelecendo parcerias mutuamente proveitosas com empresas e organizações da sociedade civil.

Em Portugal, não me parece que as nossas universidades tenham dimensão, património e recursos para se autonomizarem da tutela estatal, sobretudo ao nível financeiro. Nem tecido empresarial ou sólidas fundações privadas que possam substituir-se ao Estado no apoio a longo prazo às universidades. Contudo, com o regime fundacional, o Estado pode reduzir os actuais níveis de financiamento, passando a contratualizar as verbas a transferir e a condicionar essas transferências ao cumprimento de determinados objectivos.

Com o regime fundacional, a investigação teórica e o ensino, sobretudo de cursos e matérias que não suscitam interesse imediato da parte dos potenciais mecenas, ficam seriamente comprometidos. O resultado será uma universidade mercantilizada ao sabor das oscilações do mercado laboral e das oportunidades de negócio em torno da investigação aplicada. Ou, em alternativa, o aumento das propinas naquelas instituições que não quiserem colocar em causa a qualidade do ensino e o trabalho dos professores e investigadores e tenham procura e prestígio suficientes para o fazer.

Nas universidades-fundação, regidas pelo direito privado, os novos docentes e investigadores passam a celebrar contratos individuais de trabalho, através dos quais as instituições lhes poderão impor condições diferentes, e no geral piores, em relação às dos actuais contratos de trabalho em funções públicas. Insidiosamente, a legislação prevê que o novo regime se aplique apenas aos novos trabalhadores, dando assim oportunidade aos conselhos gerais e às equipas reitoriais a possibilidade de decidirem, para os vindouros, um regime laboral pior do que aquele de que lhes é aplicado.

Finalmente, o regime fundacional copia, das verdadeiras fundações, o ridículo “Conselho de Curadores”. Este órgão é formado por cinco personalidades sem qualquer vínculo à universidade mas que acabam por ter grande influência nas decisões e nos destinos da instituição. E o mais indigno e revoltante é que universidades que têm nos seus quadros dos melhores cientistas, filósofos, humanistas, economistas e juristas do nosso país acabem, para alimentar esta ficção fundacional, a indicar para seus “curadores” pessoas como o antigo dono disto tudo ou um merceeiro do regime em Aveiro, ou então um ex-ministro cavaquista de má memória no Porto. Já para não falar no Saraiva da CIP, no seráfico Vitorino do PS dos negócios, em sindicalistas avulsos da UGT ou em carreiristas daquela nebulosa de interesses e vigarices alimentada pelo grupo GES/BES.

Tudo personalidades de elevado mérito, como manda a lei. E escolhas de fino gosto da parte dos nossos universitários, acrescento eu.

Gasosas de aquém e além-mar

gasosa.jpgJoão Miguel Tavares, um cronista que com alguma frequência descamba para a parvoíce ao tentar ser engraçado, mostra-se hoje certeiro e acutilante quando, num registo mais sério e contido, evoca a típica reacção desabrida da elite económica, militar e política angolana e do seu oficioso Jornal de Angola, sempre que um dos seus membros se torna suspeito de envolvimento em casos de corrupção em Portugal. E reconhece, a contragosto, que os biltres angolanos até acabam por ter a sua razão. A pequena e média corrupção não está entranhada na sociedade portuguesa como notoriamente sucede com a “gasosa” angolana. Mas, no topo da sociedade, de um lado ou de outro, a realidade é a mesma.

Os dirigentes angolanos reconhecem-se na actuação de banqueiros, empresários, gestores e ministros  portugueses, e quando assim é, torna-se muito difícil aceitar lições de ética ou de moral da parte de quem faz o mesmo, ou ainda pior. Uma justiça portuguesa incapaz de julgar e condenar a penas efectivas de cadeia loureiros e rendeiros, salgados e granadeiros, zeinais e outros que tais, que autoridade tem para se ir meter com os homens-fortes do regime de Luanda?

Basta olhar para a lista actualizada de arguidos da Operação Marquês. Há dez anos, aqueles eram os homens mais poderosos de Portugal. A nossa mais destacada elite económica. Os jornais faziam vénias à passagem de Zeinal Bava, de Henrique Granadeiro ou de Ricardo Salgado. Havia entrevistas, perfis de sucesso, conferências, influência e a habitual sabujice. Nós engolimos explicações que jamais deveriam ter sido aceites por uma sociedade saudável, atenta e minimamente exigente. Salgado recebia 14 milhões de um cliente do BES, chamava a isso uma “liberalidade”, juntava pareceres de eminentes professores catedráticos a justificar que uma “liberalidade” era coisa perfeitamente aceitável – e o pessoal encolhia os ombros. Bava recebia 18,5 milhões do saco azul do BES, só os devolvia depois de começar a ser investigado, de seguida argumentava tratar-se um valor que lhe havia sido “confiado a título fiduciário, consignado a uma finalidade legítima a concretizar em momento futuro” – e a pátria não queria saber. Enfiavam-nos dois garfos nos olhos, diziam que se tratava de uma operação às cataratas, e no fim ainda pagávamos a conta.

Não admira que os angolanos, que conhecem tão bem o senhor Bataglia, o senhor Salgado ou o senhor Sócrates arranquem os cabelos de raiva quando assistem à velha pátria lusitana de dedinho em riste, a perorar sobre a lastimável cleptocracia angolana. Não é que ela não seja lastimável – com certeza que é. Mas nós andámos décadas a alimentar a cleptocracia portuguesa sem que o povo tivesse sequer reparado. Não somos melhores. Somos apenas mais hipócritas e mais reservados. A “gasosa” é a bebida favorita das nossas elites – só que é preciso chegar lá para nos abrirem a porta do bar.