Um director contra o calendário semestral

jose-eduardo-lemosAfinal nem todos os directores querem a divisão do ano lectivo e a avaliação dos alunos organizadas em semestres. José Eduardo Lemos, presidente do Conselho de Escolas, contesta abertamente a posição que tem sido defendida por Filinto Lima, da ANDAEP, associação representativa dos directores.

Do ponto de vista da avaliação dos alunos, é absolutamente irrelevante o ano letivo ser dividido em dois, em três, quatro ou mais períodos. Será sempre a última avaliação do ano letivo a ajuizar do percurso do aluno em cada disciplina e no ano de escolaridade frequentado.

[…] Defender que as taxas de sucesso escolar aumentam se diminuirmos os momentos de avaliação (dos três que existem atualmente para dois) leva-nos à conclusão óbvia de que se existisse apenas um momento de avaliação, as taxas de sucesso seriam ainda mais elevadas. Nesta linha de argumentação, estranha-se que não se defenda a eliminação de todos os momentos de avaliação, para que o sucesso seja de 100%.

O argumento de que a organização do ano letivo em dois semestres reduziria o trabalho burocrático dos professores também não colhe. Desde logo, porque a avaliação dos alunos não é um trabalho burocrático, antes pelo contrário, é um trabalho eminentemente pedagógico, da competência exclusiva dos professores. Portanto, libertar os professores das reuniões de avaliação é libertá-los de tarefas pedagógicas e não de tarefas burocráticas.

Quanto à redução da despesa de Educação e dos danos causados aos alunos pela diminuição do número de retenções, também me parece que Filinto Lima atira ao lado do alvo. Se a retenção é uma despesa a evitar e se provoca danos (psicológicos!?) aos alunos então – haja coragem – não se permita reprovar alunos.

Embora Filinto Lima não refira nenhuma, também existem desvantagens que convém identificar. A divisão do ano letivo em semestres exigirá, apenas, uma presença mínima dos pais nas escolas, uma ou duas vezes por ano. Poder-se-á objetar que pais vão à escola sempre que entenderem, tal como hoje, mas com tantas críticas à persistente ausência dos pais das escolas, não posso deixar de notar que a semestralidade terá o efeito negativo de os afastar ainda mais.

Acresce que uma avaliação realizada apenas no final de um semestre de aulas, reduzirá fatalmente a perceção que os alunos, os pais e os próprios professores terão da qualidade das aprendizagens realizadas, das dificuldades evidenciadas e das medidas que será necessário adotar para as ultrapassar. Será tarde demais para qualquer ação corretiva consequente.

A tenra idade e ainda pouca maturidade dos alunos dos Ensinos Básico e Secundário e o previsível maior afastamento dos pais da escola desaconselham a aplicação de um modelo de avaliação semestral dos alunos, tal como é defendido por Filinto Lima.

Olhando para as novas matrizes da flexibilidade curricular, encontro ainda mais uma desvantagem na organização semestral: a de que ela facilite e incentive a semestralização de algumas disciplinas, já em tempos sugerida pelo secretário de Estado João Costa, que seria a forma mais expedita de lhes retirar peso no currículo.

Sem uma opinião definitiva sobre o tema, prefiro que ele seja discutido na perspectiva em que é colocado por Eduardo Lemos, equacionando vantagens versus inconvenientes, do que pela visão voluntarista de quem acha que descobriu na organização semestral do calendário escolar a solução milagrosa para quase os problemas pedagógicos e organizacionais das escolas portuguesas. E aguardo serenamente os resultados da aplicação de projectos neste sentido que irão ser implementados já em 2017/18.

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Organização semestral do ano escolar

Quando Filinto Lima veio pedir, para o agrupamento de que é director, a possibilidade de organizar semestralmente o ano lectivo, saberia por certo que outros directores iriam ter direito, já em 2017/18, ao brinquedo novo que ele ambicionava.

Mas ao contrário da flexibilidade curricular, que é experiência a iniciar em mais de 200 escolas e agrupamentos, a autonomia para dividir o ano lectivo em dois semestres, como se faz no ensino superior, parece estar reservada ao grupo muito mais restrito que participa nos PPIP – os projectos-piloto de inovação pedagógica.

O Agrupamento de Escolas do Freixo, um dos seis participantes na experiência, publicou já o seu próprio calendário escolar para 2017/18, diferente do que estamos habituados a ter: dois semestres, em vez de três períodos lectivos e cinco pausas lectivas em vez das três interrupções habituais. Reduzindo a duração das férias do Natal e da Páscoa, que deixam de ser momentos da avaliação, libertam-se alguns dias que permitem fazer pequenas pausas de dois dias em Novembro e em Abril e aumentar a duração das férias de Carnaval, altura do primeiro momento de avaliação. Ora vejamos:

semestres.jpgEm termos organizacionais o novo modelo parece trazer vantagens, simplificando os procedimentos avaliativos. Mas tenho dúvidas, que provavelmente só a aplicação concreta do modelo e a sua avaliação honesta poderão esclarecer, se será benéfico, do ponto de vista pedagógico, haver apenas dois conselhos de turma para efeitos de avaliação. E também por cá ando há tempo suficiente para saber que a burocracia escolar tem horror ao vazio, pelo que, nas escolas que padecem do vício da reunite, não é por haver menos avaliações formais que não se inventarão outros pretextos para reunir conselhos de turma, de grupo disciplinar ou de departamento.

De resto, saúdo o aproveitamento da possibilidade de introduzir, tal como se faz na maioria dos países cujos sistemas educativos gostamos de elogiar, de interrupções lectivas quebrando a duração excessiva dos actuais períodos lectivos. Embora isto também se pudesse fazer sem necessidade da organização semestral do calendário escolar.

Organizar o ano em semestres?

directorDiretores querem escolas básicas e secundárias com dois semestres

A ideia tem vantagens e inconvenientes.

Parece agradar a muitos directores, caso contrário Filinto Lima, que dirige uma das associações que os representa, não faria a proposta com tanta insistência.

Mas se algumas vantagens, do ponto de vista organizacional, são mais ou menos óbvias, na perspectiva pedagógica, que é a que deve prevalecer, a questão é bem mais complexa.

E merece ser ponderada, mas não quando os professores estão de férias.

O que noto aqui, e sinceramente me desagrada, é o voluntarismo de Filinto Lima, e o jogo de favores que propõe ao governo: eu ofereci o meu agrupamento para experimentar a vossa flexibilidade curricular, dêem-me agora vocês a oportunidade de organizar os períodos lectivos, na minha escola, da maneira que eu quero.

E que tal – que ideia tão estranha, nos tempos que correm! – discutirem primeiro o assunto com todos os professores?

Colaborações: ComRegras

No Topo: O calendário do pré-escolar

Terá passado quase despercebido nos restantes níveis de ensino, mas para quem trabalha na educação pré-escolar o calendário do ano lectivo 2071/18 concretiza uma velha aspiração do sector: a harmonização dos períodos lectivos com o 1º ciclo. Esta mudança implica o reconhecimento da importância do trabalho pedagógico no pré-escolar…

No Fundo: (de novo) A greve do dia 21

A greve, que ninguém queria verdadeiramente, foi marcada para tentar forçar o governo a um maior comprometimento com as reivindicações dos professores, em negociações que se eternizam sem resultados à vista. Contudo, estando marcados exames nacionais para esse dia, e sendo a sua realização considerada um serviço mínimo a assegurar em caso de greve, bastou ao ME invocar a norma aprovada pelo anterior governo para a esvaziar…

 

Ainda o calendário escolar

universitario.pngFilinto Lima lamentou […] que o calendário do próximo ano lectivo continue “refém da Páscoa”, o que leva a que exista um primeiro período “gigantesco” e um terceiro período “diminuto”, situação que vem mais uma vez pôr em cima da mesa a necessidade de se “avançar para uma organização semestral” das aulas, conforme tem sido defendido pelos directores.

Quando as pessoas engatilham uma determinada cassete, torna-se complicado.

No próximo ano lectivo, e segundo o calendário escolar já publicado, o 3º período “diminuto” terá 8 semanas e meia no 9º, 11º e 12º, 10 semanas nos restantes anos do 2º e 3º ciclos e secundário e 11 semanas no 1º ciclo e no pré-escolar.

Claro que o 1º período continua a ser enorme, mas isso nada tem a ver com a Páscoa. É o resultado de se insistir em não introduzir, a meio, uma pausa lectiva, como existe no 2º período e como se faz na generalidade dos países europeus.

Mas pela insistência já se percebeu que, pelo menos na semestralização do ano lectivo, os senhores directores querem mesmo ser colocados em pé de igualdade com os senhores reitores do ensino superior.

Calendário escolar 2017/18

Foi ontem publicado no Diário da República – Despacho n.º 5458-A/2017 – juntamente com o calendário de exames e provas finais. Segue o modelo esgotado e todos os anos criticado, mas que sucessivos governos se mostram incapazes de alterar ou renovar: um longo 1º período de 14 semanas sem interrupções, os outros condicionados, na sua extensão relativa, pela mobilidade da Páscoa. Este ano calhou que nem ficassem muito desequilibrados…

calend17-18.JPG

A escola do século XXI continua, afinal de contas, a reger-se pelas luas, tal como o calendário religioso vindo dos primórdios do Cristianismo.

Como nada disto é decidido por professores retrógrados e conservadores, mas sim por secretários de Estado esclarecidos e muito à frente, tá-se bem!…

Colaborações: ComRegras

No Topo: O fim do ano lectivo

Foi um ano longo e desgastante, com dois períodos lectivos enormes e um terceiro que, reduzido a menos de dois meses, obrigou em muitos casos a um stress adicional para que se conseguissem concluir todas as actividades planeadas. Os dias encalorados de Maio e Junho reduziram o rendimento das últimas aulas do ano, e fizeram ansiar ainda mais pela chegada das férias escolares. Mas o fim das aulas não significa férias para os professores…

No Fundo: A greve do dia 21

Foi precipitada a marcação desta greve que ninguém deseja, embora o impasse negocial com o ME acabasse por justificar a iniciativa da FNE e da Fenprof, as duas federações sindicais de professores. Contudo, para que esta greve tenha sucesso há dois problemas que, nesta altura do campeonato, serão difíceis, senão impossíveis, de ultrapassar…