A Ilustre Casa de Ramires está à venda

torre-da-lagaricaA Casa da Torre da Lagariça é uma construção cuja origem remonta à primeira metade do século XII, quando foi construído o torreão militar em plena época da reconquista cristã. Já no século XVII, os proprietários da torre decidiram construir à volta um solar em forma de L, não tendo alterado a torre.

O escritor Eça de Queirós visitou o local situado na freguesia de São Cipriano, em Resende, e inspirou-se para escrever A Ilustre Casa de Ramires, publicado em 1900. “E como o visconde [de Rio-Manso] aludia ao desejo, já nele antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais velha que Portugal – ambos desceram ao pomar. O visconde, com o guarda-sol ao ombro, pasmou em silêncio para a torre”, lê-se, por exemplo, no capítulo VIII.

A torre é mais antiga que Portugal e o solar, erguido à sua volta, um exemplar típico das tradicionais residências da pequena nobreza rural. Em redor, uma pequena quinta com horta, pomar, jardins e uma mata.

990 mil euros é quanto custa, no site da Remax, a propriedade, naturalmente a precisar de obras e a merecer reabilitação, eventualmente no âmbito de um projecto de hotelaria. Haverá interessados, ou irá a velha casa juntar-se, a breve prazo, ao triste espólio do Portugal arruinado?…

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Petição em defesa do ensino da História

A reorganização dos currículos em curso tem sido, no caso da disciplina de História, um verdadeiro emagrecimento curricular: com a aplicação, mais ou menos flexível, das novas matrizes, a disciplina tende invariavelmente a perder tempos lectivos em vários anos de escolaridade. Uma realidade que o ME não assume, mas acaba por admitir quando sugere a leccionação da disciplina em blocos semestrais.

Não me parece que esta desvalorização curricular do conhecimento histórico seja acidental. Há uma intencionalidade óbvia, um propósito claro e, obviamente, pessoas responsáveis. Desde logo, o secretário de Estado da Educação que tem dirigido a pseudo-reforma educativa em curso e o ministro que, embora pareça andar a leste de tudo o que se faz e decide no ME, continua a ser o último responsável pelo ministério que dirige. E cúmplices evidentes, onde terei de incluir, lamentavelmente, a associação que supostamente representa os professores de História.

Há uns meses, critiquei o colaboracionismo da APH numa política que desde o primeiro momento visou menorizar a História e substituir o pensamento estruturado, crítico e fundamentado que a disciplina promove pelas vacuidades sem substância das diversas “educações para a cidadania”. Não mudei de opinião, mas o quadro negro que hoje se desenha para o futuro do ensino da História nas escolas portuguesas justifica que todos os esforços se unam no sentido de denunciar a situação e procurar o apoio de todos os que possam e queiram ajudar-nos a salvar a disciplina. É por isso que assinei e divulgo o abaixo-assinado promovido pela APH, apelando também à sua assinatura por todos os interessados.

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…Não chega afirmar que o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória assenta numa base humanista. É necessário concretizá-lo. Tendo em conta as caraterísticas da construção do saber histórico – o desenvolvimento de valores ligados ao pensamento democrático, à estruturação do pensamento, ao desenvolvimento das capacidades de análise, de síntese e de crítica –, que podem e devem ser potenciados pela oportunidade que constituem as AE e o modelo de ensino que lhes está associado, parece uma contradição a diminuição efetiva da carga horária da disciplina que se está a verificar, efetivamente, em muitas escolas.

Os agentes educativos abaixo-assinados vêm, respeitosamente, solicitar que Vossa Excelência se digne a ter em consideração a petição acima descrita, enquadrada pela necessidade de desenvolvimento de boas práticas educativas e de cidadania, na aplicação das Aprendizagens Essenciais e da política educativa que as contextualiza.

“Eu não peço desculpa por 500 anos de colonialismo”

raq-varela.JPGA propósito do lançamento do seu livro mais recente, eis uma interessantíssima entrevista à historiadora Raquel Varela, boa para ler e reflectir mesmo – ou sobretudo – em tempo de férias.

Ficam apenas alguns destaques de uma peça que vale a pena ler por inteiro.

Acho que a luta dos professores faz todo o sentido e deve ser consequente. Deve ser muito determinada, porque os professores não estão só a lutar por eles, estão a lutar por toda uma escola pública, por uma visão de uma escola que não seja uma escola reduzida, encapsulada, no chamado capital humano e no mercado de trabalho, que retira toda a capacidade de conhecimento universal aos alunos, ou deixa isso a uma elite.

Não tenho dúvida nenhuma de que [o capitalismo] está condenado a falhar. A colapsar, tenho dúvidas. Penso que os capitalistas preferirão uma terceira guerra mundial a abdicar das suas propriedades, nas formas mais importantes que elas hoje têm, em que 200 famílias concentram o principal da riqueza da humanidade, segundo o Credit Suisse.

A extrema-direita não cresceu como organização, cresceu do ponto de vista eleitoral. Tem muito apoio eleitoral mas não tem influência organizativa de massas. Não é possível que políticas absolutamente essenciais como a defesa do emprego, a defesa da segurança do emprego, mesmo políticas de família, sejam só faladas pela direita. Sou absolutamente a favor do casamento entre homossexuais, como sou a favor da adoção de crianças por casais homossexuais, mas acho que temos de ter políticas familiares para todas as famílias. As creches, o trabalho doméstico, a exaustão dos casais, a distância a que vivem do local do trabalho, a dificuldade que é hoje criar filhos numa sociedade urbana… só a direita é que fala de família?

A esquerda está muito associada às questões identitárias. Esquece-se de que as mulheres, hoje, em Portugal, têm direito ao aborto, direito aos hospitais, mas não têm liberdade económica, nem segurança no emprego, e isso reduz os direitos afetivos. Se um casal não pode separar-se porque tem de pagar a casa, ou nem sequer pode casar-se porque não tem dinheiro, os direitos essenciais e fundamentais de afetos estão postos em causa. Reduzir tudo a uma questão de igualdade perante a lei é altamente reducionista.

…eu não compro essa tese de que todos nós temos de pedir desculpa por 500 anos de colonialismo. Eu não peço desculpa. […] Todos nós, tirando a extrema-direita ou a direita muito pouco séria e rigorosa, reconhecemos o passado colonial português. Está escrito em centenas de livros de história, em música, em literatura. […] Acho que era muito mais interessante perguntar a essas pessoas se apoiam o que este Governo fez com o Banco Espírito Santo, que está intimamente ligado com o processo de neocolonização de Angola, realizado com a complacência das elites locais. Angola tem meia dúzia de ricos e o resto é uma favela de gente miserável. Ou o Banif com a Guiné Equatorial… isso para mim é que são políticas anticoloniais. Não é transformar a história num divã freudiano.

Onda de calor

Calor abrasador e sufocante na maior parte do país, com uma intensidade de que muita gente não tem memória.

Contudo, recuando um pouco mais no tempo, vemos que o que sucede por estes dias não difere muito do que sucedeu, por exemplo, no Verão de 1944…

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Para que serve a Associação de Professores de História?

3cebRidícula e lastimável a posição da Associação dos Professores de História sobre a forma vergonhosa como, com o seu beneplácito, a disciplina está a ser tratada no âmbito da flexibilidade curricular.

Andaram, desde o início, a apoiar um projecto que mostrava claramente ao que vinha – retirar tempos lectivos às disciplinas curriculares para os conceder a vacuidades sem substância apresentadas como projectos, interdisciplinaridades e cidadanias. E acordaram agora, quando nas escolas se vai retalhando o currículo e reduzindo a disciplina, no terceiro ciclo, a 90 ou 100 minutos semanais na maior parte dos anos de escolaridade.

…qualquer matriz horária que apresentar para estas disciplinas menos de três tempos semanais, sejam eles de 45 ou de 50 minutos, estará a lesar e comprometer, quase fatalmente, a sua qualidade científica e pedagógica, bem como uma das grandes finalidades do ensino da História que é, entre outras, a construção de uma consciência crítica nos alunos, base fundamental de uma cidadania ativa. Por todos estes factos estarem comprovados em qualquer sociedade livre, democrática, culta e consciente da sua evolução mas, também, reforçados pela mais recente posição do Conselho da Europa sobre o assunto, a que abaixo fazemos referência, a APH recusa qualquer redução da carga letiva semanal das disciplinas de HGP (2º Ciclo) e de História (3º Ciclo)!

Bem podem agora invocar o “trabalho construtivista” preconizado pelos documentos orientadores da flexibilidade curricular e do novo perfil do aluno, ou as recomendações do Conselho da Europa sobre o ensino da História. Em Portugal, o que tem força de lei são os diplomas publicados no Diário da República, e o DL 55/2018 é muito claro nesta matéria: no 8º e no 9º ano, 225 minutos estão destinados a três disciplinas: História, Geografia e Cidadania. Mesmo que esta última receba apenas 45 minutos, restam 180 a dividir pelas outras duas. Ou seja, 90 minutos semanais.

Claro que – flexibilidade é isso mesmo – as escolas têm autonomia para ir buscar mais tempo para a História. Só que terão de o fazer “roubando-o” a outras disciplinas, pois as actuais matrizes curriculares, ao contrário das anteriores, não definem máximos e mínimos: o ganho de uns terá de se traduzir em perda para outros.

Tudo isto era evidente há muito tempo, assim como óbvia é a conivência da APH com aquilo que me parece ser o maior atentado de sempre contra o ensino da História no nosso sistema educativo. Não consigo sequer qualificar a atitude da direcção da APH que, sendo incapaz de tomar uma posição firme e consequente em defesa da disciplina enquanto tudo isto andava a ser cozinhado, venha agora, quando a aplicação no terreno começa a ser feita, fingir-se surpreendida e preocupada. E, com toda a desfaçatez, pedir aos professores que façam, nas suas escolas, o combate que a APH, no lugar e altura certa, se absteve de travar em defesa da disciplina.

…os docentes de HGP e de História devem fazer-se ouvir nas escolas onde lecionam para que não lhes seja retirada carga horária, seja qual for a razão apresentada.

Se dúvidas houvesse acerca do comprometimento da APH com este ataque ao ensino da História, basta recordar um post que escrevi há cerca de um ano atrás. A associação, num comunicado conjunto com a sua congénere de Geografia, afirmava na altura ter garantias do SE João Costa em relação ao seguinte: “6 tempos letivos cada para o 7º Ano, a dividir equitativamente pela Geografia e pela História; 5 tempos letivos cada para o 8º e 5 tempos letivos cada para o 9º Ano, a distribuir também de forma equitativa, pelas duas disciplinas, nos dois anos (3+2 ou 2+3).” Quanto à nova disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, “o Sr. Secretário de Estado referiu que esta nova disciplina deveria, de facto, ser prioritariamente lecionada por professores de História ou Geografia. Afirmou ainda que esta disciplina teria, apenas, 25 minutos semanais de lecionação, não retirando assim qualquer tempo letivo à Geografia e à História”.

Escusado será dizer que nada disto está escrito nos documentos oficiais. Não sei se foi o SE que fez falsas promessas aos dirigentes das associações ou se foram estes que quiseram deliberadamente enganar-se a si próprios e, o que é mais grave, aos professores que supostamente representam. Da minha parte, não posso honestamente dizer que me enganaram, pois de facto não acreditei numa palavra dos bons intentos anunciados. Mas a desonestidade de pelo menos uma das partes é mais do que evidente.

Claro que uma das razões para estas coisas acontecerem é a fraca representatividade das associações profissionais de professores. Não sei quantos associados terá a APH, mas suponho que serão, de facto, muito poucos. Um grupo de colegas e amigos que se faz eleger para os órgãos sociais, que publica algumas coisas, mantém um site, organiza umas excursões para os associados. E, para além disso, toma lugar no ME como mandatário de professores que nunca lhe conferiram qualquer mandato para os representar. Mais dependentes do ministério – que lhes confere as “mobilidades estatutárias” e os chama para os grupos de trabalho – do que comprometidos com os colegas que deveriam representar, aos dirigentes da APH e organizações similares resta a posição colaborante, e nalguns casos verdadeiramente subserviente, em relação aos ditames ministeriais.

Nunca devemos morder a mão que nos alimenta, parece ser o lema desta gente.

Avaliações terminadas

sem-fimNotas dadas em todas as turmas e um indisfarçável sentimento de alívio, quando finalmente chega ao fim uma luta tão longa e desgastante.

Mas este estado de espírito cruza-se com a ideia de que não deveríamos ter abandonado a luta, tão escasso foi o que conseguimos com estas seis semanas de greve.

A ideia de resistir, que é o que nalgumas escolas, desconfio que poucas, se continua a fazer.

Contudo, aqui impõe-se um módico de racionalidade: o que irão conseguir, no dia 31, os resistentes que conseguirem manter a greve até ao fim do mês? Desconfio que exactamente o mesmo que conseguiram os acordistas do dia 11.

Obter resultados a tempo de ir de férias: eis, no fundo, do que todos gostaríamos. Mas não iremos ter.

Pois a partir de certa altura tornou-se evidente aquilo que o boneco de Paulo Serra exprime na perfeição: insensível à greve às avaliações, o ME olha curioso para estes seres estranhos que se cansam a si próprios sem alcançar um objectivo – quanto mais tempo irão aguentar?

Inteligente, agora, é não ficar amarrado a uma luta já esgotada, persistindo nela até que acabe também por nos esgotar.

Depois das férias, nas escolas e no Parlamento, a luta dos professores continua.

A luta tem de continuar.

O desastre do exame de História

elisabete-jesus.jpgO exame de História A consegue a proeza nada invejável de ser o que obtém a pior média de resultados – 9,5 valores – numa altura em que os responsáveis do ME ensaiam o que me parece ser a maior ofensiva de sempre contra a disciplina, que ficará reduzida, nas novas matrizes curriculares do 3º ciclo, a 100 minutos semanais.

Poder-se-ia perguntar que mal lhes fez a História – mas prefiro deixar essa reflexão para outra ocasião. Direi apenas aquilo que costumo explicar aos meus alunos, quando me perguntam para que serve a História: ela ajuda-nos, como todas as outras, a compreender o mundo em que vivemos. A perceber as causas das coisas, a reflectir, a procurar entender em vez de apressadamente julgar, a rejeitar a intolerância, a discriminação, o preconceito e as ideias feitas. Talvez por isso não interesse mesmo nada aos poderes instituídos, que preferem que os jovens aprendam a “cidadania” através de guiões padronizados pelas modas politicamente correctas de cada momento.

Por agora, pretendo voltar ao exame de História do 12º ano e à análise daquilo que correu mal. E aqui, nada melhor do que dar a palavra à colega Elisabete Jesus que, tendo sido coadjuvante e classificadora de provas, explicou, no Público, as causas do desastre. Ficam apenas alguns tópicos de um texto cuja leitura integral se recomenda aos interessados.

Uma prova demasiado extensa.
Enquanto os meus alunos faziam o exame, eu também o resolvi e não me chegaram os 120 minutos regulamentares. Precisei ainda de dez minutos dos 30 do período de tolerância. Interrogo-me… Como conseguirão os alunos? Inevitavelmente, fazem uma análise superficial dos documentos, interpretam e redigem atabalhoadamente algumas respostas, quando não as deixam mesmo por responder.

Perguntas ambíguas e subjectivas.
As questões formularam-se de forma diferente e com subjetividade, pelo que os alunos não atingiram o que, a posteriori, os critérios específicos de correção vieram desvendar.

Valorização excessiva das questões de escolha múltipla, em detrimento das que mobilizam conhecimentos e competências de nível mais elevado.
As perguntas de escolha múltipla, ordenação cronológica, resposta curta e associação passaram de 0,5 para 1 valor, e no conjunto da prova totalizavam 9 valores. São perguntas que avaliam competências básicas de domínio de informação/memorização, pelo que o seu valor é exagerado. Já as perguntas que exigem interpretação dos documentos, mobilização de conhecimentos e conceitos específicos da disciplina, integrados na redação coerente de uma resposta/texto, ficaram-se por 1,5 a 2 valores, quando anteriormente variavam entre os 2 a 5 valores. Simultaneamente, eliminaram-se os valores que se atribuíam ao domínio da comunicação escrita, numa disciplina do Curso de Humanidades!

Um novo modelo de prova, para o qual alunos e professores não estavam preparados.
Ao longo do 10.º, 11.º e 12.º anos, os professores de História alinham os seus instrumentos de avaliação com os moldes do exame, não só para preparar os alunos para esse momento de avaliação externa, mas para assegurarem também fiabilidade na avaliação contínua que realizam. E ao longo destes três últimos anos trabalhámos segundo um modelo e, no dia do exame, surpreenderam-nos com outro!