Alcoholocausto – um carro polémico na Queima de Coimbra

alcoholocausto.jpgA Queima das Fitas de Coimbra, cujo cortejo ontem se realizou, continua a ser notícia pelos piores motivos. Este ano, os finalistas do curso de História não encontraram tema mais interessante para o carro em que desfilaram do que uma espécie de paródia do Holocausto. Alcoholocausto era o nome que tinham para o baptizar, e só a onda de contestação no interior da Faculdade de Letras os forçou a, não desistindo da ideia, retirar o nome ofensivo.

Tentar descortinar os antecedentes desta ideia infeliz leva-nos a questões preocupantes. O que é que gente desta anda a fazer num curso de História? Como é possível ser finalista, quase “doutor”, como os praxistas se gostam de designar, e não ter um mínimo de noção sobre o que foi o Holocausto? Não perceber que há formas de o evocar que são, simplesmente, inaceitáveis, qualquer que seja a perspectiva e o contexto? Independentemente dos conhecimentos académicos – até acredito que, tal como nos meus tempos de estudante, o nazismo não faça parte das matérias de estudo – não adquiriram um mínimo de sensibilidade e espírito crítico? Não aprenderam que a História não se faz de achismos, de preconceitos, de factos avulsos e anedóticos, mas do conhecimento e da compreensão profundos das realidades de cada época e das pessoas que nela viveram?

Leia-se, por exemplo, o testemunho de duas professoras da faculdade em que estudam estes alunos:

Adriana Bebiano foi uma das professoras da FLUC a falar diretamente com os estudantes em causa. “Não podemos identificar todos, mas alguns são e reproduzem um discurso antissemita”, disse ontem ao DIÁRIO AS BEIRAS. Para a docente, tanto o nome de carro como o comboio (que tem como referente os comboios de deportação de milhões de seres humanos para os campos da morte), são “uma brincadeira de mau gosto e de falta de respeito pelo holocausto, pela memória do maior genocídio da história ocidental moderna e uma falta de noção do que é a responsabilidade implicada no conceito de liberdade de expressão”.
“O respeito pela memória mais trágica da história europeia, devia fazer parte da ética e, já agora, constituir o cerne da formação em História”, notou.
Para Catarina Martins, o argumento da “liberdade de expressão” dado pelos alunos cai por terra quando se trata de um genocídio.
“A herança de 25 de Abril é da defesa da liberdade com garantia de direitos e respeito pelas diferenças, o que implica o combate de tudo que possa conduzir à repetição de fascismos. Banalizar a história dos fascismos é uma estratégia que serve para fomentá-los”, adverte. 

E perceba-se, finalmente, que isto não foi um acaso infeliz. Estes jovens parecem mesmo convencidos de que a vida num campo de concentração teria o seu quê de divertido. Nota-se uma fixação perturbadora num conjunto de ideias que tentam, nas suas festarolas académicas, reproduzir…

O “fascínio” não é de agora: em outubro do ano passado, no Cortejo da Festa das Latas, os “doutores” do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra desafiaram os caloiros a vestirem-se de judeus e nazis. Serão os mesmos que pretendiam, no próximo domingo, no cortejo da Queima das Fitas, desfilar com um carro a que deram o nome de “Alcoholocausto” e onde ostentariam o símbolo de um comboio. 

Tentando emendar a mão, os estudantes dizem agora que a crítica que pretendem fazer é à própria universidade e ao curso que frequentam. Queixando-se da falta de liberdade de expressão, ensaiam um discurso de vitimização que acaba por ser sempre uma saída airosa nestas situações. Não convencem…

Os elementos do carro lamentam as críticas da opinião pública. No lugar do nome, estará um ponto de interrogação e mensagens como “com esta polémica toda, parece que há Polícia Académica”.

Segundo André Oliveira, um dos elementos do carro, “não foi dado o benefício da dúvida e ninguém se mostrou disponível para dialogar a não ser o diretor da Faculdade de Letras”. “Quisemos alertar que vamos sair daqui licenciados em História sem nunca abordar este tema e nós quisemos que ele não caísse no esquecimento”, aponta.

O carro de História vai, durante o desfile, distribuir folhetos a evocar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Música para o 25 de Abril: Zeca Sempre – O que faz falta

Comemorar o Dia da Liberdade também é isto: dar lugar aos novos na recriação das canções que simbolizam a Revolução dos Cravos. 25 de Abril, sempre!

Leituras: O 25 de Abril segundo Salgueiro Maia

Salgueiro_MaiaEstas palavras foram escritas por Fernando Salgueiro Maia em 1984, dez anos depois de ter participado na Revolução que devolveu ao povo português a liberdade e a democracia.

Nelas se nota já, da parte de um “implicado no 25 de Abril” – como Maia, a partir de certa altura, se referia a si próprio – o desencanto com o rumo que levava a evolução política do país e com os novos poderes instituídos após o derrube da ditadura.

A parte final é premonitória. O mais puro e idealista dos Capitães de Abril, que por não se ter deixado corromper com o “pontapé para cima” acabou por levar o “pontapé para baixo”, parecia adivinhar que os males do regime, já latentes, não deixariam de se acentuar. Até hoje.

É costume dizer-se que o 25 de Abril ficou a meio, porque não estruturou a sua aliança com o campesinato ou não teve um pro­jecto de luta pelo Poder.

Como já afirmei, o MFA nasceu somente para instaurar a de­mocracia e realizar eleições livres; quando, na consequência da crise do marcelismo, surge a contestação global do sistema capita­lista, isso estava para além do MFA, que somente queria criar condições para que todas as opções políticas tivessem acesso à palavra.

A generalidade dos «implicados» no 25 de Abril desejava a mudança, mas sem ser o motor dessa mudança; quase todos tinham a certeza que depois do 25 de Abril nada seria como antes.

O MFA, não sendo motor da Revolução, também não a con­trola senão a 25 de Novembro de 1975, quando uma minoria militar tentou instituir-se na vanguarda da Revolução, dividindo o Movimento e sendo anulada por este.

Apesar de tudo isto, durante alguns anos, o MFA continua a ser utilizado como bode expiatório pelo Governo, para se desculpar de não governar, e pelos movimentos de massas, por não se assu­mirem como poder alternativo.

Esta situação culmina com a marginalização dos «implicados» no 25 de Abril, mesmo os que actuaram a 25 de Novembro.

[…]

Passados dez anos, será interessante assinalar a evolução do comportamento de muitos dos intervenientes, em especial os polí­ticos e os militares que conseguiram passar de um regime a outro, sempre na crista da onda, e que, com as lutas pelo Poder, ajudaram a dificultar a evolução desejada. Por outro lado, não acreditando em democracias musculadas nem no sebastianismo, resta-nos, na orgulhosa situação de implicados no dia 25 de Abril de 1974, criticar os muitos que pagam o idealismo e a generosidade dos Capitães de Abril com o mesmo comportamento que caracterizou o regime nascido em 28 de Maio:

— a corrupção;

— a incompetência;

— o compadrio;

— o circo do Poder.

Até quando?

Salgueiro Maia, Capitão de Abril, Lisboa, 1997.

A nova disciplina de História dos Açores

Acores.gifA partir do próximo ano lectivo, os alunos do 2.º e 3.º ciclo de escolaridade que estejam a estudar no arquipélago açoriano vão passar a ter uma disciplina obrigatória de História, Geografia e Cultura dos Açores. Esta é uma das novidades do novo currículo regional para a educação básica, aprovado no mês passado pelo Governo socialista desta região autónoma e que se encontra agora à espera de ser votado pela Assembleia Legislativa, onde o PS tem maioria.

Sou favorável à valorização curricular da História, e não apenas pela sua importância ou pelo facto de ser professor da disciplina: é que a História tem sido sistematicamente prejudicada pelas reformas e contra-reformas educativas dos últimos vinte anos. No caso das regiões autónomas, faz também todo o sentido que seja reforçada a presença da sua história e cultura nos currículos escolares.

Ainda assim, discordo do método de criar “mais uma disciplina” sempre que alguém se lembra de introduzir determinada matéria no plano de estudos dos alunos. Quando se defende, cada vez mais, a integração de saberes, não faz sentido andar a promover uma cada vez maior atomização curricular. Como todos perceberão, a história açoriana estuda-se e compreende-se melhor no contexto da história portuguesa, europeia e mundial do que estudada separadamente. O mesmo se pode dizer da geografia, da literatura ou das ricas tradições artísticas e musicais do arquipélago, por exemplo: é lógico que sejam integradas nos programas das disciplinas correspondentes.

Com o tempo adequado para a leccionação, como é evidente.

A decadência do ensino da História

manuel-baioa.jpgA História está longe de ser uma área do conhecimento em decadência. Pelo contrário, alicerçado nas suas metodologias e finalidades próprias e mantendo um diálogo fecundo com outras ciências, nunca o saber histórico foi tão abrangente no conhecimento e na compreensão das sociedades humanas e da sua evolução ao longo dos tempos. A História continua a ser, mais do que nunca, fundamental para compreender o mundo em que vivemos e, nesse sentido, deveria ter um lugar inquestionável nos currículos escolares.

Não é essa, no entanto, a visão dos nossos iluminados reformadores curriculares, que alimentam um preconceito contra uma disciplina que desejam converter numa caricatura de si mesma, retirando-lhe tempos lectivos e aligeirando os programas. De forma a que não sobre tempo para muito mais do que a sucessão de “nomes e datas”, o conhecimento “enciclopédico” que os seus detractores dizem não ter lugar na Educação “do século XXI”. A decadência da História não é portanto um mal inerente à disciplina, que está bem e se recomenda, mas sim o resultado da desvalorização curricular que aquela tem vindo a sofrer, pelo menos, nos últimos quinze anos.

Não posso por isso deixar de divulgar e subscrever inteiramente as palavras do colega Manuel Baiôa em defesa do ensino da História. E contra o verdadeiro atentado que está a ser cometido contra a disciplina e todos aqueles que a estudam e ensinam. Que é também, em última análise, um ataque à Educação portuguesa.

Nas últimas décadas a disciplina de História tem perdido importância na correlação de forças entre as diferentes disciplinas que compõem o currículo do 3.º ciclo do ensino básico (7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade) e do ensino secundário (10.º, 11.º e 12.º ano de escolaridade) e tornou-se a disciplina com piores resultados nos exames nacionais do ensino secundário, tendo tido uma média de 9,42 valores em 2018.

A situação que se vive hoje é o resultado de décadas de desinvestimento no ensino da História. Em 1991, quando o atual programa de História do 3.º ciclo do ensino básico foi homologado, o currículo previa uma carga horária de três aulas semanais de 50 minutos no 7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade. As reformas curriculares ocorridas em 2001 e 2012 levaram a uma perda de relevância da disciplina de História, uma vez que o quadro normativo e a pouca autonomia das escolas, obrigou a reduzir a carga letiva da disciplina para sete ou oito aulas semanais no somatório dos três anos do 3.º ciclo do ensino básico. No presente ano letivo voltamos a ter uma nova reforma curricular com a introdução da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, entre outras mudanças. A disciplina de História voltou a perder importância, prevendo-se que, quando a reforma estiver concluída dentro de dois anos, passe a dispor de apenas seis aulas no somatório dos três anos do 3.º ciclo do ensino básico. Portanto, os alunos terão apenas duas aulas semanais de História no 7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade, quando no passado tinham três aulas. Para cada ano letivo há uma perda de cerca de 33 aulas, pelo que no conjunto do 3.º ciclo os alunos terão aproximadamente menos 100 aulas de História. A subalternização da História levou a que algumas escolas tivessem avançando com o experimentalismo de a transformar em disciplina semestral. Neste quadro, os professores de História poderão vir a ter 11 turmas para completar o seu horário de trabalho, tendo neste caso cerca de 300 alunos.

A desvalorização da História teve efeitos trágicos nas aprendizagens dos alunos. Com apenas duas aulas semanais não se consegue ter uma relação pedagógica profícua e dificulta o trabalho continuado para o desenvolvimento de capacidades e conhecimentos nos discentes. Passou a haver pouco tempo para a análise de fontes, textos, gráficos e mapas, para a elaboração de sínteses e para a promoção do pensamento crítico, entre outras capacidades que a História desenvolve nos alunos. A opinião pública desconhece esta situação, pois no 3.º ciclo do ensino básico não há exame de História, pelo que esta triste realidade fica confinada às paredes da escola.

O desinvestimento nesta área do saber tem o seu corolário no ensino secundário, onde nos últimos anos a disciplina de História A tem obtido alguns dos piores resultados nos exames nacionais, superando outras disciplinas tidas como grandes “papões”, como a Matemática ou a Física. Uma grande parte dos alunos que chega ao 10.º ano traz uma preparação muito deficiente ao nível da História e muitos deles ingressam no curso de Humanidades não por vocação, mas apenas como fuga à Matemática, à Física e à Química. O programa de História A do ensino secundário é exigente e inicia-se com o estudo da Grécia Antiga e termina no século XXI. Pressupõe que os alunos dominem a língua portuguesa e um conjunto de conhecimentos e capacidades de História que a maioria não possui. Por isso, muitos alunos do 10.º ano desistem, pois não conseguem acompanhar a exigência que lhes é pedida. Os restantes alunos que se mantêm na disciplina de História A até ao 12.º ano têm de realizar um intenso trabalho para recuperar os conhecimentos e capacidades que não puderam desenvolver nos anos anteriores. Para agravar este quadro negro, a reforma curricular do ensino secundário iniciada neste ano letivo retirou uma hora semanal à disciplina de História A, pelo que passou a haver menos tempo para trabalhar com os alunos.

A sociedade portuguesa tem de refletir e decidir se quer continuar a desinvestir na disciplina de História, pois a continuar por este trilho estaremos a formar certamente cidadãos acríticos e pouco informados sobre a História nacional e internacional.

Já foi professora de História…

8630307685_d88f3da4ac“Discutir o aluno do século XXI é pergunta para um milhão”, começou por dizer Cristina Oliveira, Delegada Regional de Educação do Centro, defendendo que “mais importante que saber a data da Batalha de Aljubarrota, é dar a conhecer aos nossos jovens os problemas do mundo”, bem como fomentar “os valores de cidadania, democracia, igualdade, liberdade e fraternidade”.

“Espero que todos sejamos capazes de olhar para os nossos alunos e conduzi-los para o século XXI, do qual já fazemos parte”, acrescentou.

Estudar História é saber de cor a data em que foram travadas umas quantas batalhas?

É possível apreender conceitos e valores importantes para os cidadãos “do século XXI” sem compreender o contexto histórico em que surgiram e se afirmaram?

É viável que uma escola pretenda formar melhores cidadãos ao mesmo tempo que corta nos tempos curriculares da História, da Geografia ou da Filosofia?

Quando uma delegada regional do ME com licenciatura, mestrado e doutoramento em História, que até foi professora da disciplina antes de trocar a docência por uma carreira no aparelho ministerial, se mostra capaz de responder afirmativamente a todas estas perguntas, percebe-se que a desvalorização da disciplina, e das humanidades em geral, é um dos pilares da actual política educativa. Por muito que “referenciais” e “perfis do aluno” digam o contrário…

E não se diga que são apenas ideias deste governo. Cristina Oliveira tem um passado político ligado ao PSD, partido pelo qual foi candidata, em 2013, à presidência da câmara de Oliveira do Hospital. Derrotada na luta autárquica, singrou na administração educativa. Onde fez a transição directa e bem sucedida do cratismo para o neo-eduquês do século XXI e mais além…

Um genocídio ocultado

genocidio.jpgUm novo livro, cuja leitura promete ser instrutiva e interessante, tenta iluminar um dos temas mais esquecidos da história do continente africano: durante mais de mil anos, traficantes árabes e muçulmanos praticaram um intenso comércio negreiro que ultrapassou, tanto em números absolutos como na crueldade dos actos praticados, o que veio a ser feito, séculos mais tarde, pelos europeus.

Não se trata aqui de encontrar negreiros bons ou maus. Trata-se, isso sim, de estudar e investigar a História na sua globalidade, procurando enquadrar e compreender os acontecimentos passados.

Há muito que se sabe que as práticas esclavagistas existiam na África Negra muito antes da chegada de povos de outros continentes. De facto, a privação da liberdade e o trabalho forçado tendem a aparecer em consequência da guerra, por um lado, e por outro do desenvolvimento da economia produtora, que requer força de trabalho nem sempre abundante. E assim como, no Ocidente, Gregos e Romanos escravizavam metodicamente os vencidos nos combates, também as guerras tribais no continente africano conduziam os prisioneiros à escravidão.

O que árabes muçulmanos, primeiro, e europeus cristãos, mais tarde, trouxeram foram fortes motivações económicas para ampliar a captura de escravos e o seu transporte para outros continentes. Mas, apesar da enorme mortalidade nos barcos negreiros que atravessavam o Atlântico, a verdade é que os descendentes dos escravos africanos constituem uma parte importante das actuais populações americanas. Já no mundo muçulmano que acolheu os escravos africanos, a escassa presença das etnias subsarianas é um sinal revelador daquilo que Tidiane N’Diaye não tem dúvidas em designar como um genocídio…

Como mostra a história, os árabes-muçulmanos estão na origem da calamidade que foi o tráfico e a escravatura, que praticaram do século VII ao século XX. E do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos, eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. A penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados “irmãos muçulmanos” e confiscaram os seu bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente.

Desde o início do comércio oriental de escravos que os muçulmanos árabes decidiram castrar os negros para evitar que se reproduzissem. Esses infelizes foram submetidos a terríveis situações para evitar que se integrassem e implantassem uma descendência nesta região do mundo. Sobre esse assunto, os comentários de uma rara brutalidade das Mil e Uma Noites testemunham o tratamento terrível que os árabes reservavam aos cativos africanos nas suas sociedades esclavagistas, cruéis e depreciativas particularmente para os negros. A castração total, a dos eunucos, era uma operação extremamente perigosa. Quando realizada em adultos, matou entre 75% e 80% dos que a ela foram sujeitos. A taxa de mortalidade só foi menor nas crianças que eram castradas de forma sistemática. Mas 30% a 40% das crianças não sobreviveram à castração total. Hoje, a grande maioria dos descendentes dos escravos africanos são na verdade mestiços, nascidos de mulheres deportadas para haréns. Apenas 20% são negros. Essa é a diferença com o comércio transatlântico.

Eu só falo de genocídio para descrever o comércio de escravos transaariano e oriental. O comércio transatlântico, praticado por ocidentais, não pode ser comparado ao genocídio. A vontade de exterminar um povo não foi provada. Porque um escravo, mesmo em condições extremamente más, tinha um valor de mercado para o dono que o desejava produtivo e com longevidade. Para 9 a 11 milhões de deportados durante essa época, existem hoje 70 milhões de descendentes. O comércio árabo-muçulmano de escravos deportou 17 milhões de pessoas que tiveram apenas 1 milhão de descendentes por causa da maciça castração praticada durante quase catorze séculos.